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Novo CD de Ringo Starr chega às lojas brasileiras em breve

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Por Fabian Chacur

Para os fãs do formato físico, mais precisamente do CD, e de Ringo Starr, neste caso, uma boa notícia. Está chegando às lojas brasileiras nos próximos dias o novo álbum do ex-Beatle, Give More Love, que também está sendo disponibilizado para download pago e nas diversas plataformas de streaming. A edição será a mesma que já saiu no exterior.

Give More Love é o sucessor de Postcards From Paradise (2015), e não está indo muito bem das pernas em termos comerciais. Nos EUA, atingiu apenas a posição de número 128, ainda pior do que a de seu antecessor, que chegou ao posto de nº 99. Curiosamente, até o momento a melhor performance do álbum foi na República Tcheca, na qual o trabalho do baterista mais famoso do mundo chegou ao nº18 dos charts locais.

O novo álbum do astro britânico traz um elenco repleto de amigos célebres no cenário musical, como tem sido praxe em sua carreira solo. O maior deles, Paul McCartney, marca presença em We’re On The Road Again e Show Me The Way. Aliás, o título da primeira (estamos na estrada novamente) tem tudo a ver, pois McCartney tocará no Brasil em outubro, e Ringo tem oito datas para cumprir em Las Vegas.

Além do velho e bom Macca, Mr. Starkey tem a seu lado em Give More Love os craques Steve Lukather, Peter Frampton, Richard Marx, Dave Stewart, Joe Walsh, Glen Ballard, Timothy B. Schmit e Edgar Winter, entre outros. O álbum traz 10 composições inéditas de Ringo escritas com diversos parceiros. Como bônus, releituras de Back Off Boogaloo, Photograph, You Can’t Fight Lightining e Don’t Pass Me By.

O projeto inicial de Ringo era gravar um álbum totalmente country, mas essa ideia acabou sendo deixada de lado, sendo que a única faixa que se encaixa bem nessa praia é a bela So Wrong For So Long. De resto, temos rock básico, baladas e um pouco de pop, com destaque para We’re On The Road Again, Show Me The Way e Standing Still. Um trabalho despretensioso, básico e divertido de se ouvir.

We’re On The Road Again– Ringo Starr:

Sgt. Pepper’s ao vivo em duas visões distintas em São Paulo

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Por Fabian Chacur

Estamos todos comemorando em 2017 os 50 anos de lançamento do mais badalado e icônico álbum de rock de todos os tempos. Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) marcou a sua época, e desde então é cultuado por fãs de todos os tipos, que aumentam anualmente. Nesta quinta (1º), duas bandas mostrarão em São Paulo, em locais diferentes, o repertório na íntegra deste grande clássico da música popular.

O grupo cuiabano Vanguart (FOTO) mostrará as 13 canções do álbum dos Beatles às 21h no Centro Cultural São Paulo- Sala Adoniran Barbosa (rua Vergueiro, nº 1.000- Paraíso- fone 0xx11-3397-4002), com entrada gratuita. A banda, conhecida pela qualidade de seu folk rock, conta com Hélio Flanders (voz e violão), Reginaldo (baixo e voz), David Dafré (guitarra e bandolim) e Fernanda Kostchek (violinos). Espere arranjos diferenciados e originais por parte deles.

Para quem busca mais fidelidade ao objeto original, a dica é a apresentação do Beatles Abbey Road a partir das 22h30 no Bourbon Street (rua dos Chanés, nº 127- Moema- fone 0xx11-5095-6100), com couvert artístico a R$ 60,00. Das inúmeras bandas existentes no Brasil que se dedicam a tocar o repertório dos Fab Four, este quarteto é certamente um dos mais talentosos, com direito a figurinos e instrumentos iguais aos tocados pelos artistas coverizados.

Mais: Ricardo Júnior (Paul McCartney), Luis Fernando Gomes (John Lennon), Maury D’Ambrósio (George Harrison) e Carlos Picchi (Ringo Starr) são excelentes músicos, reproduzindo com fidelidade o instrumental e os vocais da banda que tornou Liverpool conhecida mundialmente. Músicas como She’s Leaving Home, Getting Better, With a Little Help From My Friends e A Day In The Life serão mostradas com riqueza de detalhes. Absolutamente imperdível.

The Beatles Abbey Road- trechos de músicas ao vivo:

Filme Eight Days a Week nos promete mais do que cumpre

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Por Fabian Chacur

Depois do lançamento do maxi-documentário Anthology (1995), com mais de onze horas de duração e apresentando de forma profunda e repleta de material essencial a história dos Beatles, ficou difícil para alguém pensar em um projeto audiovisual que possa superá-lo ou ao menos chegar perto de tal excelência. O filme-documentário Eight Days a Week- The Touring Years, lançado em setembro de 2016 nos cinemas e agora saindo no formato DVD, chegou com essa pretensão, vide seu lema: “The Band You Know, The Story You Don’t” (a banda que você conhece, a história que não conhece).

Para completar a expectativa, o mentor de tal projeto era ninguém menos do que Ron Howard, conhecido por filmes como Apollo 13 (1995), Cocoon (1985) e Uma Mente Brilhante (2001), tendo ganho o Oscar de melhor diretor com este último. Diante de tanta expectativa, a pergunta é óbvia: o produto final atinge seu objetivo? A resposta é não, mas merece uma explicação minuciosa, para não soar como uma daquelas análises gratuitas só para atrair cliques ou irritar os fãs.

O documentário tem como objetivo mostrar a fase em que os Beatles se tornaram um fenômeno mundial em termos de popularidade, entre 1963 e 1966, e no qual as turnês pelo mundo afora foram uma ferramenta fundamental. Os anos da Beatlemania, para ser mais preciso. Como forma de nos apresentar esse incrível fenômeno comportamental e cultural, Howard se valeu de vasto material de arquivo já utilizado anteriormente, com apenas uma ou outra cena menos conhecida.

As entrevistas recentes feitas com Paul McCartney e Ringo Starr também são bastante redundantes, inferiores às feitas para o Anthology. Dessa forma, essa coisa de “a história que você não conhece” soa arrogante demais. Novidades ou possíveis revelações passam bem longe dos 106 minutos de duração do filme. Nem precisa ser um especialista daqueles realmente viciados em Beatles para ter tido conhecimento de tudo o que é contado aqui.

Lógico que um profissional do calibre de Ron Howard não faria um produto ruim em termos de apresentação, e nesse aspecto, Eight Days a Week é muito bem realizado, fluindo bem e encaixando os registros de forma bem ordenada. Os depoimentos do jornalista americano Larry Kane, o único que acompanhou todos os shows das turnês dos Fab Four pelos EUA em 1964 e 1965 também são pontos importantes.

Merecem um belo destaque os deliciosos testemunhos da atriz Whoopi Goldberg sobre sua idolatria em relação ao grupo britânico e da emoção de ter visto o mitológico show no Shea Stadium em 1965, e também o relato do show realizado em Jacksonville, Florida, em 1964, no qual eles se recusam a tocar para uma plateia segregada, resultando em um raro momento em que brancos e negros conviveram em um show dessas proporções naqueles lados dos EUA.

A qualidade das imagens é impecável, assim como o áudio. A narrativa vai até o último show oficial da banda, em agosto de 1966 no Candlestick Park, San Francisco (EUA), e o documentário acaba com cenas da última apresentação de fato do quarteto de Liverpool, realizado em janeiro de 1969 no teto do prédio onde estava os escritórios da gravadora deles, a Apple.

Muitas cenas de histeria do público ao redor do mundo foram usadas, e de forma bem eficiente para ressaltar o quanto o som do grupo inglês atiçava a libido do público, especialmente o adolescente, e também de como os adultos e boa parte da imprensa ficavam abismados com aquilo tudo, sem entender absolutamente nada.

Como os Beatles são um daqueles fenômenos de popularidade que desafiam o tempo, existem fãs que os conheceram há pouco, e para os quais até mesmo as carreiras solo de John Lennon e George Harrison podem parecer algo totalmente fora de seus radares. Para eles, Eight Days a Week funciona como uma boa introdução em termos audiovisuais. Mas para quem os curte há mais tempo, é um filme com cheiro de “já conheço bem essa história, e melhor contada”.

obs.: e o DVD não traz nenhum extra. Nada, nadinha. Eita muquiranice!!!

Eight Days a Week-trailer do filme:

Surrealistic Pillow faz 50 anos como um marco psicodélico

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Por Fabian Chacur

Um bom disco de estreia que vendeu muito pouco, duas alterações importantes na formação e certamente o olhar atento da gravadora RCA Records (hoje, Sony Music), não muito afim de encarar outro fracasso comercial. Eis o clima envolvendo o lançamento de Surrealistic Pillow, o segundo álbum do grupo americano Jefferson Airplane, que chegou às lojas americanas em fevereiro de 1967.

A banda criada em 1965 pelo cantor e compositor Marty Balin na cidade de San Francisco vivia um momento de transição. Paul Kantner (vocal, guitarra e composições), Jack Casady (baixo) e Jorma Kaukonen(guitarra) procuravam substitutos para duas posições importantes. A boa vocalista Signe Toly Anderson preferiu largar o mundo do rock para criar o seu primeiro filho ao lado de um ativista político, afastando-se dos shows e da estrada para isso.

A saída de Skip Spence era previsível. Afinal de contas, não se tratava de um baterista de fato, e sim de cantor e compositor. Balin cismou que o cara seria o seu baterista, e durante um tempo, isso se materializou. Só que Spence era muito talentoso, e decidiu partir para montar a sua própria banda, a Moby Grape, que se tornaria cultuada no cenário do psicodelismo, e depois investiria em uma carreira-solo.

Jefferson Airplane Takes Off equivale a uma boa estreia, mostrando uma banda bem entrosada com uma sonoridade na linha do folk-country-rock e elementos do então emergente psicodelismo. Em alguns momentos, soavam muito próximos ao som do The Mamas & The Papas, um dos grandes sucessos do rock naquele momento. Mas as duas baixas ajudariam sua sonoridade a tomar rumos próprios e mais originais.

Como baterista, entrou no time Spencer Dryden, mais velho do que os outros integrantes e com forte formação jazzística. Nos vocais, uma surpresa: Grace Slick, que era a cantora de uma banda que tentava rivalizar com o Airplane na cena de San Francisco, a Great Society. Quando recebeu o convite para trocar de time, a cantora, compositora e pianista não pensou duas vezes. Ela sabia que teria muito mais chances de atingir o estrelato com o outro time.

Se Dryden se encaixou feito luva com Jorma e Casady, dois músicos com grandes recursos técnicos, Grace se mostrou ideal para impulsionar a banda rumo ao primeiro time do rock americano. Carismática, vozeirão e de uma beleza agressiva, ela de quebra ainda trouxe duas músicas do repertório do Great Society, a de sua autoria White Rabbit e Somebody To Love, de seu ex-cunhado Darby Slick. Bingo!

Foram exatamente essas duas canções que abriram as portas das paradas de sucesso para o JA. Lançada em single em abril de 1967, Somebody To Love atingiu o 5º posto na parada ianque e se tornou um dos hinos do chamado Verão do Amor. Por sua vez, White Rabbit virou um marco do psicodelismo, com seu andamento inspirado no Bolero de Ravel e letra baseada em Alice no País das Maravilhas. Saiu como single em junho daquele ano e chegou ao 8º lugar nos charts.

Embora excelentes, essas canções são apenas a ponta do iceberg aqui analisado. Surrealistic Pillow é uma das obras primas do rock psicodélico, e um dos campeões de vendagem nesse segmento roqueiro. Traz como característica canções mais concisas do que a média do estilo, mas com muita invenção e diversidade, além de uma performance vocal e instrumental dignas de uma banda do seu porte.

Além do incrível entendimento entre Dryden, Casady e Kaukonen, o Airplane trazia como armas o fato de ter três grandes vocalistas (com Jorma como uma espécie de D’Artagnan, cantando vez por outra). A voz potente de Grace se encaixou feito luva com a interpretação apaixonada e intensa de Marty Balin, e com o vocal de alcance médio, mas muito bem colocado, de Paul Kantner. Um trio de forte calibre.

O álbum possui várias colorações sonoras. She Has Funny Cars e 3/5 Of a Mile in 10 Seconds são dois rocks incisivos. My Best Friend (de Skip Spence) e How Do You Feel (do obscuro Tom Mastin) são as que mais se assemelham ao estilo do álbum de estreia, e são boas. O lirismo de Balin se manifesta na intensa Today e na introspectiva e dolorida Comin’ Back To Me. Jorma esbanja técnica e categoria na instrumental Embryonic Journey, que é só ele no violão e nada mais.

D.C.B.A-25 mostra Paul Kantner e Grace Slick terçando vozes, eles que acabaram se tornando um casal durante os anos de ouro do Airplane. O álbum se encerra com a vibrante Plastic Fantastic Lover, conduzida por uma levada compassada de bateria e uma linha de baixo genial, sendo que o vocal meio falado de Balin pode ser considerado como uma espécie de pré-rap. Não sei como nenhum artista dessa área pensou em regravá-la, tão óbvio é se associar seu pioneirismo nessa direção.

Surrealistic Pillow tornou o Jefferson Airplane popular, atingindo o 3º lugar na parada americana e abrindo os caminhos para que a banda se tornasse uma das mais cultuadas naqueles anos de ouro do rock, com direito a participações marcantes nos festivais de Monterey (1967), Woodstock e Altamont (ambos em 1969). Abriria as portas para discos ainda melhores, mas isso fica para uma futura resenha.

Surrealistic Pillow- Jefferson Airplane (em streaming):

50 anos do melhor álbum pré-fabricado da história do rock

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Por Fabian Chacur

Nos anos 80, meu grande amigo e mestre Ayrton Mugnaini Jr. me disse uma frase bastante significativa: o mundo da música pop não aceita o vácuo. Trocando em miúdos: quando um determinado artista deixa de fazer um tipo de música que lhe atraía muitos fãs e segue rumo a outras sonoridades, normalmente alguém irá se dar bem ao retomar esse estilo sonoro. Eis um dos segredos dos Monkees, cujo primeiro álbum saiu em 10 de outubro de 1966.

Em 1966, os Beatles viviam um momento de mutação sonora total. Com o lançamento do álbum Revolver e do single Paperback Writer/Rain, os Fab Four davam uma forte guinada rumo ao psicodelismo. Eles ampliavam seus horizontes musicais, e deixavam para trás os incríveis anos de A Hard Day’s Night (1964) e Help! (1965). Além disso, começaram a lançar novos trabalhos em doses homeopáticas, em relação ao que ocorreu entre 1963 e 1965. Isso deixava uma forte demanda reprimida no mercado musical.

É neste cenário que os produtores de TV Bob Rafelson (1933) e Bert Schneider (1933-2011) enfim conseguem emplacar um projeto que havia surgido de forma tímida em 1962: fazer uma série de TV baseada na carreira de uma banda fictícia de rock. Reza a lenda que até o grupo The Lovin’ Spoonful chegou a ser cotado para estrelar essa atração, mas foram postos de lado ao assinar com uma gravadora e entrarem no mercado musical de verdade.

Com o estouro dos Beatles e logo em seguida do seu primeiro filme, A Hard Day’s Night (Os Reis do Iê-iê-Iê),em 1964, Rafelson e Schneider viram que estavam no caminho certo, fato que o estouro de outra atração cinematográfica beatle, Help!, só tornou mais óbvio. E o contrato com a Screem Gems viabilizou o projeto. Agora, era só escolher os quatro caras para estrelar a atração. Um deles foi definido a priori.

O inglês Davy Jones (1945-2012) era famoso por atuar em atrações teatrais, além de também cantar. Curiosamente, ele se apresentou com o elenco de uma dessas peças no programa de Ed Sullivan no mesmo dia 9 de fevereiro de 1964 em que os Beatles apareceram pela primeira vez na TV americana, causando um verdadeiro pandemônio. A vez de Jones chegaria não muito tempo depois.

Como forma de atrair pessoas para uma seleção, os produtores colocaram anúncios nas publicações Daily Variety e The Hollywood Reporter procurando músicos/atores. Foram 437 os interessados. Curiosamente, apenas um deles entrou no time tendo atendido ao chamado, Michael Nesmith. Micky Dolenz já tinha um currículo como ator infantil e cantor e furou a fila, e Peter Tork veio indicado pelo amigo Stephen Stills, reprovado por causa de seus dentes.

Como forma de dar força ao programa, o produtor musical televisivo Don Kirshner ficou com a missão de buscar canções adequadas. Ele apostou em uma jovem dupla de músicos e compositores, Tommy Boyce (1939-1994) e Bobby Hart (1939), que acabou se incumbindo de boa parte das canções e também da produção do álbum. Também contribuíram o então desconhecido David Gates (que depois estouraria como líder da banda Bread), Carole King e Gerry Goffin.

No dia 16 de agosto de 1966, chega às lojas o single Last Train To Clarksville/Take a Giant Step, primeira gravação atribuída aos Monkees. Vale o registro: o programa de TV só estreou no dia 12 de setembro daquele ano, e quando isso ocorreu, esse compacto simples já estava ponteando as paradas de sucesso. E no dia 10 de outubro, chegava às lojas o primeiro álbum daquele verdadeiro fenômeno instantâneo.

Como os quatro integrantes dos Monkees não eram propriamente músicos treinados para tocar em grupo, ao menos não naquele momento, Kirshner preferiu apostar no talento de Boyce & Hart e de músicos de estúdio para as gravações. Nesmith conseguiu ficar com a produção das duas faixas de sua autoria, e encaixou nas duas a guitarra de Peter Tork, naquele momento o músico mais competente entre os quatro. E foi o único deles a tocar no disco.

Na verdade, nenhuma das 12 faixas de The Monkees conta com a participação dos quatro monkees juntos. Aliás, 8 delas só trazem um dos caras por vez. Micky Dolenz, o melhor cantor, ficou com o vocal principal de seis faixas, e em uma divide o microfone com Davy Jones, que por sua vez se incumbe dos lead vocals em três canções. As outras duas foram interpretadas por Mike Nesmith.

Por causa disso, e também pelo fato de a contracapa do álbum não listar o nome dos músicos de estúdio que participaram do trabalho, ficava no ar um clima de farsa, como se fossem eles os responsáveis por todos os sons incluídos no disco. Rapidamente, todos ficaram sabendo de como as coisas ocorreram de fato, e não demorou para que os Monkees recebessem o apelido de Prefab Four (os quatro pré-fabricados), um contraponto avacalhado aos Fab Four originais.

O público não ligou para isso, pois a série de TV era simplesmente hilariante, desenvolvendo com muita inteligência os rumos apresentados nos filmes dos Beatles, e a qualidade das músicas apresentadas em cada episódio ajudaram a solidificar esse estouro. Resultado: grandes índices de audiência televisiva, e a chegada no dia 12 de novembro de 1966 do LP The Monkees ao primeiro lugar na parada americana, onde permaneceu durante 13 longas semanas.

O que dizer de um disco que traz clássicos maravilhosos do porte de Last Train To Clarksville, Take a Giant Step, Tomorrow’s Gonna Be Another Day, I Wanna Be Free e (Theme From) The Monkees? As canções conseguiram de forma brilhante emular o estilão beatle 1964/65 sem cair na mera cópia ou paródia. E o melhor de tudo, para eles: naquele período, John, Paul, George e Ringo estavam imersos no estúdio, longe dos palcos e preparando novo LP. O caminho estava livre para os Monkees reinarem.

Logo a seguir, os Prefab Four realizaram a façanha de substituir seu primeiro álbum no topo pelo segundo, More Of The Monkees, que a partir de fevereiro de 1967 se manteve liderando os charts ianques durante longas 18 semanas. Era a Monkee mania total! Aí, em maio de 1967, Headquarters, o terceiro álbum do grupo, marcou o início do maior envolvimento de seus integrantes, compondo, tocando e cantando, sem o apoio de Don Kirshner.

Headquarters ficou durante apenas uma semana na liderança dos charts americanos. Na semana seguinte, a ironia das ironias ocorreu. Eles foram apeados da ponta pelo Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o tão esperado novo álbum dos Beatles, que permaneceu por lá por 15 longas semanas. Os Monkees ainda conseguiriam grande sucesso com seu quarto álbum Pisces, Aquarius, Capricorn & Jones Ltda, que ficou cinco semanas no número 1, mas coube ao Magical Mystery Tour acabar com a festa de uma vez por todas.

Muitas outras coisas ocorreriam na história dos Monkees, que se tornaram uma espécie de boneco Pinnochio do sr. Gepetto ou do monstro do doutor Victor Frankestein, ganhando vida própria e virando uma banda de verdade. Mas nada supera o impacto desse seu disco de estreia, e de seus maravilhosos singles. Até mesmo um grupo pré-fabricado dos anos 60 merece estatura de mito… Anos incríveis mesmo!

The Monkees- The Monkees (ouça em streaming):

A magia dos Beatles ao vivo e seu registro remasterizado

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Por Fabian Chacur

Em 1977, foi lançado de forma póstuma o primeiro álbum totalmente gravado ao vivo dos Beatles, intitulado The Beatles At The Hollywood Bowl. Fora de catálogo há décadas, esse trabalho histórico enfim chega ao formato CD, com o título Live At The Hollywood Bowl e agora funcionando como uma espécie de trilha sonora do documentário Eight Days a Week- The Touring Years, documentário de Ron Howard sobre as turnês dos Fab Four.

O lançamento original tinha como marca a qualidade de som não muito boa. Gravado em apenas três canais e de forma absolutamente precária em shows realizados pela seminal banda inglesa no Hollywood Bowl, em Hollywood, EUA, em 23 de agosto de 1964 e 29 de agosto de 1965, o que tínhamos era muita gritaria das fãs enlouquecidas e o som dos Beatles tentando sobreviver no meio dessa barulheira toda. Mas, ainda assim, era um álbum incrível por sua energia e conteúdo histórico.

Se o mítico George Martin fez milagres com os parcos recursos que tinha em 1977 para trabalhar com essas fitas, seu filho Giles Martin teve bem mais sorte. Suando a camisa para tirar o melhor daquele material histórico, ele nos proporciona um resultado técnico que, se não é perfeito (e não teria mesmo como ser), ressalta muito melhor a performance da banda, especialmente em termos de vocais. O baixo continua lá atrás, mas dá para aguentar numa boa.

Live At The Hollywood Bowl serve como uma prova concreta da potência e virilidade do trabalho dos Beatles nos palcos. Perante quase 18 mil pessoas por apresentação nesses dois shows nos EUA, o quarteto esbanja garra, afinação (na medida do possível para quem tocava sem retorno, algo impensável nos dias de hoje) e um carisma simplesmente imbatível. Superando as dificuldades técnicas com categoria, eles simplesmente detonam, enlouquecendo os fãs.

O repertório mistura hits fulminantes como Twist And Shout, Ticket To Ride, Can’t Buy Me Love, Help!, A Hard Day’s Night e She Loves You com outras também fortes, tipo She’s a Woman, Boys e Things We Said Today. São nove gravações realizadas no show de 1964 e oito no de 1965, provavelmente selecionadas devido a razões técnicas e de performance. A edição tem alguns brancos, mas no geral dá para se imaginar como se fosse uma única apresentação contínua.

A nova edição traz como marcas uma nova capa, desta vez digipack plastificada, dupla e com direito a encarte colorido repleto de fotos e dois textos, um inédito do jornalista David Fricke e outro presente na edição original do álbum e escrito por George Martin. De quebra, quatro faixas bônus não presentes no LP original: You Can’t Do That, I Want To Hold Your Hand, Everybody’s Trying To Be My Baby e Baby’s In Black.

Ouvir os Beatles ao vivo nesses registros feitos nos anos heroicos do rock and roll é a prova de que o talento e a garra são capazes de superar todas as barreiras, mesmo as técnicas. Chega a ser inacreditável pensar como esses caras conseguiam tocar tão bem um repertório desse altíssimo nível em condições tão precárias. O mais legal é que dá para se ouvir Live At The Hollywood Bowl para curtir, e não só como curiosidade de uma era de ouro do rock. Que ótimo!

The Beatles Live At The Hollywood Bowl show de 1964:

Pure McCartney: bela viagem pela obra de um gênio musical

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Por Fabian Chacur

Coletâneas costumam ser encaradas de forma não muito positiva por críticos e fãs mais radicais de música. O argumento é sempre o mesmo: seria uma forma de apresentar uma obra de forma fatiada, com escolhas nem sempre justificáveis e frequentemente mostrando um retrato nada fiel do artista enfocado. Questão de opinião. Para mim, coletâneas são, quando bem feitas e bem planejadas, belas obras de entrada para obras musicais. Eis a função que Pure McCartney, álbum duplo que acaba de sair no Brasil, pode cumprir em relação ao trabalho de Paul McCartney.

Pure McCartney pode ser encontrado no exterior em três formatos: o mesmo CD duplo com 39 faixas, uma caixa com 4 CDs (contendo 67 faixas) e vinil quádruplo com 41 faixas. Todas essas alternativas seguem o mesmo conceito, conforme explica texto escrito pelo próprio Macca no encarte que acompanha os lançamentos: “uma coleção de minhas gravações tendo em mente nada além de ser algo divertido para se ouvir, ou talvez para ser ouvida em uma longa viagem de carro, ou em um evento em casa ou ainda uma festa com amigos”. Simples assim.

Dessa forma, fica fácil entender o porque vários sucessos marcantes ficaram de fora, preteridos em alguns casos por músicas não tão conhecidas. O repertório cobre toda a carreira solo do ex-beatle, indo desde 1970 até 2014. Para aquele fã que tem tudo do artista, só cinco itens mais interessantes: os remixes de Ebony And Ivory, Say Say Say, Here Today e Wanderlust, e a belíssima Hope For The Future, lançada em 2014 para a trilha do vídeo game Destiny e disponível anteriormente apenas no exterior em um single de 12 polegadas de vinil.

O repertório não foi ordenado de forma cronológica, o que nos proporciona saborosas idas e vidas por fases bem distintas do trabalho do artista. A curiosidade fica por conta de a primeira e a última faixa em todos os formatos serem as mesmas e oriundas do primeiro álbum solo do astro britânico, McCartney (1970), respectivamente Maybe I’m Amazed e Junk. Isso não deve ser obra do acaso…

As músicas contidas nesta compilação reforçam um sonho que muitos fãs do autor de Yesterday gostariam de realizar: ter a chance de ver um de seus shows só com material da carreira-solo, sem canções dos Beatles. Nada contra o repertório maravilhoso dos Fab Four, mas é que McCartney tem tantas músicas boas de 1970 para cá que seria bem bacana poder ouvir ao vivo uma Heart Of The Country, por exemplo, ao invés da milésima interpretação de Hey Jude.

Ouvir Pure McCartney é uma bela oportunidade de se curtir a incrível versatilidade de um grande talento. Power ballad em Maybe I’m Amazed, disco music em Coming Up, soul-jazz em Arrow Through Me, folk puro em Junk, pop delicioso em Listen To What The Man Said, rock na veia em Jet, rock eletrônico em Save Us, lirismo puro em Here Today

A variedade de estilos é incrível, sempre com grande qualidade técnica e artística. E acredite: com o material que sobrou, mesmo se levarmos em conta a caixa com quatro CDs, ainda restou material bom o suficiente para justificar pelo menos umas quatro compilações do mesmo gênero, sem repetir faixas e com a mesma força.

O único problema para o neófito que se meter a ouvir Pure McCartney é acabar se viciando no som do cara, e por tabela sair atrás de toda a sua obra. É disco pra burro!!! Mas pode ter certeza de que vale a pena colecionar. Tipo do vício sem contraindicações. E reforço o ponto: ótimo para desancar quem acha que o trabalho solo de Paul McCartney não está a altura do que ele fez nos Beatles. Não? Pense outra vez!

Arrow Through Me– Wings:

Dear Boy– Paul McCartney:

Hope For The Future– Paul McCartney:

Pet Sounds e seu redemoinho de boas emoções e sensações

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Por Fabian Chacur

Pet Sounds completa 50 anos de lançamento neste mês de maio. O trabalho mais mitificado dos Beach Boys e presença inevitável na lista de melhores álbuns de rock de todos os tempos, trata-se de um disco que, tanto tempo depois de chegar ao conhecimento do público, permanece capaz de causar incrível prazer auditivo e mental a quem mergulha em seu conteúdo. Um clássico que merece essa badalação toda.

A semente que gerou a criação deste clássico CD foi a insatisfação de Brian Wilson, cantor, compositor e líder dos Beach Boys, ao ouvir Rubber Soul, dos Beatles, e se sentir muito atrás da banda britânica em termos criativos. Ele já estava cheio de falar sobre praias, sol, mulheres e diversão, sempre com uma base sonora leve e contagiante. A fórmula rendeu coisas muito boas, mas ele queria seguir adiante e não se repetir.

Como forma de tentar viabilizar esse objetivo ambicioso, resolveu deixar de participar dos shows da banda, passando a partir do final de 1965 a se dedicar exclusivamente ao trabalho de composições e de gravações do grupo. Convocou o letrista Tony Asher para ajuda-lo a traduzir em palavras seus sentimentos sobre amor, vida, sonhos, decepções etc. De quebra, resolveu transpor as fronteiras habituais e buscar outros instrumentos musicais e influências sonoras.

Foi dessa forma que nasceu Pet Sounds. Arranjos grandiosos, com direito a sonoridades até então não comuns no rock, incluindo instrumentos típicos da musica erudita e experimental, mudanças no andamento das canções, vocalizações elaboradas e tudo o que pudesse significar um novo rumo na vida musical dos Beach Boys. O grupo olhou esse desejo de Brian com certo temor, mas preferiu seguir os passos do líder, acreditando em sua intuição e talento. Fizeram bem.

Ouvir Pet Sounds equivale a uma bela viagem emocional, repleta de nuances sonoras e poéticas. Tudo começa com Wouldn’t It Be Nice, que coloca no condicional uma possibilidade aparente de felicidade, tipo “não seria legal se ficássemos juntos?”. As letras do álbum enveredam pela busca do amor, do seu eu interior, e da inadequação das pessoas mais sensíveis a um mundo costumeiramente violento, seco e sem espaços para o lirismo e o idealismo.

God Only Knows, sua música mais conhecida, é uma das declarações de amor mais belas jamais feitas (“só Deus sabe o que seria da minha vida sem você”). Here Today enfoca a fugacidade habitual do amor, enquanto Caroline No lamenta as mudanças ocorridas no comportamento da pessoa amada com o decorrer do tempo e o fim da paixão. I Know There’s An Answer vai fundo na ferida, com seus versos “eu sei que existe uma resposta, mas eu vou ter de achar por conta própria”.

O momento chave do álbum, e quem sabe para o que Brian Wilson sentia naquele momento de sua vida, aos 23 anos, é I Wasn’t Made For These Times, quando diz “aposto que não fui feito para esse tempo”. Não é de se estranhar que, nos anos que se seguiriam, o genial artista americano entraria em parafuso emocional, e teria muita dificuldade de lidar com a vida real, ficando muito próximo de enlouquecer ou mesmo morrer precocemente. Felizmente ele sobreviveu.

O resultado comercial de Pet Sounds nos EUA na época foi decepcionante, não passando do 10º lugar na parada da Billboard. Na Inglaterra, o trabalho se deu melhor. Mas os críticos gostaram, e mesmo vários colegas, entre eles Paul McCartney, que desde então sempre cita God Only Knows como sua música favorita de todos os tempos. Reza a lenda que Brian pirou após ouvir Sgt. Peppers, pois não se sentia à altura de tentar superar tal álbum.

Depois desse disco incrível, a genialidade de Brian Wilson permaneceu ativa. Smile, o clássico que ele desejava ser sua obra-prima, ficou pelo caminho e só se concretizou no longínquo 2004, quase 40 anos após o início de sua concepção. Valeu a espera, pois é um belo álbum, creditado a Brian Wilson como artista solo. Nada mais justo, pois Pet Sounds pode ser considerado, na prática, seu primeiro trabalho individual.

Brian Wilson fez coisas incríveis antes de Pet Sounds, e também faria, sozinho ou com os Beach Boys, outras maravilhas depois, como os ótimos álbuns Sunflower (1970), Surf’s Up (1971) e Holland (1973). Ficou bem, casou, teve vários filhos, voltou a fazer shows, esteve no Brasil e tudo. Tive a honra de apertar sua mão e ter meu Smile autografado por ele. Só Deus sabe a emoção que eu senti…

Obs.: uma última notinha: ouça Here Today e, na sequência, Alvorada Voraz, do RPM, e sinta como o riff da música da banda brasileira deve muito a uma parte da canção dos Beach Boys…

Pet Sounds– The Beach Boys (em streaming):

I Wasn’t Made For These Times– The Beach Boys:

Here Today– The Beach Boys:

Alvorada Voraz– RPM:

Paul Kantner: como eu virei fã do incrível Jefferson Airplane

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Por Fabian Chacur

Mais uma vez faço um post doloroso aqui em Mondo Pop. Meus ídolos andam dando adeus ao mundo em doses muito grandes, nos últimos tempos. Desta vez, foi Paul Kantner, cantor, guitarrista e compositor americano, criador de uma de minhas bandas favoritas, a Jefferson Airplane. Ele nos deixou nesta quinta-feira (28), vitima de falência múltipla de órgãos, após ter tido um ataque cardíaco no início desta semana. Perda mais do que lamentável.

Em 1978, como parte integrante da trilha sonora da novela global O Pulo do Gato, a música Count On Me fez sucesso no Brasil. Ao comprar esse LP, tive contato pela primeira vez com uma música do que chamaria de “Família Airplane”. Com a nave mãe, ou seja, o Jefferson Airplane, só fui ter contato lá pelos idos de 1982-1983. E foi graças ao amigo jornalista Ayrton Mugnaini Jr., em duas ações decisivas por parte dele.

A primeira foi me vendendo, a preço módico, raras edições da seminal revista brasileira Rock, dos anos 70, com biografias bacanas de várias bandas, entre elas a Jefferson Airplane. Ao ler sobre eles, fiquei curioso para saber como era o som dos caras, e o Mug, de forma generosa, emprestou-me os dois Lps que tinha do grupo americano, After Bathing At Baxter’s e Volunteers. Aí, como diria o poeta, danou-se. Vício!.

O próximo passo foi ir nos sebos da vida atrás desses dois discos e também dos outros do JA. Foi duro, visto que apenas o primeiro saiu por aqui, e era até mais raro do que os importados. Aos poucos, completei a coleção, lá pelos idos de 1985. Nem é preciso dizer que, na onda, acabei também indo atrás de vários trabalhos do Jefferson Starship e de outras configurações musicais envolvendo integrantes do JA.

Paul Kantner era uma espécie de mestre zen da banda, que criou em 1965 em San Francisco com o também genial cantor e compositor Marty Balin. Desde o início, a sonoridade dos caras apontava para novos rumos em termos sonoros, embora tenha começado mais próximo do folk rock com boas harmonias vocais a la Byrds e The Mamas And The Papas. O 1º disco, Jefferson Airplane Takes Off (1966), apontava nessa direção.

Naquele mesmo ano, duas trocas na formação se mostraram decisivas na orientação musical do grupo. A boa cantora Signe Anderson deixou a carreira musical, e foi substituída por Grace Slick, até então vocalista do grupo Great Society e que trouxe com elas as músicas White Rabbit e Somebody To Love. A outra alteração veio com a saída do adaptado baterista Skip Spence (que depois montaria a ótima banda Moby Grape, tocando guitarra e cantando).

Se Kantner era o compositor intelectualizado e ligado a ficção científica e temas do gênero, Marty Balin era paixão pura, especialmente na hora de cantar. Grace tornou-se a parceira ideal para harmonizar com os outros dois, em combinações vocais ácidas, ardidas e repletas de beleza. Mas que atingiam o auge graças ao acompanhamento instrumental de seus colegas de time: Jack Casady (baixo) e Jorma Kaukonen (guitarra).

Unidos ao novo baterista, Spencer Dryden, com suas influências jazzísticas, Casady e Kaukonen acresceram ao som do Airplane uma imprevisibilidade matadora. Isso, sem cair em uma maluquice completa. Som psicodélico de primeira, provavelmente o melhor feito no cenário musical americano. E Surrealist Pillow (1967), seu segundo álbum, os levou aos primeiros lugares da parada ianque.

After Bathing At Baxter’s veio ainda em 1967, e é provavelmente o meu álbum favorito de rock psicodélico, levando ainda mais longe as ousadias do álbum anterior e entrando em uma fusão sonora que inclui até elementos de bossa nova, dá pra encarar? Nunca vou me esquecer da primeira vez que ouvi esse álbum. E que fique registrado: nunca me vali de drogas para ouvir esse e outros discos do grupo. Desnecessários esses aditivos para apreciar música tão ousada e boa.

Em 1968, veio Crown Of Creation, espécie de síntese da concisão de Pillow com a piração de Baxters, gerando outro trabalho clássico. E em 1969, era a vez do engajado Volunteers, com sua enfurecida faixa título e maravilhas como Wooden Ships (parceria de Paul Kantner com os amigos David Crosby e Stephen Stills), mantendo a aeronave nas alturas da qualidade musical. De quebra, suas participações nos festivais de Monterey (1967) e Woodstock (1969) os projetaram ainda mais perante os roqueiros mais antenados.

Vale ainda citar o álbum ao vivo Bless Its Pointed Little Head, lançado em 1969 e um belo registro dessa fase áurea do Airplane, com direito a versões turbinadas e aceleradas de seus hits e também algumas faixas inéditas na interpretação do grupo, como a deliciosa Fat Angel, de Donovan Leich, e The Other Side Of This Life, do grande compositor Fred Neil, o autor da célebre Everybody’s Talking, trilha do filme Midnight Cowboy e gravada por Harry Nilson.

Aí, veio a tempestade. Inicialmente com a participação da banda no desastrado festival de Altamont, promovido em 1969 pelos Rolling Stones nos EUA, no qual Marty Balin foi atacado em pleno palco. Parecia o prenúncio de tempos não muito bons. E para a banda não foram mesmo. Balin saiu fora, Spencer Dryden também, e quando voltou, em 1971, o Airplane não era mais o mesmo. Lançou dois discos de estúdio irregulares (Bark, de 1971 e Long John Silver, de 1972) e o ao vivo Thirty Seconds Over Winterland (1973) e saíram de cena.

Em 1970, no entanto, surgia a semente do que viria a ser o futuro de Paul Kantner. Ele resolveu aproveitar um período de parada do Airplane e gravou e lançou naquele mesmo ano o primeiro disco solo, Blows Against The Empire, com temática de ficção científica, ótimas músicas como Mau Mau (Amerikon), Have You Seen The Stars Tonite? e A Child Is Coming e participações especiais de gente como Grace Slick, Jack Casady, Jerry Garcia, Mickey Hart e David Freiberg.

O álbum veio creditado a Paul Kantner e Jefferson Starship, nome de certa forma brincando com a temática futurista das canções incluídas nele. Mas esse nome acabou sendo escolhido por Kantner para a banda que sucederia o Airplane. Antes, Kantner lançaria álbuns em dupla com a então esposa Grace Slick e também um com o casal e o músico David Freiberg. Seria o embrião para o que viria a seguir.

Com uma proposta um pouco mais pop, mas não menos roqueira, o Jefferson Starship lançou seu primeiro álbum em 1974, Dragonfly, com boa repercussão e músicas bacanas como Ride The Tiger, uma das grandes composições de Paul Kantner. Dos tempos do Airplane, sobraram Kantner, Slick e, na última hora, Balin. O álbum seguinte, Red Octopus, chegou ao primeiro lugar na parada americana, façanha que a nave original só conseguiu nas paradas de singles.

Até o início dos anos 80, o Jefferson Starship continuou frequentando as paradas de sucesso, com hits como Count On Me e Jane. Até que Paul Kantner resolveu sair fora do time, que a partir dali virou Starship, mantendo apenas Grace Slick dos bons tempos e emplacando hits mais pop como We Built This City e Sarah.

Enquanto isso, Paul Kantner montou uma nova banda com dois ex-colegas de Airplane, a KBC Band, ao lado de Marty Balin e Jack Casady. Rendeu um único (e bacana) disco em 1986. Aí, em 1988, a surpresa: a volta do Airplane com sua formação clássica (sem Spencer Dryden), para o lançamento de um único disco (autointitulado) e nada muito além disso. Paul Kantner voltou a ficar mais visível a partir de 1992.

Foi naquele ano que ele reviveu a marca Jefferson Starship, inicialmente com o nome adicional The Next Generation. Shows vieram, com participações de antigos colegas da família Airplane, como Grace Slick, Jack Casady e Marty Balin. Em 1999, lançaram o ótimo CD Windows Of Heaven, incluindo faixas como a empolgante I’m On Fire, de Paul Kantner e participação destacada de Grace Slick nos vocais. O último CD de inéditas, Jefferson’s Tree Of Liberty, saiu em 2008.

Em 2013, o Jefferson Starship esteve no Brasil e tocou no Manifesto Bar, em São Paulo, no dia 8 de agosto. Na formação, além de Paul Kantner, outro conhecido: David Freiberg, que integrou o Airplane em sua fase final e o Starship nos anos 1970. Infelizmente, o ingresso caro me impediu de ver o show. Ah, se arrependimento matasse…

Ouça Blows Against The Empire- Paul Kantner e Jefferson Starship:

Wooden Ships– Jefferson Airplane:

Ride The Tiger– Jefferson Starship:

Morre Ray Manzarek, tecladista do The Doors

Por Fabian Chacur

Entre os melhores tecladistas da história do nosso amado rock and roll, Ray Manzarek ocupa um lugar especial. Responsável pelas teclas da mitológica banda The Doors, esse músico americano infelizmente nos deixou nesta segunda-feira (20), aos 74 anos de idade, após longa luta contra um câncer no ducto biliar.

O músico estava em Rosenheim, na Alemanha, e morreu próximo aos seus familiares. Importantes nomes do mundo do rock como Slash (ex-Guns N’ Roses) e o guitarrista e ex-colega de The Doors Robbie Krieger se manifestaram nas redes sociais lamentando a perda do tecladista, um dos mais influentes no cenário rocker de todos os tempos.

Nascido em 12 de fevereiro de 1939, Ray Manzarek estudou cinema na UCLA, e foi por lá que conheceu Jim Morrison. Ao ouvir o cantor declamar os versos da música Moonlight Drive, ele sentiu estar diante de alguém com muito talento e extremamente original, e resolveu encarar a missão de montar uma banda com ele.

A dupla (hoje infelizmente já no outro lado do mistério), associada ao guitarrista Robbie Krieger e o baterista John Densmore, criaram os Doors, que após um início promissor nas casas roqueiras americanas tornou-se conhecido mundialmente logo com o primeiro álbum, The Doors (1967), que inclui clássicos como Light My Fire, Break On Through (To The Other Side) e The End. Inúmeros outros hits viriam a tona pouco depois.

Embora Krieger e Densmore fossem ótimos músicos, os Doors sempre tiveram como núcleo básico a voz marcante, as letras poéticas e as performances de palco imprevisíveis de Jim Morrison e os teclados com influências da música erudita e do jazz de Ray Manzarek. O resultado dessa somatória incomum gerou uma banda marcante, que inspirou o rock progressivo, o blues rock e até um pouco o hard rock.

Após o lançamento de L.A. Woman (1971), Jim Morrison morreu de overdose em Paris, e os Doors ainda tentaram seguir adiante sem ele, lançando em 1972 os álbuns Other Voices e Full Circle, nos quais Manzarek e Krieger dividiram os vocais. Não deu certo, e o fim chegou.

Posteriormente, Manzarek criou a banda Nite City, que lançou dois álbuns (em 1976 e 1978), incentivou e tocou com a banda de power pop The Knack (conhecida pelo hit My Sharona, de 1979) e produziu bons trabalhos de uma das melhores bandas punk americanas, a X (liderada por John X. Doe e Excene Cervenka), durante a década de 1980.

Na primeira década do século XXI, Ray Manzarek e Robbie Krieger fizeram diversos shows com o nome The Doors Of The XXI Century, nos quais contavam com os vocais de Ian Astbury, do The Cult. Eles estiveram por aqui em 2004, e eu tive a chance de vê-los no Credicard Hall, em São Paulo. O tecladista deu um banho de carisma e musicalidade. Ele também participou da produção de vários DVDs sobre o grupo.

Ouça The Cristal Ship, com The Doors:

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