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Walter Franco, genial coração tranquilo e malucão de festival

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Por Fabian Chacur

Os festivais de música se tornaram uma febre no Brasil a partir da metade da década de 1960, graças especialmente ao fato de terem sido promovidos por emissoras de TV e transmitidos para todo o país. Ajudaram a divulgar novos nomes, mas também firmaram alguns estereótipos negativos que prejudicaram carreiras. Walter Franco, que nos deixou nesta quinta (24) aos 74 anos, certamente foi um dos mais prejudicados nesse processo perverso que teve origem no mitológico Festival da Record de 1967.

Espécie de avô dos reality shows do século XXI, aquele tipo de competição musical logo apostaria em encaixar seus competidores em padrões. Tipo o galã (Chico Buarque, por exemplo), o moderno (Caetano Veloso), a espevitada (Elis Regina), o simpático carismático (Jair Rodrigues) e por aí vai.

O cantor, compositor e músico Sérgio Ricardo, ao ser furiosamente vaiado quando interpretava sua inusual composição Beto Bom de Bola naquele festival da Record de 1967, o levou a uma reação furiosa e totalmente inesperada: quebrou o violão e jogou seus restos na plateia.

Como seria de se esperar, naquele momento surgia mais um personagem a ser preenchido na escalação dos próximos certames similares. Denomino esse elemento de “malucão de festival”, tarja que passaria a ser imposta a todo competidor que nos oferecesse um trabalho fora dos padrões mais habituais.

De certa forma, Gilberto Gil foi atirado nesse fosso ao defender a depois eliminada Questão de Ordem em festival de 1968, gerando a indignação de Caetano Veloso e seu ácido discurso no meio de É Proibido Proibir.

Surgem os tais de “malditos”

Mas quem melhor se encaixou neste novo perfil foi Walter Franco no Festival Internacional da Canção da Globo de 1972. Afinal de contas, nada mais experimental e fora do padrão habitual do que Cabeça, uma música genial e minimalista que tocava na ferida da pressão que o chamado mundo moderno fazia nas pessoas, e da importância de se cuidar para não explodir. Ao ver aquilo, em horário nobre, o público entrou em parafuso, e a emissora amou estereotipar aquele cabeludo tão criativo.

Pode-se dizer que essa é a origem do rótulo “malditos”, que depois seria usado para abranger artistas como o próprio Franco, Jards Macalé (que também encarnou o “malucão” em festivais), Jorge Mautner, Sérgio Sampaio e outros artistas criativos e rebeldes. Denominação negativa que dava a entender que se tratava de caras doidos, irascíveis e fora do senso comum que mereciam ser devidamente marginalizados. Como fizeram mal a gente tão talentosa!

Walter Franco voltaria, “apesar de tudo”, ao papel no Festival Abertura, promovido pela Globo em 1975, com sua bela Muito Tudo, homenagem a John Lennon e João Gilberto, e também no caótico festival da Tupi, em 1979. Nesta última, trouxe a roqueira e virulenta Canalha, cujo refrão dava ao público presente a chance de por prá fora a agonia daqueles anos de ditadura militar ainda brava e repulsiva. Ficou em segundo lugar.

Aliás, acho que naquele evento o papel do malucão ficou mesmo a cargo de Arrigo Barnabé e sua Sabor de Veneno, que o público jurava ser sabor de outra coisa menos saborosa e gritava na hora do refrão o nome…

Muito além de apenas experimental e polêmico

Eis o porque Walter Franco ficou com esse estigma de maldito. No entanto, seu incrível experimentalismo, registrado de forma direta no cultuado álbum Ou Não (1972, aquele com a mosca na capa), era apenas uma de suas facetas. O roqueiro vibrante, por exemplo, deu as caras com tudo em Revolver (1975), um dos melhores trabalhos do rock setentista.

Ele também sempre se mostrou capaz de escrever canções delicadas, melódicas e com letras de uma profundidade filosófica marcante, como Coração Tranquilo, Vela Aberta, Respire Fundo e Serra do Luar. Atraiu fãs dos mais distintos, o que o fato de ter sido regravado por nomes tão diferentes entre si como Chico Buarque, Leila Pinheiro, Oswaldo Montenegro, Ira!, Camisa de Vênus, Pato Fu e Titãs (com quem fez shows) serve como prova.

A qualidade da herança musical deixada por Walter Franco em seus poucos (e bons) álbuns é um legado que vai muito além do que rótulos como “maldito” ou “malucão de festival” podem dar a entender. Filho do poeta e político Cid Franco e nascido em São Paulo em 6 de janeiro de 1945, sua figura simpática e tranquila será reverenciada pelos fãs da melhor música brasileira, e certamente redescoberta por muitos a partir dessa sua partida.

Ouça Revolver na íntegra em streaming:

Nelson Angelo e Joyce, o LP, está de volta no formato vinil de 180 g

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Por Fabian Chacur

Em 1972, com vinte e poucos anos cada, Nelson Angelo e Joyce Moreno (então, assinando apenas Joyce) eram um casal que resolveu lançar um disco em dupla. Nascia, dessa forma, o álbum Nelson Angelo e Joyce, lançado na época pela EMI-Odeon. Se não vendeu lá essas maravilhas, foi devidamente cultuado por um público que se ampliou com o decorrer dos anos. Este trabalho está retornando às lojas no formato LP de vinil de 180 gramas, em lançamento feito em parceria por Universal Music e Polysom, parte integrante da coleção Clássicos de Vinil, desenvolvida pela Polysom.

O ouvinte desavisado certamente associará o som das 13 faixas deste álbum com a musicalidade criada pelo Clube da Esquina. E essa semelhança não é por acaso. O mineiro Nelson também fazia parte daquele grupo de artistas geniais capitaneados por Milton Nascimento. Cantor, compositor e músico, ele tem diversos discos solo em seu currículo, e é o autor da belíssima Fazenda, um grande sucesso na gravação do Bituca de Três Pontas.

Boa parte dessa turma genial estava radicada no Rio naquele 1972, quando, por sinal, foram lançados Clube da Esquina (Milton e Lô Borges) e Lô Borges (de Lô Borges, o célebre Disco do Tênis). A terra de Joyce, vale lembrar.

Joyce se encaixou feito luva na sonoridade folk-rock-rural do disco, com diversas composições de Nelson (uma com Joyce) e outras de nomes como Danilo Caymmi, Ronaldo Bastos e Márcio Borges. De quebra, participam do disco baluartes do Clube da Esquina como Lô Borges, Toninho Horta, Wagner Tiso e Beto Guedes. No repertório, canções deliciosas como Meus Vinte Anos, Comunhão, Sete Cachorros e Um Gosto de Fruta, entre outras.

Vale lembrar que, nessa época, nasceram Clara Moreno e Ana Martins, filhas do casal que posteriormente se tornaram também cantoras. Elas inspiraram um dos maiores sucessos da carreira de Joyce Moreno, a doce e delicada Clareana, defendida em um festival da Globo em 1980 e faixa do estupendo álbum Feminina (leia sobre esse CD aqui), que a cantora irá interpretar na íntegra neste fim de semana em São Paulo, durante a Virada Cultural. Um programa imperdível, ainda mais sendo gratuito.

Joyce e Nelson Angelo- ouça o álbum em streaming:

Benito di Paula faz shows com filho músico Rodrigo Vellozo

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Por Fabian Chacur

O título do show não deixa margem a dúvidas: Piano e Voz. Estarão em cena apenas dois cantores e pianistas, que tem como vínculo, além do talento, o fato de serem parentes. Mais especificamente, um é filho do outro. São eles Rodrigo Vellozo e seu pai, o lendário Benito di Paula, que se apresentam em parceria neste sábado (5) às 21h no Rio, no Teatro Bradesco Rio (Avenida das Américas, nº 3.900- loja 160- Shopping VillageMall- fone 0xx21-3431-0100), com ingressos de R$ 30,00 a R$ 160,00.

Neste espetáculo, a dupla, provavelmente se revezando entre vocais e teclados, mostrará ao público um repertório repleto daqueles hits maravilhosos que Benito, cujo nome de batismo é Uday Vellozzo (nascido em 28 de novembro de 1941 em Niterói-RJ), nos ofereceu especialmente na década de 1970. Maravilhas sacudidas do tipo Charlie Brown, Mulher Brasileira, Retalhos de Cetim e Tudo Está No Seu Lugar.

Com seu samba pop swingado e de assinatura própria, Benito vendeu milhões de discos e cativou fãs no Brasil e até fora dele. A crítica passou a respeitá-lo mais de uns tempos para cá, e ele voltou a ter mais espaços na mídia após lançar o DVD/CD Ao Vivo pela EMI em 2009. Seu mais recente CD é Essa Felicidade é Nossa (2017), que traz participações especiais de Fernanda Takai, Trio Virgulino e do filho Rodrigo.

Formado em piano clássico, Rodrigo Vellozo iniciou sua carreira profissional como cantor e músico ao lançar em 2009 o primeiro CD solo, Samba de Câmara. Pra Onde Vou (2015) é seu mais recente álbum, e ele promete um novo para breve. Para quem é de São Paulo, Piano e Voz será apresentado na cidade no dia 25 (sexta) às 21h no Teatro Bradesco (rua Palestra Itália, 500- 3º piso- Bourbon Shopping- fone 0xx11-3670-4100), ingressos de R$ 30,00 a R$ 160,00.

Ao Vivo- Benito Di Paula (DVD em streaming):

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