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Category: as tais memórias (page 1 of 6)

Macacafoo / Murder, um single muito misterioso e delicioso

murder selo 2-400x

Por Fabian Chacur

A música faz parte da minha vida desde sempre. Mesmo sem vir de uma família de profissionais ou mesmo semiprofissionais da área, a paixão musical dos meus pais e de meu irmão me proporcionou conhecer os mais diferentes estilos sonoros desde muito pequeno. Uma das minhas lembranças mais antigas é oriunda de um compacto simples do meu irmão lançado por um grupo intitulado The Blobs, incluindo as músicas Murder (no lado A) e Macacafoo (no lado B).

Creditada no selo do disco a S. Cates e L. Camps, Murder (ouça aqui) é instrumental, com apenas o título (que significa assassinato em inglês) sendo falado, e soa como se fosse a trilha sonora de uma perseguição a um bandido, com gritos e sons de viatura policial, que no fim leva tiros e vai dessa para a melhor, antes dando seus últimos suspiros. Isso, com uma sonoridade na melhor tradição do rock instrumental de Ventures e Shadows.

Macacafoo, cujos autores são J. Brol e C. Koopmans, traz uma letra curta em uma língua fictícia, pura onomatopeia (algo como “macacafoo foo foo sirifu fu fu zititi ziti bardá”), e um ritmo puramente dançante, valorizado pela sonoridade divertida da palavra que dá título à mesma. As duas músicas trazem como marcas, além da inspiração do rock instrumental, uma levada de bateria quase marcial, cirúrgica em termos rítmicos, um verdadeiro metrônomo de efeito hipnótico convidando à dança.

Lançado no Brasil em 1964 com o selo Dotis, representado por um simpático bonequinho usando cartola e uma bengala, o compacto fez bastante sucesso, a ponto de Macacafoo ter sido regravada na mesma época por dois grupos brasileiros, o The Bells (ouça aqui ), e The Clevers (ouça aqui ), este último na véspera de se tornar Os Incríveis. Aliás, eles fizeram seu registro desta música em um LP que gravaram em Buenos Aires creditado a Los Increibles.

Embora eficientes e muito simpáticas, as regravações feitas pelos artistas nacionais não chegam nem perto da versão original, especialmente por causa de sua inigualável levada rítmica. Durante muitos e muitos anos, eu não tinha a menor ideia de qual seria a origem desses tais The Blobs. Cheguei mesmo a pensar que poderiam ser brazucas, e me lembro de ter colocado para um amigão meu, o Giovanni, ouvir. Ele, de orelhada, mandou ver: “não parecem brasileiros”.

A busca para descobrir a origem dos Blobs e de Murder/ Macacafoo só obteve respostas, e mesmo assim algumas evasivas, depois de muito tempo. Este será o relato mais completo que você terá a oportunidade de ler sobre esse single que tanto me marcou. Vamos comigo nessa viagem? Só se for agora!

Dance Crazes, início do rock and roll, início do rock europeu

Nossa história começa na década de 1950, mais precisamente no dia 9 de julho de 1955, quando Rock Around The Clock, com Bill Halley And His Comets, atinge o topo da parada americana de singles. Para os historiadores, esse é considerado o início da chamada Era do Rock, o momento em que esse então novo gênero musical atinge o grande público e começa a se expandir pelo mundo afora.

Com o estouro de Haley e, logo a seguir, de Elvis Presley, Chuck Berry, Jerry Lee Lewis e tantos outros, essa nova vertente da música, que na verdade vinha surgindo aos poucos desde ao menos os anos 1940, começou a dar frutos e também gerar desdobramentos. Um deles foi o rock instrumental, que teve como grandes parâmetros os americanos The Ventures e os britânicos The Shadows.

Uma das inspirações para as músicas do rock and roll inicial eram variações tendo como foco central o apelo à dança. Afinal das contas, música para dançar é algo mais antigo do que a roda, e basta citar a valsa, o tango, o charleston e outros para exemplificar ritmos de outras eras com esse objetivo central.

O próprio rock, vale registrar, era encarado inicialmente como possivelmente mais um modismo dançante passageiro, mas não só quebrou essa previsão pessimista como permaneceu firme e forte até os nossos dias. Essa tendência dançante, porém, gerou músicas com dna rocker que, no entanto, tentavam virar novas danças. Uma espécie de dance craze (febre das danças), então, surgiu entre o fim dos anos 1950 e início dos 1960.

Como exemplos, podemos citar o Hully Gully, que teve o quarteto americano The Olympics como um de seus maiores divulgadores, o Twist, lançado por Hank Ballard e popularizado mundialmente por seu conterrâneo americano Chubby Checker, que graças aos hits The Twist e Let’s Twist Again girou o mundo, fazendo muita gente mexer os quadris e se esbaldar, inclusive no Brasil, onde o cantor americano esteve algumas vezes. E o ritmo inspirou Twist And Shout, sucesso com The Isley Brothers e depois com os Beatles.

Como seria de esperar, vários grupos mundo afora começaram a se inspirar nos pioneiros. E um dos países que teve seus talentosos representantes foi a Bélgica. Por lá, um dos nomes fundamentais para o desenvolvimento do rock naquela nação europeia foi o guitarrista e vocalista Leon Pooters, que também gravou e fez shows com um nome artístico “americanizado”, Lee West.

E foi exatamente Leon-Lee quem arregimentou os músicos Paul Nijsmans (guitarra-base), Jos Hooybergs (guitarra), Staf Michel (baixo) e Hugo Nijsmans (bateria) para, com o nome The Tramps (não confundir com o grupo americano The Trammps, que nos anos 1970 estouraria com Disco Inferno e outros hits da disco music, ou o The Tramps punk também belga dos anos 1970-80), gravar algo na linha de The Twist ou Baby Hully Gully.

Em novembro de 1961, surgiam, então, as duas gravações que tanto me cativaram, Murder e Macacafoo. E aí surge uma pergunta: mas o disco lançado no Brasil era creditado a The Blobs, e não a The Tramps. Porque, se as gravações são exatamente as mesmas, como pude constatar ao ouvi-las? E aqui não tenho uma resposta conclusiva para dar, apenas uma especulação.

Como Murder e Macafoo foram lançadas por um pequeno selo belga, é muito possível que esses fonogramas tenham sido negociados para outros países creditados a um outro “grupo” como forma de não pagar direitos autorais aos artistas originais. Ou mesmo os próprios artistas vendiam essas gravações com outros nomes para burlar os selos pelos quais os lançaram originalmente. Muitos artistas de blues americanos faziam isso, gravando por diferentes selos valendo-se de alcunhas distintas, como forma de ganhar uns cobres adicionais.

Se você ficou confuso, prepare-se para se confundir ainda mais. Uma das raras versões em CD dessas duas músicas pode ser encontrada em uma coletânea em 1994, que em 2000 foi reeditada pelo selo Rarity Records (cuja origem desconheço) intitulado The Story Of The Picknicks. Ou seja, outro grupo, com as mesmas gravações! Mas, ao menos, esse aqui conseguiu ser rastreado por esse precário aprendiz de arqueólogo musical.

the picknicks capa cd

Além dos Tramps, Leon Pooters-Lee West integrou diversos outros grupos, em alguns casos como músico de estúdio. E um deles foi exatamente The Picknicks, formado pelos irmãos belgas John, Paul, René e Sylvain Van Leere. O CD citado traz 28 faixas e pode ser conferido no Youtube. Curiosidade: uma das músicas, intitulada Maharadja (ouça aqui), é extremamente semelhante a Murder.

Leon Pooters também gravou e tocou com grupos como Lee West & The Westonians, The Black Birds, The Jokers e The White Birds. Nascido na cidade de Antuérpia em 31 de janeiro de 1932, ele nos deixou em 20 de junho de 2010.

O compacto que herdei do meu saudoso irmão Victor e cuja foto do selo ilustra a abertura desta matéria foi lançado pela Companhia Industrial de Discos (CID), do Rio de Janeiro. Existe pelo menos um outro lançamento brasileiro de Macacafoo com os supostos The Blobs.

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Traz o selo Fermata, e tem foto na capa de dançarinos, com as frases “Novo Ritmo” e “Nova Dança”, sendo que a outra faixa aqui não é Murder, e sim Tarantella (creditada a Wilson, Bogle e Edwards).O curioso é que, na contracapa, é citado como engenheiro de som Diogo Ávila, direção de Manoel Barenbein (conhecido produtor brasileiro dos anos 1960) e o mais bizarro: “gravado nos estúdios da Magisom”. Ou seja, tentam dar a entender que se trata de uma gravação feita no Brasil!

É possível que isso explique mais uma confusão (e haja confusões nessa história que estou contando!). Na coletânea em CD Brazilian Nuggets Vol.1- Back From The Jungle, lançada em 2011 em Portugal pelo selo Groovie Records e reunindo raridades brasileiras de rock dos anos 1960, está lá Murder, com The Blobs, como se brasileiros fossem!

Há uma postagem de Murder no Youtube extraída deste álbum (ouça e veja aqui), e nos comentários Ronny Winants, provavelmente belga, alerta sobre o erro bizarro. Saiba mais sobre esse CD aqui.

Um misterioso compacto simples gravado na Bélgica em novembro de 1961 (mesmo ano em que nasci) sai no Brasil em 1964 e cativa um garotinho na Vila Mariana, bairro de São Paulo, e também um montão de gente. Teríamos aqui um dos momentos iniciais da globalização que passaria a dar as cartas no mundo a partir dos anos 1990?

Macacafoo– The Tramps:

Roberto Carlos: 80 anos e muito mais do que um milhão de amigos

roberto carlos

Por Fabian Chacur

Em 1974, em seu delicioso hit Eu Quero Apenas, Roberto Carlos nos disse que “eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar”. Como dizem por aí, cuidado com o que você deseja. Pois o artista, que completa nesta segunda (19) 80 anos de idade, possui muito, mas muito mais do que isso. Fãs incondicionais que se consideram seus amigos, e que certamente desejam tudo de bom e um pouco mais para o seu Rei. E alguém em sã consciência é capaz de dizer que ele não merece tanta idolatria?

Como jornalista especializado em música, tive a oportunidade de participar de três entrevista coletivas com o cantor, compositor e músico natural de Cachoeiro do Itapemirim (ES), todas realizadas na cidade de São Paulo: em 1988, no hotel Maksoud Plaza e em 1995 e 1996 no hotel Transamérica. Nas três, ficou claro para mim algumas de suas marcas: a simpatia, o imenso carisma e a forma sempre conciliadora de responder mesmo as perguntas mais ácidas.

Em uma delas (se não me falha a memória, na de 1988), questionei-o sobre o porque seu álbum de estreia, Louco Por Você (1961), nunca foi relançado oficialmente, e se isso ocorria devido ao seu veto. Ele, cheio de sorrisos e de dedos, disse que um dia a gravadora faria esse relançamento, e que ele não tinha impedido nada. No entanto, o disco completará 60 anos neste 2021, e continua disponível só em versões piratas, uma delas no formato CD repleta de faixas-bônus lançadas no início de sua carreira.

E já que o tema é efemérides, temos algumas bacanas em 2021, além dos 80 anos de idade e 60 anos do lançamento do álbum de estreia. Roberto Carlos (1971) considerado por muitos o seu melhor álbum e aquele que inclui sua canção mais citada, a maravilhosa Detalhes, celebrará 50 aninhos, enquanto Acústico MTV festeja 20 primaveras sem nunca ter sido exibido na emissora musical.

Poucos artistas conseguem chegar a uma idade como essa ainda relevante e cultuado por milhões de pessoas, ainda mais no Brasil, e o autor de Amada Amante e tantos outros sucessos pode se gabar dessa façanha. Se não lança mais discos com canções inéditas como fazia até meados dos anos 1990, mantém-se gravando projetos especiais (geralmente gravados ao vivo) e fazendo shows sempre lotados, alguns deles até em cruzeiros marítimos.

Há quem tente condená-lo por sua postura conservadora e as poucas opiniões sobre política. Ele só apoiou explicitamente uma candidatura, a de Antonio Ermírio de Moraes ao governo de São Paulo em 1986, embora já tenha dito, em uma entrevista ao extinto jornal O Pasquim, ser de direita. Também se mostrou irritado com a exibição no Brasil de filmes como Je Vous Salue Marie (1985), de Jean-Luc Goddard e A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese, ambos com abordagens polêmicas sobre temas caros aos católicos.

Como ele nunca foi agressivo nesses posicionamentos e não está escrito em nenhuma lei que um artista seja obrigado a ter posições políticas públicas e a defendê-las, vale deixar essa sua faceta de lado. Mas dá para se lamentar sua luta contra o excelente livro Roberto Carlos em Detalhes (2006), de Paulo César de Araújo, com direito à destruição de inúmeros exemplares. Enfim. ninguém é perfeito, e é melhor falar de música.

Nesses mais de 60 anos de música, Roberto enveredou por vários estilos. Do flerte inicial com a bossa nova, mergulhou no rock and roll, que lhe valeu a Jovem Guarda e a primeira fase de grande sucesso, com direito a programa na TV ao lado do parceiro Erasmo Carlos e de Wanderléa. Mesmo nessa época, já mostrava a versatilidade, cantando baladas, música latina, valsa e até charleston ou coisa que o valha.

No fim dos anos 1960, investiu com categoria na soul music e aos poucos foi se tornando mais romântico ainda e mais pop, consolidando sua popularidade de uma vez por todas durante a década de 1970, com álbuns sempre esperados com avidez pelo grande público que emplacavam uma quantidade incrível de hits.

Os sucessos se mantiveram firmes e fortes durante a década de 1980, embora a crítica especializada adorasse detonar cada um desses álbuns. Mas, em sã consciência, dá para dizer que músicas como Fera Ferida, Emoções, Meus Amores da Televisão, Amazônia e Amor Perfeito, alguns dos grandes hits dessa era do Rei, são de fato músicas ruins?

Certa vez, um crítico disse que Roberto Carlos é o mais popular que um fã de música sofisticada consegue ouvir e o mais sofisticado que um fã de música brega consegue chegar. É uma opinião contra a qual podemos até por alguns reparos, mas que faz todo o sentido do mundo. Difícil encontrar alguém que não goste de rigorosamente nada do repertório de Roberto Carlos.

E tem duas vertentes marcantes da sua obra. A ecológica, quando poucos tocavam nesse tema no Brasil, que gerou O Progresso, O Ano Passado, As Baleias e tantas outras, e a de cunho religiosa, que gerou Jesus Cristo, Nossa Senhora e diversas outras. Lógico que também temos as canções temáticas femininas do tipo Coisa Bonita, Mulher Pequena e Mulher de Quarenta, ou a do caminnhoneiro, a do taxista etc. Mas até essas são bem divertidas.

Das composições da dupla Roberto e Erasmo até as canções de outros autores muito bem escolhidas, Roberto Carlos Braga nos proporcionou um verdadeiro tsunami de músicas boas de se ouvir. Sempre bom cantor, ele conseguiu não perder a voz nessas décadas todas, agora se valendo de interpretações mais doces e contidas que tem tudo a ver com sua paixão pela bossa nova, e que culminou com o belo álbum que gravou em parceria com Caetano Veloso em 2008 só com músicas do repertório do grande Tom Jobim, Roberto Carlos e Caetano Veloso e a Música de Tom Jobim.

É Proibido Fumar, Quero Que Vá Tudo Pro Inferno, Rosita, Noite de Terror, Por Isso Estou Aqui, Não Vou Ficar, Todos Estão Surdos, Além do Horizonte, Amor Sem Limites… Acho que ficaria horas citando músicas do repertório do Rei de que gosto, e isso mostra o tamanho da obra desse cara. Parabéns pelos 80 anos, de um de seus milhões de amigos!

Amada Amante– Roberto Carlos:

Eumir Deodato e eu, em 1992, falando sobre Kool & The Gang

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Por Fabian Chacur

Existem profissionais que possuem currículos imensos, e o músico, arranjador. compositor e produtor carioca Eumir Deodato certamente é um deles. Trabalhou com Frank Sinatra, Tom Jobim, Aretha Franklin, Roberta Flack e inúmeros outros, além de desenvolver uma carreira-solo de muito sucesso. No entanto, quando tive a honra de entrevistá-lo, em São Paulo, para o Diário Popular, no dia 14 de julho de 1992, eu só conseguia pensar em um item dessa trajetória brilhante: ele tinha sido o produtor do grupo americano Kool & The Gang de 1979 a 1982.

Conheci o trabalho do Kool & The Gang de forma pitoresca. Sua música intitulada Kool & The Gang, de 1970, era utilizada pela TV Bandeirantes, no Brasil, nos comerciais e na hora da exibição da série americana Jeannie é um Gênio.

Começava ali uma relação de pura paixão, que culminou quando comprei, ao completar 18 anos de idade, o maravilhoso álbum Ladies Night (1979), um dos meus discos favoritos de todos os tempos. E o produtor desse trabalho é ninguém menos do que Eumir Deodato. Logo…

Radicado nos EUA desde 1967, Deodato voltava ao Brasil para o seu primeiro concerto no país desde então. A ocasião era mais do que nobre: participar do Projeto Memória Brasileira-Série Arranjadores, em apresentação que homenagearia o grande Lyrio Panicali (1906-1984) e também outra fera do mesmo calibre, Léo Peracchi (1911-1993), que não esteve no show por recomendações médicas e nos deixaria meses depois.

Além do meu entrevistado, também participaram do evento, realizado no dia 16 de julho de 1992 no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, a Orquestra Experimental de Repertório (regida por Jamil Maluf e Luis Gustavo Petri), alguns integrantes da Banda Savana e os craques Alex Malheiros (baixo), Victor Biglione (guitarra) e Pascoal Meirelles (bateria).

Bastante simpático e de temperamento forte,Deodato me falou sobre o projeto. Depois de conseguir as informações que precisava sobre o tema principal de nosso papo, respirei fundo e comecei a fazer perguntas sobre a sua parceria de quatro anos com o Kool & The Gang. Para minha felicidade, ele não se opôs a falar sobre o tema, e me passou algumas informações muito bacanas.

Ao iniciar o seu trabalho com a banda americana criada pelos talentosos irmãos Ronald “Khalis Bayyan” (leia mais sobre ele e a banda aqui) e Robert “Kool” Bell, sua primeira sugestão foi que eles escalassem um vocalista principal, e foi nessa brecha que entrou no time o cantor James J.T. Taylor.

Segundo Deodato, ele atuava na parte técnica das gravações e também em termos de arranjos, tendo criado algumas introduções e ganchos importantes das músicas deles naquele período, incluindo Ladies Night e várias outras. Ele também tocou teclados em algumas das faixas.

Ele assinou a produção dos álbuns Ladies Night (1979), Celebrate! (1980), Something Special (1981) e As One (1982), todos com ótimas vendagens e geradores de uma série de hits. O fim da parceria entre eles foi sem dramas, se bem me lembro de sua resposta.

O mais divertido, digamos assim, ficou pela lembrança de que, alguns anos depois, ele chegou a negociar para produzir o que viria a ser o primeiro disco solo de J.T. Taylor. A razão pela qual o projeto não se concretizou, ele definiu em uma frase bem direta: “que cara mesquinho!”. A equipe da casa de shows Via Funchal, que iria trazer o ex-cantor do Kool & The Gang para shows por aqui há alguns anos, certamente concorda com a opinião de Deodato, pois o cara lhes deu um baile, cancelando quase que em cima da hora as apresentações.

Lógico que eu não perderia a chance de pedir um autógrafo a Eumir Deodato, e levei para esse fim seu primeiro álbum-solo internacional, o sublime Prelude (1973- CTI Records, saiu aqui em vinil na época pela Top Tape com capa dupla), que traz sua matadora releitura de Also Sprach Zarathustra, de Richard Strauss. Só que, na hora do “vamos ver”, a minha caneta Bic não “pegava” na capa. E aí?

Bem, resolvi da melhor forma possível: pedi o autógrafo na contracapa da pasta que trazia os releases do evento e sobre Deodato, e lá ele escreveu: “ao Fabian, com meus melhores votos de boa sorte etc…” Era o final daquele delicioso encontro com um dos músicos brasileiros mais conceituados no exterior.

Get Down On it (clipe)- Kool & The Gang:

Stevie Wonder celebra 70 anos como um dos gênios da música

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Por Fabian Chacur

A voz de Stevie Wonder entrou na minha vida com a música Yester-Me Yester-You Yesterday, que lá pelos idos de 1969-1970 tocava e muito nas rádios paulistanas. Era faixa de seu álbum My Cherie Amour (1969). A partir dali, fui aos poucos mergulhando no maravilhoso universo musical desse grande cantor, compositor e músico americano, que nesta quarta-feira (13) chegou aos 70 anos de vida, dando-nos de presente uma carreira brilhante e repleta de grandes momentos. Um autêntico gênio no setor musical.

Stevie é um daqueles caras que parecem talhados para o estrelato. Seu talento para a música foi descoberto quando ele ainda era criança. Não enxergar se mostrou um obstáculo que o cara soube superar com uma desenvoltura absolutamente absurda. Tanto que, em 1962, lançou seu primeiro álbum, The Jazz Soul Of Little Stevie, jovem aposta da gravadora Motown, que então começava a despontar no cenário americano.

Após gravar um álbum em homenagem a uma de suas inspirações, Ray Charles (Tribute To Uncle Ray-1962), Stevie surpreendeu a todos ao atingir o topo da parada pop americana com o álbum ao vivo Recorded Live: The 12 Old Genius (1963), sucesso impulsionado pelo galopante single Fingertips, que também ponteou os charts, no setor singles.

Em um período mais ou menos rápido, Wonder foi criando uma personalidade própria, com o apoio do mentor Clarence Paul e do presidente da Motown, Berry Gordy. O crítico e pesquisador musical Zeca Azevedo sempre se queixa do fato de a imprensa musical normalmente deixar um pouco de lado essa fase inicial da carreira do artista, e está repleto de razão, pois temos pencas de momentos bacanas nesses anos de aprendizado.

Não faltam músicas maravilhosas nesse período que vai até 1970. Só para citar algumas, vamos da já comentada Yester-Me Yester-You Yesterday e prosseguir com outras pepitas: I Was Made For Love Her, Uptight (Everything’s Alright), For Once In My Life, My Chérie Amour, Signed Sealed Delivered I’m Yours e Pretty World (versão em inglês de Sá Marina, de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar). Em 1970, Stevie já era um artista repleto de hits e discos bacanas.

Só que em 1971, ao completar 21 anos e atingir a maioridade, ele enfim teve acesso a todo o dinheiro que ganhou naqueles anos todos. Isso lhe deu a independência financeira para experimentar novos rumos musicais, e também para negociar um novo contrato com a Motown Records que lhe desse a liberdade artística que desejava, seguindo os passos do colega de gravadora Marvin Gaye. Gordy rateou, mas acabou dando o braço a torcer.

A parceria com os integrantes do inovador grupo Tonto’s Expanding Head Band, Robert Margouleff and Malcolm Cecil, abriu a ele um universo de novas possibilidade em termos de sons de teclados. Isso veio à tona no álbum Music Of My Mind (1972), que inclui a maravilhosa Superwoman (Where Were You When I Needed You), um de seus clássicos superlativos.

Até o fim dos anos 1970, Stevie Maravilha gravou alguns dos melhores discos de todos os tempos, os maravilhosos Talking Book (1972), Innervisions (1973) e Fulfillingness’ First Finale (1974). Em 1975, não lançou um novo LP, e Paul Simon brincou ao receber seu Grammy de melhor álbum do ano por Still Crazy After All These Years, pois Wonder havia faturado nos dois anos anteriores.

Em 1976, Wonder tirou a diferença com o álbum-duplo Songs In The Key Of Life, que no formato vinil trazia dois LPs e um compacto duplo adicional. O sucesso foi estrondoso, e foi inevitável o cidadão abocanhar mais um Grammy de melhor álbum do ano. Ali, já estava sacramentada a abrangência da música de Wonder, misturando soul, funk, jazz, música africana, latinidades, pop e muito mais.

Nesse período de quatro anos, Stevie Wonder nos proporcionou pérolas sonoras de raríssimo valor do porte de You Are The Sunshine Of My Life, Higher Ground, Superstition, Living For The City, All In Love Is Fair, You Haven’t Done Nothing, Sir Duke, As, I Wish, Boogie On Reggae Woman e muitas outras, entre hits e faixas ótimas “escondidas” nos álbuns.

Em 1979, lançou o ambicioso álbum duplo Stevie Wonder’s Journey Through “The Secret Life of Plants feito inicialmente para trilha de um documentário mas que ganhou vida própria. Se só trouxesse a encantadora e envolvente balada Send One Your Love já valeria o preço, mas tem muito mais, embora não tenha tido o mesmo sucesso comercial de seus trabalhos anteriores.

Hotter Than July (1980) o trouxe com mais força aos charts, trazendo clássicos de seu repertório como o envolvente reggae Master Blaster (Jammin’), uma bela homenagem a Bob Marley, e a fantástica Happy Birthday, tributo ao grande Martin Luther King que virou hino de sua bela campanha para que a data de nascimento desse grande ativista virasse um feriado nacional nos EUA, o que acabou se concretizando.

Em 1982, mais dois itens bacanas em sua trajetória: ele lançou a coletânea dupla Stevie Wonder’s Original Musiquarium I, com 12 hits da fase 1972-1980 e quatro petardos inéditos: That Girl, Do I Do (com participação especial do ícone do jazz Dizzy Gillespie), Front Line e Ribbon In The Sky. De quebra, ainda gravou dois duetos com Paul McCartney incluídos no álbum Tug Of War, do ex-beatle: Ebony And Ivory e What’s That You’re Doing, ambas ótimas.

Até o fim dos anos 1980, lançou os hits Part-Time Lover, Overjoyed e I Just Call To Say I Love You e participou com destaque de We Are The World, do projeto beneficente USA For Africa. Characters (1987) não vendeu tanto, mas traz a energética Skeletons e um dueto com Michael Jackson, Get It.

Após a ótima trilha para o filme Jungle Fever (1991), de Spike Lee, os lançamentos inéditos de Stevie Wonder passaram a ser bem mais esparsos. Na verdade, nos últimos 29 anos, foram só dois novos álbuns de estúdio com faixas inéditas: Conversation Peace (1995) e A Time For Love (2005).

Ele continuou fazendo shows e participando de discos de outros artistas, entre os quais Sting, Luciano Pavarotti, Babyface, Herbie Hancock, The Dixie Humminbirds, Elton John, Gloria Estefan e inúmeros outros. Também lançou um esplêndido DVD gravado ao vivo, Live At Last- A Wonder Summer’s Night (2009), gravado ao vivo na imensa O2 Arena, em Londres com altíssima qualidade técnica e na qual ele dá uma bela geral em seu fantástico songbook se mostrando em plena forma.

O astro vendeu mais de 100 milhões de discos nesses anos todos, além de influenciar inúmeros outros artistas. Ele faturou 25 troféus Grammy e também um Grammy pelo conjunto de sua carreira, além de ser o único a ganhar o laurel de melhor álbum do ano com três lançamentos consecutivos. Seus shows no Brasil em 1971 (gravado pela TV Record e exibido por essa emissora) e em 1995 foram marcantes, com grande repercussão de público e crítica.

Com essa trajetória maravilhosa humildemente resumida aqui, Stevie Wonder nos mostrou como um ser humano pode atingir o ponto alto de seu potencial artístico ao superar limitações e desenvolver com rara habilidade canções capazes de cativar as mais distintas gerações. Gênio!

Yester-me Yester-you Yesterday– Stevie Wonder:

Moraes Moreira, o criador de um inesquecível bloco do prazer

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Por Fabian Chacur

Moraes Moreira é festa. Moraes Moreira é amor. Moraes Moreira é mistura fina. Moraes Moreira é um eterno novo baiano. Moraes Moreira é inesquecível. Esse grande cantor, compositor e músico baiano nos deixou nesta segunda-feira (13) vítima de um enfarto agudo do miocárdio sofrido em seu apartamento no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro. Ele tinha 72 anos, e deixa um legado marcante para os fãs de música. Uma verdadeira mancha de dendê que nunca sairá de nossos ouvidos, de nossas mentes, de nossas almas.

Este que é um dos grandes nomes da história da nossa música nasceu em Ituaçu, Bahia, em 8 de julho de 1947, e mostrou amor pela música desde criança. Aos 19 anos de idade, mudou-se para Salvador para estudar e por lá conheceu Tom Zé, Luiz Galvão e Paulinho Boca de Cantor. Foi com esses dois últimos que ele montou um grupo que começou a ser conhecido na cena local e logo nacionalmente em 1969, Novos Baianos.

Pouco depois acrescidos de Baby Consuelo e Pepeu Gomes, esse time inicialmente se concentrou no velho e bom rock and roll, com um certo sotaque brasileiro. Já morando no Rio de forma comunitária, eles receberam a visita de João Gilberto, e a influência do músico se mostrou evidente no antológico álbum Acabou Chorare (1972). Nele, fortes elementos da música brasileira se uniram com mais força ao rock, gerando dessa forma uma sonoridade ao mesmo tempo moderna e reverente na medida certa ao que já havia sido feito de bom no passado por outros mestres.

No grupo, Moraes sempre foi o mais ligado ao samba, frevo e outros ritmos tipicamente brasileiros, com sua voz swingada e seu violão deliciosamente dedilhado com rara categoria. Suas parcerias com o poeta Luiz Galvão e também com Pepeu Gomes geraram alguns dos maiores clássicos dos Novos Baianos, entre os quais Preta Pretinha, cantada por ele e um sucesso colossal.

Em 1975, Moraes sentiu que era hora de seguir seu próprio caminho, e deixou o grupo para investir em uma carreira-solo. Após o sucesso de uma boa releitura de Se Você Pensa (de Roberto e Erasmo Carlos), que entrou na trilha da novela global Pecado Capital, ele varreu o país todo com o estouro de Pombo Correio. Essa música ajudou a atrair a atenção do público jovem para os maravilhosos trios elétricos, como o dos pioneiros Dodô e Osmar.

Nos anos 1980, Moraes não só se consolidou como um artista de muito sucesso como também teve suas composições gravadas com muito êxito por grandes nomes da MPB, com destaque para Gal Costa, que invadiu as paradas de sucesso com duas dessas composições, as contagiantes Festa do Interior e Bloco do Prazer. Sua romântica Sintonia ganhou as rádios de todo o país lá pelos idos de 1986.

Em 1990, lançou um belo álbum em dupla com o parceiro Pepeu Gomes, Moraes e Pepeu, que emplacou o megahit A Lua e O Mar. A dobradinha renderia mais um álbum, Moraes e Pepeu Ao Vivo no Japão (1994), e seria uma espécie de prévia do sonhado retorno dos Novos Baianos, que ocorreria em 1997 com direito a um álbum duplo gravado ao vivo, Infinito Circular, e uma turnê de sucesso. O grupo voltaria a se reunir em outras ocasiões, sempre com grande repercussão.

Tive a oportunidade de entrevistar Moraes e também os Novos Baianos algumas vezes, e sua lucidez sempre se mostrava presente. Ele soube transmitir essa sabedoria para seu filho Davi Moraes, que iniciou a carreira tocando com o pai e depois soube enveredar por um trabalho próprio e também ao lado de grandes artistas como Maria Rita, Ivete Sangalo, Vanessa da Mata, Caetano Veloso e Marisa Monte, entre outros.

Bastante ativo, Moraes há pouco publicou em suas redes sociais um belo cordel (em sua própria definição) intitulado Quarentena, no qual comentava as incertezas de nossos dias atuais. Uma bela despedida para um artista que nos deixou grandes lições de brasilidade, musicalidade e poesia.

Pombo Correio– Moraes Moreira:

Michael Hutchence, o INXS e suas três diferentes visitas ao Brasil

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Por Fabian Chacur

Michael Hutchence teria completado 60 anos de idade no dia 22 (quarta-feira). Infelizmente, o cantor e compositor australiano não chegou nem perto disso, pois nos deixou aos 37 anos em 1997, tirando sua própria vida em um quarto de hotel na cidade de Sidney, na antevéspera do início da turnê que divulgaria Elegantly Wasted, o então mais recente álbum de sua banda, a INXS. Resta aos fãs curtir suas lembranças. No caso dos brasileiros, as três passagens do sexteto por aqui durante seus 20 anos de carreira.

O grupo, que iniciou sua carreira em 1977 e lançou o primeiro álbum em 1980, não se tornou conhecido internacionalmente do dia para a noite. Após dois álbuns inicialmente lançados apenas na Austrália, eles chegaram ao mercado internacional com Shabooh Shoobah (1983). The Swing (1984), o álbum seguinte, trouxe como destaque Original Sin, produzida por Nile Rodgers.

Foi lá pelos idos do lançamento de Listen Like Thieves (1985), um belo passo do grupo rumo ao estrelato, que o INXS esteve no Brasil pela primeira vez. Foi uma discreta viagem promocional, durante a qual o grupo concedeu entrevistas e fez ações promocionais. Da próxima vez, a coisa seria bem diferente.

Michael Hutchence e seus colegas tocaram pela primeira vez em nosso país como uma das atrações principais da segunda edição do Rock in Rio. Foi no dia 19 de janeiro de 1991. Na verdade, eles entraram em cena já na madrugada do dia 20, mas de forma apoteótica, tocando a impactante Suicide Blonde.

Eles estavam no início da turnê de divulgação do álbum X (1990), que tinha a difícil tarefa de suceder o trabalho que os catapultou rumo à primeira divisão do rock mundial, o excelente Kick (1987), e provaram sua grande capacidade ao vivo, com direito ao carisma de Hutchence e o pique dos músicos. Um dos melhores grupos para animar festinhas de todos os tempos.

A consagradora tour mundial que passou pelo Brasil gerou um belo álbum ao vivo, Live Baby Live, lançado em novembro daquele mesmo ano de 1991 e com faixas gravadas em diversos países, incluindo uma por aqui.

Entre essa performance consagradora, uma das melhores daquele festival repleto de grandes nomes (Prince, George Michael, Santana etc) e a próxima visita da banda ao Brasil, muita coisa mudaria na vida de Michael Hutchence, e infelizmente não para melhor. Tudo começou com um violento acidente ocorrido em agosto de 1992.

Hutchence estava em Copenhague, Dinamarca, com a modelo internacional Helena Christensen, com quem namorou entre 1991 e 1994. Eles estavam saindo de um taxi, o taxista se enfezou com o roqueiro e enfiou um soco em seu rosto. O cantor caiu de costas no chão, batendo a parte de trás de sua cabeça.

O cantor foi negligente em termos de se cuidar, e passou um mês no apartamento da namorada, vomitando, alimentando-se mal e se comportando de forma inconveniente. Só após esse período o casal resolveu procurar um especialista em Paris, e naquele momento ficou clara a gravidade do seu estado de saúde. Ele perdeu para sempre os sentidos de paladar e olfato, além de outras contusões que o afetaram de forma intensa.

O acidente certamente explica o porque o INXS não saiu em turnê para divulgar o álbum que havia lançado na mesma época, agosto de 1992, Welcome To Wherever You Are, algo até então inédito na trajetória da banda. A justificativa divulgada então referia-se ao desejo de o grupo dar uma descansada para, logo a seguir, começar a preparar um novo trabalho, que seria lançado em 1993 com o título Full Moon, Dirty Hearts.

Embora interessantes e com momentos muito bons, os dois álbuns fizeram bem menos sucesso do que os anteriores, especialmente nos EUA. É nesse contexto que eles voltam ao Brasil em 1994, para shows no Rio de Janeiro (estádio da Gávea) no dia 10 de março, em São Paulo (estacionamento do Anhembi) no dia 11 de março e 12 de março em Curitiba (Pedreira Paulo Leminski).

Com abertura da banda americana Soul Asylum, o show em São Paulo reuniu por volta de metade da capacidade do espaço, fato possivelmente motivado pelo tempo chuvoso. Hutchence aparentava muito menos energia do que na performance anterior, mas mesmo assim conseguiu comandar um show profissional e competente, com direito aos hits e a canções boas da safra recente como Heaven Sent e Please (You Got That…), esta última gravada no álbum Full Moon Dirty Hearts com a participação especialíssima de Ray Charles.

Dali em diante, Michael Hutchence passou a frequentar mais as páginas da imprensa sensacionalista do que as musicais. Ele, que namorou famosas como a cantora Kylie Minogue, deixou a modelo Helena Christensen para se envolver em um romance controverso com a apresentadora de TV e escritora Paula Yates, que desde 1976 estava comprometida com o cantor Bob Geldof, do grupo Boontown Rats e criador do Live Aid.

Dizem os boatos (possivelmente verdadeiros) da época que Yates estava interessada em Hutchence desde que o entrevistou para um programa de TV britânico em 1985. Em 1994, em outra entrevista, o fogo aparentemente acendeu de vez, e a consequência foi não só o fim de um casamento de quase trinta anos como também o nascimento em 22 de julho de 1996 de Tiger Lily, primeira e única filha do casal.

Envolto com os problemas de saúde e o consumo cada vez mais alto de drogas e barbitúricos, além da distância da filha, Hutchence ainda mostrou disposição para o trabalho, pois, paralelamente ao início das gravações de um disco solo, ainda gravou um último álbum com o INXS, o mediano Elegantly Wasted.

O disco-solo estava sendo feito por Hutchence em parceria com Andy Gill, guitarrista da banda britânica Gang Of Four e coautor de boa parte das músicas. Como forma de homenagear o amigo, o músico arregaçou as mangas e conseguiu finalizar as gravações, contando com a participação de Bono na faixa Slide Away. O resultado é o álbum intitulado Michael Hutchence, lançado em 1999 e digno da bela trajetória do astro australiano.

Conhecido por ter trabalhado durante muito tempo com a banda e ser o diretor de clipes de hit singles como Need You Tonight, Never Tear Us Apart e Suicide Blonde, o diretor australiano Richard Lowenstein lançou em 2019 o documentário Mistify Michael Hutchence.

Ele se valeu de raros registros da banda e do cantor (incluindo alguns com Kylie Minogue e Helena Christensen) para ilustrar depoimentos em áudio de integrantes do INXS e de outros nomes importantes na trajetória do astro do rock. Um dos destaques fica por conta dos detalhes do acidente de agosto de 1992 e sobre as terríveis consequências com as quais Hutchence teve de conviver em seus anos finais de vida.

Sem seu principal integrante, o INXS tentou seguir adiante, com substitutos que não deram conta do recado, incluindo um selecionado em um reality show televisivo. Em 2012, resolveram sair de cena, e um retorno parece improvável, embora não impossível. Com Jon Stevens no vocal, o grupo voltou a se apresentar no Brasil em 2002, com shows dia 15 de maio no ATL Hall, no Rio de Janeiro, e 17 de maio em São Paulo, na Via Funchal.

Se não revolucionou o mundo da música, Michael Hutchence e sua banda certamente criaram uma obra dançante e pra cima, com direito a boas baladas no meio e repleta de momentos bacanas que merecem ser reverenciados pelos fãs de pop rock consistente e com personalidade forte.

Veja o trailer de Mistify Michael Hutchence:

Tom Jobim, um maestro soberano e um ser humano como todos nós

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Por Fabian Chacur

Imagino o orgulho de quem teve a honra de entrevistar mitos do mundo da música como Elis Regina, Adoniran Barbosa, Ary Barroso, John Lennon e David Bowie, por exemplo. Esses infelizmente não fazem parte do meu currículo. Mas não posso reclamar, pois Paul McCartney, James Taylor, Cazuza, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luciano Pavarotti e Gonzaguinha estão nele. E um certo Tom Jobim, também.

Tom, que nos deixou há 25 anos, mais precisamente no dia 8 de dezembro de 1994, aos 67 anos, é um dos nomes mais importantes da história da nossa cultura popular. Conhecido e venerado nos quatro cantos do mundo, poderia ter sido um cara arrogante e difícil, pois tinha currículo para justificar isso. No entanto, primava pela simplicidade, bom humor e gentileza, tendo deixado belas recordações para quem teve a oportunidade de conviver com ele.

Descobri por conta própria essas características em um dia lá pelos idos de 1988. O Maestro Soberano iria fazer um show ao ar livre no Parque do Ibirapuera ou outro local do gênero no fim daquela semana, e meu editor na época no hoje extinto Diario Popular, de São Paulo, pediu para que eu tentasse entrevistá-lo. O artista estava hospedado no hotel Maksoud Plaza, e resolvi arriscar.

Ao ligar, pedi à telefonista do hotel que me transferisse para o quarto de Tom Jobim. Normalmente isso não costuma ocorrer de forma imediata quando você procura alguém ilustre, mas me dei bem aqui. E quem me atendeu foi o próprio. “Oi, Tom, aqui é o Fabian, do Diario Popular. Gostaria de fazer uma entrevista com você por telefone sobre o show de domingo, seria possível?”.

“Oi, Fabian, bom dia. Olha, agora (liguei para ele por volta das 11 horas da manhã) eu não tenho como te atender. Será que você poderia me ligar de novo por volta das 14h? Aí eu certamente estarei disponível para conversar com você”. Concordei sem mais rodeios e coloquei o fone no gancho, crente de que, no horário combinado, ele certamente não estaria, ou alguém me daria algum tipo de desculpa e ficaria por isso mesmo.

A minha expectativa negativa não era em razão de pessimismo. É que, normalmente, esse tipo de entrevista só costuma ocorrer quando um assessor de imprensa entra em cena, e é esse profissional quem oferece ao jornalista uma oportunidade como essa. Difícil você conseguir direto com o artista, no caso de alguém com o porte de um Tom Jobim. Ainda mais para um jornal como o Diario, que não tinha (injustamente, por sinal) o respeito dado a concorrentes na época como a Folha, o Estadão, o Globo, Jornal da Tarde e Jornal do Brasil.

Preparado para a missão, mas cético sobre se a mesma seria concretizada, liguei na hora combinada. E não é que Tom me atendeu? Mais: ainda me pediu desculpas por não ter me atendido na tentativa anterior! Aí, iniciei o papo, delicioso por sinal, que durou uma meia hora, mais ou menos.

De tudo o que perguntei, lembro basicamente da resposta que ele me deu ao questioná-lo sobre os direitos autorais que tinha ganho no exterior com Garota de Ipanema e tantos outros sucessos marcantes. Ele me explicou que os valores eram muito menores do que as pessoas imaginavam, e justificou: “Fabian, na época eu era jovem, a gente não lia aquelas letrinhas miúdas dos contratos…”

Reencontrei esse gênio da música no finalzinho de 1989 ou no começo de 1990, não sei precisar exatamente a data, quando Tom foi nomeado o primeiro reitor e presidente de conselho da então Universidade Livre de Música, criada pelo na ocasião governador do estado de São Paulo Orestes Quercia.

Era uma entrevista coletiva, realizada no mesmo Maksoud Plaza, hotel situado próximo à avenida Paulista e um dos mais badalados naquele período. Aí, foi pessoalmente, e aquela simpatia do primeiro encontro se mostrou ainda mais forte, além do carisma e inteligência desse ilustre entrevistado.

A principal marca daquele segundo (e, infelizmente, último) encontro com o autor de Wave ficou em sua parte final. Estava fazendo aquela matéria junto com a fotógrafa Patricia Gatto (o site dela está aqui), uma fã assumida do nosso entrevistado. No final, ela me pediu para que eu tirasse uma foto dela com Tom.

Fotógrafo amador, no máximo, resolvi encarar o desafio pela amizade com ela, uma excelente profissional e muito simpática. Para ser sincero, não me lembro se o resultado prestou, mas fiz o possível. E vacilei feio, também, por não ter pedido um autógrafo ao Tom. Marquei uma bobeira clássica!

Vale lembrar que meu primeiro contato com a música de Tom Jobim ocorreu de forma curiosa, quando tinha 10 anos de idade e meu irmão comprou um exemplar do Disco de Bolso, projeto pioneiro do Pasquim que trazia, como brinde, um compacto simples de vinil com duas músicas.

No lado A, a primeira versão de Águas de Março, em andamento bem mais rápido do que o de gravações posteriores. Do lado B, a intensa Agnus Sei, de um cantor, compositor e violonista mineiro ainda desconhecido, de nome João Bosco.

Gostava tanto daquele compacto que, alguns meses depois, quando nossa professora de português do ginásio pediu a cada aluno escolher uma música para tocar na classe durante uma aula, não vacilei em escolher Águas de Março.

Os coleguinhas não curtiram tanto quanto eu ouvir esse hoje clássico da música brasileira, mas eu amei, e nunca poderia imaginar que, quase 20 anos depois, teria esses contatos bacanas com seu autor.

Águas de Março– Tom Jobim e Agnus Sei– João Bosco:

Bira, o músico gente boa que ia até em ensaio de banda obscura

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Por Fabian Chacur

Em 1984, eu integrava uma obscura banda de rock de nome Reflexo. Naquele período específico, éramos um quarteto e ensaiávamos em uma garagem do baterista, o glorioso Paulo “Prefeito” (que herdou o apelido do irmão, mas isso não vem ao caso aqui), em uma rua no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, próximo ao Parque do Ibirapuera. Um dia, para nossa surpresa, recebemos a visita de um vizinho ilustre, que morava ali pertinho.

Era o Bira, baixista que, então, integrava a orquestra do SBT, participando dos programas da emissora, em especial o de Silvio Santos. Extremamente simpático, ele bateu um gostoso papo conosco, falando de suas experiências no mundo da música e também de um músico amigo dele que inventava os acordes que tocava, nomeando-os como “fu” ou coisa que o valha. Foi marcante.

Anos depois, quando aquele soteropolitano simpático de meia idade já era conhecido nacionalmente como integrante da banda do programa de Jô Soares, tive a oportunidade de encontrá-lo novamente, já nos anos 1990, e rapidamente o cumprimentei e o lembrei dessa passagem entre nós. Mesmo com toda a fama que a aparição constante na telinha hipnótica lhe deu, ele se mostrava o mesmo, para minha felicidade.

E é com muita tristeza que neste domingo (22), Ubirajara Penacho dos Reis se foi, aos 85 anos, dois dias após ter sido internado com um AVC. O músico deixa quatro filhos e três netos, e uma legião de fãs pelo Brasil afora, conquistados por seu riso largo e imensa simpatia estampada em seu rosto.

Bira nasceu em Salvador em 5 de setembro de 1934. A música entrou quase por acaso em sua vida, pois ele pensava em ser médico, desejo que se encerrou após ter presenciado uma autópsia pela primeira vez. Não teve segunda… Depois, trabalhou como representante de um laboratório. Sua primeira atuação como músico foi tocando bongô. Depois, como cantor em um coral, época em que conheceu Tom Zé, ainda em Salvador.

Ele trabalhou com diversos artistas, entre eles Wilson Simonal, com quem tocou durante um ano e sete meses. Mas acabou se firmando como músico de TV, inicialmente na célebre banda do maestro Zezinho, dos programas de Silvio Santos, incluindo o célebre Qual é a Música?, um grande sucesso.

Mas foi já cinquentão, em 1988, que viu sua carreira ganhar um impulso imenso ao ser convidado para integrar a banda do talk show que Jô Soares faria no SBT, emissora para a qual se mudou após muito tempo na Globo. Logo em sua primeira aparição no Jô Soares Onze e Meia, no terceiro episódio da atração, teve uma interação com o humorista Agildo Ribeiro, que já havia trabalhado com ele e reconheceu sua risada inconfundível.

“Jô, eu já trabalhei com o Bira, ele vai te ajudar muito nesse programa”, eis o conselho que um gênio do humor deu ao outro. Conselho aceito, o baixista ficou com Jô durante quase 30 anos, no SBT e posteriormente na Globo, para onde o programa migrou, rebatizado com o nome Programa do Jô.

Ao lado de músicos talentosos como Derico Sciotti e Osmar Barutti, Bira ficou marcado por sua simpatia e a risada escancarada que dá para associar àquela venerada por uma encantadora música de seu conterrâneo Caetano Veloso, Irene (“quero ver Irene rir, quero ver Irene dar sua risada”). De quebra, volta e meia ele dava depoimentos que mostravam seu grande conhecimento musical.

Bira gravou dois discos com o grupo do programa televisivo, Quinteto Onze e Meia (1992) e Jô Soares e o Sexteto- Ao Vivo No Tom Brasil (2000), e fez alguns shows com o grupo fora do ambiente televisivo, sempre com boa repercussão.

O fim do Programa do Jô, em 2016, também marcou o encerramento dessa parceria de tanta qualidade. Em entrevista dada ao programa de Danilo Gentili, The Noite, em julho de 2018, Bira foi bem franco: “o fim do Programa do Jô foi equivalente a um soco no queixo, esse programa ajudou a mudar a minha vida, e sinto muito falta dele”. Em um ano pesado e muito difícil, não mais ouvir a risada do Bira equivale a um de seus pontos mais baixos. R.I.P., mestre!

Veja entrevista do Bira ao The Noite em julho de 2018:

Marie Fredriksson, do Roxette, a cantora que não gostava de tédio

Por Fabian Chacur

Swedish pop duo Roxette and their June 2001 album, Room Service.

Swedish pop duo Roxette and their June 2001 album, Room Service.

Don’t Bore Us- Get To The Chorus! (não nos entedie, vá direto ao refrão!, em tradução livre) é o título da primeira coletânea de hits do grupo sueco Roxette, lançada em 1995, e serve como uma boa definição da música que este bem-sucedido e talentoso duo fez durante sua carreira. Infelizmente, essa trajetória está encerrada, pois sua vocalista, Marie Fredriksson, nos deixou nesta segunda-feira (9), aos 61 anos, após ter lutado de forma corajosa durante quase 20 anos contra um câncer.

Nascida em 30 de maio de 1958, Marie se formou em música e se envolveu na cena pop musical sueca. Após integrar grupos sem grande repercussão, ela resolveu iniciar uma carreira-solo e teve o apoio de um amigo, o cantor, compositor e guitarrista Per Gessle, integrante da bem-sucedida banda de rock Gyllene Tider. Eles gravavam seus discos em sueco e cresciam em termos locais.

No entanto, o talento dos dois indicava possibilidades de uma carreira internacional, e o primeiro passo foi pegar uma música do guitarrista, vertê-la para o inglês e gravá-la em duo com Marie. O resultado, Neverending Love, foi a semente que gerou o surgimento do duo, batizado de Roxette, cujo primeiro álbum, Pearls Of Passion, saiu em 1986, sem atingir os objetivos desejados.

Sem desanimar, eles prosseguiram investindo no projeto. Nesse meio-tempo, Marie fez uma mudança radical no visual, cortando os longos cabelos e adotando um estiloso corte curtinho que virou sua marca registrada. Em 1988, veio o segundo álbum, Look Sharp!, que parecia se encaminhar para o mesmo destino do anterior. Só que não! O single The Look estourou de forma inesperada nos EUA em 1989, atingindo o número 1 na parada de lá.

Era o início de uma invasão no principal mercado musical mundial, que se espalhou pelos quatro cantos do mundo. Do mesmo álbum, Listen To Your Heart repetiu a performance de The Look, enquanto Dangerous atingiu o segundo posto. Em 1990, como parte da trilha sonora do filme Pretty Woman (Uma Linda Mulher), estrelado por Julia Roberts e Richard Gere, It Must Have Been Love também virou nº 1 nos EUA.

A fórmula azeitada era simples, mas muito bem executada: um misto de rocks com pegada dançante e power ballads compostas por Per e interpretadas com muita personalidade e categoria por Marie. De quebra, os clipes sempre bem elaborados e os shows calorosos e de um profissionalismo impecável, além da simpatia dos dois, tornou o Roxette um fenômeno de vendas e popularidade.

Joyride (1991) manteve os amigos nos charts, com sua festiva faixa-título sendo seu 4º número um no formato single e a balada Fading Like a Flower (Every Time You Leave) chegando ao 2º lugar. Era o auge do Roxette no mercado americano.

A partir daí, o sucesso do duo na terra de Barack Obama teria uma grande redução, mas isso não ocorreria no resto do mundo, onde os dois amigos permaneceram populares e requisitados.

Em 1995, sai a primeira coletânea de hits do grupo, Don’t Bore Us- Get To The Chorus!- Roxette’s Greatest Hits, incluindo 12 hits e quatro inéditas, entre as quais uma que estourou por aqui, a deliciosamente sessentista June Afternoon, com direito a um icônico clipe revivalista.

As coisas começaram a se complicar para o Roxette a partir do lançamento do álbum Room Service (2001). Pouco tempo depois, Marie foi diagnosticada com um tumor cerebral. Mesmo com essa séria dificuldade a ser enfrentada, a cantora não se entregou, lançando em 2004 seu primeiro disco solo em inglês, The Change, e voltando a se dedicar ao Roxette a partir do lançamento do álbum Charm School (2011).

O último álbum do Roxette, Good Karma, saiu em 2016, e nesse mesmo período a cantora anunciou que não faria mais turnês. Ela ainda lançou três singles solo entre 2017 e 2018. Foram oito discos solo (sete deles em sueco) e dez álbuns de estúdio com o Roxette.

Com grande sucesso no Brasil, Marie Fredriksson e Per Gessle fizeram sua primeira turnê por aqui em 1992, e tive a honra de participar da coletiva de imprensa concedida por eles em São Paulo, quando consegui o autógrafo do duo na capa da minha edição em vinil do álbum Joyride e ainda troquei umas palavras adicionais com o Per após a coletiva, na qual ele me falou sobre sua paixão pela marca Rickenbacker de guitarras e pelo som de Tom Petty e Jackson Browne.

O show em São Paulo, realizado no estacionamento do Parque Anhembi, foi simplesmente impecável, com gente pelo ladrão. Em 1995, eles voltaram, e estive de novo na entrevista coletiva. O duo voltou a tocar por aqui em 1999 e 2011, sempre atraindo um público significativo.

A simpática e talentosa guerreira Marie nos deixou de forma prematura, mas fica a certeza de que soube aproveitar bem essa sua passagem por essa coisa chamada vida. C’mon join the joyride!

June Afternoon (clipe)- Roxette:

Raul Seixas dentro do caixão na capa do extinto Diario Popular

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Por Fabian Chacur

Naquele 21 de agosto de 1989, estava me preparando para ir embora para casa, por volta das 17h, depois de um dia de trabalho puxado. Quando já me direcionava para abrir a porta da recepção do Diário Popular, a recepcionista me chamou para atender o telefone. Era o Danilo Angrimani, meu editor na época. “Fabian, preciso de você, o Raul Seixas morreu; estou mandando o Carlos Macena no velório, enquanto você escreve uma biografia dele”.

Mal refeito do susto, em função da morte de um dos meus ídolos na área musical, toca eu subir de novo para o quinto andar, onde ficava a redação do Dipo, pesquisar e redigir, ainda em máquina de escrever, um resumo da carreira desse artista maravilhoso que não soube cuidar direito de sua saúde, deixando-nos com apenas 44 anos de idade.

Três meses antes, eu havia tido a primeira e única oportunidade de entrevistá-lo, em coletiva realizada no escritório da Warner em São Paulo que começou com mais de três horas de atraso e na qual ele veio de pijama de bolinhas. Ao saber da origem do meu nome, até cantou para mim um trecho de Turn To Loose, grande hit do cantor americano Fabian lá pelos idos de 1960.

Estavam por lá ele e Marcelo Nova, com quem havia acabado de gravar o álbum A Panela do Diabo, que só sairia mais tarde, e com quem ele faria shows naquele final de semana de 1989. Nunca vou me esquecer do momento em que citaram nomes de sucesso do rock Brasil de então. “Lulu Santos não dá pra encarar”, disparou, referindo-se ao autor de Como Uma Onda.

Vi o primeiro dos três shows que ele fez no hoje extinto Olympia com Marcelo Nova, e cravei na crítica, que foi publicada no dia em que o terceiro seria realizado: “não perca, pois pode ser o último”. Escrevi isso por ter ficado chocado com o estado de saúde do cara, e infelizmente, acertei.

Outra lembrança é de ter visto na mesma época, junto com um fotógrafo com o qual estava trabalhando, na região da avenida Paulista, o mesmo Raul Seixas, novamente de pijamas, provavelmente próximo do apartamento onde ele morava. Uma cena meio bizarra e inesquecível. Eu e meu colega ficamos constrangidos em abordá-lo.

Voltando ao episódio do obiturário, vale lembrar que cumpri a minha missão com toda a dignidade possível, embora estivesse chocado com aquela perda. Escrevi o texto e me mandei para casa, umas quatro horas depois do que pretendia.

No dia seguinte, pego o Diário e fico horrorizado: na capa do jornal, uma foto do Maluco Beleza dentro do caixão, grosseria que nem mesmo o frequentemente sem noção e grotesco Notícias Populares se permitiu. Comentei com o Danilo, que por sua vez foi comentar com o Jorge Miranda Jordão, então diretor de redação daquele extinto órgão de imprensa.

“Pô, Miranda, você pegou pesado, que foto de mau gosto!”. A resposta do Miranda, segundo o Danilo, foi antológica: “Como, mau gosto? Tinha de pôr essa foto, sim! Afinal de contas, as pessoas querem saber se o Maluco Beleza morreu ou não, e o único jeito de provar isso é mostrando ele dentro do caixão!”.

Meu editor, então, me disse o óbvio: “como iria discutir com esse doido?” E daí em diante, todo fotógrafo do Diário que saía para cobrir velório de famoso ia com essa missão fúnebre: a foto do famoso dentro do caixão. Argh!

Leia texto dando uma geral na carreira de Raul Seixas aqui.

Leia resenha do antológico álbum Krig-ha, Bandolo! aqui.

Ouça Krig-ha, Bandolo! de Raul Seixas, em streaming:

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