Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: as tais memórias (page 1 of 4)

Beth Carvalho, uma embaixatriz do samba que fará muita falta

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Por Fabian Chacur

Em um distante dia de 1998, estava este repórter na sala da casa de Beth Carvalho, situada em um bairro bacana do Rio de Janeiro, um local alto com bela vista. Com a desenvoltura que lhe era habitual, ela me disse que nunca deixou a seleção das músicas de seus discos para quem quer que fosse. Na hora de bater o martelo, quem fazia isso era ela. “Você pode me perguntar a música que quiser, de qualquer dos meus discos, e eu te direi como e porque gravei”, afirmou, com autoridade. Essa embaixatriz do samba nos deixou nesta terça-feira (30), aos 72 anos, após sofrer durante quase dez anos.

Nessa dura década, esta cantora e musicista carioca chegou a ficar internada em hospitais por longos períodos. Mesmo assim, fez alguns shows e gravou. Ficou marcada sua performance em uma espécie de sofá instalado no palco para que pudesse entrar em cena e dar conta do recado. Até brincou, dizendo que, se houve “Na Cama Com Madonna” (o célebre filme da estrela americana), por que não poderia haver “Na Cama Com Beth Carvalho”? E assim se fez.

Beth nos deixa na antevéspera de seu aniversário de 73 anos, que seria completado no próximo dia 5 de maio (nasceu em 1946, no Rio). Sua ligação com a música teve início logo cedo, e mesmo oriunda de uma família de classe média, a moça logo se engraçou com a música, integrando um grupo influenciado pela bossa nova e depois partindo para a carreira solo. O primeiro sucesso veio em 1968, ao interpretar em um festival a canção Andança, ao lado dos Golden Boys.

O mergulho no samba, como intérprete, consolidou-se na década de 1970, especialmente a partir do esplêndido álbum Pra Seu Governo (1974), no qual consegue captar o som do samba mais próximo das rodas de partideiros, com direito a faixas matadoras como Miragem, A Pedida é Essa e outras. Em pouco tempo, com sua voz potente e charmosa e uma presença de palco marcante, tornou-se uma diva do gênero, ao lado de Clara Nunes e Alcione.

Inquieta, sempre buscava novos compositores e espaços dedicados ao samba, e nessas garimpagens, deu espaços importantes nos anos 1970 e 1980 para que artistas então desconhecidos, como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Luiz Carlos da Vila e o Grupo Fundo de Quintal (de quem se autonomeou madrinha) ganhassem os holofotes que mereciam. E vale lembrar que é dela a gravação original, e de maior sucesso, de um clássico perene do grande Cartola, As Rosas Não Falam, que foi até trilha de novela global.

Em sua fase áurea, entre as décadas de 1970 e 1980, a cantora carioca empilhou clássicos nas paradas de sucesso, como Vou Festejar, Saco de Feijão, Coisinha do Pai, 1.800 Colinas e tantos outros. Em um show dela que tive a chance de ver, lá pelos idos de 1986, no 150 Night Club do Maksoud Plaza, em São Paulo, vi a intérprete ser obrigada a repetir por três ou quatro vezes Andança, tal o entusiasmo do público presente.

Em 1987, Beth Carvalho lançou um álbum histórico, Ao Vivo em Montreux, gravado durante um show no histórico festival de jazz na Suíça, um marco na história do samba. Várias vezes ela mostrou os seus sucessos em shows no exterior, sempre com grande repercussão por parte do público.

Um de seus discos mais marcantes foi Saudades da Guanabara (1989), com pelo menos duas faixas marcantes: a que lhe deu título, de autoria de Paulo Cesar Pinheiro, Moacyr Luz e Aldyr Blanc (ouça aqui) e que lembrava de tempos melhores na história carioca, e a música Botafogo Campeão (Esse é O Botafogo Que Eu Gosto) (ouça aqui), na qual celebrava o título carioca que seu time de coração ganhou naquele 1989, após 21 anos sem gritar é campeão. Discaço mesmo!

Ao contrário de outros artistas, que preferem guardar para si suas preferências políticas, Beth sempre se mostrou defensora de ideias progressistas, sendo uma brizolista fanática, especialmente por causa da implantação dos CIEPS. Certamente não devia estar muito feliz com os atuais rumos da política brasileira. Seja como for, deixa uma marca fortíssima na história da nossa música, como divulgadora de um de nossos gêneros musicais mais populares e significativos. A frase é um baita de um clichê, mas não há como fugir dela: o brasileiro está de luto com a sua partida prematura.

Ouça o álbum Pra Seu Governo, de Beth Carvalho, em streaming (obs.:a versão da faixa Maior é Deus é de outro disco, não a original desse álbum clássico, mas está valendo, assim mesmo):

Nat King Cole, doçura e talento que conquistaram o mundo

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Por Fabian Chacur

Minha saudosa mãe Victoria amava a música, e tinha um gosto bem diversificado. Entre os artistas que mais curtia, figurava o saudoso compositor e músico americano Nat King Cole. Não foram poucas as vezes em que o LP Cole Español (1958) virava a trilha sonora daquela casa situada na Vila Mariana, nos anos 1960 e 1970. Uma das músicas, particularmente, conquistou-me para a vida, a deliciosa Cachito. Com o decorrer dos anos, vi que aquilo era apenas a ponta de um iceberg musical daquele artista, que se estivesse entre nós estaria completando 100 anos de idade neste domingo (17). Um sujeito realmente unforgettable.

Como forma de celebrar essa data, peguei na minha videoteca e revi o excelente documentário The World Of Nat King Cole, lançado em DVD em 2005 e altamente recomendável. Nathaniel Adams Coles nasceu em Montgomery, Alabama, no dia 17 de março de 1919. Quando o garoto completou quatro anos, sua família resolveu se mudar para Chicago, com a esperança de buscar dias melhores, além de fugir do forte racismo daquele estado americano. Uma atitude que se mostrou certeira para o futuro dele.

Com apenas 16 anos, Nat já era um elogiado pianista, em no fim dos anos 1930 já liderar seu grupo. Aliás, a formação de seu King Cole Trio se mostrou revolucionária, pois trazia ele no piano e voz, um baixista e um guitarrista. Ou seja, sem bateria. Quando a música americana vivia o auge das big bands, em plena Segunda Guerra Mundial, ele teve seu primeiro hit, Straighten Up And Fly Right, mesma época em que iniciou sua parceria com a Capitol Records.

O repertório de Cole no início investia no jazz, com bons espaços para a parte instrumental. Com o tempo, no entanto, sua bela voz e o estouro de baladas românticas como Nature Boy (1947), Monalisa (1950), Unforgettable (1951) e Too Young (1951) o levaram a priorizar o canto, o que levou ao fim do trio. Ele vendeu tantos discos que a gravadora Capitol construiu um novo prédio, imenso, em Los Angeles, para abrigar sua nova sede. O prédio recebeu o apelido de “The House That Nat Build” (a casa que Nat construiu). E não há exageros aqui, foi exatamente isso o que ocorreu.

Com seus ternos elegantes e estilosos, sua simpatia e uma voz de timbre doce e envolvente, acompanhada por caprichados arranjos orquestrais, Nat King Cole atravessou a década de 1950 como um dos maiores astros da música. Isso, mesmo tendo de enfrentar o racismo no seu país natal em várias ocasiões, como a rejeição que sofreu dos seus vizinhos endinheirados e racistas em um bairro nobre nos arredores de Los Angeles, ou quando foi atacado no palco durante um show em Birmingham, Alabama, em 1956.

Entre 1956 e 1957, tornou-se o primeiro apresentador negro de um programa na TV americana. Apesar dos ótimos índices de audiência e dos convidados bacanas que recebia, não conseguiu ficar no ar por mais de um ano. A razão: falta de patrocinadores que tivessem a coragem de superar as reações racistas que a atração atraiu em alguns estados americanos, especialmente os do sul, que não admitiam um negro em posto tão nobre. Algo absolutamente lamentável. Mas ele, mesmo magoado, levantou a cabeça e seguiu adiante.

Com suas canções começando a perder a disputa nas paradas de sucesso para o então emergente rock and roll, Nat diversificou sua área de atuação, e começou a fazer shows no exterior, além de gravar em outras línguas. Tal estratégia deu super certo, e lhe valeu muitos discos vendidos e turnês pela Europa, América Latina e Central, Ásia etc. Fumante inveterado (fumava em torno de três maços por dia), Cole foi vítima de câncer e nos deixou em 15 de fevereiro de 1965, com apenas 45 anos. Mas deixou uma obra deliciosa, que permanece cativando ouvidos e corações de diversas gerações e inspirando novos músicos e cantores.

Nat King Cole em curiosidades diversas

*** Os discos que Nat gravou em outras línguas, especialmente espanhol, não são provas de um sujeito multilíngue. Na verdade, ele fazia uma leitura fonética para gravar as músicas, o que gerava um sotaque particularmente curioso. Sua voz, no entanto, era tão boa que mesmo dessa forma levemente caricata ele conseguiu cativar os fãs, especialmente pelo fato de dar uma demonstração de carinho para seus admiradores de fora dos EUA ao cantar em seus idiomas, incluindo japonês!

*** Embora amável, educado e polido, Nat era tido como mulherengo. Foi casado por 12 anos com Nadine Robinson, e ainda estava legalmente comprometido com ela quando começou a sair com Maria Hawkins (que cantou nas orquestras de Duke Ellington e Count Basie), em 1948, mesmo ano em que contraíram matrimônio. Maria resistiu a algumas “puladas de cerca” do marido, incluindo algumas com a cantora e atriz Eartha Kitt, mas foi em seus braços que Nat passou suas última semanas. Eles tiveram cinco filhos.

*** Natalie Cole (1950-2015) seguiu os passos do pai e fez muito sucesso em sua carreira como cantora a partir dos anos 1970, vendendo milhões de discos e faturando um total de nove troféus Grammy, incluindo o de artista revelação. Em 1991, ela trouxe a obra de Nat de volta às paradas de sucesso com força total, graças ao álbum Unforgettable…With Love, que vendeu milhões de cópias e trouxe como destaque um dueto entre pai e filha viabilizado pela tecnologia. Nem é preciso dizer que minha mãe AMOU esse disco, que gravei para ela em fita cassete.

*** Nat esteve no Brasil em abril de 1959, quando fez um total de oito shows, nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, além de participar de programas de TV, entrevistas e até de um almoço com o presidente Juscelino Kubitscheck. Ele também aproveitou a viagem para gravar por aqui faixas que entrariam no álbum A Mis Amigos, lançado naquele mesmo ano e incluindo gravações em espanhol e português, entre as quais Não Tenho Lágrimas e Suas Mãos.

*** Mais duas curiosidades envolvendo Cole e o Brasil. Em seu último álbum, L-O-V-E (1965), lançado pouco antes de sua morte, ele releu The Girl From Ipanema, de Tom Jobim, em versão bem elegante. Não seria de se estranhar um álbum totalmente de bossa nova, se ele continuasse entre nós. E no documentário The World Of Nat King Cole, temos cenas de sua chegada ao Brasil, provavelmente no Rio, quando podem ser vistos diversos cartazes com os dizeres “Biscoitos Aymoré (uma marca bem popular por aqui na época e uma das patrocinadores da turnê) welcomes Nat King Cole”.

*** O intérprete de When I Fall In Love nunca se mostrou um fã muito grande de rock and roll, de certa forma o ritmo que ajudou a tirá-lo do topo das paradas de sucesso. Mas algumas de suas gravações dos anos 1940 com o King Cole Trio são consideradas inspiração para o rock, especialmente (Get Your Kicks On) Route 66, composição de Bobby Troup lançada pelo trio em 1946. Muita gente a regravou posteriormente, incluindo uma releitura fantástica dos Rolling Stones em seu álbum de estreia (ouça aqui).

*** Alguns jazzistas mais puristas repudiam as gravações mais românticas de Nat King Cole, preferindo suas performances com o trio nos anos 1940. O mesmo ocorreria com George Benson, fã incondicional de Cole que iniciou sua carreira no jazz e depois também investiria fortemente em canções com vocais e pegada pop. A primeira conexão entre eles ocorreu quando Benson regravou em 1977 um grande sucesso de Cole, Nature Boy, e se cristalizaria em 2013 com o álbum Inspiration- A Tribute To Nat King Cole.

Cachito– Nat King Cole:

Paulo Cavalcanti, o jornalista que sabia tudo sobre o rock and roll

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Por Fabian Chacur

A foto que ilustra este post, gentilmente cedida por André Luiz Fiori Teixeira, sintetiza de forma perfeita um certo Paulo Alderaban Cavalcanti. Com dois CDs de uma das suas bandas favoritas, os eternos The Beach Boys, dentro de uma loja de discos, e certamente perto de amigos queridos. Neste cenário, você certamente poderia ver este jornalista, pesquisador e crítico musical em seu habitat favorito. Ele nos deixou nesta terça (26) com apenas 56 anos, mas seu trabalho ficará na memória de quem teve a honra de conviver com ele em algum momento (ou em vários) de sua extensa trajetória profissional.

Conheci o Paulo por volta de 1984 na casa de um amigo comum, o lendário Ayrton Mugnaini Jr., quando Mug morava na alameda Santos, próximo da avenida Brigadeiro Luis Antonio. Na época, ele sempre andava com dois outros amigos, Marcelo Orozco e o Jeferson (acho que era Pereira o seu sobrenome). Eles chegaram a assinar matérias como trio, incluindo uma, excelente, sobre os Monkees. Quando me tornei coordenador de redação da editora Imprima, que lançava revistas como Rock Stars, Zorra etc, em 1987, ele era um dos meus colaboradores, e a partir dali a nossa amizade começou a se consolidar.

Uma das grandes matérias feitas pelo Paulo naquele período foi uma sobre os filmes de Elvis Presley, um texto primoroso, bem-humorado e repleto de reflexões e informações que só um cara muito do ramo teria como fazer. Eu brincava com ele que deveríamos, nós dois e o Marcelo, montar um trio com o nome Harum Scarum, e nos especializarmos em tocar apenas temas obscuros das películas estreladas pelo Rei do Rock. Lógico que a ideia ficou só no papel.

Não demorou para que Cavalcanti partisse para os seus próprios voos. Filho de um jornalista que trabalhou durante anos no Notícias Populares, foi muito natural quando ele seguiu os passos do pai naquela mitológica publicação, onde ficou até meados dos anos 1990. Com o tempo, ampliou os horizontes, como colaborador das revistas Bizz-Showbizz e Shopping Music, nas quais esbanjou seu alto conhecimento musical. Suas praias prediletas eram o rock dos anos 1950 e 1960, mas na verdade o cara tinha um gosto musical abrangente, e mergulhava fundo na pesquisa de tudo, dos musicais clássicos até o punk rock.

Nos anos 2000, Paulo foi convidado a trabalhar na ediçáo nacional da Rolling Stone, onde reinou por anos e anos. Generoso, abriu espaços na publicação para vários amigos, entre eles este que voz tecla. Como disse, ele era capaz de escrever sobre qualquer tema na área musical, sempre se preparando para cada desafio e com um texto eficiente e bom de se ler.

Nossa amizade se manteve por todos esses anos. Não vou ser hipócrita e dizer que nossa relação sempre foi um mar de rosas. Paulo era um cara tímido, eventualmente fechado, eu também tenho um milhão de defeitos, e em alguns momentos a gente andou se estranhando por aí. Mas também vale registrar que sempre conseguimos nos entender e seguir adiante. Tanto que em várias ocasiões nos reunimos para pensar em projetos que nos unissem, como o de fazer rough guides em português de grandes nomes da música, por exemplo.

Tínhamos muitas afinidades, especialmente essa obsessão por conhecer os detalhes dos trabalhos e das carreiras dos nossos artistas favoritos. Acho que uma expressão que ele usou para definir um amigo comum nosso, o genial Hamilton Rosa Jr, poderia definir ele próprio: scholar (estudioso). O cara manjava, e muito. E seus amigos mais próximos sabem como era divertido curtir suas tiradas inteligentes e sarcásticas, suas imitações, e seus comentários a sério.

Paulo fará muita, mas muita falta mesmo para todos os envolvidos no meio musical. Em resumo, um fã que virou profundo conhecedor do tema. Ou um cara que virou profundo conhecedor do tema exatamente por ser fã. Sem você por aqui, vai quebrar, meu caro, vai quebrar (essa, só ele entenderia…)

So Close Yet So Far– Elvis Presley:

Zeca Pagodinho e a entrevista que rendeu admiração eterna

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Por Fabian Chacur

Essa história rolou em 1988. Vivia os meus primeiros tempos no hoje extinto jornal Diario Popular (SP), e fui designado pelo meu editor Oswaldo Faustino para entrevistar Zeca Pagodinho, então estreando na gravadora BMG com o LP Jeito Moleque, após dois discos de muito sucesso pela RGE. A assessora de imprensa, Miriam Martinez, avisou-me antes do meu bate-papo com o sambista carioca começar: “tome cuidado que ele está bravo, andaram fazendo perguntas de que ele não gostou…” Ou seja, entrei em cena com o placar desfavorável, e não por minha culpa. Mas cabia a mim virar o jogo.

A ideia do meu editor era que eu fizesse uma entrevista solta, coloquial, na qual o leitor pudesse ter uma ideia de como era aquele artista apadrinhado por Beth Carvalho que veio do subúrbio carioca e se tornou um fenômeno de vendas. Embora ainda inexperiente, eu percebi que precisava ser cauteloso ao menos no início do papo, e foi assim que comecei a conversa. Na minha, respeitoso, prestando atenção no que ele me falava. E, para minha felicidade, a troca de ideias se mostrou ótima e bem fluente.

Aos poucos, Zeca demostrou confiar em mim, e os assuntos se ampliaram, indo da música até mesmo ao jogo do bicho. As declarações eram sempre deliciosas, do tipo “sei falar com bacana e sei falar com malandro”, ou “o jogo do bicho é uma das coisas mais confiáveis desse país, pois você ganha hoje e os caras te pagam na hora, sem conversa mole”. Quando essa nossa primeira conversa profissional se encerrou, recebi um elogio que guardo para a vida: “gostei de você, você é malandro”. Imagina ouvir uma dessas vindo de um cara que é malandragem pura, obviamente do lado positivo desse termo.

A entrevista fez sucesso, e a partir dali tive várias oportunidades de conversar com esse cara, que tornou-se ainda mais simpático, franco e sem frescuras. Sua generosidade se mostra em respostas aparentemente banais, como quando lhe perguntei o porque de, com o passar dos anos, ele gravar cada vez menos músicas de sua autoria, ele que ficou conhecido inicialmente como autor de sambas, e só posteriormente como intérprete: “Cara, tem muita gente boa compondo, e gente que precisa mais do que eu dos direitos autorais”.

Em uma entrevista coletiva realizada em 1999, a pergunta que ele levou mais a sério veio de mim, sobre a fusão entre a Brahma e a Antarctica que gerou a AmBev. Ele sempre se declarou um entusiasta da Brahma. “Olha, quando surgiu essa notícia, eu fiquei preocupado e até liguei para saber se eles iriam manter a Brahma do mesmo jeito, e eles me garantiram que sim”, respondeu, para delírio dos repórteres presentes. Com o tempo, ele acabou fazendo propaganda dessa marca, não sem uma polêmica no meio que não cabe ser analisada aqui.

Grande compositor, sambista de estilo inconfundível e craque em escolher músicas alheias para gravar, Zeca sempre foi um seguidor da tradição do samba, como me confessou logo naquela primeira entrevista: “desde moleque eu sempre ficava colado na Velha Guarda. Eu ia buscar as cervejas, abria para eles e ficava ouvindo ele cantarem e tocarem, aprendendo”. E como aprendeu, heim?

Nesta segunda (4), Jessé Gomes da Silva Filho, o nosso querido Zeca Pagodinho, completa 60 anos de idade. Um cara que mesmo em situação financeira excelente nunca abandonou suas origens, sendo famoso pela generosidade. Xerém, que adotou como ponto de encontro com amigos de todas as idades e faixas sociais, deve estar em festa. Que essa data se repita por muitos e muitos anos, e que eu possa entrevistar novamente no futuro esse representante do Brasil que importa, o Brasil do swing, do jogo de cintura, do talento, da simpatia e da integração entre as pessoas.

Camarão que Dorme a Onda Leva (ao vivo)- Zeca Pagodinho e amigos:

Victor Riskallah Chacur se foi há 20 anos e faz muita, muita falta!

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Por Fabian Chacur

No dia 6 de janeiro de 1999, há exatos 20 anos, perdi o meu irmão, Victor Riskallah Chacur. Naquele triste momento, fiquei sem o último vínculo com minha família mais próxima. Minha querida mãe, Victoria, deixou esta existência no dia 22 de junho de 1996, enquanto meu amado pai, Fuad, seguiu rumo à eternidade no dia 21 de setembro de 1998, ou seja, pouco mais de três meses antes do meu irmão. Éramos quatro, agora somos um. Unzinho, que desde então tenta seguir em frente, mas sempre com aquela forte sensação de vazio deixada pela falta dos meus três nobres parceiros diretos.

Se hoje sou um eterno viciado em música boa, devo muito disso ao Victor. No mínimo, pela ótima iniciação. Afinal de contas, os primeiros discos que tive a oportunidade de ouvir eram dele, em sua maioria. Esse vício de comprar discos eu herdei dele, ampliando-o até as raias do impossível e impagável.

E os discos do cara eram de primeiríssima linha. Tipo aquele compacto dos Beatles com Hey Jude e Revolution, que ouvimos até o limite da exaustão naquele finalzinho de 1968, quando eu tinha apenas sete aninhos de idade, e quando recebi a visita do meu primo Jair, que veio passar as festas conosco. Para intercalar, na mesma época, também curtimos o belo compacto do obscuro grupo one-hit-wonder californiano People com a ótima I Love You.

Conheci os Beatles, até hoje (e para sempre) minha banda favorita, graças a ele. E vários outros grupos e artistas. O Deep Purple, por exemplo, ouvindo muito o seu exemplar do In Rock, com Living Wreck, Speed King e Child In Time.

E aquele compacto, com Nobody de um lado e Slippery St. Paul do outro, de 1971? Esse raio desse disco me viciou em outra das minhas bandas favoritas até hoje, os Doobie Brothers. Amo esses caras!

A voz potente e os riffs certeiros da guitarra de Tom Johnston, a guitarra dedilhada e os vocais de Patrick Simmons, as vocalizações certeiras, a fusão de rock-country-folk-soul etc…… Doobie Brothers forever!

O primeiro disco de Paul McCartney que ouvi na vida foi o Ram, de 1971. Lógico que o exemplar do glorioso Victor. Também ouvi até furar Uncle Albert/Admiral Halsey, Monkberry Moon Delight, Dear Boy, Heart Of The Country….

A partir dos meus dez anos de idade, a gente começou uma disputa besta para ver quem comprava primeiro um disco de sucesso. Era divertido ver quem surgia primeiro com o novo do Seals & Crofts, Bread, Rolling Stones, Bee Gees…..

Quando fiz 17 anos, acordei e vi, em cima do criado mudo ao lado da minha cama, um compacto simples embrulhado. Abri: Got a Feeling, de Patrick Juvet, grande hit em 1978 e um clássico da disco music que eu amo.

Fico arrepiado só de lembrar a alegria ao ganhar esse disco, que obviamente tenho até hoje. Foi o único presente que ganhei naquele aniversário, e me lembro de ter chorado no final do dia, sozinho, sabe-se lá porque.

Eu também curto músicas bizarras, aquelas que de tão ruins chegam a ser boas, mas o Victor, não. Ele só curtia coisas boas. Tipo aquele maravilhoso álbum Cicatrizes, do MPB-4, um dos melhores de música brasileira que já tive a oportunidade de ouvir.

Ou O Canto das Três Raças, da Clara Nunes, que você abria a capa e a mesma virava um pôster imenso. Ou alguns do Martinho da Vila (Memórias de Um Sargento de Milícias, por exemplo), o samba em sua autêntica e bela expressão.

Vou parar por aqui, pois a lista vai longe. Lógico que, como bons irmãos, brigamos algumas vezes, frequentemente por razões imbecis, mas sempre voltávamos às boas, felizmente. E a vida seguia!

Tá bom, ele tinha um defeito gravíssimo: torcia para aquele timinho da Marginal Sem Número. Mas fazer o que? Perfeição não existe…..

O Victor foi internado próximo do natal de 1998. Lembro que minha cunhada ligou para me avisar na editora onde eu trabalhava na época, quando eu estava prestes a sair rumo à “festa da firma”. Nem é preciso dizer que abortei a ida à confraternização e fui direto ao hospital, onde dei um jeito de conseguir visitá-lo, mesmo fora do horário normal.

Foram dias difíceis, nas quais felizmente pude falar com ele em algumas ocasiões, e pude lhe dar toda a força que pude, e meu apoio incondicional. Incondicional mesmo, como ele e eu sabemos, e só nós dois!

No dia 6 de janeiro de 1999, ele me deixou, após alguns dolorosos dias em estado de coma. Fica a recordação de alguém que foi fundamental em minha vida, e a quem devo muito mais do que ele poderia imaginar. Onde estiver, meu abraço apertado, cara, e a saudade eterna!

obs.: o Victor é o primeiro da esquerda para a direita, na foto acima, tirada há mais de 50 anos em Uberlândia (MG).

I Love You– People:

Michael Jackson, rei do pop e sua viagem à Terra do Nunca

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Por Fabian Chacur

Michael Jackson teria completado 60 anos de idade nesta quarta-feira (29), se não nos tivesse deixado no dia 25 de junho de 2009. Mas confesso que nunca conseguiria imaginar este cantor, compositor, produtor, dançarino, entertainer etc como um tiozinho de meia-idade. Ele entrou no imaginário coletivo ainda criança, e esse espírito juvenil esteve a seu lado durante seus 50 anos e alguns meses de vida. Eternamente na Terra do Nunca, e seu inconteste rei do pop.

Oriundo de uma família repleta de irmãos e irmãs talentosos, ele no entanto não demorou a se mostrar o mais promissor de todos. O pai, Joseph, percebeu isso rapidamente. Se sua fama de tirano com os herdeiros se tornou lendária, não dá para negar que ele lhes ensinou uma forte senso disciplinar, bom caminho para quem deseja se tornar estrela da música. E desde molequinho Michael se mostrou um apaixonado por trabalho, o típico workaholic.

Se você quer ser o melhor, aprenda com e fique perto dos melhores, e isso ocorreu com o autor de Billie Jean durante toda a sua vida. Ao assinar com a Motown Records, ele e seu grupo, o Jackson 5, teve a oportunidade de trabalhar com o genial Berry Gordy. Logo no primeiro single pela gravadora, I Want You Back, lançado em 7 de outubro de 1969, ficava claro que algo novo estava surgindo no cenário do pop, com aqueles garotos energéticos e aquele molequinho vibrante a comandá-los, repleto de carisma e simpatia.

Até 1975, Michael aprendeu muito na gravadora surgida em Detroit. Só que, em um determinado momento, ficou claro que lá ele não conseguiria desenvolver plenamente suas aptidões, especialmente as de compositor e produtor. Aí, seu próximo passo, ao lado dos irmãos (exceto Jermaine, que preferiu ficar na Motown), foi assinar com a Epic. No início, optou por ser produzido por outros mestres da música, Kenny Gamble e Leon Huff (os criadores do “Som da Filadélfia”), mas sabendo ser aquele um momento provisório. Um novo aprendizado.

Em 1978, os Jacksons lançaram o álbum Destiny, e nele Michael Jackson daria pistas do que viria a seguir, com músicas fortes como Blame It On The Boogie (de Mick Jackson, que apesar do sobrenome não era seu parente) e Shake Your Body (Down To The Ground) (esta, parceria dele com o irmão Randy). O encontro com o produtor Quincy Jones na gravação da trilha do filme The Wiz, no mesmo ano, completaria a expectativa de dias ainda melhores.

No ano em que completou 21 anos, Michael Jackson já tinha muito o que comemorar. Sua trajetória com o Jackson 5/The Jacksons se mostrava até então repleta de grandes momentos. A carreira solo, iniciada ainda em 1971 com Got To Be There, também gerou belos frutos e inúmeras gravações maravilhosas. Se por ventura ele não conseguisse ir adiante, já teria um número de hits suficientes para lhe dar um lugar eterno na história da música pop.

Mas a ambição do rapaz era imensa, e seu talento lhe possibilitava ir muito além. E essa transformação de astro pop infanto-juvenil dos melhores para rei do pop teve início naquele 1979 com o lançamento do excepcional Off The Wall. O álbum fez tanto sucesso que a grande questão no cenário pop do início dos anos 1980 era de como aquele artista faria para conseguir lançar um novo trabalho tão impactante.

A resposta foi Thriller (1982), o disco mais vendido de todos os tempos, que de uma vez por todas o tornou um astro sem fronteiras. Michael sempre quis ser um artista que superasse as barreiras de raça, credo, idade e classe social, e conseguiu isso de forma avassaladora, vencendo até o preconceito inicial da MTV contra a música negra.

Michael Jackson consagrou-se como um artista completo: cantor excepcional, dançarino intenso, compositor de primeira, especialista em shows cativantes e o rei dos videoclipes. Sua trilogia Off The Wall, Thriller e Bad (1987), com sua fusão de black music, rock, pop e romantismo, mostrou ser a mais potente de todos os tempos.

Lógico que ninguém conseguiria ficar impune ao impacto desse sucesso todo, ainda mais alguém que a rigor não teve tempo de curtir a infância e adolescência, por viver uma trajetória totalmente dedicada ao trabalho. Aí, ele se viu envolvido em transformações visuais questionáveis, boatos terríveis sobre possíveis envolvimentos libidinosos com crianças, investimentos megalomaníacos como sua Disneylândia particular chamada Neverland e outros quetais. E tome quetais!

Sou um desses possíveis ingênuos que não acredita que Michael tenha assediado de fato alguma criança. Não alguém que sofreu tanto com a rigidez do pai. Na verdade, o mais provável é que ele amava ficar próximo das crianças como forma de, com esse convívio, vivenciar a infância a que não teve direito. Mas são questões irrelevantes e de cunho pessoal, no fim das contas. Como dizem por aí, visto de perto ser humano algum é normal. E ele era isso, um ser humano, apenas.

Como artista, Michael Jackson nos deixou um legado maravilhoso, mesmo que, a partir de 1996, pouco tenha nos oferecido que se comparasse ao que fez em seus anos de ouro. Aliás, uma das causas de sua morte prematura pode ter sido a pressão exercida por ele em si próprio, no propósito de realizar uma turnê que superasse todas as suas conquistas anteriores. Só que o nosso ídolo não tinha mais saúde para isso, e pagou um preço muito alto pela ousadia.

Uma pena. Com a morte prematura, Michael Jackson enfim chegou à Terra do Nunca, conquistando a juventude eterna e ficando distante das imensas dificuldades da convivência com os seres humanos, repletos de contradições e maledicências. A qualidade de seu legado, da infância até os trabalhos lançados de forma póstuma, certamente embalará e alegrará as vidas de muitas novas gerações, nos anos que virão por aí.

Forever, Michael!

One Day In Your Life– Michael Jackson:

Encontros e despedidas com o genial Milton Nascimento

Por Fabian Chacur

A primeira entrevista coletiva a gente nunca esquece. A número um deste jornalista especializado em música que vos tecla ocorreu precisamente em um 15 de agosto de 1985. O artista em questão era Milton Nascimento, e o local, uma das salas do então badalado hotel Maksoud Plaza, localizado na Alameda Campinas, 150, perto da Paulista.

Fui convidado pelo Valdimir D’Angelo, figura fantástica a quem fui apresentado pelo músico, jornalista e amigo Ayrton Mugnaini Jr. em uma feira de compra, venda e troca de discos realizada naquela época em uma loja, a Golden Hits, situada em uma travessa da Rua Augusta (rua Mathias Aires, para ser mais preciso), próxima à Pàulista e na qual fiz belos negócios com discos de vinil.

D’Angelo, que depois seria até meu padrinho de casamento, era o editor de uma publicação que em breve chegaria à bancas, a Revista de Som & Imagem, e em cujo número 1 seriam publicadas minhas primeiras matérias como jornalista profissional. Ele me levou na coletiva para eu conhecer o ambiente do jornalismo especializado em música.

E posso dizer que comecei bem e mal, ao mesmo tempo. Bem, pois tive a cara de pau de fazer logo a primeira pergunta da coletiva. Mal porque eu perguntei ao Bituca se Milton Nascimento Ao Vivo (1984), seu então mais recente LP, havia sido o primeiro disco de ouro da carreira dele, e ouvi um não como resposta. E bem de novo, pois não perdi o fio da meada e consegui fazer uma nova e boa pergunta, de bate-pronto, sem perder o pique. Virei o jogo!

Ao fim da concorrida coletiva, da qual participaram jornalistas de todos os órgãos bacanas de imprensa da época, não só peguei um autógrafo dele, como também tirei uma foto simplesmente hilária, na qual apareço atrás do Milton (que autografava alguns discos), enquanto eu fazia sinal de positivo, sorria e posava na maior cara de pau. Um ingênuo idealista no fosso dos crocodilos…

Nessa coletiva, encontrei com a Silvana Silva, colega de Cásper Líbero que já estava há algum tempo trabalhando como reporter de TV. Aquela seria apenas a primeira de incontáveis entrevistas coletivas de que participei com Deus e o mundo, em termos de música.

A segunda entrevista com o autor de Travessia da qual participei ocorreu em 1986, na primeira versão do extinto Projeto SP, situado em um circo montado na rua Caio Prado, pertinho da avenida Consolação. Ele estava lá junto com o músico americano Wayne Shorter, com o qual iria gravar lá, ao vivo, o sublime álbum A Barca dos Amantes (1986).

Ironia: no dia seguinte, o Estado de S.Paulo publicou matéria sobre a coletiva, e na foto publicada, lá estou eu, da cintura para baixo. Teria sido eu, naquela ocasião, o primeiro caso de um “barriga de pirata”, ao invés de papagaio de pirata?

Reencontraria o mesmo Milton em 1987, desta vez no escritório da então CBS (hoje Sony Music), que na época ficava no início da avenida Pedroso de Moraes, em Pinheiros. Também tenho fotos dessa ocasião.

Teria depois outras boas oportunidades de entrevistar o Bituca de Três Pontas, uma figura sempre tímida, mas simpática e adorável. E vamos ser sinceros: sou muito fã dele, embora saiba reconhecer que sua discografia comporta tanto títulos sublimes como alguns bem irregulares, do tipo Yauaretê (o álbum que ele lançou em 1987).

Ah, e tive a honra de estar na plateia, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, quando Milton gravou outro álbum ao vivo, O Planeta Blue Na Estrada do Sol, lançado em 1992.

Como os raros leitores de Mondo Pop sabem, fui em 2011 no belíssimo show de lançamento do álbum …E A Gente Sonhando, na Via Funchal. Publiquei resenha aqui. E que venha a próxima entrevista com o Milton! E o próximo show, também!

Encontros e Despedidas, com Milton Nascimento, versão de estúdio:

As incríveis aventuras do meu saudoso filhinho canino Jack

jack sosia

Por Fabian Chacur

“Você tem dono”. Com essa frase, dita em um dia de fevereiro de 2003, cumprimentei um cachorrinho preto com detalhes em branco que estava em frente ao portão da minha casa. Eu na época tinha o Yuri, um poodle grandão, e estava a caminho de uma reunião que poderia me render um trabalho mais do que necessário. A frase fazia sentido: ele usava uma coleirinha vermelha, sem indicação de dono, nome ou endereço. Mal sabia eu que aquele era um início…

Sim, o início de uma intensa e bela relação afetiva, que durou daquele mês até o dia 23 de agosto de 2016. Voltando ao ponto inicial, retornei à noite à minha casa, e aquele carinha pretinho continuava por ali. O curioso é que ele defendia a nossa porta de estranhos. Era uma quinta-feira. Aos poucos, ele foi ficando, ficando… Não aparecia ninguém a procura-lo. E na segunda-feira seguinte, a decisão: vamos ver se ele se dá com o Yuri. Cruzamos os dedos.

Vale lembrar que aquele poodle grandão havia passado por poucas e boas no finalzinho do ano anterior, e não parecia levar jeito de que viveria por muito mais tempo, ele que na época estava com uns 11 anos e pouco. “Quem sabe se uma companhia não o deixará melhor?”, argumentou a minha esposa. E, quando cheguei em casa naquela segunda-feira, não mais um, mas dois cachorros pulavam no portão, uma espécie de Chitãozinho & Xororó caninos, me esperando.

Os dois cãezinhos se entenderam muito bem, e isso pode explicar a sobrevida que Yuri teve, ficando conosco até julho de 2004, ou seja, pelo menos um ano e meio a mais do que imaginávamos inicialmente. Só por isso, já seria abençoada a chegada daquele carinha que escolheu a minha família para fazer parte dela. Quem o batizou foi a Virgínia, que por alguma razão achou que ele deveria se chamar Jack. E Jack aquele carinha passou a ser chamado.

Após a morte de seu parceiro, ficou uns seis meses como nosso único cãozinho, mas parecia triste, e aí fomos atrás de uma parceira, que chegou no dia 8 de janeiro de 2005, a Kelly, uma serelepe cachorrinha castrada de cor cinza, com pelinho duro e alguns detalhes com cor de palha. Pronto: viraram parceirinhos. E o nome dela derivou do dele: Jack, Kelly…The Osbournes!!! Uns bons anos depois, em 2010, ainda viria o Ozzy (leia sobre ele aqui).

Jack se mostrou um ser adorável. Bem-humorado, inteligente, carinhoso na medida e um ótimo guarda. Sempre dizia a ele, “você aprendeu com o melhor professor, o Yuri, lembra do seu amigo grandão?”, e aquela lindeza pretinha, o meu bebê pretinho, sempre me olhava com cara de quem sabia de quem eu estava falando. Seu latido forte sempre chamava a atenção para quaisquer movimentos na região de casa. Mas ele era bonzinho, não mordia ninguém.

Com o decorrer dos anos, ganhou pelinhos brancos, perdeu a visão dos dois olhos e ficou um pouco mais abatido, especialmente em seus últimos dois anos. Mas reagiu como um guerreiro, especialmente após ser tratado pelo adorável veterinário Eduardo, do Rio Pequeno, um cara que realmente está na profissão certa, pois trata dos bichinhos com uma atenção e carinho de como se fossem dele. Meu Jack ganhou sobrevida, e de forma emocionante aprendeu a se movimentar mesmo sem a visão. Era muito esperto o cara!

Aí, ele passou a não ser mais o meu bebê pretinho, tornando-se então meu bebê sênior. E isso porque eu ainda não sabia da história anterior dele. Pois acreditem se quiser: tipo em 2015, uma garota de uns 24 anos parou em frente de casa e perguntou para a minha esposa se aquele cachorrinho preto não tinha aparecido em casa com uma coleira vermelha. Sim, depois de 12 anos, enfim a dona de Jack (cujo nome inicial era algo como Fluke ou coisa que o valha) aparecia.

Ela nos contou que tinha vários cãezinhos, sendo que aquele pretinho era o mais levado. Que ele tinha emprenhado outras cachorrinhas e era pai de vários cachorrinhos. Que sumiu quando ela era criança, e que nunca mais foi encontrado. Ela, anos depois, até o viu na minha casa anterior (morei em duas casas na mesma rua, uma em frente à outra, em um período de 13 anos), mas a mãe achava que não poderia ser ele. Mas era. Segunda a garota, “Fluke” (na verdade, o meu Jack) tinha uns três anos quando fugiu.

Se ele ficou 13 anos comigo e já tinha três anos quando apareceu, ele então estava com uns 16 anos de idade. Um verdadeiro Highlander canino! Só que, infelizmente, esse ser adorável acordou mal naquele fatídico 23 de agosto, e antes que fosse possível leva-lo a um veterinário, ele nos deixou. A dor foi tão grande, e continua tão grande, que só agora fui capaz de escrever esse texto para ele. Demorou, querido, mas está aqui. E nunca mais irei me esquecer de Jack, o cãozinho que me escolheu como dono. Como me sinto honrado por causa disso!

obs.: a foto que ilustra esse post não é dele. Infelizmente não tenho à mão nenhuma foto desse anjinho canino. Mas esse cachorro paranaense parece demais com ele. Vá com Deus, meu amor, e não se iluda: nunca irei me esquecer de você. E 13 anos foram pouco tempo para a gente se relacionar. Muita, muita, mas muita saudade mesmo!

The Jack– AC/DC:

Jack’s Lament Song– The Nightmare Before Christmas:

Jumpin’ Jack Flash– The Rolling Stones:

João Bosco celebra 70 anos e o presente é de todos os fãs

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Por Fabian Chacur

Hoje é o Dia Internacional do Rock, e é também o Dia Internacional do João Bosco. O incrível cantor, compositor e violonista mineiro completa 70 anos nesta quarta-feira (13). E que ninguém venha dizer que são opostas essas celebrações simultâneas. Afinal de contas, quem conhece o autor de O Mestre Salas dos Mares sabe que o cara curte o velho e bom rock and roll, especialmente um certo Little Richard, que ele até imitava nos tempos de moleque. Parabéns, fera!

Nascido na cidade mineira de Ponte Nova em 13 de julho de 1946, João chegou a cursar engenharia civil, mas não demoraria para ficar claro que sua atuação seria em outra área, a de engenharia musical. Em 1967, conheceu Vinicius de Moraes, e compôs várias canções com o saudoso Poetinha. Mas foi em 1970 que ele travou seu primeiro contato com o parceiro de uma vida, o genial poeta e letrista carioca Aldyr Blanc. Nascia uma dupla iluminada.

Meu primeiro contato com a obra desse mestre da MPB foi logo com a primeira gravação feita por ele e comercializada. O jornal O Pasquim, em parceria com o músico Sérgio Ricardo, criou o projeto Disco de Bolso, que consistia em uma revista com belo conteúdo e um compacto simples, incluindo de um lado um artista já consagrado cantando uma música inédita em seu repertório e do outro um nome emergente do nosso cenário musical brasileiro.

O primeiro exemplar, lançado em 1972, tinha no lado A Tom Jobim cantando a primeira versão de Águas de Março, bem mais rapidinha do que a que depois ficaria conhecida com o Maestro Soberano e com Elis Regina. No lado B, um certo João Bosco, cantando Agnus Sei. Eu tinha só 10 anos, mas meu irmão Victor, de 17, era fã do Pasquim, e comprou esse número inicial do O Som do Pasquim. E esse disco me marcaria profundamente para o resto da vida.

Adorei a música do Tom, mas a que me cativou mesmo foi a do João. Só voz e violão. Só? Devo estar doido. Com uma performance iluminada, tocando um arranjo fortemente influenciado pela música flamenca, João nos oferecia uma melodia meio medieval, tensa, com letra que podia ser associada tanto aos tristes tempos da inquisição como daquela ditadura militar que nos assolava. “O meu senhor não sabe que eu sei da arma oculta na sua mão” e “o tempo vence toda ilusão” são alguns dos versos de Aldyr. Um clássico, e minha versão favorita dessa música, que depois seria regravada pelo autor e por outros artistas.

O segundo contato veio em 1975, e foi fulminante. O álbum Caça à Raposa (1975) emplacou diversos sucessos na programação das rádios, que na época tocavam música boa em proporção bem maior do que hoje. Entre eles, as sublimes O Mestre Salas dos Mares e De Frente Pro Crime. Não comprei, na época, o LP, pois era uma criança sem muito dinheiro, mas sim um compacto duplo com quatro músicas. Pronto. João Bosco ganhou um fã pro resto da vida.

Dali pra frente, foi só alegria. As trilhas de novela ajudaram a expandir os horizontes para a música do artista mineiro. Bijuterias, que rendeu até nome de grupo (Pedra Letícia, que era como alguns entendiam os versos “Minha Pedra é Ametista”), Latin Lover e sua crônica agridoce de uma relação amorosa de anos, Linha de Passe e seu pique sacudido… Ah, a coisa vai longe, e vai muito, mas muito bem mesmo.

Como definir a música feita por João Bosco? Eis uma humilde tentativa: ele parte do samba como base, e acrescenta a ele, sem medo de ser feliz, bossa nova, bolero, latinidades diversas, africanidades mil, jazz e até o nosso amado rock and roll, aqui e ali. Com o tempo, desenvolveu sua voz de forma cirúrgica, interpretando como poucos as letras ora sarcásticas, ora românticas, ora agressivas do poeta Aldyr Blanc.

Em 1983, vi pela primeira vez o meu ídolo ao vivo, em show realizado no Centro Cultural São Paulo, na rua Vergueiro, 1.000, quase em frente de onde meu pai, Fuad, teve sua loja de calçados denominada Paraíso. E paraíso foi o que eu senti vendo aquele cara, voz e violão, literalmente esmerilhando o instrumento com classe, garra e uma habilidade digna de jato. Ah, meu Deus, eu, que já era fã, virei seguidor de vez.

Se eu parecia já devidamente convertido à fé João Bosquiana, não imaginava como seria conhece-lo pessoalmente. Melhor: entrevista-lo. E isso ocorreu pela primeira vez em 1989, quando ele lançava o excelente álbum Bosco e eu trabalhava no jornal Diário Popular. Dizem que nem sempre é bom conhecer um ídolo, pois às vezes eles podem nos decepcionar, mas no meu caso, só posso dizer que minha admiração pelo autor de O Bêbado e a Equilibrista só aumentou.

A partir daquela data, teria várias oportunidades de entrevistar João Bosco, e todas, sem exceção, foram extremamente prazerosas. Um cara tranquilo, bem-resolvido, articulado, capaz de falar sobre seu trabalho e suas concepções artísticas e de vida com a mesma categoria com que o faz. Um mestre zen! Que posso eu desejar para quem me trouxe tanta energia positiva com a sua música? Só muita saúde e paz para continuar seguindo em frente por muitos e muitos anos. Pois ele é o aniversariante, mas quem ganhou o presente fomos nós!

Confira, a seguir, uma seleção de sete músicas do extenso repertório do genial João Bosco. Escolhi algumas músicas não tão conhecidas e outras famosas, mas todas maravilhosas. Prestem atenção no humor corrosivo de A Nível de…, uma das minhas favoritas!

Água Mãe Água– João Bosco:

Agnus Sei (versão original, 1972)- João Bosco:

A Nível de..– João Bosco:

De Frente Pro Crime– João Bosco:

Bijuterias– João Bosco:

Latin Lover– João Bosco:

Quilombo- Tiro de misericórdia- Escadas da Penha (ao vivo)- João Bosco:

Um tributo para meu grande e saudoso amigo e anjo Ozzy

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Por Fabian Chacur

Em uma sexta-feira do mês de março de 2010, cheguei em minha casa após um dia duro de trabalho, abri a porta e me deparei com uma cena inesperada. Minha esposa, Virgínia, estava com um cãozinho novo no colo, cercada pelos nossos dois outros pets, Jack e Kelly, provavelmente tão surpresos como eu. “Mais um cachorro?”, foi a minha expressão, naquele momento. Afinal, cuidar de dois era prazeroso, mas difícil. Imagine de três…

A ideia era ficar com ele só no final de semana, e depois tentar encontrar alguém para adotá-lo. A minha ideia, pelo menos. Só que, naquelas 48 horas, aquela bolinha de pelos pretos, com adoráveis patinhas brancas, tomou conta do meu coração. “Quer saber? Vamos adotá-lo, seja o que Deus quiser”. Surgia um novo integrante na família Almeida Prado Chacur. Que em pouco tempo conquistou seu espaço no coração de seus donos, quer dizer, pais.

Virgínia se recusava a chama-lo de cachorro. “Ele não é um cachorro, é uma pessoinha”, disse, pela primeira vez, poucos dias após o novo morador daquela casa na Vila Gomes, em São Paulo, ter literalmente tomado conta do pedaço. Dormia na nossa cama, esbanjava carinho, era amoroso de uma forma simplesmente deliciosa. Capaz de perceber quando seus papais adotivos estavam tristes e precisando de um afago mais caprichado, uma lambida, um carinho.

Foram seis anos e alguns meses, repletos de boas lembranças. Da comida de envelopinho que ele comia com gosto, mas que eu precisava dar fazendo toda uma encenação para que, enfim, ele se dignasse a mastigar. Com as salsichas do jantar era muito mais fácil, obviamente… Ozzy, o nome, foi sugerido por alguém do trabalho da Virgínia, por associação aos nomes Jack e Kelly, e também pelo fato de ela ser fã incondicional do vocalista do Black Sabbath.

Pois a única certeza existente na vida é o seu fim. E o encerramento dessa parceria maravilhosa entre eu, Virgínia e Ozzy se encerrou nesse desde já lamentável 6 de julho de 2016. E de forma trágica. Nós, que tanto cuidávamos e tanto ficávamos atentos a ele, não conseguimos impedir que ele fosse atropelado por um carro, na noite desta quarta (6). E um ser que só nos trouxe alegria enfim nos fez chorar. Choro que está prosseguindo nessas últimas horas, e que não irá parar tão cedo.

Sou calejado nessa história de perdas, pois minha mãe, meu pai e meu irmão me deixaram em um espaço de menos de três anos, entre 1996 e 1999, sendo que entre meu pai e meu irmão, foram só três meses. A lista vai longe, algo natural para quem tem 54 anos de idade, como eu. Mas essa perda agora dói demais, especialmente pelo fato de não ter sido por causas naturais. A gente fica se culpando o tempo todo, sendo que, como diriam os árabes em sua bela filosofia, “maktub” (estava escrito).

Essa dor imensa que nesse momento me toma nunca irá passar, como não passou a da perda dos meus entes queridos e mesmo do meu amado cão Yuri (1991-2004), outro anjo de patas que passou pela minha vida. A gente apenas aprende a lidar com ela. Só isso. Pois a vida segue em frente, quer a gente queira, quer não. Ozzy, obrigado por tudo, meu parceirinho, meu lobinho, meu amor. Que Deus tenha reservado projetos lindos para você. E obrigado por ter existido. Você foi um sonho lindo, do qual acordei nesse triste 6 de julho….

obs.: escrevi vários textos como esse aqui com ele no meu colo. O do A Cor do Som publicado neste blog foi o último deles…

Tears In Heaven– Eric Clapton:


In My Life– Ozzy Osbourne:

Canção da América– Milton Nascimento:

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