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1979 é um livro que mergulha na história da nossa música

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Por Fabian Chacur

Há anos que se tornam icônicos pelas mais diversas razões. O de 1979 é um deles no Brasil, em termos políticos e musicais. Como forma de mergulhar naquele período tão importante e efervescente em termos gerais e gerar um belo registro histórico, o jornalista Célio Albuquerque criou o projeto que gerou o livro 1979 O Ano Que Ressignificou a MPB, coordenado por ele e lançado pela Garota FM Books (saiba mais detalhes e onde encontrar aqui).

Com 576 páginas e uma apresentação visual impecável, este livro nos oferece quatro textos introdutórios que situam o leitor em relação ao período em questão e 100 resenhas de álbuns de artistas brasileiros lançados durante aqueles meses.

Uma das boas sacadas é a escalação do elenco de colaboradores, bastante abrangente. Temos aqui desde jornalistas e pesquisadores da área musical até músicos, amigos e parentes dos artistas enfocados, com abordagens as mais distintas possíveis.

Alguns preferiram fazer análises críticas. Outros entrevistaram pessoas envolvidas com cada lançamento. Alguns deram os seus depoimentos por terem tido envolvimento direto com os LPs em questão. Uma coisa, no entanto, une todos os textos: a qualidade em termos estéticos e o grande volume de informações, que permite ao leitor ter uma ideia bem concreta sobre esses trabalhos musicais.

Cada texto também inclui a relação completa das músicas, seus autores e as fichas técnicas, com nomes de músicos, produtores etc. A seleção desses 100 LPs foi muito bem planejada, indo desde nomes já consagrados como Elis Regina, Chico Buarque e Milton Nascimento até outros que iniciavam suas trajetórias, como Boca Livre, Joanna, Gretchen e Marina Lima.

Se há álbuns enfocados que venderam milhares de cópias, há também outros mais obscuros, embora não menos importantes, como Equatorial, da cantora Teti, e Mar Revolto, do grupo homônimo. A abrangência de estilos musicais também é louvável, indo da música instrumental aos artistas mais populares, passando por MPB, rock, soul, samba, música romântica e o que mais pintar.

Todos os textos contextualizam aquele período, durante o qual ditadura militar que nos infernizava há 15 anos começava a dar sinais de cansaço e abertura, tendo como marco a recém-promulgada Lei da Anistia, que permitiu a diversos exilados famosos voltarem ao seu país de origem, embalados por músicas que acabaram virando hinos daquele período, como O Bêbado e a Equilibrista (João Bosco e Aldyr Blanc) e Tô Voltando (Maurício Tapajós e Paulo Cesar Pinheiro).

A seleção de discos traz marcos bem representativos de características inerentes daquele período histórico no Brasil, como a produção independente de discos, o aumento das mulheres na cena musical, a influência da disco music na produção local, a liberação de músicas pela censura após anos de chumbo e a intensa colaboração entre os artistas, participando dos discos uns dos outros de forma espontânea, sem o artificialismo atual registrado pelo termo empolado “feats”.

A escolha dos colaboradores também primou pela busca do talento e do conhecimento, fosse de veteranos que já estavam há muito na estrada em 1979 e chegando até a quem nem era nascido em tal período. E vale registrar a presença, entre os colaboradores, de nomes estelares em suas respectivas áreas, como Joyce Moreno, José Emilio Rondeau, Juca Filho, Rodrigo Faour, Rildo Hora e Roberto Muggiatti, só para citar de passagem alguns deles.

1979 O Ano Que Ressignificou A MPB equivale a uma deliciosa e densa aula de história, na qual fica nítido o quanto o músico brasileiro soube dar a volta por cima em um dos piores momentos vividos por este país em termos políticos, valendo-se de resistência, criatividade, paciência e sobretudo muita fé. Que sirva como espelho para a era de reconstrução que, se Deus quiser, iremos viver nos próximos anos neste país tropical abençoado por Deus, mas tão duro e difícil por natureza.

Tô Voltando– Simone:

Caetano Veloso, 80 anos, magia de ser eternamente relevante

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Por Fabian Chacur

Conheci Caetano Veloso pessoalmente em 1985, ao participar de uma entrevista coletiva concedida por ele à imprensa no hotel Maksoud Plaza. Entre as diversas perguntas feitas pelos jornalistas presentes, uma pedia a ele uma opinião sobre os grupos britânicos The Smiths e New Order, então extremamente badalados por aqui. E ele gastou alguns bons minutos para responder. Logo de cara, tive contato com uma das marcas registradas desse cantor, compositor e músico baiano, que completou 80 anos neste domingo (8).

Até os dias de hoje, a mídia parece sempre querer saber o que Caetano Veloso pensa sobre cada novidade musical que surge. Isso, para ficarmos na área abordada por Mondo Pop. Pois seus pitacos sobre política, moda, economia, cinema, TV etc (e tome etc) também são solicitados de forma constante. Isso, quando necessário, pois com frequência o próprio artista se antecipa e discorre sobre esses temas todos. Falar é com ele mesmo.

E é bom ressaltar que isso não ocorre por oportunismo dele. É de seu espírito ser assim, atento ao que acontece no Brasil e no mundo e afim de interagir e tentar entender o mundo em suas eternas mudanças. E isso se reflete nele próprio, um ser mutante por natureza, capaz de ir do voz e violão ao acompanhamento orquestral, passando por todas as possibilidades entre uma coisa e outra, sem medo de experimentar.

Cria da bossa nova de Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes, Caetano não demorou para mergulhar em outros mares sonoros. Sem preconceitos, flertou com os Beatles, Odair José, Smetak, Rogério Duprat, Talking Heads, Pixies, poesia concreta, axé music e o que mais pintasse. E sempre saiu inteiro de cada uma dessas experiências, mesmo quando não deu muito certo em termos qualitativos.

Minha primeira experiência com ele foi logo com um disco mais ousado, Caetano Veloso (1971), gravado durante o seu exílio em Londres provocado pela gloriosa ditadura militar. A música Maria Bethania sempre me encantou com a sua mistura de música regional e erudita e os seus vocais onomatopaicos com efeito de mastigação, como se deglutisse as palavras.

Uma coisa curiosa é perceber que o autor de Sampa nunca teve momentos de ostracismo ou de grandes sumiços da mídia. Em cada década, ele sempre esteve lançando novos trabalhos, fazendo shows pelo Brasil e o mundo e sendo citado por novos artistas como uma influência importante. Raros artistas tem esse poder, e ainda mais por tantas décadas. Paul McCartney, seu colega de ano de nascimento, é um deles, sendo Milton Nascimento, da mesma classe de 1942, outro bom exemplo a ser citado.

Caetano tem o dom de trafegar entre todas as classes sociais, capaz de emplacar hits muito populares e também encantar os fãs de experimentalismo. Um caso raro de unanimidade nacional? Bem, ele tem lá os seus detratores, mas como levá-los a sério, se observarmos a obra do artista em questão? Alguns se aproveitam de incursões menos felizes no cinema e em livros para tentar, mas são vaciladas tão pequenas que é melhor não levá-los a sério.

A qualidade da obra artística de Caetano Veloso é reverenciada em todo o planeta, e serve como uma boa amostra de como o Brasil consegue, mesmo com todas as suas contradições seculares, produzir artistas desse altíssimo gabarito. Uma obra que permanecerá perene e relevante daqui a 50, 100, 200, mil anos. De um cara tranquilo e infalível como Bruce Lee.

Maria Bethania– Caetano Veloso:

Renato Teixeira e Fagner nos oferecem o singelo Naturezas

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Por Fabian Chacur

Renato Teixeira e Raimundo Fagner são da geração de músicos brasileiros que invadiram as paradas de sucesso na década de 1970 com trabalhos consistentes e sempre preocupados com a qualidade de letras e melodias. Amigos há muito tempo, estreitaram sua relação nos últimos anos, valendo-se dos recursos tecnológicos para, mesmo de longe, escreverem várias canções em parceria. Tinha tudo para dar em um disco em dupla, e deu mesmo, Naturezas, que a gravadora Kuarup disponibiliza nas plataformas digitais e em uma belíssima edição em CD.

O álbum conta com 10 faixas, sendo oito delas parcerias inéditas dos dois feitas especialmente para o projeto. Um hit marcante de cada um completa o repertório. Tocando em Frente, inspirada composição de Teixeira e Almir Sater, traz também a participação deste último na releitura, que ficou muito bonita. Da seara de Fagner, temos Mucuripe, clássico escrito com o saudoso Belchior. As duas abrem o disco, como que abrindo o caminho para as novidades. Uma ideia bem interessante.

O trabalho foi gravado em São Paulo no estúdio da gravadora Kuarup, que curiosamente fica em um imóvel no qual Renato Teixeira morou, na década de 1970, e onde compôs sua canção mais conhecida, Romaria. Entre os músicos que participaram das gravações, vale destacar o grande Natan Marques, guitarrista e violonista que atuou com Elis Regina e Simone.

O clima básico de Naturezas é bem singelo e tranquilo, enveredando por caminhos sempre presentes nas obras de Renato Teixeira e Raimundo Fagner, com ênfase no lado folk-rural. As vozes dos dois se encaixaram muito bem, com cada um fazendo seus solos de forma bem competente. A tendência de interpretações mais contidas do artista cearense dos últimos tempos se mantém por aqui.

Além de Tocando em Frente, Almir Sater também está presente em Para o Nosso Amor Amém, um dos pontos altos do disco, ao lado de Arte e Poesia, Eu Comigo Mesmo e Rastros da Paixão. Eu Só Quero Ser Feliz tem um terceiro parceiro, o grande Antonio Adolfo, autor da melodia original que acabou recebendo letra de Fagner e Teixeira.

A bela capa de Naturezas foi o último trabalho com finalidade discográfica do saudoso e icônico Elifas Andreato, que nos deixou em março deste ano. O álbum certamente irá agradar e muito os fãs mais fiéis, apostando em simplicidade, lirismo e sutilezas nos arranjos. Uma reunião prazerosa de dois grandes amigos que rendeu belos frutos.

Para o Nosso Amor Amém– Renato Teixeira, Fagner e Almir Sater:

Lô Borges nos dá nova aula de como compor grandes canções

Lô Borges - Muito Além do Fim (álbum)

Por Fabian Chacur

Boas notícias precisam ser muito celebradas nesses dias tão sombrios, e a chegada de uma nova safra de canções compostas pelos irmãos Lô e Márcio Borges, após quase dez anos, é uma delas. Em cinco décadas, eles criaram maravilhas do porte de Tudo Que Você Podia Ser, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo e Para Lennon e McCartney, só para citar alguns marcos dessa produção. O resultado deste retorno está no sublime álbum Muito Além do Fim, já disponível em CD e nas plataformas digitais.

Aos 69 anos de idade, Lô Borges se mostra cada dia melhor no seu ofício de ourives de canções. Sim, ourives, pois o que produz é tão ou mais precioso do que as caríssimas joias produzidas por esse tipo de profissional. Afinal, como precificar as sensações, emoções e a energia que as composições criadas por este verdadeiro fraldinha do Clube da Esquina nos proporcionam? Tudo sempre com muita delicadeza, sutileza e alma sonhadora e apaixonada.

O núcleo musical do trabalho anterior, o delicioso Rio da Lua (de 2019, leia a resenha aqui) permanece, com Lô solto e inspirado no vocal, piano e violão, o cirúrgico e de raro bom gosto Henrique Matheus na guitarra e o sólido e consistente Thiago Corrêa no baixo, teclados e percussão. O time é completado pelo também ótimo Robinson Matos na bateria.

Esse quarteto se mostra entrosado e capaz de dar belíssimas roupagens a canções que, mesmo só no esquema voz-e-violão, já soariam como clássicas. Sem excessos nem preciosismos, ressaltando possibilidades presentes nas melodias e nas levadas rítmicas ou mesmo sugeridas nos versos. O resultado nos proporciona uma sólida fusão de rock, folk, pop e MPB em geral que honra a frequente citação aos Beatles, célula mater da criação de Lô desde sempre.

Temos aqui 10 canções que primam pela diversidade sutil, diferenciadas ora por um riff de guitarra, ora por uma levada peculiar de violão, ora por um piano muito bem conduzido. É música que vai te dominando e te hipnotizando, fazendo o imenso favor de nos tirar das sombras e do pessimismo rumo a um estado de espírito otimista, esperançoso e de inusitado prazer. E isso, mesmo quando os versos de Márcio agulham as contradições venenosas do ser humano.

A coisa já começa a mil com o delicioso rock melódico que dá nome ao álbum, que traz como cereja do bolo a participação especial do sempre especial Paulinho Moska. Um pouco mais ardida e com Henrique Matheus dando um banho de categoria, Muito Querida vem a seguir. Psicodelia derramada e bem criativa é a marca de Copo Cheio, em que o tempero agridoce dos versos de Márcio Borges chegam à tona com força total.

Vida Ribeirão vem no sabor do folk rock à brasileira, enquanto Rainha traz boa melodia e uma guitarra precisa. Canções de Primavera lembra o estilo anos 1980 de um grande amigo e parceiro de Lô, o genial Beto Guedes. A marca pop de Caos e a delicadeza light de Melhor Assim abrem caminho para Terra de Gado, que traz o piano como condutor e uma letra política sutil, mas certeira, que enfoca a forma como muita gente leva, e mal, muito mal, suas vidas.

Escolhida para encerrar o álbum, Piano Cigano traz apenas quatro versos e abre largos espaços para o poderoso acompanhamento instrumental, com o piano mais uma vez à frente e uma pegada comparável a dos momentos mais vigorosos do rock progressivo. Um final brilhante para um disco simplesmente seminal, sem uma única nota fora do lugar e que nos leva a pensar que, sim, enquanto há vida, há esperança. Com canções de Lõ Borges na trilha sonora, obviamente.

Muito Querida (lyric video)- Lô Borges:

Lô Borges retoma parceria com irmão Márcio em novo álbum

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Por Fabian Chacur

Já tem data marcada para o lançamento do novo álbum de Lô Borges. Intitulado Muito Além do Fim, o disco sairá em formatos físico e digital no dia 5 de março via gravadora Deck. Este trabalho marcará a retomada da parceria do cantor, compositor e músico mineiro com seu irmão Márcio, dobradinha que já rendeu clássicos da música brasileira do porte de Tudo Que Você Podia Ser, Nau Sem Rumo e Clube da Esquina, só para citar alguns. Eles não escreviam juntos há dez anos.

Lô se diz muito feliz com esse reencontro profissional com o irmão. São 10 composições inéditas. Em comunicado enviado à imprensa, ele comenta sobre a importância de Márcio em sua carreira como compositor: “Para mim está sendo maravilhoso, foi com ele que aprendi a compor quando tinha 14 anos. É um cara fundamental na minha vida”.

A primeira faixa a ser trabalhado é exatamente a que dá nome ao CD, com participação especial de Paulinho Moska nos vocais. Além do próprio Lô cantando e tocando guitarra, o álbum traz também Henrique Matheus (guitarra) e Thiago Corrêa (baixo, teclados e percussão), ambos coprodutores do disco ao lado de Lô, com Robinson Matos (bateria) completando o time ao seu redor.

Muito Além do Fim– Lô Borges e Paulinho Moska:

Toninho Horta celebra Grammy Latino com show em São Paulo

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Por Fabian Chacur

O Clube da Esquina de Milton Nascimento ajudou a tornar conhecidos nacional e mundialmente artistas do mais alto quilate. Entre eles, figura o brilhante cantor, compositor e guitarrista Toninho Horta, que além de ter acompanhado nomes como o Bituca, Gal Costa e Elis Regina e tocado com craques do porte de Pat Metheny, George Benson, Herbie Hancock e Eliane Elias, também desenvolve uma sólida carreira-solo. Ele se apresenta neste domingo (6) às 20h30 em São Paulo no Bourbon Street (rua dos Chanés, nº 127- Moema, fone 0xx11-5095-6100), com couvert artístico a R$ 25,00 e R$ 50,00.

Aos 72 anos, que completou nesta quarta (2), Toninho vive uma fase das mais prolíficas. Ele há pouco faturou pela primeira vez o Grammy Latino, na categoria Melhor Álbum de MPB, com seu disco duplo Belo Horizonte (2019). Na primeira parte do show no Bourbon Street, ele mostrará algumas faixas desse trabalho, no melhor estilo voz e guitarra ou violão.

Na segunda metade do espetáculo, Toninho terá a seu lado o cantor e sanfoneiro Cosme Vieira, músico que já tocou com Ivete Sangalo, Zeca Baleiro e Mariana Aydar e que desenvolve uma respeitável carreira individual.

O repertório trará músicas inéditas, faixas do premiado Belo Horizonte (sua cidade natal, por sinal) e também alguns dos diversos clássicos do repertório deste grande artista, entre as quais as célebres Beijo Partido, Manuel o Audaz, Diana e Pedra da Lua, só para citar algumas delas.

Beijo Partido- Toninho Horta:

Novo Tempo (1980): Ivan Lins consolida e cria outros caminhos

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Por Fabian Chacur

Em 1980, Ivan Lins encerrou a sua passagem pela EMI-Odeon, período iniciado em 1977. De todas as fases de sua brilhante carreira como cantor, compositor e músico, esta pode ser considerada a de maior brilhantismo e criatividade. O astro carioca lançou por aquela gravadora quatro excelentes álbuns. O que pôs ponto final a esse período, Novo Tempo, traz peculiaridades muito interessantes que dão a este trabalho uma grande importância em sua discografia.

Pra começo de conversa, a fase EMI-Odeon de Ivan serviu para consolidar a parceria entre ele, Vitor Martins e Gilson Peranzzetta. Com o poeta, cujo marco inicial é a maravilhosa Abre Alas (de 1974), firmou-se uma dobradinha de entendimento impecável, com versos inspirados sobre relacionamentos, a condição humana e a situação política daquele momento de trevas no Brasil sempre musicados com melodias deliciosas e originais.

Em termos musicais, Gilson Peranzzetta, que iniciou seu trabalho com Ivan Lins no LP Chama Acesa (1975, lançado pela gravadora RCA), mostrou-se o lugar-tenente perfeito, em uma combinação de dois tecladistas que se completam de forma precisa, cirúrgica mesmo. De quebra, seus arranjos e orquestrações ajudaram a dar a cada canção a moldura adequada, sem amarras ou limitações estilísticas. Valia tudo, desde que fosse bem feito e coerente.

Essa trinca incrível deu seus passos iniciais rumo à perfeição em Somos Todos Iguais Nessa Noite (1977), estreia na EMI, e atingiria seu auge criativo nos sublimes Nos Dias de Hoje (1978, leia a resenha aqui) e A Noite (1979, leia a resenha aqui). Como igualar tanta qualidade e sucesso logo a seguir?

Esse foi provavelmente o principal desafio de Novo Tempo. E Ivan o encarou com garra, e incorporando as características daquele momento. No Brasil, vivíamos o início de uma abertura política, que tinha como marco principal a Lei da Anistia, que permitiu o retorno ao país de diversos exilados políticos. Havia esperança no ar, mesmo que a ditadura militar continuasse, com o General Figueiredo na presidência. Eis a inspiração que gerou a maravilhosa canção que deu nome a este álbum. Esperança permeada por temores.

Novo Tempo, a canção, é quase que um contraponto a Aos Nossos Filhos (1978), uma torcida intensa para que dias melhores estivessem mais perto do que se imaginava há apenas dois anos. “No novo tempo, apesar dos perigos, a gente se encontra, cantando na praça, fazendo pirraça, pra sobreviver”. Bem, seriam mais cinco longos anos de ditadura, mas é melhor seguir no tema música.

Nesse mesmo espírito, surgiu Coragem, Mulher, inspirada no triste Caso Marli, ocorrido em 1979, quando PMs invadiram um barraco em Belford Roxo (RJ) e sequestraram e mataram um rapaz, Paulo Pereira Soares, de 18 anos, que acabou sendo morto com 12 tiros por três policiais militares.

Sua irmã, Marli Pereira Soares, uma empregada doméstica, encarou o desafio de reconhecer os assassinos de Paulo, oriundos do 20º Batalhão de Polícia Militar de Belford Roxo. A moça tinha 25 anos, e virou um símbolo da resistência contra a violência policial afligindo os pobres.

“Como te atreves a mostrar tanta decência, de onde vem tanta ternura e paciência, qual teu segredo, seu mistério, seu bruxedo, pra te manter em pé até o fim”. Uma bela homenagem a uma personagem de nossa história recente que, infelizmente, ainda sofreria muito nos anos seguintes, com direito a ter sua casa saqueada e incendiada, além de perder um filho e um afilhado também vítimas da violência, já nos anos 1990.

Duas das canções do disco poderiam ter feito parte do trabalho anterior em termos temáticos, A Noite, pois são centradas em complicadas relações afetivas. Curiosamente, elas mostram dois caminhos possíveis para um casal em fase complicada. Uma, Bilhete, encerra a partida de vez, com direito a mala na porta, pedido de chave de volta e um adeus sem muita vontade de um novo contato.

Enquanto isso, Virá reflete o ponto de vista de quem não se conformou com o final, e aguarda, paciente, o retorno do parceiro-parceira: “virá, de qualquer jeito virá, virá a contragosto, virá por amizade, virá por desespero, virá por cama e comida, por boa bebida, por dinheiro”.

Também retomando caminhos anteriores, a rural Sertaneja nos traz ecos de Ituverava (1977), bela homenagem de Vitor Martins a sua cidade natal, enquanto Barco Fantasma vem da mesma lavra inspirada na música portuguesa que gerou a inspirada Um Fado (1977).

A única canção de fora do núcleo Ivan-Vitor-Gilson é a inspirada releitura de Coração Vagabundo (1967), de Caetano Veloso, que de certa forma dialoga em termos poéticos com Novo Tempo, com versos como “meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”.

Desde o início de sua carreira, Ivan Lins sempre se mostrou aberto à mistura da música brasileira com elementos do jazz, soul e r&b. Na fase EMI, pode-se dizer que um novo formato dessa vertente surge em Dinorah Dinorah (1977), com uma levada mais moderna e próxima da sonoridade internacional. Não por acaso, essa música foi regravada por George Benson no álbum Give Me The Night, lançado naquele mesmo 1980 e que também inclui Love Dance (Ivan Lins, Gilson Peranzzetta e Paul Williams).

Há pelo menos duas representantes dessa sonoridade híbrida e genial neste álbum: a faixa-título, que alguns afirmam ter sido cogitada para entrar em um álbum de Michael Jackson (Thriller, para ser mais preciso), e a fantástica Arlequim Desconhecido, que abre o álbum. Ambas seriam regravadas por artistas internacionais posteriormente, e não por acaso, pois se encaixam feito luva na sonoridade jazz-pop então prevalente nas rádios americanas.

Uma faixa é totalmente à parte do resto do material. Trata-se de Setembro, assinada por Ivan e Gilson e dividida em duas partes, Antonio e Fernanda e Caminho de Ituverava. Sem letra, ela traz vocalizações arranjadas pelo genial Tavito, cordas e um clima que em alguns trechos pode nos levar surpreendentemente à fase mais experimental dos Beach Boys.

Outro momento muito significativo é a encantadora Feiticeira, canção leve, romântica e delicada com direito a um arranjo ousado que incorpora elementos de baião. Pode-se considerá-la uma espécie de pioneira de uma veia da obra de Ivan que posteriormente nos renderia sucessos maravilhosos do porte de Vitoriosa (1986) e Iluminados (1987).

Entre os músicos participantes do álbum, todos ótimos, um merece destaque especial. Trata-se de Alex Malheiros, baixista do grupo Azymuth que marca presença em 9 das 10 faixas. Sua forma moderna e swingada de tocar ajudou a dar uma roupagem mais próxima do jazz-funk americano ao som do disco, com direito a alguns momentos absurdamente inspirados. Ouça suas linhas de baixo em Arlequim Desconhecido, Setembro e Novo Tempo e tente não concordar comigo.

Curiosamente, nos créditos do álbum, Malheiros é identificado apenas como “Alexandre”, o que me levou a fazer uma extensa pesquisa para descobrir quem era esse cara, até que consegui a resposta ao ouvir uma entrevista feita por Nelson Faria com o saudoso baixista Arthur Maia, no qual ele relembra que entrou na banda de Ivan Lins para substituir precisamente Alex Malheiros, que gravou Novo Tempo mas não participou da turnê.

A embalagem de Novo Tempo também merece ser elogiada. Na capa, Ivan aparece com a camisa aberta, com jeitão de quem está pronto pra qualquer parada. Na parte interna e na contracapa (a capa é dupla), Ivan está ao lado dos parceiros Martins e Peranzzetta, sendo que em uma foto eles compartilham um jornal com manchetes típicas de um país pressionado por momentos difíceis.

Se não fez tanto sucesso como os trabalhos anteriores pela EMI, Novo Tempo conseguiu manter Ivan Lins nas paradas de sucesso e lotando os seus shows. Típico disco de transição, encerrou com classe uma fase brilhante de sua carreira e, por tabela, deu o pontapé inicial em outra, também das mais ricas. Mas essa é uma outra história, que a gente conta futuramente.

Ouça músicas de Novo Tempo em streaming:

Burnier & Cartier lançam raro álbum gravado na Austrália

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Por Fabian Chacur

Os cariocas Octávio Bonfá Burnier e Cláudio Cartier se conheceram no final dos anos 1960, e na década seguinte lançaram dois álbuns de estúdio, um em 1974 pela RCA e o outro em 1976 pela EMI-Odeon, ambos autointitulados. Em 1977, fizeram uma turnê pela Austrália que rendeu um disco ao vivo, lançado como Brazilian Connection (Pie Records) na terra dos cangurus e como Brazilian Parrots (First American Records) nos EUA. Agora, chega às plataformas digitais via FSB Records e Nikita Music Digital um registro desses shows históricos.

O repertório de Australian Tour inclui a música mais conhecida da dupla em relação ao grande público brasileiro, Ficaram Nus, que ficou em 3º lugar no Festival Abertura da TV Globo em 1975, e também Barranco, Pedra Pintada, Lembrando Ed Kleger e Lenda das Amazonas.

O álbum traz as participações do The Don Burrows Quintet, liderado pelo clarinetista, saxofonista e flautista Don Burrows, do guitarrista George Gola e do The Sidney String Quartet. Burrows e Gola fizeram shows e gravaram com o célebre tio de Burnier, o saudoso violonista e compositor Luiz Bonfá (1922-2001). O show teve como local o histórico The Sydney Opera House, situado na cidade australiano de Sidney.

Após o fim da dupla, que efetivamente durou de 1974 a 1978, seus integrantes seguiram adiante na música. Burnier, que hoje usa o nome artístico Tavynho Bonfá, ficou conhecido por ser autor, ao lado de Mariozinho Rocha, de Clarear, um dos primeiros sucessos do Roupa Nova, e lançou alguns trabalhos solo.

Cartier infelizmente nos deixou no último dia 17 de outubro, poucos dias após ter completado 70 anos de idade. Seu grande cartão de apresentações pós-dupla é ser um dos autores da bela canção Saigon, grande sucesso nas vozes de Beth Carvalho, Emílio Santiago e Leny Andrade.

O som de Burnier & Cartier tinha muito bem digeridas influências do Clube da Esquina de Milton Nascimento, com direito a belas vocalizações e canções consistentes. Seus dois discos de estúdio são muito recomendáveis e mereciam ter tido uma repercussão muito maior do que tiveram.

Ficaram Nus (ao vivo)- Burnier & Cartier:

Lô Borges retoma parceria com o irmão Márcio em single c/Moska

Lô Borges (participação Paulinho Moska) - Muito Além do Fim (single)

Por Fabian Chacur

Em um ano repleto de notícias ruins, qualquer coisa boa que surja no horizonte merece ser comemorada de forma efusiva. E é dessa forma que Mondo Pop saúda a retomada, após dez anos, da parceria entre os irmãos Lô e Márcio Borges. Autores de maravilhas do porte de Clube da Esquina, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo e Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, entre outras, eles acabam de divulgar o primeiro fruto dessa nova safra de canções, já disponível nas plataformas digitais via gravadora Deck.

Trata-se de Muito Além do Fim, um delicioso rock melódico com versos para tentar levantar o nosso astral nesse momento complicado do Brasil e do mundo em plena pandemia do novo coronavírus. Para melhorar ainda mais a coisa, temos a participação de Paulinho Moska, que se encaixa feito luva no balanço de Lô e na poesia de Márcio.

Além de Lô e Moska, marcaram presença nesta gravação Henrique Matheus (guitarra), Thiago Corrêa (baixo, teclados e percussão) e Robinson Matos (bateria). A faixa fará parte de um novo álbum de Lô Borges que está em fase de produção. Que venha logo, pois sua música é sempre um bálsamo para a nossa alma.

Muito Além do Fim– Lô Borges e Paulinho Moska:

Renato Teixeira lança a canção Humanos São Todos Iguais

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Por Fabian Chacur

Tem canção nova de Renato Teixeira no ar. O cantor, compositor e músico nascido em Santos que completou 75 anos no último dia 20 de maio se mostra em plena atividade. Recentemente, fez uma live ao lado do parceiro e amigo Sérgio Reis. Agora, nos apresenta Humanos São Todos Iguais, gravação de estúdio distribuída nas plataformas digitais pela Ditto Music. Mais um belo apelo à solidariedade entre as pessoas, em um momento duro como este. Ele explica a intenção deste novo trabalho:

“Humanos São Todos Iguais” é uma cantilena, dessas que se canta quase de improviso, quase declamando, um canto convicto e ensimesmado, soprado pela fé escancarada de quem acredita na salvação da humanidade. Nossa Senhora é intercessora como são intercessoras nossa mães. Na minha imaginação, ela aparece para interceder em nome dos pobres e dos desvalidos, clamando pelo fim da pobreza e de todas as diferenças que existem entre os humanos. A hora é agora! A canção nasceu sem maiores pretensões mas quem sabe não seja ela, como já havia sido Romaria, a nova mensageira dos nossos anseios por um mundo melhor e mais justo?”.

Humanos São Todos Iguais– Renato Teixeira:

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