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Risqué (1979), o álbum que marca o auge do Chic de Nile Rodgers

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Por Fabian Chacur

Em 1979, a disco music era a galinha dos ovos de ouro da indústria fonográfica. O gênero musical que surgiu e se desenvolveu durante a década de 1970 atingiu o auge de sua popularidade após o estouro de Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever-1977). O filme estrelado por John Travolta e com trilha sonora encabeçada pelos Bee Gees rapidamente se tornou um fenômeno cultural e comercial. Todos queriam faturar em cima daquele modismo contagiante e inovador.

O resultado foi uma verdadeira overdose de lançamentos dedicados ao gênero a partir daquele momento, com uma significativa aparição de oportunistas tentando surfar naquela onda que gerava milhões de dólares.

Isso acabou levando muita gente a confundir esses picaretas aproveitadores com os artistas de verdade que estavam desenvolvendo trabalhos incríveis dentro desse conceito de música criado para proporcionar diversão, alegria e te fazer dançar até não poder mais. Abra suas asas, solte suas feras…

Se por um lado essa saturação atingiu o seu auge naquele ano, do outro tínhamos uma legião de ressentidos, boa parte deles roqueiros brancos que não conseguiam aceitar que aquele amontoado de negros, gays e pobres tomasse conta dos holofotes, afastando das paradas de sucessos os seus ídolos.

Roqueiros ressentidos reagem da pior forma possível

Era preciso dar um basta naquilo, pensavam (?) esses acéfalos. E, como costumeiramente ocorre nesse tipo de situação, alguém surge com uma ideia que, posta em prática, vira o estopim de uma reação ignorante e violenta.

O DJ, roqueiro e humorista americano Steve Dahl foi demitido da rádio na qual trabalhava, em Chicago, pela mudança de direcionamento musical da emissora, que largou o rock para mergulhar na disco music. A partir dali, Dahl se tornou uma espécie de “inimigo nº 1” do gênero.

E foi dessa cabeça oca que surgiu a “brilhante” ideia de promover a destruição pública de LPs e compactos dos artistas disco. O auge desse projeto do mal teve como palco o estádio Comiskey Park, em Chicago, no intervalo de uma partida de baseball entre o Chicago White Socks e o Detroit Tigers.

Um marco de ignorância e intolerância

O evento, intitulado Disco Demolition Day, ocorreu no dia 12 de julho de 1979, que merece constar nos calendários como um dos acontecimentos mais vergonhosos da história da cultura pop de todos os tempos.

Em determinado momento da “festa”, um engradado lotado de discos foi explodido, gerando um grande tumulto e ganhando manchetes em toda a imprensa. “Disco Sucks” (disco music é uma merda, em tradução livre) era o slogan que esses imbecis usavam, em camisetas e bottoms.

O objetivo dessa horda de homofóbicos e racistas não foi atingido logo de imediato, mas a Disco Demolition Day conseguiu alastrar nos meses seguintes um sentimento de medo entre as pessoas, e em especial nas gravadoras.

Em sua excelente autobiografia Le Freak (2011), Nile Rodgers, o líder da banda Chic relembra uma festa da qual participou algum tempo após essa cerimônia de ódio, promovida pela revista Cash Box, na qual um espaço com pista de dança dedicado à disco music permaneceu vazio durante toda a noite.

Aos poucos, ninguém queria ser associado à disco music. Ser considerado um artista disco era quase uma maldição. E todos os artistas ligados ao gênero passaram a ser postos de lado. Entre eles, Nile e sua seminal banda.

Sucesso que nem o preconceito conseguiu derrubar

Foi nesse contexto tumultuado, no dia 30 de julho de 1979, 18 dias após o show de horrores promovido por Dhal e seus idiotas, que Risqué, o terceiro álbum do Chic, chegou às lojas de discos.

Esse trabalho tinha a dura missão de suceder o esplêndido C’Est Chic (1978), que emplacou os megahits Le Freak e I Want Your Love e tornou a banda americana um grandioso sucesso nos quatro cantos do planeta, Brasil incluso (eles fizeram shows por aqui, na época).

A primeira faixa a ser extraída do disco (no formato single) não poderia ter sido melhor escolhida. Good Times reeditou a performance de Le Freak, atingindo o primeiro lugar na parada de singles americanas no dia 18 de agosto daquele ano.

Com uma levada hipnótica e um refrão matador, Good Times traz como marca registrada no seu “miolo” uma extensa parte instrumental na qual a linha de baixo comanda, com espaços para elegantes solos de teclados e guitarra.

A letra se baseia em hits dos tempos da Depressão Americana (anos 1920-1930) e busca estimular um astral positivo em um momento no qual a economia americana passava novamente por sérios problemas.

Em circunstâncias normais, Good Times deveria ter se mantido mais do que apenas uma semana no topo da parada americana, mas a mudança de orientação das rádios, que aos poucos foram tocando cada vez menos músicas associadas à disco music em suas programações, impediu que esse clássico fosse ainda mais longe. Ainda assim, virou um hit explosivo.

Disco music, sim, mas do seu jeito

O embrião do Chic surgiu quando o guitarrista Nile Rodgers tornou-se parceiro musical do baixista Bernard Edwards. Com a entrada no time do baterista Tony Thompson, eles ganharam entrosamento acompanhando outros artistas, até que, na metade dos anos 1970, resolveram investir em material próprio.

Influenciados pela disco music, eles no entanto criaram uma sonoridade própria, com forte tempero de rhythm and blues, funk, jazz e até rock que os colocam à parte dos grupos disco mais emblemáticos, do tipo Village People, Silver Convention e Boney M.

O Chic tinha um DNA mais próximo de bandas funk como Con Funk Shun, Commodores e Kool & The Gang, mas foi inserido no universo disco, o que lhes valeu muito de 1977 (quando lançaram o álbum de estreia, Chic) a 1979, e depois se tornou um fardo duro de carregar devido ao fator preconceito.

Capa com visual anos 1920-30

Risqué marca o momento em que o Chic atingiu o seu auge em termos criativos. A coisa começa bem logo na capa, contracapa e encarte, que traz fotos com os cinco integrantes do grupo vestindo elegantes trajes típicos dos anos 1920-1930. O clima é de filme de mistério, com direito a Bernard Edwards caído nas teclas do piano, com uma faca nas costas.

Tony Thompson posa de mordomo (seria ele o culpado do crime?), com Nile dando uma de cafetão e as vocalistas Lucy Martin e Alfa Anderson no melhor estilo garotas de programa. A locação é uma sala estilosa com móveis idem, tendo como centro um piano de cauda.

O jeitão da apresentação visual do LP lembra o de In Throught The Out Door, do Led Zeppelin, que curiosamente foi lançado pela mesma Atlantic Records no dia 15 de fevereiro, ou seja, duas semanas após Risqué. Baita coincidência, mas cada uma dessas capas tem seus aspectos peculiares, não denotando um plágio.

Um álbum bom de ponta a ponta

Como normalmente as faixas de disco music e funk costumavam ser mais longas, era comum um número menor de canções do que em discos de rock e pop. No caso de Risqué, temos sete músicas. Mas é o típico caso de conteúdo na medida, nem a mais, nem a menos. E a duração estendida mostra a criatividade dos músicos no intuito de criarem uma sonoridade repleta de grooves, hipnótica e de uma sofisticação sintética e repleta de bom gosto.

Após a abertura matadora com Good Times, temos a seguir A Warm Summer Night, uma espécie de balada sensual que pode ser considerada a Je T’Aime Moi Non Plus do Chic. Para quem não lembra, essa música gravada em 1969 por seu autor, Serge Gainsbourg, em parceria com a cantora Jane Birkin, tornou-se um marco do som erótico-sensual.

No caso da canção de Edwards-Rodgers, a letra concisa, com os versos “te quiero papi” praticamente gemidos pelas cantoras, leva ao clima ideal para transar.

Homenagem aos dançarinos profissionais com solo inusitado

My Feet Keep Dancing tem como marca o arranjo de cordas com stacatto, o que dá uma ênfase rítmica bem peculiar e envolvente. A letra da canção fala sobre alguém que resolve mergulhar no mundo da dança mesmo sem o apoio dos parentes, que o ironizavam dizendo que “seu cérebro está em seus pés”.

A grande sacada, genial mesmo, do arranjo de My Feet Keep Dancing fica por conta de termos nela um solo não de guitarra, teclados ou outro instrumento musical, mas de sapateado! Sim, e feito por três craques dessa área, Mr. Fayard Nicholas (do grupo The Nicholas Bros.), Mr. Eugene Jackson (do grupo Our Gang) e Mr. Sammy Warren.

As idas e vindas do amor

A eterna questão do amor proibido dá o tom a My Forbidden Lover, inspirada naquelas paixões que a gente sabe serem inadequadas, mas das quais não conseguimos nos livrar, com versos bem definidores como “minha paixão proibida, eu não quero outra”. Em um mundo perfeito, esta faixa e My Feet Keep Dancing teriam sido hit singles de muito sucesso.

As dificuldades de um relacionamento afetivo, no qual a sinceridade nem sempre se faz presente, é o tema de Can’t Stand To Love You, provavelmente o momento mais jazzístico de Risqué.

Nada mais duro do que ser dispensado pela pessoa que você ama, e este é o tema da balada do álbum, Will You Cry (When You Hear This Song), na qual a cantora Alfa Anderson dá uma comovente aula de interpretação.

O disco é encerrado por What About Me, na qual a garota questiona o namorado, que conseguiu o que queria, mas e ela? Como é que fica? “Eu te dei o meu amor, você não vê?” Isso, tendo como fundo sonoro uma canção swingada na qual a guitarra base se destaca. Final perfeito para um álbum perfeito.

A ótica feminina nas letras

Existe um aspecto muito interessante nas composições do Chic, que fica por conta da qualidade das letras. Neste álbum em questão, temos uma quantidade significativa de incursões em temas vinculados aos relacionamentos.

Ao contrário do que poderia se esperar, o fato de as faixas serem assinadas por dois homens não deram um viés machista ou muito masculinizada ao tema. Pelo contrário, o ponto de vista das mulheres é defendido e mostra a crueldade masculina em diversos momentos.

Difícil algum homem ou mulher de bom senso não concordar ou não se identificar com alguns dos personagens das sete composições contidas em Risqué, cujo título tem muito a ver com os riscos que corremos sempre que nos envolvemos afetivamente com alguém.

The Chic Organization Ltd

Para todos os efeitos, a formação clássica e oficial do Chic trazia Nile Rodgers (guitarra e composições), Bernard Edwards (baixo e vocais), Tony Thompson (bateria) e as cantoras Alfa Anderson e Lucy Martin. Nos discos, no entanto, o time aumentava, justificando plenamente o nome The Chic Organization com que Nile e Bernard assinavam as suas produções para a banda ou outros artistas.

Neste Risqué, temos nos teclados Raymond Jones, Robert Sabino e Andy Schwartz. Na percussão, Sammy Figueroa. Nos vocxais, Alfa e Luci tem o auxílio luxuoso de Fonzi Thornton, Michelle Cobbs e Ullanda McCullough. E, de quebra uma sessão de instrumentos de cordas, a The Chic Strings, regida por Gene Orloff e incluindo Karen Milne, Cheryl Hong, Karen Karlsrud e Valerie Haywood.

Todos esses músicos foram utilizados estritamente em função das necessidades de cada canção, sem espaço para virtuosismos tolos ou exageros arrogantes. Mesmo as incríveis linhas de baixo criadas por Bernard Edwards nunca atropelam as faixas nas quais estão inseridas, reforçando o groove e envolvendo os ouvintes. Tudo muito chique mesmo!

Good Times, influente e inspiradora

Se não bastasse o sucesso que conseguiu no formato single e como principal faixa de Risqué, Good Times ainda se transformou em uma das músicas mais influentes e inspiradoras de todos os tempos.

O primeiro grande hit da história do rap, por exemplo, Rapper’s Delight, da Sugarhill Gang, valeu-se da passagem instrumental e da linha de baixo de Good Times. A partir de um determinado momento de sua carreira, o Chic passou a inserir no meio de Good Times um extenso trecho de Rapper’s Delight, que você pode encontrar em DVDs ao vivo da banda.

No mesmo 1980, Bounce Rock Skate Roll, de Vaughan Mason And Crew, e Another One Bites The Dust, do Queen, esbanjavam influências de Good Times, assim como Rapture, do Blondie, esta última uma clara homenagem ao Chic. Não por acaso, Debbie Harry gravou um disco solo, Koo-Koo (1981), com produção e composições de Nile Rodgers.

The Adventures of Grandmaster Flash on the Wheels of Steel, hit em 1981 com outro grupo pioneiro e importante do rap americano, Grandmaster Flash And The Furious Five, foi ainda além, acrescentando nessa sua composição trechos de Good Times, Another One Bites The Dust, Rapture e Rapper’s Delight.

E a lista vai muito mais longe. Só para citar mais três músicas influenciadas por Good Times, temos Try It Out (1981), de Gino Soccio, Hot! Hot! Hot! (1987), do The Cure, e 2345meia78, do brasileiro Gabriel o Pensador.

Alguma dúvida de que se trata de um álbum clássico?

No fim das contas, apesar de todo o contexto negativo no qual foi lançado, Risqué conseguiu atingir o 5º posto na parada americana, vendendo mais de um milhão de cópias por lá e estourando mundialmente. Missão cumprida!

Chega a ser uma vergonha este álbum não ter sido incluído na série de documentários da série Classic Albums, que contam a história de discos importantes da história do rock, soul e música pop. Ainda dá tempo…

Risqué- Chic (ouça na íntegra em streaming):

I Am (1979) marca o auge da incrível banda Earth, Wind & Fire

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Por Fabian Chacur

Muito difícil escolher o melhor álbum lançado pelo Earth, Wind & Fire. Durante sua trajetória, a banda criada pelo genial cantor, compositor, músico e produtor americano Maurice White nos proporcionou diversos trabalhos de primeiríssima linha, especialmente durante a década de 1970, seu auge em termos criativos e comerciais. Mas dá para selecionar, sem sustos, o LP que marca o auge deles, aquele momento em que viraram praticamente uma unanimidade perante os mais diversos públicos. Estou falando de I Am, lançado em 1979, quando os caras tomaram a cena pop de assalto, de uma vez por todas.

Até aquele momento de sua carreira, o grupo já havia conseguido grandes feitos, como atingir o topo das paradas americanas de álbuns e singles, lotar ginásios pelos EUA e outros países com seu show repleto de efeitos especiais e produção sofisticada e também conquistar fãs fora do universo da black music.

O mais importante, obviamente, é a qualidade artística da música que lhes possibilitou tais conquistas, uma brilhante fusão de soul, funk, rock, jazz e músicas africana e latina. Faltava apenas a cereja do bolo, ou seja, ganhar o público mainstream, entrando no primeiro escalão da popularidade mundial.

Inquieto e inteligente, Maurice White sempre buscou parcerias com gente de fora da banda, como forma de somar forças e também levar adiante sua intenção de criar um som universal e ao mesmo tempo criativo e popular.

Em I Am, essa busca o impulsionou a iniciar um trabalho ao lado do compositor, músico e produtor canadense David Foster, que até aquele momento já havia gravado com e produzido artistas do porte de George Harrison, Daryl Hall & John Oates e outros. Fã da banda, ele conheceu Maurice através de uma amiga em comum, e logo de cara mostrou a ele uma balada que havia composto ao lado dos amigos músicos Jay Graydon e Bill Champlin.

Maurice não só adorou a tal balada, nada menos do que After The Love Has Gone, como perguntou a Foster se ele não estava interessado em tentar compor alguma coisa a seu lado. Foster aceitou, e as jam sessions entre eles geraram seis das nove faixas incluídas em I Am. Com boas influências da black music, Foster trouxe para o grupo elementos da música pop que ajudaram a banda a se aproximar do mainstream radiofônico.

Aliás, as duas faixas que conseguiram concretizar esse feito são de certa forma opostas, e ambas agradaram em cheio importantes setores do grande público da época. Uma é a já citada After The Love Has Gone, que chegou ao número 2 da parada de singles da Billboard e pegou em cheio os fissurados por canções românticas, nostálgicas e de apelo fortemente melódico.

A outra mirou os fãs da então extremamente popular disco music. Trata-se de Boogie Wonderland, única música do disco não assinada por White (composição de Joe Lind e Allee Willis) e a única faixa escancaradamente do gênero gravada pela banda, e que estourou com força total nas discotecas de todo o mundo e de quebra atingiu o nº 6 entre os singles da Billboard.

Não é de se estranhar, portanto, que I Am tenha sido o álbum mais popular do E,W&F no Reino Unido, atingindo por lá a posição de nº 5, e também nos principais mercados discográficos do mundo. Mas vale ressaltar uma coisa: se essas duas faixas são apelos a públicos que o grupo nunca havia atingido em cheio, não caem em fórmulas pré-estabelecidas ou diluições picaretas, sendo excelentes e também sem fugir demais ao espírito musical desenvolvido por Maurice White e seus discípulos.

E o disco nos oferece muito mais. O LP tem início de forma apoteótica com In The Stone entrando em cena com uma abertura digna dos melhores musicais da Broadway, para mostrar logo de cara o vasto acervo de armas musicais desse timaço musical: o entrosamento da voz máscula de Maurice com o sedutor falsete de Philip Bailey, os metais sempre pontuando tudo, percussão salerosa e afro para contagiar e o time de guitarras, baixo (do estupendo Verdine White, irmão de Maurice) e teclados dando o arremate final.

Uma das marcas registradas do E,W&F é a criação de interlúdios musicais, pequenos trechos que ou introduzem uma canção ou a ligam à outra que vem a seguir. E é um deles que abre o caminho para que surja a galopante Can’t Let Go, delicioso “balanço” (termo que se usava no Brasil nos anos 1970 para definir canções dançantes) que tocou em nossas rádios. Chega o momento da primeira balada, After The Love Has Gone, cujo solo de sax no final é a deixa para a entrada da sacudida Let Your Feelings Show, encerrando o lado A do LP de vinil original.

Boogie Wonderland abre o lado B para chacoalhar o esqueleto de todos, clima que a incrível Star se incumbe de manter, mesmo não sendo propriamente disco e com vocais simplesmente encantadores. O romantismo na melhor tradição da soul music marca a belíssima Wait, de andamento mais lento e com aquelas paradinhas deliciosas. O momento instrumental do álbum vem a seguir, a roqueira Rock That!, com ótima performance dos músicos. You And I, que fecha o disco, tem um clima ao mesmo tempo romântico, swingado e sensual que certamente influenciou o charm dos anos 1980.

Verdine White define I Am como “o nosso Abbey Road“, o disco mais bem-sucedido em termos comerciais da carreira dos Beatles, enquanto Maurice White o considera não só um dos melhores da banda como um dos mais influentes. “Alguns artistas fizeram suas carreiras baseados em faixas deste álbum”, afirmou ele em texto incluído na box set The Eternal Dance (1992).

Curiosidades envolvendo personagens e fatos sobre I Am:

***** David Foster ganhou seu primeiro Grammy, o Oscar da música, com After The Love Has Gone. Sua participação em I Am foi um divisor de águas na carreira dele, que posteriormente faria trabalhos de imenso sucesso comercial com artistas como Chicago, Whitney Houston, Céline Dion, Josh Groban, Michael Bublé e Andrea Bocelli, entre muitos outros. Ele compôs mais algumas músicas com Maurice White, entre as quais os hits And Love Goes On e Could It Be Right.

***** Em sua ótima autobiografia Hit Man (2008- Pocket Books, não foi lançado no Brasil), David Foster relembra que ele e Maurice White se entendiam muito bem em quase tudo, menos em duas questões: alimentação e cigarros. Enquanto o líder do E,W& F era adepto de alimentação natural e hábitos saudáveis, Foster se dizia um voraz consumidor de hambúrgueres e fast food em geral, além de fumar em torno de três maços de cigarro por dia.

***** Os parceiros de David Foster em After The Love Has Gone tem um belo pedigree musical. O guitarrista americano Jay Graydon, por exemplo, gravou com inúmeros astros da música e é autor de vários hits de Al Jarreau, entre eles a deliciosa Mornin’. Além do Grammy com essa bela balada, ele faturou outro, desta vez com a swingada Turn Your Love Around, hit na voz de George Benson e que inclui na parceria novamente Bill Champlin e Steve Lukather (do grupo Toto).

****** Também com belo currículo como músico de estúdio e autor, Bill Champlin de quebra integrou entre 1981 e 2009 o grupo Chicago, tendo gravado o vocal principal em grandes hits como Hard Habit To Break, Look Away e I Don’t Wanna Live Without Your Love. Vale lembrar que, como músico de estúdio, Jay Graydon gravou o solo de Peg, do grupo Steely Dan, citado por muitos como um dos melhores de todos os tempos. Ouça e tente não concordar aqui.

***** Na edição original em vinil de I Am e mesmo na caixa The Eternal Dance, o título da mais famosa balada do disco é After The Love IS Gone. Na edição em CD, no entanto, a grafia é After The Love HAS Gone , a mesma na qual voce encontra informações sobre ela na internet. A segunda versão, ressalte-se, é a correta em termos gramaticais, pois coloca a palavra no tempo certo, ou seja, no passado.

****** Além de David Foster, Maurice White contou com outra parceria nas canções incluídas em I Am. Trata-se da compositora Alee Willis, que é coautora de sete das nove faixas do álbum, atuando neste caso principalmente no quesito letras. Ela é conhecido como coautora de outros hits importantes, entre os quais Neutron Dance (Pointer Sisters), What Have I Done To Deserve This (Pet Shop Boys e Dusty Springfield) e I’ll Be There For You (The Rembrandts, tema principal da série de TV Friends). Ela também é uma das autoras de September, do E,W&F.

***** Única faixa do álbum não assinada por Maurice White, Boogie Wonderland é uma parceria de Alee Willis com Jon Lind. Este compositor também escreveu com White Sun Godess, gravada originalmente por um dos mentores de Maurice White, Ramsey Lewis e depois pela banda no ao vivo Gratitude. Entre seus hits para outros artistas, vale destacar Crazy For You (Madonna) e Save The Best For Last (Vanessa Williams), sendo que ambas atingiram o topo da parada americana.

****** Duas canções adicionais foram gravadas para integrar o álbum I Am, mas acabaram ficando de fora de sua versão original. São elas Dirty, da qual participa o saudoso gaitista Junior Wells (conhecido por sua dupla com Buddy Guy) e Diana, esta última outra parceria entre Maurice White e David Foster. Essas gravações foram adicionadas como faixas-bônus da versão remasterizada de I Am, lançada em 1999 pela Sony Music.

***** A capa de I Am, com ilustração a cargo de Shusei Nagaoka e design assinado por Roger Carpenter, são inspiradas no Egito antigo, uma das fascinações de Maurice White, um fã de assuntos místicos e espiritualistas. Ele conseguiu levar a banda para lá em uma ocasião, sendo que, segundo ele, “metade deles amou e metade odiou”. A contracapa traz um pot-pourry de vários fatos históricos e discos voadores voando ao fundo, em ilustração bela e apoteótica de Shusei.

*****Eis a escalação do E,W&F, considerada a sua clássica: Maurice White (vocal, percussão e bateria), Verdine White (baixo), Philip Bailey (vocal e percussão), Larry Dunn (teclados), Al McKay (guitarra), Fred White (bateria, irmão de Maurice e Verdine), Johnny Graham (guitarra), Andrew Woolfolk (sax tenor) e Ralph Johnson (percussão). A sessão de metais trazia Don Myrick (sax tenor e barítono), Louis Satterfield (trombone) e Rahmlee Michael Davis (trompete).

Ouça I Am em streaming:

Johnny Mathis e Chic enfim tem seu álbum lançado em CD simples

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Por Fabian Chacur

Em 1981, o consagrado astro do jazz e do pop Johnny Mathis deveria ter lançado o álbum I Love My Lady, no qual foi produzido por Nile Rodgers e Bernard Edwards, do grupo Chic. Na prática, o LP equivale a uma espécie de álbum da banda disco com os vocais do cantor, pois composições, músicos e backing vocals ficaram por conta deles. No entanto, a gravadora Columbia Records resolveu abortar o projeto, e colocou-o em seus arquivos. Em 1ª de fevereiro, nos EUA, I Love My Lady, o fruto dessa parceria, enfim estará disponível no formato CD simples.

Na verdade, este mitológico álbum já havia sido disponibilizado no formato CD anteriormente. No entanto, o interessado teria de adquirir The Voice Of Romance: The Columbia Original Album Collection, box set lançada em 2017 com 67 discos (!!!) e um livro com 200 páginas. No site da Amazon americana, está disponível pela “bagatela” de 362 dólares (bem mais do que mil reais, fora frete). A partir de 2010, algumas faixas do disco apareceram em coletâneas como Up All Night (The Chic Organization Album (2013, lançada no Brasil).

A nova versão do álbum, que será disponibilizada em CD e logo após em vinil, trará como atrativos adicionais uma nova capa, belíssima, e um encarte repleto de informações sobre as gravações de I Love My Lady com direito a uma entrevista com o próprio Johnny Mathis feita especialmente para esta ocasião. O selo responsável por tal reedição é o americano Real Gone Music, especialista em reeditar trabalhos bacanas há muito fora do mercado discográfico.

I Love My Lady traz oito faixas, e mostra o cantor se adaptando de forma competente à sonoridade concebida pelos geniais Nile Rodgers e Bernard Edwards. O repertório é muito bom, com direito a maravilhas como a swingada balada Fall In Love (I Want To), a sacudida e irresistivelmente dançante Something To Sing About (com um refrão fantástico e bela interação entre Mathis e as vocalistas de apoio), a elegante faixa-título e a gostosa Love And Be Loved.

Alguns podem achar os vocais de Mathis muito contidos em relação a outros trabalhos dele, mas a graça quem sabe esteja exatamente aí, ou seja, ele teve a humildade de se enquadrar na concepção musical do Chic. No fim das contas, valeu a pena esperar tanto para enfim ouvir essa parceria histórica. Pena que, só para variar, esse álbum não terá versão nacional no formato físico…

Something To Sing About– Johnny Mathis:

Nile Rodgers anuncia o novo CD do Chic ainda para 2018

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Por Fabian Chacur

Em 2015, Nile Rodgers lançou I’ll Be There, um novo single do Chic. Seria o aperitivo para um novo álbum, previsto para chegar ao mercado musical a seguir. Pois bem. Estamos em fevereiro de 2018 e até agora, nada. No entanto, os inúmeros fãs do brilhante músico americano voltam a se empolgar. O artista, em entrevista ao site da revista americana Billboard publicada nesta sexta (2), promete o álbum para breve, ainda em 2018, e com o sugestivo título It’s About Time (já era tempo, em tradução livre).

Nile define o novo trabalho, o primeiro de inéditas do grupo desde 1992, como uma celebração à sua carreira e uma espécie de compêndio musical. Estão previstas participações especiais de Elton John, Lady Gaga, Miguel, Janelle Monáe, Disclosure e Anderson.Paak, entre outros. A faixa Prince Said It, avaliada pelo próprio artista como muito boa, foi posta de lado, em função da morte do autor de Purple Rain.

Embora não tenha ficado claro no texto da Billboard, a impressão é que o álbum já está pronto, com no máximo alguns detalhes a serem concluídos, e só não foi lançado até agora pelo fato de o guitarrista, compositor e produtor americano ter tido problemas de saúde que o impediriam de divulgar da melhor forma possível o material. Problemas esses aparentemente superados, pois o Chic está na estrada, passou pelo Rock in Rio em 2017 e deve iniciar em julho uma turnê ao lado de outra banda legendária da música pop, o Earth, Wind & Fire.

Atualmente, a banda que o tornou conhecido mundialmente na década de 1970 atende pelo nome de Chic Featuring Nile Rodgers, pois só mantém ele de sua formação original. Com uma sonoridade própria e marcante, o grupo ajudou a elevar o patamar da disco music, além de influenciar gerações de músicos. Gênio é pouco para se definir Nile. Que venha logo esse álbum. Leia mais matérias sobre o Chic e Nile Rodgers do arquivo de Mondo Pop aqui e aqui.

I’ll Be There– Chic Featuring Nile Rodgers:

Sylvester, um dos grandes da disco music, e os seus 70 anos

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Por Fabian Chacur

No último dia 6(quarta-feira), um certo Sylvester James teria completado 70 anos de idade. Infelizmente, ele só viveu 41 anos, tendo nos deixado no dia 16 de dezembro de 1988. Mas o seu legado musical certamente sobreviverá a mim, a você e a todos nós. Sylvester nos deixou as incríveis You Make Me Feel (Mighty Real), Dance (Disco Heat) e outros petardos que até hoje eletrizam as melhores pistas de dança do planeta. Esse cara deixou a sua marca. Ele faz falta…

O som da minha adolescência foi a disco music, e quando esse ritmo mágico estava no auge, lá pelos idos de 1978, o álbum Step II, do Sylvester, era um dos mais ouvidos. Meu irmão Victor o comprou logo que saiu no Brasil. Esse vinil traz os dois maiores hits de Sylvester, as incríveis Dance (Disco Heat) e You Make Me Feel (Mighty Real), que conseguiram ir além das paradas disco, invadindo até trilhas de novela e tocando em rádios mais afeitas a sonoridades tradicionais ou caretas.

Step II marca o momento em que este cantor, compositor e músico americano nascido na região de Los Angeles em 6 de setembro de 1947 encontrou um caminho musical ao mesmo tempo original e com forte potencial comercial. Ele acoplou sua influência gospel e soul music à sonoridade eletrônica que começava a emergir no cenário dance, graças a pioneiros como Giorgio Moroder e o grupo alemão Kraftwerk. Na mistura, criou uma espécie de discoeletrogospelsoul.

O lado 1 do vinil de Step II traz os dois megahits, e é encerrado por uma belíssima versão gospel e lenta de You Make Me Feel (Mighty Real). O lado B do álbum é dedicado a uma sonoridade soul mais convencional e também muito boa, com direito até a música de Burt Bacharach e com destaque para a comovente balada Just You And Me Forever.

Vale ressaltar alguns nomes essenciais para que este álbum se tornasse um clássico não só da disco music, mas como da música pop em geral. Um é o produtor, Harvey Fuqua, líder do grupo vocal The Moonglows e descobridor de ninguém menos do que Marvin Gaye, que ele levou para o que viria a ser a Motown Records, onde atuou como produtor e compositor. Coube a Fuqua trazer Sylvester para a gravadora Honey Records, distribuída pela Fantasy Records.

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O lado eletrônico de sua sonoridade teve como um dos caras fundamentais o multi-instrumentista Patrick Cowley (1950-1982), que a seguir passou a ser figura constante nas bandas de apoio e discos de Sylvester. Quando gravou disco solo, Cowley teve como grande sucesso Do Ya Wanna Funk?, com participação especial do patrão famoso.

A parte vocal dos álbuns da fase áurea do astro disco se firmou graças à incorporação ao seu time das cantoras Martha Wash e Izora Rhodes, que junto com ele criaram um modernizado coral gospel/soul contagiante. Elas receberam o codinome Two Tons O’Soul, e nos anos 1980, em carreira própria, passaram a ser conhecidas como The Weather Girls, do megahit It’s Raining Man. Comandando este time, Sylvester se tornou um dos astros máximos da disco.

A vida de Sylvester Stewart não foi das mais fáceis. Descobriu ser homossexual ainda criança, para horror dos pais. Aos 13 anos, teve de deixar o coral da igreja em que atuava desde criança por causa disso, e aos 15 anos, foi a vez de ir para a estrada, longe da família. Depois de integrar um grupo de trangêneros e cross dressers, mudou-se para a cidade de San Francisco em 1970, integrando-se naquela cidade ao grupo de drag queens The Cockettes.

Em 1972, após participar de diversos espetáculos com aquele grupo de drags, geralmente imitando Billie Holiday e Josephine Baker, resolveu partir para um projeto próprio. Em 1973, essa nova fase de sua carreira desembocou na Sylvester And His Hot Band, uma banda de rock com a qual gravou dois álbuns em 1973 pelo selo Blue Thumb, sem sucesso comercial. Como melhor momento, abriram um show de David Bowie, que elogiou Sylvester e sua turma.

Já sob a tutela de Harvey Fuqua e com as Two Tons O’ Soul, gravou o seu primeiro álbum solo, Sylvester (1977), que tinha uma sonoridade ainda convencional e emplacou um semihit, Down Down Down. A coisa engrenou mesmo foi com Step II. Logo a seguir, em 1979, lançou Stars, álbum totalmente disco com apenas quatro faixas. Mas com a qualidade delas, para que mais? Todas bem extensas.

O destaque é uma releitura simplesmente brilhante de I (Who Have Nothing), que transformou a dramática canção de Ben E. King (conhecido por Stand By Me e diversos outros hits) em uma faixa disco percussiva simplesmente irresistível. Body Strong, a faixa-título e I Need Somebody To Love Tonight trazem uma sonoridade que influenciaria e muito o pop eletrônico dos anos 80.

Ainda em 1979, chegou às lojas o álbum duplo Living Proof (saiu no Brasil), que traz nos lados 1, 2 e 3 um incrível show beneficente de Sylvester e sua banda gravado em 11 de março daquele mesmo ano e trazendo não só hits do artista como também releituras bacanas, entre elas uma de Blackbird, dos Beatles, que arrepia. O lado 4 trazia inéditas de estúdio, entre elas o semihit Can’t Stop Dancing. obs.: segundo o músico e jornalista Fernando Savaglia, um especialista em black music, este álbum saiu, sim, no Brasil, tanto que ele tem um exemplar dessa raridade. Sortudo demais! Valeu pelo toque, fera!

A partir de 1980, tal qual todos os nomes mais importantes e populares da disco music, Sylvester sofreu uma forte queda em sua popularidade, prejudicado por um odioso movimento intitulado Disco Sucks que em 1979 levou imbecis preconceituosos a quebrar e queimar álbuns e singles de disco em locais públicos. Uma das manifestações mais lamentáveis de preconceito, uma espécie de holocausto fonográfico que arrebentou a carreira de muita gente boa.

Vale um pequeno parêntesis aqui. A disco music teve como berço a comunidade gay dos EUA e de outros países. Quando estourou e cativou todos os tipos de público com sua sonoridade alegre, pra cima e criativa, horrorizou os conservadores, e, ironia das ironias, muitos roqueiros, que haviam sido vítimas de preconceitos em décadas anteriores, mas que naquele momento se sentiam ameaçados pelos artistas disco. E Sylvester nunca negou a sua homossexualidade.

Mesmo tendo se recusado a usar o rótulo disco como sua principal intenção musical, Sylvester acabou marcado por ela. Nos anos 80, viu sua popularidade ir despencando aos poucos. Ainda se daria bem em colaborações com o músico de jazz Herbie Hancock no ótimo single funk-disco Magic Number (1981). Em 1982, saiu da gravadora Fantasy e a processou, mas o ex-mentor Harvey Fuqua não teve como pagar o valor total do processo. Uma separação triste.

Se seus álbuns passaram a vender cada vez menos, Sylvester teve a oportunidade de realizar um sonho. Em 1985, ele participou, fazendo backing vocals, do álbum Who’s Zooming Who?, de Aretha Franklin, uma de suas heroínas. Ele deu sorte a ela, pois o disco foi um dos mais vendidos de sua carreira, com Sylvester atuando em dois singles de sucesso, a faixa título e Freeway Of Love. Em 1986, lança Mutual Attraction, o último que lançaria em vida.

Desde o fim dos anos 1970, uma doença até então desconhecida vitimou diversos integrantes da comunidade gay. Patrick Cowley, o amigo de Sylvester, foi uma de suas primeiras vítimas. Desde o início, o autor de You Make Me Feel (Mighty Real) mostrou-se solidário às vítimas do posteriormente revelado vírus HIV e da Aids. Para sua tristeza, viu um namorado morrer, vítima da doença. Pouco depois, descobriu também ser portador daquela terrível enfermidade.

Consta que Sylvester James foi o primeiro astro negro gay a assumir ser portador do vírus HIV. Ele se manteve ativo até onde pode, mas a partir do início de 1988, não conseguiu mais. E em 16 de dezembro de 1988, saiu do plano físico rumo à eternidade, não sem antes ser homenageado pela comunidade gay de San Francisco. Ele deixou instruções para que toda a renda com os royalties de seus trabalhos fossem doados a entidades ligadas à assistência aos portadores da Aids.

Não é nada fácil encontrar discos de Sylvester atualmente. O mais acessível costuma ser a coletânea The Original Hits, que traz onze faixas lançadas entre 1977 e 1981, entre elas seus megahits. Pena que não inclua I (Who Have Nothing). O incrível Step II só saiu em uma rara edição internacional em CD que também incluía Sylvester (de 1977) no pacote. Mas vale ir atrás. O som alegre e contagiante deste gênio do falsete disco vale a procura. E dá pra ouvir no Youtube, na faixa, para quem não se importa em não ter os itens físicos.

Step II- Sylvester (ouça em streaming):

Morre Joni Sledge, integrante do grupo vocal Sister Sledge

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Por Fabian Chacur

O quarteto vocal americano Sister Sledge fez furor na era da disco music, especialmente com o álbum We Are Family (1979), que estourou no mundo todo. Uma de suas integrantes, a cantora e compositora Joni (última à direita na foto ao lado), nos deixou na última sexta-feira (10). Ela foi encontrada morta em sua casa por um amigo, em Phoenix, Arizona (EUA), e tinha 60 anos de idade.

Nascida em 13 de setembro de 1956 na cidade de Filadélfia, Joni montou ainda menina o grupo com suas irmãs Debbie (9/7/1954), Kim (21/8/1957) e Kathy (6/1/1959). A primeira gravação do quarteto, o single Time Will Tell, saiu em 1971, sem grande repercussão. As meninas não desanimaram e continuaram fazendo shows, até serem contratadas em 1974 pela Atlantic Records. Os primeiros anos foram bem difíceis, até que dois “anjos” entraram em suas vidas.

Foram eles Nile Rodgers e Bernard Edwards, da banda Chic, então estourada com o hit Le Freak. Eles receberam a missão de produzir um novo álbum para as meninas, com direito a compor todo o material e escalar os mesmos músicos de seu time. Bingo! O primeiro trabalho deles nessa parceria não poderia ter dado mais certo, e deu às irmãs o sucesso que tanto procuravam e pelo qual tanto batalharam.

O álbum We Are Family saiu no início de 1979 e acabou atingindo o terceiro posto na parada americana, além de vender muito bem no resto do mundo. Joni foi a vocalista principal em duas faixas, Easier To Love e Lost In Music, sendo que Kathy se mostrou a mais sortuda, pois fez a voz principal nos dois maiores hits do LP, We Are Family e He’s The Greatest Dancer, além das faixas Somebody Loves Me e Thinking Of You.

Seria difícil suceder um trabalho tão bom como esse e também repetir seu sucesso comercial. Love Somebody Today (1980) até chegou perto em termos de qualidade musical, mas atingiu apenas a posição de nº 31 nos charts ianques. O maior hit foi Got To Love Somebody, na voz de Kathy, mas Joni mandou bem em Reach Your Peak e I’m a Good Girl. Infelizmente, este foi o último LP da parceria delas com Nile e Bernard.

Até o fim dos anos 1980, as Sisters Sledge viram sua popularidade cair, embora ainda tenham emplacado alguns hits menores, entre os quais All American Girls (produzido por Narada Michael Walden, de elogiável carreira-solo e que que depois trabalharia com Whitney Houston), My Guy (releitura do sucesso de Mary Wells, dos anos 1960) e Frankie. Em 1989, Kathy sai do grupo rumo a uma carreira-solo, só se reunindo eventualmente com as irmãs.

A partir daí, o trio remanescente se manteve na ativa em shows nostálgicos, lançando alguns discos eventuais. Entre eles, o mais badalado foi African Eyes (1997), que contou com a produção e algumas composições de Joni e recebeu elogios por parte da crítica especializada, embora vendesse pouco. Em 2015, Kathy Sledge fez um show em São Paulo em show que também incluiu o grupo Shalamar, em uma festa disco (leia sobre esse show aqui).

Vale uma última e muito importante informação: em diversas entrevistas, Nile Rodgers, cuja versão atual do Chic está escalada para tocar no Rock in Rio 2017, nomeou We Are Family como o seu álbum favorito, dentre todos os que gravou e produziu durante seus mais de 40 anos de carreira artística. Uma bela escolha, por sinal.

Lost In Music– Sister Sledge:

Morre Nicholas Caldwell, um dos integrantes dos Whispers

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Por Fabian Chacur

Morreu nesta terça-feira (5) aos 71 anos Nicholas Caldwell, um dos criadores da banda americana The Whispers, há mais de 50 anos na estrada e uma das mais bem-sucedidas da história da black music mundial. Ele lutava com problemas cardíacos há algum tempo, e fez sua última performance com o grupo no dia 19 de dezembro de 2015 no Microsoft Theater, Los Angeles, em programa que também incluía a cantora Stephanie Mills e o The Temptations Revue Featuring Dennis Edwards.

O talento de Nicholas era diversificado. Além de importante nas vocalizações da banda, ele também era responsável por suas coreografias em shows, além de assinar ao menos dois hits românticos da banda, as belas Lady e Say Yes. Simpático e gentil, ele foi apelidado pelos amigos de “gentle giant” (gigante gentil), apelido também em função de sua estatura. A barba era sua marca visual.

Nicholas (o primeiro, da esquerda para a direita, na foto acima) nasceu em 5 de abril de 1944 na cidade de Laurinda, na Califórnia, mudando-se depois para Los Angeles. E foi lá que ele conheceu os irmãos gêmeos Walter e Wallace Scotty Scott, por sua vez oriundos do Texas. O grupo vocal foi complementado logo a seguir, ainda em 1964, por Marcus Hutson (de Kansas City) e Gordy Harmon.

Com seu estilo musical investindo na soul music e em outras vertentes da música negra americana, os Whispers não estouraram do dia para a noite. Seu primeiro sucesso na parada de música negra nos EUA rolou em 1970 com Seems Like I Gotta Do Wrong. No período, eles gravaram discos pelos selos Dore, Clock e Janus. Em 1973, mudança: sai Gordy Harmon, substituído por Leaveil Degree.

Outra alteração no rumo do quinteto se mostrou decisivo em termos comerciais. No mesmo 1973, eles assinaram com a gravadora Soul Train Records, do empresário Dick Griffey. Foi lá, e posteriormente no outro selo criado por Griffey em 1978, o Solar Records (sigla para Sound Of Los Angeles Records), que os Whispers conheceram seus maiores sucessos em termos comerciais.

Sempre se renovando e atento às mudanças musicais que ocorriam no cenário pop, os Whispers incorporaram elementos de funk e especialmente de disco music à sua sonoridade, e isso os tornou reis das pistas de danças, graças a hits matadores como And The Beat Goes On, It’s a Love Thing, In The Raw, Tonight e This Kind Of Lovin’, entre outros. A parceria com o produtor Leon Silvers III, do grupo The Silvers, foi decisiva nesse sentido.

Em 1987, eles conseguiram seu maior sucesso em termos de paradas de sucesso com a irresistível Rock Steady, primeiro megahit assinado por uma dupla que rapidamente se tornaria um verdadeiro pote de ouro pop: LA Reid e Babyface. A partir daí, o grupo se distancia dos primeiros postos dos charts, mas se mantém forte em termos de shows.

No início dos anos 1990, Marcus Hutson saiu do grupo, sem ser substituído, já sofrendo com problemas de saúde que o vitimaram em 2000. Não se sabe como o grupo agirá em relação à perda de Nicholas Caldwell, pois ainda não tivemos um comunicado oficial por parte da banda, que tem diversos shows agendados para 2016. Ao vivo, contam com uma banda de apoio composta por oito músicos de primeira linha.

Uma boa amostra do poder de fogo dos Whispers ao vivo está contido no excepciona DVD Live From Vegas (2007), que saiu no Brasil pela Norfolk Filmes-NFK. O show é um banho de qualidade musical e de cena, com direito a cantores carismáticos como os irmãos Scott, as coreografias e belas vozes de Degree e Caldwell e uma banda impecável, liderada por Grady Wilkins. Tudo leva a crer que o grupo continuará na ativa, mas vamos aguardar.

Rock Steady– The Whispers (1987):

And The Beat Goes On– The Whispers (1980):

In The Raw– The Whispers (1982):

Emergency– The Whispers (1982):

Make It With You– The Whispers (1987):

Lady – The Whispers (1979):

Autobiografia mostra a louca vida do genial Nile Rodgers

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Por Fabian Chacur

Após ler as quase 300 páginas de Le Freak, autobiografia de Nile Rodgers, que saiu no exterior em 2011 e só agora chega ao mercado brasileiro em versão em português, a impressão que fica é de que esse genial guitarrista, compositor e produtor americano é protagonista de um verdadeiro milagre.

Afinal de contas, como um garoto, fruto de um relacionamento entre uma mãe totalmente destrambelhada e viciada com um pai ainda mais drogado e ausente, que cresceu entre as ruas, lares de avós, tias e eventualmente da mãe biológica e que esteve sempre cercado de viciados, traficantes, ladrões, assassinos e quetais conseguiu não só sobreviver como se tornar um dos grandes nomes da história da música pop? Como? Só por milagre de Deus mesmo…

A autobiografia do coautor de Le Freak, Good Times, Everybody Dance e tantos outros clássicos da música pop possui um tom bem franco e bem-humorado, no qual em nenhum momento ele procura julgar as pessoas que o criaram da pior forma possível. Felizmente, ele soube achar um caminho próprio, a música, e se deu bem nele.

A vida pessoal e seus dramas tem prioridade no livro. Lógico que temos relatos do trabalho de Nile com o grupo que o tornou famoso, o Chic, sua incrível parceria com o genial baixista e compositor Bernard Edwards, os discos que produziu para Diana Ross, Madonna e David Bowie e participações em shows e outros eventos. Mas o lado escuro prevalece.

Noitadas de bebidas, drogas e mulheres, as amizades nem sempre muito saudáveis, a proximidade da morte, as eventuais internações, está tudo lá. Para quem gostaria de ler mais sobre o Nile Rodgers músico e produtor, recomendo outro livro que serve como complemento indispensável para Le Freak, o ótimo Everybody Dance- Chic And The Politics Of Disco (2004- Helter Skelter Publishing), de Daryl Easlea, que conta com a colaboração de Rodgers e mergulha fundo nessa área da atuação do músico. Pena que não tenha ainda uma edição em português.

Mesmo assim, Le Freak é obrigatório para quem quer descobrir um pouco mais sobre o cara por trás dessa guitarra irresistível e influente, e suas incríveis composições e produções. Pena que o enredo se encerre no momento em que Rodgers descobre ser portador de um tipo agressivo de câncer, em 2011, deixando um ponto de interrogação no ar.

Para felicidade geral de todos os seus milhões de fãs, ele está vencendo essa batalha, e conseguiu nesses quatro anos voltar às paradas de sucesso com suas participações nos hits Move Yourself To Dance e Get Lucky, do Daft Punk, e gravar um novo álbum do Chic, no qual aproveita gravações inéditas de arquivo e novos takes. Ele também continua fazendo shows. Que possa ir bem além dos 63 anos que viveu até agora!

E fica uma frase do astro, que mostra bem sua perspicácia: “Não é bom viver no passado, mas é um bom lugar para se visitar, e se você for lá, eu estarei lá”. O mote do novo álbum do Chic é tempo, e Rodgers tem vivido cada dia como se fosse ser o seu último, porque um dia, será o último mesmo, como ele diz em seu livro. Repito: que demore bastante!

I’ll Be There – Chic:

I’ll Be There– pequeno making of do CD:

My Forbidden Lover– Chic:

Everybody Dance– Chic:

The Land Of The Good Groove– Nile Rodgers:

Yum Yum– Nile Rodgers:

Kathy Sledge, Jody Watley e DJs estarão em Disco Fever

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Por Fabian Chacur

Os fãs de disco music tem um bom programa para o dia 13 de junho (sábado) em São Paulo. Trata-se do evento Disco Fever, que terá como atrações os DJs Vadão e André Souza e duas importantes divas daqueles anos áureos da música dançante: as cantoras americanas Kathy Sledge (ex-integrante do grupo Sister Sledge) e Jody Watley (que vem com nova formação da Shalamar).

A festa começa às 22h e terá como palco o Espaço das Américas (rua Tagipuru, 795- Barra Funda- fone 0xx11-2027-0777), com ingressos custando de R$180,00 a R$ 380,00 (mais informações no site www.espacodasamericas.com.br). A discotecagem dos experientes Vadão e André Souza ocorrerá antes e após os shows, com direito aos grandes clássicos da dance music.

Kathy Sledge nasceu em 6 de janeiro de 1959 e foi a vocalista líder do quarteto Sister Sledge entre 1971 e 1989, ao lado das irmãs Debra, Joni e Kim. O grupo estourou em 1978/79 ao ser produzido por Nile Rodgers e Bernard Edwards, do grupo Chic, quando gravaram os álbuns We Are Family e Love Somebody Today, emplacando hits como We Are Family, He’s The Greatest Dancer e Lost In Music, entre outros.

Após sair do grupo, Kathy mantém uma carreira solo de sucesso mediano, mas continua com aquele vozeirão que a tornou famosa. Há pouco, gravou ao lado do grupo Aristofreeks a sensacional Keep It Movin’, que a trouxe de volta aos charts. Em seus shows, ela nunca deixa de cantar os hits dos bons tempos, especialmente o hino We Are Family.

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Por coincidência, Jody Watley nasceu no mesmo ano e mês de Kathy, só que no dia 30. Ela começou a carreira como dançarina do programa televisivo de black music Soul Train, até que foi convidada a participar de um novo grupo vocal, o Shalamar, ao lado do também dançarino Jeffrey Daniels. O trio ganharia sua formação clássica em 1979 com a entrada do cantor Howard Hewett, estourando logo de cara com o hit The Second Time Around.

O trio em sua escalação seminal se manteve na ativa de 1979 a 1983, período durante o qual emplacou sucessos como The Second Time Around, Make That Move, Full Of Fire, A Time To Remember e This Is For The Lover In You. Sua mistura de disco, soul e funk, com direito a vocalizações matadoras e coreografias dançantes bacanas marcou época.

Após sair do Shalamar, Jody Watley conseguiu sucesso como artista solo a partir de 1987, com hits como Don’t You Want Me e Looking For a New Love. Atualmente, após ganhar na Justiça os direitos sobre o nome Shalamar, montou uma nova formação do trio, tendo a seu lado os novatos Nat Allen Smith e Rosero McCoy, que virão com ela ao Brasil.

Vale o registro: Howard Hewett e Jeffrey Daniels também estão fazendo shows pelo mundo afora usando o nome Shalamar, tendo como substituta de Jody a cantora Carolyn Griffey. Uma pena Watley, Daniels e Hewett não se entenderem e não voltarem com a formação clássica do grupo, que certamente atrairia com tudo a atenção da mídia.

Keep It Movin’– AristoFreeks ft. Kathy Sledge :

We Are Family– Nile Rodgers, Flea & Kathy Sledge Grammy Week Jam:

We Are Family (original version)- Sister Sledge:

Make That Move, Friends, Sweeter As The Days Go By– Shalamar live (c/Jeffrey Daniel e Howard Hewett):

Make That Move (original studio version 1980)- Shalamar:

Don’t You Want Me– Jody Watley:

Rod Hanna/A Taste Of Honey fazem show impecável em SP

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Por Fabian Chacur
fotos: Tania Voss- Universo da Fama

O grupo paulista Rod Hanna completa 20 anos de carreira consolidado como um dos grandes nomes no cenário musical brasileiro. Seus espetáculos resgatando grandes hits e eventualmente investindo em material próprio cativaram um público que cresce a cada dia. O mais recente show, Rod Hanna On Broadway, é simplesmente irresistível, e se tornou ainda melhor com a participação do grupo americano A Taste Of Honey, como vimos no Teatro Bradesco (SP) neste sábado (25).

Liderado por Rod (vocal, teclados e violão) e Nora Hanna (vocais), o Rod Hanna traz em suas fileiras uma equipe digna de musicais, com direito a músicos, vocalistas e dançarinos que transformam a performance de cada música em um espetáculo particular. Sempre com uma batida disco que ninguém no Brasil faz com tanta convicção e categoria.

O repertório de Rod Hanna On Broadway reúne clássicos dos melhores e mais bem-sucedidos musicais das últimas décadas, com direito I Will Survive, I Say a Little Prayer, Mamma Mia, Fame, Summer Nights, Night Fever e You Should Be Dancing. O desempenho do time é impressionante, e cativa de forma incondicional.

A parceria com o A Taste Of Honey deu super certo. O grupo, que estourou em 1978 com o megahit Boogie Oogie Oogie e depois emplacou outras músicas matadoras do tipo Rescue Me, Do It Good e Sukiaki, conta hoje com uma integrante de sua formação original, a vocalista e baixista Janice-Marie Johnson. Carismática e simpática, ganhou o público.

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Janice trouxe consigo dos EUA dois músicos também repletos de realizações. Nos teclados e metais, Felton Pilate II, integrante da banda funk Con Funk Shun (dos hits nos anos 1970 e 1980 Got To Be Enough, Too Tight, Ffun e Chase Me) e David Cochrane na guitarra e metais, ele que entre 1976 e 1982 foi músico de apoio da banda The Commodores e compôs músicas com Lionel Richie na carreira solo do astro.

Com os dois novos parceiros e o apoio do Rod Hanna, Janice ganhou a plateia interpretando Boogie Oogie Oogie (duas vezes, a segunda no bis que encerrou o show), Rescue Me e Sukiyaki (essa com direito a visual japonês), Ladies Night (hit do Kool & The Gang em 1979) e I Love The Nightlife (hit com Alicia Bridges em 1979). O entrosamento entre os Rod Hannas e o trio americano impressionou, eles que já haviam se apresentado juntos no Brasil em 2014.

Vale também destacar a fantástica Disco Evolution, um pot-pourry que conta a história da disco music desde seus anos iniciais, na década de 1970, até seus desdobramentos que ocorreram nas décadas seguintes, indo de Boogie Wonderland até Get Lucky. O espetáculo acabou com Dancin’ Days e Boogie Oogie Oogie num clima de quero mais. A gravação de um DVD seria sensacional!

Boogie Oogie Oogie (ao vivo em 2011)- A Taste Of Honey:

Hod Hanna On Broadway– trechos do show:

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