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Alucinação (Belchior) ganha a reedição em vinil via Polysom

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Por Fabian Chacur

A Polysom, em parceria com a Universal Music, acaba de lançar uma reedição no formato vinil de 180 gramas de um dos grandes clássicos da nossa MPB. Trata-se de Alucinação, do saudoso Belchior, álbum que chegou originalmente às lojas em 1976 e foi responsável pelo estouro do cantor, compositor e músico cearense. O disco integra a série Clássicos em Vinil, que prioriza títulos essenciais da discografia brasileira.

Recentemente, a Universal Music relançou este mesmo título no formato CD, na caixa Três Tons de Belchior, que também inclui os álbuns Melodrama (1987) e Elogio da Loucura (1987). Trata-se de um desses trabalhos bons de ponta a ponta, e que é absolutamente necessário nas discotecas de quem gosta de boa música, seja em que formato for (leia a resenha do relançamento em CD aqui).

Fotografia 3×4– Belchior:

Box traz versões remaster de três trabalhos de Belchior

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Por Fabian Chacur

Lamentável que, de 2006 para cá, o nome de Belchior só entre em cena na imprensa devido a situações estranhas e difíceis de serem analisadas. Portanto, nada melhor do que ter a oportunidade de analisar um novo lançamento da gravadora Universal Music envolvendo este incrível cantor, compositor e músico cearense. Trata-se do box Três Tons de Belchior, que faz o necessário resgate de três álbuns do artista em versões remaster. Vamos só falar de música, por aqui. Beleza!

Os títulos selecionados são os três gravados em estúdio por Belchior e pertencentes ao catálogo da antiga Polygram. Os discos surgem com encartes caprichados que reproduzem o conteúdo gráfico original e também acrescentam versões com corpo maior de letras e fichas técnicas, permitindo melhor leitura. De quebra, ainda um encarte adicional trazendo textos informativos sobre cada lançamento a cargo de Renato Vieira, também curador do projeto. Trabalho muito decente.

Alucinação (1976) abre o pacote de forma brilhante. Trata-se do melhor álbum da carreira do artista, e aquele que o tornou conhecido nacionalmente, após quase dez anos de trajetória durante a qual lançou um LP de vendas esparsas em 1974, participou de festivais universitários (venceu um deles em 1971 com Na Hora do Almoço), atuou ao lado de amigos como Fagner e Ednardo e viu sua composição Mucuripe ser gravada por Elis Regina.

É o chamado “disco certo na hora certa”. As três primeiras faixas são provavelmente as mais conhecidas de seu rico repertório: Apenas Um Rapaz Latino-Americano, Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais, as duas últimas também gravadas pela Pimentinha. Difícil um início melhor, e as outras sete canções contidas no CD não deixam a peteca ir ao chão. Com produção de Mazola e a participação de músicos brilhantes como José Roberto Bertrami, é uma verdadeira delícia auditiva.

Em uma mais do que feliz mistura de rock, folk e música nordestina, Belchior nos oferece belas canções e uma poesia afiada, desafiadora, que toca em temas importantes como juventude, liberdade, amor, sonhos e frustrações, sempre com lirismo, inteligência e uma fina ironia típica de sua escrita. Alucinação, A Palo Seco, Como o Diabo Gosta e Não Leve Flores são outras maravilhas deste trabalho que soa mais atual do que nunca, 40 anos após seu lançamento.

Salto para 1987, quando Bel voltou para a Polygram. Durante esses onze anos, ele lançou discos de sucesso pela Warner e a partir de 1981 entrou em fase de sensível redução de exposição na mídia e nas paradas de sucesso. Melodrama chegou às lojas com a missão de reverter esse panorama, e nessa sua primeira versão no formato digital, é fácil entender o porque não conseguiu atingir esse sonhado objetivo.

Como forma de tentar ampliar seu universo de fãs, Belchior nos apresenta aqui tentativas de flertar com as sonoridades eletrônicas e tropicais que estavam na moda, naqueles tempos. A fraca Bucaneira, por exemplo, conta com arranjos e guitarra de Luiz Caldas, naquele momento estourado com músicas como Fricote e Haja Amor. De Primeira Grandeza ganhou um arranjo bolero meio brega que também constrange. Os Derradeiros Moicanos, parceria com Moraes Moreira e com participação do artista baiano, é outra bola fora.

Sorte que, em meio a essas tentativas malsucedidas de dar contornos mais vendáveis ao som do artista, Belchior nos oferece alguns momentos dignos do seu imenso talento, como a releitura de Todo Sujo de Batom, dos anos 1970, e as deliciosas Em Resposta a Carta de Fã, Jornal Blues e Tocando Por Música, esta última com letra sarcástica até a medula, quem sabe avacalhando com as intenções deste trabalho.

Irregular em termos artísticos, Melodrama não vendeu lá essas coisas, e possivelmente isso levou a Polygram a não botar muita fé no próximo lançamento do artista pela companhia. Foi um erro daqueles. Elogio da Loucura (1988) de certa forma prossegue no espírito do disco anterior, só que desta vez nos apresentando um conteúdo muito mais consistente e inspirado. Amor de Perdição, por exemplo, é aquele tipo de balada grudenta que poderia ter impulsionado as vendas deste trabalho.

O reggae pop de Os Profissionais, com teclados à frente, é outra com características mais comerciais que passou longe das paradas de sucesso, mesmo com todo o seu potencial. Mas o melhor do álbum fica mesmo por conta das músicas que nos mostram a melhor faceta de Belchior, ou seja, quando ele molda seus versos precisos com rock, folk, country e pop. Aí, é o chamado jogo ganho, como diriam os antigos.

Balada de Madame Frigidaire, por exemplo, é um banho de simplicidade, envolvendo com sua letra deliciosa. Pelo menos duas faixas podem ser comparadas a seus clássicos dos anos 1970: o incrível rock and roll Lira dos Vinte Anos e a certeira folk-rock Arte-Final. No geral, Elogio da Loucura é um dos melhores trabalhos da carreira de Belchior, e passou criminosamente batido, só agora chegando ao formato CD.

Outro ponto a ser destacado em Elogio… é o fato de, nas melhores faixas, Bel ser acompanhado pela banda com a qual fazia seus ótimos shows naquela época, que trazia entre outros os excelentes músicos Sérgio Zurawsky (guitarra), Meciê Parron (bateria) e João Mourão (baixo e arranjos). Um time afiado que vestia com garra e talento a camisa do artista com o qual atuavam.

Vale lembrar que, após Elogio da Loucura, Belchior só lançaria mais um disco concentrado em repertório inédito, Baihuno (1993), dedicando-se depois a releituras de suas canções e também de canções alheias em discos ao vivo, ao vivo em estúdio ou em estúdio mesmo.

Há mais de 15 anos não temos um novo trabalho dele, seja de que tipo for. Portanto, nada mais essencial do que esta caixa para seus fãs. E vale a lembrança: por irregular que seja, Melodrama é melhor do que 90% da produção atual da música brasileira, o que não é pouco. E os outros dois são clássicos com cê maiúsculo!

Elogio da Loucura– Belchior (ouça em streaming):

Belchior 70: “apenas” aquele nosso rapaz latino-americano

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Por Fabian Chacur

Desde ontem (26/10), Belchior é oficialmente um rapaz latino-americano com 70 anos de idade. Infelizmente, sumido da mídia, sem lançar novos discos há mais de 15 anos, e só emergindo a partir de 2009 nas manchetes devido a questões constrangedores relativas a sua vida particular. Se ele nunca mais gravar e fizer shows, no entanto, já cumpriu sua missão com brilhantismo.

Como boa parte dos brasileiros, conheci a obra deste cantor e compositor cearense nascido em Sobral em 26 de outubro de 1946 nas ondas do rádio, ouvindo a maravilhosa Apenas Um Rapaz Latino-Americano. Embora com apenas 15 anos na época, senti no trabalho dele uma certa semelhança com Raul Seixas, especificamente nesta canção. Depois, veria que sua obra tinha muito a ver com Bob Dylan e outros ótimos trovadores urbanos pelo mundo afora.

Alucinação, seu segundo álbum e aquele que o alçou ao estrelado há exatos 40 anos, equivale a uma obra-prima incontestável, repleto de grandes canções que aliam letras líricas e corrosivas a belas melodias e a uma interpretação vocal própria, uma assinatura inconfundível que só pertence a grandes artistas do seu porte. Na minha opinião, um dos dez melhores trabalhos da história da MPB, do rock brasileiro, do folk brasileiro, ou de qualquer outro rótulo musical.

Os versos desse cara são simplesmente porradas na cara do conformismo, tipo “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, ou “estava mais angustiado que o goleiro na hora do gol”, “e no escritório em que eu trabalho e fico rico, quando mais eu multiplico diminui o meu amor”. Coisa de quem vivenciou muita coisa, observou muita coisa, leu muito e assimilou muitas informações bacanas, que passou a partilhar com os seus fãs.

Tive a honra de entrevistar Belchior umas diversas vezes entre 1987 e 1999. Era sempre um prazer. Um cara educado, erudito sem ser chato, simpático sem forçar a barra, que sempre lembrava o seu nome e que sempre tinha coisas relevantes para falar. Uma pena esse seu sumiço. No entanto, temos sua importante obra para reverenciar, suas belas canções para curtir, e seus versos intensos para apreciar. Apenas um rapaz latino-americano? Só porque ele quer!

Ouça Alucinação, de Belchior, em streaming:

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