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Maricenne Costa é o tema de uma bela e essencial biografia

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Por Fabian Chacur

Na música Wild Life (Ritchie-Tom Zé), que gravou no seu seminal álbum Correntes Alternadas (1992), Maricenne Costa canta os versos “Não pago ingresso novo pro filme que eu já vi”. Uma belíssima definição para a atitude dessa brilhante cantora, compositora e atriz em sua vida e carreira. Essa trajetória é o tema de Maricenne Costa- A Cantora de Voz Colorida, de Elisabeth Sene-Costa e Laís Vitale de Castro, livro que será lançado em São Paulo nesta sexta (22) das 19 às 21h na Livraria da Vila- Shopping Pátio Higienópolis (avenida Higienópolis, nº 618/2009- Piso Pacaembu- fone (11) 3660-0230).

A ideia de realizar esta obra surgiu do desejo que Elisabeth tinha de homenagear a sua irmã, a quem admira profundamente. Com a parceria da jornalista Laís Vitale de Castro, impecável projeto gráfico a cargo de Wildi Celia Melhem (Celinha) e assessoria musical de Moisés Santana e Beto Previero, ela soube mergulhar nos momentos essenciais de uma carreira repleta de fatos importantes e realizações, e nos oferecer um resumo simplesmente impressionante, pelo rico material que contém.

Um dos pontos altos do livro fica por conta do vasto material que o ilustra, em termos de fotos e reprodução de matérias e documentos. Pois os fatos em torno de Maricenne são tão incríveis que algumas pessoas poderiam acreditar que seriam inventados, ou mesmo dignos de dúvidas. No entanto, a realidade é frequentemente muito mais impressionante do que a ficção.

E a vida da garota nascida na cidade de Cruzeiro (SP) é repleta de acontecimentos realmente impressionantes. Em 1958, por exemplo, ela, aos 22 anos de idade, venceu a 1ª edição do concurso A Voz de Ouro ABC, superando em torno de 3 mil concorrentes de todo o país. Foi uma espécie de precursor das atuais competições televisivas do tipo American Idol/Ídolos, e levou o nome de Maricenne para os quatro cantos do Brasil.

Outras cantoras teriam seguido caminhos mais tradicionais ou centrados nos interesses comerciais. Não Maricenne. Ela, a partir deste sucesso inicial, mostrou que não ficaria pagando ingresso novo pro filme que já havia visto, sempre em busca de novidades consistentes. Como ter sido, por exemplo, integrante do grupo de artistas que ajudou a criar e consolidar a bossa nova em São Paulo, como Cesar Camargo Mariano, Alaíde Costa e Théo de Barros.

É importante que esse livro seja lido. Vou ser mais geral na apresentação dessas vitórias da trajetória dessa personagem incrível. Entre outras coisas, foi a 1ª (em 1964!) a gravar uma música do então estudante Chico Buarque (Marcha Para Um Dia de Sol). Participou com destaque de alguns dos mais importantes festivais de música. Fez shows em Portugal e nos EUA, cantando, neste último, no badaladíssimo clube PJ’s, de Frank Sinatra.

Teve idas e vindas pelo caminho. Buscou a ampliação de seus conhecimentos, fazendo faculdade de serviço social e estudando arte dramática. Como atriz, participou de diversos projetos vanguardistas nos anos 1970. Quando voltou à música, recusou rever as glórias do passado, abrindo-se a criar shows inovadores e a revelar novos autores, sendo ela mesma uma compositora das mais elogiáveis.

Gravou pouco, é verdade, mas quem conhece essa obra vai concordar comigo: tudo o que gravou é essencial para quem gosta de música brasileira de qualidade. Teria sido fácil cantar bossa nova pra sempre em shows saudosistas, mas não se prestou a esse papel, gravando álbuns impressionantes pela sua diversidade e personalidade como Correntes Alternadas (1992) e Movimento Circular (2005), representantes de um pop nacional vibrante, ousado e absurdamente consistente.

Sempre trabalhadora e estudiosa, desenvolveu diversos projetos de shows e discos extremamente relevantes, entre os quais Como Tem Passado!!! (1999), no qual resgatou os primórdios da música gravada no Brasil com o apoio do historiador e jornalista José Ramos Tinhorão, e Bossa.SP (2010), no qual resgatou o lado bossa nova da São Paulo da Garoa.

Não, Maricenne não lotou estádios, não cantou no Rock in Rio, não participou de programas no horário nobre global, nem mesmo vendeu milhões de discos. No entanto, a consistência, a ousadia e a importância de seu trabalho musical deveriam tornar obrigatórias as visitas a essa obra por quem realmente quer conhecer o que temos de melhor por aqui. Servir como parâmetro, mesmo, para as novas gerações.

Ou quantos artistas podem se gabar de ter como admiradores João Gilberto (que apelidou a sua voz de colorida), Inocentes (que gravaram com ela em mais de uma ocasião), Judy Garland, Tony Bennett e Milton Nascimento, só para citar alguns? Maricenne reuniu em um mesmo álbum punk rock, blues, vaudeville, jazz, bossa nova, ska e valsa sem soar confusa ou sem rumo. Ela sempre soube dar consistência a essas misturas.

Se extremamente consistente em termos profissionais, ela nunca deu a si própria o devido valor, e chegou a contestar o esforço da irmã, dizendo que a sua carreira não merecia este livro. Meu Deus, quanta humildade! A carreira de Maricenne Costa não só merece este livro maravilhoso (e que venham outros!), como também um documentário, shows celebrando sua obra, mostras sobre essa trajetória, o relançamento de seus álbuns e singles etc.

Ela está aqui, entre nós. Que todos os fãs da música brasileira de qualidade possam dar a ela, nesse estágio de sua vida, o carinho, o acolhimento e, acima de tudo, o reconhecimento que ela merece. Maricenne Costa- A Cantora de Voz Colorida é leitura obrigatória e por demais prazerosa, especialmente se feita tendo como trilha sonora os discos desta ilustre cria de Cruzeiro e paulistana honorária.

MARICENNE COSTA- A CANTORA DA VOZ COLORIDA
DE Elisabeth Sene-Costa e Laís Vitale de Castro
Editora: Álbum de Família- contato: [email protected]
Preço: R$ 40,00 (edição preto e branco) e R$ 60,00 (edição colorida)
O lançamento em Cruzeiro (SP) será realizado no dia 6 de agosto (sábado) das 19 às 22h no Teatro Municipal Capitólio (rua Engenheiro Antonio Penido, nº 636- Centro- fone (12)-3144-1362

Wild Life (Tom Zé e Ritchie)- Maricenne Costa:

Claudya mostra seu novo álbum com um show no Blue Note SP

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Por Fabian Chacur

Como forma de celebrar 57 anos de uma carreira das mais dignas e elogiáveis, a cantora Claudya acaba de lançar o álbum A Nossa Bossa Sempre Jovem. O repertório parte de uma ideia simples, porém extremamente bem realizada: a releitura de clássicos da Jovem Guarda com arranjos em estilo Bossa Nova. Deu mais do que certo. Ela mostra esse trabalho e também dá uma geral em hits da sua carreira em show nesta quinta (7) às 20h em São Paulo no Blue Note SP (avenida Paulista, nº 2.073), com ingressos a R$ 90,00 (inteira) e R$ 45,00 (meia). Saiba mais detalhes aqui.

A escolha desse tema para o novo álbum faz todo o sentido do mundo se levarmos em conta que Jovem Guarda e Bossa Nova viveram o seu auge na década de 1960, mesmo período em que Claudya iniciou a sua carreira. Havia uma certa rivalidade entre essas duas vertentes musicais naquela época, mas hoje fica claro que ambas são muito válidas e marcantes. Uma não invalida a outra, obviamente. E o álbum desta grande cantora serve como prova de que temos, aqui, música da melhor qualidade.

Com belos arranjos a cargo do pianista e arranjador Alexandre Vianna, canções como Devolva-me, Ternura, O Caderninho e Nossa Canção ressurgem renovadas e encantadoras, com Claudya esbanjando categoria e nos oferecendo um desempenho vocal de uma classe absurda.

Nessas quase seis décadas de bons serviços prestados à nossa música, Claudya emplacou hits como Mais de 30 (de Marcos e Paulo Sérgio Valle), Deixa Eu Dizer (de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, relida com sucesso por Marcelo D2) e Jesus Cristo (de Roberto e Erasmo Carlos). Ela também brilhou em festivais no Brasil e no mundo e estrelando o musical Evita, além de gravar mais de 20 álbuns, como Entre Amigos (1994), com o seminal Zimbo Trio. Sua participação em 2021 no programa global The Voice+, no qual chegou à semifinal, lhe trouxe de volta à mídia.

Devolva-me– Claudya:

Elza Soares, 91 anos, aquela que nunca desistiu e foi vitoriosa

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Por Fabian Chacur

Sim, Elza Soares se foi. Não, Elza Soares nunca irá. Porque uma pessoa com a sua trajetória de vida permanecerá para sempre viva nas memórias de todos aqueles que se interessam pela história cultural desse país. Teoricamente, a cantora nos deixou nesta quinta-feira (20) aos 91 anos, exatos 39 após a partida do amor de sua vida, outro imortal, o craque Garrincha. Na prática, todo aquele que se quiser entender um pouco o que é esse tal de Brasil de uma forma ou de outra precisará passar pelas páginas dedicadas a esta guerreira maravilhosa.

Não vou dar muitos detalhes de carreira, pois isso você já leu, viu ou ouviu em algum lugar. Vamos de forma mais aleatória mesmo. Elza é um grande exemplo de quem ouviu uma tonelada de nãos desde o momento em que nasceu e nunca os levou a sério. Enfrentou-os, um a um. Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar, como diria o poeta Guilherme Arantes. E como aprendeu a jogar essa danada!

Diretamente do Planeta Fome, de onde afirmou que veio ao célebre Ary Barroso, ela conquistou o mundo com seu talento absurdo. Em entrevista que fiz com ela lá pelos idos de 1995 por telefone, ela me disse que seu cartão de crédito era a sua garganta, e estava plena de razão. Com essa voz incomum, que cantou samba como se fosse jazz desde sempre e miscigenou o tempo todo, incluindo até rock, música eletrônica, blues, funk e o que viesse. Mas sempre com muita emoção, swing e personalidade. Um cartão sem limites!

Elza Soares frequentemente teve de enfrentar o preconceito, o desrespeito até de seus entes mais próximos, e mesmo a eterna vontade de julgar as ações dos outros que o público se sente no direito de ter. Nunca fugiu da raia. Punha pra fora suas dores, mas sem perder a ternura jamais. E dar a volta por cima se mostrou a sua forma de viver. Pela lei das probabilidades, deveria ter ido embora muito antes, e sem conquistar um décimo do que conquistou. No entanto…

Felizmente, essa artista brilhante não teve o destino de outros nomes importantes da nossa cultura, e conseguiu receber o reconhecimento enquanto estava aqui, entre nós. Mereceu o respeito das mais diferentes faixas etárias, tendo hoje em sua base de fãs muitos jovens fascinados por sua energia inesgotável e eterna abertura ao novo. Elza Soares nunca teve medo de ser feliz, e de lutar bravamente contra a tristeza. E ela venceu. Elza pra sempre!

Milagres(clipe)- Elza Soares e Cazuza:

Lizzie Bravo, 70 anos, cantou com os Beatles e outros fenômenos

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Por Fabian Chacur

Pode uma garota brasileira de 15 anos de idade desembarcar sozinha em fevereiro de 1967 na efervescente Londres daqueles anos psicodélicos e em alguns meses se tornar uma verdadeira testemunha ocular de um dos momento mais importantes da carreira de ninguém menos do que os Beatles? Mais: participar de uma gravação dos Fab Four? Essa foi a cereja no bolo da trajetória de Lizzie Bravo, que, no entanto, fez muitas outras coisas relevantes, como ser musa de um grande clássico da nossa música. Ela infelizmente nos deixou nesta segunda (4) aos 70 anos, vítima de problemas cardíacos.

Elizabeth Villas Boas Bravo nasceu em 29 de maio de 1951, e foi uma das primeiras brasileiras a mergulhar de cabeça no som dos Beatles, ao ouvir o álbum Meet The Beatles (1964) que seu pai trouxe dos EUA. Nascia ali uma paixão pelo grupo e, em particular, por John Lennon. E a amiga Denise Werneck teve uma ideia, logo encampada por Lizzie (cujo apelido ela tirou da música Dizzy Miss Lizzy, clássico do rock de autoria de Larry Williams e regravada pelo grupo no seu álbum Help!, de 1965): pedir aos pais de presente uma viagem a Londres.

Lizzie desembarcou em Londres em fevereiro de 1967, e logo se tornou uma frequentadora da porta dos estúdios Abbey Road, onde os Beatles gravavam seus discos, e também da casa de alguns deles. Naquela época, especialmente em Londres, os astros do rock eram muito mais acessíveis do que se tornariam não muito tempo depois, e a adolescente carioca conseguiu aos poucos se tornar uma quase amiga de John, Paul, George e Ringo.

No seu excelente livro Do Rio a Abbey Road (2015), ela relata como foi esse período no qual, afora trabalhos para conseguir se manter melhor na capital inglesa, suas tarefas básicas eram se manter atualizada sobre os lançamentos e novos rumos do grupo e também conseguir autógrafos, fotos e algumas conversas com os músicos. Na base da simpatia e da paciência, foi absolutamente vitoriosa no seu intuito, como provam as belas fotos contidas no livro.

Vale registrar que, nesse período, os Beatles viviam uma fase particularmente iluminada de sua brilhante trajetória, gravando Sgt. Peppers, Magical Mystery Tour e Abbey Road e consolidando de uma vez por todas a sua presença no panteão da música popular.

Lizzie permaneceu em Londres em dois períodos: de fevereiro de 1967 a abril de 1968, e de outubro de 1968 a outubro de 1969. Por lá, fez amizades com outros fãs e tirou a sorte grande em 4 de fevereiro de 1968, um domingo, quando Paul McCartney perguntou às garotas que estavam próximas ao estúdio Abbey Road se alguma delas conseguiria sustentar notas agudas. A nossa conterrânea afirmou positivamente, e depois levou outra amiga, a inglesa Gayleen Pease, para auxiliá-la. Dessa forma, participaram da versão original de Across The Universe.

A belíssima canção, assinada por Lennon e McCartney mas na verdade de total autoria do primeiro, acabou deixada de lado como um possível single do grupo. Em dezembro de 1969, no entanto, foi lançada como parte da coletânea inglesa No One’s Gonna Change Our World- The Stars Sing For The World Wide Fund, ao lado de gravações de dez outros artistas de ponta, entre os quais Bee Gees, The Hollies e Cilla Black.

Across The Universe entrou no repertório do álbum Let It Be (1970), mas em uma versão alterada que retirou os vocais de Bravo e Pease. Rara durante uns bons anos, a única gravação dos Beatles a incluir alguém do Brasil só voltaria a ser acessível ao entrar no repertório das duas versões do álbum Rarities (1980) e no volume 2 da coletânea Past Masters (1988).

Nem é preciso dizer que essa gravação tornou Lizzie Bravo uma figura sempre relembrada pelos fãs-clubes dos Beatles nas décadas seguintes, algo que se ampliou ainda mais com o advento da internet. Posteriormente, ela teve a oportunidade de rever Paul McCartney (em uma entrevista coletiva, em 1990, na qual o ex-beatle a reconheceu), George Harrison e Ringo Starr. Lennon, o seu favorito, infelizmente nos deixou antes de que ela pudesse reencontrá-lo.

Para quem acha que a história de Elizabeth parou por aqui, recupere o fôlego, pois vem mais coisas boas por aí. Em 1970, ao voltar ao Brasil, conheceu o cantor, compositor e músico Zé Rodrix, com o qual foi casada por dois anos. Em parceria com Tavito, ele compôs, inspirado nela, o clássico da MPB Casa no Campo, cuja gravação definitiva é a de Elis Regina. Em sua letra, a música fala de uma “esperança de óculos” (Lizzie) e o sonho de ter um “filho de cuca legal”, que veio na forma de Marya, nascida em outubro de 1971 e hoje cantora e atriz.

No decorrer de sua trajetória profissional, Lizzie foi vocalista de apoio de artistas do gabarito de Milton Nascimento, Joyce Moreno, Zé Ramalho, Ivan Lins, Djavan, Egberto Gismonti, Toninho Horta e Geraldo Azevedo, entre outros, participando de discos e shows deles. Também atuou como fotógrafa para artistas e gravadoras, e morou em Nova York de 1984 a 1994, atuando na área cultural.

O projeto de seu livro teve início em 1980, mas foi interrompido devido à trágica morte de John Lennon. Ela o retomou em 1984, novamente sem o levar adiante. Só em 2015 essa belíssima obra se concretizou, com uma tiragem inicial que se esgotou em 2017 (comprei um dos últimos exemplares, em julho de 2017. Ela preparava uma nova fornada de livros, assim como uma edição em inglês, que provavelmente serão viabilizadas por Marya.

Across The Universe (original version)- The Beatles:

Maria Bethânia: documentário Fevereiros é lançado em DVD

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Por Fabian Chacur

Em 2016, a Mangueira homenageou Maria Bethânia em seu desfile no sambódromo carioca, e conseguiu ser campeão do mais importante e badalado desfile carnavalesco do mundo. O documentário Fevereiros, dirigido por Márcio Debellian, teve como intuito não só registrar esse momento mágico na trajetória da cantora baiana, como também mergulhar em alguns aspectos fundamentais de sua vida e obra. Lançado em janeiro de 2019 nos cinemas, o filme agora chega às plataformas digitais e, ainda melhor, sai em DVD físico via Biscoito Fino.

Exibido em festivais de cinema em países como Canadá, França, Rússia, Suíça, Espanha, Itália, Chile, Uruguai, Congo e Senegal, Fevereiros detalha todo o processo de criação e realização do desfile de 2016, desde sua criação até a apoteótica vitória. Como o enredo enfatizou o ambiente familiar e religioso que envolve a vida da estrela baiana, o diretor optou por buscar flagrantes que representassem bem esse viés de sua trajetória.

As gravações se dividiram entre o Rio de Janeiro e a cidade natal da cantora, Santo Amaro da Purificação, e contam com depoimentos do irmão Caetano Veloso, Chico Buarque, o importante pesquisador Luis Paulo Simas, o carnavalesco da Mangueira Leandro Vieira e outros. Temas como o surgimento do samba, tolerância religiosa e racismo permeiam toda essa produção, feita pela Debê Produções em parceria com GloboFilmes, GloboNews e Canal Brasil.

Veja o trailer de Fevereiros:

Vanusa, 73 anos, a cantora talentosa de personalidade forte

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Por Fabian Chacur

No início dos anos 2000, estava em uma loja de CDs e vi, em um balcão de ofertas, a coletânea Grandes Sucessos, de Vanusa, lançada em 1998 pela gravadora BMG. Quando peguei o disco em minhas mãos e conferi o repertório, lembrei-me de que não tinha um único álbum dela em minha coleção, mesmo amando a sua voz. Nem é preciso dizer que comprei rapidamente esta compilação. Acho que isso ilustra como as polêmicas em torno dela ofuscaram o que ela teve de maior, que era o talento como cantora e compositora. Ela infelizmente nos deixou neste domingo (8), aos 73 anos.

Vanusa Flores Santos nasceu em Cruzeiro (SP) em 22 de setembro de 1947, e foi criada em Uberaba (MG). Sua carreira como cantora teve início com o apoio de Eduardo Araújo e Carlos Imperial, não por acaso os autores do primeiro sucesso da moça, a deliciosa Pra Nunca Mais Chorar, lançada em 1967, nos estertores da Jovem Guarda. Embora tenha tido outros hits pouco depois, o melhor mesmo viria nos anos 1970.

O auge de Vanusa teve o pontapé inicial em 1973 com o sucesso da maravilhosa Manhãs de Setembro, composição dela em parceria com o músico e produtor musical Mario Campanha, o eterno produtor das Irmãs Galvão. Em 1975, fez a gravação definitiva de Paralelas, de Belchior, estouro ao ser incluída na trilha sonora da novela global Duas Vidas.

Com uma voz potente e muito bem colocada, ela logo emplacou outras canções nas paradas de sucesso, como Amigos Novos e Antigos (João Bosco e Aldir Blanc, da trilha de Anjo Mau) e Estado de Fotografia (Malim e Sérgio Sá, da trilha de O Astro), além de uma gravação irresistível de Congênito, de Luiz Melodia. Ela até estrelou uma novela, Cinderela 77, tendo Ronnie Von como o seu par romântico.

Mulher de personalidade forte e de opiniões diretas e sem rodeios, Vanusa foi casada com dois nomes importantes da cena cultural brasileira, o cantor e compositor Antônio Marcos, nos anos 1970, e o diretor e ator Augusto César Vannucci. Curiosamente, ambos morreram no mesmo ano, 1992, e ela nos deixa no exato dia em que seria comemorado o 75º aniversário de Antônio Marcos. E Vanucci nos deixou também no mês de novembro, no dia 30.

A partir dos anos 1980, a artista infelizmente deu uma bela sumida das paradas de sucesso, voltando à mídia apenas por entrevistas apimentadas e problemas particulares. A coisa piorou muito a partir de 2009, quando ela se enrolou toda ao interpretar o Hino Nacional Brasileiro durante uma cerimônia na Assembleia Legislativa de São Paulo. Em plena era da internet, o vídeo com o registro desse momento triste viralizou, e as pessoas e a imprensa exploraram esse momento infeliz da cantora de forma cruel.

A única notícia positiva e ligada à música nesses últimos 11 anos ocorreu em 2015, quando a cantora, com o apoio de Zeca Baleiro, lançou o que viria a ser seu último álbum de estúdio, Vanusa Flores Santos. Nos últimos dois anos, Vanusa morou em uma casa de repouso em Santos, e foi vítima de problemas respiratórios. Ela deixa os filhos Amanda, Aretha e Rafael.

Paralelas- Vanusa:

Elza Soares e Flávio Renegado em Negão Negra, vigorosa parceria

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Por Fabian Chacur

Aos 90 anos de idade, completados no último dia 23 de junho, Elza Soares se mostra mais ativa do que nunca. Após a ótima repercussão por parte de público e crítica de seu álbum mais recente, Planeta Fome (2019), essa verdadeira diva da música brasileira vêm lançando novos singles. Este ano, tivemos Juízo Final (Elcio Soares e Nelson Cavaquinho) e Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro), belas releituras de clássicos da nossa música. Agora, é a vez de uma canção inédita.

Tratas-se de Negão Negra, composta pelo hitmaker Gabriel Moura em parceria com o incrível rapper mineiro Flávio Renegado. E coube ao segundo a honra de gravar a canção em parceria com Elza:

“Essa música é um presente do início ao fim. Tanto por compor ao lado desse gigante chamado Gabriel Moura quanto pelo prazer indescritível de fazer um dueto com a Voz do Milênio. Elza é a síntese de tudo pelo o que luto e acredito; uma mulher preta que sempre lutou e nunca se deixou calar e conseguiu chegar lá. Essa música é o meu hino, uma prece, uma conexão direta com meus irmãos e os nossos ancestrais”, comentou Renegado.

O clipe, dirigido por Pablo Gomide, mescla registros das gravações da música com cenas que ilustram o tema anti-racista da canção, tornando-a um forte libelo positivo e de quebra de paradigmas negativos.

“Estamos atravessando um momento chato, mas lutamos contra esse horror do preconceito racial. Para isso canto uma música que fala lindo de nossa Mãe África, uma mamãe preta. O Flávio Renegado é bom demais e pedimos atenção à letra da música: uma letra que deixo ‘modernona’ ao meu jeito”, diz Elza.

Veja o clipe de Negão Negra, com Elza Soares e Flávio Renegado:

Elizeth Cardoso tem centenário celebrado com material digital

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Por Fabian Chacur

Nesta quinta-feira (16), completa-se o centenário do nascimento de Elizeth Cardoso (1920-1990), uma das cantoras mais importantes e emblemáticas da história da nossa música popular. Como forma de celebrar essa efeméride das mais significativas, a Universal Music disponibiliza nas plataformas digitais de uma só vez 18 álbuns de carreira, 7 coletâneas e 1 EP com quatro faixas. De quebra, ainda temos três playlists temáticas criadas para a ocasião.

O material abrange um período situado entre 1956 e 1978, durante o qual a cantora carioca integrava o elenco da hoje extinta gravadora Copacabana, cujo acervo atualmente integra o arquivo da Universal Music. Foram anos em que ela se firmou de vez no cenário musical brasileiro, fazendo por merecer o apelido Divina, ganho graças à sua capacidade incrível de interpretar canções de vários estilos com muita paixão, técnica e personalidade.

Este pacote é acrescido a outros 14 álbuns e 5 coletâneas que a Universal Music já havia distribuído no cenário digital. Infelizmente, nenhum desses relançamentos está previsto para merecer o formato físico, privando assim quem gosta de ouvir música desse modo de ter tal opção. Uma pena.

Eis os álbuns disponibilizados, com algumas de suas faixas:

Fim de Noite (1958) – regravações de Negro telefone, Culpe-me, Segredo, Último desejo, Feitio de oração, Prece ao vento e No rancho fundo.

Naturalmente (1958) – É luxo só, Jogada pelo mundo e Na cadência do samba.

Magnífica (1959) – Cidade do interior, Velhos tempos e Aula de matemática.

A Meiga Elizeth Nº2 (1962) – Deixa andar, Tudo é magnífico e Moeda quebrada.

A Meiga Elizeth Nº4 (1963) – Balada da solidão e Nosso cantinho.

A Meiga Elizeth Nº5 (1964) – Canção que nasceu do amor e Diz que fui por aí.

400 anos de Samba (1965) – O meu pecado.

Elizeth Sobe o Morro (1965) – A flor e o espinho, Luz negra, Malvadeza Durão, Folhas no ar, Minhas madrugadas e Sim.

A Bossa Eterna de Elizeth e Cyro (1966) – Tem que rebolar (com Cyro Monteiro).

Muito Elizeth (1966) – Mundo melhor, Lamento, Cidade vazia, Sem mais adeus, Meiga presença e Apelo.

A Enluarada Elizeth (1967) – Melodia sentimental, Meu consolo é você, Carinhoso, Demais e Seleção de sambas da Mangueira.

Viva o Samba – Elizeth Cardoso, Francineth, Cyro Monteiro, Roberto Silva (1967) – Meu drama (Senhora tentação).

A Bossa Eterna de Elizeth e Cyro Nº2 (1969) – Louco e Sei lá, Mangueira.

Falou e Disse (1970) – Corrente de aço, É de lei, Refém da solidão, Aviso aos navegantes, Foi um rio que passou em minha vida e A flor de laranjeira.

Feito em Casa (1974) – Água de sereno e Peso dos anos.

Elizeth Cardoso (1976) – Minha verdade, Entenda a rosa e De partida.

Live in Japan (1977) – Barracão, Naquela mesa, Apelo, É luxo só, Manhã de carnaval, A noite do meu bem e Última forma.

A Cantadeira do Amor (1978) – Deixa, Até pensei, Velho arvoredo e Acontece.

Elizeth Cardoso (EP com 4 faixas raras) – Trinta e um de dezembro, Chuvas de verão e Quarto vazio” (as três de 1957), além de Balão apagado, de 1961.

As coletâneas são: Super Divas (2012), Bis – Cantores do Rádio (2000), Disco de Ouro – Vol. 2 (1979), Elizeth Cardoso – Vols. 1, 2 e 3 (lançados entre 1971 e 72); A Exclusiva (1970), além de três playlists temáticas: Elizeth Cardoso com o Samba no Pé, Elizeth Cardoso Muito Romântica e Elizeth Cardoso Revive Clássicos da Música Brasileira.

Sei Lá, Mangueira– Elizeth Cardoso:

Sylvia Patricia mescla Brasil e latinidade no seu belo EP Piel

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Por Fabian Chacur

Há exatos 30 anos, Sylvia Patricia lançou um disco autointitulado pela gravadora Sony Music. A partir dali, esta cantora, compositora e instrumentista baiana desenvolveu uma carreira impecável, com direito a discos de estúdio deliciosos, um DVD ao vivo retrospectivo de primeira linha e shows sempre encantadores. Como forma de celebrar essas três décadas de muita qualidade e coerência artística, ela nos oferece o EP Piel (Speciarias Musicais), outra delícia auditiva.

Quem acompanha Mondo Pop há mais tempo sabe que tenho um carinho todo especial pela obra de Sylvia Patricia (leia mais matérias sobre a artista aqui). E não é para menos. Ouvir sua voz calorosa e doce vicia, aquele tipo de vício que não tem contra-indicação. Afinal, nada melhor do que prazer auditivo intenso.

Piel (pele, em castelhano) é uma espécie de cartão de visitas do lado mais latino da sonoridade de Sylvia. Temos aqui seis faixas. Besame Mucho, grande clássico da música latina escrito pela compositora mexicana Consuelo Velásquez nos anos 1940 e regravada até, pasmem, pelos Beatles, aparece em duas releituras no melhor estilo bossa nova, uma com letra em português e outra com alguns versos em catalão escritos pelo músico dessa origem Daniel Cros.

Un Beso, de Sylvia em parceria com Paulo Rafael, também é oferecida em duas gravações diferentes, ambas em castelhano. Uma é a versão original, lançada originalmente no álbum No Rádio da Minha Cabeça (2006), e a outra se trata de um remix feito pelo baiano DJ Titoxossi. Ambas são calientes e com uma levada bem espanhola, bem flamenca.

Lançada originalmente em 2014 em outro EP, De Vuelta (Sylvia Patricia-Cecelo Froni) reaparece agora em uma versão denominada Rio-Barcelona Mix.

A faixa mais interessante é Resistiré (Carlos Toro e Manuel de La Calva), da trilha sonora do filme Ata-me (1989), de Pedro Almodóvar. Sylvia já a havia regravado em seu álbum Andante (2010), mas nesta nova versão ele teve uma bela sacada: acrescentou trechos do clássico disco I Will Survive (Dino Fekaris-Freddie Perren), estouro mundial em 1979 na voz da americana Gloria Gaynor. Como as músicas tem boas semelhanças entre si, ficou um mix dos mais encantadores.

Este novo EP funciona como um delicioso aperitivo para quem estava sedento por novas gravações de Sylvia Patricia, e também pode ser um bom cartão de apresentação ou porta de entrada para novos fãs.

Resistiré– Sylvia Patricia:

Zelia Duncan volta ao folk pop com delicadeza e clima positivo

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Por Fabian Chacur

Se há alguém que pode ser definida como “artista dos mil projetos”, ela atende por Zelia Duncan. Além de participar de discos e shows de nomes dos mais variados segmentos, ela também mergulha em obras com os mais diferentes enfoques. Até dos Mutantes ela já foi integrante! Dessa forma, esta cantora, compositora e musicista de 54 anos oriunda de Niterói (RJ) ficou dez anos sem lançar um trabalho autoral voltado à sonoridade que a tornou conhecida nacionalmente, o folk-pop-MPB, digamos assim. Esse hiato acaba agora com o lançamento de Tudo É Um (Duncan Discos-Biscoito Fino), um belo momento do tipo “volta às raízes”.

O principal marco do álbum é o retorno do principal parceiro de Zelia nesse praia, Christiaan Oyens, que aqui se incumbe da produção, alguns instrumentos musicais e parceria nas músicas Canção de Amigo e Olhos Perfeitos. Aliás, o que não falta nesse álbum é parceiro. Zeca Baleiro, por exemplo, é coautor de Me Faz Uma Surpresa e Medusa. Dani Black assina com ela Só Pra Lembrar. Moska é o parceiro em Feliz Caminhar, enquanto a faixa que dá nome ao CD foi escrita a quatro mãos com Chico Cesar.

Fred Martins escreveu com a cantora Sempre os Mesmos Erros, e Dimitri é o “parça” de Breve Canção de Sonho, única não inédita do disco, gravada originalmente em 2012 para a trilha da novela global Cheias de Charme e aqui em nova versão. Eu Vou Seguir é só dela, e O Que Mereço equivale à única canção do álbum não escrita pela artista, escrita por Juliano Holanda.

Como um todo, o álbum esbanja delicadeza, afeto e positividade, com os violões sendo o alicerce de toda a sonoridade, mas aliados a arranjos que em alguns momentos incorporam cordas e metais com precisão cirúrgica. Tipo do disco que pode soar superficial e até meio repetitivo em um primeiro contato, mas que cresce muito em novas audições, nas quais as sutilezas são melhor captadas e mostram o quanto este Tudo É Um é bom. Bem-vinda ao lar, Zelia Duncan!

O Que Mereço (clipe)- Zelia Duncan:

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