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Freedom (1989), o álbum que trouxe Neil Young de volta ao lar

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Por Fabian Chacur

Neil Young sempre teve como marca registrada a imprevisibilidade. Em seus mais de 50 anos de trajetória artística, este cantor, compositor e músico canadense nunca teve medo de arriscar mudanças repentinas nos rumos de sua música. Muito produtivo e com uma quantidade enorme de itens em sua discografia, ele tem alguns trabalhos que se sobressaem por sua importância artística e estilística, e um deles, Freedom, está celebrando 30 anos de seu lançamento.

A década de 1980 foi certamente o período mais conturbado e menos popular da carreira do astro canadense. Ele iniciou essa era com um álbum bastante irregular, Re-Ac-Tor (1981). Logo após, saiu da gravadora Reprise para entrar na Geffen Records, onde ficou até 1987. Logo na estreia, assustou a todos ao apresentar Trans (1982), um mergulho inusitado na música eletrônica que não atraiu a atenção do público e não entusiasmou a crítica.

A partir daí, Young atirou para diferentes direções musicais. Rockabilly em Everybody’s Rockin’ (1983), country tradicional em Old Ways (1985) e rock básico com sonoridade modernosa em Landing On Water (1986) e Life (1987). O resultado comercial piorou de disco pra disco, o que gerou uma reação absolutamente absurda por parte da gravadora criada e dirigida pelo polêmico e bem-sucedido empresário David Geffen.

Ele simplesmente resolveu processar Neil Young, alegando que o artista estaria lançando discos totalmente fora de sua sonoridade habitual simplesmente para prejudicar a Geffen Records. O executivo perdeu a disputa, mas ficou nítido que não havia mais clima para que o criador de Harvest (1972) ficasse por lá.

Em 1987, de volta à Reprise (parte do conglomerado Warner), Neil reestreia na gravadora com outro disco improvável, This Note’s For You, no qual é acompanhado por uma banda de sonoridade blues/rhythm and blues com direito a sessão de metais e tudo. A faixa-título, ironizando o mundo da música e da relação com seus patrocinadores, consegue alguma repercussão, mas mantém o artista na parte mais baixa das paradas de sucesso.

Volta às raízes e bom resultado comercial

É neste cenário que Neil Young começa a trabalhar em um novo álbum. Em entrevistas dadas na época de lançamento, ele explicou suas intenções com esse lançamento: “Eu quis fazer um álbum Neil Young per se, sem assumir nenhum outro personagem que não eu mesmo; o produto final é quase como ouvir o rádio, que se mantém mudando e indo de uma coisa para outra”.

E foi exatamente isso o que ele fez. Trata-se do primeiro álbum de Neil Young evidentemente concebido especialmente para o formato CD, pois ultrapassa os 60 minutos de duração em suas 12 faixas. Nele, nada de incursões em sonoridades nunca antes experimentadas pelo artista.

No entanto, a diversidade de sons e de climas prevalece, assim como a inspiração das composições, prova de que valeu a pena ficar um tempão longe de sua “casa musical”, pois quando enfim voltou, o cara sentia saudades…

Fórmulas são reutilizadas em todo o álbum, sendo a mais evidente usar a mesma música na abertura e no encerramento, em versões acústica e elétrica, tal qual havia feito em Rust Never Sleeps (1979). Só que, desta vez, Rockin’ In The Free World se mostra mais maleável para a tarefa do que Hey Hey My My/My My Hey Hey, ficando ótima tanto na leitura voz e violão (gravada ao vivo em show em Long Island, EUA) quanto na elétrica e visceral que fecha o disco.

Rockin’ in The Free World tem uma letra que flagra o horror do mundo moderno em cenas como a de uma jovem mãe, que odeia o que fez com sua própria vida, abandonando o filho recém-nascido em uma lata de lixo, “mais uma criança que nunca irá à escola, nunca se apaixonará, nunca será cool”.

Rapidamente, tornou-se um verdadeiro hino do rock, e provavelmente a canção mais popular da carreira de Neil Young, sendo tocada ao vivo por artistas tão distintos como Pearl Jam, Bon Jovi, Suzy Quatro e G3.

Do folk romântico ao rock ardido

Duas das faixas incluídas em Freedom haviam sido gravadas para This Note’s For You, mas ficaram de fora. A hipnótica e longa Crime In The City (Sixty To Zero Part I) equivale a outra polaroide urbana, com direito a uma visão irônica de um produtor de discos que pede a seu assistente que lhe arrume um compositor “que tenha fome e seja solitário, e também me traga um cheeseburger e a nova edição da revista Rolling Stone”.

A outra dessa origem é a maravilhosa Someday, uma balada com tempero r&b cuja letra explora as várias possibilidades de finalizar uma situação que seu título (algum dia, em tradução livre) sugere, sendo o mais belo o da estrofe final: “abrace-me, querida, ponha seus braços em volta de mim, dê-me todo o amor que você tiver para me dar, amanhã poderá ser tarde, nós não temos de esperar por algum dia, não temos que esperar por algum dia”.

Vale registrar que mesmo em uma faixa tão bela e lírica, Young guarda lugar para pequenas passagens irônicas, como em uma estrofe sobre pregadores religiosos de TV e outra refente a trabalhadores em gasodutos, ambas com direito a corais, um reproduzindo a alucinada pregação dos pastores e outro o canto dos trabalhadores. O efeito é delicioso. A rádio Eldorado FM, em São Paulo, tocava Someday em sua programação, naquela época.

Ecos de Harvest e Comes a Time

Freedom oferece aos fãs de Neil Young algumas canções com ecos do trabalho mais melódico do artista em álbuns clássicos como Harvest (1972) e Comes a Time (1978). A estrela Linda Ronstadt, que participou dos megahits Heart Of Gold e Old Man, marca presença em duas maravilhas deste álbum.

No melhor esquema vozes e violão, Young e Ronstadt nos oferecem harmonizações vocais deliciosas e muita delicadeza na puramente folk Hangin’ on a Limb. Com outros músicos no acompanhamento, The Ways Of Love tem uma pegada mais country e traz como marca genial o arranjo baseado no Bolero de Ravel para o refrão, além da pedal steel guitar do iluminado Ben Keith.

Músicos que fizeram toda a diferença

Para acompanhá-lo neste álbum seminal, Neil Young convocou gente do mais alto gabarito. A cozinha rítmica é integrada por Chad Cronwell (bateria) e o saudoso Rick The Bass Player Rosas (baixo-1949-2014), que se mostram uma parceria sólida, consistente e versátil, encarando com categoria as diferenças rítmicas existentes durante todo o álbum.

Quando precisou de um segundo guitarrista, Young se valeu do talentoso Frank Poncho Sampedro, do grupo Crazy Horse, que também se incumbiu dos teclados. E temos também outro cara saudoso, Ben Keith (1937-2010), que além de sua marca registrada, a pedal steel guitar, também se incumbe do sax alto.

Completa o time o produtor e técnico de som Niko Bolas, que ao lado de Neil Young forma uma dobradinha batizada por eles como The Volume Dealers, com direito a logotipo próprio e tudo, parceria que rendeu muita coisa boa.

Faixas longas, homenagem a Jimi Hendrix…

Uma das grandes virtudes de Freedom é não entediar o ouvinte em momento algum. Na pesadíssima Don’t Cry, por exemplo, temos uma intencional ou não homenagem a Jimi Hendrix, pelo fato de o andamento e o arranjo lembrarem o de Voodoo Chile (Slight Return), do genial guitarrista. Uma porrada!

Longa e elaborada, Eldorado demonstra influência flamenca e traz ecos de faixas do artista dos anos 1970 como Cortez The Killer. Aliás, Eldorado saiu inicialmente em um EP que leva seu nome lançado apenas no Japão e na Austrália em abril de 1989, que trazia as faixas Don’t Cry, On Broadway e Eldorado e duas que não entraram em Freedom, Heavy Love e Cocaine Eyes.

No More também possui longa duração, por volta de seis minutos, e uma sonoridade intrigante, algo como um rock levemente ardido com um delicioso e cristalino riff de guitarra. A letra envolve a questão das drogas e da dificuldade não só de abandoná-las como também de substituir o lado bom de seu efeito por algo mais saudável e melhor.

Um belo cover e o momento mais rural

A única faixa que não leva a assinatura de Neil Young é a clássica On Broadway, obra dos lendários compositores Jerry Leiber, Mike Stoller, Barry Man e Cynthia Weil, lançada com sucesso pelo grupo vocal The Drifters em 1963 e cuja melhor gravação foi feita por George Benson no ao vivo Weekend In L.A. (1978).

A versão de Young é pesadíssima, com o apoio preciso de Rosas e Sampedro na cozinha e ele soltando o verbo na guitarra, em uma das melhores performances dele nesse instrumento durante todo o álbum.

A delicada Wrecking Ball, em tom menor, equivale a um momento no qual o astro canadense de certa forma investe em uma levada próxima da bossa nova, com um resultado incrível. E o lado mais caipira do álbum fica por conta de Too Far Gone, com todo aquele jeitão de country de Nashville dos tempos mais antigos.

Um disco de ouro após dez longos anos

Em termos de posição na parada de sucessos Freedom não voou tão alto, atingindo apenas o 35º lugar na lista apurada pela revista Billboard. Mas sua vendagem foi sólida, proporcionando ao roqueiro o seu primeiro disco de ouro em dez anos. O último havia sido em 1979, com o álbum ao vivo Live Rust.

Um grande e influente retorno à forma

Se as experiências que fez com outros ritmos e sons no período entre 1981 e 1988 foram extremamente válidas e com alguns momentos interessantes, elas também lhe renderam um certo descaso por parte de crítica e público. Com Freedom, ele ganhou novamente o coração desses dois setores, e iniciou uma nova fase dourada em sua carreira.

Não é de se estranhar que ele logo a seguir tenha sido considerado uma espécie de precursor do grunge, e novamente reverenciado em shows e na compra de discos por uma nova geração. Um reconhecimento merecido.

Nada melhor do que quando o artista consegue ser fiel a seus princípios artísticos e ao mesmo tempo obter um bom resultado comercial, e este é o grande mérito de Freedom, um dos melhores trabalhos da carreira desse nome indiscutível da história do rock and roll.

Faixas de Freedom:

Rockin’ In The Free World
Crime In The City (Sixty To Zero Part 1)
Don’t Cry
Hangin’ On a Limb
Eldorado
The Ways Of Love
Someday
On Broadway
Wrecking Ball
No More
Too Far Gone
Rockin’ In The Free World

Ouça Freedom na íntegra em streaming:

George Michael se revela por completo em documentário

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Por Fabian Chacur

Muitas pessoas questionam a idoneidade de documentários sobre artistas que contam com a autorização dos mesmos para serem realizados, pois teoricamente permitiriam a eles ocultar fatos de suas vidas que achassem convenientes serem escondidos. No caso de George Michael, fica difícil contestar Freedom, que ele codirigiu e criou em parceria com o diretor David Austin. Lançado na Inglaterra em outubro de 2017, ele será exibido nesta sexta (6) às 7h e neste sábado (7) às 11h50 no canal a cabo Bis (saiba mais aqui).

O documentário estava praticamente concluído quando o cantor, compositor e músico britânico nos deixou, no dia de natal de 2016. Esse fato é revelado em seus primeiros minutos, pela modelo Kate Moss. Acabou se tornando uma espécie de despedida do astro, e de uma forma franca, aberta e abrangente. Temos entrevistas antigas e outras feitas especialmente para a atração por ele, além de depoimentos de celebridades como Elton John, Stevie Wonder, Ricky Gervais, Liam Gallagher, Nile Rodgers, Clive Davis, Mary J. Blige e diversos outros.

Valendo-se de vasto material de arquivo, o filme mostra George desde seus tempos de Wham!, duo criado com o amigo de infância/adolescência Andrew Ridgeley que o emplacou no primeiro escalão da música pop na primeira metade dos anos 1980, passando pelo megaestouro na carreira solo logo com seu primeiro álbum nessa fase, Faith (1987), que vendeu mais de 20 milhões de cópias em todo o planeta e permitiu a ele encarar Madonna, Michael Jackson e Prince na época, em termos de popularidade e prestígio.

Sem papas na língua, o autor de Father Figure admite que após os dez meses de duração da turnê que divulgou Faith, em 1988, ficou no “limite da sanidade”, e que, por isso, resolveu tomar uma opção radical para seu próximo álbum, Listen Without Prejudice Vol.1 (1990): não teria sua foto na capa do disco, não apareceria em seus videoclipes e também não promoveria o álbum com entrevistas.

O escritório americano da gravadora Sony, com a qual ele tinha contrato, não aceitou a proposta, e passou de forma velada a sabotar a divulgação do trabalho. Isso gerou uma extensa briga jurídica que levou o astro e a gravadora aos tribunais, em um processo que durou anos e se encerrou de forma desvantajosa para Michael. Esse embate é ilustrado com depoimentos do cantor e também de integrantes da sua equipe e da direção da gravadora naquele período, dando uma visão bem abrangente das posições dos lados envolvidos. Bem democrático.

Se depois conseguiu dar continuidade à sua carreira, esse lado profissional conturbado teve outro ponto a agravar a vida do artista na primeira metade da década de 1990: seu breve, porém marcante relacionamento com o brasileiro Anselmo Feleppa (1956-1993), que conheceu quando se apresentou no Rock in Rio, em janeiro de 1991. “Fui feliz com ele como nunca havia sido antes na minha vida”, afirma. Ele dedicou a música Jesus To a Child e o álbum Older (1996) ao ex-companheiro, além de definir esse CD como sobre luto (sua mãe morreu na mesma época, outro duro golpe sofrido por ele) e recomeço.

Bem franco ao falar sobre sua vida pessoal e profissional, Michael também é bem descrito por seus amigos e parceiros. Uma boa surpresa é saber o quanto o sempre ácido e irreverente Liam Gallagher, ex-vocalista do Oasis, era fã dele, elogiando-o de forma entusiástica. Stevie Wonder comenta sobre a química existente entre ele e George, que regravou e cantou em shows diversas músicas do autor de You Are The Sunshine Of My Life: “é algo que não dá para fingir”.

Um ponto bacana da personalidade de George Michael descrita pelo ator Ricky Gervais é a sua capacidade de nunca fugir de um assunto, mesmo os mais constrangedores ou polêmicos, como sua homossexualidade ou escândalos protagonizados por ele. O videoclipe da sensacional Freedom 90, protagonizado pelas cinco supermodelos mais badaladas da época, também é destrinchado de forma minuciosa, com depoimentos das beldades envolvidas.

Lógico que, em meio a tudo isso, a obra do astro pop aparece com destaque, ficando claro o como esse cara nos deixou um legado muito precioso em termos musicais, passando por pop, rock, black music, jazz etc, sempre com uma voz poderosa e recheada de alma. Compositor talentoso, ele também sabia como poucos interpretar material alheio, como suas expressivas e vibrantes releituras de Somebody To Love (Queen) e As (Stevie Wonder) deixam bem claro.

Franco, direto e sem maquiar incoerências e fraquezas, Freedom (o documentário) nos mostra um ser humano contraditório, mas repleto de pontos positivos, e que merece ser relembrado por tudo o que fez de bom durante seus 53 anos de vida. Um filme que nos faz rir, refletir, chorar e principalmente querer ouvir cada vez mais os ótimos trabalhos que George Michael nos deixou, um legado mais do que precioso.

Freedom ainda não foi lançado em DVD/Blu-ray, só estando disponível na programação de canais a cabo ou de streaming por demanda. Se sair em formato físico, compre na hora, se for fã do artista, pois valerá cada centavo que você pagar por ele. E uma dica: prepare o lenço na parte final de seus 95 minutos de duração, pois fica difícil não verter lágrimas, muitas lágrimas, nesses instantes finais.

Veja trechos do documentário Freedom:

Morre Richie Havens, destaque de Woodstock

Por Fabian Chacur

Morreu nesta segunda-feira (22) em sua casa em Jersey City (New Jersey, EUA) o cantor, compositor e músico Richie Havens, um mestre da música folk. Destaque no festival de Woodstock em agosto de 1969, no qual fez o show de abertura, o artista americano foi vítima de um ataque cardíaco, e tinha 72 anos de idade.

Richie nasceu em 21 de janeiro de 1941, e começou sua trajetória artística atuando em dois segmentos seminais da música negra norte-americana, o doo-wop e o gospel. Posteriormente, mergulharia de cabeça na música folk, mas nunca deixando de lado o delicioso tempero fornecido por suas opções iniciais na música.

Sua atuação no festival de Woodstock, em 1969, ajudou a lhe abrir as portas em termos de popularidade, especialmente após o lançamento do documentário sobre o evento, no qual aparece em apaixonada e vibrante atuação interpretando a canção Freedom, que virou sua marca registrada. Ele a regravaria (muito bem, por sinal) em 2009 para a trilha do delicioso filme Aconteceu Em Woodstock (Taking Woodstock, 1969), de Ang Lee.

Além de compor músicas, Havens também se mostrou em sua carreira um brilhante releitor de composições alheias, especialmente de Bob Dylan e dos Beatles. Um de seus maiores sucessos foi Here Comes The Sun, de George Harrison, assim como Eleanor Ribgy (Lennon-McCartney) e Just Like a Woman (Dylan), entre outros covers inspirados.

Dessas releituras, uma de minhas favoritas é Arrow Through Me, que Paul McCartney escreveu e lançou no último álbum dos Wings, Back To The Egg (1979). A versão de Richie Havens está no álbum Simple Things (1987), que se não me falha a memória me foi apresentada pelo amigo Giovanni Dell’Isola Neto.

O astro americano lançou uma autobiografia, They Can’t Hide Us Anymore, em 2000. O último álbum de inéditas de Havens, Nobody Left To Crown, saiu em 2008. Ele também participou do filme Não Estou Lá (I’m Not There, 2007) interpretando a canção Tombstone Blues, de Bob Dylan, em cuja vida o filme foi inspirado.

Em março deste ano, Richie Havens anunciou o fim de sua carreira em termos de turnês e shows, alegando problemas de saúde. Infelizmente, o temor em torno de sua morte acabou se concretizando de forma mais rápida do que o esperado. Fica a saudade de mais um grande nome revelado no mais icônico festival de rock de todos os tempos que nos deixa.

Ouça Arrow Through Me, com Richie Havens:

Freedom, com Richie Havens, do filme Woodstock:

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