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Category: Grandes nomes esquecidos (page 1 of 13)

Gregg Diamond (1949-1999), um dos grandes da disco music

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Por Fabian Chacur

Em março de 1999, a música Steal My Sunshine era lançada, e em pouco tempo se tornaria um dos maiores sucessos pop daquele ano. Gravada pelo grupo canadense Len, trazia como coautor um nome importante da era da disco music, o compositor, músico e produtor Gregg Diamond. Esse hit poderia ter ajudado o artista americano a sair de um ostracismo de quase duas décadas. No entanto, por uma dessas ironias do destino, ele se foi no dia 14 daquele mesmo março de 1999, sem nem ao menos desfrutar desse retorno triunfal.

Vítima de um sangramento gastrointestinal aos 49 anos de idade, Gregg nos deixou um belo legado que, infelizmente, não tem sido celebrado à altura. Procure um texto um pouco mais extenso e detalhado sobre ele e sinta o drama. É por isso que resolvi arregaçar as mangas e colher o máximo de informações possíveis para fazer este tributo. Sem mais delongas, eis a sua vida e obra, saudoso Gregg Diamond!

Gregory Oliver Diamond nasceu em 4 de maio de 1949 em Bryn Mawr, Pensilvania (EUA). Ele estudou percussão e teoria musical na Berklee School Of Music, e começou a carreira musical como baterista, tocando em bandas como a Five Dollar Shoes, que chegou a se apresentar no seminal clube CBGB’s, em Nova York.

O grupo lançou um álbum autointitulado em 1972 (Five Dollar Shoes) pela Neighborhood Records, e um single em 1973, sem grande repercussão. Em seus ensaios, uma figura constante era o irmão mais novo de Gregg, Godfrey Diamond, com seis anos a menos.

Como gostava muito de música, Godfrey não saía dos ensaios, e era convidado a dar opiniões sobre o que estava rolando. Dessa forma, ele começou a tomar gosto por esta área de trabalho, e aos 19 anos de idade, foi contratado pelo Media Sound Studios, em Nova York, inicialmente como auxiliar e aos poucos mergulhando na área técnica, participando de gravações e mixagens. Ele também tocava bateria.

Enquanto isso, Gregg continuava embrenhado no cenário do rock and roll, e passou a integrar a banda de apoio do cantor e compositor Jobriath (1946-1983), a The Creators, que nos idos de 1973 e 1974 era considerada uma das grandes apostas do glitter rock. Jobriath, inclusive, foi um dos primeiros astros de rock a assumir a homossexualidade, e também um dos primeiros nomes conhecidos da cena musical a ser vítima do vírus HIV.

Godfrey também era apaixonado por rock, mas trabalhava no estúdio com artistas de outros gêneros musicais, entre eles a banda de funk e soul Kool & The Gang, mais especificamente nos álbuns Light Of Worlds (1974) e Spirit Of The Boogie (1975), e do cantor de soul Ben E. King (o seminal álbum Supernatural, de 1975, do hit Supernatural Thing).

O mais novo dos Diamond tinha o costume de levar para casa cópias das mixagens que estava ajudando a fazer no Media Sound, e mostrava a Gregg, que aos poucos começou a curtir muito aquela sonoridade funk dançante e pra cima. Não demorou a surgir a ideia de fazer alguma coisa naquela linha, e ele (agora nos teclados) convidou Steve Love, guitarrista do The Creators, e também Jim Gregory (baixo, do Five Dollar Shoes) e o irmão para gravar uma base instrumental, em um estúdio naquela mesma Nova York.

Aí, o imponderável entrou em cena. Andrea True, uma atriz iniciante que atuava em filmes pornôs de segunda categoria, entre eles Deep Throat II (Garganta Profunda, no Brasil), pensava em investir em uma carreira como cantora. Ao ir à Jamaica para participar de uma campanha institucional, viu-se em uma situação inusitada. Por problemas ocorridos entre os governos dos EUA e o local naquele exato momento, ela não poderia levar para o seu país o pagamento que recebeu pelo seu trabalho.

Para não sair totalmente no prejuízo, ela teve a ideia de gastar a grana na própria Jamaica pagando horas de estúdio para gravar uma faixa como cantora. Amiga de Gregg, ela ligou pra ele e perguntou se o músico não tinha alguma gravação que eles pudessem completar na pátria do reggae. Os Diamonds toparam, e viajaram com precisamente aquela gravação que haviam feito pouco tempo antes.

Foi dessa forma que nasceu More, More More, pensada inicialmente como possível tema de um filme pornô. Os Diamonds tentaram emplacar a gravação nas gravadoras de maior porte, mas só ouviram o tão sonhado sim do pequeno selo Buddah Records. Creditado a Andrea True Connection, o single rapidamente se tornou um estouro, atingindo a 4ª posição na parada pop dos single nos EUA e o 5º lugar no Reino Unido.

More, More, More, o álbum, saiu logo a seguir, chegando ao 47º lugar na parada pop e emplacando mais dois hits medianos, Call Me (ouça aqui) e Party Line (ouça aqui). Neles, destaque para a voz pequena e sensual de Andrea, os timbres deliciosos de teclado de Gregg e, especificamente na faixa-título, a levada de bateria de Godfrey, que deu show na mixagem e produção.

Foi nesse momento que Gregg e Godfrey abriram a sua própria empresa de produção, a Diamond Touch, na qual dividiam funções. Basicamente, o mais velho assinava as composições, fazia os arranjos de base e tocava os teclados, cabendo ao mais novo a parte técnica das gravações. More, More, More virou uma espécie de molde para o que viria a seguir.

Curiosamente, mesmo com tanto sucesso, os irmãos Diamond só participaram de uma faixa do segundo álbum de Andrea True Connection, White Witch (1977). Coincidência ou não, foi justo a música mais marcante do LP, N.Y. You Got Me Dancing (ouça aqui), que como single atingiu o nº 27 na parada pop e integrou a trilha da novela global Loco-Motivas.

Vale registrar que as outras faixas de White Witch foram produzidas por Michael Zager, outro produtor e compositor importante da era disco, que estourou com os hits Let’s All Chant e Life’s a Party, esta última a 1ª gravação de Whitney Houston, na época ainda uma adolescente. A única das músicas produzidas por ele neste álbum a estourar foi What’s Your Name What’s Your Number (de Roger Cook e Bobby Woods), nº 56 nos EUA.

Lógico que o sucesso de More More More atraiu a atenção de outros artistas para o trabalho dos irmãos Diamond. O 1º foi George McCrae, que em 1975 estourou mundialmente com Rock Your Baby, um dos primeiros hits massivos da disco music, com autoria e produção a cargo dos líderes do KC & The Sunshine Band, Harry Wayne Casey e Richard Finch.

Curiosamente intitulado Diamond Touch (1976), o álbum inclui quatro músicas de autoria de Gregg Diamond, incluindo o excelente single Love In Motion (ouça aqui). O álbum saiu pela TK Records, a mesma dos trabalhos do KC & The Sunshine Band, e não fez o sucesso que se esperava, mas rendeu um contato bacana que valeria um bom fruto não muito tempo depois.

Em 1977, foi a vez de Gloria Gaynor, a 1ª rainha da disco music graças ao estouro de Never Can Say Goodbye em 1975, valer-se dos serviços de Gregg e Godfrey. O álbum Glorious inclui quatro músicas de Gregg, entre elas a sensual Most Of All (ouça aqui). E, mais uma vez, o trabalho não teve a boa repercussão que merecia. E os Diamond devem ter parado pra pensar.

Nos LPs de George McCrae e Gloria Gaynor, Gregg e Godfrey não tiveram o controle total sobre a produção, compartilhando o trabalho com outros músicos, compositores e produtores. Ele certamente sentiram que uma chance de dar mais certo seria montar um projeto próprio no qual pudessem se incumbir de todas as etapas, desde a seleção de músicas até a mixagem.

Nascia, dessa forma, a Bionic Boogie, também conhecida como Gregg Diamond Bionic Boogie. Era uma banda de estúdio, que trazia como pilares Gregg como produtor, compositor e se desdobrando em teclados como o Yamaha Electric Grand Piano, Fender Rhodes, D-6 Clavinet, Steinway Acústico, Harpsichord e Hammond B-3, Steve Love (guitarra), Jim Gregory (baixo) e Richard Crooks (bateria).

Além desses músicos, outros eram acrescentados de acordo com as necessidades de cada álbum, assim como os vocalistas. No 1º álbum (Bionic Boogie, 1977), temos os vocais a cargo de Yolanda, Zach Sanders e a consagrada cantora e compositora Gwen Guthrie, além de Alan Schwartsburg (bateria) e Lance Quinn (guitarra).

Lançado pela gravadora Polydor, Bionic Boogie não emplacou na parada pop americana, mas cravou dois hits em outros charts. A sensacional Dance Little Dreamer (ouça aqui), com seus vocais em uníssono e levada contagiante de teclados, chegou ao 1º lugar na parada de dance music nos EUA, e ao 77º lugar no Reino Unido.

Por sua vez, Risky Changes (ouça aqui), outro petardo disco, marcou presença na parada americana de r&b, onde chegou ao posto de número 79. Melhor ainda: o disco teve alta rotação nas pistas das discotecas, especialmente da mais badalada da época, o Studio 54.

Como aquela incensada casa noturna ficava a poucos quarteirões do estúdio onde os Diamond gravavam seus discos, era um costume eles levarem versões prévias do que gravavam e pedir para os DJs as testarem nas pistas de dança, sentindo o que dava certo e o que não rolava, aperfeiçoando até chegar ao resultado desejado. E, dessa forma, se tornaram queridinhos de lá.

O bom desempenho do álbum de estreia fez com que a Polydor se entusiasmasse, e logo surgiu o seu sucessor, Hot Butterfly (1978), creditado a Gregg Diamond Bionic Boogie. A grande novidade ficou a cargo da entrada no time do vocalista e compositor Luther Vandross, que participou com destaque do álbum Young Americans (1975), de David Bowie, e dos dois primeiros álbuns do Chic, Chic (1977) e C’Est Chic (1978).

Com sua voz maravilhosa, personalizada e de timbre inconfundível, Vandross marca presença em todos os vocais de apoio e ainda assume o vocal principal em Hot Butterfly (ouça aqui), canção mezzo r&b mezzo disco de andamento midtempo que atingiu o nº 8 na parada dance dos EUA e o nº 77 na parada britânica. Essa deliciosa canção foi relida com muita categoria em 1980 por Chaka Khan, rebatizada como Papillon (ouça aqui).

Excelente, o álbum traz outro petardo, Fess Up To The Boogie (ouça aqui), uma fantástica mistura de rock ardido e disco que sempre agitava as pistas de dança no momento em que entrava em cena, com direito a belos riffs de guitarra e vocais vigorosos. Curiosidade: tem um trecho que lembra muito o de It Don’t Come Easy, de Ringo Starr (ouça aqui).

Além de Luther Vandross, marcam presença nos vocais no álbum Hot Butterfly a cantora Cissy Houston, mãe de Whitney Houston e na época estourada nas paradas disco com Think It Over (de Michael Zager, com quem ela trabalhava) e David Lasley (1947-2021- que atuou com Chic, Sister Sledge e James Taylor, entre outros). Cream (Always Rises To The Top) (ouça aqui), com levada hipnótica, chegou ao nº 61 na parada do Reino Unido.

Em função do trabalho que haviam feito anteriormente na T.K. Records, Gregg e Godfrey receberam o convite para gravar um álbum por aquela gravadora. Como eles eram contratados da Polydor como Bionic Boogie, eles aceitaram a proposta com um novo nome, embora com uma escalação de integrantes bem próxima, Nascia o Gregg Diamond’s Star Cruiser, que no final de 1978 lançaria o LP Gregg Diamond’s Star Cruiser.

As principais novidades estavam no elenco de vocalistas. Gordon Grody (que atuou com Phillys Hyman, Gene Simmons e Vicki Sue Robinson) ficou com o vocal principal de Island Boogie. Por sua vez, Diva Gray (que participou de álbuns do Chic e Change, entre outros) comandou os vocais em This Side Of Midnight. Outra presença importante é a de Jocelyn Brown, que em 1984 estouraria com o hit Somebody Else’s Guy.

Com um repertório particularmente inspirado, Gregg Diamond’s Star Cruiser teve dois hits marcantes nas pistas de dança. Starcruisin’, com belo arranjo de metais e balanço com pitada roqueira (ouça aqui), chegou ao nº 7 na parada dance e o nº 57 na parada de r&b americanas.

Por sua vez, This Side Of Midnight, com um arranjo grandioso e envolvente e o vocal sedutor de Diva Gray, pode ser considerada um dos grandes clássicos da disco music (ouça aqui).

Infelizmente, esse álbum marcou o fim da parceria dos irmãos Diamond. Em entrevista concedida em 2014 para Abby Garnett para o site redbullmusicacademy.com, Godfrey deu a seguinte declaração:

“Ele era uma pessoa muito criativa e brilhante, o meu irmão, eu o amava. Mas ele também tinha um lado muito destrutivo. Eu trabalhava quase 18 horas por dia, não aguentava mais aquilo”.

Desta forma, Godfrey resolveu sair da Diamond Touch. Ele, que em 1976 produziu o álbum Coney Island Baby, de Lou Reed, saiu da cena da dance music e trabalhou com artistas como Billy Squier e Aerosmith, até abrir o seu próprio estúdio, o Perfect Mixes Studio, na ativa há mais de 20 anos.

Sem o irmão, Gregg prosseguiu o seu contrato com a Polydor, e em meados de 1979 lançou o álbum Tiger Tiger. A parte técnica de gravar e mixar ficou a cargo do engenheiro de som John Pace, conhecido por seus trabalhos com John McLaughlin, Kenny Loggins e Anne Murray, entre outros

A grande marca fica por conta da manutenção da parceria com Luther Vandross, que se incumbiu dos arranjos vocais, backing vocals e vocal principal em três faixas muito boas, das quais ele foi também o coautor.

São elas Lay It On The Line (ouça aqui), Crazy Lady Luck (ouça aqui) e Take The Boogie Home (ouça aqui). Embora excelentes, nenhuma delas emplacou nos charts de dance music, r&b e pop.

O único semihit do álbum foi exatamente a faixa-título, Tiger Tiger (Feel Good For a While) (ouça aqui), assinada apenas por Gregg e que chegou ao 33º lugar na parada dance dos EUA. Seria o último hit do Bionic Boogie. Jocelyn Brown, Lani Groves e Janet Wright também participaram dos vocais.

Já sem Luther Vandross, Gregg Diamond lançou um último álbum, desta vez creditado só a ele, por um outro selo do conglomerado Polygram, o Mercury. Trata-se de Hardware, que chegou às lojas no finalzinho de 1979, no exato momento em que a disco music sofria com o abjeto movimento Disco Sucks, que procurou tirar a disco de cena por razões preconceituosas e infelizmente atingiu os seus objetivos.

O time de músicos neste álbum se manteve, com participações especiais luxuosas como as de David Sanborn (sax alto) e Randy Brecker (trompete). Nos vocais, Zack Saunders, Jocelyn Brown, Diva Gray e Gordon Grody, entre outros. Embora com faixas bem interessantes como 1/8th Of Your Love (ouça aqui) e War Paint (Love Line) (ouça aqui), o disco passou batido.

Com o fim da era disco, Gregg Diamond simplesmente sumiu de cena. Uma rara aparição ocorreu em 1983, e ainda assim por tabela, quando a cantora Jackie Moore (que em 1979 estourou com o hit disco This Time Baby, escrito por Bell & James) regravou com categoria Holding Back (ouça aqui), que o Bionic Boogie lançou no álbum Gregg Diamond’s Star Cruiser (1978, ouça a versão original aqui).

Lembra do início dessa matéria? Pois chegou a hora de contar a história de Steal My Sunshine, a música que trouxe Gregg Diamond de volta às paradas de sucesso, mesmo que de maneira meio torta. Tudo começou quando o músico canadense Marc Costanzo ouviu More, More, More, de Andrea True Connection, em uma festa retrô, e ficou com ela na cabeça.

Costanzo era o cantor, músico e líder da banda de rock alternativo canadense Len, que havia até então lançado dois álbuns sem grande repercussão. Valendo-se de um pequeno (porém marcante) trecho de More, More, More, no melhor estilo do rap/hip hop, ele compôs uma nova música, que interpretou em dupla com a irmã, Sharon Costanzo.

Intitulada Steal My Sunshine (ouça e veja o clipe aqui), a canção foi lançada em março de 1999, incluída na trilha sonora do filme Go (exibido no Brasil como Vamos Nessa), dirigido por Doug Liman, no 3º álbum da banda, You Can’t Stop The Bum Rush e depois também saiu no formato single.

A divulgação adicional obtida graças ao filme impulsionou a música nas paradas de sucesso, e a levou a atingir a posição de nº 9 na parada americana de singles. O álbum chegou ao 46º posto na parada pop, e Steal My Sunshine entrou no Top 40 de oito países pelo mundo afora.

O sucesso do Len, no entanto, ficou por aí, com a banda de Marc Constanzo lançando outros dois álbuns que passaram batido. Eles se tornaram o que a literatura pop definiu como one hit wonder (maravilha de um sucesso só, em tradução livre), e até hoje são lembradas por essa canção, que se tornou uma espécie de hino do verão americano daquele mesmo 1999 em que seu coautor, Gregg Diamond, nos deixou. Fina ironia…

More More More (clipe)- Andrea True Connection:

John Hartman, 71 anos, batera dos The Doobie Brothers

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Por Fabian Chacur

Tipo da história esquisita, mas vamos a ela. No último dia 20, o Rock And Roll Hall Of Fame publicou em sua página na internet uma homenagem póstuma a John Hartman, baterista original dos Doobie Brothers. Como a morte dele não havia sido noticiada, ficou no ar o clima de que poderia ter sido um fora. No dia 22, no entanto, as redes sociais da banda o homenagearam também. O mais estranho vem agora: familiares informaram que, na verdade, seu ente querido se foi há bem mais tempo, mais precisamente em 29 de dezembro de 2021.

Nascido em 18 de março de 1950, John Hartman conheceu os músicos Patrick Simmons (vocal e guitarra) e Tom Johnston (vocal e guitarra) em 1969 em shows nos bares da Califórnia. Ao sentirem boas afinidades, resolveram criar sua própria banda, inicialmente com o nome Pud e, em 1970, como The Doobie Brothers, uma brincadeira em relação ao fato de todos serem bem chegados naquela célebre erva e nos cigarros (doobies) feitos a partir dela. Nascia uma das grandes bandas do rock.

The Doobie Brothers (1971), o álbum de estreia, não fez muito sucesso, mas mostrou uma banda com muito potencial, e, nela, John Hartmann se mostrou um músico dos mais úteis, pois, além de bateria, também tocava aproximadamente outros 18 instrumentos de percussão, como congas e timbales. O disco incluía Nobody, que fez bastante sucesso no Brasil na época, embora tenha passado batida nos EUA.

Para o álbum seguinte, eles resolveram entrar em uma onda que estava tendo início naquela mesma época no rock, a de usar dois bateristas, e Michael Hossack entrou no time. Deu super certo! Toulouse Street (1972) estourou mundialmente, graças a hits certeiros como Listen To The Music e Rockin’ Down The Highway.

O álbum seguinte, The Captain And Me (1973), foi ainda melhor, emplacando hits massivos como Long Train Runnin’ e China Grove e mostrando a categoria da banda nas áreas do rock básico, folk, country, blues e hard rock. O talento de Hartman como baterista e percussionista se mostrou bastante presente e útil nessa diversidade sonora.

Hartman se manteria no time até o álbum Minute By Minute (1978), saindo de cena no início de 1979. Ele voltou aos Doobies quando o grupo, após uma parada entre 1983 e 1987, voltou à cena, para lançar dois álbuns de sucesso, Cicles (1989) e Brotherhood (1991). Em 1992, no entanto, ele decidiu sair de vez da cena musical, dedicando-se à sua fazenda e também tentando se tornar um policial, o que acabou não dando certo.

Vale informar que os Doobie Brothers, mantendo Tom Johnston e Patrick Simmons de sua formação original, continuam na ativa, e atualmente fazem uma turnê que celebra seus 50 anos de carreira,contando com a participação especial de outro nome importante de sua história, o cantor, compositor e tecladista Michael McDonald.

Long Train Runnin’– The Doobie Brothers:

Olivia Newton-John, 73 anos, estrela talentosa e simpática

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Por Fabian Chacur

O mundo está muito mais triste nesta segunda-feira (8). Foi anunciada nesta manhã a morte de Olivia Newton-John, que após três décadas lutando contra um câncer de mama infelizmente não conseguiu mais resistir. Ela estava entre seus entes queridos, no rancho em que morava no sul da Califórnia (EUA). Aos 73 anos, a cantora nos deixa um lindo legado profissional e também como ser humano. Uma pessoa doce e que sempre lutou por causas humanitárias.

A estrela pop nos visitou em março de 2016, quando fez shows elogiados. Eu estive em um deles (leia a resenha aqui), e tive a oportunidade de tirar uma foto com ela (feita pelo amigo e jornalista Sérgio Martins) e ter uma rápida conversa, durante a qual ela se mostrou extremamente gentil e atenciosa.

Nascida na Inglaterra em 26 de setembro de 1948 (mesmo dia e mês de Gal Costa e Brian Ferry, curiosamente), Olivia mudou-se com a família para a Austrália aos 5 anos de idade, onde foi criada. Ela iniciou sua carreira musical em 1965. Seu primeiro sucesso foi em 1971 com If Not For You, de Bob Dylan e também conhecida por gravação de George Harrison.

A cantora se mostrou uma especialista em quebrar barreiras, pois se tornou uma das maiores estrelas da música country nos EUA, grande façanha para uma estrangeira. Um de seus primeiros hits nesse setor foi Let Me Be There, seguido depois pelo estouro de I Honestly Love You, que chegou ao número 1. Outros hits country da moça são Please Mr. Please e Have You Ever Been Mellow, só para citar mais dois.

Em 1978, surpreendeu a todos ao aceitar viver o papel de Sandy na versão cinematográfica do musical Grease, uma ousadia, se levarmos em conta que ela já tinha 30 anos e viveria uma jovem adolescente. Mas deu super certo a sua parceria com o então ainda iniciante John Travolta, e o filme virou um grande sucesso nas bilheterias.

Mais: rendeu vários hits em sua trilha sonora, entre os quais dois duetos de Olivia e Travolta, as trepidantes Summer Nights e You’re The One That I Want, e a balada solo Hopelessy Devoted To You. O sucesso a incentivou a dar uma guinada roqueira em 1979 com o hoje clássico álbum Totally Hot, que inclui os petardos A Little More Love e Deeper Than The Night, entre outros, um grande sucesso.

Em 1980, outra surpresa das boas: estrelou o filme Xanadu ao lado de ninguém menos do que Gene Kelly, o rei dos musicais. O filme não teve bom desempenho nas bilheterias mas virou cult depois. A trilha, no entanto, que a reuniu com a Electric Light Orchestra, estourou, com hits como Xanadu (com a ELO), Magic, Whenever You’re Away From Me (com Gene Kelly) e Suddenly (dueto com o amigo Cliff Richards).

Em 1981, veio seu maior hit solo, a contagiante Physical, que ficou dez semanas no topo da parada americana e virou uma febre como tema de vídeos de ginástica. Fez mais um filme com Travolta, Two Of a Kind (1983), e também investiu em causas sociais. Em 1992, lutou contra um câncer de mama, mas não só o venceu na época como também criou uma fundação para arrecadar fundos no intuito de ajudar as vítimas dessa doença terrível.

Sempre ativa, lançou bons discos nesses anos todos, entre eles Back With a Heart (1998). Outro é o duplo ao vivo Summer Nights- Live In Vegas, gravado ao vivo em incluindo hits como Have You Ever Been Mellow, Xanadu, A Little More Love, Sam, Physical, Summer Nights e inúmeras outras, em um total de 22 faixas. E foi esse show comemorativo de seus 50 anos de carreira que a trouxe ao Brasil em 2016. Já está fazendo muita falta…

A Little More Love (clipe)- Olivia Newton-John:

Maricenne Costa é o tema de uma bela e essencial biografia

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Por Fabian Chacur

Na música Wild Life (Ritchie-Tom Zé), que gravou no seu seminal álbum Correntes Alternadas (1992), Maricenne Costa canta os versos “Não pago ingresso novo pro filme que eu já vi”. Uma belíssima definição para a atitude dessa brilhante cantora, compositora e atriz em sua vida e carreira. Essa trajetória é o tema de Maricenne Costa- A Cantora de Voz Colorida, de Elisabeth Sene-Costa e Laís Vitale de Castro, livro que será lançado em São Paulo nesta sexta (22) das 19 às 21h na Livraria da Vila- Shopping Pátio Higienópolis (avenida Higienópolis, nº 618/2009- Piso Pacaembu- fone (11) 3660-0230).

A ideia de realizar esta obra surgiu do desejo que Elisabeth tinha de homenagear a sua irmã, a quem admira profundamente. Com a parceria da jornalista Laís Vitale de Castro, impecável projeto gráfico a cargo de Wildi Celia Melhem (Celinha) e assessoria musical de Moisés Santana e Beto Previero, ela soube mergulhar nos momentos essenciais de uma carreira repleta de fatos importantes e realizações, e nos oferecer um resumo simplesmente impressionante, pelo rico material que contém.

Um dos pontos altos do livro fica por conta do vasto material que o ilustra, em termos de fotos e reprodução de matérias e documentos. Pois os fatos em torno de Maricenne são tão incríveis que algumas pessoas poderiam acreditar que seriam inventados, ou mesmo dignos de dúvidas. No entanto, a realidade é frequentemente muito mais impressionante do que a ficção.

E a vida da garota nascida na cidade de Cruzeiro (SP) é repleta de acontecimentos realmente impressionantes. Em 1958, por exemplo, ela, aos 22 anos de idade, venceu a 1ª edição do concurso A Voz de Ouro ABC, superando em torno de 3 mil concorrentes de todo o país. Foi uma espécie de precursor das atuais competições televisivas do tipo American Idol/Ídolos, e levou o nome de Maricenne para os quatro cantos do Brasil.

Outras cantoras teriam seguido caminhos mais tradicionais ou centrados nos interesses comerciais. Não Maricenne. Ela, a partir deste sucesso inicial, mostrou que não ficaria pagando ingresso novo pro filme que já havia visto, sempre em busca de novidades consistentes. Como ter sido, por exemplo, integrante do grupo de artistas que ajudou a criar e consolidar a bossa nova em São Paulo, como Cesar Camargo Mariano, Alaíde Costa e Théo de Barros.

É importante que esse livro seja lido. Vou ser mais geral na apresentação dessas vitórias da trajetória dessa personagem incrível. Entre outras coisas, foi a 1ª (em 1964!) a gravar uma música do então estudante Chico Buarque (Marcha Para Um Dia de Sol). Participou com destaque de alguns dos mais importantes festivais de música. Fez shows em Portugal e nos EUA, cantando, neste último, no badaladíssimo clube PJ’s, de Frank Sinatra.

Teve idas e vindas pelo caminho. Buscou a ampliação de seus conhecimentos, fazendo faculdade de serviço social e estudando arte dramática. Como atriz, participou de diversos projetos vanguardistas nos anos 1970. Quando voltou à música, recusou rever as glórias do passado, abrindo-se a criar shows inovadores e a revelar novos autores, sendo ela mesma uma compositora das mais elogiáveis.

Gravou pouco, é verdade, mas quem conhece essa obra vai concordar comigo: tudo o que gravou é essencial para quem gosta de música brasileira de qualidade. Teria sido fácil cantar bossa nova pra sempre em shows saudosistas, mas não se prestou a esse papel, gravando álbuns impressionantes pela sua diversidade e personalidade como Correntes Alternadas (1992) e Movimento Circular (2005), representantes de um pop nacional vibrante, ousado e absurdamente consistente.

Sempre trabalhadora e estudiosa, desenvolveu diversos projetos de shows e discos extremamente relevantes, entre os quais Como Tem Passado!!! (1999), no qual resgatou os primórdios da música gravada no Brasil com o apoio do historiador e jornalista José Ramos Tinhorão, e Bossa.SP (2010), no qual resgatou o lado bossa nova da São Paulo da Garoa.

Não, Maricenne não lotou estádios, não cantou no Rock in Rio, não participou de programas no horário nobre global, nem mesmo vendeu milhões de discos. No entanto, a consistência, a ousadia e a importância de seu trabalho musical deveriam tornar obrigatórias as visitas a essa obra por quem realmente quer conhecer o que temos de melhor por aqui. Servir como parâmetro, mesmo, para as novas gerações.

Ou quantos artistas podem se gabar de ter como admiradores João Gilberto (que apelidou a sua voz de colorida), Inocentes (que gravaram com ela em mais de uma ocasião), Judy Garland, Tony Bennett e Milton Nascimento, só para citar alguns? Maricenne reuniu em um mesmo álbum punk rock, blues, vaudeville, jazz, bossa nova, ska e valsa sem soar confusa ou sem rumo. Ela sempre soube dar consistência a essas misturas.

Se extremamente consistente em termos profissionais, ela nunca deu a si própria o devido valor, e chegou a contestar o esforço da irmã, dizendo que a sua carreira não merecia este livro. Meu Deus, quanta humildade! A carreira de Maricenne Costa não só merece este livro maravilhoso (e que venham outros!), como também um documentário, shows celebrando sua obra, mostras sobre essa trajetória, o relançamento de seus álbuns e singles etc.

Ela está aqui, entre nós. Que todos os fãs da música brasileira de qualidade possam dar a ela, nesse estágio de sua vida, o carinho, o acolhimento e, acima de tudo, o reconhecimento que ela merece. Maricenne Costa- A Cantora de Voz Colorida é leitura obrigatória e por demais prazerosa, especialmente se feita tendo como trilha sonora os discos desta ilustre cria de Cruzeiro e paulistana honorária.

MARICENNE COSTA- A CANTORA DA VOZ COLORIDA
DE Elisabeth Sene-Costa e Laís Vitale de Castro
Editora: Álbum de Família- contato: [email protected]
Preço: R$ 40,00 (edição preto e branco) e R$ 60,00 (edição colorida)
O lançamento em Cruzeiro (SP) será realizado no dia 6 de agosto (sábado) das 19 às 22h no Teatro Municipal Capitólio (rua Engenheiro Antonio Penido, nº 636- Centro- fone (12)-3144-1362

Wild Life (Tom Zé e Ritchie)- Maricenne Costa:

Brian Wilson, 80 anos, a prova de que milagres são possíveis

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Por Fabian Chacur

No dia 20 de junho deste ano, Brian Wilson completou 80 anos de idade. Uma bela efeméride, sem sombra de dúvidas. A beleza de tal celebração se torna muito maior se levarmos em conta a trajetória deste genial cantor, compositor, músico, arranjador e produtor norte-americano. Se há alguém que merece ser colocado entre os exemplos de que, sim, milagres são possíveis, é o fundador dos lendários The Beach Boys.

Desde muito jovem Brian viu seus dons musicais virem à tona. Fã do grupo vocal The Four Freshmen, do compositor George Gershwin e do rock de Chuck Berry, entre outras influências bacanas, ele soube como poucos mesclar esses elementos e criar uma sonoridade própria.

Ao lado dos irmãos Carl (1946-1998) e Dennis Wilson (1944-1983), do primo Mike Love e do amigo Alan Jardine, criou os Beach Boys em 1961, grupo que rapidamente se tornou um marco da história do rock.

Com vocalizações intrincadas, e deliciosas, aliadas a melodias caprichadas e letras evocando o surf, o mar, o amor, os carros e a diversão, o grupo invadiu as paradas de sucesso com hits marcantes como Help Me Rhonda, California Girls, I Get Around e inúmeros outros, que continuam até hoje soando deliciosos, ingênuos e extremamente cativantes.

Em dezembro de 1964, Brian começou a sofrer com problemas emocionais, e deixou os shows dos Beach Boys, concentrando-se na função de compositor e músico de estúdio do grupo. Inicialmente, foi substituído nos shows pelo então ainda desconhecido Glenn Campbell (que depois se tornaria um astro) e a seguir por Bruce Johnston, que se incorporaria à banda de forma efetiva.

Ao ouvir o álbum Rubber Soul (1965), dos Beatles, Brian Wilson ficou apaixonado pelo que ouviu, e se sentiu impelido a buscar caminhos ainda mais ousados para a já ousada música que fazia. Esse processo desembocaria em Pet Sounds (1966), um dos trabalhos mais elogiados e influentes da história do rock e sempre nas listas dos melhores LPs de todos os tempos.

Ao lançar o single Good Vibrations naquele mesmo 1966, Wilson entusiasmou público e crítica, com uma verdadeira sinfonia pop com menos de 4 minutos. A canção saiu como uma espécie de prévia do que seria o próximo álbum dos Beach Boys, cujo título seria Smile. Começava ali um dos momentos mais inacreditáveis da história da música pop, ainda mais se levarmos em conta o seu final.

Durante aproximadamente 10 meses, até a metade de 1967, Brian levou seus colegas de grupo e a diretoria da gravadora Capitol à loucura, com suas ousadias estéticas, pirações completas e excentricidades do tipo colocar um piano em uma grande caixa de areia para que pudesse compor se sentindo na praia. Chegou um momento em que o álbum parecia que não iria ser concretizado. E, de fato, infelizmente não foi.

Quando os Beatles lançaram Sgt Peppers, em junho de 1967, aparentemente Brian se sentiu incapaz de encarar tal poderosa concorrência, e o projeto Smile foi engavetado, com suas músicas aparecendo aqui e ali em outros álbuns da banda, inicialmente em Smiley Smile (1967). E as drogas foram tornando o estado mental do artista cada vez pior e sua produção cada vez mais esparsa.

Quando as mortes prematuras de grandes nomes do rock tiveram início em 1969, com a perda de Brian Jones, dos Rolling Stones, as macabras listas de quem seria o próximo a seguir Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison sempre traziam Brian Wilson entre os primeiros colocados. Vídeos dos anos 1970 mostravam ele preso a uma cama, engordando e parecendo cada vez mais fora de sintonia com o mundo. Pouco trabalho criativo e muito desperdício de tempo e de saúde.

As coisas começaram a tomar uma feição diferente, após muitas idas e vindas que geraram internações e diversos problemas para ele e seus entes queridos, a partir dos anos 1980. Sua parceria com o psicólogo Eugene Landy a princípio se mostrou positiva, e o direcionou rumo à criação do seu primeiro álbum solo, Brian Wilson, lançado em 1988 e muito elogiado. Mas, em 1991, ele se afastaria de Landy, que tentava controlá-lo e se aproveitar do músico de forma abominável.

A partir deste momento, sua vida começou a tomar rumos surpreendentes. Casou-se novamente, desta vez com Melinda Ledbetter, adotou cinco filhos e voltou a se dedicar à música de forma mais efetiva. Gravou com as filhas Wendy e Carnie, de seu primeiro casamento e conhecidas como integrantes do grupo pop Wilson Phillips. Lógico que nada aconteceu em um clima de mar de rosas. Ele teve, por exemplo, de lidar com a perda dos irmãos, Dennis em um acidente em 1983 e Carl por problemas de saúde, em 1998.

Sua relação com os remanescentes dos Beach Boys, especialmente o primo Mike Love, que se tornou o líder da banda, foi recheada de altos e baixos, de reuniões eventuais e de brigas judiciais. E Brian sempre teve de se cuidar para dar conta de seus problemas emocionais. No entanto, mesmo assim, ele deu uma linda volta por cima.

A partir de 1999, voltou com tudo aos shows. Passou a lançar álbuns solo com canções inéditas e também relendo material dos filmes da Disney e de seu ídolo George Gershwin. Em 2002, surpreendeu o mundo ao tocar na íntegra o repertório de Pet Sounds, gerando o sublime álbum Brian Wilson Presents Pet Sounds Live. Mas uma surpresa maior chegaria logo a seguir.

Novamente reunido com o letrista Van Dyke Parks, Brian Wilson se debruçou nas composições de Smile e finalizou o repertório e a respectiva ordem das músicas. Acompanhado por músicos de orquestra e por integrantes da banda de rock alternativo The Wondermints, apresentou ao vivo em 2004 em Londres a sua obra enfim finalizada. Em seguida, o registrou em estúdio. Sim, Smile saiu em 2004, 37 anos após ter sido iniciado, agora como obra-solo dele. E que trabalho maravilhoso!

Ainda ativo e lutando bravamente contra os seus demônios, Brian Wilson celebra 80 anos de idade como um dos grandes criadores da história da música popular. Tive a honra de cumprimentá-lo e ter o seu autógrafo em meu exemplar de Brian Wilson Presents Smile em 2004, na extinta e saudosa FNAC Paulista. Ele também fez shows no Brasil. Que Deus abençoe esse incrível sobrevivente, um exemplo de como é possível realizar os sonhos mais improváveis e tidos como impossíveis.

Ouça Smile, de Brian Wilson, em streaming:

Marco Mazzola reedita o livro com as suas incríveis memórias

marco mazzola ouvindo estrelas capa livro

Por Fabian Chacur

O que nomes tão importantes da história da nossa música como Raul Seixas, Elis Regina, Simone, Ney Matogrosso e Milton Nascimento tem em comum, além do imenso talento? Todos tiveram trabalhos importantes de suas ricas discografias produzidos por um certo Marco Mazzola. A trajetória desse grande produtor, hoje com 75 anos e mais na ativa do que nunca, foi descrita em 2007 no livro Ouvindo Estrelas. Pois agora chega uma nova e turbinada edição desta incrível autobiografia, desta vez pela editora Ubook e disponível nos formatos físico, digital e audiobook (narrado por Lúcio Mauro Filho).

Ouvindo Estrelas volta com 544 páginas, sendo 67 de texto adicionais, relatando tudo o que Mazzola fez nos últimos 15 anos, 40 páginas com fotos ilustrando sua riquíssima trajetória e uma discografia com fotos das capas de boa parte dos álbuns produzidos por ele durante esses mais de 50 anos de atividades. Entre eles, nada menos do que Krig-ha, Bandolo! (Raul Seixas-1973), Falso Brilhante (Elis Regina-1976), Alucinação (Belchior-1976) e Sentinela (Milton Nascimento-1980), só para citar alguns deles.

Oriundo de uma humilde família de imigrantes portugueses moradores do Rio de Janeiro e nascido em 25 de abril de 1947 (exatamente um mês após Elton John, vale registrar), o garoto Marco Aurélio da Silva recebeu o apelido Mazzola por sua semelhança com o futebolista brasileiro que foi revelado pelo Palmeiras e depois fez linda carreira na Itália. Curiosamente, este atleta oriundo de Piracicaba (SP) foi batizado como José João Altafini, e recebeu o apelido por causa do craque italiano Valentino Mazzola.

No livro, Mazzola conta sua incrível trajetória, desde os tempos de integrante do grupo infantil Pequenos Cantores da Guanabara até o seu envolvimento com gravações, trabalhando inicialmente como auxiliar, depois como técnico e posteriormente assumindo o posto de produtor. Uma trajetória repleta de momentos simplesmente inacreditáveis, nos quais ajudou a concretizar alguns dos trabalhos mais significativos da nossa música em termos artísticos e de vendagens.

Tipo do livro essencial para quem deseja estudar sobre o desenvolvimento da cena musical brasileira entre os anos 1970 e os tempos atuais, narrando com um texto simples, direto e envolvente histórias que deixarão o leitor com o queixo caído, como, por exemplo, o envolvimento de Mazzola com ninguém menos do que Paul Simon durante as gravações do icônico álbum The Rhythm of The Saints (1990), por exemplo.

Mazzola é de um tempo no qual aliar qualidade artística a bons resultados comerciais era quase que uma questão de honra para diversos profissionais do meio musical. Algo que, de certa forma, se perdeu pelo caminho. Que Ouvindo Estrelas possa servir como exemplo para as novas gerações retomarem esses parâmetros tão importantes para a criação. O amor à música é o que sempre moveu esse profissional, e isso deve servir de exemplo para muita gente que atualmente só pensa nos cifrões.

Gita (clipe)- Raul Seixas:

Patrick Adams e Paulo Diniz, duas grandes perdas na música

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Por Fabian Chacur

Dois grandes músicos nos deixaram nesta quarta-feira (22). Um foi o cantor, compositor e músico pernambucano Paulo Diniz, aos 82 anos. O outro, o produtor, compositor, músico e engenheiro de som norte-americano Patrick Adams, aos 72 anos. Ambos tinham em comum o grande talento e o fato de terem vivido seus períodos de maior sucesso comercial e artístico durante a década de 1970, cada um em sua respectiva área de atuação.

Nascido em 17 de março de 1950, Patrick Adams começou a carreira fazendo arranjos musicais para artistas como Astrud Gilberto. Sister Sledge e outros, além de ter sido manager do grupo Black Ivory. Em meados dos anos 1970, mergulhou no universo da produção e composição. Um de seus primeiros êxitos foi com o projeto de estúdio Universal Robot Band, que estourou em 1977, em pleno auge da disco music.

Este grupo de estúdio fez grande sucesso no Brasil com a música Dance and Shake Your Tambourine (1977- ouça aqui), incluída na trilha da novela global Loco-Motivas (1977). Essa música, assim como o outro ótimo hit deste projeto, Freak With Me (ouça aqui), eram de autoria de Adams, além de contarem com seus arranjos. Esse trabalho atraiu a atenção de Marvin Schlachter, da gravadora Prelude Records.

Schlachter perguntou a Patrick Adams quanto tempo ele levaria para gravar um álbum disco e perguntou o preço, que foi aceito logo de cara. Em apenas três semanas, Adams deu conta do recado, incluindo compor as músicas, fazer os arranjos, arregimentar os músicos e cantores (incluindo a diva Jocelyn Brown) e se incumbir da engenharia de som. Surgia o Musique.

O álbum Keep On Jumpin’ (1978) pode ser considerado um dos grandes clássicos da era disco. Sua fantástica faixa-título é outro hit de Adams no Brasil, pois integrou com destaque a trilha sonora da novela global Pecado Rasgado (1978). Nos EUA e exterior, o principal sucesso foi outra gravação certeira, In The Bush (ouça aqui), que logo virou um clássico das pistas.

Summer Love (ouça aqui) e Summer Love Theme (instrumental- ouça aqui), no mesmo alto nível, completam o álbum. Sim, apenas quatro músicas, mas todas em versões longas, muito criativas e extremamente adequadas às pistas de dança. Tudo nelas é perfeito: as levadas rítmicas, os timbres dos instrumentos, os vocais, os arranjos… Christine Wiltshire, uma das cantoras do álbum, teve uma filha com Adams.

Com a queda da popularidade da disco music, causada principalmente por pressões homofóbicas e racistas, Patrick Adams não deixou a peteca ir ao chão, e trabalhou com artistas de rap como Eric B & Rakim, KSR-One, Mas e Salt-N-Pepa. Suas músicas também foram sampleadas por outros artistas, entre os quais o consagrado Kanye West.

Quero Voltar Pra Bahia e outros hits

Paulo Diniz nasceu em 24 de janeiro de 1940. Em meados dos anos 1960, mudou-se para o Rio de Janeiro para tentar se inserir no meio musical. Com uma inspirada mistura de soul, ritmos brasileiros e pop, ele estourou nacionalmente em 1970 com Quero Voltar Pra Bahia, uma bela, velada e contagiante homenagem a Caetano Veloso, então exilado na Inglaterra.

Não demorou a emplacar outros sucessos marcantes nas paradas de sucesso da época, entre elas O Meu Amor Chorou (de Luiz Marçal Neto- ouça aqui), Um Chope Pra Distrair (ouça aqui) e Pingos de Amor (ouça aqui), esta última regravada em 2000 com muito sucesso pelo Kid Abelha. As três últimas são composições dele feitas em parceria com Odibar (1950-2010), seu parceiro mais constante nesses seus anos de ouro.

Outra marca de sua obra foi musicar poemas de nomes ilustres como Carlos Drummond de Andrade (José), Gregório de Matos (Definição de Amor), Manuel Bandeira (Vou Me Embora Pra Passárgada) e Augusto dos Anjos (Versos Íntimos). Ele também releu clássicos alheios como Felicidade (Lupicinio Rodrigues) e Asa Branca (Luiz Gonzaga-Humberto Teixeira).

Embora sem o mesmo sucesso em termos comerciais, Diniz se manteve na ativa até o início dos anos 2000, quando parou de fazer shows devido às complicações causadas pela esquistossomose, mas se mantinha compondo e apoiava projetos que envolviam suas composições.

Keep On Jumpin’– Musique:

Kate Bush faz sucesso com uma música com 37 anos de idade

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Por Fabian Chacur

É incrível o poder que a inclusão de uma música em um filme ou série pode ter para a divulgação de um artista. Um belo exemplo está em ação neste exato momento. Lançada há 37 anos, a canção Running Up That Hill, de Kate Bush, foi incluída com destaque na 4ª temporada da série Stranger Things, da Netflix, ambientada nos anos 1980. Pois essa faixa voltou com força total às paradas de sucesso de todo o mundo, e também nas plataformas digitais de música. Um fenômeno impressionante.

Running Up That Hill saiu originalmente em 1985, atingindo no formato single a 3ª posição na Inglaterra, e a de nº 30 nos EUA. O álbum do qual ela faz parte, Hounds Of Love, liderou a parada do Reino Unido e chegou ao 30º posto na terra de Bob Dylan. O clipe, no qual a cantora, compositora e musicista britânica mostra seus conhecimentos de balé, tornou-se rapidamente um clássico, e agora quebra recordes de visualizações no youtube e em outras plataformas de vídeo e áudio.

Hoje com 63 anos de idade e felizmente na ativa, Kate Bush enviou através de sua gravadora o seguinte depoimento, sobre a volta de sua clássica canção às paradas de sucesso:

“Quando os primeiros episódios começaram a sair, meus amigos me perguntavam se tínhamos visto Stranger Things, então fomos atrás da série e amamos. Nós assistimos todas as temporadas desde então, como uma família. Quando eles nos contataram para usar Running Up That Hill, dá para dizer que foi tomado um super cuidado em como ela seria usada, em qual contexto da história, e eu adorei o fato de que a canção fosse um amuleto positivo para a personagem Max. Estou muito impressionada com as últimos episódios. São um trabalho épico – extremamente bem feito, com personagens incríveis e efeitos sonoros fantásticos. É muito comovente que a canção tenha sido tão carinhosamente recebida, especialmente sendo impulsionada pelos fãs desse tipo de série. Estou muito feliz que os Duffer Brothers estejam recebendo um retorno tão positivo por sua última criação. Eles merecem.”.

Que isso incentive as pessoas a mergulhar na discografia de Kate Bush, iniciada em 1978 com o megahit Wuthering Heights e repleta de canções maravilhosas, que mesclam rock, música erudita, pop, experimentalismo e lirismo, sempre com letras maravilhosas e a voz simplesmente cativante dessa artista única, influência perene para todas as outras cantoras e compositoras que vieram posteriormente nesta mesma seara musical.

Running Up That Hill (clipe)- Kate Bush:

James Seals, 80 anos, da dupla de soft rock Seals & Crofts

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Por Fabian Chacur

Das inúmeras músicas de que gosto, Summer Breeze ocupa um lugar muito especial, pois me traz belas recordações de meus tempos de criança. Essa gravação estourou há exatos 50 anos com a dupla Seals & Crofts (leia mais sobre eles aqui). Pois nesta segunda-feira (6), foi anunciada a morte, aos 80 anos de idade, de James Seals, um dos integrantes do duo. Ele estava afastado do show business desde 2017, após ter sofrido um derrame.

A notícia foi tornada pública, através de uma rede social, pelo cantor, compositor e músico Brady Seals, ex-integrante da bem-sucedida banda country Little Texas, artista-solo de boa repercussão e primo de James.

James Seals nasceu em 17 de outubro de 1941, e começou a se tornar conhecido no cenário musical no finalzinho dos anos 1950, quando entrou no grupo The Champs, logo após esta banda americana estourar com Tequila. Foi ali que ele começou a sua amizade e parceria musical com Dash Crofts, que iria gerar, em 1970, a dupla Seals & Crofts.

O duo lançou dois álbuns independentes e um pela Warner sem grande repercussão, embora ficasse clara a qualidade de sua música, uma mistura de country, folk e rock que posteriormente ganharias os rótulos soft rock e bittersweet rock. A coisa pegou no breu pra eles em 1972 quando Summer Breeze, faixa-título de seu 4º álbum, tornou-se um grande sucesso, atingindo o top 10 nos EUA e estourando no mundo todo.

Com vocalizações impecáveis (com Jim no vocal líder) e composições encantadoras, Seals & Crofts emplacaram hits marcantes até o final dos anos 1970. Entre outras, Diamond Girl (ouça aqui), We May Never Pass This Way Again (ouça aqui), Get Closer (ouça aqui) e até mesmo a influenciada pela disco music You’re The Love (ouça aqui).

Com o fim do contrato com a Warner, no comecinho dos anos 1980, a dupla resolveu se desfazer, voltando em dois curtos períodos apenas, em 1991 e 2004. James chegou a fazer shows com o seu irmão Dan Seals, integrante de outra dupla de sucesso daqueles anos 1970, England Dan & John Ford Coley, que estourou com canções maravilhosas como I’d Really Love To See You Tonight (ouça aqui) e Love Is The Answer (ouça aqui). Dan se foi em 2009.

Summer Breeze– Seals & Crofts:

Tempo Feliz é livro que conta a história de uma bela aventura

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Por Fabian Chacur

Uma forma interessante de estudar a história da música brasileira é se deter na trajetória das gravadoras, especialmente as independentes ou de pequeno e médio porte. É através delas que muita coisa importante aconteceu. Um bom exemplo é a Forma, criada por Roberto Quartin e Wadi Gebara em 1964 e que se manteve assim até 1967, quando foi vendida para a CBD (cujo acervo hoje pertence à Universal Music). Eis a missão assumida pelo jornalista Renato Vieira, que mergulhou fundo nela e nos proporcionou o excelente livro Tempo Feliz- A História da Gravadora Forma (Kuarup Música).

Além das tradicionais entrevistas com boa parte dos principais envolvidos com o enredo do tema que resolveu abordar, Vieira teve uma ideia bastante interessante. Como o acervo de lançamentos da Forma em seu período independente comporta um número pequeno de títulos (pouco mais de 20), ele nos traz uma análise de cada um deles, com direito a fichas técnicas, textos das contra-capas e também uma análise inteligente dos discos, incluindo desempenho comercial e repercussão na imprensa.

Além disso, ele nos situa de forma basante precisa naquele período da história do Brasil, quando o golpe militar havia acabado de ocorrer e as perseguições à área cultural foram aos poucos aumentando, além do clima favorável à bossa nova no exterior, graças ao mitológico show no Carnegie Hall em 1962 e principalmente ao estouro do álbum Getz-Gilberto (1964), que vendeu muito e rendeu 4 troféus Grammy ao músico americano Stan Getz e seus talentosos parceiros brazucas.

É dentro dessa dualidade medo/esperança que a Forma surge. Ela é fruto do idealismo quase irresponsável do jovem Roberto Quartin, que se une a um profissional do meio musical, o alemão Peter Keller, para criar um selo musical que teria seus discos prensados e distribuídos pela CBD. Keller saiu da sociedade antes mesmo do lançamento do 1º álbum, e o também jovem músico amador e arquiteto Wadi Gebara acabou sendo o seu parceiro de fato nessa ousada empreitada.

Quartin tinha como objetivo lançar discos de artistas extremamente talentosos e que admirava muito, mesmo sem saber se poderiam lhe dar um retorno comercial que viabilizasse o negócio. Cada álbum teria apresentação luxuosa, com direito a capas duplas, textos assinados por nomes importantes da cultura brasileira e fichas técnicas completas. E assim foi feito, mesmo sob o olhar assustado de Gebara em vários momentos, ele mais próximo do lado financeiro dessa operação.

Em termos musicais, deu muito certo. Entre outros, lançou o mitológico Os Afro-Sambas, firmando a célebre parceria de Baden Powell e Vinícius de Moraes, os primeiros discos do seminal Quarteto em Cy, o icônico Coisas, do maestro Moacir Santos e discos importantes e marcantes dos então ainda novatos Eumir Deodato e Victor Assis Brasil, só para citar alguns.

O duro é que, por circunstâncias as mais diversas, esses discos foram acumulando prejuízos, e em 1966 o próprio Quartin resolveu se mandar, deixando a encrenca nas mãos de Gebara. A Forma só se manteve no mesmo espírito independente até 1967, quando foi vendida para a CBD e tornou-se apenas um selo como outro qualquer até 1971, quando enfim saiu de cena. Mas sua história ficou marcada.

Com um texto fluente e consistente, Renato Vieira nos conta essa história com muita riqueza de detalhes e bastidores, e que mostra um pouco do idealismo em prol da criação de espaços nobres para lançamentos de artistas que praticassem a boa música brasileira que gerou empreitadas como esta Forma e também a mais conhecida delas, a Elenco de Aloysio de Oliveira, outra que acabou sendo incorporada ao acerco da gloriosa CBD.

Roberto Quartin ainda faria algumas produções eventuais, após deixar a Forma, e nos deixou em 2004, aos 62 anos de idade. Wadi Gebara saiu de vez da cena musical sem um tostão, e voltou a se dedicar à arquitetura, sendo uma das fontes deste livro e quem sugeriu o belo título. Ele infelizmente nos deixou antes de vê-lo publicado, em 2019, aos 81 anos.

Ao desabafar um dia com o amigo Roberto Menescal sobre o fato de ter perdido todo o dinheiro que tinha com o projeto da Forma, Gebara ouviu de um dos grandes craques da bossa nova uma frase lapidar, e com um trocadilho matador: “Wadi, foi a melhor forma de você perder dinheiro”.

Os Afro-Sambas- Baden e Vinícius (ouça em streaming):

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