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Novo Tempo (1980): Ivan Lins consolida e cria outros caminhos

ivan lins novo tempo

Por Fabian Chacur

Em 1980, Ivan Lins encerrou a sua passagem pela EMI-Odeon, período iniciado em 1977. De todas as fases de sua brilhante carreira como cantor, compositor e músico, esta pode ser considerada a de maior brilhantismo e criatividade. O astro carioca lançou por aquela gravadora quatro excelentes álbuns. O que pôs ponto final a esse período, Novo Tempo, traz peculiaridades muito interessantes que dão a este trabalho uma grande importância em sua discografia.

Pra começo de conversa, a fase EMI-Odeon de Ivan serviu para consolidar a parceria entre ele, Vitor Martins e Gilson Peranzzetta. Com o poeta, cujo marco inicial é a maravilhosa Abre Alas (de 1974), firmou-se uma dobradinha de entendimento impecável, com versos inspirados sobre relacionamentos, a condição humana e a situação política daquele momento de trevas no Brasil sempre musicados com melodias deliciosas e originais.

Em termos musicais, Gilson Peranzzetta, que iniciou seu trabalho com Ivan Lins no LP Chama Acesa (1975, lançado pela gravadora RCA), mostrou-se o lugar-tenente perfeito, em uma combinação de dois tecladistas que se completam de forma precisa, cirúrgica mesmo. De quebra, seus arranjos e orquestrações ajudaram a dar a cada canção a moldura adequada, sem amarras ou limitações estilísticas. Valia tudo, desde que fosse bem feito e coerente.

Essa trinca incrível deu seus passos iniciais rumo à perfeição em Somos Todos Iguais Nessa Noite (1977), estreia na EMI, e atingiria seu auge criativo nos sublimes Nos Dias de Hoje (1978, leia a resenha aqui) e A Noite (1979, leia a resenha aqui). Como igualar tanta qualidade e sucesso logo a seguir?

Esse foi provavelmente o principal desafio de Novo Tempo. E Ivan o encarou com garra, e incorporando as características daquele momento. No Brasil, vivíamos o início de uma abertura política, que tinha como marco principal a Lei da Anistia, que permitiu o retorno ao país de diversos exilados políticos. Havia esperança no ar, mesmo que a ditadura militar continuasse, com o General Figueiredo na presidência. Eis a inspiração que gerou a maravilhosa canção que deu nome a este álbum. Esperança permeada por temores.

Novo Tempo, a canção, é quase que um contraponto a Aos Nossos Filhos (1978), uma torcida intensa para que dias melhores estivessem mais perto do que se imaginava há apenas dois anos. “No novo tempo, apesar dos perigos, a gente se encontra, cantando na praça, fazendo pirraça, pra sobreviver”. Bem, seriam mais cinco longos anos de ditadura, mas é melhor seguir no tema música.

Nesse mesmo espírito, surgiu Coragem, Mulher, inspirada no triste Caso Marli, ocorrido em 1979, quando PMs invadiram um barraco em Belford Roxo (RJ) e sequestraram e mataram um rapaz, Paulo Pereira Soares, de 18 anos, que acabou sendo morto com 12 tiros por três policiais militares.

Sua irmã, Marli Pereira Soares, uma empregada doméstica, encarou o desafio de reconhecer os assassinos de Paulo, oriundos do 20º Batalhão de Polícia Militar de Belford Roxo. A moça tinha 25 anos, e virou um símbolo da resistência contra a violência policial afligindo os pobres.

“Como te atreves a mostrar tanta decência, de onde vem tanta ternura e paciência, qual teu segredo, seu mistério, seu bruxedo, pra te manter em pé até o fim”. Uma bela homenagem a uma personagem de nossa história recente que, infelizmente, ainda sofreria muito nos anos seguintes, com direito a ter sua casa saqueada e incendiada, além de perder um filho e um afilhado também vítimas da violência, já nos anos 1990.

Duas das canções do disco poderiam ter feito parte do trabalho anterior em termos temáticos, A Noite, pois são centradas em complicadas relações afetivas. Curiosamente, elas mostram dois caminhos possíveis para um casal em fase complicada. Uma, Bilhete, encerra a partida de vez, com direito a mala na porta, pedido de chave de volta e um adeus sem muita vontade de um novo contato.

Enquanto isso, Virá reflete o ponto de vista de quem não se conformou com o final, e aguarda, paciente, o retorno do parceiro-parceira: “virá, de qualquer jeito virá, virá a contragosto, virá por amizade, virá por desespero, virá por cama e comida, por boa bebida, por dinheiro”.

Também retomando caminhos anteriores, a rural Sertaneja nos traz ecos de Ituverava (1977), bela homenagem de Vitor Martins a sua cidade natal, enquanto Barco Fantasma vem da mesma lavra inspirada na música portuguesa que gerou a inspirada Um Fado (1977).

A única canção de fora do núcleo Ivan-Vitor-Gilson é a inspirada releitura de Coração Vagabundo (1967), de Caetano Veloso, que de certa forma dialoga em termos poéticos com Novo Tempo, com versos como “meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”.

Desde o início de sua carreira, Ivan Lins sempre se mostrou aberto à mistura da música brasileira com elementos do jazz, soul e r&b. Na fase EMI, pode-se dizer que um novo formato dessa vertente surge em Dinorah Dinorah (1977), com uma levada mais moderna e próxima da sonoridade internacional. Não por acaso, essa música foi regravada por George Benson no álbum Give Me The Night, lançado naquele mesmo 1980 e que também inclui Love Dance (Ivan Lins, Gilson Peranzzetta e Paul Williams).

Há pelo menos duas representantes dessa sonoridade híbrida e genial neste álbum: a faixa-título, que alguns afirmam ter sido cogitada para entrar em um álbum de Michael Jackson (Thriller, para ser mais preciso), e a fantástica Arlequim Desconhecido, que abre o álbum. Ambas seriam regravadas por artistas internacionais posteriormente, e não por acaso, pois se encaixam feito luva na sonoridade jazz-pop então prevalente nas rádios americanas.

Uma faixa é totalmente à parte do resto do material. Trata-se de Setembro, assinada por Ivan e Gilson e dividida em duas partes, Antonio e Fernanda e Caminho de Ituverava. Sem letra, ela traz vocalizações arranjadas pelo genial Tavito, cordas e um clima que em alguns trechos pode nos levar surpreendentemente à fase mais experimental dos Beach Boys.

Outro momento muito significativo é a encantadora Feiticeira, canção leve, romântica e delicada com direito a um arranjo ousado que incorpora elementos de baião. Pode-se considerá-la uma espécie de pioneira de uma veia da obra de Ivan que posteriormente nos renderia sucessos maravilhosos do porte de Vitoriosa (1986) e Iluminados (1987).

Entre os músicos participantes do álbum, todos ótimos, um merece destaque especial. Trata-se de Alex Malheiros, baixista do grupo Azymuth que marca presença em 9 das 10 faixas. Sua forma moderna e swingada de tocar ajudou a dar uma roupagem mais próxima do jazz-funk americano ao som do disco, com direito a alguns momentos absurdamente inspirados. Ouça suas linhas de baixo em Arlequim Desconhecido, Setembro e Novo Tempo e tente não concordar comigo.

Curiosamente, nos créditos do álbum, Malheiros é identificado apenas como “Alexandre”, o que me levou a fazer uma extensa pesquisa para descobrir quem era esse cara, até que consegui a resposta ao ouvir uma entrevista feita por Nelson Faria com o saudoso baixista Arthur Maia, no qual ele relembra que entrou na banda de Ivan Lins para substituir precisamente Alex Malheiros, que gravou Novo Tempo mas não participou da turnê.

A embalagem de Novo Tempo também merece ser elogiada. Na capa, Ivan aparece com a camisa aberta, com jeitão de quem está pronto pra qualquer parada. Na parte interna e na contracapa (a capa é dupla), Ivan está ao lado dos parceiros Martins e Peranzzetta, sendo que em uma foto eles compartilham um jornal com manchetes típicas de um país pressionado por momentos difíceis.

Se não fez tanto sucesso como os trabalhos anteriores pela EMI, Novo Tempo conseguiu manter Ivan Lins nas paradas de sucesso e lotando os seus shows. Típico disco de transição, encerrou com classe uma fase brilhante de sua carreira e, por tabela, deu o pontapé inicial em outra, também das mais ricas. Mas essa é uma outra história, que a gente conta futuramente.

Ouça músicas de Novo Tempo em streaming:

Ivan Lins será homenageado com live por seus 75 anos de idade

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Por Fabian Chacur

Nesta terça-feira (16) o grande Ivan Lins completará 75 anos de idade. Como forma de celebrar essa importante efeméride, seu filho, Cláudio Lins, organizou uma live que será realizada nesse mesmo dia, a partir das 16h, e que poderá ser conferida aqui. O elenco escalado para participar da festança virtual é significativo, e inclui nomes de várias gerações da nossa música, como Roberto Menescal, Gilson Peranzzetta, Leila Pinheiro, Délia Fischer, Jorge Vercillo, Nelson Faria, Luciana Mello, Pedro Mariano, Sérgio Santos, Lenine, Jair Oliveira e Jane Duboc, entre outros.

A ideia do organizador é que cada participante escolha uma das canções do incrível repertório construído por Ivan nesses seus 50 anos de trajetória musical e a interprete em dueto com Claudio, que não divulgou as músicas que entrarão no set list dessa live, e explica o porque desse mistério:

“Como precisamos divulgar a live e os convidados, já não será uma live surpresa pro pai… mas pelo menos essa surpresa, do que cada um escolheu, eu vou guardar. Pro pai e pra todos que quiserem celebrar a obra desse verdadeiro gênio da música brasileira e mundial.”

A live faz parte do festival online #ziriguidumEmCasa, organizado pelo filho de Ivan Lins com o jornalista Beto Feitosa e com a participação na organização de Maria Braga e Ana Paula Romeiro, evento virtual que desde o início da pandemia do novo coronavírus já teve 10 edições e trouxe apresentações de inúmeros artistas bacanas da nossa música, incluindo o próprio Ivan Lins.

A pedido do homenageado, serão aceitas doações para a ONG Ação Social Pela Música (saiba mais sobre o seu trabalho aqui) neste link aqui.

Leia mais sobre Ivan Lins aqui.

Somos Todos Iguais Nesta Noite– Ivan Lins:

Ivan Lins e Brasilidade Geral dão prévia de novo álbum em Sampa

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Por Fabian Chacur

Ivan Lins é um artista sempre aberto a parcerias com outros artistas, desde que talentosos, obviamente. Desta vez, o cantor, compositor e pianista carioca une forças ao grupo capixaba Brasilidade Geral para o lançamento de um CD, Meu Pais, que deve sair em abril. Como forma de dar uma prévia desse lançamento, eles se apresentam em São Paulo no próximo dia 11 de abril (quinta-feira) às 22h no Bourbon Street (rua dos Chanés, nª 127- Moema- fone 0xx11-5095-6100), com ingressos custando de R$ 95,00 a R$ 190,00.

O repertório trará clássicos do repertório de Ivan Lins com novos arranjos, entre as quais Vitoriosa, Meu País, Lembra de Mim, Dinorah Dinorah, Depois dos Temporais e Madalena. A parceria entre o astro da MPB e o grupo teve início em 2015, e deu tão certo que agora terá um registro discográfico para eternizá-la. Os metais dão um tempero novo e especial para essas canções conhecidas mundialmente.

Criado em 2010 no Espírito Santo, o grupo Brasilidade Geral é integrado por Bruno Santos (trompete e flugelhorn), Roger Rocha (saxofones soprano, alto e tenor), Marcelo Martins (saxofone tenor), Daniel Freire (saxofone barítono), Rafael Rocha e Joabe Reis (trombone), Hugo Maciel (baixo elétrico) e Renato Rocha (bateria). Eles lançaram em 2011 o primeiro CD, autointitulado, e logo marcaram presença em casas noturnas e festivais em seu estado natal e também no Rio e em São Paulo. Em 2016, saiu o elogiado Destino Rosa dos Ventos.

A qualidade artística de seu trabalho os levou a parcerias bem bacanas, que geraram seus dois DVDs, Brasilidade Geral e Bob Mintzer Ao Vivo (2015), no qual tocam com o saxofonista, compositor, arranjador e educador americano Bob Mintzer, do célebre grupo de jazz fusion Yellowjackets, e Bossa de Alma Nova: Roberto Menescal e Brasilidade Geral (2013), com o icônico violonista, compositor e produtor carioca Roberto Menescal. Eles também fizeram shows com Hamilton de Holanda, Rosa Passos e Chico Pinheiro, entre outros.

Vitoriosa (ao vivo)- Ivan Lins e Brasilidade Geral:

A Noite (1979), agora quarentão, um dos melhores LPs de Ivan Lins

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Por Fabian Chacur

Em 1979, Ivan Lins vivia um dos melhores momentos de sua carreira. Nos dois anos anteriores, lançou dois álbuns seminais pela EMI-Odeon, os excelentes Somos Todos Iguais Nesta Noite (1977- leia sobre este CD aqui) e Nos Dias de Hoje (1978- leia sobre este CD aqui), e ampliou o seu público, especialmente no circuito universitário, graças a inúmeros shows. A Noite, que chegou às lojas há 40 anos, consolidou esse período fantástico com um conteúdo repleto de emoção e denúncia social, no qual a parceria dele com Vitor Martins prosseguiu em sua trajetória rumo à excelência artística.

O show de lançamento de A Noite foi o segundo que tive a oportunidade de assistir na minha vida, no então Teatro Pixinguinha, do Sesc, em São Paulo. Certamente, marcou a minha vida, um belo presente de 18 anos que me concedi. Para alegria de alguém que ama a boa música com toda a intensidade, é ótimo constatar que este álbum continua tão maravilhoso, consistente e importante como na época. Dois temas básicos permeiam as 10 faixas: as idas e vindas das relações amorosas e o duro momento político da ditadura militar que vivíamos na época. Ambos, analisados como se estivéssemos na mesa de um bar, em uma dessas noites de solidão, esperança, sonhos e dor.

Trata-se de um disco extremamente emocional, lírico, militante, dolorido e esperançoso, ao mesmo tempo. A maravilhosa faixa título, uma balada tocante, não deixa margem a dúvidas: “A noite traz no rosto sinais de quem tem chorado demais”. A dor da separação após relacionamentos afetivos intensos é o mote para as inspiradíssimas Começar de Novo (que fez muito sucesso na voz de Simone, na abertura do seriado global Malu Mulher), Saindo de Mim e Velas Içadas. A crença em um futuro melhor dá o tom para Desesperar Jamais, dueto de Ivan com o sambista Roberto Ribeiro marcado por versos certeiros como “afinal de contas não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo”.

O pianista Ivan investe no violão em Desesperar Jamais e também na engajada Antes Que Seja Tarde, na qual a letra deixa claro que a luta por tempos melhores precisava se intensificar, enquanto ainda havia tempo para melhoras. O baião-funk Formigueiro toca fundo no tema da corrupção, infelizmente atualíssimo, tanto tempo depois. Com um tempero rural, Noites Sertanejas traz a participação especialíssima de Djavan nos vocais, em um dueto iluminado. Ivan canta com linda voz e emoção à flor da pele, padrão que manteve em todo o LP.

Duas faixas são de outros autores, e se encaixam de forma perfeita na temática do álbum. Te Recuerdo Amanda, é composição inspirada do cantor e compositor chileno Victor Jara (1932-1973), morto de forma cruel e covarde nos primeiros dias da ditadura do sanguinário general Augusto Pinochet, e registra recordações de um romance de raros momentos líricos, encerrado de forma prematura e violenta por uma morte decorrente de violência. A outra, A Voz do Povo, de João do Vale e Luiz Vieira, coloca lado a lado o trabalhador que é demitido por seu ativismo e a esperança de que dias melhores virão.

Novamente, Ivan tem como braço direito o tecladista Gilson Peranzzetta, que também se incumbe dos arranjos e regências. Além de João Cortez (bateria) e Ricardo Pontes (sopros), fiéis seguidores, temos na guitarra, violão e viola o talentoso Natan Marques, conhecido por seus trabalhos com Elis Regina e Simone. Ouvir A Noite é uma experiência emocionante, e chega a ser cômico pensar que esta obra não tenha sido reverenciado como deveria pela crítica especializada na época. A magia dessas canções ultrapassou os limites do tempo e tornou-se eterna. Ouça com carinho e tente me contestar.

Ouça A Noite na íntegra em streaming:

40 anos de Nos Dias de Hoje, um belo clássico de Ivan Lins

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Por Fabian Chacur

Em 1978, Ivan Lins vinha de uma bela estreia na EMI-Odeon com o álbum Somos Todos Iguais Nesta Noite (1977), trabalho que mostrava o cantor, compositor e pianista carioca inaugurando uma fase áurea de sua carreira. Nos Dias de Hoje, que chegou ao mercado discográfico há 40 anos e sétimo álbum da carreira do artista, provou de forma contundente que o cara realmente não estava para brincadeira em termos qualitativos.

A coisa começava com tudo a partir da capa, na qual Ivan aparece sem camisa, em uma foto similar às tiradas por quem é preso. Na contracapa, o complemento, com ele de perfil. Na parte interna da capa dupla, seu parceiro musical, Vitor Martins, surge em foto similar. O clima refletia a Ditadura Militar que nos afligia naquele tempo difícil, nos quais a liberdade era apenas um sonho distante no horizonte dos brasileiros.

O título do álbum, extraído de versos da canção Cartomante, não deixava dúvidas quanto às intenções literárias do trabalho, que era retratar aquele momento sufocante pelo qual passávamos. Mas sem cair em sectarismos, ou panfletarismo barato, ou mesmo partidarizações tendenciosas. E, especialmente, sem deixar de ter como foco a música e a poesia. Informar, sim, mas sem deixar de investir na deliciosa emoção que as boas canções nos proporcionam.

Caminhando para dez anos de vida profissional, Ivan mostra nesse álbum uma enorme maturidade vocal, encontrando o registro ideal para a sua voz, mesclando a doçura e a agressividade em doses precisas. De quebra, firmou aqui de vez a parceria com o poeta Vitor Martins, que pela primeira vez assina todas as letras (dez, no total) de um disco de Ivan. A parceria, a partir daqui, entrou de vez no Olimpo das maiores da música brasileira e, porque não, mundial.

E mais algumas parcerias se mostraram decisivas para que o autor de Madalena pudesse gravar um disco tão perfeito como Nos Dias de Hoje. O impecável tecladista, compositor e maestro carioca Gilson Peranzzetta, por exemplo, incumbido do piano elétrico e dos sublimes arranjos de cordas e metais. A sacada do uso de dois tecladistas deu ao som de Ivan uma riqueza e originalidade que o destacou no então concorridíssimo cenário da música brasileira.

Este álbum também marcou o auge do Modo Livre, grupo criado para acompanha-lo e composto por Peranzzetta, Fred Barbosa (baixo), João Cortez (bateria) e, neste álbum específico, o badalado Fredera (guitarra). Nos inspiradíssimos arranjos vocais, o talento absurdo de Tavito, capitaneando os talentosos Zé Luis, Marcio Lott, Flavinho, Regininha e Lucinha Lins. De quebra, participação especial de Maurício Einhorn (gaita) em Guarde Nos Olhos. Uma seleção de craques.

A essência musical de Nos Dias de Hoje, seu DNA mais profundo, é a música nordestina, especialmente o xote, o baião e o forró, relida de uma forma pop e moderna. Essa origem já é observada logo na música de abertura, a contagiante Cantoria, cuja letra louva a capacidade de resistência do brasileiro perante as dificuldades, e que termina de forma metalinguística, em uma arrepiante cantoria a capella criada por Tavito.

A pungente Guarde Nos Olhos vem a seguir, evocando o sentimento daqueles que tiveram de deixar suas pequenas cidades sem horizontes profissionais rumo à esperança de melhorar de vida nas capitais da vida, levando nos corações e nos olhos o registro da saudade de seus berços natais. Bandeira do Divino evoca a religiosidade positiva, idealista e ingênua como forma de sempre acreditar em tempos melhores, naqueles dias tâo cinzentos de 1978.

Forró do Largo reflete a busca pelo prazer carnal nas festas populares, com um resultado no fim das contas não muito positivo, e uma total ironia no final, citando a então inutilidade do título de eleitor, para quem não tinha o direito de eleger presidente, governador ou mesmo prefeito das capitais. Recado sutil, no final da música, que a censura deixou passar, ou nem percebeu, de tão bem colocado por Vitor Martins.

O lado A do LP de vinil era encerrado pela sensível e visionária Cartomante, que ao mesmo tempo em que traz conselhos cautelosos para a sobrevivência em tempos de repressão, também mostra a crença na vinda da redenção, na qual os reis de então caíssem e a sonhada liberdade voltasse à nossa cena. “Cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai, não fica nada”. Destaque para os viscerais riffs de guitarra de Fredera.

Para dar início ao lado B do álbum, nada melhor do que a tensa e envolvente Quaresma, uma espécie de baião pós-punk refletindo o sentimento de trevas e impotência que se sentia na época, perante o autoritarismo vigente. A Visita, balada jazzística de primeira, reflete a aguda solidão dos humanos aprisionados nos grandes centros urbanos.

Temporal, outro forró moderno arretado, também alerta a todos para a virulência existente em termos políticos, e o que aquele ambiente trazia. Esses Garotos aborda a hipocrisia da sociedade e dos relacionamentos sexuais consumados nas alcovas da vida, tendo os mais ingênuos e sem cacife para entrar na, digamos assim, “festança sexual”, olhando de longe e lambendo os dedos eternamente.

Para fechar um trabalho tão consistente e emocionante, nada melhor do que uma obra-prima do porte de Aos Nossos Filhos. De cara, vale elogiar a brilhante ideia de iniciar e terminar sua execução com uma melodia com clima de cantiga de ninar, levando-se em conta que a letra é endereçada exatamente às crianças de então.

Incorporando um pai incapaz de proporcionar aos filhos uma vida alegre, colorida e afetiva, Ivan se desculpa a eles, tendo como mote a frase “os dias eram assim”. E, mesmo em meio a tanta sombra, ainda se mostrava esperançoso de que um tempo melhor viesse, embora não para ele, e sim para seus rebentos: “quando brotarem as flores, quando crescerem as matas, quando colherem os frutos, digam o gosto para mim”. Difícil conter as lágrimas ao ouvir essa maravilha.

Nos Dias de Hoje- Ivan Lins (em streaming):

Gabriel Martins lançará o seu primeiro CD solo em março

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Por Fabian Chacur

O músico e compositor paulistano Gabriel Martins lança o seu primeiro álbum, nos formatos digital e em CD, no mês de março. Mergulho levará o selo Galeão, sucessor da Velas, criada no final dos anos 1980 por Ivan Lins e Vitor Martins. E o sobrenome igual revela um parentesco importante: Gabriel é filho de Vitor, um dos maiores letristas da história da MPB e também conhecido por seu trabalho na indústria fonográfica.

Basicamente instrumental, Mergulho conta com a produção de Rubem Farias e Zé Victor Torelli. São onze faixas, sendo que Valsinha do Mar e Os Encantos do Mar contam com a participação especial de Ivan Lins, que é parceiro de Gabriel nas duas. Também estão presentes como músicos no trabalho Leo Amuedo, Cuca Teixeira, Neymar Dias e o produtor Rubem Faria. O primeiro single, que será divulgado em breve, é Planador, e o mar é o tema básico das composições.

Mergulho– Gabriel Martins (teaser):

Caixa traz gravações inéditas de Ivan Lins da década de 70

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Por Fabian Chacur

Ivan Lins teve na década de 1970 o período decisivo em sua brilhante carreira. Foi durante aqueles anos que ele deixou de ser apenas um artista promissor para se inserir com força entre os grandes nomes da MPB, gravando discos essenciais e cativando o público. O selo Discobertas celebra os 70 anos de idade do artista e lança Ivan Lins Anos 70, caixa com três CDs de gravações inéditas do genial cantor, compositor e pianista carioca.

O material contido neste ótimo lançamento registra dois momentos distintos na carreira do autor de Madalena. Os volumes 1 e 2 trazem gravações feitas ao vivo em dois shows realizados em 1975, o primeiro (sem especificação do mês) em Curitiba (PR) e o outro em São José do Rio Preto (SP), este último no mês de novembro. São apresentações que marcam a primeira turnê mais extensa do artista, que estreava uma nova banda de apoio, a Modo Livre.

Além de Ivan nos vocais e piano, o grupo trazia Gilson Peranzzetta (teclados, que seria a partir dali seu braço direito nos próximos dez anos), Ricardo Pontes (flauta e sax), Fred Barboza (baixo) e João Cortez (bateria). O grupo surgiu para acompanha-lo depois do lançamento do álbum Modo Livre (1974), e se mostra em pleno processo de entrosamento nesses dois registros ao vivo.

A edição de som não nos permite deduzir se os shows foram gravados na íntegra ou não, mas a inclusão de falas de Ivan em algumas partes acaba sendo bem informativa, como no momento em que no show de Curitiba ele anuncia que iria cantar três músicas que seriam lançadas em seu próximo álbum, o então ainda inédito Chama Acesa. Apenas quatro músicas se repetem no repertório dos dois shows: Abre Alas (primeira parceria e primeiro hit escrito com Vitor Martins), Acender As Velas (Zé Ketti), Nesse Botequim (Ivan Lins e Vitor Martins) e Quero de Volta o Meu Pandeiro (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza).

No set list, o artista demonstra rebeldia ao deixar de lado seus hits mais impactantes até então, as músicas Madalena e O Amor é Meu País, substituídas ou por canções ainda inéditas em discos dele, ou composições de Zé Kéti (Opinião é a outra, além de Acender as Velas), ou ainda temas instrumentais compostos por ele e/ou integrantes da banda. Os improvisos são frequentes, e o resultado dos dois shows no geral é bem bacana, com qualidade de áudio ótima.

Para o terceiro CD, foram reservadas 12 gravações feitas por Ivan em 1978 no estúdio Eldorado, em São Paulo. Por Cima dos Ossos (Ivan Lins-Ronaldo Monteiro de Souza) é inédita. As Minhas Leis, Esse Pássaro Chamado Tempo, Eu Preciso de Silêncio e Desalento (todas parcerias de Ivan com Ronaldo) foram gravadas por outros intérpretes e nunca haviam entrado antes em um álbum do próprio autor.

A Visita (Ivan Lins-Vitor Martins) entraria em outra versão no seminal álbum Nos Dias de Hoje, lançado naquele mesmo 1978. Temos as instrumentais Gaivota e Procurando Inês/Minas de Mim, assinadas só por ele. Acender as Velas, de Zé Kéti, é curiosamente a única música que aparece nos três CDs, em versões diferentes.

Completam o repertório do CD de estúdio O Sol Nascerá (Cartola e Elton Medeiros), O Amor em Paz (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) e Não Me Diga Adeus (Paquito, Luiz Soberano e Correa da Silva). As performances são no esquema piano e voz, sendo que em quatro delas temos a participação da cantora e atriz Lucinha Lins (então casada com ele) nos vocais, todas muito boas. O clima intimista domina e encanta.

A apresentação da caixa é simpática, os encartes trazem as letras das canções e algumas fotos legais, mas deixa a desejar no sentido de que não temos textos com informações mais detalhadas sobre as gravações ou mesmo as contextualizando em relação à carreira do astro carioca.

O crédito da música Chega no encarte e na contracapa também está errado, pois a música é só de Ivan, e não da dupla Ivan Lins-Vitor Martins. Mas são deslizes perdoáveis, se levarmos em conta a preciosidade do material contido aqui. Uma homenagem à altura desse grande Ivan Lins, um gênio da música popular brasileira.

Quero de Volta o Meu Pandeiro– Ivan Lins:

Chega– Ivan Lins:

A Visita– Ivan Lins:

Kuarup relança Chama Acesa e Modo Livre, de Ivan Lins

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Por Fabian Chacur

A gravadora paulistana Kuarup anda prestando um belo serviço aos fãs da melhor música brasileira. Além de lançar novos artistas e reeditar títulos importantes de seu acervo de mais de 30 anos, o selo também está resgatando obras lançadas por outros selos. Agora, é a vez de dois títulos importantes da discografia de Ivan Lins, Modo Livre (1974) e Chama Acesa (1975), da extinta RCA (hoje no acervo da Sony Music).

Esses dois ótimos trabalhos marcam uma fase de transição na carreira do genial cantor, compositor e músico carioca, que recentemente completou 70 anos de idade (ler homenagem de Mondo Pop aqui). Marcam uma espécie de ruptura com seu trabalho anterior.

Embora de ótima qualidade artística, os três primeiros álbuns de Ivan eram olhados com narizes torcidos por parte da crítica especializada. Após lançar o sintomaticamente intitulado Quem Sou Eu? (1972), o artista perdeu o grande destaque que havia obtido na mídia, e deu uma célebre entrevista ao jornal alternativo O Pasquim no qual admitiu sua alienação em termos políticos. Novidades maiores viriam a seguir.

Modo Livre traz um artista centrado no samba moderno. Seis das onze músicas foram escritas com o parceiro dos hits iniciais, Ronaldo Monteiro de Souza, entre elas as ótimas Deixa Eu Dizer (que também fez sucesso com Claudya, cuja versão foi sampleada por Marcelo D2), Tens (Calmaria) e Espero. Mas outras faixas teriam mais destaque.

Abre Alas, por exemplo, equivale ao início da parceria com o paulista de Ituverava Vitor Martins, dobradinha que se tornaria nos anos seguintes uma das melhores e mais importantes da história da MPB. Foi o grande hit do álbum. Por sua vez, Chega, assinada só por Ivan, é um desabafo em relação às pressões que sofria: “as pessoas tem que gostar de mim como eu sou, e não como você quer que eu seja”.

Tocam em Modo Livre músicos como o guitarrista e maestro Artur Verocai, que já havia atuado antes com ele e que há pouco foi resgatado pelas novas gerações, o consagrado tecladista Wagner Tiso e o baterista Robertinho Silva, entre outros do mesmo alto nível. Avarandado (Caetano Veloso) e o pot-pourry de sambas clássicos General da Banda – A Fonte Secou- Recordar é Viver são releituras bacanas do álbum.

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Chama Acesa mostra a rápida evolução da dupla Ivan Lins/Vitor Martins, que assina cinco das onze músicas do álbum, com apenas duas de Ivan com Ronaldo Monteiro de Souza. Paulo Cesar Pinheiro, que escreveu com Ivan Rei do Carnaval, no CD anterior, volta a ser parceiro na faixa que deu título ao álbum e de Poeira Cinza e Fumaça. Duas são só do autor de Madalena, as ótimas Sorriso da Mágoa e Nesse Botequim.

Embora ainda tendo o samba como base, este álbum de 1975 ganhou fortes elementos jazzísticos, além de marcar o início da colaboração de Ivan Lins com o excelente pianista e tecladista Gilson Peranzzetta, parceria que se estenderia por muitos anos. Os sopros (flauta e sax) de Ricardo Ribeiro ajudam a ressaltar esse clima jazzy que pontua o álbum.

Os dois álbuns já haviam sido lançados em CD pela antiga BMG em 2001, mas as novas edições da Kuarup são mais caprichadas, incluindo encartes rediagramados com fotos mais nítidas e ótima remasterização. Bela homenagem a um artista que mereceria ser mais venerado em sua terra natal, já que no exterior é cultuado como o mestre que de fato é.

Deixa eu Dizer– Ivan Lins:

Abre Alas– Ivan Lins:

Chega– Ivan Lins:

Sorriso da Mágoa– Ivan Lins:

Lenda do Carmo– Ivan Lins:

Joana dos Barcos– Ivan Lins:

Aos 70 anos, Ivan Lins é astro ainda produtivo e essencial

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Por Fabian Chacur

Ivan Lins completa nesta terça-feira (16) 70 anos de idade. É mais um integrante célebre da incrível “safra de 1945”, que deu ao mundo músicos fantásticos como Eric Clapton, Bob Marley, Gonzaguinha, Renato Teixeira, Pete Townshend e Elis Regina, só para citar alguns dos essenciais dessa geração incrível. Um grande nome da MPB mais reverenciado no exterior do que aqui. Uma vergonha!

Entre os inúmeros fãs ilustres desse cantor, compositor e pianista carioca, encontram-se gente do alto gabarito de Quincy Jones, George Benson, Patty Austin, Sting, Ella Fitzgerald e inúmeros outros, atraídos por sua incrível musicalidade, mistura preciosa de música brasileira, jazz, soul music e música pop repleta de riqueza melódica e artística.

Elis Regina (1945-1982) foi uma de suas melhores intérpretes, assim como Simone. Por alguma razão estranha, setores da crítica musical brasileira sempre torceram seus narizes para a sua obra, algo inexplicável se a analisarmos com calma e justiça. Enfim, gosto não se discute, embora às vezes seja digno de lamentação. A obra dele fala por si, e seus fãs bem qualificados também.

Do início nos festivais universitários nos anos 1960, Ivan estourou nacionalmente com o sucesso de Madalena, na voz de Elis, e de O Amor é Meu País, com ele próprio. No início, mergulhou fundo na mistura da MPB com a soul music a la Blood Sweat & Tears e Jimmy Webb, tempos em que seu principal parceiro era Ronaldo Monteiro de Souza.

Em 1974, conhece o poeta paulista Vitor Martins, que se torna seu maior parceiro. Sua primeira composição em dupla já mostrava o que viria a seguir: Abre Alas, lançada naquele mesmo ano no álbum Modo Livre. A partir de então, a música brasileira ganhava uma dupla de sensibilidade impressionante, repleta de grandes momentos.

As melodias intensas e interpretadas de forma apaixonada por Ivan ganharam versos ora líricos, ora agressivos, falando das idas e vindas do amor e também da terrível situação política vivida no Brasil daqueles anos 1970. Entre 1977 e 1980, quando esteve na gravadora EMI Odeon, viveu seu momento maior, com produção simplesmente perfeita.

Nesse período, lançou quatro álbuns hoje considerados clássicos: Somos Todos Iguais Nesta Noite (1977), Nos Dias de Hoje (1978), A Noite (1979) e Novo Tempo (1980). São discos pop por excelência, na qual o samba surge somado a soul, música nordestina, bossa nova, jazz, rock e o que mais pintar, sempre com muita intensidade, criatividade, bom gosto e paixão. Música com alma, muita alma.

Nos anos 1980, com o fim dos anos de chumbo, sua produção enveredou mais para o lado romântico, mas sem perder a qualidade, como comprovam canções maravilhosas do naipe de Depois dos Temporais, Iluminados, Vieste, Daquilo Que Eu Sei, Eu Ainda Te Procuro e Vitoriosa, só para citar algumas das mais conhecidas.

No finalzinho dos anos 1980, cria com Vitor Martins a gravadora Velas, que abriu espaços para grandes nomes da MPB e também lançou alguns títulos muito importantes da carreira de Ivan, entre os quais o fantástico Awa Yiô (1990), no qual se destacam faixas como Meu País, a canção que dá título ao CD e Ai Ai Ai Ai Ai. Vale também destacar sua trilha para o belo filme Dois Córregos (1999).

Se tivesse encerrado a carreira no fim dos anos 1990 seu lugar no panteão dos mestres da MPB já estaria garantido, mas o cara se manteve extremamente produtivo, lançando bons discos de inéditas e também relendo canções de seu acervo em parcerias com artistas dos mais diferentes estilos e nacionalidades. É conhecido e respeitado no mundo todo, merecidamente.

A música feita por ele nos últimos tempos se tornou mais contemplativa e menos empolgante do que a dos anos 1970 e 1980, mas ainda assim muito efetiva e apreciável, assim como seus shows. Em pleno 2015, é um artista relevante, para a felicidade de quem curte música brasileira com gabarito. Abram alas, que o cara continua firme e forte por aí!

Quaresma– Ivan Lins:

Cantoria– Ivan Lins:

Quadras de Roda– Ivan Lins:

Velas Içadas– Ivan Lins:

Somos Todos Iguais Nesta Noite– Ivan Lins:

Conheça o genial músico Arthur Verocai

Por Fabian Chacur

Arthur Verocai tem um daqueles currículos invejáveis. O cantor, compositor, músico, maestro e arranjador carioca já trabalhou com nomes do naipe de Ivan Lins, Jorge Ben Jor, Erasmo Carlos, Gal Costa, Célia, MPB-4, Marcos Valle, Marlene e inúmeros outros.

Nascido no Rio em 17 de junho de 1945, Verocai iniciou sua trajetória musical em meados dos anos 1960, e teve a honra de ver uma de suas composições, Um Novo Rumo, defendida em um festival universitário por ninguém menos do que Elis Regina no ano de 1968.

Em 1972, ele lançou seu primeiro álbum solo, autointitulado. Na época, o disco, que oferecia uma belíssima e original fusão de MPB, soul, jazz e muito mais, obteve pouquíssima repercussão, o que levou Verocai a aos poucos deixar o cenário da música popular, dedicando-se aos jingles publicitários.

No início dos anos 90, no entanto, o público internacional, especialmente o europeu e o japonês, descobriu essa verdadeira relíquia, que não só virou um dos discos mais valiosos da MPB como também foi sampleado por artistas como o astro do rhythm and blues americano Ludacris em seu hit Do The Right Thang, de 2006.

A repercussão de Arthur Verocai, o álbum, também lhe valeu o convite para um concerto realizado nos EUA em 2009 no qual apresentou as faixas do disco e outras, em esquema luxuoso com direito a 30 músicos e gravação em DVD.

Graças à iniciativa do ex-titã Charles Gavin, enfim esse trabalho mitológico volta ao mercado fonográfico, nos formatos CD e vinil e disponível apenas nas lojas da Livraria Cultura, que bancou o projeto com exclusividade.

Nesta entrevista feita por e-mail por Mondo Pop, Verocai nos fala um pouco sobre sua carreira, projetos etc.

Mondo Pop – Como foi que a música entrou na sua vida? Sua família tem tradição musical? E quais artistas você ouvia em sua infância/adolescência? Qual a origem do seu sobrenome?
Arthur Verocai – Meu bisavô, Aniceto Verocai, imigrou da Itália(mais precisamente de Cortina d’Ampezo) para o Brasil em 1881. Minha casa sempre tinha música e instrumentos como violão, gaita cavaco e flautas caseiras. Ouvia muitos discos de vários estilos e também a Rádio Nacional, sendo que depois veio a TV.

Mondo Pop- Você teve a música Um Novo Rumo defendida por Elis Regina em um festival no Rio em 1968. Como foi esse contato com ela, e como você avalia a importância da Pimentinha, que nos deixou há 30 anos?
Arthur Verocai – Elis foi “apenas” a maior intérprete da música brasileira de todos os tempos. Foi uma honra e muita felicidade ter uma canção interpretada por ela. O festival foi realizado pela TV Tupi, que na época tinha Elis como sua contratada. Deram as quatro músicas mais votadas na fase de seleção para ela escolher e tive a sorte de ela ter optado por Um Novo Rumo.

Mondo Pop – Você participou de forma decisiva dos primeiros discos de Ivan Lins, tendo feito arranjos, tocado e até composto em parceria com ele. Como e quando você conheceu o Ivan, e qual a importância dessa parceria para a sua carreira?
Arthur Verocai – Naquele tempo havia um encontro da galera musical, gerando um intercâmbio muito bom. Já estava fazendo arranjos na gravadora Philips do Brasil (n.da r.:hoje, Universal Music) quando eu e o produtor e meu parceiro musical Paulinho Tapajós chamamos o Ivan para fazer seu primeiro disco, o Agora (1970).

Mondo Pop – Quando surgiu o convite para a gravação do seu primeiro disco solo, você já era uma espécie de jovem veterano aos 27 anos, pois já havia trabalhado com muita gente do primeiríssimo escalão da MPB. Já havia ocorrido algum convite anterior para gravar um trabalho seu ou esse foi o primeiro?
Arthur Verocai: A gravadora Continental (n.da.r: hoje seu acervo faz parte da gravadora Warner Music) foi quem fez o primeiro convite.

Mondo Pop – Oito das dez músicas de Arthur Verocai (o disco) foram escritas por você em parceria com Vitor Martins. A Célia já havia gravado músicas de vocês. Como e quando vocês se conheceram, quantas músicas vocês escreveram juntos e qual a importância dessa parceria para a sua carreira? É verdade que você apresentou o Vitor ao Ivan Lins?
Arthur Verocai – A Minha parceria com o Vitor Martins é anterior à dele com o Ivan. Quando fomos gravar o disco Modo Livre (1974), que marcou a estreia do Ivan na RCA (n.da r.: cujo acervo hoje pertence à Sony Music), o Vitor era diretor artístico daquela gravadora e dei a maior força para a nova parceria, que começou justamente naquele disco com a música Abre Alas.

Mondo Pop – O LP Arthur Verocai contou com a participação de inúmeros músicos do primeiro escalão. Deve ter sido um disco caro em termos de produção. A gravadora topou essa estrutura para gravar o álbum logo de cara? E como foi a seleção desses músicos? Pergunto isso pelo fato de você ter dado espaços generosos para os músicos que participaram do seu trabalho, sem apontar todos os holofotes para si próprio.
Arthur Verocai – Quando recebi o convite da Continental, minha única exigência foi a de ter liberdade total para gravar o meu disco do jeito que eu quisesse. Eles toparam logo de cara, e aí escolhi os músicos que poderiam se encaixar naquele trabalho.

Mondo Pop – Quando o disco saiu, como foi o esforço da então Continental para divulgar o trabalho? Você fez shows para divulga-lo, deu entrevistas, saiu alguma crítica em jornais e revistas?
Arthur Verocai – A gravadora não fez nenhum esforço e não fiz nenhum show para divulgá-lo. Houve uma crítica publicada no JB (Jornal do Brasil) assinada pelo Júlio Hungria.

Mondo Pop – Como você ficou visto no meio musical após o lançamento deste álbum? Diminuiram os convites para participar de outros trabalhos como músico, arranjador etc? Rolou algum tipo de preconceito por não ter sido um disco campeão de vendagens?
Arthur Verocai – Fiquei um pouco de mãos atadas para escrever novas canções e arranjos, uma vez que o que gostava de fazer não se enquadrava no mercado fonográfico da época.

Mondo Pop – Gostaria que você falasse um pouco de como foi o seu trabalho no mercado de jingles publicitários e de como foi que você entrou nessa área. Como avalia essa experiência, quais foram os mais conhecidos, se esse trabalho te proporcionou sobreviver dignamente.
Arthur Verocai – Cofrinho da Delfim (divulgando a caderneta de poupança da hoje instinta instituição bancária Delfim), Fanta Laranja, dois jingles para a Petrobrás das copas do mundo de futebol de 1990 e 1994 etc. Criei meus filhos com a música que fiz para a publicidade muito bem, obrigado.

Mondo Pop – Quando e como você descobriu pela primeira vez que o seu primeiro disco solo estava sendo alvo de um culto no exterior? Isso te surpreendeu?
Arthur Verocai – Foi na década de 1990, e fiquei surpreso.

Mondo Pop – Quando foi lançado, o álbum Clube da Esquina também foi inicialmente rejeitado por público e crítica. Alguns anos depois, o próprio Milton Nascimento afirmou que esse disco tinha ido “de porcaria a antológico” (palavras dele) na opinião da crítica, sem negar o seu ressentimento em relação a essa reação negativa inicial. Como você encarou a pouca repercussão de seu primeiro disco? Imaginava que um dia esse quadro se alteraria, como de fato se alterou?
Arthur Verocai – Não poderia imaginar.

Mondo Pop – Antes de ser relançado no Brasil, seu disco de estreia foi lançado no exterior, e trechos de suas músicas foram sampleados por artistas como Ludacris. Você recebe royalties por isso?
Arthur Verocai – ——- (n.da.r: uma forma delicada de dizer que certamente ele não recebeu nada…)

Mondo Pop – Onde foi feita a foto da belíssima capa de seu disco de estreia, em 1972?
Arthur Verocai – Esta casa ficava pertinho da minha casa aqui no Humaitá, no Rio. Era uma gráfica do tempo do Império, e estava abandonada naquela época. Foi o fotógrafo Fernando Bergamaschi quem me levou até lá e fez a foto.

Mondo Pop -Fale sobre os seus próximos projetos-shows, discos, DVDs etc
Arthur Verocai – Pretendo realizar um concerto para violão e orquestra já escrito por mim, além de gravar um novo album DVD.

Ouça Presente Grego, com Arthur Verocai:

Ouça Caboclo,com Arthur Verocai:

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