Mondo Pop

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Marcos Valle mostra em SP o repertório de Previsão do Tempo

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Por Fabian Chacur

A discografia do genial Marcos Valle é repleta de grandes momentos. Um deles é o álbum Previsão do Tempo (1973), recentemente relançado em vinil de 180 gramas pela Polysom, dentro da série Clássicos Em Vinil. O cantor, compositor e tecladista carioca ficou tão entusiasmado com essa reedição que montou um show no qual apresenta na íntegra o repertório desse LP. Ele se apresenta com esse repertório em São Paulo neste sábado (20) às 21h e domingo (21) às 18h no teatro do Sesc Pompeia (rua Clélia, nº 93- Água Branca- fone 0xx11-3871-7700), com ingressos de R$ 9,00 a R$ 30,00.

Previsão do Tempo traz uma criativa e envolvente fusão de bossa nova, jazz, soul, funk, rock e pop na qual a impressionante capacidade de Marcos Valle como músico e compositor se sobressai. Das 12 faixas, em nove ele é acompanhado pelo seminal grupo de soul-funk-bossa-jazz Azymuth, enquanto em duas a tarefa ficou a cargo dos roqueiros do Terço, liderados pelo guitarrista Sergio Hinds.

Marcos Valle (voz e piano Rhodes) terá a seu lado uma banda integrada por Patrícia Alvi (vocal), Paulinho Guitarra (guitarra), Donatinho (teclados), Alberto Continentino (baixo) e Renato Massa Calmon (bateria). Nem Paletó Nem Gravata, Os Ossos do Barão, Tira a Mão e a instrumental Previsão do Tempo são algumas das maravilhas que o público poderá ouvir nas duas performances.

Ouça Previsão do Tempo em streaming:

Barbara Rodrix é a atração do projeto O Som da Casa em SP

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Por Fabian Chacur

Teve início em junho, com show da cantora e compositora Bruna Moraes, o projeto O Som da Casa, realizado em parceria pela MMP Produções e a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. A ideia é dar espaço, uma vez por mês, para nomes da nova geração da música brasileira, em performances intimistas. A segunda apresentação desta série será neste sábado (13) às 20h no Espaço Cultural Casa dos Trovadores (rua Aimberê, nº 651- Perdizes- fone 0xx11-2595-0100), com entrada gratuita, e a artista escalada é a cantora, compositora e musicista Barbara Rodrix.

Com 28 anos de idade, Barbara é filha do saudoso cantor, compositor e músico Zé Rodrix, e tem em seu currículo dois álbuns. O mais recente, Eu Mesmo (2016), traz canções autorais feitas em parceria com Luiza Possi e Bruna Caram, além de duas do pai, Eu Não Sei Falar de Amor e Olhos Abertos. No show, que será no melhor estilo voz e violão, ela mostra canções de seus álbuns e também uma inédita de Zé Rodrix, Eu Só Queria Contar Meu Problema, e uma de Rosa Passos, que Barbara aponta como importante influência em seu trabalho.

O Som de Casa, que é apresentado no espaço cultural criado pelo grupo Trovadores Urbanos, já tem novas apresentações agendadas. No dia 17 de agosto, o ótimo cantor e compositor Breno Ruiz terá a seu lado Lucila Novaes. No dia 14 de setembro, será a vez de Paula Sanches, e em 26 de outubro, teremos as Trigêmeas Caram, sempre com entrada gratuita.

Ouça o álbum Eu Mesmo em streaming:

Lô Borges mostra Rio da Lua e outros sucessos em São Paulo

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Por Fabian Chacur

Aos 67 anos de idade, o cantor, compositor e músico mineiro Lô Borges vive um momento inspirado em sua carreira. Após ter lançado em 2018 um esplêndido DVD gravado ao vivo, ele recentemente nos ofereceu um novo trabalho de inéditas, o delicioso CD Rio da Lua (leia a resenha de Mondo Pop aqui). Ele estará em São Paulo para shows neste sábado (6) às 21h e no domingo (7) às 18h no Teatro do Sesc Pompeia (Rua Clélia, nº 93- Pompeia- fone 0xx11-3871-7700), com ingressos de R$ 9,00 a R$ 30,00.

Rio da Lua traz dez parcerias de Lô com um velho amigo, o excelente cantor, compositor e músico Nelson Angelo, com quem ele curiosamente nunca havia composto uma única canção sequer. Valeu a espera, pois o CD é impecável, um dos melhores de 2019. A novidade fica por conta de o ilustre integrante do Clube da Esquina ter pela primeira vez musicado letras, quando seu processo criativo habitual é encaixar as palavras em melodias criadas previamente.

Se as canções do novo álbum terão destaque no repertório destas duas apresentações em Sampa City, os fãs podem aguardar também diversos de seus grandes sucessos nesses quase 50 anos de trajetória artística no set list. Entre elas, certamente estarão Clube da Esquina nº 2, O Trem Azul, Paisagem da Janela e Feira Moderna, só para citar algumas delas. Garantia de canções maravilhosas o tempo todo ou o seu dinheiro de volta.

Ouça o álbum Rio da Lua em streaming:

André Midani, do Dia D na França ao maravilhoso mundo da música

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Por Fabian Chacur

A vida é mesmo imprevisível. Pode um cara oriundo da longínqua Síria e criado na França ter sido decisivo para a história da música popular brasileira durante inúmeras décadas? Uma trajetória improvável, porém plenamente real. Esse cara, André Midani, teve uma bela missão, e a cumpriu de forma plena e apaixonada. Mas toda história, infelizmente, tem um fim, e ele nos deixou nesta quinta-feira (13) aos 86 anos de idade, vítima de um câncer que o atormentava há alguns meses, segundo informou seu filho, Phillipe.

Nascido na Síria em 25 de setembro de 1932 (mesma data e mês que eu, que honra!), André veio para o Brasil em 1955, e por aqui, firmou-se na indústria fonográfica, ramo no qual ele havia começado a atuar na França. Sempre com os ouvidos abertos e dono de uma sensibilidade musical enorme, além de ousadia ilimitada, atuou em gravadoras como a EMI-Odeon, Phillips e Warner. Foi decisivo no desenvolvimento das carreiras de gente como João Gilberto, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Titãs, Lulu Santos e dezenas, senão centenas de outros nomes importantes para a nossa música.

Mesmo com todo esse currículo e todas as suas realizações, Midani sempre se mostrou simpático, acessível e disposto a aprender novas lições. Sua vida incrível foi contada de forma deliciosa no livro Música, Ídolos e Poder- Do Vinil Ao Download (leia a resenha aqui) e na ótima série televisiva André Midani- Do Vinil Ao Download, de 2015 (leia mais aqui).

Não por acaso, executivos do calibre dele começaram a ter menos espaço nas grandes gravadoras transnacionais sediadas no Brasil a partir do final dos anos 1980, quando essas empresas aos poucos entraram em uma decadência cujos frutos podres colhemos atualmente. Para Midani, a música enquanto arte vinha sempre em primeiro lugar. Bom seu legado ter sido devidamente cultuado enquanto ele ainda estava entre nós. Sua passagem se dá em um momento difícil do Brasil, mas que ele fique como exemplo para uma futura volta por cima, em todos os setores, especialmente o da cultura.

Veja entrevista com os diretores da série de TV sobre André Midani:

Boca Livre celebra 40 anos de estreia com Viola de Bem Querer

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Por Fabian Chacur

Em 1979, saía pela via independente o álbum de estreia do Boca Livre. Não demorou para que se tornasse um verdadeiro fenômeno, pois mesmo sem a ajuda das grandes gravadoras, atingiu em cheio o grande público e ultrapassou a marca das 100 mil cópias vendidas. E aquilo era só o começo de uma trajetória belíssima. Quatro décadas depois, o quarteto carioca celebra a efeméride com Viola de Bem Querer, um trabalho que os mantém em seu alto patamar de qualidade artística.

Quando fiquei sabendo do novo título do álbum do Boca Livre, imaginei que se trataria de um trabalho retrospectivo de seus maiores sucessos, pois a frase remetia a dois grandes hits da banda, Quem Tem a Viola e Toada (Na Direção do Dia). Errei feio! Na verdade, Viola de Bem Querer é uma composição do jovem cantor, compositor e músico paulista Breno Ruiz, lançada por ele em seu álbum Cantilenas Brasileiras, lançado em 2016 pela via independente.

Com letra a cargo do consagrado Paulo Cesar Pinheiro, esta belíssima canção, curiosamente, foi gravada por Breno em versão na qual temos ele cantando e tocando piano (seu instrumento habitual) e acompanhado por Igor Pimenta (baixo acústico). Ou seja, não tem viola! Na releitura feita pelo Boca, o instrumento se faz presente, reforçando sua mensagem simples e encantadora.

A formação atual do Boca Livre é a sua mais estável nesses 41 anos de estrada, com Zé Renato (voz e violão), Mauricio Maestro (voz, baixo e violão), David Tygel (voz e viola) e Lourenço Baeta (voz, violão e flauta). Desde o início, investem em uma sonoridade que traz como influências mais visíveis o Clube da Esquina, a ala mais melódica do rock rural, bossa nova e outras vertentes bacanas da nossa música popular. Isso, dando continuidade à tradição de grandes grupos vocais brasileiros, como MPB-4 e Os Cariocas.

Viola de Bem Querer, como um todo, os mostra no geral com uma ênfase no som mais rural, o que transparece logo na capa e nas fotos incluídas no belo encarte da versão em CD deste trabalho. São nove faixas no total. O padrão habitual se mantém, com algumas composições de integrantes do time, como as belas Santa Marina (parceria de Lourenço Baeta com o poeta Cacaso), Noite (escrita por Zé Renato com a genial Joyce Moreno, autora de um dos pontos altos do álbum de estreia, Mistérios, feita com Mauricio Maestro), Eternidade (Mauricio Maestro) e a instrumental O Paciente (David Tygel).

Somadas às autorais, temos composições alheias escolhidas a dedo, como a deliciosa Um Paraíso Sem Lugar (Geraldo Azevedo e Fausto Nilo), e clássicos perenes da música brasileira em encantadoras adaptações personalizadas. Amor de Índio (Beto Guedes e Ronaldo Bastos) vem do Clube da Esquina, enquanto Um Violeiro Toca (Almir Sater e Renato Teixeira) sai do berço da canção rural brasileira. A surpresa fica por conta de Vida da Minha Vida (Moacyr Luz e Sereno), hit na voz de Zeca Pagodinho que aqui ganhou contornos latinos e percussivos.

Além dos quatro se desdobrando em vocais e instrumentos musicais, o disco conta com participações de músicos do porte de Pantico Rocha (bateria, conhecido por seu trabalho com Lenine), João Carlos Coutinho (piano elétrico), Bernardo Aguiar (pandeiro), Thiago da Serrinha (percussão) e Marcelo Costa (percussão). A sonoridade delicada e envolvente do grupo se mostra muito bem preservada, enfatizando os belos arranjos vocais, dividindo-se entre uníssomos, solos e vocalizações elaboradas e encantadoras.

Muito legal ver um grupo celebrar 40 anos de seu disco de estreia com um trabalho que não soa saudosista ou redundante. Aqui, o que temos é a fidelidade intensa e entusiástica a um estilo próprio de se fazer música, sem se render a modismos ou tendências do cenário musical, e oferecendo apenas o melhor a quem os acompanha nesses anos todos. Da mesma forma que ouvimos até hoje Boca Livre (o álbum) com o mesmo prazer de 1979, certamente este Vida da Minha Vida continuará encantando daqui a muitos e muitos anos.

Viola de Bem Querer– Boca Livre:

Benito di Paula leva a turnê Fim de Papo a Belo Horizonte (MG)

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Por Fabian Chacur

Em fevereiro deste ano, Benito di Paula deu início à turnê Fim de Papo, que ele anuncia como a última de sua bem-sucedida carreira. A previsão é de que sejam realizados shows em aproximadamente 120 cidades do Brasil e do exterior. Nesta sexta (31), esse incrível cantor, compositor e pianista marcará presença em Belo Horizonte (MG), em show único às 21h no Palácio das Artes (avenida Afonso Pena, nº 1.537- Centro- fone 0xx31-3236-7400), com ingressos de R$ 60,00 a R$ 75,00.

Uday Vellozzo (seu nome de batismo) nasceu em Nova Friburgo (RJ) em 28 de novembro de 1941. Depois de batalhar durante muitos anos como músico da noite em São Paulo, lançou o seu primeiro álbum em 1971. Pouco depois, estourou nacionalmente, graças a hits massivos como Mulher Brasileira, Charlie Brown, Retalhos de Cetim e muitos outros, especialmente durante a década de 1970, a fase áurea de sua trajetória musical.

A explicação para o sucesso de Benito di Paula reside em uma mistura muito criativa e contagiante de samba, música latina e romantismo, com uma forma jazzística e sofisticada de tocar piano. De quebra, ele também é um ótimo cantor, e ao vivo costuma primar por improvisos e muita inventividade. Nos shows da atual turnê, ele conta com a participação do filho, Rodrigo Vellozo, e além dos hits, também toca músicas do mais recente álbum de inéditas, Essa Felicidade É Nossa, lançado em 2017 pela 74 Music.

Mulher Brasileira– Benito di Paula:

Lô Borges nos oferece 10 novos clássicos no inspirado Rio da Lua

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Por Fabian Chacur

Em 2018, Lô Borges nos ofereceu uma bela e emocionante releitura de seus trabalhos de estreia de 1972, o maravilhoso DVD Tênis+Clube Ao Vivo no Circo Voador (leia a resenha aqui). Seria até normal esperar que ele ficasse um bom tempo capitalizando os louros oriundos desse lançamento. No entanto, o cantor, compositor e cantor mineiro prova que, aos 67 anos, quer mesmo é viver novas emoções. No caso, um novo CD, o maravilhoso Rio da Lua (Deck).

Rio da Lua adiciona duas novidades a sua carreira. Normalmente, Lô compõe as melodias, para depois encaixar as letras, feitas por ele ou outros parceiros. Desta vez, inverteu-se o processo. As letras apareceram primeiro, para serem posteriormente musicadas. A segunda nova decorre daí: pela primeira vez, ele compôs em parceria com o cantor, compositor e músico mineiro Nelson Angelo, outro egresso do Clube da Esquina. O amigo mandava as letras via aplicativo digital, e ele as ia transformando em canções. O resultado gerou dez belezuras compatíveis com o que de melhor eles já fizeram.

Tendo seu violão como âncora, Lô traz a seu lado Henrique Matheus (guitarras), o irmão Telo Borges (piano e teclados), Thiago Corrêa (baixo) e Fernando Monteiro (bateria). Esse time criou uma sonoridade envolvente e consistente, repleta de sutilezas e de uma capacidade inesgotável de embelezar canções que já seriam capazes de nos cativar, mesmo que fossem executadas só no modo voz-e-violão. Virou uma sólida banda de folk-pop-rock, ou de MPB pop, se preferir. Tudo criando o clima ideal para abrigar a voz suave, docemente apaixonada e fantasticamente bem colocada desse trovador roqueiro que é Lô Borges.

O parceiro de Milton Nascimento soube aproveitar a poesia visionária e viajante de Nelson Angelo, cujas letras nos falam de sonhos e de como encarar a vida, os momentos difíceis, as paixões e as perspectivas futuras, tudo sem cair em autoajuda barata ou reducionismo imbecilizante. Aqui, o tom é a beleza estética com forte conteúdo filosófico. Tudo embalado por aquelas melodias que vão te ganhando de tal forma que, quando você se dá conta, já ouviu o CD umas mil vezes. E que venha a milésima primeira!

Qualquer uma das dez canções merece elogios efusivos, mas a faixa-título, Em Outras Canções, Flecha Certeira, Partimos, Inusitada e especialmente Profeta, que encerra o álbum com seu clima jazzy misterioso, são pepitas preciosas em meio a uma verdadeira Serra Pelada musical. Rio da Lua, é obra ao mesmo tempo repleta da consistência que só a maturidade dá ao artista e recheada daquele idealismo juvenil inspirado e sincero que tantas coisas boas proporcionou no mundo da música. Que venham boas novas todo dia!

Ouça Rio da Lua, de Lô Borges:

Lô Borges lança single Em Outras Canções, amostra de novo álbum

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Por Fabian Chacur

Em 2018, Lô Borges deu um belíssimo mergulho no seu passado de glórias ao reler, ao vivo, as músicas de seu primeiro álbum solo (o célebre “Disco do Tênis”) e também a sua parte no antológico Clube da Esquina, gravado em parceria com Milton Nascimento. O resultado, o DVD Tênis+Clube- Ao Vivo No Circo Voador (leia a resenha aqui) foi um dos melhores lançamentos de 2018. Mostrando que não está a fim de dormir em cima das glórias já conquistadas, o astro mineiro nos oferece uma nova música, Em Outras Canções.

Trata-se da terceira parceria de Lô com Nelson Angelo, conhecido como autor da maravilhosa Fazenda, eternizada na voz de Milton Nascimento. A canção foi viabilizada na base do WhatsApp, com Angelo mandando a letra e o autor de Um Girassol da Cor do Seu Cabelo a colocando no papel e musicando. Com mensagem positiva e o melhor clima de balada pop, Em Outras Canções equivale a uma bela amostra do que será o novo disco de inéditas do astro mineiro.

O álbum, por sinal, já tem título definido pelo artista: Rio da Lua, com lançamento programado já para abril, via gravadora Deck, a mesma do trabalho anterior. As gravações tiveram como local a cidade de Belo Horizonte (MG), e Lô coproduziu o álbum em parceria com Henrique Matheus. Por esse primeiro momento apresentado, a expectativa em torno desse trabalho é das melhores.

Em Outras Canções– Lô Borges:

A Noite (1979), agora quarentão, um dos melhores LPs de Ivan Lins

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Por Fabian Chacur

Em 1979, Ivan Lins vivia um dos melhores momentos de sua carreira. Nos dois anos anteriores, lançou dois álbuns seminais pela EMI-Odeon, os excelentes Somos Todos Iguais Nesta Noite (1977- leia sobre este CD aqui) e Nos Dias de Hoje (1978- leia sobre este CD aqui), e ampliou o seu público, especialmente no circuito universitário, graças a inúmeros shows. A Noite, que chegou às lojas há 40 anos, consolidou esse período fantástico com um conteúdo repleto de emoção e denúncia social, no qual a parceria dele com Vitor Martins prosseguiu em sua trajetória rumo à excelência artística.

O show de lançamento de A Noite foi o segundo que tive a oportunidade de assistir na minha vida, no então Teatro Pixinguinha, do Sesc, em São Paulo. Certamente, marcou a minha vida, um belo presente de 18 anos que me concedi. Para alegria de alguém que ama a boa música com toda a intensidade, é ótimo constatar que este álbum continua tão maravilhoso, consistente e importante como na época. Dois temas básicos permeiam as 10 faixas: as idas e vindas das relações amorosas e o duro momento político da ditadura militar que vivíamos na época. Ambos, analisados como se estivéssemos na mesa de um bar, em uma dessas noites de solidão, esperança, sonhos e dor.

Trata-se de um disco extremamente emocional, lírico, militante, dolorido e esperançoso, ao mesmo tempo. A maravilhosa faixa título, uma balada tocante, não deixa margem a dúvidas: “A noite traz no rosto sinais de quem tem chorado demais”. A dor da separação após relacionamentos afetivos intensos é o mote para as inspiradíssimas Começar de Novo (que fez muito sucesso na voz de Simone, na abertura do seriado global Malu Mulher), Saindo de Mim e Velas Içadas. A crença em um futuro melhor dá o tom para Desesperar Jamais, dueto de Ivan com o sambista Roberto Ribeiro marcado por versos certeiros como “afinal de contas não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo”.

O pianista Ivan investe no violão em Desesperar Jamais e também na engajada Antes Que Seja Tarde, na qual a letra deixa claro que a luta por tempos melhores precisava se intensificar, enquanto ainda havia tempo para melhoras. O baião-funk Formigueiro toca fundo no tema da corrupção, infelizmente atualíssimo, tanto tempo depois. Com um tempero rural, Noites Sertanejas traz a participação especialíssima de Djavan nos vocais, em um dueto iluminado. Ivan canta com linda voz e emoção à flor da pele, padrão que manteve em todo o LP.

Duas faixas são de outros autores, e se encaixam de forma perfeita na temática do álbum. Te Recuerdo Amanda, é composição inspirada do cantor e compositor chileno Victor Jara (1932-1973), morto de forma cruel e covarde nos primeiros dias da ditadura do sanguinário general Augusto Pinochet, e registra recordações de um romance de raros momentos líricos, encerrado de forma prematura e violenta por uma morte decorrente de violência. A outra, A Voz do Povo, de João do Vale e Luiz Vieira, coloca lado a lado o trabalhador que é demitido por seu ativismo e a esperança de que dias melhores virão.

Novamente, Ivan tem como braço direito o tecladista Gilson Peranzzetta, que também se incumbe dos arranjos e regências. Além de João Cortez (bateria) e Ricardo Pontes (sopros), fiéis seguidores, temos na guitarra, violão e viola o talentoso Natan Marques, conhecido por seus trabalhos com Elis Regina e Simone. Ouvir A Noite é uma experiência emocionante, e chega a ser cômico pensar que esta obra não tenha sido reverenciado como deveria pela crítica especializada na época. A magia dessas canções ultrapassou os limites do tempo e tornou-se eterna. Ouça com carinho e tente me contestar.

Ouça A Noite na íntegra em streaming:

Nós do Rock Rural é a celebração a uma musicalidade belíssima

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Por Fabian Chacur

No início dos anos 1970, surgiu no Brasil uma nova sonoridade, misturando de forma sensível e criativa folk, country, rock, música caipira-rural e MPB, que passou a ser definida como rock rural. Dessa seara sonora, saíram nomes que se eternizaram na história da nossa música, e cujas obras prosseguem sendo apreciadas e inspirando novos talentos. É exatamente uma reunião de seminais representantes desse estilo que é flagrada no CD Encontro de Gerações, apropriadamente creditado a um grupo singelamente intitulado Nós do Rock Rural. Um lançamento da gravadora Kuarup que merece a denominação histórico, sem exagero.

Afinal, marcam presença neste álbum, gravado ao vivo no Sesc Vila Mariana (SP) em fevereiro de 2018, representantes seminais do rock rural. Guarabyra, do trio pioneiro Sá, Rodrix & Guarabyra e há 50 anos na estrada; Tavito, que após integrar o mítico grupo Som Imaginário investiu em carreira-solo nessa praia; e os excelentes discípulos Tuia Lencioni, ex-integrante do grupo Dotô Jeka que há quase 20 anos mostra grande talento em carreira individual, e o violeiro Ricardo Vignini, um músico absurdamente bom que além de trajetória individual também investe em projetos como o grupo Matuto Moderno e o duo Moda de Rock.

Se a reunião dos quatro já seria sensacional, a cereja do bolo foi a participação especial de Zé Geraldo, nosso trovador tupiniquim do mais nobre escalão. Não tinha como dar errado, e deu certíssimo. O formato é totalmente acústico, com violões e violas envenenadas (com alguma percussão aqui e ali) dando o tom para vocalizações arrepiantes. São 17 músicas, sendo cinco de Tuia, quatro de Guarabyra, quatro de Guarabyra, duas de Zé Geraldo e duas de Vignini. Todas escolhidas a dedo, e apresentadas de forma quente, despojada e com aquele clima de amigos tocando em volta de uma fogueira, em uma “casa no campo”.

Os artistas variam as formações, indo de momentos individuais a outros com os cinco no palco. Chega a ser covardia ver no set list maravilhas do porte de Senhorita, Casa no Campo, Dona, Rua Ramalhete, Sobradinho e Espanhola, notáveis cavalos de batalha do cancioneiro rock rural brazuca. E que se faça justiça: as músicas de Tuia, especialmente a magnífica Flor, só não viraram megahits em nível nacional porque, infelizmente, as rádios não dão mais os espaços que davam para esse tipo de canção nos anos 1970 e 1980. E temos também duas tour de force de Vignini na viola solo, Capuxeta e Alvorada.

As canções fluem de forma deliciosa, e o alto astral entre os participantes aparece nítido em cada uma delas. Um dos momentos mais bacanas é proporcionado por Tavito, quando erra a introdução de Começo, Meio e Fim, dá a volta por cima, começa tudo de novo e arrepia a todos no melhor estilo voz e violão solo. As vocalizações, o som das cordas, as melodias, temos aqui um verdadeiro banho de sensibilidade, provenientes dessa musicalidade tão bonita.

A parte triste fica por conta de ter sido provavelmente a última gravação de Tavito, que nos deixou há pouco. Mas não poderia sair de cena de forma mais digna. A reunião de amigos intitulada Nós do Rock Rural mostra nesse Encontro de Gerações que o rock rural continua mais vivo do que nunca, e pedindo passagem para amealhar ainda mais fãs por esse mundo afora. Um disco perfeito para espantar os maus fluidos de um tempo tão difícil como o que estamos vivendo atualmente. “Ah, coração, se apronta pra recomeçar…”

Rua Ramalhete (ao vivo)- Nós do Rock Rural:

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