Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: Resenhas (page 1 of 48)

Jeff Beck celebra a sua bela carreira em show antológico

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Por Fabian Chacur

Nenhuma lista com os melhores guitarristas da história do rock estará completa se o nome de Jeff Beck não estiver nela. A habilidade do cidadão com esse icônico instrumento nas mãos é simplesmente assombrosa, como tive a oportunidade de conferir em show realizado por ele em São Paulo em maio de 2014 (leia a resenha aqui). O Canal Bis está com um show dele em sua programação ao vivo e em streaming, o espetacular Live At The Hollywood Bowl, e eu o recomendo com muito, mas muito entusiasmo mesmo.

O show realizado em 10 de agosto de 2016 no mitológico Hollywood Bowl, situado na região de Los Angeles, Califórnia (EUA), visava celebrar os mais de 50 anos de estrada deste brilhante músico britânico. Desta forma, o set list nos trouxe uma amostra das várias fases de sua trajetória, desde os tempos dos Yardbirds nos anos 1960 e chegando até seu então mais recente álbum, o ótimo Loud Hailer (2016), que ele gravou em parceria com as jovens e talentosas Carmen Vanderberg (guitarra) e Rosie Bones (vocal).

Acompanhado por uma banda compacta da qual Vanderberg e Rhonda Smith (baixista que tocou com Prince) se destacam, Beck teve alguns convidados especiais de primeiro escalão. O tecladista Jan Hammer, por exemplo, que gravou com ele um álbum ao vivo em 1977, foi um deles, brilhando na instrumental Freeway Jam. O grande mestre do blues Buddy Guy esbanjou seu imenso carisma e vozeirão em Let Me Love You.

Billy Gibbons, cantor e guitarrista do ZZ Top, nos proporcionou a deliciosa balada rock Rough Boy, enquanto Steven Tyler, do Aerosmith, tomou as rédeas vocais em belíssimas interpretações de dois clássicos do repertório de Jeff Beck, The Train Kept A-Rollin’ e Shapes Of Things. Rosie Bones marcou presença em músicas de Loud Hailer, entre as quais The Revolution Will Be Televised, e a ótima Beth Hart arrasou em uma versão inspiradíssima de Purple Rain, do Prince.

A qualidade do registro de vídeo nos permite em vários momentos conferir mais de perto a técnica como guitarrista de Beck, que desde os anos 1980 deixou as palhetas de lado e toca apenas se valendo dos dedos, indo desde solos com poucas e bem usadas notas até aqueles alucinantes que parecem impossíveis para os leigos. Sua releitura instrumental de A Day In The Life, dos Beatles, é de se ouvir ajoelhado, agradecendo pela graça recebida.

Live At The Hollywood Bowl foi lançado em DVD e CD duplo. O único problema de ver no Canal Bis em sua programação normal é que, por alguma razão bizarra, eles tem exibido por volta de metade das 21 músicas registradas no lançamento oficial, para não ultrapassar uma hora de duração. Qual seria a lógica de um canal a cabo fazer isso? Sabe Deus… Seja como for, este é um dos melhores registros de rock realizados ao vivo nesta década, uma bela amostra do que esse gênio da guitarra sabe fazer, e dos craques que consegue agregar ao seu lado.

The Train Kept A-Rollin’ (live)- Jeff Beck e Steven Tyler:

Zé Brasil esbanja categoria em seu novo EP, o estiloso 2020

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Por Fabian Chacur

Zé Brasil celebrou seus 70 anos de vida em março, em um dos últimos shows realizados em São Paulo antes da paralisação por causa da pandemia do novo coronavírus (leia mais sobre ele e o show aqui). Dando provas de que energia é o que não lhe falta, o roqueiro paulistano nos oferece um novo EP, 2020, lançado pelo selo Natural Records em parceria com a Tratore e já disponível nas plataformas digitais.

O trabalho traz para a era digital o formato do compacto duplo, disco de vinil do tamanho do compacto simples e que habitualmente nos oferecia quatro músicas. Aqui, o cantor, compositor e músico mantém esse padrão. Duas das músicas são parcerias com o jornalista Nico Queiroz, o ótimo rock básico com ecos de Creedence Clearwater Revival e Beatles de 1963 intitulado Povo Brasileiro e a quase psicodélica Beautiful People.

Festim do Fim, que Zé compôs sozinho, mescla a levada do reggae com vigorosos riffs de guitarra executados por Marcello Schevano. Aqui, como nas outras faixas, destaca-se o vocal sussurrado, quase declamado do artista, que sua parceira musical e de vida Silvia Helena harmoniza com um registro ao mesmo tempo delicado e potente, em uma combinação charmosa e envolvente.

O grande momento do EP é Desterrado no Cerrado, parceria de Zé com o lendário Rolando Castello Jr., da banda Patrulha do Espaço, que aqui também se incumbe (com maestria, como de praxe) da bateria. São quase seis minutos de uma balada hard, intensa, com bela presença dos músicos.

Aliás, além de Rolando, temos também participações de feras do calibre de André Christovam, Gerson Tatini, Tuca Camargo e o escocês Dylan Webster. 2020 é rock brazuca de primeira linha, para conhecedores e não conhecedores, com letras certeiras que equivalem a um jato de esperança em um dos anos mais difíceis vividos pela humanidade em tempos recentes.

Desterrado no Cerrado– Zé Brasil:

Elton John (1970), quando Reg Dwight começa a virar um astro

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Por Fabian Chacur

Escolher um entre os aproximadamente 40 álbuns de estúdio que Elton John gravou e nomeá-lo o mais importante de todos é uma tarefa um tanto complicada. Mas pode ser mais simples se levarmos em conta um critério determinante: aquele trabalho que significou a ascensão de um até então completo desconhecido cantor, compositor e músico britânico para o primeiro time da música pop. Se esse for o parâmetro, aí fica fácil. O álbum a ser selecionado, ironicamente, é o único que ele lançou que só leva seu nome artístico, Elton John, como título.

Como grande atrativo inicial, o disco traz Your Song, primeira canção do astro britânico a atingir o top 10 nos EUA e no Reino Unido, chegando mais especificamente ao oitavo posto na terra de Elvis Presley e ao sétimo em seu próprio rincão. Essa doce, emotiva e claramente ingênua balada tornou-se o seu cartão de visitas, aquela canção que Elton não consegue excluir de seu set list sem desagradar e muito seu imenso público.

Esse encantador álbum não conseguiu tal feito por acaso. Uma série de fatores possibilitou que tal disco permitisse ao seu autor ombrear com os grandes nomes da música pop. Até chegar a ele, esse artista genial teve de pagar seus tributos, digamos assim, e não foram poucos. Não faria sentido contar a história deste trabalho sem oferecer ao leitor um resumo do que ocorreu antes de seu surgimento, e é isso que começaremos logo a seguir.

Formação erudita, bares, hoteis e Bluesology

Reginald Kenneth Dwight nasceu em 25 de março de 1947. Com apenas quatro anos de idade, surpreendeu os pais e a avó ao mostrar habilidades precoces no piano. Com o tempo, ficou claro que o rapazinho levava jeito para a música, e ele aos 11 anos de idade começou a estudar aos sábados na prestigiada Royal Academy Of Music, onde permaneceu por cinco anos. No entanto, logo ficou claro para ele que ser um concertista erudito não era o seu sonho.

Aos 15 anos, preferiu tocar em hotéis e bares, inicialmente como pianista solo, e logo a seguir integrando um grupo que fundou com seus amigos, o Bluesology, em 1962. Com o tempo, a banda ganhou musculatura, e além dos shows próprios, também acompanhou artistas americanos de soul music que passavam pela Inglaterra, entre eles Major Lance e Patti Labelle And The Blue Belles.

Com Elton como seu vocalista e pianista, o Bluesology lançou em 1965 o seu primeiro single, Come Back Baby. Outros dois singles viriam até 1966, mas sem grande repercussão. Disposto a ficar o mais próximo possível do cenário da música, Reg (seu apelido) chegou a servir chá na editora musical Mills Music, e nessa época conheceu um jovem brincalhão chamado Caleb Quaye, que adorava fazer bullying com ele por causa de seus quilinhos a mais.

Em setembro de 1966, o cantor Long John Baldry convidou a Bluesology para ser a sua banda de apoio, convite que eles aceitaram. Isso fez com que Dwight se tornasse apenas pianista e eventual compositor do grupo, o que de certa forma o frustrou. Em busca de algum outro rumo, ele viu um anúncio nas páginas do jornal especializado em música New Music Express, publicado em 17 de junho de 1967. Mal sabia que sua vida mudaria a partir dali.

Bernie Taupin, contrato com Dick James e muito trabalho

Após se separar do conglomerado EMI na Inglaterra, o selo Liberty resolveu montar o seu próprio cast, e colocou o anúncio no NME buscando cantores, músicos e similares. Reg Dwight ficou animado e mandou uma carta. Para sua surpresa, foi chamado para uma audição, na qual se mostrou nervoso, cantando músicas do astro country americano Jim Reeves. Aparentemente, não era o cara mais adequado para o novo selo, e não foi selecionado.

No entanto, o responsável por seu teste e um dos homens do A&R (artistas e repertório) da Liberty, Ray Williams, sentiu que havia potencial naquele baixinho gordinho. Antes de se despedir de Reg, ele deu ao jovem um pacote com poemas enviados por um certo Bernard Taupin, e sugeriu como exercício que o pianista tentasse musicar alguns deles.

Nascido em 22 de maio de 1950, apaixonado por cultura pop americana e radicado em um pequeno vilarejo interiorano em Lincolnshire, Bernie também estava em busca de um rumo na vida, e se embrenhou em escrever poemas bem afeitos ao ambiente paz e amor daqueles tempos. Mesmo sem cantar ou tocar um instrumento musical, também respondeu o anúncio do NME, e recebeu como resposta um convite para visitar o escritório da Liberty em Londres.

Umas boas semanas se passaram até que Bernie e Reg se conhecessem. Quando isso enfim ocorreu, o músico contou ao novo amigo que já havia musicado uns 20 daqueles textos. A empatia entre eles foi imediata. Feliz ao ver que conseguiu reunir dois jovens talentos promissores, Ray Williams resolveu indicá-los à editora musical Gralto, criada pelos integrantes da consagrada banda The Hollies e ligada à Dick James Music (DJM).

No início, Reg e Bernie compunham suas músicas e o músico e cantor da dupla as registrava de madrugada, no estúdio da DJM, sem o conhecimento do dono. No entanto, o filho desse dono, Steve James, ouviu as demos, ficou bem impressionado e incentivou seu pai famoso a dar uma chance a eles.

Vale o registro: Dick James foi quem apostou em uma desconhecida banda oriunda de Liverpool e os contratou para editarem suas músicas com ele, na editora criada especialmente para tal fim, a Northern Songs. Sim, eles mesmos, os hoje eternizados Fab Four. Ou seja, era um dos caras mais bem-sucedidos da área. Ele confiou no palpite do filho, ouviu as demos, gostou e convidou aqueles dois jovens para uma reunião.

Contrato com a DJM, os primeiros discos e muito trabalho

Reg Dwight e Bernie Taupin foram para a reunião convocada por Dick James meio ressabiados. Eles pensavam que seriam repreendidos por usarem o estúdio. Aliás, sabe quem tomava conta daquele estúdio? Ninguém menos do que Caleb Quaye, que começava também a investir em uma carreira como guitarrista.

No entanto, os amigos saíram felizes daquele encontro, pois Dick os contratou, no dia 17 de novembro de 1967, para serem compositores residentes da DJM, escrevendo canções e gravando demos (agora em horários mais civilizados…) para serem oferecidas a outros intérpretes, ganhando um salário semanal.

Pouco tempo depois, aquele jovem pianista percebeu que seria duro ir adiante como Reg Dwight, e resolveu criar um nome artístico. Dessa forma, pegou “emprestado” o nome do saxofonista do Bluesology, Elton Dean (que depois tocaria com o grupo progressivo Soft Machine), e o do cantor Long John Baldry, que de certa forma o impulsionou rumo à carreira-solo, e voilá, surgia Elton John.

No início, as coisas não correram muito bem. Apesar de trabalharem muito, os dois amigos não conseguiam agradar a ninguém com suas criações musicais. Steve Brown, um dos funcionários da DJM, percebeu onde estava o problema, e deu um conselho ousado aos garotos: “parem de tentar compor canções pré-fabricadas para os cantores da moda, e façam aquilo que tiverem vontade”.

Foi o pontapé inicial para o surgimento de um trabalho original. O primeiro grande fruto dessa nova estratégia foi Lady Samantha, lançada em compacto simples em janeiro de 1969. Brown foi recompensado virando a partir dali o produtor dos discos de Elton John. A canção teve ótima execução nas rádios britânicas, mas o single não vendeu absolutamente nada, para tristeza geral.

A trajetória de Elton poderia ter tomado outros rumos no início daquele mesmo 1969, quando fez testes para ser o cantor de duas bandas novas com grande potencial, King Crimson e Gentle Giant, mas foi reprovado em ambas. Quem será que perdeu mais, ele ou as respectivas bandas? Nunca saberemos, mas é fato que os três conseguiram desenvolver carreiras de muito respeito. Elton, no entanto, vendeu muito mais discos, sem sombra de dúvidas.

Empty Sky, músico de estúdio e covers

Em 6 de junho de 1969, Elton John lançou o seu primeiro álbum pela DJM, Empty Sky. O disco dava pistas do que viria futuramente, mas ainda apresentava um artista em busca de seu estilo próprio. Mesmo tendo músicas boas como a faixa-título e Skyline Pigeon (que ele regravaria em 1973, em versão que estourou no Brasil), não só passou batido nos charts britânicos como nem sequer chegou a ser lançado no mercado americano naquela época.

Vale o registro detalhista: Empty Sky só saiu nos EUA anos depois de seu lançamento original, e chegou ao 6ª lugar na parada americana. Todas as fontes garantem que esse LP só chegou às lojas americanas em 1975. Curiosamente, a edição americana em vinil que eu tenho, que traz na capa (diferente da que saiu na Inglaterra) um desenho que lembra uma pirâmide, temos 1975 na contra-capa e 1973 no selo do disco. Vacilo dos bons…

Como forma de se manter, o artista não só continuou gravando suas demos e oferecendo músicas a outros artistas como também virou músico de estúdio, marcando presença em diversas gravações. A mais famosa é certamente He Ain’t Heavy He’s My Brother, um dos maiores sucessos dos Hollies e lançada em 1969, na qual ele se incumbiu do marcante acompanhamento de piano.

De quebra, ainda participava como cantor e pianista de gravações de álbuns de covers de sucessos do momento, lançados por selos pequenos que usavam o estratagema de juntar alguns dos maiores hit singles em um único LP, pois as grandes gravadoras na época ainda não faziam isso com as gravações originais. Esses discos não traziam os créditos aos músicos participantes, entre eles o cantor David Byron, que depois integraria a banda Uriah Heep.

Outra curiosidade: Elton e Bernie, toda semana, compravam os mais recentes lançamentos da música pop em LPs e compactos simples, e os dissecavam música a música, letra por letra, em uma espécie de curso intensivo de música pop. A paixão era tanta que o cantor chegou a ser balconista da loja de discos Music Land, no Soho, quando já havia lançado o seu primeiro álbum. Nem é preciso dizer que o dinheiro que ganhava lá virava discos e mais discos…

Novos craques entram no time de Reg Dwight

Ninguém vai adiante na vida se não tiver a ajuda decisiva de algumas pessoas. Elton John não foi diferente. Nesse momento crucial de sua carreira, ele ainda contou com a humildade de Steve Brown. Ao ouvir a demo de algumas das canções que o artista preparava para o que viria a ser o seu segundo álbum, Brown se sentiu pouco qualificado para continuar a produzi-lo, e tomou uma atitude de grande generosidade.

Dessa forma, propôs a Dick James algumas coisas básicas: que ele, Brown, passasse a ser coordenador de produção do novo LP de Elton, contratando um produtor mais experiente e também um arranjador, e que uma pequena orquestra fosse arregimentada para participar das gravações. Dick topou, e Steve Brown foi à luta para achar os nomes ideais.

O primeiro a entrar no projeto foi o arranjador Paul Buckmaster, que se incumbiu do brilhante arranjo para Space Oddity, primeiro hit de David Bowie em 1969. Ao tomar contato com as demos das novas canções de Elton e também ao conhecer o artista, sentiu que o convite era irrecusável.

E quem se incumbiria da produção? Brown sonhou alto: ninguém menos do que George Martin, para muitos o quinto beatle. Ao ser contatado, ele topou, possivelmente por sua relação com Dick James, mas com uma condição: também se incumbiria dos arranjos. Colocado na alternativa de ou ficar com o produtor dos Beatles ou manter Paul Buckmaster no jogo, Steve Brown se mostrou ousado ao preferir a segunda opção.

De quebra, para mostrar que punha fé em Buckmaster, Brown pediu a sugestão de um nome para capitanear aquele projeto. E a dica, que hoje pode parecer óbvia mas na época não soou assim, foi chamar exatamente o produtor que trabalhou com Buckmaster em Space Oddity, Gus Dudgeon. Este, ao ouvir as demos, percebeu que aquela era a chance de sua vida, e bateu o martelo.

Time escalado, mãos à obra

Com Steve Brown, Gus Dudgeon e Paul Buckmaster em suas devidas funções, seguiu-se a escalação dos músicos, e apenas o amigo Caleb Quaye, um dos mais promissores guitarristas britânicos na época, foi mantido do 1º LP, somando-se a Barry Morgan e Terry Cox (bateria), Dave Richmond, Les Hurdie e Alan Weighll (baixo), Colin Green, Clive Hicks, Roland Harker, Frank Clark e Alan Parker (guitarra e violão acústico), Skaila Kanga (harpa), Dennis Lopez e Tex Navarra (percussão), Diana Lewis (sintetizador moog) e Brian Dee (órgão).

Nos backing vocals (comandados por Barbara Moore), Madeline Bell, Leslie Duncan, Kay Garner, Tony Burrows, Tony Hazzard e Roger Cook. Este último merece destaque por ter sido um dos primeiros artistas a gravar composições de Elton John e Bernie Taupin, Skyline Pigeon, e ser o autor (em parceria com Roger Greenaway) de hits como You’ve Got Your Troubles (The Fortunes, em 1965) e I’d Like To Teach The World To Sing (The New Seekers, em 1972).

Além dos músicos de orquestra, outro acréscimo bacana ao projeto foi registrá-lo no Trident Studios, em Londres, aparelhado com muito mais recursos técnicos do que o da DJM e que presenciou gravações dos Beatles, David Bowie e muitos outros artistas desse gabarito. Segundo Paul Buckmaster, o álbum levou exatos 12 dias para ser concretizado, das primeiras gravações à mixagem final, com início no dia 19 de janeiro de 1970.

Além das 10 músicas que entraram na versão original do álbum, outras três foram registradas, e saíram em compactos simples nos meses seguintes. A capa hoje pode ser considerada bem simbólica, pois mostra, em um fundo totalmente escuro, apenas uma parte do rosto daquele jovem gordinho, descabelado e usando óculos com lentes grossas, cujo nome, Elton John, aparecia logo acima, em caracteres pomposos. Clima de mistério…

Elton John, o álbum, faixa a faixa

Your Song– Uma encantadora balada de um romantismo ingênuo e idealista, com um arranjo muito feliz que traz como bela sacada o fato de a seção rítmica só entrar após a primeira execução do refrão, o que ajuda a cativar o ouvinte. O primeiro e inesquecível hit desse grande astro.

I Need You To Turn To– A primeira canção com forte influência erudita do LP, com um jeitão meio medieval gerado pela utilização de um teclado do tipo harpsichord (cravo), e versos que retratam uma relação afetiva de dependência entre os integrantes de um casal.

Take Me To The Pilot– Primeiro momento mais swingado do álbum, uma espécie de funky gospel que se tornou um dos pontos altos dos shows dessa fase inicial de sucesso do astro. Tanto Elton quanto Taupin brincam com o teor vago da letra, dizendo que “se alguém descobrir o significado desses versos, por favor, nos avisem, que nós não temos a mínima ideia”.

No Shoe Strings On Louise– Esta canção meio soul, meio country, mostra forte influência dos Rolling Stones quando abordam essa sonoridade, especialmente em termos vocais. Dá para imaginar Mick Jagger cantando esta deliciosa faixa.

First Episode At Hienton– Cativante balada introspectiva com influência clássica na qual temos uma espécie de nostalgia melancólica referente a alguém que conheceu uma garota ainda jovem, mas que agora a vê já como uma mulher adulta. Belas imagens poéticas.

Sixty Years On– A faixa mais introspectiva e intensa do álbum, com direito a um arranjo absolutamente genial de Paul Buckmaster no qual a orquestra dialoga com a melodia e o vocal de Elton John. Outra letra melancólica divagando sobre uma velhice que curiosamente ainda estava muito distante de Elton e Taupin.

Border Song– Balada gospel com direito a um coral encantador e letra pregando a união e a tolerância sem cair no óbvio. Aretha Franklin a regravaria com muita propriedade naquele mesmo 1970.

The Greatest Discovery– Outra canção na qual o arranjo de Buckmaster se sobressai, em letra que investe na relação entre pais e filhos, no sentido da descoberta da paternidade e seus momentos iniciais.

The Cage– Provavelmente o momento mais roqueiro do álbum, com direito a algumas surpreendentes passagens de teclados eletrônicos.

The King Must Die– O álbum original se encerra com uma balada típica do artista, com uma letra libertária e realista ao mesmo tempo.

A versão em CD lançada em 1995 na série The Classic Years traz três faixas adicionais, oriundas das mesmas sessões de gravações do álbum original:

Rock And Roll Madonna e Grey Seal– lançadas em compacto simples em junho de 1970. A primeira é um rock básico com uso de gravações prévias que tentam dar a falsa impressão de que se trata de um registro feito ao vivo. A segunda é uma balada com belas passagens roqueiras, que seria regravada em 1973 para inclusão no álbum Goodbye Yellow Brick Road (1973).

Bad Side Of The Moon– Saiu como lado B do single Border Song, lançado em março de 1970. Muito boa, costumava fazer parte do set list dos shows de Elton naquela época com uma certa frequência.

Um álbum que demorou, mas enfim teve o sucesso que merecia

Como nada na vida de Elton John veio de bandeja, o sucesso de seu 2º LP seguiu a regra. Saiu na Inglaterra em 10 de abril de 1970, com resposta indiferente de público e crítica inicialmente. Como forma de divulgá-lo, o artista resolveu montar uma nova banda de apoio bem compacta, integrada por ele próprio nos vocais e piano, o baixista Dee Murray e o baterista Nigel Olsson (que havia participado da faixa Lady What’s Tomorrow, do álbum Empty Sky).

O primeiro destaque do trio ocorreu em agosto de 1970 após sua participação no tumultuado festival de Krumlin, em Yorkshire, ganhando novos fãs inclusive na imprensa especializada britânica. Dick James, então, percebeu que precisava pensar em alternativas para divulgar seu artista no mercado mais importante do mundo para a música, o americano, e iniciou negociações com a MCA Records.

Depois de muitas conversas, e com o apoio decisivo do amigo Roger Greenway, o executivo Russ Regan resolveu apostar naquele artista britânico, apesar de inicialmente considerá-lo um pouco “exotérico”. Como forma de apresentá-lo de fato ao público americano, planejou uma série de seis shows em Los Angeles, mais precisamente no Troubadour, badalado local de shows que impulsionou as carreiras de nomes como James Taylor, Carole King e inúmeros outros.

No dia 25 de agosto daquele histórico 1970, uma terça-feira, Elton entrou no palco devidamente anunciado por outro astro do elenco da MCA Records, Neil Diamond. Na platéia, nomes do porte de Quincy Jones, David Crosby, Graham Nash, Henry Mancini e Mike Love (dos Beach Boys). Se previamente se mostrava nervoso, deixou isso pra lá ao começar a tocar e cantar, esbanjando desenvoltura, garra e um talento absurdo.

Foram seis noites naquele mesmo local, com direito a outros nomes famosos para vê-lo, incluindo um de seus ídolos, o cantor, compositor e pianista Leon Russell, integrantes do grupo Bread e vários jornalistas. Um deles, o renomado Robert Hilburn, escreveu uma crítica arrebatadora no Los Angeles Times, classificando-o como o “novo astro do rock”, entre outros elogios.

A seguir, Elton fez mais alguns shows em outras cidades, e deixou no público americano um gostinho de quero mais. O cara estava tão aceso que, em sua volta à Inglaterra, finalizou as gravações de dois novos trabalhos, o álbum Tumbleweed Connection (lançado em outubro no Reino Unido e só em 1971 nos EUA) e a trilha do filme Friends. Ele voltou aos EUA em novembro, quando enfim o LP Elton John havia chegado às lojas de lá, e aumentou ainda mais seu impacto naquelas plagas. A América vai caindo de joelhos perante um novo astro.

A coisa ficou tão quente que ele fez um show no dia 17 de novembro no estúdio do produtor Phil Ramone, perante uma platéia de umas cem pessoas, com transmissão ao vivo via rádio no território americano. O sucesso foi tão grande que no ano seguinte as gravações gerariam um LP, 11.17.70 (na Inglaterra, lançado com o título 17.11.70 e, no Brasil, como Honky Tonk Women, canção clássica dos Rolling Stones que Elton releu com categoria neste show).

Para completar a operação “Elton Estrela”, só faltava uma coisa: lançar Your Song em compacto simples, o que ocorreu no início de 1971. A canção não só vendeu bem nesse formato como deu o impulso final para que Elton John, o álbum, enfim concretizasse o potencial de êxito que sempre demonstrou ter, atingindo o quarto lugar na parada americana e o quinto no Reino Unido. Era só o início de um verdadeiro tsunami de sucessos do hoje Sir Elton John.

Ouça Elton John (1970) em streaming:

Veja o clipe de Your Song, de 1970:

Adam Levine fuma marijuana no clipe da canção Nobody’s Love

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Por Fabian Chacur

Tem single novo do Maroon 5 no pedaço. E não se trata de qualquer um. Pena que esse destaque não seja em termos musicais, porque Nobody’s Love é bem inferior ao que de melhor a banda americana já nos proporcionou, sendo um eletroreggae pop bem derivativo e sem muito pique. Mas, em seu clipe, o vocalista Adam Levine aparece durante todo o tempo fumando um cigarro daquela famosa e cultuada erva proibida que tanta polêmica traz sempre que entra em pauta.

Com direção a cargo de David Dobkin, que já trabalhou anteriormente com a banda em diversos outros clipes, a filmagem foi feita valendo-se apenas de um iPhone. Nela, Levine é flagrado em uma espécie de sala de estar ao ar livre, com direito a um abajur descolado e um sofá confortável, no qual o cantor permanece mandando bala no seu baseado.

Ao fim da música, que dura pouco mais do que três minutos, aparece um texto na tela com uma mensagem que defende o fim da “guerra contra a marijuana”, que, segundo o texto, “fracassa em reduzir o seu uso e disponibilidade e desvia recursos que poderiam ser melhor investidos em nossas comunidades”.

A banda também promete fazer uma doação à ACLU (American Civil Liberties Union, união americana pelas liberdades civis), que entre outras causas abraça a do fim da guerra contra a marijuana.

Este é o segundo single inédito lançado pelo Maroon 5 nos últimos meses. O primeiro apareceu nas plataformas digitais em setembro de 2019, o também mediano Memories (veja o clipe aqui). Não se sabe se ambos estarão no próximo álbum do grupo americano, que será o sucessor de Red Pill Blues (2017).

Nobody’s Love (clipe)- Maroon 5:

Kylie Minogue promete o álbum Disco para novembro; ouça single

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Por Fabian Chacur

A estrela australiana Kylie Minogue acaba de divulgar a capa do que será o seu 15º álbum de carreira. O título é Disco, e a gravadora Warner Music promete colocá-lo no mercado em novembro. Como forma de colocar um gostinho na boca de seus milhões de fãs mundo afora, já está devidamente disponível nas plataformas digitais o primeiro single a ser extraído deste trabalho inédito, ainda sem um clipe oficial, provavelmente em função da pandemia do novo coronavírus.

Say Something é uma faixa dançante, pra cima, e uma possível definição para ela pode ser “a melhor faixa upbeat de Madonna dos anos 1980 que a cantora americana jamais compôs ou gravou”. A influência da estrela pop ianque se mostra mais forte do que nunca, mas isso não apaga o impacto deste single, que tem tudo para repetir o ótimo desempenho de seu disco anterior, Golden (2018).

Desde que invadiu a cena pop em 1988 com seu single de estréia, a releitura de The Loco-Motion (hit com Little Eva e Grand Funk Railroad), Kylie nunca saiu das paradas de sucesso, com suas canções dançantes e shows sempre elaborados e recheados de surpresas. Um bom exemplo foi o que ela realizou no festival de Glastonbury, na Inglaterra, em 2019, um dos mais elogiados deste evento.

Say Something(áudio)- Kylie Minogue:

Jamie Cullum lança single inédito e bem retrô Don’t Give Up On Me

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Por Fabian Chacur

Aproximadamente um ano depois do lançamento de seu mais recente álbum, Taller (2019), o excelente cantor, compositor e tecladista britânico Jamie Cullum oferece uma novidade aos fãs espalhados pelos quatro cantos do mundo. Trata-se do single Don’t Give Up On Me, já disponível nas plataformas digitais e divulgado por um clipe no popular formato lyric video, com muita elegância e eficiência.

Com uma levada rítmica no melhor estilo Motown Records, com ecos do clássico You Can’t Hurry Love, das Supremes, mas reaproveitado de forma própria, o astro que completará 41 anos de idade no próximo dia 20 de agosto mostra a desenvoltura de sempre, oferecendo-nos uma canção pop e dançante sem cair no ramerrão e com sua voz deliciosa conduzindo tudo.

Com mais de 20 anos de estrada, Jamie Cullum merecia muito mais sucesso comercial do que tem, mas ainda assim conseguiu cativar um público fiel, inclusive no Brasil, onde fez shows concorridos. Se os seus oito álbuns de estúdio são bem bacanas, é nos palcos que o cara se mostra mais à vontade, sempre esbanjando carisma e talento como cantor, pianista e performer.

No repertório, temos uma seleção de canções próprias mescladas com standards sempre muito bem explorados. A releitura que ele faz de Rocket Man, de Elton John (ouça aqui) é um bom exemplo dessa sua capacidade de incorporar canções alheias com muita personalidade e classe.

Leia mais sobre esse craque do pop-jazz-funk aqui.

Don’t Give Up On Me– Jamie Cullum:

Tuia aposta em eletrofolk em seu novo single e clipe, De Repente

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Por Fabian Chacur

Tuia não está se deixando influenciar pelo clima pesado gerado pela pandemia do novo coronavírus. Após lançar um novo e ótimo álbum pela gravadora Kuarup, Versões de Vitrola Vol. 1 (leia a resenha aqui), o cantor, compositor e músico paulista não perde tempo e lança um novo single, De Repente, que está disponível em áudio e também em um elegante clipe.

A nova faixa é bastante diferente do material lançado por ele até aqui. Desta vez, Tuia nos oferece uma mistura do seu som folk-rock rural com uma batida dançante e um apelo pop escancarado, com direito a refrão hipnótico, timbres instrumentais deliciosos e uma prevalência do som de teclados.

O resultado agrada em cheio, e conta com produção do multi-instrumentista Victor Jadowski e masterização a cargo de João Milliet. Ele define a nova levada apresentada neste lançamento como eletrofolk ou folkbeat. A letra investe em positividade e astral positivo, sem cair na mediocridade ou obviedade. Para dar uma arejada em tempos tão incertos.

De Repente (clipe)- Tuia:

Documentário no Canal Brasil mostra luta de músicos no Mali

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Por Fabian Chacur

Que tal viver em um país no qual, da noite para o dia, fazer e ouvir música passa a ser um crime passível de mutilação e até mesmo morte? Parece uma distopia inventada por algum roteirista criativo demais e pervertido demais, não é mesmo? Pois foi exatamente isso o que ocorreu no continente africano, mais precisamente no Mali, em 2012. Como resistir e se rebelar contra tamanho horror? Eis o mote de They Will Have To Kill Us First (2015), emocionante documentário que o Canal Brasil exibe nesta terça (14) às 11h e nesta quinta (16) às 15h30.

A história tem origem em um golpe de estado promovido por uma aliança que se mostraria desastrosa entre membros da etnia tuareg e jihadistas islâmicos no intuito de derrubar o governo do Mali. Quando conseguem seu intento, as alas mais radicais da parceria, ligadas a organizações funestas como Al Qaeda e Estado Islâmico, assumem a ponta da ação e tomam conta do norte do país, incluindo cidades importantes como Timbuktu e Gao.

Como sempre costuma ocorrer quando milícias armadas e religiosos fanáticos se unem, o novo “regime” impõe uma legislação retrógrada, repressiva e violenta intitulada Sharia. Entre outras coisas, é proibida a execução em rádios e TVs de música de quaisquer tipos, além de shows e de músicos. E é neste ponto do golpe ocorrido em 2012 que a diretora americana Johanna Schwartz centra o seu foco.

A forma encontrada por ela para abordar esse verdadeiro cenário de horrores foi dar voz a personagens da cena musical de Mali. Temos aqui a cantora Khaira Arby, apelidada por seus inúmeros fãs de Rouxinol do Norte, a cantora Disco e seu marido Jimmy (envolvido no golpe e claramente arrependido de sua ação), o emergente grupo Songhoy Blues e o músico Moussa Sidi.

Longe de suas cidades natais, eles se abrigam no sul do Mali, na cidade de Bamako, ou mesmo no país vizinho Burkina Faso, em campos de refugiados. Em comoventes depoimentos, falam sobre seu passado, suas angústias e seus sonhos de um futuro melhor durante um período de três anos.

Como rebeldes que não aceitavam a “nova ordem” imposta pelos jihadistas eram punidos com mutilações (uma delas mostrada no filme de forma chocante, provavelmente extraída de vídeo postado na internet) ou morte, a luta deles pela liberdade de expressar seus talentos se mostra difícil, porém vencedora.

Khaira e Disco conseguem organizar o primeiro show público em Timbuktu após três anos, evento realizado na raça, contra todas as dificuldades. Por sua vez, Moussa consegue retornar à cidade natal, para ver seu lar totalmente destruído pelos “revolucionários”, mas encontrando a esposa ainda viva.

O grupo Songhoy Blues, que realiza uma excitante, criativa e vibrante mistura de blues, rock e música africana, tem um destino melhor. Com o apoio dos astros Damon Albarn (Blur e Gorillaz), Brian Eno e Nick Zinner (do grupo Yeah Yeah Yeahs), conseguem gravar, na Inglaterra, seu primeiro álbum, apropriadamente intitulado Music In Exile (2015)(veja um clipe deles aqui).

O título do documentário (eles terão de nos matar primeiro) sai de um dos depoimentos dos personagens, que mostram sua devoção e comprometimento com a música. Este documentário serve não só como o registro de uma verdadeira tragédia humanitária ocorrida na sofrida África como também um potente alerta para quem se sente seguro, mesmo vendo a união de forças retrógradas, fanatizadas e violentas ampliando seus tentáculos e tomando o poder nos quatro cantos do mundo. Aconteceu (e ainda acontece!) no Mali, pode se materializar em qualquer parte do mundo, especialmente no BRASIL!

They Will Have To Kill Us First (trailler):

Veja mais um trailler do filme aqui.

Luiz Millan cria verdadeiro sarau musical em Achados & Perdidos

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Por Fabian Chacur

Embora toque, cante e componha desde os anos 1970, o médico com especialização em psiquiatria Luiz Millan passou a se dedicar com mais força à carreira musical a partir de 2011, quando lançou seu primeiro CD, Entre Nuvens. Desde então, tivemos mais três CDs e um DVD (Dois Por Dois Ao Vivo, leia resenha aqui). Agora, chega a vez de Achados & Perdidos, lançado nas plataformas digitais e também em uma luxuosa edição em CD.

Como tem sido praxe em seus trabalhos, Millan escalou gente do primeiro escalão da música. Temos aqui o consagrado tecladista Michel Freidenson, fiel escudeiro e também coprodutor deste álbum, Sylvinho Mazzucca (baixo), Edu Ribeiro (bateria), Léa Freire (flauta) e Adriana Holtz (celo), entre outros.

Em termos vocais, Millan assume a função de cantor solo em três faixas, e faz duetos em outras quatro canções com uma das grandes revelações das últimas décadas, a cantora e compositora Giana Viscardi. Ela também se incumbe de duas músicas sozinha, e uma em dueto com Mauricio Detoni. As quatro faixas restantes são instrumentais, interpretadas por Michel Freidenson e Grupo.

Pela primeira vez, ele relê canções de outros autores. São quatro: Samba da Pergunta (Pingarilho e Marcos Vasconcellos), Brasil Com S (Rita Lee e Roberto de Carvalho), Não Pode Ser (Marcos e Paulo Sérgio Valle) e Outro Cais (Eduardo Gudin e José Costa Neto). As outras dez são de sua autoria, sendo três (incluindo a faixa-título) escritas com o saudoso Moacyr Zwarg (1945-2017), uma sozinho (em homenagem a Zwarg), duas com Plinio Cutait, uma com Michel Freidenson, outra com Mauricio Detoni, uma com Ivan Miziara e uma com a esposa Marília.

Munido deste repertório de primeiríssima linha, Luiz Millan montou um álbum que equivale a um refinado e delicioso sarau musical, viajando com categoria por diversas vertentes da nossa música popular, com ênfase em bossa nova. Com uma voz muito bem colocada e com timbre equivalente a um intermediário entre Toquinho e João Donato, ele se mostra desenvolto tanto sozinho como nos deliciosos duetos com Giana, cuja performance é sublime, para dizer o mínimo.

Em um momento no qual a cultura brasileira sofre com o criminoso descaso por parte do governo federal e também com as consequências da pandemia do novo coronavírus, é uma verdadeira bênção poder ouvir um trabalho do altíssimo calibre deste Achados & Perdidos. A edição física é simplesmente sublime, com encarte com letras, ficha técnica e fotos dos músicos e de várias fases da vida deste admirável doutor da canção, Luiz Millan.

Ouça o álbum Achados & Perdidos em streaming:

Elton John lança uma parceria com o duo americano Surfaces

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Por Fabian Chacur

Em 2017, os amigos Forrest Frank (vocal e guitarra) e Colin Padalecki (teclados, composições e arranjos) resolveram iniciar uma parceria musical. Nascia o Surfaces, duo que aos poucos vai conquistando bons espaços na cena pop atual. A prova de que a brincadeira começou a ficar séria ocorre agora, quando eles lançam o single Learn To Fly, que conta com a participação mais do que especial de ninguém menos do que Elton John. Eles explicam como surgiu a oportunidade para essa parceria tão especial:

“Depois que gravamos a demo, ela ficou meio que flutuando por aí, até que chegou às mãos de Elton John, que quis fazer parte da faixa. Depois de uma série de sessões em estúdio via Zoom, nós conseguimos gravar juntos em quarentena. Trabalhar com Elton John nos promoveu uma sensação comparável a da ideia de ganhar um Grammy. Ele é tão apaixonado e motivado, nós não poderíamos ter desejado uma colaboração mais fácil do que essa. Nós esperamos que essa canção possa espalhar amor nesse momento em que o mundo tanto precisa, e que possa inspirar as pessoas a abrirem seus corações”.

Sempre atento ao surgimento de novos talentos e disposto a colaborar com essas revelações da música, Elton também comentou sobre a parceria, no mesmo press release enviado à imprensa pela gravadora Universal Music:

“Eu ouvi Sunday Best pela primeira vez na Austrália e eu amei a música, portanto, eu fiquei surpreso quando esses caras vieram até mim e pediram que eu cantasse e tocasse um pouco de piano em Learn To Fly. Eu amei a canção e a produção da faixa que eles me enviaram. Nós gravamos via Zoom em Los Angeles e fui super legal trabalhar em uma gravação não-autoral. Esses meninos são incríveis e nos divertimos muito trabalhando em colaboração”.

Sunday Best (ouça aqui), a canção a que Elton se refere, é faixa do 2º álbum do Surfaces, Where The Light Is (2019), e tornou-se um grande sucesso mundial este ano, invadindo as paradas de sucesso com sua levada leve e pra cima.

Colin e Forrest lançaram três álbuns até o momento: Surf (2017), Where The Light Is (2019) e Horizons (que saiu em fevereiro deste ano). Em tempos tão pesados e inseguros como os atuais, a música do Surface soa como uma espécie de refresco sonoro, com seus vocais delicados, melodias bem concatenadas e variações rítmicas de quem sabe prender o seu ouvinte com categoria.

Entre as várias faixas que lançaram nesses três anos de atividade, bons exemplos desse verdadeiro pop ensolarado são a new bossa eletrônica Good Day (ouça aqui), o reggae Lazy (ouça aqui), a deliciosa r&b Keep It Gold (ouça aqui).

Valendo-se dos mais modernos recursos eletrônicos, mas também explorando sonoridades vintages de instrumentos típicos do pop dos anos 1980, os amigos americanos oriundos do estado do Texas provam que tem potencial para ir longe. Sunday Best atingiu até agora a 19ª posição na parada pop americana, e Learn To Fly pode levá-los a um patamar superior nos charts.

Curiosidade: esta última traz um pequeno trecho melódico que lembra Sukiyaki, hit que chegou ao primeiro lugar nos EUA em 1963 com o cantor japonês Kyu Sakamoto e ao 3º lugar, em versão em inglês, com o A Taste Of Honey em 1980. O trecho é o mesmo que inspirou, consciente ou inconscientemente, Tudo Bem, hit em 1985 com Lulu Santos, aquela do “nem sempre é so easy se viver”.

Learn To Fly (lyric video)- Surfaces + Elton John:

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