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Tempo Feliz é livro que conta a história de uma bela aventura

tempo feliz capa do livro-400x

Por Fabian Chacur

Uma forma interessante de estudar a história da música brasileira é se deter na trajetória das gravadoras, especialmente as independentes ou de pequeno e médio porte. É através delas que muita coisa importante aconteceu. Um bom exemplo é a Forma, criada por Roberto Quartin e Wadi Gebara em 1964 e que se manteve assim até 1967, quando foi vendida para a CBD (cujo acervo hoje pertence à Universal Music). Eis a missão assumida pelo jornalista Renato Vieira, que mergulhou fundo nela e nos proporcionou o excelente livro Tempo Feliz- A História da Gravadora Forma (Kuarup Música).

Além das tradicionais entrevistas com boa parte dos principais envolvidos com o enredo do tema que resolveu abordar, Vieira teve uma ideia bastante interessante. Como o acervo de lançamentos da Forma em seu período independente comporta um número pequeno de títulos (pouco mais de 20), ele nos traz uma análise de cada um deles, com direito a fichas técnicas, textos das contra-capas e também uma análise inteligente dos discos, incluindo desempenho comercial e repercussão na imprensa.

Além disso, ele nos situa de forma basante precisa naquele período da história do Brasil, quando o golpe militar havia acabado de ocorrer e as perseguições à área cultural foram aos poucos aumentando, além do clima favorável à bossa nova no exterior, graças ao mitológico show no Carnegie Hall em 1962 e principalmente ao estouro do álbum Getz-Gilberto (1964), que vendeu muito e rendeu 4 troféus Grammy ao músico americano Stan Getz e seus talentosos parceiros brazucas.

É dentro dessa dualidade medo/esperança que a Forma surge. Ela é fruto do idealismo quase irresponsável do jovem Roberto Quartin, que se une a um profissional do meio musical, o alemão Peter Keller, para criar um selo musical que teria seus discos prensados e distribuídos pela CBD. Keller saiu da sociedade antes mesmo do lançamento do 1º álbum, e o também jovem músico amador e arquiteto Wadi Gebara acabou sendo o seu parceiro de fato nessa ousada empreitada.

Quartin tinha como objetivo lançar discos de artistas extremamente talentosos e que admirava muito, mesmo sem saber se poderiam lhe dar um retorno comercial que viabilizasse o negócio. Cada álbum teria apresentação luxuosa, com direito a capas duplas, textos assinados por nomes importantes da cultura brasileira e fichas técnicas completas. E assim foi feito, mesmo sob o olhar assustado de Gebara em vários momentos, ele mais próximo do lado financeiro dessa operação.

Em termos musicais, deu muito certo. Entre outros, lançou o mitológico Os Afro-Sambas, firmando a célebre parceria de Baden Powell e Vinícius de Moraes, os primeiros discos do seminal Quarteto em Cy, o icônico Coisas, do maestro Moacir Santos e discos importantes e marcantes dos então ainda novatos Eumir Deodato e Victor Assis Brasil, só para citar alguns.

O duro é que, por circunstâncias as mais diversas, esses discos foram acumulando prejuízos, e em 1966 o próprio Quartin resolveu se mandar, deixando a encrenca nas mãos de Gebara. A Forma só se manteve no mesmo espírito independente até 1967, quando foi vendida para a CBD e tornou-se apenas um selo como outro qualquer até 1971, quando enfim saiu de cena. Mas sua história ficou marcada.

Com um texto fluente e consistente, Renato Vieira nos conta essa história com muita riqueza de detalhes e bastidores, e que mostra um pouco do idealismo em prol da criação de espaços nobres para lançamentos de artistas que praticassem a boa música brasileira que gerou empreitadas como esta Forma e também a mais conhecida delas, a Elenco de Aloysio de Oliveira, outra que acabou sendo incorporada ao acerco da gloriosa CBD.

Roberto Quartin ainda faria algumas produções eventuais, após deixar a Forma, e nos deixou em 2004, aos 62 anos de idade. Wadi Gebara saiu de vez da cena musical sem um tostão, e voltou a se dedicar à arquitetura, sendo uma das fontes deste livro e quem sugeriu o belo título. Ele infelizmente nos deixou antes de vê-lo publicado, em 2019, aos 81 anos.

Ao desabafar um dia com o amigo Roberto Menescal sobre o fato de ter perdido todo o dinheiro que tinha com o projeto da Forma, Gebara ouviu de um dos grandes craques da bossa nova uma frase lapidar, e com um trocadilho matador: “Wadi, foi a melhor forma de você perder dinheiro”.

Os Afro-Sambas- Baden e Vinícius (ouça em streaming):

Coisas, de Moacir Santos, sairá em vinil

Por Fabian Chacur

O álbum Coisas, de Moacir Santos, será o próximo lançamento da ótima série Clássicos em Vinil, lançada pela Polysom e que tem como objetivo resgatar no formato vinil de 180 gramas grandes pérolas da discografia brasileira. Já chegaram às lojas com este selo maravilhas do naipe de Maria Fumaça, da Banda Black Rio, e Feito em Casa, de Antônio Adolfo, ambos de 1977, só para citar dois títulos bem bacanas desse catálogo.

Lançado originalmente em 1965 pelo selo Forma, Coisas é o primeiro trabalho solo do arranjador, compositor, maestro e multi-instrumentista pernambucano que trabalhou em rádio e TV no Rio de Janeiro e em São Paulo antes de se mudar na segunda metade dos anos 60 para Pasadena, nos EUA, onde atuou em trilhas para o cinema e outras atividades musicais bacanas.

Totalmente instrumental, o álbum Coisas traz dez faixas que tem como peculiaridade serem intituladas apenas por números (tipo Coisa nº1,2,3 etc). Algumas delas foram, posteriormente, letradas por parceiros do maestro. A produção do LP ficou a cargo do experiente Roberto Quartin. A nova versão remasterizada traz um texto assinado pelo músico Mario Adnet, figura importante no resgate da obra de Moacir Santos em seu país natal.

Ao lado de Zé Nogueira, Adnet produziu em 2001 o álbum Ouro Negro, homenagem a Moacir Santos que inclui participações especiais de feras da MPB como Milton Nascimento, João Bosco, Djavan e Gilberto Gil, entre outros. A repercussão foi tão boa que acabou gerando show e DVD do grande maestro por aqui. Ele faleceu no dia 6 de agosto de 2006, uma semana depois de completar 80 anos de idade, deixando um legado belíssimo em termos musicais.

Ouça Coisa Nº9, com Moacir Santos:

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