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O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: Resenhas (page 1 of 46)

Earl Slick e Bernard Fowler em documentário sobre os sidemen

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Por Fabian Chacur

Sideman é o termo criado para designar os músicos de apoio, profissionais cuja função básica é dar a base artística suficiente para que seus patrões, sejam eles quem forem (cantores solo, duplas, grupos etc) brilhem. Até por isso mesmo, frequentemente são pouco conhecidos do grande público. O documentário Rock ‘N’ Roll Guns For Hire- The Story Of Sidemen (2017), de Francis Whately (o mesmo diretor de The Last Five Years, de David Bowie), que está sendo exibido pelo Canal Bis e disponível em sua plataforma de streaming (bisplay), enfoca alguns dos grandes craques dessa área.

Com o selo de qualidade da BBC, o documentário tem como narrador e principal personagem o guitarrista americano Earl Slick, que atuou ao lado de David Bowie de 1974 a 2016, entre idas e vindas, e também gravou com John Lennon e com o trio Phantom, Rocker & Slick. Carismático, ele interage com outro craque do setor, o cantor americano Bernard Fowler, que há 30 anos faz parte com destaque da banda de apoio dos Rolling Stones.

Durante os 90 minutos de duração do filme, temos a oportunidade de conhecer as experiências dos dois protagonistas e também de músicos de currículos importantes do porte de Wendy Melvoin & Lisa Coleman (da banda Revolution, que acompanhou Prince em Purple Rain e outros discos de sucesso), Steve Cropper (lendário compositor e guitarrista que trabalhou com Otis Redding) e Crystal Taliefero (tocou com Billy Joel).

O termo sideman é mais usado para o músico que integra bandas de shows, mas em diversos casos esses profissionais também atuam como músicos de estúdio também, e a razão é simples: sobrevivência. Afinal de contas, eles são realmente “pistoleiros de aluguel” (tradução do título do documentário), que só ganham enquanto estão em uma turnê ou em uma sessão de gravação. E sempre dependem do humor ou da mudança de rota de seus patrões.

Um dos diversos pontos positivos do filme fica por conta de vários depoimentos de alguns desses chefões famosos, entre eles Mick Jagger, Keith Richards e Billy Joel. Fica claro que os sidemen (e sidewomen) vivem o tempo todo na corda bamba, pois não podem aparecer mais do que os astros para os quais trabalham, mas ao mesmo tempo precisam acrescentar o suficiente nos shows e gravações para serem considerados úteis.

Vários episódios interessantes ocorridos nessa área são revividos por eles. Slick, por exemplo, lembra que em algumas ocasiões era demitido por Bowie e, não muito tempo depois, readmitido para entrar no lugar de quem o havia substituído. “E é assim que as coisas funcionam, não tem jeito”, relembra o músico, que mostra no filme uma tentativa que fez para ganhar algum dinheiro fora da música, customizando jaquetas de couro.

Rock ‘N’ Roll Guns For Hire é uma bela amostra da difícil vida fácil de pessoas extremamente talentosas que, no entanto, não tiveram cacife suficiente para atingir o estrelato por conta própria. Uns se frustram um pouco com isso, como admite Wendy Melvoin. Outros, pelo contrário, como garante Steve Cropper, satisfeito em deixar os holofotes para os patrões e se divertindo ao tocar, produzir e compor para eles.

No final do doc, Slick e Fowler se unem, montam uma banda e fazem um show no qual tocam basicamente hits de Bowie, fechando com chave de ouro um belo retrato desses caras geniais sem os quais muitos pop stars não passariam de meros vagalumes no meio do mato. É como no futebol: o que seria dos artilheiros e meio-campistas se não tivessem os zagueiros, volantes e goleiros para garantir as coisas para eles?

Veja o documentário sem legendas:

Michael Stipe lança versão demo de uma nova e belíssima canção

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Por Fabian Chacur

Neste domingo (29), Michael Stipe colocou no ar uma versão demo de uma nova canção. E que canção! No Time For Love Like Now é daquelas faixas que, mesmo assim, aparentemente inacabada, já soa como clássica logo em seus primeiros acordes. Gravada com uma câmera caseira no que parece ser um cômodo de sua residência, o ex-cantor do R.E.M. nos emociona com uma balada linda cuja letra registra tudo o que precisamos nesses tempos cinzentos.

No Time For Love Like Now foi composta em parceria com o cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista americano Aaron Dessner, conhecido por integrar as bandas The National e Big Red Machine.

Essa maravilha é a terceira faixa que o astro nos proporciona desde outubro de 2019. Após o anunciado fim do R.E.M. em 2011, as expectativas em torno de como a carreira de Stipe seguiria adiante eram enormes.

Foram anos e anos de expectativa. A primeira amostra conpleta foi a deliciosa Your Capricious Soul (ouça aqui), disponibilizada no dia 5 de outubro de 2019 e com os direitos doados ao grupo de ativistas ambientais Extinction Rebellion.

Como forma de celebrar seus 60 anos de idade, ele lançou no dia 4 de janeiro um segundo single, Drive To The Ocean (ouça aqui), uma canção envolvente de clima árabe e com belos vocais de apoio. Seus direitos foram doados pelo prazo de 365 dias para a Pathway To Paris, organização sem fins lucrativos que apoia iniciativas inovadoras relativas ao meio ambiente.

Em entrevista concedida em 2019, Stipe afirmou ter 18 canções prontas, mas não deu detalhes de como serão lançadas, se em um álbum em formato convencional ou apenas em singles.

Para mim, a lógica deve ser o lançamento de um ou outro single a seguir e, depois, um álbum completo. Seja como for, é ótimo ver um artista do seu calibre novamente na ativa, e com três músicas tão boas. Que venham logo as outras!

No Time For Love Like Now (demo)- Michael Stipe:

Ney Matogrosso continua um craque da música brasileira

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Por Fabian Chacur

Se há um artista que personifica com perfeição o pop à brasileira, ele sem sombra de quaisquer dúvidas é Ney Matogrosso. Em seus quase 50 anos de trajetória musical, ele nos oferece uma mistura dos mais diversos elementos sonoros, propondo-nos, dessa forma, um som ao mesmo tempo universal, pelo acréscimo de fortes elementos da música originada no exterior, e essencialmente brasileiro, pela forma como tempera essa obra. Eis o que podemos conferir em Bloco na Rua, seu mais recente trabalho, disponível desde o fim do anos passado no formato digital e agora também em CD duplo e, em breve, em DVD físico.

Bloco na Rua é o registro do show que estreou no Rio de Janeiro em 11 de janeiro de 2019 e que, desde então, passou por diversos palcos brasileiros. A gravação ocorreu em julho do ano passado, no palco do Teatro Bradesco (SP), totalmente ao vivo, mas sem a presença de público. Chega a ser irônico se pensarmos na atual situação do show business mundial, uma atitude quase premonitória do que viria adiante.

O repertório nos oferece 20 músicas, sendo nove já gravadas anteriormente pelo artista na carreira-solo e com os Secos & Molhados, e 11 estreando em seu set list e discografia. Uma única dessas músicas é totalmente inédita, a sensacional Inominável, do compositor paulistano Dan Nakagawa. No entanto, a forma como Ney abordou cada canção dá a elas um molho de ineditismo que só quem é muito do ramo consegue fazer.

Para isso, ele contou com uma banda de apoio incrível que o acompanha há cinco anos, liderada pelo diretor musical, arranjador e tecladista Sacha Amback e que traz também os excelentes Marcos Suzano e Felipe Roseno (percussão), Maurício Negão (guitarra e violão), Dunga (baixo), Everson Moraes (trombone) e Aquiles Moraes (trompete e flugelhorn). Na faixa Postal de Amor, foi acrescentada a participação da Orquestra de Cordas de São Petesburgo.

O entrosamento entre o cantor e os músicos é impecável, fruto das diversas apresentações anteriores à gravação, e o registro da performance é padrão Ney Matogrosso, com iluminação esplêndida e detalhes cênicos que variam de canção a canção, sempre com o bom gosto e a ousadia habituais. Ney entra no palco usando uma máscara meio assustadora, que acabou sendo registrada na capa do CD duplo e que ele tira durante a primeira música.

Aliás, a apresentação visual do disco é maravilhosa, com direita a capa digipack luxuosa trazendo encarte com todas as letras das canções, fichas técnicas e fotos, além de dez deliciosos depoimentos de fãs referentes às performances do artista selecionados nas redes sociais.

Pode parecer redundante dizer isso, mas nada dessa produção toda valeria alguma coisa se a estrela da companhia não tivesse um desempenho à altura, e o ex-vocalista dos Secos & Molhados brilha com muita, mas muita intensidade mesmo. Aos 78 anos, ele se mostra mais apaixonado do que nunca por seu ofício, e mergulha com paixão e rigor técnico no repertório, tornando-o seu, mesmo que não tenha escrito nenhuma dessas músicas.

O set list de Bloco na Rua traz composições lançadas desde os tempos dos Secos & Molhados até esta década, mas elas soam com uma unidade, repletas de odes à liberdade, à coragem, à irreverência e ao lirismo (aqui e ali). O título, extraído da clássica Eu Quero é Botar Meu Bloco da Rua, de Sérgio Sampaio, reflete mesmo essa atitude de ir à luta, mesmo em tempos tão cinzas como os atuais.

Embora o show seja bom como um todo, vale destacar alguns de seus pontos altos, como a psicodélica Álcool (Bolero Filosófico), lançada em 2003 pelo autor, o DJ Dolores, a já citada Inominável, a sempre contundente Pavão Mysteriozo, hit máximo do cearense Ednardo, os clássicos de Tia Rita Lee Jardins da Babilônia e Corista de Rock, a tocante A Maçã, de Raul Seixas, e a envolvente Já Sei, de Itamar Assumpção. Sangue Latino e Mulher Barriguda, hits dos Secos & Molhados, surgem com novos e vibrantes arranjos roqueiros.

Bloco na Rua é a prova contundente de que Ney Matogrosso continua mais relevante do que nunca, mostrando que, como poucos, pode cantar os versos do grande Ednardo “não tenha minha donzela nossa sorte nessa guerra, eles são muitos mas não podem voar” sem medo de ser retrucado. Ele, pode, pelo menos em termos musicais e artísticos em geral.

Álcool (Bolero Filosófico)– Ney Matogrosso:

Duo Aduar lança seu sublime álbum com show em São Paulo

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Por Fabian Chacur

Sublime. Essa palavra resume minha opinião acerca de Riachinho das Pedras, álbum de estreia do Duo Aduar e também de um novo selo discográfico, o Lobo Kuarup, fruto de parceria entre o consagrado violeiro mineiro Chico Lobo e a gravadora Kuarup. O álbum será lançado em luxuoso formato CD em São Paulo com pocket show nesta sexta (13) às 19h na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (avenida Paulista, nº 2.073- Cerqueira César- fone 0xx11-3170-4062), com entrada gratuita.

Gabriel Guedez (violão e voz) e Thobias Jacó (viola e voz) deram início ao Duo Aduar em 2017, pouco depois de se conhecerem nas escadarias da escola de música da Universidade Federal de São João Del Rei, histórica cidade mineira. Não demorou para que se tornassem figurinhas carimbadas nos principais festivais de música realizados pelo Brasil afora, tendo conquistado o primeiro lugar em sete edições dos mesmos. Merecidamente.

Seu trabalho de estreia traz oito músicas, sendo seis autorais e duas releituras, a lírica Matança, de Augusto Jatobá, e a icônica A Vida do Viajante (Hervê Cordovil e Luiz Gonzaga), que se encaixa feito luva no espírito estradeiro da dupla.

Valendo-se apenas de suas vozes e de violão e viola, o Duo Aduar construiu tapeçarias sonoras envolventes e de uma doçura mágica. Nas letras, trazem belíssimas e cada vez mais necessárias mensagens ecológicas, protestando de forma incisiva contra a devastação da natureza em nosso país sem, no entanto, jamais perder a ternura. As vocalizações merecem um capítulo à parte, de tão perfeitas, tocantes e bem concatenadas.

A audição do álbum é prazerosa demais, ganhando o ouvinte logo de primeira e tornando-se viciante a partir da segunda. O Silêncio do Rio, Terra Nossa, Sentinela, Riachinho das Pedras, Índia Tuíra e De Que Depende o Perdão? formam, ao lado dos dois covers, um conjunto conciso e tocante de melodias inspiradas na música rural brasileira com muita inspiração e originalidade.

Em tempos tão áridos como os que vivemos atualmente, a audição deste álbum equivale a uma forma encantadora de instigar a consciência das pessoas em torno da importância que a natureza tem para que possamos permanecer vivos de forma saudável e encantadora. Que seja apenas o marcante início de uma bela trajetória desse incrível Duo Aduar.

Veja o clipe de Riachinho das Pedras, do Duo Aduar:

Jeff Lynne emociona os fãs com performance impecável da ELO

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Por Fabian Chacur

Em 1970, o então desconhecido cantor, compositor e guitarrista Jeff Lynne foi convidado por Roy Wood para integrar o grupo The Move, que fazia sucesso no Reino Unido. Lynne topou, mas na verdade ele tinha mais interesse no projeto paralelo que Wood pretendia criar, uma banda que usasse instrumentos de orquestra em um contexto roqueiro, levando adiante a proposta dos Beatles na música I Am The Walrus.

Foi dessa maneira que surgiu a Electric Light Orchestra. Curiosamente, Roy Wood saiu do time em 1972, poucos meses depois do lançamento de seu álbum de estreia. A partir daí, Lynne virou o dono do projeto, e o resto é história, com direito a grandes hits, milhões de discos vendidos e shows sempre lotados.

Como forma de reverenciar esse repertório e presentear seus inúmeros fãs, o astro britânico resolveu resgatar esse bem-sucedido projeto musical, agora com o nome Jeff Lynne’s ELO, para diferenciá-lo de outros shows-tributo montados por ex-integrantes do grupo em sua fase inicial, de 1970 a 1986.

A apresentação que marcou o ápice desse retorno ocorreu no dia 24 de junho de 2017 na Wembley Arena. O registro de áudio e vídeo está na programação do canal a cabo BIS, e foi lançado no formato físico CD duplo+DVD (ou blu-ray). Ainda bem que isso ocorreu, pois temos aqui um show histórico de fato.

A gravação ocorreu com toda a pompa necessária, incluindo telões gigantes, iluminação impecável, um palco enorme e a inevitável nave espacial imensa que se tornou a marca registrada da Electric Light Orchestra em suas turnês. Um ambiente que consegue ser ao mesmo tempo retrô e futurista, outra característica básica desse projeto musical.

Como se fosse um concerto de música erudita, o show mostra uma banda com quase 15 músicos em cena reproduzindo de forma detalhada as gravações originais de cada canção, incluindo timbres dos instrumentos e vocalizações. O fato de a voz de Lynne alcançar os timbres dos anos áureos da ELO ajudou bastante na concretização desse objetivo.

O repertório do espetáculo reúne praticamente todos os seus hits, com muita energia acrescida à reprodução fiel de cada nota produzida originalmente. Ou seja, não temos aqui a execução fria e burocrática de cada canção, mas sim o oferecimento de cada uma delas como se tivessem sido lançadas ontem.

A mistura de rock, pop, folk, música eletrônica, rhythm and blues e música erudita se mostra mais azeitada do que nunca, com direito a maravilhas do porte de Evil Woman, Livin’ Thing, Last Train To London, Turn to Stone, Strange Magic e All Over The World, só para citar algumas delas.

Uma sacada incrível do registro em vídeo fica por conta de inúmeras tomadas flagrando o público presente em Wembley. Nelas, podemos observar uma platéia predominantemente de pessoas com mais de 40 anos de idade cantando, dançando e vibrando como se fossem adolescentes.

Eis uma prova cabal do poder incrível que a música tem de nos resgatar energias que pensávamos terem sido soterradas pelas dificuldades propostas a nós pela vida diuturnamente. E tudo isso proporcionado a essas pessoas por um Jeff Lynne que completaria 70 anos de idade no final daquele 2017!

As surpresas ficam por conta das inclusões de Handle With Care, maior hit do super grupo Travelling Wylburys que Lynne integrou ao lado de Roy Orbison, George Harrison, Tom Petty e Bob Dylan, e Xanadu, música da trilha do filme homônimo que a banda gravou com Olivia Newton-John no vocal principal.

O único problema para quem for ver no Canal BIS é o fato de eles terem apresentado na programação a cabo uma versão resumida para apenas 12 músicas, onze a menos do que as 23 incluídas no show completo. Não sei qual a versão está disponível no canal de streaming do BIS, mas que o melhor é curtir esse espetáculo em sua íntegra, é algo indiscutível.

ELO- Live At Wembley (cujo título na versão física é Wembley Or Bust) é a prova cabal de que o trabalho de Jeff Lynne merece ser muito mais respeitado pela crítica especializada do que na verdade é, pois se ele não inventou a roda ou revolucionou o mundo da música, certamente nos proporcionou um songbook delicioso que continua gerando prazer em quem o investiga.

Evil Woman (live)- Jeff Lynne’s ELO:

Ana de Oliveira e Sérgio Ferraz e seu belo trabalho instrumental

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Por Fabian Chacur

Fazer música instrumental no Brasil nunca foi para fracos. Com poucos espaços para divulgação e não muito apoio na mídia, os profissionais dispostos a encarar essa vertente musical precisam de muita garra, dedicação e paciência para construir uma trajetória vitoriosa. Por isso, é de se aplaudir o duo Ana de Oliveira e Sérgio Ferraz pelo lançamento de seu primeiro álbum, Carta de Amor e Outras Histórias (independente, distribuído pela Tratore), disponível em CD e também nas plataformas digitais. Um trabalho de rara beleza e consistência artística.

A parceria entre o violonista Sérgio e a violinista Ana surgiu em 2018 durante a realização do MIMO Festival, em Olinda (PE).O curioso fica por conta dela ser paulistana, ele pernambucano e ambos serem radicados no Rio de Janeiro. Uma espécie de dica de como a brasilidade sem fronteiras marca a musicalidade de ambos. E se o duo é recente, o currículo prévio dele é bem expressivo.

Ana de Oliveira é mestre em música pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e graduou-se na classe de Rainer Kussmaulna na Escola Superior de Música em Freiburg, Alemanha, cidade onde viveu durante nove anos. Ela se apresentou como solista com diversas orquestras no Brasil e no exterior, e também atuou e atua em grupos de câmara, entre os quais o Trio Puelli, além de participar de diversos álbuns.

Por sua vez, Sérgio Ferraz é bacharel em música pela Universidade Federal de Pernambuco. Ele toca vários tipos de violão, guitarra e violino. Atuou em vários grupos e integrou aquele que, entre 2008 e 2014, acompanhou o consagrado escritor Ariano Suassuna em suas aulas-espetáculo. Gravou vários discos individuais e atuou com diversos grupos, além de ser compositor refinado.

É evidente que dois músicos tão talentosos e com trajetórias significativas não se uniriam para perder tempo, e o álbum Carta de Amor e Outras Histórias mostra isso logo de cara em sua capa, maravilhosa, de autoria de Romero Andrade Lima e com design gráfico de Guga Burckhardt. O belíssimo encarte, com belas imagens, ótimo texto de Ricardo Tacuchian e muita informação (em português e inglês), agrega muito valor ao CD físico.

O trabalho é totalmente acústico, com Ana se incumbindo do violino e Sérgio se desdobrando entre violões de oito e doze cordas. Em duas das oito faixas que integram este CD, temos a participação do consagrado percussionista Marcos Suzano. A maior parte das composições é de autoria de Sérgio, sendo FrevoKaratê, Eterna, Carta de Amor e Lôro de Egberto Gismonti (uma importante influência no trabalho do duo), e Cadenza de Ana.

O diálogo musical desenvolvido pelo duo no álbum é dos mais fluentes, desrespeitando com muita inspiração e irreverência criativa os limites da música popular e erudita, conseguindo nesse processo uma sonoridade que evoca a riqueza musical de um país cuja cultura é de uma riqueza aparentemente inesgotável, apesar dos muitos pesares.

Centrada na música nordestina mas incorporando diversos outros elementos em sua mistura, a sonoridade desenvolvida por Ana de Oliveira e Sérgio Ferraz neste encantador Carta de Amor e Outras Histórias é a prova de que valeu todo o sacrifício que eles devem ter tido para viabilizar um trabalho tão consistente e ao mesmo tempo tão distante do mainstream. Uma obra de arte!

Ouça Carta de Amor e Outras Histórias em streaming:

Gonzaga Leal e Áurea Martins homenageiam Dalva de Oliveira

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Por Fabian Chacur

Dalva de Oliveira (1917-1972) deixou sua marca na história da música brasileira como uma de suas melhores e mais bem sucedidas cantoras. Ela também pode ser considerada, infelizmente, uma das precursoras da excessiva exposição na mídia atual de artistas, graças a suas intensas e polêmicas relações afetivas. Como forma de homenagear essa personalidade marcante da nossa cultura, o cantor Gonzaga Leal concebeu um show, semente que, agora, dá um fruto dos mais preciosos, o CD Olhando o Céu, Viu Uma Estrela, que gravou ao lado da cantora Áurea Martins.

Com uma carreira repleta de projetos consistentes e de forte conteúdo cultural (leia mais sobre Gonzaga Leal aqui ), este experiente e talentoso artista pernambucano resolveu mergulhar no universo musical de Dalva, repleto de belas canções nas quais o amor é o tema principal e sempre de forma abrangente, indo das paixões arrasadoras aos finais nem sempre muito agradáveis, passando por todas as nuances possíveis.

Dalva de Oliveira foi uma das grandes estrelas da era do rádio no Brasil, e se manteve ativa entre as décadas de 1930 e 1960. Seu casamento com o grande compositor Herivelto Martins, que durou por volta de dez anos, rendeu grandes momentos musicais e também muita confusão, e essa seria a marca de sua vida pessoal. No entanto, sua voz potente e versátil a eternizou, independente de tumultos e ácidas manchetes de jornal.

O repertório do álbum gravado em estúdio nos apresenta alguns dos maiores clássicos do repertório da intérprete oriunda de Rio Claro (SP), sendo seis de autoria de Herivelto. Algumas integram até hoje o imaginário dos fãs da nossa música em função de regravações ocorridas posteriormente, casos de Kalú, Atiraste Uma Pedra, Tudo Acabado e Estão Voltando as Flores.

A direção musical e regência, a cargo de Caca Barreto (também assinou os arranjos) e Cláudio Moura, deram ao álbum uma roupagem delicada e singela, ressaltando dessa forma as belas melodias e as letras inspiradas de cada canção.

A grande sacada do trabalho foi ter sido montado como se fosse uma apresentação radiofônica, entremeando as canções com depoimentos da própria Dalva de Oliveira (gravados em 1970 para o Museu da Imagem e do Som-RJ) e com outras declarações dela interpretadas pela cantora e atriz Marília Barbosa. Também participam a grande Cida Moreira e a talentosa Isadora Melo.

E Gonzaga não poderia ter escolhido melhor a parceira para o álbum. Áurea, há mais de cinco décadas na estrada e dona de uma trajetória artística, musical e pessoal digna e invejável, captou com categoria o espírito deste trabalho, relendo com sensibilidade e alma (e uma voz encantadora) músicas que marcaram a história da nossa música e do nosso país.

Olhando o Céu, Viu Uma Estrela é um daqueles álbuns que já nascem clássicos, e que precisa ser ouvido com atenção, de preferência tendo em mãos o belíssimo livreto que acompanha o CD, que além das letras das canções e da ficha técnica completa, traz também belos textos contextualizando esta obra. Um resgate belíssimo e mais um golaço na carreira desse inquieto Gonzaga Leal.

Ouça Olhando o Céu, Viu Uma Estrela em streaming:

Uma Garota Chamada Marina mostra pistas de Marina Lima

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Por Fabian Chacur

Marina Lima é um enigma dos bons. Uma cantora, compositora e instrumentista que não cabe em padronizações. Que percorreu os mais diversos caminhos musicais, sempre com classe. Que soube vencer o machismo, os rótulos limitantes, os preconceitos, e dessa forma, graças também a muito talento e perseverança, pavimentou uma carreira instigante e repleta de bons momentos. Algumas pistas para entender essa artista incrível estão no documentário Uma Garota Chamada Marina, dirigido por Candé Salles e disponível na programação do Canal Curta! .

Uma das marcas deste documentário de 71 minutos que teve produção de Leticia Monte e Lula Buarque de Hollanda é o fato de não seguir um formato linear. Embora aborde toda a carreira de Marina Lima (leia mais sobre a vida e obra dela aqui), a narrativa se concentra no período entre 2009 e 2019, com ênfase na mudança dela para São Paulo e as razões que a motivaram a fazer isso.

Marina, que é a coautora do roteiro do filme em parceria com a diretora, aparece em entrevistas feitas em momentos diversos, sempre abordando de forma franca temas referentes a sua vida e carreira. A saída do Rio, por exemplo, é justificada assim: “Senti que o Rio queria me enquadrar. Uma coisa cristalizada, tipo ‘o Corcovado, o Pão de Açúcar, Marina Lima’. Não! Tô viva e cheia de ideias!”.

Dessa forma, saiu de lá para mergulhar de cabeça em novos projetos em São Paulo. Um dos pontos máximos dessa mudança é o incrível álbum Climax, de 2011 (leia a resenha aqui), no qual investe em novas sonoridades e se mostra renovada e vibrante, gerando um dos grandes trabalhos musicais desta década.

O profundo relacionamento com o irmão Antonio Cicero, que foi seu principal parceiro de composições durante muito tempo, as novas parcerias musicais, seu relacionamento com os animais de estimação, cenas de shows e a atual namorada (questão que ela aborda de forma discreta e sem alarde) são temas que aparecem durante o filme, além de alguns depoimentos de amigos e colegas. Vale a pena conhecer essa garota. O duro é não se apaixonar por ela…

Veja o trailer de Uma Garota Chamada Marina:

Pet Shop Boys lança um clipe e o seu álbum de inéditas Hotspot

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Por Fabian Chacur

Pet Shop Boys está com novo álbum no mercado. Trata-se de Hotspot, disponível no exterior nos formatos físicos CD, vinil e fita cassete, e no Brasil e exterior nas plataformas digitais. O lançamento é da x2 Records em parceria com a Kobalt, nova casa fonográfica do duo britânico desde 2013, quando deixaram a Parlophone após 28 anos de bem-sucedida parceria com aquela gravadora, hoje parte integrante do conglomerado internacional Warner.

Como forma de divulgar o novo trabalho de Neil Tennant (vocal) e Chris Lowe (teclados), temos o clipe da contagiante Monkey Business, ambientado em uma casa noturna e repleto de energia positiva. O álbum é o terceiro consecutivo do duo produzido por Stuart Price (Madonna, New Order, Kylie Minogue, Scissors Sisters e The Killers, entre outros), unindo-se a Electric (2013) e Super (2016).

Além da ótima Monkey Business, outro destaque do trabalho é a faixa Dreamland (ouça esta música aqui), que conta com a participação especial do Years & Years, trio britânico de synth pop com dez anos de estrada e dois bem-sucedidos álbuns em seu currículo. Wedding In Berlin, com direito à trecho da clássica Marcha Nupcial, também é sensacional.

Aproveitando o embalo, o Pet Shop Boys anuncia uma turnê massiva pela Europa e Reino Unido, com o título Dreamworld: The Greatest Hits Live, que terá início em 1º de maio na Mercedez Benz Arena, em Berlim, com apresentações previstas para grandes espaços e duração prevista para até o fim de junho.

Na estrada desde 1981, o grupo tem como marca sua pegada dançante, com influências de música eletrônica, disco music e também elementos mais introspectivos, que os mantém até hoje nas paradas de sucesso de todo o mundo.

Eis as faixas de Hotspot (ouça em streaming aqui):

1. Will-o-the-wisp
2. You are the one
3. Happy people
4. Dreamland (featuring Years & Years)
5. Hoping for a miracle
6. I don’t wanna
7. Monkey business
8. Only the dark
9. Burning the heather
10. Wedding in Berlin

Monkey Business (clipe)- Pet Shop Boys:

Sheryl Crow esbanja talento e maduridade em trabalho ao vivo

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Por Fabian Chacur

Quando o tema é grandes nomes femininos do rock, dificilmente alguém coloca Sheryl Crow no primeiro escalão. E isso é uma baita de uma injustiça. Algumas razões possíveis ficam por conta de a cantora, compositora e musicista americana ter perfil discreto, não apelar, não se deixar levar por modismos e ser uma fiel seguidora do rock and roll da escola Bob Dylan, Tom Petty, Eric Clapton e outros deste porte. A moça provou mais uma vez sua excelência em Live At The Capitol Theatre (2018), lançado no exterior no formato CD duplo+Blu-ray. Coisa finíssima!

O home vídeo, que integra atualmente a programação do canal a cabo brasileiro Bis, flagra Sheryl em gravação realizada no dia 10 de novembro de 2017 no imponente Capitol Theatre, em Port Chester, New York, local onde monstros sagrados do porte de Dylan, Clapton e o Grateful Dead se apresentaram, e onde ela nunca havia tocado antes. A cantora, então, encerrava a turnê de divulgação de seu mais recente álbum, Be Myself (2017).

Acompanhada por um sexteto caprichado no qual se destacam Peter Stroud (guitarra), Josh Grange (pedal steel guitar) e Jennifer Gunderman (teclados), a roqueira americana mostra sua desenvoltura se alternando entre violão, baixo e guitarra, além de cantar com uma voz potente e com assinatura própria que se mostra afiadíssima aos 55 anos (idade da cantora na época, pois em 11 de fevereiro ela completará 58 anos).

Com boa presença de palco e muita simpatia, Sheryl Crow realiza uma bela viagem pelos seus maiores hits, entre os quais All I Wanna Do, Leaving Las Vegas, If It Makes You Happy, a sublime releitura de The First Cut Is The Deepest (de Cat Stevens, hoje Yusuf) e Soak Up The Sun.

Seis faixas foram selecionadas de Be Yourself, todas ótimas, especialmente a canção que dá nome ao álbum, Atom Bomb e Halfway There. São 21 músicas que nos dão um belo panorama de uma carreira-solo que ultrapassou os 25 anos e é repleta de shows e discos de sucesso. Ela nos visitou em 1995, abrindo os shows de Elton John, e em 2001, no Rock in Rio, com performances impecáveis.

A grande lição que Sheryl Crow nos dá é que, sim, é possível seguir um rumo mais conservador em termos musicais sem necessariamente cair na mesmice ou na mera repetição de fórmulas já apresentadas anteriormente com sucesso. Basta ter o talento, a convicção e a segurança desta grande artista.

O vídeo também traz trechos de uma entrevista na qual a cantora fala sobre sua vida, incluindo a afirmação de que decidiu ter uma carreira-solo ao integrar a banda de Michael Jackson durante a turnê Bad, quando percebeu que gostaria de liderar seu próprio grupo. Vale lembrar que, naqueles shows, ela dividia o microfone com o chefão na música I Just Can’t Stop Loving You, fazendo ao vivo as partes de Siedah Garrett na gravação de estúdio.

All I Wanna Do (ao vivo)- Sheryl Crow:

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