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Walter Becker, do Steely Dan, sai do cenário pop aos 67 anos

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Por Fabian Chacur

No dia 28/8, o grande Tony Babalu me mandou por e-mail uma música de um dos guitarristas que citou em sua lista de favoritos, o americano Walter Becker. Somebody’s Saturday Night simplesmente me fascinou, ainda mais por ser de um disco que eu desconhecia, Circus Power (2008), o único dele ou da banda que o tornou famoso, a Steely Dan, que eu não tenho. Na tarde deste domingo (3), sem ter entrado na internet, resolvi ver o DVD Classic Albums que conta a história do delicioso álbum Aja (1977). Só aí, no finalzinho da noite, é que conferi as notícias. E tomei essa paulada na fuça!

Na manhã deste domingo, foi anunciada a morte deste espetacular guitarrista, baixista, compositor, produtor e eventual vocalista, por razões não divulgadas. O cara tinha apenas 67 anos. Nem é preciso dizer que diversos músicos manifestaram o seu enorme pesar por essa grande perda, especialmente o seu parceiro de Steely Dan, o cantor, compositor, músico e produtor Donald Fagen, que promete preservar a obra do grupo e do amigo.

Walter Becker nasceu em Queens, Nova York, em 20 de fevereiro de 1950, e conheceu Donald Fagen no Bard College, quando ambos eram ainda adolescentes. A amizade logo virou parceria musical, e em 1969 eles foram morar juntos no Brooklin para iniciar uma carreira como compositores. Eles até tiveram um belo êxito, que foi ver sua canção I Mean To Shine gravada pela estrela Barbra Streisand em seu álbum Barbra Joan Streisand (1971), que atingiu o 11º posto na parada americana. Mas as coisas não foram muito além disso.

Convidados pelo produtor Gary Katz para integrar o elenco de compositores da gravadora ABC, eles gravaram muitas demos, como já haviam feito antes, mas ninguém topava gravar. Inteligente, Katz percebeu que o material era ótimo, mas muito sofisticado, e resolveu incentivá-los a gravar por conta própria. Nascia o Steely Dan, que estreou em 1972 com o álbum Can’t Buy a Thrill, trabalho no qual misturam rock, pop, música latina e jazz de forma brilhante.

Graças a hits como Do It Again e Reeling In The Years, o álbum levou o grupo para a estrada, mas desde o início ficou claro que Fagen e Becker não era fãs de turnês. Tanto que, em 5 de julho de 1974, quando faziam a turnê de seu terceiro álbum, Pretzel Logic, resolveram largar os palcos e se concentrar apenas na gravação de seus discos. Isso os tornou posteriormente um duo de fato e de direito.

Até o fim dos anos 1970, os amigos mergulharam em uma sonoridade mais sofisticada, com direito a soul, funk e jazz e moldada com o apoio dos melhores músicos de estúdio que o dinheiro podia contratar. Entre outros, gravaram com eles Michael McDonald (que depois iria para os Doobie Brothers e posteriormente viraria artista solo), Jeff Skunk Baxter (também foi para os Doobie Brothers), integrantes que criariam o Toto e muitos outros.

O perfeccionismo de Becker e Fagen chegou ao ponto de, no álbum Aja (1977), que alguns consideram sua obra prima, eles montarem uma banda para cada música. Embora sofisticado, seu som conseguiu ótimo resultado comercial, e pode ser considerado uma das principais influências para o som que dominou as FMs dos EUA e de boa parte do mundo nos anos 1980, música consistente e apelo popular suficiente para torna-la viável comercialmente.

Após passar por vários problemas pessoais, como a morte de uma namorada em seu apartamento em 1978 e ser atropelado por um taxi logo depois, além do consumo de drogas e a pressão pelo sucesso, Becker sentiu o baque. O Steely Dan lançou em 1980 o álbum Gaucho, e em junho de 1981, anunciou sua separação. Donald Fagen mergulhou na carreira solo, enquanto Becker foi morar com a família em Maui, Havaí, e desacelerou sua vida musical, produzindo alguns trabalhos para Ricky Lee Jones, China Crisis, Fra Lippo Liipi e Michel Franks.

A partir de 1986, os amigos voltaram a manter eventuais contatos. Em 1991, Becker participou de shows do projeto New York Rock And Soul Revue, liderado por Fagen e que se dedicava a reler clássicos da soul music. O entusiasmo dos dois foi tão grande que em 1993, 19 anos após seu último show, o Steely Dan voltava à tona para uma turnê que gerou em 1995 um ótimo álbum ao vivo, intitulado Alive In América.

Um pouco antes disso, Fagen lançou o disco solo Kamakiriad (1993), produzido por Becker, que por sua vez veio em 1994 com seu primeiro trabalho individual, 11 Tracks Of Whack, com produção do parceiro.

Em 2000, enfim os fãs puderam comemorar um novo álbum de material do grupo, Two Against Nature. E valeu a espera. Além de vender bem e atingir o sexto posto na parada americana, o CD ainda proporcionou a eles quatro troféus Grammy, incluindo o de álbum do ano. Everything Must Go (2003) veio a seguir, e seria o último trabalho de estúdio da banda, outro sucesso de vendas e de crítica.

Em 2008, Walter Becker lançou seu segundo álbum solo, o ótimo Circus Power, no qual tocou baixo e guitarra e também cantou. Na parceria, Fagen se incumbia mais dos vocais e dos teclados, enquanto Becker esbanjava categoria na guitarra e no baixo. Vale lembrar que o Steely Dan conseguiu conquistar desde fãs de rock até os do jazz, sendo uma daquelas bandas que os melhores músicos costumam citar frequentemente entre suas preferência.

Só pra variar, eu conheci o Steely Dan graças ao meu saudoso irmão mais velho, Victor, que em 1972 comprou o compacto com Do It Again de um lado e Fire In The Hole do outro. A levada meio latina e bem hipnótica da primeira me cativou rapidamente, e até hoje é uma de minhas músicas favoritas deles. Duro saber que não teremos novos discos nem da banda, nem de Becker. Que jeito besta de começar setembro!

Somebody’s Saturday Night– Walter Becker:

Antonio Adolfo relê o Wayne Shorter no ótimo CD Hybrido

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Por Fabian Chacur

Uma das vantagens de você ser o seu próprio patrão é criar pautas próprias sem depender de aprovação dos outros. Por isso, nesses 11 anos de Mondo Pop, pude me divertir escrevendo sobre artistas de que gosto muito. Mais: dando espaço a alguns deles, que nem sempre tem a atenção que merecem. Antônio Adolfo é um dos campeões de posts aqui. Se tiver alguma dúvida, confira neste link aqui e leia algumas das matérias publicadas no blog sobre ele.

Além de sua importância e currículo invejável no cenário da nossa música, Antonio Adolfo possui outra grande virtude: a vitalidade. Ele, que completou 70 anos no último dia 10 de fevereiro, continua mais ativo do que nunca, com constantes shows e lançamentos de novos álbuns. E cada novo disco vem com aquele rigor estilístico e com temáticas diferentes entre si e ao mesmo tempo pertinentes, tendo como regra o prazer e a paixão pela boa música popular.

Nem é preciso dizer que Hybrido- From Rio To Wayne Shorter, seu novo CD, não foge a esse alto parâmetro artístico. O músico carioca, desta vez, mergulhou na obra do genial saxofonista e compositor americano Wayne Shorter e trouxe de seu rico repertório oito composições, que receberam novos arranjos e foram tocados com swing, categoria e sentimento pelo músico e uma banda afiadíssima.

Além do próprio Antonio no piano e arranjos, temos em cena Lula Galvão (guitarra), Jorge Helder (contrabaixo), Rafael Barata (bateria e percussão), André Siqueira (percussão), Jessé Sadoc (trompete), Marcelo Martins (sax tenor e soprano e flauta) e Serginho Trombone (trombone). Zé Renato (vocais) e Claudio Spiewak (violão) fazem participação especial. Um timaço, conduzido com a competência habitual pelo dono da festa, que dá espaço para que todos brilhem.

Além das oito composições, escolhidas principalmente da produção de Shorter da década de 1960, temos também uma obra própria, Afosamba. A ideia foi mesclar as belas melodias e o teor jazzístico de maravilhas como Deluge, Footprints, Speak No Evil, Beauty And The Beast e E.S.P. com elementos da nossa música, e o resultado não poderia ser melhor, renovando clássicos sem os violentar.

Vale lembrar que Wayne Shorter, conhecido por seu trabalho com Miles Davis e por ter criado o influente e bem-sucedido grupo Weather Report, sempre foi um fã confesso da música popular brasileira, vide o álbum que gravou em 1974 em parceria com Milton Nascimento, Native Dancer, só para citar uma dessas colaborações. Aos 83 anos, ele dificilmente não se encantará ao ouvir novas versões tão quentes de suas composições. Mais um golaço de Antonio Adolfo, e mais um post sobre ele em Mondo Pop. Que venham muitos outros!

Viralata- Antonio Adolfo (álbum em streaming):

Morre Paco De Lucia, mestre do violão

Por Fabian Chacur

Morreu na manhã desta quarta-feira (26) aos 66 anos de idade, vítima de um ataque cardíaco, o consagrado músico espanhol Paco De Lucia, considerado um grandes mestres do violão flamenco. Segundo o site americano da revista Billboard, o violonista estava na praia de Tulum, no México, brincando com o filho, quando se sentiu mal. Ele foi socorrido, mas não resistiu e faleceu quando estava a caminho do hospital.

Nascido na Espanha em 21 de dezembro de 1947, Francisco Sánchez Gomes era filho do também guitarrista flamenco Antonio Sánchez e de Lucia Gomes, de quem adotou o nome artístico. Desde pequeno se dedicou ao violão, e tocou durante anos com o influente cantor Camarón De La Isla. Ele começou a se destacar como artista solo graças ao sucesso de Entre Dos Aguas, gravada nos anos 70 e um de seus grandes momentos musicais.

Embora tenha sido um dos representantes máximos do tradicional estilo flamenco de violão, Paco nunca fechou seus horizontes musicais, e ficou célebre ao ter parcerias com grandes músicos, como por exemplo Carlos Santana e Chick Corea. Em 1979, criou o The Guitar Trio ao lado dos jazzistas Larry Coryell e John McLaughlin, com quem gravou o vídeo Meeting Of The Spirits (1979), lançado há alguns anos no Brasil em DVD.

Em 1981, com Al Di Meola na vaga de Larry Coryell, o Trio gravou o célebre álbum ao vivo Friday Night In San Francisco, trabalho instrumental de jazz que se tornou um dos mais vendidos do gênero e que lhe deu ainda mais popularidade. O músico autodidata afirmou em várias entrevistas que aprendeu muita coisa com esses colegas do mundo do jazz em termos técnicos, aprimorando-se ainda mais profissionalmente.

Além de fazer shows solo e de também montar um sexteto do qual participavam os irmãos Ramón e Pepe, Paco De Lucia gravou com inúmeros outros artistas. Em 1989, ele participou da música Oceano, um dos maiores sucessos da carreira de Djavan. Em 1995, a parceria foi com Bryan Adams em Have You Ever Really Loved a Woman, trilha do filme Don Juan DeMarco e primeiro lugar nos EUA no formato single.

O músico espanhol tocou no Brasil pela primeira vez em 1986, e nos visitou pela vez derradeira no final de 2013, quando fez shows bastante elogiados após 16 anos longe de nossos palcos. Em 2008, Entre Dos Aguas integrou com destaque a trilha do filme Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, o que o ajudou a se tornar mais popular perante as novas gerações.

Ouça Entre Dos Aguas, com Paco De Lucia:

Have You Ever Really Loved a Woman, com Bryan Adams e Paco De Lucia:

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