Mondo Pop

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Category: Resenhas (page 1 of 54)

Lô Borges e Milton Nascimento juntos em um novo e belo single

Lô e Milton - crédito Marcelo Pianetti

Por Fabian Chacur

Há certas dobradinhas que nunca dão errado, ocorram onde e quando ocorrerem. A que envolve Milton Nascimento e seu afilhado artístico Lô Borges se encaixa feito luva nessa descrição. E novamente equivaleu a uma bola no ângulo do goleiro adversário. Os dois colegas do lendário Clube da Esquina estão juntos em Veleiro, primeiro single a ser divulgado do novo projeto de Lô que incluirá parcerias dele com sua esposa, a letrista Patricia Maês. A balada roqueira com teor psicodélico já está nas plataformas digitais via gravadora Deck e também é divulgada por um belo lyric video.

A nova música, e por tabela o álbum como um todo, trará como novidade o fato de Lô ter deixado a guitarra e o violão de lado por enquanto para investir em um órgão, no qual compôs e tocou as canções. Trata-se de uma novidade em sua carreira. Além dele, participaram das gravações Henrique Matheus (guitarra, violão e bandolim), Thiago Corrêa (baixo, teclados e percussão) e Robinson Matos (bateria). O novo álbum ainda não tem data de lançamento divulgada.

Veleiro (lyric video)- Lô Borges e Milton Nascimento:

ABBA volta após 40 anos com um belo exercício de estilo, Voyage

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Por Fabian Chacur

Outro dia, um grande amigo meu, o talentosíssimo crítico musical (ele vai me matar ao ler isso!) Zeca Azevedo definiu o álbum de estreia do supergrupo de r&b Silk Sonic como um “exercício de estilo”, ou seja, um trabalho que não nos oferece novidades e gira em torno de uma determinada sonoridade pré-existente, o que pode gerar álbuns bem legais. Bem, Voyage, o álbum que nos traz de volta o Abba após quatro longas décadas, é basicamente isso: um grupo histórico mergulhando em seu próprio jeitão de fazer música. E como deu certo!

A coisa começa bem logo na opção que Benny Andersson e Bjorn Ulvaeus, os músicos, compositores e produtores do seminal grupo sueco, tiveram de reunir um total de dez músicas no álbum, com uma duração total que equivale a de um LP de vinil de antigamente. Nem mais, nem menos, na medida certa, sem gorduras ou aquilo que na língua inglesa se define como “filler”, ou, em português mais avacalhado, de “encher linguiça”. Voyage não faz você perder o seu tempo.

A coisa começa com tudo, com a balada épica I Still Have Faith In You, de início mais contido e com uma explosão de emoções logo a seguir. Nela, uma marca registrada do Abba se mostra mais afiada do que nunca: os arranjos vocais, sempre precisos tanto nas intervenções solo das cantoras Agnetha Faltskog e Anni-Frid Lyngstad como nos sempre categóricos corais, capazes de cativar os ouvintes com rara facilidade. E as vozes do quarteto estão ótimas!

O lado mais folk-pop do quarteto aparece em When You Danced With Me. Uma marca do grupo, aquelas canções pop com leve influência erudita, surge em Little Things e Bumblebee. Don’t Shut Me Down mescla pop eletrônico com orquestra, enquanto I Can Be That Woman traz como marcas um romantismo mais denso também com adereços orquestrais bastante delicados e elogiáveis.

Just a Notion investe bem naquele estilo pop-rock nostálgico e dançante que o quarteto usou em hits anteriores. Ainda na esteira do rock, mas com umas guitarras um pouquinho mais ardidas, No Doubt About It pega na veia, enquanto Keep An Eye On Dan mostra a habilidade da banda na área do pop eletrônico, com uma discreta citação do hit S.O.S. no seu finalzinho.

O álbum é encerrado com outra canção de teor épico, a deliciosa Ode To Freedom, com direito a arranjo orquestral enxuto e ótimos vocais. O álbum atingiu o topo da parada britânica e o 2º lugar nos EUA, este último o melhor desempenho de um álbum do Abba no mercado norte-americano. Sem flertar com modernidades, mas sem soar empoeirado ou repetitivo, Voyage é certamente um retorno à altura para este grupo que tanto nos encantou em eras passadas.

Ouça o álbum Voyage, do Abba, em streaming:

Chico Buarque aparece sob vários ângulos em novo livro

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Por Fabian Chacur

Durante o processo de pesquisa para a realização de Revela-te Chico- Uma Fotobiografia (2018), seu autor, Augusto Lins Soares, encontrou depoimentos e textos diversos sobre Chico Buarque, todos muito interessantes. Surgia ali a semente para Meu Caro Chico-Depoimentos (256 páginas, preço médio R$65), não por acaso lançado agora pela mesma Editora Francisco Alves responsável pela comercialização do 1º livro do autor de Construção, A Banda- Manuscritos de Chico Buarque de Hollanda (1966).

Esta nova publicação equivale a uma espécie de perfil de Chico Buarque criado a partir da visão de 60 pessoas diferentes, entre músicos, intelectuais, jornalistas, cineastas, escritores, amigos etc. Temos textos que abrangem desde o ano de 1966 até os dias de hoje, sendo alguns produzidos especialmente para o livro do arquiteto, diretor de arte e autor de fotobiografias pernambucano.

O elenco não poderia ser mais variado, e inclui desde o pai do artista, o intelectual Sérgio Buarque de Hollanda, até o funkeiro Rafael Mike, que participou da faixa Caravanas, gravada pelo astro em 2017. Entre outros, temos aqui textos de Caetano Veloso, José Saramago, Vinícius de Moraes, Cacá Diegues, Clarice Lispector, Bruna Lombardi, Tom Jobim, Clara Nunes, Carlos Drummond de Andrade, Glauber Rocha, Maria Rita Kehl e Bob Wolfenson.

Os textos vão desde curtos depoimentos sobre Chico até descrições de experiências pessoais com ele, análises um pouco mais extensas de trabalhos específicos (álbuns, canções etc) e pequenas revelações sobre suas características pessoais. Drummond, por exemplo, faz uma crônica sobre A Banda no momento em que a canção se tornava mania nacional em 1966. O fotógrafo Bob Wolfenson, por sua vez, conta como conseguiu fazer uma foto do cantor com o peito à mostra. E por aí vai.

Lógico que alguns dos textos são mais significativos do que outros, mas até isso nos proporciona um retrato bastante interessante do artista, no sentido que vermos o que ele despertou em cada uma dessas 60 pessoas tão diferentes entre si, mas todas admiradoras deste grande cantor, compositor, músico e escritor brasileiro. Mesmo quem já leu tudo o que há de disponível sobre Chico Buarque (e não é pouca coisa) certamente encontrará saborosas novidades neste ótimo Meu Caro Amigo-Depoimentos.

Meu Caro Amigo (ao vivo na TV)- Chico Buarque:

Suck This Punch oferece peso e qualidade artística em seu 2º CD

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Por Fabian Chacur

O Suck This Punch surgiu em Limeira (SP) em 2015, e lançou naquele mesmo ano seu álbum de estreia, Fire, Cold And Steel. Desde então, fez inúmeros shows, mudou de formação e consolidou um estilo próprio de rock pesado. O vocalista Tadeu Bon Scott hoje tem a seu lado Phil Seven (guitarra e vocal), Matheus Bonon (baixo e vocal) e Giacomo Bianchi (bateria). E é esse time que nos oferece pela gravadora Voice Music The Evil On All Of Us, seu contundente 2º álbum e desde já um dos melhores lançamentos dessa área em 2021.

O som deste excelente grupo é uma mistura do hard rock clássico com o thrash metal, incorporando elementos importantes das duas vertentes de forma criativa e consistente. Temos riffs potentes aliados a tramas de guitarra muito bem trabalhadas, apoiadas por uma cozinha rítmica segura e dinâmica, capaz daquelas inversões precisas de tempo sem se atrapalhar em um único minuto. O vocal poderoso e grave de Tadeu conduz todo o processo com maestria e fúria, sem cair na gritaria exibicionista. Tudo gira em função das músicas.

Uma das marcas do grupo fica por conta do refrão de cada música, sempre com um trabalho muito minucioso em termos vocais. Outra são as letras, que neste álbum seguem em torno da capacidade do ser humano em causar mal aos outros e também a si mesmo, no decorrer do processo, e como acreditar mais em sua capacidade individual de alterar as coisas e respeitando os outros pode ser um caminho transformador e iluminado.

As nove faixas incluídas no álbum, que está disponível nas plataformas digitais e também em uma caprichadíssima versão física em CD com direito a embalagem digipack, capa dupla e encarte colorido com letras, são extremamente consistentes. Machines, por exemplo, é compassada e potente, enquanto Just Follows alterna peso com momentos mais melódicos sem forçar a barra em um único segundo. Shout It Out e Alone apostam na energia e pegam na veia.

Se The Evil On All Of Us é consistente como um todo, traz dois momentos sublimes. Coward, que fala sobre uma tentativa de suicídio felizmente não concretizada, inclui passagens com viola que a aproximam da música country/folk com muita habilidade e sem destoar da essência do som do grupo.

Não por acaso, Sons Of War foi escolhida para encerrar o álbum, pois nos oferece 7m15 épicos. Começa com um texto lido em português que ressalta o absurdo de tentar impor aos índios as religiões ocidentais, eles que nunca deixaram de serem ligados à espiritualidade. Elementos percussivos típicos dos índios e dos negros foram incorporados ao heavy rock, e o resultado é de uma contundência absurda. No final, entra um coro típico de capoeira, pois a canção é também um desagravo ao tratamento horrível dado aos negros no Brasil.

Atrevo-me a considerar Sons Of War como uma das mais importantes e bem-sucedidas tentativas de mesclar o heavy rock a sonoridades típicas do Brasil, no mesmo alto nível das experiências realizadas pelo Sepultura e pelo Angra nos anos 1990. The Evil On All Of Us tem qualidade artística e técnica padrão internacional, algo que vem se tornando uma marca do rock pesado brasileiro. Foi gravado no Nock Studio Alive, em Limeira, com produção a cargo de Marcos Nock, que integrou a primeira formação da banda. Coisa de craques, mesmo.

Ouça The Evl On All Of Us em streaming:

Silk Sonic disponibiliza single e solta seu álbum nesta sexta (12)

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Por Fabian Chacur

Mais um single do Silk Sonic, projeto sensacional de r&b que é comandado pelos talentosíssimos Bruno Mars e Anderson.Paak, acaba de ser disponibilizado nas plataformas digitais, com direito a clipe. Trata-se de outra balada soul matadora, Smokin’ Out The Window, canção envolvente com aquele tempero de anos 1970 no melhor estilo Manhattans, Blue Magic e outros do gênero. O vídeo pode causar alguma polêmica pelo fato de os cantores aparecerem fumando cigarros convencionais, mas vale lembrar que isso era habitual naqueles anos. Questão de gosto.

Esta é a terceira e última faixa a ser divulgada com antecedência, pois o álbum completo, An Evening With Silk Sonic, chegará às plataformas digitais nesta sexta (12). E o melhor: a Warner Music Brasil promete proporcionar aos fãs brasileiros uma versão física no formato CD. Pelas amostras, este será provavelmente um dos melhores e mais importantes álbuns da safra 2021, tendo todas as condições de liderar as paradas de sucesso pelo mundo afora.

Smokin’ Out The Window (clipe)- Silk Sonic:

Kiefer Sutherland, o ator, também é um bom roqueiro

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Por Fabian Chacur

Dá para acreditar que Jack Bauer também é cantor de rock? E não se trata de filme ou coisa que o valha, é na vida real mesmo. O consagrado ator Kiefer Sutherland, conhecido por inúmeros filmes de sucesso desde os anos 1980 e também por protagonizar a série televisiva 24 Horas, iniciou em 2016 uma carreira discográfica com o álbum Down in a Hole. Em 2019, veio Reckless & Me. E tem outro filhote musical a caminho.

Bloor Street, o 3º álbum do canadense nascido no Reino Unido e filho do brilhante ator Donald Sutherland, está programado para sair no dia 21 de janeiro, nas plataformas digitais e no exterior em formatos físicos como CD,vinil preto, vinil laranja transparente e fita-cassete laranja.

Duas músicas já foram divulgadas, como forma de atiçar a curiosidade do público. A 1ª foi a faixa-título (veja o clipe aqui), uma bela canção de teor country. A segunda foi disponibilizada nesta sexta (5), e é um rockão com tempero tipicamente americano a la Bruce Springsteen, a ótima Two Stepping In Time, também com direito a clipe.

Em press release enviado à imprensa, Kiefer explica a inspiração que gerou Two Stepping in Time:‘Two Stepping In Time’ é uma das canções mais esperançosas que já escrevi. Uma canção de amor honesta do fundo do meu coração.”

Two Stepping in Time (clipe)- Kiefer Sutherland:

Jack White divulga videos com duas versões de Taking Me Back

David James Swanson

David James Swanson

Por Fabian Chacur

Em seus 25 anos de carreira, Jack White sempre teve como marca a inquietude, tanto na consistente carreira solo como em seus ótimos trabalhos com as bandas The White Stripes, The Dead Weather e The Raconteurs. Vencedor de 12 troféus Grammy, o Oscar da música, o cantor, compositor e músico americano mostra que continua nesse pique ao lançar duas novas gravações, as primeiras desde seu álbum individual Boarding House Reach (2018).

Na verdade, temos aqui duas leituras de uma mesma composição. Com o título Taking Me Back, a faixa aparece como um hard rock poderoso e contagiante, com aqueles riffs marcantes nas músicas do artista americano, ilustrada no lyric video por cenas do jogo Call Of Duty: Vanguard, mais uma daqueles repletos de cena de guerra e ação tão propagados por aí.

A roupagem de Taking Me Back (Gently) (veja o lyric video aqui), traz uma abordagem completamente diferente da canção. Aqui, o rockão vira uma faixa country-hillbilly deliciosa, com direito a violino e tudo. Ambas foram lançadas pelo selo do artista, o Third Man Records, que completou 20 anos em 2021.

Taking Me Back (lyric video)- Jack White:

Emeli Sandé nos oferece o seu primeiro single autoproduzido

Emeli Sandé - credit Olivia Lifungula

Por Fabian Chacur

A cantora e compositora britânica Emeli Sandé é uma das mais bem-sucedidas da safra surgida na década passada naquele lado do mundo, na área do r&b. O seu álbum de estreia, Our Version Of Events (2012), foi o mais vendido no Reino Unido durante dois anos seguidos (2012 e 2013). De quebra, ganhou os cobiçados Brit Awards e ainda foi nomeada Membro da Ordem do Império Britânico (MBE). Aos 34 anos, a moça se mostra em plena forma, e a prova é seu novo single, Look What You’ve Done, que acaba de chegar às plataformas digitais pelo selo Chrysalis.

Trata-se de uma canção r&b swingada e envolvente. Em press release enviado á imprensa, Emeli explica como foi o processo de criação do single:

Look what you’ve done é um grande marco para mim. É meu primeiro lançamento que produzi e é tão bom ter minha impressão digital criativa completa nele. Escrevi essa música pela primeira vez na Suíça, sentei-me ao piano olhando para um lindo lago cercado por belas montanhas com pontas cobertas por neve. A música é sobre a entrega completa que experimentamos ao nos apaixonarmos, e explora a euforia que acompanha essa perda de controle da mente e do corpo. Espero que isso faça as pessoas se apaixonarem, sonharem e, claro, dançarem!”.

Look What You’ve Gone (lyric video)- Emeli Sandé:

Real Estate celebra aniversário de CD com releitura do Television

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Por Fabian Chacur

Em 2011, o Real State buscava um nome para o que seria o seu 2º CD. Aí, um de seus integrantes leu um livro sobre o álbum Marquee Moon (1977), do seminal grupo americano Television, e viu na sua introdução o autor, Bryan Waterman, comentar sobre uma faixa que saiu no disco posterior, Adventures (1978). A faixa era Days, e foi esse o batismo para o disco, que celebra dez anos de seu lançamento com duas ações bem legais. Mas vale um pouco mais de explicação nos dois próximos parágrafos.

Waterman definiu Days, a música, como “a faixa que forneceu uma identidade para todo o indie rock baseado em guitarra melódica que logo seguiria o seu rastro”. Ele se referia a R.E.M., The Smiths etc. E os integrantes do Real Estate se encaram como seguidores dessa linha musical. Embora tenha dado nome ao disco, só agora a música do Television foi gravada por seus seguidores, em uma releitura muito boa que segue os passos da impecável versão original.

Para completar a efeméride, o grupo americano fará shows em breve nos quais tocará o conteúdo completo do CD Days, certamente incluindo a releitura da música escrita por Tom Verlaine e Richard Lloyd. Com 13 anos na estrada, o Real Estate lançou em março o EP Half a Human, sendo que seu álbum mais recente, o 5º em sua discografia, The Main Thing, é de 2020.

Days (single)- Real Estate:

Fábio Jorge esbanja classe e muita poesia no álbum O Tempo

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Por Fabian Chacur

No início de 2020, o cantor Fábio Jorge (leia mais sobre ele aqui) celebrou 50 anos de vida sem nem ao menos imaginar o que estava se aproximando ali na esquina. Sim, veio a terrível pandemia do novo coronavírus, capaz de chacoalhar e apavorar o mundo. Uma das 1ª vítimas dessa terrível doença em nosso país, uma das mais de 600 mil que nos deixaram precocemente, foi a sua querida mãe. Em meio a essa dor insuportável, ele viu como forma de externar seus sentimentos mais profundos gravar um novo álbum. Eis a semente que gerou O Tempo, disponível nas plataformas digitais e com belíssima tiragem limitada em CD físico.

O 5º álbum do intérprete marca o fato de ter, pela primeira vez, quase todo o seu conteúdo em português, ele que até então se concentrava em canções escritas no idioma pátrio de sua mãe, o francês. Desta vez, a única música nesta língua é La Mamma, clássico sessentista do repertório do ícone da canção francesa Charles Aznavour. As outras nove canções foram selecionadas com precisão cirúrgica e muito bom gosto por Fábio, que fugiu de opções mais óbvias.

Ouvidas como um todo, as canções equivalem a um bom bate-papo com o ouvinte, envolvendo temas como a passagem do tempo, as idas e vindas do amor, as tristezas, as perdas e também a esperança de uma volta por cima e de seguir em frente com muita felicidade e fé, apesar dos pesares. Tudo com arranjos sucintos, de muito bom gosto e executados por músicos extremamente capacitados e sensíveis como Alexandre Vianna (piano), Joan Barros (violão), Thadeu Romano (bandoneon) e Rovilson Pascoal (também responsável por gravação, mixagem e masterização).

Do sempre inspirado Guilherme Arantes, temos a clássica Cuide-se Bem (1976), recado cada vez mais atual, e uma joia não tão conhecida, a intensa Nosso Fim Nosso Começo (1989), profunda análise de um relacionamento que fica em suspenso devido aos problemas de percepção típicos dos seres humanos. Ah, como seria bom dar um pé na porta dessas concepções medrosas e encarar a paixão de peito aberto! Eis o que essa música nos incentiva a fazer, nas suas maravilhosas entrelinhas, que Fábio nos oferece com finesse.

Do grande Gonzaguinha, que o intérprete já homenageou em show só com suas canções, temos a maravilhosa Pra Fazer o Sol Adormecer, que Maria Bethânia gravou em 1983 em seu álbum Ciclo. Outra canção do tipo dor-amor e centrada em contradições que se encaixam com rara felicidade é a absurdamente inspirada A Paz, parceria dos geniais Gilberto Gil e João Donato lançada nos anos 1980 e que tinha uma versão definitiva na voz de Zizi Possi. Tinha. Agora, a minha favorita é esta aqui. Ouçam e tentem não se emocionar, não ver as lágrimas vertendo de seus olhos sem que você as controle. Apenas tentem…

A melancólica e linda O Tempo foi defendida por seu autor, Reginaldo Bessa, no festival global Abertura, aquele vencido por Como Um Ladrão, na voz de Carlinhos Vergueiro, e não é de se estranhar que tenha sido escrita em plena ditadura militar que nos assolou naqueles anos de chumbo. Outras canções que vem daquele período são as ótimas Porta Estandarte (Geraldo Vandré, 1966) e Canção do Medo (Gianfrascesco Guarnieri-Toquinho, de 1972). A primeira virou um belo dueto de Fábio com Consuelo de Paula.

As escolhas mais recentes do repertório, que teve como consultor artístico o grande mestre Thiago Marques Luiz, são Tempestade (Zélia Duncan, 1994), com um arranjo surpreendente que ressalta sua letra densa, e Tá Escrito (2009), sucesso do grupo Revelação e de autoria do talentosíssimo Xande de Pilares (hoje em carreira-solo) que também surge aqui bem longe de seu clima de samba original, e belíssima.

Eis o momento de ressaltar o valor do dono da festa. A forma como Fábio Jorge resolveu botar pra fora suas dores, inseguranças e esperanças não poderia ter sido mais bem realizada. Com interpretações maravilhosas nas quais usa sua voz de veludo sempre na medida exata, sem excessos nem faltas, ele parece acariciar cada melodia, cada verso, nos fazendo entender todo o contexto da coisa. É coisa de craque, de talento absoluta.

Espero que esse trabalho possa ter dado a Fábio Jorge o alívio de que ele tanto necessita. Perder um ente querido é uma dor que nunca passa, nunca cicatriza, mas com a qual a gente aprende a conviver. E, na verdade, esses entes queridos permanecem vivos nas boas lembranças que nos deixaram, e que nos ajudam a suportar suas ausências. Dona Renée, onde estiver, deve estar sorrindo, orgulhosa do filho. E nós, ouvintes, somos gratos por tanta generosidade do filho dela de dividir esse processo artisticamente maravilhoso conosco.

Em tempo: que capa maravilhosa!

Ouça O Tempo, de Fábio Jorge, em streaming:

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