Mondo Pop

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Category: as tais memórias (page 1 of 7)

Erasmo Carlos, 81 anos, o meu, o seu, o nosso amigo de fé…

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Por Fabian Chacur

“E agora, com vocês, o meu amigo Erasmo Carlos!” Era dessa forma irreverente e simpática que Roberto Carlos apresentava, no programa Jovem Guarda, da TV Record, nos anos 1960, seu maior parceiro, o grande Erasmo Carlos. Eu era muito pequeno para me lembrar de algo daquele programa, mas me recordo e muito de um compacto simples do meu irmão, A Pescaria, que eu amava, mesmo com meus cinco aninhos. Duro saber que o Gigante Gentil se foi nesta terça-feira (22), aos 81 anos.

Fui ter a honra de conhecer esse imenso cantor, compositor e músico no ano de 1992, quando ele lançou o álbum Homem de Rua, muito bom, por sinal. A entrevista coletiva foi em uma hoje extinta casa de shows situada na rua Turiassu, em São Paulo, e ficou na minha memória para sempre. Tenho aquele álbum no formato vinil com o precioso autógrafo do Tremendão.

Fui reencontrá-lo pessoalmente lá pelos idos de 2003, quando ele participou de uma entrevista coletiva ao lado da amiga Wanderlea, e desta vez com direito à foto que ilustra este post, gentileza da minha querida amiga Giseli Martins Turco. Também o entrevistei por telefone, e em todas essas ocasiões pude presenciar um cara extremamente simpático, gentil e sempre com histórias deliciosas para nos contar.

O tamanho da obra de Erasmo é imenso. Tanto suas eternas parcerias com Roberto Carlos como o que fez como artista solo já o eternizaram há muitas décadas entre os mestres da nossa música. O rock o marcou desde sempre, mas em sua sonoridade também entraram elementos de música brasileira, latina, pop e um romantismo repleto de inspiração e poesia.

A minha querida A Pescaria, Festa de Arromba, Gatinha Manhosa e Sentado à Beira do Caminho são apenas algumas das canções mais marcantes da fase inicial de sua carreira. O pós-jovem guarda nos trouxe muita coisa boa também, como Cachaça Mecânica, Filho Único, Mesmo Que Seja Eu, Mulher, Homem de Rua, é muita música boa.

Um dos grandes méritos de Erasmo Carlos reside no fato de ter conseguido atingir tanto os roqueiros mais radicais quanto o público mais simples e popular. Ele sofreu com uma parcela barra pesada de headbangers em sua participação no Rock in Rio em janeiro de 1985, mas foi um raro momento em que teve de encarar esse tipo de reação. Ele sabia falar com todo tipo de plateia como poucos artistas na história da nossa música.

Sua autobiografia Minha Fama de Mau (2009- leia a resenha de Mondo Pop aqui) é repleto de histórias de sua rica trajetória.

Outra virtude de Erasmo foi ter se mantido bastante ativo durante todos esses anos, lançando novos trabalhos e fazendo shows, o que lhe permitiu atingir um público bem além dos seus fãs originais dos tempos de jovem guarda. Ele certamente mereceu a linda homenagem de Roberto Carlos na música Amigo, que a partir de agora sempre arrancará lágrimas de todos aqueles que o admiram tanto. Perdemos um amigo de fé, mesmo.

A Pescaria– Erasmo Carlos:

Paulinho da Viola: 80 anos do mestre zen da nossa música

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Por Fabian Chacur

Trabalhar como jornalista especializado em música já me proporcionou alguns momentos de raro prazer. Entre eles, coloco as oportunidades que tive de entrevistar alguns grandes nomes. Entre eles, destaco Paulinho da Viola, que neste sábado (12) completa 80 anos de idade. É o Mestre Zen da MPB.

Simpático, inteligente e articulado, Paulinho é daqueles entrevistados dos sonhos, pois facilitam e muito a tarefa do repórter. Sua humildade é impressionante. Após a primeira ocasião em que tive a honra de entrevistá-lo, pedi um autógrafo em uma coletânea de vinil com seus maiores sucessos. Olha o que ele escreveu: “obrigado pelo papo”. Eu é quem deveria agradecer!

Nascido em 12 de novembro de 1942 no Rio, Paulinho começou a se tornar conhecido do grande público nos anos 60, e estourou em termos de popularidade com o espetacular samba Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida, em 1970. A partir daí, suas músicas ganharam as paradas de sucesso, aliando qualidade artística e apelo comercial.

O maior mérito dele em termos artísticos é provavelmente o fato de dialogar tanto com as gerações anteriores à sua quanto com as novas, criando dessa forma uma obra que paga respeitoso tributo ao chorinho e ao samba tradicional, mas sempre com a mente aberta para elementos de bossa nova, do samba renovado e de outras possibilidades, como bem relata em sua maravilhosa carta de intenções Argumento.

Com uma voz deliciosa, ele também toca com maestria o violão e o cavaquinho. Seus shows são sempre uma delícia de se ver, pois além de investir em seu repertório imbatível,Paulinho nos conta de forma fluente e afetiva causos maravilhosos de sua vida e dos seus parceiros de música e de vida. Você se sente na sala da casa dele!

O primeiro disco dele que eu comprei foi o compacto simples com Guardei Minha Viola (1973). Esse é apenas um dos vários clássicos lançados por ele nesse período, entre os quais Dança da Solidão, Coração Leviano, Pecado Capital, Argumento, Pode Guardar as Panelas e Por Um Amor No Recife, só para citar alguns dos mais significativos e marcantes.

Mestre como compositor de sambas, ele também soube investir em experimentação, como a fantástica Sinal Fechado prova de forma enfática, e demonstrou categoria na releitura de composições alheias, entre as quais destaco sua reinterpretação simplesmente espetacular de Nervos de Aço, pérola do compositor e cantor gaúcho Lupicínio Rodrigues.

Se viveu o seu auge na década de 70, a produção artística de Paulinho não caiu de qualidade nas décadas seguintes. Ele passou a gravar em quantidade menor, mas sem deixar a qualidade de lado, como atestam álbuns como Eu Canto Samba (1989), Bebadosamba (1996) e Acústico MTV (2007).

Paulinho da Viola felizmente completa 80 anos repleto de saúde, maturidade e capacidade de trabalho. Que venham em breve novos shows, novos discos e novas manifestações de seu enorme talento. E que eu possa voltar a entrevistá-lo em breve, sempre um prazer indescritível.

Guardei Minha Viola– Paulinho da Viola:

Rolando Boldrin, um mestre de cerimônias da nossa cultura

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Por Fabian Chacur

Conheci Rolando Boldrin através da maravilhosa Tema Pra Juliana, canção incluída na trilha da novela Os Inocentes (1974), da qual minha saudosa mãe Victoria gostava tanto que o meu não menos saudoso irmão Victor comprou o compacto simples para ela. Desde então, sempre o admirei e muito. Ele infelizmente nos deixou nesta quarta-feira (9), aos 86 anos de idade, após dois meses internado no hospital Albert Einstein, em São Paulo.

Lógico que o currículo desse grande nome da cultura brasileira vai bem além dessa linda musica. Nascido em 22 de outubro de 1936 em São Joaquim da Barra (SP), ele foi cantor, compositor, músico, poeta, ator, apresentador de TV e um dos maiores divulgadores da cultura popular da história desse país.

Boldrin atuou como ator em novelas de sucesso dos anos 1960, 1970 e 1980, entre as quais O Direito de Nascer, As Pupilas do Senhor Reitor, Mulheres de Areia, Os Inocentes, A Viagem e Roda de Fogo, todas em suas versões originais. No cinema, brilhou no filme Doramundo (1978), de João Batista de Andrade, só para citar um dos mais significativos.

E ele também gravou diversos discos bacanas. Mas foi como apresentador de programas de TV que ele realmente deu vasão a todo o seu talento. Ele não só apresentava, como interagia de forma deliciosa com os seus entrevistados, e também recitava poemas populares, cantava e nos dava aulas de brasilidade de verdade. Vê-lo em ação nessas atrações era delicioso e hipnótico, pois você não conseguia mudar de canal enquanto ele estivesse em cena. Lógico que se você tivesse apreço pela nossa cultura.

O mais recente deles, Sr. Brasil, ficou no ar na TV Cultura entre 2005 e agora. Outros foram Som Brasil (na Globo), Empório Brasileiro (na Band) e Empório Brasil (no SBT). A essência de todos era muito semelhante, com artistas dos quatro cantos do Brasil, desde os mais famosos até os mais desconhecidos, mas todos com algo em comum: muito talento, que Boldrin não fazia concessões a modismos ou figurinhas da moda.

Este ano, a TV Cultura exibiu um documentário sobre a sua trajetória artística, Eu, a Viola e Deus, dirigido pelo mesmo João Batista de Andrade de Doramundo. Ficar sem Boldrin, seus deliciosos causos e seus convidados talentosos será tão duro como a falta que a nossa amada Gal Costa, que se foi hoje também, faz. Que dia amargo!

Tema Pra Juliana– Rolando Boldrin:

Gal Costa, 77 anos, um ícone da cultura e aquela voz tamanha

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Por Fabian Chacur

A morte de uma pessoa é normalmente algo triste, em quaisquer circunstâncias. Mas isso se exacerba quando se trata de alguém que estava ativa, produtiva e repleta de planos e projetos bacanas. E esse é o caso de Gal Costa, que nos deixou nesta quarta-feira (9) aos 77 anos, deixando órfãos não só o seu querido filho Gabriel como milhões de fãs espalhados pelo mundo afora. Como essa voz tamanha pode ter se calado tão de repente? Difícil de assimilar. Mais uma estrela no céu.

Desde o início de sua carreira, nos anos 1960, Maria da Graça Costa Penna Burgos dava pistas que não estava ali para uma passagem rápida e/ou provisória. Já em Domingo (1967), álbum que dividiu com o eterno parceiro musical Caetano Veloso, ficava claro que estava entrando em cena alguém que não chegava apenas para brincar, ou para ser uma burocrata da canção.

Nesses mais de 50 anos de trajetória artística, Gracinha mergulhou fundo no universo musical. Experimentou de tudo, desde a vanguarda até a canção mais popular, passando rigorosamente por todos os caminhos. Sempre com muita personalidade, com sua digital clara e facilmente distinguível. Do rock à guarânia, do jazz ao soul, do bolero à bossa nova, a moça sabia como entrar e sabia como sair, sempre com uma voz que usava com uma categoria reservada a poucas colegas de profissão.

Gravações de Gal Costa frequentaram as trilhas sonoras das vidas de todos nós, através das novelas, dos filmes, das rádios. Uma que me marcou profundamente foi Só Louco, sua inspiradíssima releitura do clássico de Dorival Caymmi escolhida como tema de abertura da minha novela favorita de todos os tempos, O Casarão (1976), e que me emociona sempre que a ouço. Mas tem muitas outras.

Essa moça de inúmeras roupagens foi uma espécie de atriz musical, incorporando o espírito das eras em que viveu, seja o Tropicalismo, os anos de chumbo da ditadura militar, o som mais pop associado à abertura política, a bossa nova revisitada e o que mais viesse. Se os discos sempre foram deliciosos, era nos shows que Gal dava o máximo de si, cativando um fã-clube extenso que ela sabia como encantar.

Gal tinha o raro dom de pegar uma composição alheia e torná-la sua, dom que Deus não proporciona a muita gente. Seu estilo de cantar influenciou muita gente, sendo que Marisa Monte é provavelmente o primeiro nome que vem às mentes de todos. Sempre aberta, dialogou com as gerações anteriores e as posteriores, além da sua própria, o que lhe proporcionou atingir um público amplo que, hoje, chora a sua perda.

Tive a honra de entrevistá-la em várias ocasiões, a partir do finalzinho dos anos 1980, e ela sempre se mostrou muito franca, acessível e receptiva. A mais recente foi em 2013 (leia a entrevista aqui).

Com os progressos da medicina atual, dava para se esperar que Gal ainda ficasse entre nós por muitos e muitos anos. Infelizmente, ela permanecerá apenas em seus inúmeros álbuns e vídeos, que nos permitirão dar uma maneirada nessa saudade imensa que certamente irá aumentar conforme a gente for se tocando de que, como disse Adriana Calcanhoto em entrevista à Globo News, “não tem mais Gal”.

Só Louco– Gal Costa:

Bebeto Alves, 68 anos, o gaúcho das boas músicas sem fronteiras

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Por Fabian Chacur

No início de 2018, recebi uma mensagem através de uma rede social digital de um artista que se apresentou e disse que desejava me mandar o seu mais recente álbum. Era ninguém menos do que Bebeto Alves. Tomei um susto, pois achei uma postura muito humilde por parte dele, um artista com um gabarito tão alto e de tanta estrada. Pois infelizmente esse grande cantor, compositor e músico gaúcho nos deixou na madrugada desta segunda-feira (7), apenas 3 dias após completar 68 anos.

Em várias entrevistas, Bebeto afirmou que não se sentia local de parte alguma. Basicamente, isso significava que ele, enquanto artista, nunca respeitou limites ou fronteiras musicais, experimentando e criando novos horizontes sonoros e poéticos. Sua base era o rock and roll e a milonga, mas nunca se limitou a um único rumo. E, dessa forma, criou uma trajetória musical das melhores.

Ele lançou o seu álbum de estréia em 1981, após muitos anos de estrada. Tive a honra de escrever sobre esse trabalho no livro 100 Grandes Álbuns do Rock Gaúcho, criado e coordenado pelo jornalista e biógrafo gaúcho Cristiano Bastos, trabalho essencial que será lançado em breve. É um disco maravilhoso, e que dava pistas do que viria adiante.

Além de seus próprios trabalhos, Bebeto Alves também teve músicas de sua autoria gravadas por outros artistas, entre elas 433, que integra o álbum Kleiton & Kledir (1983), o mais bem-sucedido em termos comerciais da seminal dupla gaúcha e que inclui os hits Tô Que Tô e Nem Pensar.

Bebeto sempre foi muito gregário, e fez parcerias e gravações com diversos outros artistas, entre os quais Humberto Gessinger, Antonio Villeroy, Jimmi Joe e King Jim. Outro projeto incrível dele foi o grupo OhBlackBagual, cujo excelente álbum Canção Contaminada foi o que ele tão gentilmente me enviou. A partir da resenha desse trabalho, fiz vários textos sobre Bebeto em Mondo Pop (leia todos aqui).

Você– Bebeto Alves:

Jerry Lee Lewis, 87 anos, o último dos pioneiros do rock

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Por Fabian Chacur

Jerry Lee Lewis, o último grande astro da geração inicial do rock que ainda estava entre nós, nos deixou aos 87 aos. Sua morte foi confirmada nesta sexta-feira (28) por seu assessor de imprensa, Zack Farnun, que afirmou ter o lendário cantor e pianista americano nos deixado em Desoto County, Mississippi, ao lado de sua sétima esposa, Judith. Boatos sobre sua morte nos últimos dias haviam circulado, mas a confirmação só veio agora.

Nunca irei me esquecer da entrevista coletiva desse mitológico artista realizada em novembro de 1993 em São Paulo no hotel Maksoud Plaza, situado na região da Avenida Paulista. Olhos incrivelmente verdes, olhando para nós,jornalistas, como se estivesse escolhendo um para dar uns bons tiros, jeitão de pouca paciência e poucos amigos. Suas respostas foram lacônicas e volta e meia atravessadas.

Após aproximadamente 15 minutos, nos quais rejeitou o filme que havia sido feito há alguns anos sobre a sua carreira (falarei mais sobre isso depois), ele levantou e disse isso: “bem, pessoal, eu fiz uma longa viagem, estou cansado, até mais!” Levantou-se e saiu de cena rapidinho, andando no melhor estilo “dez pras duas”, com suas botas de couro. Bem, pelo menos saímos ilesos.

Meu grande amigo Marcelo Orozco viu um dos shows, que foram realizados em 30 de novembro e 1º de dezembro de 1993 em São Paulo no hoje extinto Palace, situado no bairro de Moema. Ele fez uma belíssima resenha (leia aqui ), com a sua categoria habitual.

Também fiz uma resenha em Mondo Pop, no ano de 2016, da sua excelente autobiografia, uma das mais francas e diretas que já tive a oportunidade de ler nesses anos todos (leia a resenha aqui).

Jerry Lee Lewis nasceu em 29 de setembro de 1935, e desde pequeno mostrava inclinação pela música, tanto que seus pais logo o apoiaram. As coisas engrenaram para ele em 1956, quando foi contratado pela Sun Records, de Sam Phillips, gravadora que lançou outros craques da geração inicial do rock and roll, como Elvis Presley, Johnny Cash e Carl Perkins.

Entre 1956 e 1958, lançou os seus maiores hits, clássicos do porte de Whole Lotta Shakin’ Goin’ On (nº 3 nos EUA e nº 8 no Reino Unido), Great Balls Of Fire (nº 2 nos EUA E nº 1 no Reino Unido), Breathless (nº 7 nos EUA e Reino Unido) e High School Confidential (curiosamente a única escrita por ele, nº 21 nos EUA e nº 12 no Reino Unido).

O grande mérito de Jerry Lee foi trazer o tempero country do seu piano e incorporá-lo ao pique do rock and roll, com direito a uma performance alucinada com direito a subir no piano e coisas assim, além de ter uma voz recheada de pique e jogo de cintura.

Seu temperamento errático, no entanto, logo cobrou um alto preço, quando ele, no final de 1957, separou-se de sua já segunda esposa para ficar com Myra Gayle, garota com apenas 13 anos de idade. Quando foi fazer uma turnê no Reino Unido, a levou junto com ele, e admitiu à imprensa local que se tratava de sua esposa. Tentem imaginar isso em plena década de 1950…

O artista teve de lidar com uma grande reação conservadora por parte da mídia, que ele só conseguiu superar com o decorrer dos anos. Ele voltou a emplacar um hit ao menos mediano apenas em 1964, com I’m On Fire. Em 1968, no entanto, atingiu o 1º lugar na parada country americana com Another Place Another Time, e emplacou mais outros 30 sucessos nessa área até o fim dos anos 1970.

O revival do rock original rendeu shows importantes como o The Rock And Roll Revival Concert em 1969, no Canadá, e o London Rock N’ Roll Festival em 1972, em Londres, nos quais ele brilhou ao lado de contemporâneos como Little Richard, Bo Diddley e Chuck Berry, entre outros. No primeiro, tivemos também a participação de John Lennon e a sua Plastic Ono Band, um dos raros shows que ele realizou sem os Beatles, vale registrar.

A partir da segunda metade da década de 1970, Lewis conviveu com vários problemas de saúde e também com diversas confusões geradas por seu alto consumo de bebidas e temperamento irascível. Em 1989, foi lançado o filme Great Balls Of Fire (A Fera do Rock, no Brasil), dirigido por Jim McBride e estrelado por Dennis Quaid e Wynonna Ryder.

Embora tenha feito uma ponta no filme e regravado alguns de seus hits para a trilha sonora (muito boa, por sinal), Jerry Lee Lewis o rejeitaria nos anos seguintes. Na célebre entrevista coletiva, ele afirmou que não havia gostado do resultado final, e que um dia faria o seu próprio filme sobre sua vida, o que, infelizmente, acabou não conseguindo concretizar.

Ele se manteve ativo nas últimas décadas, fazendo alguns shows, gravando álbuns como Youngblood (1995) e participando da trilha sonora do filme Dick Tracy (1990, estrelado por Warren Beatty e Madonna) com a música (muito boa, por sinal) It Was The Whiskey Talking (Not Me) (ouça aqui).

Great Balls Of Fire (clipe)- Jerry Lee Lewis:

Olivia Newton-John, 73 anos, estrela talentosa e simpática

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Por Fabian Chacur

O mundo está muito mais triste nesta segunda-feira (8). Foi anunciada nesta manhã a morte de Olivia Newton-John, que após três décadas lutando contra um câncer de mama infelizmente não conseguiu mais resistir. Ela estava entre seus entes queridos, no rancho em que morava no sul da Califórnia (EUA). Aos 73 anos, a cantora nos deixa um lindo legado profissional e também como ser humano. Uma pessoa doce e que sempre lutou por causas humanitárias.

A estrela pop nos visitou em março de 2016, quando fez shows elogiados. Eu estive em um deles (leia a resenha aqui), e tive a oportunidade de tirar uma foto com ela (feita pelo amigo e jornalista Sérgio Martins) e ter uma rápida conversa, durante a qual ela se mostrou extremamente gentil e atenciosa.

Nascida na Inglaterra em 26 de setembro de 1948 (mesmo dia e mês de Gal Costa e Brian Ferry, curiosamente), Olivia mudou-se com a família para a Austrália aos 5 anos de idade, onde foi criada. Ela iniciou sua carreira musical em 1965. Seu primeiro sucesso foi em 1971 com If Not For You, de Bob Dylan e também conhecida por gravação de George Harrison.

A cantora se mostrou uma especialista em quebrar barreiras, pois se tornou uma das maiores estrelas da música country nos EUA, grande façanha para uma estrangeira. Um de seus primeiros hits nesse setor foi Let Me Be There, seguido depois pelo estouro de I Honestly Love You, que chegou ao número 1. Outros hits country da moça são Please Mr. Please e Have You Ever Been Mellow, só para citar mais dois.

Em 1978, surpreendeu a todos ao aceitar viver o papel de Sandy na versão cinematográfica do musical Grease, uma ousadia, se levarmos em conta que ela já tinha 30 anos e viveria uma jovem adolescente. Mas deu super certo a sua parceria com o então ainda iniciante John Travolta, e o filme virou um grande sucesso nas bilheterias.

Mais: rendeu vários hits em sua trilha sonora, entre os quais dois duetos de Olivia e Travolta, as trepidantes Summer Nights e You’re The One That I Want, e a balada solo Hopelessy Devoted To You. O sucesso a incentivou a dar uma guinada roqueira em 1979 com o hoje clássico álbum Totally Hot, que inclui os petardos A Little More Love e Deeper Than The Night, entre outros, um grande sucesso.

Em 1980, outra surpresa das boas: estrelou o filme Xanadu ao lado de ninguém menos do que Gene Kelly, o rei dos musicais. O filme não teve bom desempenho nas bilheterias mas virou cult depois. A trilha, no entanto, que a reuniu com a Electric Light Orchestra, estourou, com hits como Xanadu (com a ELO), Magic, Whenever You’re Away From Me (com Gene Kelly) e Suddenly (dueto com o amigo Cliff Richards).

Em 1981, veio seu maior hit solo, a contagiante Physical, que ficou dez semanas no topo da parada americana e virou uma febre como tema de vídeos de ginástica. Fez mais um filme com Travolta, Two Of a Kind (1983), e também investiu em causas sociais. Em 1992, lutou contra um câncer de mama, mas não só o venceu na época como também criou uma fundação para arrecadar fundos no intuito de ajudar as vítimas dessa doença terrível.

Sempre ativa, lançou bons discos nesses anos todos, entre eles Back With a Heart (1998). Outro é o duplo ao vivo Summer Nights- Live In Vegas, gravado ao vivo em incluindo hits como Have You Ever Been Mellow, Xanadu, A Little More Love, Sam, Physical, Summer Nights e inúmeras outras, em um total de 22 faixas. E foi esse show comemorativo de seus 50 anos de carreira que a trouxe ao Brasil em 2016. Já está fazendo muita falta…

A Little More Love (clipe)- Olivia Newton-John:

Caetano Veloso, 80 anos, magia de ser eternamente relevante

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Por Fabian Chacur

Conheci Caetano Veloso pessoalmente em 1985, ao participar de uma entrevista coletiva concedida por ele à imprensa no hotel Maksoud Plaza. Entre as diversas perguntas feitas pelos jornalistas presentes, uma pedia a ele uma opinião sobre os grupos britânicos The Smiths e New Order, então extremamente badalados por aqui. E ele gastou alguns bons minutos para responder. Logo de cara, tive contato com uma das marcas registradas desse cantor, compositor e músico baiano, que completou 80 anos neste domingo (8).

Até os dias de hoje, a mídia parece sempre querer saber o que Caetano Veloso pensa sobre cada novidade musical que surge. Isso, para ficarmos na área abordada por Mondo Pop. Pois seus pitacos sobre política, moda, economia, cinema, TV etc (e tome etc) também são solicitados de forma constante. Isso, quando necessário, pois com frequência o próprio artista se antecipa e discorre sobre esses temas todos. Falar é com ele mesmo.

E é bom ressaltar que isso não ocorre por oportunismo dele. É de seu espírito ser assim, atento ao que acontece no Brasil e no mundo e afim de interagir e tentar entender o mundo em suas eternas mudanças. E isso se reflete nele próprio, um ser mutante por natureza, capaz de ir do voz e violão ao acompanhamento orquestral, passando por todas as possibilidades entre uma coisa e outra, sem medo de experimentar.

Cria da bossa nova de Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes, Caetano não demorou para mergulhar em outros mares sonoros. Sem preconceitos, flertou com os Beatles, Odair José, Smetak, Rogério Duprat, Talking Heads, Pixies, poesia concreta, axé music e o que mais pintasse. E sempre saiu inteiro de cada uma dessas experiências, mesmo quando não deu muito certo em termos qualitativos.

Minha primeira experiência com ele foi logo com um disco mais ousado, Caetano Veloso (1971), gravado durante o seu exílio em Londres provocado pela gloriosa ditadura militar. A música Maria Bethania sempre me encantou com a sua mistura de música regional e erudita e os seus vocais onomatopaicos com efeito de mastigação, como se deglutisse as palavras.

Uma coisa curiosa é perceber que o autor de Sampa nunca teve momentos de ostracismo ou de grandes sumiços da mídia. Em cada década, ele sempre esteve lançando novos trabalhos, fazendo shows pelo Brasil e o mundo e sendo citado por novos artistas como uma influência importante. Raros artistas tem esse poder, e ainda mais por tantas décadas. Paul McCartney, seu colega de ano de nascimento, é um deles, sendo Milton Nascimento, da mesma classe de 1942, outro bom exemplo a ser citado.

Caetano tem o dom de trafegar entre todas as classes sociais, capaz de emplacar hits muito populares e também encantar os fãs de experimentalismo. Um caso raro de unanimidade nacional? Bem, ele tem lá os seus detratores, mas como levá-los a sério, se observarmos a obra do artista em questão? Alguns se aproveitam de incursões menos felizes no cinema e em livros para tentar, mas são vaciladas tão pequenas que é melhor não levá-los a sério.

A qualidade da obra artística de Caetano Veloso é reverenciada em todo o planeta, e serve como uma boa amostra de como o Brasil consegue, mesmo com todas as suas contradições seculares, produzir artistas desse altíssimo gabarito. Uma obra que permanecerá perene e relevante daqui a 50, 100, 200, mil anos. De um cara tranquilo e infalível como Bruce Lee.

Maria Bethania– Caetano Veloso:

Paul McCartney, 80 anos, a façanha de se tornar eterno

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Por Fabian Chacur

Fazer sucesso não é fácil. Manter esse sucesso, mais difícil ainda. Tornar-se eterno, no entanto, é coisa para os muito fortes e muito talentosos. E é nesse panteão que se colocou um certo James Paul McCartney, que neste sábado (18) completa 80 anos mais ativo e relevante do que nunca. Tudo bem que o cidadão que está escrevendo este texto não é suspeito, é culpado, pois fala aqui sobre o seu maior ídolo. Mas tem horas que o melhor é mandar a isenção pra longe. Viva Paul McCartney!

Não faltam argumentos para sustentar a minha teoria, de que Paul McCartney é eterno. Logo de cara: quem conseguiria sobreviver ao fim da maior banda de todos os tempos e permanecer nas paradas de sucesso e lotando estádios, agora sozinho? Macca já começa goleando logo aqui. Coube a ele carregar o estandarte dos Beatles mundo afora sem seus companheiros, e essa missão está sendo cumprida com galhardia.

Lógico que este brilhante cantor, compositor e músico britânico continua cantando músicas de sua célebre ex-banda em seus shows, sempre arrancando aplausos, emoções e singalongs por parte dos milhões de fãs. Mas não custa lembrar que, nos anos 1970, ele tocava um número bem pequeno de hits dos Fab Four nos shows de sua banda de então, os Wings, e mesmo assim vendeu milhões de cópias de seus discos e atraiu multidões enormes nas turnês que fez então.

Eis uma frase polêmica que irei escrever, mas lá vai: mesmo se não tivesse sido um beatle, McCartney teria seu lugar garantido como megastar, levando-se em conta apenas a sua produção com os Wings nos anos 1970 e na carreira-solo posterior. Os hits desse período são vários e enormes: Another Day, My Love, Band on the Run, Silly Love Songs, Mull Of Kintyre, Ebony And Ivory, The World Tonight… A lista é longa e vai longe.

O talento deste Sir é imenso, e em várias frentes. Excelente cantor, baixista tido como um dos melhores do rock em todos os tempos, bom também com outros instrumentos musicais (guitarra, violão, teclados, bateria etc), compositor de mão cheia, absurdamente carismático nos shows… Teve um parceiro máximo nas composições, o saudoso John Lennon, mas soube se virar muito bem sozinho e também escrevendo com Elvis Costello, Eric Stewart, Denny Layne e sua também saudosa Linda, entre outros.

Durante muito tempo, alguns críticos ridículos rotulavam o Macca como um “baladeiro incorrigível”, como se ele só fizesse canções românticas. Faixas como Helen Wheels, Let Me Roll It, Old Siam Sir, Jet, Give Ireland Back To The Irish, Angry e Girls School são apenas algumas belas provas de o quanto tal teoria é ridícula. Paul rock and rolla como poucos!

Outro ponto nem sempre muito fácil para um artista é conseguir ir além da sua própria geração, e eis outra grande virtude do autor de Yesterday. Mr. McCartney tem fãs das mais diversas faixas etárias, desde gente com idade acima da sua até a molecada da era Tik Tok. Cada um curtindo facetas específicas, ou o todo de sua obra, mas todos felizes ao ouvir suas canções.

Tive a honra de ver quatro shows de meu ídolo. Dois em 1990, no Maracanã, quando de sua primeira visita ao Brasl. Um em 1993 no estádio do Pacaembu, em São Paulo (o meu favorito), e o quarto em 2010, no estádio do Morumbi. Todos maravilhosos. E participei de duas entrevistas coletivas, a de 1990 e a de 1993, sendo que nesta última tive a honra de fazer a última pergunta. Um dos momentos mais incríveis da minha vida, com o meu ídolo respondendo e olhando para mim! Sonhos podem se concretizar!

E o legal é que em momento algum de sua trajetória Paul McCartney se acomodou. Sempre se manteve atento às novidades, trocando figurinhas com outros artistas e lançando álbuns bacanas e muito relevantes, como os recentes e ótimos Egypt Station (2018) e McCartney III (2020). E o cidadão está em meio a mais uma turnê. Que Deus o abençoe e o mantenha entre nós por muitos e muitos anos mais.

E vale lembrar que, em 1967, quando tinha meros 25 anos de idade, ele imaginava como seria quando tivesse 64 anos (When I’m 64), em faixa do mitológico Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Mal sabia ele… Que chegue aos 100 com saúde e lúcido é o meu desejo!

Good Times Coming/ Feel The Sun– Paul McCartney:

Kelly, 17 anos, a personificação de uma verdadeira anjinha canina

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Por Fabian Chacur

A Kelly entrou na minha família no dia 8 de janeiro de 2005. Tinha aproximadamente 5 meses de idade e foi adotada através de uma loja da Cobasi, com certificado de adoção e tudo. Cinza, com alguns detalhes cor de palha, logo conquistou a todos com a sua agilidade, simpatia e carinho. Castrada, ela veio para fazer companhia ao outro cão da casa, o Jack. Aliás, ela se chamava Dandara, mas não gostei, e logo a rebatizei com o nome da irmã do Jack Osborne, ambos filhos do grande Ozzy Osbourne (depois, teria um cãozinho que batizei como Ozzy).

No início, ela era muito agitada e um pouco estabanada. Detonou caminhas, cobertores, brinquedos e o que via pela frente, mesmo não sendo brava. Rapidamente se entendeu com o Jack, e viraram bons parceiros caninos. Com o tempo, essa cachorrinha se mostrou a mais cordata das criaturas. Quando o Ozzy entrou para o time, às vezes rolavam uns ranca-rabos entre ele e o Jack, e a Kelly sempre entrava no meio, para apaziguá-los.

Doce e discreta, Kelly conquistou o coração de todos os que tiveram a honra de conhecê-la. Um ser repleto daquela aura que torna alguns seres completamente especiais. Era uma companhia incrível. Sabia a hora de pedir carinho ou um petisco, e a hora de simplesmente ficar por perto, inspirando o seu papai quando ele estava trabalhando em casa.

Com o tempo, ela foi ficando um pouco mais tranquila, mas nunca deixou de ser uma guerreira. Sua saúde só deu uma abalada neste 2021, mas mesmo assim ela continuou lutando, dando as voltinhas pela casa, pulando os degraus, pedindo petiscos e tudo o mais. Só mesmo nestas duas últimas semanas ela demonstrou que estava um pouco mais cansadinha, mas mesmo assim batalhou até o último momento. Que, infelizmente, chegou na manhã deste sábado (11).

Já escrevi isso inúmeras vezes, especialmente em posts do Facebook registrando a morte de pets, e repito mais uma vez aqui: cães e gatos são seres encantadores que põem cor, carinhos e companheirismo incondicional em nossas vidas, e que nos proporcionam uma única e imensa tristeza, que é quando nos deixam rumo ao céu dos cães e gatos.

Kelly, foi uma honra ter sido seu papai por quase 17 anos. Aliás, ter sido, não, pois serei sempre, e com o maior orgulho. A esta hora, você já está de novo com os seus parceirinhos Jack e Ozzy, livre das dores e do sofrimento, que você não merecia, mas que, heroicamente, nunca demonstrou de forma explícita. Até nisso você teve classe. Muita saudade de quem nunca irá se esquecer de você, minha eterna Princesinha Cinza!

Goodbye (Kelly’s Song)– Alabama:

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