Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: Resenhas (page 1 of 47)

Luiz Millan cria verdadeiro sarau musical em Achados & Perdidos

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Por Fabian Chacur

Embora toque, cante e componha desde os anos 1970, o médico com especialização em psiquiatria Luiz Millan passou a se dedicar com mais força à carreira musical a partir de 2011, quando lançou seu primeiro CD, Entre Nuvens. Desde então, tivemos mais três CDs e um DVD (Dois Por Dois Ao Vivo, leia resenha aqui). Agora, chega a vez de Achados & Perdidos, lançado nas plataformas digitais e também em uma luxuosa edição em CD.

Como tem sido praxe em seus trabalhos, Millan escalou gente do primeiro escalão da música. Temos aqui o consagrado tecladista Michel Freidenson, fiel escudeiro e também coprodutor deste álbum, Sylvinho Mazzucca (baixo), Edu Ribeiro (bateria), Léa Freire (flauta) e Adriana Holtz (celo), entre outros.

Em termos vocais, Millan assume a função de cantor solo em três faixas, e faz duetos em outras quatro canções com uma das grandes revelações das últimas décadas, a cantora e compositora Giana Viscardi. Ela também se incumbe de duas músicas sozinha, e uma em dueto com Mauricio Detoni. As quatro faixas restantes são instrumentais, interpretadas por Michel Freidenson e Grupo.

Pela primeira vez, ele relê canções de outros autores. São quatro: Samba da Pergunta (Pingarilho e Marcos Vasconcellos), Brasil Com S (Rita Lee e Roberto de Carvalho), Não Pode Ser (Marcos e Paulo Sérgio Valle) e Outro Cais (Eduardo Gudin e José Costa Neto). As outras dez são de sua autoria, sendo três (incluindo a faixa-título) escritas com o saudoso Moacyr Zwarg (1945-2017), uma sozinho (em homenagem a Zwarg), duas com Plinio Cutait, uma com Michel Freidenson, outra com Mauricio Detoni, uma com Ivan Miziara e uma com a esposa Marília.

Munido deste repertório de primeiríssima linha, Luiz Millan montou um álbum que equivale a um refinado e delicioso sarau musical, viajando com categoria por diversas vertentes da nossa música popular, com ênfase em bossa nova. Com uma voz muito bem colocada e com timbre equivalente a um intermediário entre Toquinho e João Donato, ele se mostra desenvolto tanto sozinho como nos deliciosos duetos com Giana, cuja performance é sublime, para dizer o mínimo.

Em um momento no qual a cultura brasileira sofre com o criminoso descaso por parte do governo federal e também com as consequências da pandemia do novo coronavírus, é uma verdadeira bênção poder ouvir um trabalho do altíssimo calibre deste Achados & Perdidos. A edição física é simplesmente sublime, com encarte com letras, ficha técnica e fotos dos músicos e de várias fases da vida deste admirável doutor da canção, Luiz Millan.

Ouça o álbum Achados & Perdidos em streaming:

Elton John lança uma parceria com o duo americano Surfaces

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Por Fabian Chacur

Em 2017, os amigos Forrest Frank (vocal e guitarra) e Colin Padalecki (teclados, composições e arranjos) resolveram iniciar uma parceria musical. Nascia o Surfaces, duo que aos poucos vai conquistando bons espaços na cena pop atual. A prova de que a brincadeira começou a ficar séria ocorre agora, quando eles lançam o single Learn To Fly, que conta com a participação mais do que especial de ninguém menos do que Elton John. Eles explicam como surgiu a oportunidade para essa parceria tão especial:

“Depois que gravamos a demo, ela ficou meio que flutuando por aí, até que chegou às mãos de Elton John, que quis fazer parte da faixa. Depois de uma série de sessões em estúdio via Zoom, nós conseguimos gravar juntos em quarentena. Trabalhar com Elton John nos promoveu uma sensação comparável a da ideia de ganhar um Grammy. Ele é tão apaixonado e motivado, nós não poderíamos ter desejado uma colaboração mais fácil do que essa. Nós esperamos que essa canção possa espalhar amor nesse momento em que o mundo tanto precisa, e que possa inspirar as pessoas a abrirem seus corações”.

Sempre atento ao surgimento de novos talentos e disposto a colaborar com essas revelações da música, Elton também comentou sobre a parceria, no mesmo press release enviado à imprensa pela gravadora Universal Music:

“Eu ouvi Sunday Best pela primeira vez na Austrália e eu amei a música, portanto, eu fiquei surpreso quando esses caras vieram até mim e pediram que eu cantasse e tocasse um pouco de piano em Learn To Fly. Eu amei a canção e a produção da faixa que eles me enviaram. Nós gravamos via Zoom em Los Angeles e fui super legal trabalhar em uma gravação não-autoral. Esses meninos são incríveis e nos divertimos muito trabalhando em colaboração”.

Sunday Best (ouça aqui), a canção a que Elton se refere, é faixa do 2º álbum do Surfaces, Where The Light Is (2019), e tornou-se um grande sucesso mundial este ano, invadindo as paradas de sucesso com sua levada leve e pra cima.

Colin e Forrest lançaram três álbuns até o momento: Surf (2017), Where The Light Is (2019) e Horizons (que saiu em fevereiro deste ano). Em tempos tão pesados e inseguros como os atuais, a música do Surface soa como uma espécie de refresco sonoro, com seus vocais delicados, melodias bem concatenadas e variações rítmicas de quem sabe prender o seu ouvinte com categoria.

Entre as várias faixas que lançaram nesses três anos de atividade, bons exemplos desse verdadeiro pop ensolarado são a new bossa eletrônica Good Day (ouça aqui), o reggae Lazy (ouça aqui), a deliciosa r&b Keep It Gold (ouça aqui).

Valendo-se dos mais modernos recursos eletrônicos, mas também explorando sonoridades vintages de instrumentos típicos do pop dos anos 1980, os amigos americanos oriundos do estado do Texas provam que tem potencial para ir longe. Sunday Best atingiu até agora a 19ª posição na parada pop americana, e Learn To Fly pode levá-los a um patamar superior nos charts.

Curiosidade: esta última traz um pequeno trecho melódico que lembra Sukiyaki, hit que chegou ao primeiro lugar nos EUA em 1963 com o cantor japonês Kyu Sakamoto e ao 3º lugar, em versão em inglês, com o A Taste Of Honey em 1980. O trecho é o mesmo que inspirou, consciente ou inconscientemente, Tudo Bem, hit em 1985 com Lulu Santos, aquela do “nem sempre é so easy se viver”.

Learn To Fly (lyric video)- Surfaces + Elton John:

Gabi Doti esbanja sutilezas e talento no álbum Outra Razão

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Por Fabian Chacur

Gabi Doti é uma cantora e compositora uruguaia que está radicada há muito tempo em Brasília (DF). Há aproximadamente dez anos, esta graduada em administração começou a se dedicar à música de forma mais intensa. Em 2014, lançou dois álbuns simultaneamente, Aguas del Tiempo e La Niña en La Pantalla. Em 2018, foi a vez de Mundo Nada Particular, gravado ao vivo. Agora, temos Outra Razão, disponível nas plataformas digitais e também em caprichada versão em CD. E daí, diria o outro?

Basta uma primeira audição deste álbum para se chegar à conclusão de que não se trata de pouca coisa. Não mesmo. Em seus trabalhos iniciais, Gabriela (seu nome de batismo) já dava mostras de que não tinha entrado na cena musical para perder tempo. Com canções de sua autoria consistentes e performances convincentes em shows, a moça conquistou aos poucos o respeito do público de sua cidade. Mas ela percebia que podia ir ainda além.

A sementinha que gerou Outra Razão foi o encontro de Gabi com o consagrado produtor brasileiro radicado há quatro décadas nos EUA Moogie Canazio, que trabalhou com artistas do porte de Caetano Veloso, Rita Lee, Sergio Mendes, Ivan Lins, Simone, Nathan East e Luis Miguel, entre muitos outros. Ao lado de seu verdadeiro braço direito, o tecladista Daniel Baker, ela deu início a um produtivo processo criativo que gerou este novo trabalho.

Gravado no estúdio EastWest Recording, em Los Angeles (EUA), o álbum contou com um time afiadíssimo de músicos, tendo Baker como tecladista. Na guitarra, Tim Pierce, que marcou presença em mais de mil discos de astros do porte de Michael Jackson, Elton John, Bruce Springsteen, Celine Dion e Christina Aguilera. O baixista Sean Hurley, por sua vez, atuou com Annie Lennox, Ringo Starr, Alanis Morissette, John Mayer e Colbie Caillat, só para citar alguns dos craques com quem já trabalhou.

O baterista Jamie Wollam toca há dez anos com o Tears For Fears e completa o time básico que atua no disco, sendo que outro destaque fica por conta do percussionista Rafael Padilla, cujos serviços já foram utilizados por Diana Ross, Shakira, Gloria Estefan e Thomas Dolby, entre outros.

E daí, diria algum cético? Vários discos contaram com Moogie e com esses craques citados e não conseguiram grandes resultados em termos artísticos e comerciais, da mesma forma que muitos times de futebol já reuniram elencos invejáveis que, na prática, deram poucas alegrias a seus torcedores, sendo a fase dos “galácticos” do Real Madrid da década passada um bom exemplo.

Pois aqui reside o grande mérito de Gabi Doti. Sabendo que iria ter a seu serviço gente desse altíssimo gabarito, ela fez a sua lição de casa. Partiu de um universo inicial de 31 composições, reduziu-o com o tempo para 15 (que foram devidamente arranjadas) e, dessas, foram selecionadas as 10 incluídas no álbum.

Dessa forma, a moça soube extrair de seus colaboradores aquilo que sua voz e suas composições necessitava. O resultado certamente agradará quem busca música pop sofisticada e boa de se ouvir, uma mistura de rock melódico, funk de verdade, folk, r&b e um elenco de sutilezas capazes de agradar a ouvidos exigentes, sem cair naquele perigoso território do “ah, como meu umbigo é lindo”.

O trabalho de Gabi nos exibe elementos do pop oitentista, e demonstra influências de gente como Marina Lima, Tanita Tikaram, Joni Mitchell, Carole King, Soraya e Zélia Duncan, só para citar algumas possíveis referências. Mas tudo do seu jeito, com sua própria delicadeza, e com letras falando sobre as idas e vindas do amor e da vida.

O álbum tem início com Verdade Ou Mentira, com sua levada meio hipnótica a la Fullgás, de Marina Lima. Silêncio Capital propõe um clima funk-samba-jazz, como ela própria autodenomina na letra. Eco é um rockão swingado com direito a refrão irresistível e belos vocais, enquanto Nonsense envolve com seu jeitão de pop-rock melódico brasileiro oitentista.

Otra Razón, escrita em castelhano, possui uma levada de balada folk que tem grandes afinidades com uma parte da produção pop dos países portenhos, e cativa com sua sentida melancolia (o clipe que a divulga é belíssimo). Nosso Jeito tem um formato delicioso de rock balada, e arranca arrepios graças a um refrão preciso e um arranjo de cordas simplesmente maravilhoso, do tipo obra prima, bem desempenhado pela Orquestra St. Petesburg.

Spotlight segue com categoria a linha de rock swingado, enquanto Sublimação vai na mesma veia de Verdade Ou Mentira, só que ainda melhor e mais bem resolvida. Iguais é uma balada sweet soul com arranjos de cordas nitidamente lembrando os do genial Barry White, com direito até a aqueles sutis diálogos entre cordas e vocais, outra participação classuda da Orquestra St. Petesburg.

O álbum se encerra com o que é definido pela artista como uma faixa-bônus, que é Good Times, com letra em inglês e uma levada r&b que remete a Lisa Stansfield, Swing Out Sister e um pouco o já citado Barry White.

Outra Razão é um disco para ser ouvido muitas vezes, pois foi concebido com tamanha delicadeza e inspiração que não merece passar batido. Não se encaixa na média do que se faz atualmente no mainstream pop, e isso pode ser um empecilho para que faça muito sucesso, mas possui qualidade suficiente para cativar quem busca aquela consistência e categoria que o pop oitentista, em seus melhores momentos, nos oferecia. E é radiofônico no melhor sentido do termo, ou seja, aquele tipo de som acessível que não brinca com a nossa inteligência.

Ouça o álbum Outra Razão em streaming aqui

Otra Razón (clipe)- Gabi Doti:

Mahmundi investe em um som de banda em seu álbum Mundo Novo

Por Fabian Chacur

Aos 33 anos de idade, Marcela Vale tem muitas histórias para contar. Filha adotada por uma família de evangélicos, a moça se envolveu com a música desde cedo, tocando bateria e violão e cantando em igrejas. Com o tempo, sentiu que era essa musa que desejava seguir. Mas não foi fácil. Durante anos, conciliou trabalhos fora dessa área com a atuação como técnica de áudio e microfonista de lugares como o Circo Voador e a Fundição Progresso.

Há cerca de 10 anos, resolveu encarar o desafio de uma carreira como cantora, musicista e compositora. Desde então, conhecida pelo nome artístico Mahmundi, vai pavimentando uma trajetória das mais interessantes. Efeito das Cores (2012) e Setembro (2013), dois EPs, foram os seus primeiros lançamentos. Em 2016, veio o primeiro álbum, Mahmundi, pelo selo Stereomono-Skol Music.

Sua parceria com a gravadora Universal Music teve início em 2018 com o álbum Para Dias Ruins. Desde o início, mostrou uma voz doce e muito bem colocada, aliada a canções que, como um todo, dificultam uma rotulação. Seria nova MPB, pop, soft rock, eletropop, r&b, reggae, soul? Ou seria tudo isso junto e misturado? Pouco importa, pois a qualidade é o que importa, e é grande.

Mahmundi nos oferece ecos de Corinne Bailey Rae, Marina Lima, Marisa Monte e Erikah Badu, só para citar algumas possíveis referências, mas do seu jeito. Mundo Novo, seu novo álbum, acaba de ser disponibilizado nas plataformas digitais, e tem tudo para ampliar ainda mais os seus horizontes profissionais em termos de público e crítica especializada.

São sete faixas (incluindo uma espécie de vinheta). Uma, inteligentemente escolhida para iniciar a divulgação do trabalho, é a hipnótica Nova TV, uma das duas parcerias com o artista carioca Castello Branco incluídas neste álbum (a outra é Nós de Fronte). Trata-se de uma gravação absolutamente perfeita, que te prende do primeiro ao último segundo, com letra e melodia envolventes.

Sem Medo, parceria com Felippe Lau, fecha o lado autoral. Convívio (Paulo Nazareth) e Vai (Frederico Heliodoro), de dois talentosos compositores da nova geração, estão aqui. O repertório é fechado com uma bela releitura de No Coração da Escuridão, composição de Dadi e Jorge Mautner gravada pelo primeiro originalmente em seu autointitulado álbum de 2005 com marcante participação de Caetano Veloso nos vocais.

Mundo Novo equivale a um álbum conciso (tem pouco mais de 20 minutos de duração) que deixa aquele adorável gostinho de quero mais, amostra luxuosa de uma artista que tem tudo para pavimentar uma discografia preciosa. Em entrevista por telefone a Mondo Pop, a artista carioca atualmente radicada em São Paulo nos dá algumas pistas de suas intenções musicais.

MONDO POP- Como foi o seu encontro com a música, e o que você ouvia quando criança e adolescente?
MAHMUNDI
– Minha educação musical foi muito restrita à música gospel, pois meus pais são religiosos. Ouvia música gospel americana e brasileira. Comecei, na igreja, a tocar violão e bateria. Só depois fui ouvir outras coisas, como Legião Urbana, Oasis, Keane, Avril Lavigne.

MONDO POP- Qual a diferença básica do conceito deste novo trabalho em relação aos anteriores?
MAHMUNDI
– Tenho uma assinatura estética em cada um deles. A ideia em Mundo Novo era fazer algo que soasse mais como uma banda, saindo da produção sozinha, dos sintetizadores e tudo mais. Então, partimos pra um trabalho com coprodução do músico Frederico Heliodoro, que trouxe suas referências de música instrumental. Eu assino a direção e a produção musical e ele fez a coprodução do álbum.

MONDO POP- Mundo Novo tem uma duração de 22 minutos, não muito comum em álbuns tradicionais. Há quem rotule um trabalho com essa duração como EP. Como você encara essa questão?
MAHMUNDI
– Para mim, esse trabalho é um álbum, pois tem um formato atual, adaptado para os dias atuais. Toda a concepção dele é a de um álbum, desde a seleção de faixas até a concepção final, capa, encarte etc.

MONDO POP- Esse é o seu segundo álbum lançado por uma gravadora grande, a Universal Music. Como está sendo a relação entre vocês?
MAHMUNDI
– Minha relação com a Universal é maravilhosa. Eu cuido de tudo em termos artísticos e criativos, e eles me dão todo o apoio necessário na parte de divulgação. A sugestão de que Nova TV fosse a primeira faixa de trabalho, por exemplo, foi uma sugestão deles que acabei aceitando.

MONDO POP- Aliás, já que tocamos nessa faixa, fale um pouco sobre ela.
MAHMUNDI
– É uma parceria com o Castello Branco, que é um artista carioca maravilhoso. Vi um texto dele em uma rede social, gostei muito e adaptei para a criação desta canção. Adoro TV, ver o que as pessoas fazem nos botecos, sair dessa visão de Sudeste que as pessoas tem do Brasil. Somos muito presos aos celulares, e essa música fala sobre isso.

MONDO POP- Como surgiu a ideia de reler No Coração da Escuridão?
MAHMUNDI
– Conheci o Dadi quando ele tocava com a Ana Cañas, em um show no Circo Voador. Eu nem sabia quem ele era, e vi que ele tocava muito, fiquei impressionada como ele era bom. Fiquei amiga dele, e depois fui saber de tudo o que ele já tinha feito em sua carreira. É uma pessoa muito profunda. Este álbum é um encontro muito bonito entre eu e outras pessoas, conectei-me com o melhor das pessoas envolvidas neste trabalho.

MONDO POP- O título do seu disco anterior é Para Dias Ruins. Este é Mundo Novo. No caso do que você está lançando agora, isso tem a ver com o que estamos vivendo nesse momento atual?
MAHMUNDI
Mundo Novo é uma relação muito pessoal, muito comigo mesma, comecei a criar o conceito desse trabalho em 2019. Fiz psicanálise e me descobri muito nesse processo. Quanto ao que está acontecendo hoje, não dá pra ficar só batendo panelas, só reclamando. Não podemos nos bloquear, é preciso seguir em frente, pois isso vai passar. O brasileiro consegue de um jeito muito espirituoso resolver as coisas.

Nova TV– Mahmundi:

Cosmo’s Factory (1970), o auge do Creedence Clearwater Revival

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Por Fabian Chacur

Nesta quinta (28), John Fogerty completa 75 anos de idade. Em abril, Doug Cosmo Clifford (no dia 24) e Stu Cook (no dia 25) atingiram a mesma idade. Como forma de homenagear esses três grandes músicos, resolvi mergulhar de cabeça no mais bem-sucedido álbum da carreira da banda que os consagrou, o Creedence Clearwater Revival. Trata-se de Cosmo’s Factory, que no dia 25 de julho celebrará 50 anos de seu lançamento. A homenagem também se estende ao quarto integrante do time, o saudoso Tom Fogerty (9-11-1941/6-9.1990).

Em 1970, poucas bandas de rock se aproximavam do Creedence Clearwater Revival em termos de popularidade. Em um período de dois anos, haviam lançado quatro álbuns que atingiram os primeiros postos das paradas de sucesso do planeta, todos recheados de singles certeiros, entre os quais Proud Mary, Suzy Q, Down On The Corner, Green River e Fortunate Son, só para citar alguns. Como explicar tanto sucesso e produtividade artística em tão curto período de tempo?

Não, o CCR não surgiu do nada. Na verdade, os colegas de ginásio John, Doug e Cook tocavam juntos desde o finalzinho dos anos 1950, quando ainda eram adolescentes imberbes. Pouco depois, Tom, o irmão mais velho de John, entrou no time, na época intitulado The Blue Velvets. Durante anos, o quarteto tocou em bares, e gravou singles a partir de 1961, inicialmente como Tommy Fogerty & The Blue Velvets e também Tommy Fogerty & The Blue Violets.

Em 1964, foram contratados pela Fantasy Records, agora batizados de The Golliwogs. Eles lançaram diversos singles, mas sem o desejado sucesso comercial. Pode-se dizer que, dessa forma, os garotos fizeram o seu caminho das pedras, aprendendo a tocar e gravar e conquistando dessa forma um entrosamento impressionante. Em 1966, John e Clifford tiveram de servir o exército, mas nem isso baixou a guarda do grupo.

Mudança de nome e o sucesso enfim se concretiza

O ponto de mudança ocorreu em 1967, quando a Fantasy Records foi adquirida pelo ambicioso Saul Zaentz. Ele viu o enorme potencial daquele quarteto endiabrado e resolveu apostar de vez nele, mas com uma condição: deixar o tolo nome Golliwogs e adotar outro mais palatável. A sugestão foi aceita.

No início de 1968, o agora rebatizado Creedence Clearwater Revival vinha à tona. Naquele mesmo ano, no mês de maio, lançou seu autointitulado álbum de estreia, de sucesso moderado, mas com um single matador, Suzie Q (releitura do clássico rockabilly de Dale Hawkins), que chegou ao 11º lugar nos EUA.

O ano de 1969 marcou um verdadeiro tsunami roqueiro por parte de John Fogerty e seus asseclas. Em apenas 12 meses, lançaram três álbuns de muito sucesso, Bayou Country, Green River e Willy And The Poor Boys, que atingiram, respectivamente, as posições de nº 7, 1 e 3 nas paradas americanas. De quebra, ainda tocaram com destaque no festival de Woodstock.

Uma proposta sonora atípica ganha o público

O mais impressionante é situar o CCR em meio ao que ocorria na época. O rock vivia um momento de mudanças, com gêneros como o hard rock, o heavy metal e o psicodelismo dando as cartas. E o que o quarteto californiano oferecia ao público? Uma sólida releitura do rock and roll original, com direito a rockabilly, country, blues e soul na mistura. “É onde o country e o rhythm and blues se encontram que fica o meu lugar favorito”, disse John Fogerty em entrevista a Craig Rosen para o livro The Billboard Book Of Number One Albums.

Lógico que esse coquetel molotov sonoro só atingiu esse sucesso todo devido ao imenso talento dos músicos envolvidos. É a chamada simplicidade sofisticada, algo muito difícil de se concretizar. De cara, o vozeirão inconfundível de John, somado ao seu talento como compositor e guitarrista-solo.

A seu lado, um certeiro guitarrista-base (seu irmão Tom) e uma das melhores cozinhas rítmicas da história do rock. O extremamente eficiente Cook encaixava seu baixo com perfeição na sólida batida de Clifford, um dos melhores bateristas de rock de todos os tempos, verdadeira usina rítmica que merecia ser mais reverenciada pelos críticos e público em geral.

O disco-síntese de uma banda seminal

É nesse momento de puro êxtase artístico e comercial que Cosmo’s Factory vem à tona. O nome do álbum tem a ver com o lugar onde o quarteto realizava os seus ensaios, localizada em um espaço situado na casa do baterista da banda, cujo apelido Cosmo vem desde seus tempos de moleque. O jeitão de fábrica valeu o apelido ao local, que é exatamente onde a foto da capa do álbum foi registrada.

A ideia de John Fogerty era que o álbum se tornasse uma espécie de auge desses anos iniciais do CCR, e seu desejo não poderia ter se concretizado de forma mais cristalina e potente. O álbum atingiu o topo da parada americana, permanecendo por lá durante nove longas semanas e ultrapassando a marca de quatro milhões de cópias nos EUA desde então.

Trata-se de uma espécie de disco-síntese da banda, ao trazer em suas 11 faixas bons exemplos das variações sonoras que se propôs a fazer durante sua carreira, além da bela mistura de composições próprias de John com releituras de clássicos alheios. Vale uma análise faixa a faixa, para explicitar isso.

As faixas de Cosmo’s Factory

Ramble Tamble (J.C. Fogerty)- Nada melhor para abrir um álbum de puro rock como esta aqui. Com mais de 7 minutos de duração, começa e termina com levada rockabilly, e possui várias mudanças de andamento no meio, ficando mais rápida e mais lenta e com direito a belos solos.

Before You Accuse Me (Bo Diddley)- Um clássico do repertório do célebre bluesman roqueiro merece uma releitura vigorosa mostrando o jeito próprio de abordar o blues do CCR.

Travelin’ Band (J.C. Fogerty)- Rock and roll cinquentista típico, clara homenagem a Little Richard, de quem o CCR regravou Good Molly Miss Molly no álbum Bayou Country (1969). Fogerty chegou a ser incomodado pela editora de vários hits de Richard sob acusação de plágio, mas acabou dando em nada. O famoso “parece mas não é”.

Ooby Dooby (Moore-Penner)- O primeiro hit de Roy Orbison, em seus tempos de Sun Records, é relido de forma ao mesmo tempo reverente e energética, com muito balanço e categoria.

Lookin’ Out My Back Door (J.C. Fogerty)- O momento mais country do álbum, com pique dançante e um delicioso sotaque caipira.

Run Through The Jungle (J.C. Fogerty)- O rótulo swamp rock criado por um crítico para definir o som da banda tem neste rock balançado com elementos do som de Nova Orleans um bom exemplo. Matadora!

Up Around The Bend (J.C. Fogerty)- Um rockão sacudido com riff de guitarra ardido e inconfundível. Aqui, o estilo próprio do CCR se mostra de forma mais explícita.

My Baby Left Me (Arthur “Big Boy” Crudup)- Regravação vigorosa de clássico do mesmo autor de That’s All Right, o primeiro sucesso de Elvis Presley. Aliás, Elvis também regravou essa música. Fica difícil dizer quem a releu melhor, mas creio que o Creedence ganhe por pequena diferença.

Who’ll Stop The Rain (J.C. Fogerty)- Delicioso rock balada no qual Fogerty aproveita para falar sobre a Guerra do Vietnã, algo que poucos esperariam em uma canção tão delicada e melódica.

I Heard It Through The Grapevine (Norman Whitfield-Barrett Strong)- Este clássico do songbook da Motown Records possui três versões espetaculares, todas com muito sucesso: a de Marvin Gaye, a de Gladys Knight And The Pips e esta aqui. A do CCR cativa pela longa duração, mais de 11 minutos, uma batida sólida, dançante e constante e uma performance absurda dos músicos, improvisando com foco e sem perder o prumo.

Long As I Can See The Light (J.C. Fogerty)- Para encerrar o álbum, nada melhor do que uma fantástica balada soul, na qual John tem uma performance certeira nos vocais e ainda toca sax, de quebra.

A reedição de Cosmo’s Factory lançada em 2008 traz, além de um belo encarte com fotos, ficha técnica e texto informativo e opinativo do consagrado crítico Robert Cristgau, três faixas-bônus: uma versão alternativa de Travellin’ Band, uma gravação ao vivo de Up Around The Bend e uma gravação (infelizmente com baixa qualidade técnica) de Born On The Bayou reunindo o CCR com o mitológico grupo Booker T & The MGs.

obs.: a primeira edição de Cosmo’s Factory lançada no Brasil em vinil veio com duas faixas diferentes. Ninety Nine And a Half (Steve Cropper, Eddie Floyd, Wilson Pickett), lançada originalmente no álbum de estreia do CCR, entrou no lugar de Travellin’ Band, enquanto The Working Man (J.C. Fogerty), também do primeiro álbum do grupo, veio na vaga de Who’ll Stop The Rain. Os relançamentos posteriores em vinil e depois em CD em nosso país trouxeram a seleção original de faixas. Obrigado aos amigos Emilio Pacheco e Valdir Angeli por essa informação, que adicionei após ter publicado este post.

Ouça Cosmo’s Factory em streaming:

Tuia relê canções alheias e as próprias em seu novo álbum

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Por Fabian Chacur

Se estivéssemos na era medieval, Tuia certamente seria um daqueles trovadores, viajando por todas as cortes e reinados com seu instrumento musical para cantar as idas e vindas do amor perante as mais diversas plateias. De certa forma, é exatamente isso o que ele faz em 2020. Na estrada desde os anos 1990, o cantor, compositor e músico paulista tem um currículo dos mais respeitáveis (leia mais sobre ele aqui), e agora lança Versões de Vitrola Vol.1 (Kuarup), nos formatos CD e digital.

Em sua rica trajetória profissional, Tuia consolidou uma sonoridade que tem tudo a ver com o rock rural brasileiro, pois mistura com categoria e do seu jeito rock, country, folk, MPB e música caipira. Não por acaso, atraiu as atenções dos craques dessa praia, entre os quais Zé Geraldo, Tavito, Renato Teixeira e Guarabyra, com quem já trocou belas figurinhas em shows e discos.

Este novo trabalho o flagra em um momento de releituras. Temos aqui oito canções, sendo seis composições alheias e duas de sua autoria, nenhuma delas inédita. Linda Juventude, grande hit com o 14 Bis nos anos 1980, aparece em duas versões, uma acústica e outra com banda, ambas contando com a delicada participação da cantora e compositora paranaense Ana Vilela.

A consagrada estrela paraibana Elba Ramalho, por sua vez, marca presença na nova gravação de uma das canções mais bem-sucedidas de Tuia, a lírica Céu, em dueto que funcionou às mil maravilhas.

A única música que foge das fronteiras do som rural brasileiro é Tudo é Possível, rock de Kiko Zambianchi lançado pelo autor em seu álbum Disco Novo (2001) e que aqui surge em um arranjo mais afeito ao universo do country. Aliás, o ponto alto do disco é exatamente esse: as canções surgem repaginadas com assinatura própria de Tuia, mas sem perderem suas espinhas dorsais.

Chalana, clássico de Mário Zan e Arlindo Pinto que muita gente conheceu nas versões de Sérgio Reis e Almir Sater, aparece aqui com jeitão folk rock.

Espanhola, megahit escrito por Guarabyra e Flávio Venturini, renasce como uma power ballad, enquanto Senhorita, do grande Zé Geraldo, virou um country rock encapetado. Flor, a outra composição de Tuia incluída neste CD, surge levemente diferente de gravações anteriores.

Completa o repertório a maravilhosa Começo Meio e Fim (Tavito, Ney Azambuja e Paulo Sérgio Valle), que fez sucesso nas gravações do próprio Tavito e do Roupa Nova. Nela, assim como nas outras, Tuia nos oferece suas interpretações apaixonadas, nas quais se entrega às canções sem medo de ser feliz, e por tabela consegue cativar seus inúmeros fãs pelo Brasil afora.

Versões de Vitrola Vol.1 é daqueles trabalhos de sofisticada simplicidade que transmite ao ouvinte paz, emoção e alegria, especialmente em tempos tão confusos e conturbados como os atuais. Que o nosso querido trovador possa continuar cumprindo seu ofício com essa categoria e sensibilidade por muitos e muitos anos. E que venha em breve o Volume 2 dessa parada aí!

Céu (lyric video)- Tuia e Elba Ramalho:

Diana Ross lança novo álbum de remixes Supertonic Mixes dia 29

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Por Fabian Chacur

Com mais de cinco décadas de carreira, Diana Ross ainda mostra fôlego para invadir as paradas de sucesso. Em 2017, o remix de seu clássico hit Ain’t No Mountain High Enough (ouça aqui) atingia o topo da parada Dance Club Songs da Billboard, a bíblia da indústria fonográfica mundial. Era o início de uma série de quatro hits número 1 nas mesmas listas- os outros são I’m Coming Out/Upside Down (ouça aqui), The Boss (ouça aqui) e Love Hangover (ouça aqui). E não é só isso.

Além de disponibilizar uma quinta faixa com as mesmas características, It’s My House (será que também chegará ao topo?), a ex-cantora das Supremes e uma das maiores divas da história da música promete para o dia 29 deste mês um álbum com estas e outras pérolas de seu longo currículo de sucessos em versões repaginadas. Trata-se de SUPERTONIC Mixes, que aqui só chegará às plataformas digitais, mas que no exterior terá versões em CD e LP.

Com produção da própria Diana, o trabalho teve como autor dos remixes o badalado produtor, músico, compositor e remixador americano Eric Kupper, que desde meados dos anos 1980 se firmou como um dos mais bem-sucedidos nessa área, tendo feito trabalhos para artistas como Whitney Houston, Janet Jackson, Sheryl Crow, Lenny Kravitz, New Order, Depeche Mode, Donna Summer, Myley Cyrus e inúmeros outros do mesmo alto calibre.

Lógico que as versões originais desses grandes sucessos continuam sendo as melhores, mas essas releituras equivalem a uma nova visão de grandes canções, e não as invalidam, além de preservarem a essência de cada uma delas, o que não é pouco. Nada mal para uma artista tão celebrada e que em 2019 recebeu uma homenagem na cerimônia do Grammy, o Oscar da música, em função de tudo o que conquistou nesses anos todos.

It’s My House (remix)- Diana Ross:

Samba de Rainha lança clipe caseiro de Fé Não é Pequena

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Por Fabian Chacur

Como forma de dar uma espairecida nesses tempos estranhos e ao mesmo tempo inspirar sentimentos positivos nas pessoas, o grupo Samba de Rainha acaba de disponibilizar o clipe com uma gravação inédita. Trata-se de Fé Não é Pequena, composição de Aidée Cristina gravada pelas garotas por via remota. As cenas registram cada uma delas em suas residências, com gravações feitas a partir de celulares.

A música é um sambão contagiante, que a vocalista Núbia Maciel defende com a categoria habitual, muito bem acompanhada por suas atuais parceiras. A letra é bem otimista e traz palavras e expressões muito utilizadas por nós desde o início do isolamento social no Brasil. O Samba de Rainha (leia mais sobre esse grupo incrível aqui) curtiu tanto realizar este clipe que promete novidades por aí.

A ideia é lançar novas canções uma a uma. Teremos faixas autorais e também a releitura de um clássicos dos Novos Baianos cujos direitos autorais estão sendo devidamente acertados. Elas pretendem, futuramente, fazer uma gravação mais elaborada em termos técnicos de Fé Não é Pequena. Como diria outro samba clássico de um certo Martinho da Vila “canta, canta minha gente, deixa a tristeza pra lá, canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar”.

Fé Não é Pequena (Aidée Cristina)

Não deixo ser de medo
O meu bom dia
Vou vibrando na alegria
Isso logo vai passar
Compartilhando
Mesmo que seja de longe
Meu tambor e seu canto
Põe amor no mundo
Chama para somar
Canto pra mostrar
Que a minha fé
Não é pequena
Só vejo Luz na janela
Da minha quarentena…
Canto pra mostrar
Que a minha fé
Não é pequena
Só vejo Luz na janela
Da minha quarentena…

Participaram do clipe:
Aidée Cristina – surdo
Erica Japa – rebolo
Karinah Oliveira – violão
Luana Souza – pandeiro
Marina Marques – bateria
Núbia Maciel – voz
Sandra Gamon – percussão
Thais Musachi – cavaco

Fé Não é Pequena (clipe)- Samba de Rainha:

Edy Star mostra sua incrível carreira em documentário

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Por Fabian Chacur

O Brasil tem como uma de suas marcas a capacidade de gerar grandes talentos nas mais distintas áreas, mesmo sem dar o devido apoio ou valor a essas pessoas. Edy Star é um bom exemplo. Este incrível cantor, compositor, ator, dançarino, produtor teatral, apresentador de TV e artística plástico baiano tem uma carreira com mais de 60 anos de estrada e repleta de grandes momentos. O documentário Antes Que Me Esqueçam Meu Nome é Edy Star (2018), que está na programação do canal a cabo Music Box Brasil, faz jus a esse artista de talento absurdo.

Nascido em Juazeiro (BA) em 10 de janeiro de 1938, Edy se embrenhou pelo meio artístico ainda criança, no teatro, e rapidamente foi ampliando seus horizontes profissionais. Após anos como apresentador de um programa de TV na Bahia, ele se uniu ao amigo Raul Seixas e, junto com Miriam Batucada e Sérgio Sampaio, gravou em 1971 o mitológico álbum Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, que vendeu pouco mas com o tempo se tornou cultuado e posteriormente relançado em vinil e CD.

Com o insucesso do álbum, ele teve de se virar fazendo apresentações em boates em região barra pesada do Rio de Janeiro, e seu talento como show man o levou a ser a estrela na boate Number One, onde João Araújo, da gravadora Som Livre, o convidou para gravar o que seria Sweet Edy (1974). Este álbum traz canções feitas especialmente para ele por astros do alto calibre de Gilberto Gil, Roberto e Erasmo Carlos, Moraes Moreira e Galvão, Caetano Veloso, Renato Piau, Jorge Mautner e Getúlio Cortês.

Embora com um repertório ótimo e interpretações marcantes, o disco foi outro retumbante fracasso, e seguiu o mesmo rumo do anterior, tornando-se uma raridade disputada a murros nos sebos da vida, com relançamento ocorrido apenas em 2012 no formato CD e há pouco em vinil. O disco traz uma mistura de rock e outros ritmos, em retrato bem fiel do que Edy chama de “cabaretear”, ou seja, seu estilo versátil e criativo.

Sem baixar a cabeça, ele seguiu adiante, estrelando a montagem brasileira do espetáculo Rocky Horror Show e depois espetáculos de teatro de revista. Neles, esbanjava talento, cantando, dançando, atuando e cativando o público com seu carisma. Durante os anos 1980, no entanto, especialmente devido à disseminação do vírus HIV no Brasil, os espaços diminuíram bastante por aqui.

Em 1992, resolveu mudar para a Espanha, onde viveu durante longos 18 anos, firmando-se na cena teatral de lá e conseguindo até mesmo a cidadania espanhola, que se mostrou fundamental para que pudesse combater um câncer que o acometeu e que ele superou após três meses de tratamento.

Um convite para participar da Virada Cultural em São Paulo em 2009, no qual interpretou com muito sucesso de público e crítica e na íntegra o álbum que gravou com Raul Seixas, Miriam Batucada e Sergio Sampaio, serviu como incentivo para voltar ao Brasil, o que se concretizou em 2010.

Em 2016, recebeu o convite de Zeca Baleiro para gravar um novo álbum pela gravadora do artista maranhense, a Saravá Discos. O trabalho, simplesmente excelente, saiu em 2017, Cabaré Edy, e é outro evento, com músicas de Caetano Veloso (que também participa do álbum), Gilberto Gil, Sergio Sampaio, Zé Rodrix, Odair José, Herivelto Martins e outros, e participações de Ney Matogrosso, Angela Maria, Zeca Baleiro, Felipe Catto e gravações inseridas de forma póstumas de Raul Seixas e Emilio Santiago.

As gravações de Cabaré Edy são o mote para o documentário dirigido por Fernando Moraes. Entre ensaios e sessões, o artista dá deliciosos depoimentos contando suas incríveis histórias dessas décadas de carreira. A forma como, por exemplo, conheceu Caetano Veloso quando o hoje monstro sagrado da MPB era apenas um adolescente com vagas ambições artísticas.

O fato de ter assumido desde sempre a homossexualidade e o preço que pagou por isso também permeia o filme, assim como sua eterna disposição em superar as dificuldades e de não se glamurizar demais. Por exemplo, ele vai direto ao ponto sobre o porque foi para a Espanha: “eu estava morrendo de fome, não tinha trabalho no Brasil, então fui para lá para tentar sobreviver, não teve badalação nenhuma!”, registra.

Além dessas cenas atuais, o diretor nos oferece um maravilhoso material de arquivo que registra todas essas fases vividas pelo artista baiano, e também entrevistas recentes com Caetano, Zeca Baleiro e outros artistas que conviveram e trabalharam com ele. Tudo de forma bem-humorada e com uma edição que torna o documentário delicioso de se conferir.

Antes Que Me Esqueçam Meu Nome é Edy Star vale como necessário e maravilhoso registro da trajetória de um artista completo que com seu talento e persistência não só sobreviveu em um meio tão selvagem e difícil como o artístico como de quebra construiu trajetória exemplar e digna de aplausos. Que essa obra nunca seja esquecida, e que sirva de referência para as novas gerações.

Veja o trailer do documentário de Edy Star:

The Rolling Stones a mil por hora mesmo durante uma pandemia

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Por Fabian Chacur

Para uma banda com inacreditáveis 58 anos de vida, os Rolling Stones estão esbanjando energia. Após sua marcante participação no festival virtual One World Together At Home no último dia 18, no qual fizeram uma inesquecível performance com o clássico You Can’t Always Get What You Want (veja aqui), a banda disponibilizou nesta quinta (23) o clipe de uma canção inédita. Das boas, por sinal.

Trata-se de Living in a Ghost Town. A música foi composta e teve suas bases gravadas em 2019, mas Mick Jagger e sua turma alteraram a letra e a finalizaram no isolamento, de forma remota ou coisa que o valha. O clipe mescla cenas do quarteto em estúdio registradas em preto e branco mescladas com outras coloridas flagradas nas cidades vazias devido à quarentena gerada pelo novo coronavírus, algumas delas aceleradas, com belo resultado.

A letra traz como principais versos “I’m a ghost, living in a ghost town” (sou um fantasma vivendo em uma cidade fantasma, em tradução livre), refletindo de forma crua o sentimento das pessoas nesses dias tão estranhos e irreais que estamos vivenciando nessas semanas recheadas de distopia e surrealismo do mal. Com levada em andamento médio (nem balada, nem acelerada) e em tom menor, traz eco de canções como Miss You e Harlem Shuffle, com direito a um solo de gaita por parte de Mick Jagger (cantando melhor do que nunca).

Trata-se da primeira faixa inédita da banda desde 2012, quando lançaram a coletânea Grrr!, na qual incluíram as então novas Doom And Gloom e One More Shot. O último trabalho só de inéditas é A Bigger Band (2005), enquanto o mais recente é o álbum de covers Blue & Lonesome (2016).

Os Stones deveriam iniciar no dia 5 de maio sua turnê No Filter 2020, que se estenderia até o dia 9 de julho e passaria pelos EUA e Canadá, com prováveis datas por outros países na sequência. Os shows foram adiados por causa da pandemia, ainda sem nova agenda divulgada. A banda também estava preparando um novo álbum, cujo lançamento também ainda não está devidamente programado. Mas a amostra entusiasma.

Living in a Ghost Town (clipe)- The Rolling Stones:

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