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Givin’ It Back- The Isley Brothers (1971-T Neck-Buddah Records)

givin it back the isley brothers

Por Fabian Chacur

Como reler músicas alheias e ser autoral ao mesmo tempo? Eis uma bela questão que só artistas com muito talento conseguem responder a contento. E é essa a marca registrada de Givin’ It Back (1971), álbum lançado pelo grupo americano The Isley Brothers há 50 anos no qual eles mergulham em canções de Neil Young, Jimi Hendrix, James Taylor, Stephen Stills, Bill Withers, Bob Dylan e do grupo War de forma tão sensível e original que parecem ter sido os seus compositores. Um marco em sua brilhante trajetória de mais de 60 anos.

Para situar melhor o leitor em relação à importância deste álbum na carreira do grupo, vale uma pequena viagem na trajetória deles até então. Em 17 de abril de 1956, os irmãos Ronald, Rudolph e O’Kelly Isley saíram de sua cidade natal, Cincinnati, Ohio (EUA) rumo a Nova York, com respectivamente 15, 17 e 18 anos de idade. A ideia era ampliar seus horizontes profissionais, eles que começaram cantando em igrejas acompanhados pela mãe Sally Bernice e ao lado do irmão Vernon, morto em um acidente de carro em 1954.

Após lançamentos de pouco impacto por selos sem expressão, eles conseguiram assinar com a RCA, e por lá lançaram em 1959 seu primeiro hit, Shout, composta por eles a partir de um impolgante improviso que faziam em seus shows na parte final de sua interpretação de Lonely Teardrops, hit na voz do cantor Jackie Wilson. O single, produzido por Hugo Peretti e Luigi Creatore (que trabalharam com Elvis Presley e The Stylistics, entre outros), atingiu a posição de número 47 na parada americana de single.

Logo a seguir, uma curta passagem pela Atlantic Records não lhes rendeu grandes frutos. Eles voltaram aos charts em 1962 ao gravar Twist And Shout, composição de Bert Berns que havia passado batida na gravação original dos Top Notes no ano anterior. Com os irmãos Isley e produzido por Berns para o selo Wand, essa canção atingiu o 17º posto na parada pop e os levou para os quatro cantos do mundo, ao ponto de ser regravada com muita energia pelos Beatles em seu álbum de estreia, Please Please Me (1963).

Em 1964, os Isley Brothers resolveram tentar a sorte por conta própria, lançando o selo T Neck, com distribuição a cargo da Atlantic. O single de estreia, Testify Pts. 1 & 2, teve a participação de um jovem guitarrista que integrava a banda de apoio deles, um certo Jimi Hendrix. A fraca repercussão os levou a novamente arriscar na própria Atlantic, mais uma vez sem sucesso. Até que conseguiram realizar um sonho.

Em 1965, a maior parte dos músicos negros almejava gravar na Motown Records, casa de astros como The Temptations, The Four Tops, The Supremes, The Miracles e tantos outros. No fim daquele ano, os irmãos de Ohio assinaram com aquela gravadora, e viram a sorte brilhar novamente para eles com o matador single This Old Heart Of Mine (Is Weak For You), do consagrado trio de compositores Holland-Dozier-Holland, que os levou ao 12º posto entre os mais vendidos nos EUA. Agora, vai, diriam você. Bem…

Mais uma vez, Ronald e seus manos tiveram de engolir uma grande decepção, pois a gravadora de Berry Gordy não os encarou como prioritários, e, mesmo gravando por lá até meados de 1968, não mais obteve êxitos. Ao sentir que o sonho estava virando pesadelo, o trio resolveu dar uma espécie de cartada final, e reativaram o selo T Neck, com o espírito “antes prioridade no selo próprio do que ser do segundo escalão em uma gravadora major”.

Aposta alta, retorno alto. Em 1969, It’s Your Thing, uma faixa efervescente com ecos do que viria a ser a funk music nos anos 1970, virou um verdadeiro rastilho de pólvora nas programações de rádios e em vendas, atingindo o 2º lugar na parada pop de singles ianque. Essa música traz um marco dos mais importantes: a eletrizante linha de baixo foi executada com maestria por um irmão mais novo, Ernie, de apenas 19 anos.

Ernie já era figurinha carimbada nos ensaios e gravações do grupo, conferindo e aprendendo os macetes, tal qual um verdadeiro estagiário. Ele até trocou figurinhas com Jimi Hendrix nos meses em que o genial músico esteve como músico de apoio da banda. Depois dessa estreia promissora, ele aos poucos foi marcando presença em gravações e shows como guitarrista (ele também toca, e bem, bateria), e abrindo espaços para outro irmão, o baixista Marvin, e um primo, o tecladista Chris Jasper, todos da mesma geração.

Isso foi mudando a estrutura dos Isley, que no início eram um grupo vocal que se valia de músicos de estúdio nas gravações e bandas de apoio que iam mudando de tempos em tempos, nos shows. Com os três garotos se mostrando aptos para novos voos, Ronald, Rudolph e O’Kelly foram abrindo espaços para eles. E o grande marco dessa alteração no coração da banda tem como marco fundamental exatamente o álbum Givin’ It Back.

O time escalado para atuar no álbum reunia os seis irmãos e o baterista e percussionista George Moreland, com participações em algumas faixas de Buck Clarke e Gary Jones (congas), John Mosley (flauta) e Chester Woodward (guitarra base). A produção foi assinada pelos irmãos mais velhos, com os arranjos musicais ficando a cargo do grupo como um todo em parceria com o produtor e multi-instrumentista George Patterson.

A grande sacada de Givin’It Back foi a escolha de repertório. Os Isleys sempre se dividiram entre canções autorais e releituras alheias. Aqui, no entanto, resolveram se concentrar apenas em composições de outros artistas, todas bem recentes (de 1969 a 1971), e de autores que ninguém associaria de imediato a eles, como James Taylor, Neil Young, Bob Dylan e Stephen Stills (duas). O velho amigo Jimi Hendrix, que havia morrido há pouco, o então emergente Bill Withers e o grupo Eric Burdon & War completaram a lista.

Embora grupos e artistas negros regravassem na época canções de compositores brancos, como Lennon & McCartney, por exemplo, uma seleção como essa feita pelos Isleys soou como absolutamente inovadora, pois trazia como objetivo não só quebrar barreiras raciais, como também apostar na integração entre as pessoas e abordar temas importantes. A intenção aqui não era só “regravar sucessos para também fazer sucesso e ganhar um bom dinheiro”, mas divulgar mensagens relevantes de uma forma criativa em termos artísticos.

Com performances brilhantes dos músicos, o disco ganha ares de conceitual em termos de refletir de forma inspirada a época em que foi feito, com a Guerra do Vietnã comendo solta, a violência dando as suas cartas, o sonho hippie de paz, amor e música e as incertezas do dia-a-dia. Essas característica ficarão mais claras em uma análise detalhada de cada uma das faixas de Givin’ It Back.

Givin’ It Back faixa a faixa

Ohio (Neil Young)/ Machine Gun (Jimi Hendrix)Ohio foi lançada pelo grupo Crosby, Stills, Nash & Young em 1970 em um compacto simples, enquanto Machine Gun saiu em 1970 no álbum Band Of Gypsys.

O álbum não poderia ser aberto de forma mais impactante do que com esse brilhante pot-pourry incluindo duas músicas que, sob ângulos diferentes, equivalem a polaroids da violência reinante naquele momento e que tinha os jovens como principais vítimas. A composição de Neil Young foi escrita, gravada e lançada a toque de caixa, dias após tropas governamentais matarem a sangue frio quatro estudantes em Ken State, Ohio (estado natal dos Isleys).

Por sua vez, a canção de Hendrix colocava a metralhadora como protagonista, a terrível arma que estava matando a rodo naquele momento os inexperientes soldados a troco de nada no distante Vietnã.

A forma como os Isleys uniram as duas músicas foi absolutamente genial, pois incorpora elementos musicais de ambas, incluindo a batida marcial que evoca o militarismo, e gera uma unidade avassaladora. Também interessante é a abordagem de Ronald para esse material. Enquanto Neil Young e Jimi Hendrix cantam com nítida raiva seus versos, o cantor do grupo americano investe na compaixão e na empatia. Toda vez que ele solta um “don’t shot!” (não atire em tradução livre) a gente sente na alma a dor desses mortos sem razão.

A curiosidade fica por conta de uma sutil alteração na letra de Ohio que não costuma ser muito comentada. Enquanto o autor vai de “Tin soldiers and Nixon’s comin'” (soldados de lata e Nixon estão chegando), Ronald canta “Tin soldiers, I hear them coming” (soldados de lata, eu os ouço chegando) e também “Tin soldiers with guns are coming” (soldados de lata com armas estão chegando).

Fica a pergunta no ar: teriam os Isley Brothers ficado com medo de confrontar diretamente Richard Nixon, o presidente americano naquele momento e ainda com bastante popularidade? Seja como for, temos aqui um belíssimo libelo contra a violência sem sentido, contra a violência das guerra, e também a favor da paz. Calma, violência!

Também vale destacar a sólida linha de baixo desenvolvida por Marvin, e a bela adaptação feita por Ernie do solo de Neil Young na gravação original do CSN&Y.

Fire And Rain (James Taylor)– Lançada pelo autor no LP Sweet Baby James (1970).

Uma das canções mais impactantes e pessoais da carreira de James Taylor, Fire And Rain fala sobre drogas e problemas mentais, e aqui aparece com um arranjo genial e swingado na melhor tradição das baladas soul-funk. Alguns trechos remetem à psicodelia da fase Norman Whitfield dos Temptations, bela sacada pela costumeira associação do som psicodélico com as drogas. A versão do autor é definitiva, mas esta aqui fica bem próxima. A performance de Chris Jasper nos teclados também merece destaque.

Lay Lady Lay (Bob Dylan)– Lançada pelo autor no álbum Nashville Syline (1969).

A canção romântica estradeira de Dylan ganha aqui contornos de latinidade, envolvendo o ouvinte de forma hipnótica em seus mais de dez minutos de duração, e com direito a vocalizações encantadoras. Sim, Ronald é o líder vocal, mas as intervenções dos irmãos Rudolph e O’Kelly são sempre certeiras. O momento mais slow jam do álbum, aquelas canções black que gostamos de ouvir com o nosso parceiro-parceira ao lado para curtir junto, seja como for.

Spill The Wine (War)– Lançada por Eric Burdon & War em seu álbum de estreia, Eric Burdon Declares War (1970).
O ex-cantor dos Animal (o britânico Eric Burdon), o dinamarquês Lee Oskar e seis geniais músicos negros norte-americanos criaram no final dos anos 1960 Eric Burdon & War, banda integrando raças sem medo de ser feliz e com muita criatividade musical. A versão dos Isley Brothers de seu maior hit é bem semelhante à gravação original, com direito a muita percussão, ritmo envolvente e “salerosidade” latina.

Nothing To Do But Today (Stephen Stills)– Lançada pelo autor no álbum Stephen Stills 2 (1971).
O segundo álbum-solo do integrante do Buffalo Springfield e do Crosby, Stills, Nash & Young havia saído há pouco, e a escolha de uma de suas faixas pelos Isleys demonstra sua ousadia e atenção ao que estava ocorrendo na cena musical naquele momento. Um rock com pegada percussiva cuja letra enfoca a natureza incerta da trajetória dos músicos, sempre enfatizando em seu refrão que “não temos nada para com que nos preocuparmos além do hoje”.

Cold Bologna (Bill Withers)– Canção até então inédita, que o autor só gravaria em 1973 no álbum duplo ao vivo Live At The Carnegie Hall, em pot-pourry com outra canção e o título Harlem/ Cold Baloney.
Bill Withers estava em vias de estourar com canções como Ain’t No Sunshine e Lean On Me, e viu essa sua composição inédita ser gravada pelos Isleys, com ele se incumbindo da guitarra-solo. Com uma levada balançada e percussiva, Cold Bologna traz o relato de uma criança cuja mãe trabalha na casa de uma família rica, mas que ao chegar em casa só tem a oferecer ao filho e família sanduíches frios de mortadela com maionese para o jantar. O filho, em sua ingenuidade, nem reclama, e até comenta que “se os patrões da minha mãe não comessem toda os bifes, ela certamente traria um pouco para nós”. Tocante, uma canção agridoce do mais alto gabarito.

Love The One You’re With (Stephen Stills)– Lançada pelo autor no seu álbum Stephen Stills (1970).
O maior hit do 1º disco-solo do integrante do CSN&Y mantém a sua levada latina-percussiva e a ênfase em um refrão contagiante. A letra é de um pragmatismo absoluto, tendo como mote “se você não está com quem você ama, ame a pessoa com quem você está”. Lançada em single, trouxe de novo os Isley Brothers às posições mais proeminentes dos charts, atingindo o 18º lugar na parada pop americana. Belo final para um álbum impecável.

Lançado em 25 de setembro de 1971 (data de meu aniversário de 10 anos, por sinal), Givin’ It Back atingiu a 71ª posição na parada pop e a de nº 13 na de r&b. A partir deste trabalho, o grupo passaria a mesclar composições próprias com releituras do pop rock daquele momento (Seals & Crofts, Todd Rundgren, The Doobie Brothers) sempre com os seis irmãos no time. Com a mudança da distribuição de seus discos passando da pequena Buddah para a major CBS em 1973, eles invadiriam de vez as paradas de sucesso e enfim viveriam seus anos de ouro em termos comerciais e também artísticos.

Ouça Givin’ It Back na íntegra em streaming:

Joss Stone mergulha de novo na soul music

Por Fabian Chacur

Um dos grandes momentos da música ocorridos na primeira década deste século ficou por conta da surpreendente estreia da cantora britânica Joss Stone em disco. Uma dessas surpresas das quais a gente dificilmente se esquece, de tão marcante.

Com apenas 16 anos, aquela adolescente loira de cabelos longos e carinha de menina nos ofereceu em 2003 The Soul Sessions, álbum composto basicamente de releituras de clássicos obscuros (porém, espetaculares) da soul music e com direito a um cover personalizado de uma música dos White Stripes de Jack White. Rapidamente, o CD se tornou um clássico precoce, e a garota, uma estrela, atraindo as atenções de todos os fãs do gênero.

Nove anos depois, após lançar quatro álbuns solo, integrar a banda SuperHeavy ao lado de Mick Jagger e gravar e fazer shows com inúmeras estrelas, entre as quais o guitarrista Jeff Beck, Joss retorna ao começo, lançando The Soul Sessions Vol.2 , desta vez pela gravadora Warner. A fórmula é a mesma, mas a voz da gata está amadurecida e ainda melhor.

Novamente, a intérprete escolheu para acompanhá-la mestres da soul music. Desta vez, temos aqui, entre outros, o fantástico guitarrista Ernie Isley, dos Isley Brothers, o tecladista Clayton Ivey, a sublime cantora Betty Wright (que treinou e acompanhou Joss em seu trabalho de estreia) e o baterista Tony Royster Jr., entre outros.

O som é bem vintage, e o repertório foge das obviedades de álbuns de releituras dessa mina de ouro da música, trazendo-nos maravilhas como (For God’s Sake) Give More Power To The People, While You’re Looking Out For Sugar, The High Road, The Love We Had (Stays On My Mind) e Pillow Talk, esta última na verdade um hit pop de 1973 de Sylvia Robinson, a criadora da gravadora Sugarhill, casa inicial do rap no fim dos anos 70.

Joss Stone dá um banho de interpretação nas onze faixas, esbanjando afinação, garra, categoria e alma, muita alma, condição sem a qual esse estilo musical não sai do chão. Afinal, essa vertente seminal da música negra não foi batizada de soul music à toa.

The Soul Sessions Volume 2 será provavelmente a base dos shows que a gata de vozeirão fará no Brasil de 11 a 20 de novembro no Brasil, quando passará por São Paulo (11-Credicard Hall), Belo Horizonte (13-Chevrolet Hall), Rio (15-Citibank Hall), Florianópolis (17-Stage Music Park) e Porto Alegre (20-Pepsi On Stage). Informações mais detalhadas e preços dos ingressos: 4003-5588 e www.ticketsforfun.com.br .

While You’re Looking For Sugar, com Joss Stone, ao vivo no Rock in Rio 2011:

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