Mondo Pop

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Category: Grandes nomes esquecidos (page 1 of 6)

Sweet Sensation (1980), um clássico de Stephanie Mills

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Por Fabian Chacur

Em 1980, Stephanie Mills completou 23 anos de idade. Ainda nova, já podia ser considerada uma veterana no show business, com 14 anos de estrada no teatro e na música. Naquele ano, essa incrível cantora e atriz viveu um dos momentos mais importantes de sua trajetória com o lançamento do álbum Sweet Sensation (20th Century Fox, saiu no Brasil via RCA). Com este trabalho, ampliou seu alcance no público black e de quebra emplacou seu maior hit no cenário mainstream, a deliciosa canção Never Knew Love Like This Before.

Nascida em Bed-Stuy-Brooklin-Nova York em 22 de março de 1957, Stephanie Dorthea Mills teve sua iniciação musical semelhante à da maior parte das cantoras negras americanas, cantando em uma igreja ainda pequena. Aos 9 anos, estreou profissionalmente no musical Maggie Flynn. Aos 11, conseguiu vencer uma acirrada competição na Amateur Night no mitológico Apollo Theater, no Harlem, e foi convidada a abrir shows dos lendários Isley Brothers.

Ainda adolescente, lançou dois álbuns-solo, Movin’ In The Right Direction (1974) e For The First Time (1975). Este último, lançado pela gravadora Motown, contou com a produção e composições da dupla Burt Bacharach e Hal David, sendo 8 das 10 faixas inéditas. Infelizmente, ambos passaram batidos.

No teatro, o início do estrelato

No entanto, a carreira no teatro musical lhe proporcionou um primeiro grande momento. Ela foi convidada para viver Dorothy, um dos personagens principais de The Wiz, versão com artistas negros para o teatro do filme O Mágico de Oz.

Ficou em cartaz de 1975 e 1977 com muito sucesso na Broadway, mas sentiu-se frustrada ao não ser convidada para repetir o papel em uma nova versão cinematográfica da história lançada em 1978 e dirigida por Sidney Lummet. Ela perdeu a vaga para Diana Ross.

Sem baixar a cabeça, seguiu em frente, e em 1979 foi contratada pela gravadora 20th Century Fox para um novo álbum. O selo escolheu para produzi-la James Mtume e Reggie Lucas, uma dupla de jovens músicos que haviam tocado com Miles Davis e Roberta Flack, tendo composto para esta última os belíssimos hits The Closer I Get To You e Back Together Again.

A parceria não poderia ter dado mais certo, e já se mostrou certeira logo no primeiro álbum que os reuniu, Wat Cha Gonna Do With My Love (1979), que atingiu o 22º posto na parada pop e o 12º no chart de rhythm and blues (r&b).

A fórmula de mesclar canções disco do tipo uptempo, canções dançantes midtempo (batida intermediária entre as mais agitadas e as mais lentas) e baladas românticas se mostrou matadora, com direito a hits como a faixa-título, a empolgante Put Your Body In It e You And I.

Sucesso e a conquista do público mainstream

Obviamente incentivados pelo sucesso do disco anterior, Mtume e Lucas iniciaram os trabalhos que resultariam em Sweet Sensation com muita garra. De cara, selecionaram um time de músicos e vocalistas de apoio conciso e impecável, no qual se destacavam as cantoras Gwen Guthrie e Tawatha Agee, o tecladista Hubert Eaves III, o guitarrista Edward Moore e o baterista Howard King.

Com essa escalação, e mais os arranjos de cordas e metais a cargo de Wade Marcus, eles investiram nas oito faixas incluídas no disco, sendo cinco assinadas pela dupla de produtores e outras três compostas por integrantes da banda. Como quatro delas duram mais de cinco minutos, algo habitual em trabalhos de funk, r&b e disco music, não havia como ir além desse número, como forma de garantir a qualidade técnica do áudio do LP.

O resultado não poderia ser melhor. Trata-se de um trabalho diversificado, conciso e envolvente, no qual Stephanie teve a chance de exibir a qualidade de sua voz sensual e doce, capaz de encarar com categoria os três tipos básicos de canção incluídas aqui- funk-disco, r&b midtempo e baladas encantadoras.

As faixas que mais se destacaram foram a que deu título ao LP, que atingiu o nº 52 na parada pop e nº 12 na de r&b, e especialmente Never Knew Love Like This Before, que alcançou o 6º lugar na parada pop (única vez que ela conquistou tal feito) e 12º no chart r&b. A música, no Brasil, foi incluída na trilha sonora da novela global Plumas e Paetês, que foi exibida entre 1980 e 1981.

Uma parceria marcante

Sweet Sensation foi o mais bem-sucedido dos quatro álbuns que Mtume e Lucas produziram para Stephanie Mills entre 1979 e 1982, e marcou a carreira de todos os envolvidos. Depois, ela trabalharia com outros grandes produtores e com muito sucesso, como a dupla Ashford & Simpson e Angela Winbush, mas essa parceria ficou como um dos grandes destaques do currículo deles.

Se não conseguiu nada tão expressivo na parada pop após Sweet Sensation, Stephanie Mills se manteve muito bem na cena r&b durante toda a década de 1980, emplacando cinco canções e um álbum no topo da parada de r&b americana entre 1986 e 1989. A partir dos anos 1990, infelizmente gravou quatro discos sem grande repercussão, mas continua fazendo bons shows.

Para os “fofoqueiros” de plantão, vale lembrar que ela teve um rápido namoro com Michael Jackson, e foi casada entre 1980 e 1983 com outro astro do r&b, o cantor Jeffrey Daniels, do grupo Shalamar.

As faixas de Sweet Sensation:

Sweet Sensation (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
O álbum abre com uma faixa-título envolvente, em ritmo midtempo, no qual uma das marcas deste trabalho já se apresenta logo de cara: os diálogos musicais entre Stephanie e as vocalistas de apoio, além da coesão entre os instrumentos de sopros, cordas e teclas. Um clássico do r&b.

Try My Love (Tawatha Agee-Hubert Eanes III)- Ouça aqui.
O pique dançante prossegue com uma faixa irresistível na mesma levada da anterior, mas com mais espaços para a voz de Stephanie mergulhar fundo, gerando uma interação com suas vocalistas que é de arrepiar. E que refrão! E que arranjo de metais! A audição dessas duas músicas já valeria a sua aquisição. Mas vem mais coisa boa por aí!

I Just Wanna Say (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Temos aqui a primeira canção lenta do disco, com destaque para os teclados e no melhor estilo slow jam, ou seja, aquelas faixas românticas sensuais com duração mais longa típicas da black music dos anos 1970-80.

Wish That You Were Mine (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Um momento mais disco music para fechar o lado A do vinil com alto astral total, com direito a uma guitarra-rítmica irresistível e um apelo pop certeiro.

D-A-N-C-I-N’ (Edward Moore-Howard King)- Ouça aqui .
O lado B do vinil abre com força total, nesta canção midtempo com refrão forte que aparece logo de cara chamando as pessoas para a pista de dança, com Stephanie endiabrada e soltando a voz. Para bater palmas junto! Outro show das vocalistas de apoio no refrão e nos diálogos com a sua “chefe”. E que groove!

Still Mine (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Aqui, o momento de uma balada soul romântica por excelência, aquela lentinha que levava os casais para a pista de dança durante os bailinhos dos anos 1970-início dos 1980. A performance de Stephanie é espetacular.

Never Knew Love Like This Before (Mtume-Lucas)- Ouça aqui.
Não é difícil entender o porque esta é a canção que mais se destacou na parada mainstream, ou seja, a “dos brancos”. Embora sem perder a alma, é o momento mais pop do disco, no qual Stephanie canta com tanta doçura e ingenuidade sincera a celebração da descoberta do “amor da sua vida” descrito na letra que pode arrancar lágrimas de alguém mais emotivo, alguém tipo eu, por exemplo… Esta música rendeu o Grammy de melhor performance de r&b para Stephanie, e de melhor canção de r&b para Mtume e Lucas.

Mixture Of Love (Joe Mills-John Simmons)- Ouça aqui.
Uma assumida fã de canções românticas, Stephanie nos mostra aqui, mais uma vez, como usar uma voz potente, doce e versátil de forma absolutamente sensual e impecável em termos técnicos. E os diálogos com o coral de apoio mais uma vez são encantadores. Final feliz para um disco maravilhoso!

Saiba mais sobre o time que gravou Sweet Sensation

James Mtume– Este produtor, percussionista, tecladista e compositor tocou com Miles Davis entre 1971 e 1975, e logo a seguir, na banda de Roberta Flack. Paralelamente, ele tinha a sua própria banda, a Mtume, com Tawatha Agee nos vocais, e com ela emplacou pelo menos um clássico perene dos anos 1980, Juicy Fruit (ouça aqui), que chegou ao topo da parada de r&b. Ele teve músicas gravadas por Stephanie, Roberta Flack e também por Donny Hathaway, Phyllis Hyman, Mary J. Blige, Teddy Pendergrass, Inner City e R. Kelly.

Reggie Lucas-Guitarrista e compositor, tocou junto com Mtume nas bandas de Miles Davis e Roberta Flack. Além do trabalho ao lado do parceiro, ele tem um belo item solo em seu currículo: produziu seis das oito faixas do autointitulado álbum de estreia de Madonna em 1983, e é o autor de duas dessas músicas, os hits Borderline e Physical Attraction. Ele também foi guitarrista da banda de Billy Paul antes de conhecer Mtume.

Gwen Guthrie (1950-1999)- A saudosa cantora e compositora é a coautora de hits deliciosos de r&b como This Time I’ll Be Sweeter (sucesso no Brasil na versão de Linda Lewis), Supernatural Thing (hit com Ben E. King) e Love Don’t You Go Through No Changes On Me (hit com o grupo Sister Sledge). Além de participar de discos de inúmeros outros artistas (entre os quais Madonna, Aretha Franklin, Billy Joel, Stevie Wonder e Peter Tosh) também gravou seis álbuns solo entre 1982 e 1990, com direito a ao menos um grande hit na cena black americana, a irresistível Ain’t Nothing Goin’ On But The Rent (ouça aqui), que atingiu o topo da parada de r&b americana em 1986.

Tawatha Agee– Além de coautora de canções como o hit Two Hearts, que estourou em 1981 em marcante dueto de Stephanie Mills com o seminal Teddy Pendergrass, ela também foi a vocalista principal do grupo Mtume, aquela voz deliciosa que conduz o hit Juicy Fruit.

Hubert Eaves III– O tecladista que assinou Try My Love ao lado de Tawatha Agee também se destacou como integrantes das banda Mtume e D Train, esta última na verdade um duo integrado por ele e o cantor e compositor D-Train Willians e conhecido pelo hit Something’s On Your Mind (regravada depois por Miles Davis em seu álbum You’re Under Arrest, de 1985).

Howard King– Foi baterista da banda Mtume.

Veja Stephanie Mills ao vivo em 1998:

Steve Priest, 72 anos, baixista da banda glam setentista The Sweet

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Por Fabian Chacur

Como diz a maravilhosa música de Milton Nascimento Encontros e Despedidas, bela parceria com o saudoso Fernando Brant, “São só dois lados da mesma viagem, o trem que chega é o mesmo trem da partida, a hora do encontro é também de despedida, a plataforma dessa estação é a vida desse meu lugar, é a vida desse meu lugar”. Nesta quarta (3), celebramos os 70 anos de idade de Suzi Quatro. Nesta quinta (4), chega a vez de nos despedirmos de Steve Priest, baixista da banda britânica The Sweet.

Priest tinha 72 anos, e sua morte foi informado pelos parentes e em seu site oficial. Ele e Suzi são estrelas de uma mesma época, a década de 1970, do glam rock, e também compartilhavam o fato de terem gravado inúmeros hits assinados pela dupla de compositores Nicky Chinn e Mike Chapman.

O músico permanecia na ativa com a sua versão do The Sweet, e inclusive estava com pelo menos nove shows agendados nos EUA e Canadá, incluindo um que seria no próximo dia 12, não fosse a pandemia do novo coronavírus.

Astros do bubblegun rock

Nascido na Inglaterra em 23 de fevereiro de 1948, Priest iniciou a banda que lhe deu fama internacional em 1968, ao lado do cantor Brian Connoly (1944-1997), do baterista Mick Tucker (1947-2002) e do guitarrista Frank Torpey, inicialmente com o nome The Sweetshop. Eles lançaram seu primeiro single, Slow Motion, naquele mesmo ano, pelo selo Fontana, e nada aconteceu. A seguir, Torpey saiu do time, dando seu lugar a Mick Stewart.

O selo Parlophone, do conglomerado EMI, o mesmo que lançou os Beatles, apostou neles, mas, após três singles que também passaram batidos, levaram o chamado cartão vermelho daquela empresa fonográfica. É aí, em 1970, que eles encontram o produtor e representante de uma editora musical Phil Wainman, que resolve tentar a sorte com aquela banda.

A editora tinha uma dobradinha de compositores ávida por sucesso, o australiano Mike Chapman e o inglês Nicky Chinn, e Wainman os escalou para compor alguma coisa para o agora The Sweeet.

Inspirados no grande sucesso daquele momento, Sugar Sugar, dos Archies (grupo fictício de desenho animado cujas músicas eram gravadas por músicos de estúdio), a dupla compôs Funny Funny. O estilo daquele tipo de música até ganhou um apelido, bubblegun rock (rock goma de mascar), graças a seu ritmo dançante e pegajoso e suas letras infantiloides e fáceis de decorar.

Deu super certo. O primeiro single do grupo com o novo time de produção e composição, a citada Funny Funny, atingiu o 11º lugar na parada britânica. O seguinte, Co-Co, foi ainda melhor, batendo no segundo posto no Reino Unido.

Tinha início a fase áurea do quarteto. Pouco antes, Mick Stewart saiu, substituído por Andy Scott (1951), uma espécie de Ringo Starr, pois entrou justo na hora em que as coisas começaram a engrenar para eles.

A marca registrada do The Sweet nesse período foi o fato de ser basicamente uma banda de singles, com o lado A sempre destinado a canções de Chinn-Chapman e o lado B às composições dos integrantes da banda. Em 1972, eles tomaram de vez os charts britânicos, com as vibrantes Poppa Joe (nº 11, foi usada na época como tema de abertura de um programa infantil de TV no Brasil), Little Willy (nº 1, o primeiro da banda) e Wig Wan Ban (nº 4).

Embora as músicas de Chinn e Chapman melhorassem a cada novo lançamento, Priest e sua turma queriam se livrar do rótulo de “banda de bubblegun”, e lados B bacanas compostos por eles como Jeannie, New York Connection e Burning (esta, uma cópia descarada, mas deliciosa, de Immigrant Song, do Led Zeppelin) provavam que os caras não eram ruins na arte de escrever canções.

Outro fator decisivo para o sucesso do The Sweet reside em seu visual andrógino, repleto de roupas de couro, cabelos longos e uma performance ao vivo repleta de sensualidade e energia.

Em 1973, finalmente o The Sweet conquistou seu primeiro hit nos EUA, com Little Willy atingindo o nº 3 na terra do Tio Sam. Na Inglaterra, a energética Blockbuster (valendo-se do marcante riff de guitarra de Mannish Boy, de Muddy Waters, que também geraria na época The Jean Genie, de David Bowie, e diversas outras músicas) chegou ao nº 1, seguidas por outros hits certeiros: Hellraiser (nº 2) e Ballroom Blitz (nº 2), esta última considerada precursora da new wave.

Em 1974, Teenage Rampage chegaria ao nº 2 no Reino Unido. Naquele momento, a parceria da banda com seus mentores começou a fazer água, pela ambição dos roqueiros em serem mais respeitados pelos críticos e público. Naquele ano, lançaram Sweet Fanny Adams, álbum mais voltado ao hard rock no qual seis das nove faixas eram da autoria deles. E, a seguir, Chinn-Chapman e Phil Waimman saíram do comando da banda.

Uma turnê de três meses pelos EUA impulsionou o Sweet no mercado americano, e o resultado foi o sucesso tardio de Ballroom Blitz (nº5) e o estouro do primeiro single com um lado A escrito por eles, a empolgante e hard Fox On The Run, que chegou ao 5º lugar por lá e ao 2º posto no mercado britânico. O álbum Desolation Boulevard (1975) também foi bem no mercado americano.

Aí, o glam rock viu sua popularidade cair, e o Sweet não saiu ileso disso. Lançou vários discos até o final dos anos 1970, mas a única faixa que realmente pegou no breu foi a espécie de power ballad Love Is Like Oxygen, que foi top 10 nos EUA e Inglaterra, o único de suas carreiras.

Como consequência de anos de convivência e também da queda do sucesso, o vocalista Brian Connoly saiu fora para investir em uma carreira-solo, com Priest e Scott se incumbindo dos vocais em seu lugar. A banda prosseguiu gravando e fazendo shows até 1982, quando, após lançar o álbum ironicamente intitulado Identity Crisis, encerrou as suas atividades da forma como os conhecemos.

Em 1988, Mike Chapman conseguiu reunir os quatro músicos com o objetivo de um disco de inéditas e uma turnê, mas não demorou muito para que os planos fossem deixados de lado. Connoly tentou criar a sua versão do The Sweet e Andy Scott fez o mesmo, mas inicialmente não deu muito certo, e infelizmente o cantor se foi em 1997, após ter lutado contra vários problemas de saúde.

Steve Priest lançou uma autobiografia em 1994 intitulada Are You Ready Steve?, cujo título foi extraído da introdução de Ballroom Blitz. Após vários projetos malsucedidos, incluindo um disco solo, Priest Precious Poems, ele resolveu fazer um projeto mais lucrativo, valendo-se do nome de sua ex-banda.

Em 2008, tinha início o Steve Priest’s The Sweet, radicado nos EUA, que gravou o disco ao vivo Live in America (2009). Enquanto isso, ainda sediado na Inglaterra, Andy Scott defendia o leitinho das crianças com o seu Andy Scott’s The Sweet. O acordo era que um não faria shows na seara do outro. E nos anos 2010, eles voltaram a se falar, após anos de desavenças, mas uma reunião nunca ocorreria.

O Steve Priest’s The Sweet fez shows em 2018 para celebrar os 50 anos da célebre banda glam, e continuava na estrada nos últimos tempos.

Veja mais clipes do The Sweet aqui.

Ballroom Blitz (clipe)- The Sweet:

Suzi Quatro, 70 anos, uma bela e verdadeira rainha do rock and roll

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Por Fabian Chacur

Não tem um só roqueiro da minha geração ou da geração anterior à minha que não seja até hoje apaixonado por Suzi Quatro. Não só pelo fato de essa cantora e baixista americana ser uma tremenda de uma gata. A coisa ia muito além disso. Esse ícone do rock and roll completa nesta quarta (3) 70 anos cada vez mais viva nos corações de quem curte rock de verdade. E esse sempre foi um forte diferencial dela. Tinha charme e era bonita, mas ganhava fãs fieis mesmo era na hora em que começava a cantar e tocar seus diversos hits.

Nascida nos Estados Unidos em 3 de junho de 1950, mesmo ano de Peter Frampton, Suzi tinha no pai (Art, funcionário da General Motors e músico de jazz nas horas de folga) uma influência. Ainda garota, montou dois grupos só de mulheres, ao lado das irmãs Patti, Nancy e Arlene.

A primeira banda das garotas, a The Pleasure Seekers, gravou dois singles, um em 1966 (com as faixas Never Thought You’d LeaveWhat a Day To Die) e outro em 1968 (incluindo Light Of LoveGood King Of Hurt). Vale o registro: Suzi nasceu e iniciou a sua carreira em Detroit, a cidade onde também nasceu e cresceu a mitológica Motown Records.

Em 1971, foi descoberta por lá pelo produtor britânico Mickie Most, que havia trabalhado com Jeff Beck, The Animals e Donovan, entre outros, e se mudou para a Inglaterra, onde foi contratada pela Rak Records, de Most.

Ela também havia recebido um convite da Elektra Records, mas preferiu o selo britânico, explicando em uma entrevista a razão:
“O presidente da Elektra me disse que eu poderia me tornar a nova Janis Joplin, enquanto Mickie Most me fez a oferta de me levar para a Inglaterra e me tornar a primeira Suzi Quatro. E eu nunca quis ser a nova coisa alguma!”

Uma rainha do rock nasce no Reino Unido e no mundo

Most preparou sua pupila durante mais de um ano. O primeiro single de Suzi, Rolling Stone, saiu em 1972, mas só se deu bem em Portugal. O sucesso veio em 1973 com dois singles explosivos, Can The Can e 48 Crash, ambos de autoria da dupla de compositores Mike Chapman e Nicky Chinn, que também fizeram hits para o The Sweet e vários outros.

Embora diferentes entre si, esses dois rockões tinham características em comum: abertura absurdamente energética de bateria, guitarras distorcidas na medida e o vozeirão ardido de Suzi dando o tom, além de melodias muito, mas muito bacanas mesmo. Além disso, temos seu visual, com longos cabelos loiros em corte repicado que virariam sua marca registrada e roupas justas de couro.

Ironicamente, Suzi Quatro não fez sucesso nessa época em seu país natal. Na Inglaterra, Europa, Austrália e diversos outros países, entre os quais o Brasil, a moça virou mania. Até 1975, outros sucessos rolariam, como Devil Gate Drive, Daytona Demon e a alucinada The Wild One.

Ela também fazia covers, e um é dos mais curiosos: I Wanna Be Your Man, de Lennon e McCartney e também gravada pelos Rolling Stones, na qual ela cantava “quero ser seu homem” sem o menor pudor, e também sem necessariamente a menor vontade de encarar alguém do mesmo sexo.

O sucesso retorna com um contorno mais pop

Após alguns anos de vacas magras, Suzi Gata voltou às paradas em 1978 com dois singles bem bacanas, mas com pegada mais pop: o sacudido pop rock If You Can’t Give Me Love e a popíssima Stumblin’ In, esta última em dueto com o cantor Chris Norman, vocalista do grupo Smokie, e o único hit de verdade de Suzy nos EUA, atingindo o quarto lugar na parada de singles americana em 1979.

Aliás, nos EUA a cantora ficou mais conhecida por ter vivido o papel da roqueira Leather Tuscadero no seriado televisivo de grande sucesso Happy Days, participando de sete episódios das temporadas de nº 5 e 6 da atração entre 1977 e 1979. O produtor do programa, Garry Marshall, propôs a ela estrelar uma série baseada nessa personagem, mas Suzi achou melhor recusar, pelo medo de ficar rotulada e perder força em sua carreira dessa forma.

Em 1980, lançou a poderosa Rock Hard, tema do filme Times Square, de Alan Moyle (conhecido pelo filme Empire Records, de 1995), que não fez sucesso mas tem uma das melhores trilhas sonoras de todos os tempos. Um dia preciso escrever sobre esse disco aqui.

Fora das paradas de sucesso, mas firme na ativa

A partir daí, o sucesso musical saiu de cena para Suzi Quatro. Ela também se dedicou durante algum tempo a ter filhos com o primeiro marido, o guitarrista de sua banda de apoio Len Tuckey, com quem se manteve entre 1976 e 1992 e teve Laura e Richard Leonard. Em 1986, lançou uma releitura de Wild Thing, dos Troggs, em dueto como o vocalista daquela célebre banda, Reg Presley. Ela também apresentou outros programas de rádio e TV, além dos já citados.

Residindo em Essex, na Inglaterra, passando alguns períodos em Hamburgo e em Detroit, Suzi continua bem ativa, mesmo sem o sucesso dos bons tempos, lançando novos trabalhos e fazendo alguns shows. Em 2017, ela lançou o álbum Quatro, Scott & Powell, reunindo três astros da era do glam rock: ela própria, Andy Scott (do The Sweet) e Don Powell (do Slade). Seu álbum mais recente, No Control, saiu em 2019 por um selo independente.

Algumas curiosidades bacanas sobre Suzi Quatro

*** Das três irmãs que integraram com ela o grupo The Pleasure Seekers (que em sua fase final virou Cradle), Patti foi quem avançou mais. Ela tocou com a irmã em algumas ocasiões e integrou outra banda feminina de sucesso, a Fanny, com quem gravou em 1974 o álbum Rock And Roll Survivors. As meninas também tinham outro irmão, Michael Quatro, que lançou vários trabalhos solo também na área roqueira. Arlene é mãe da atriz Sherilyn Fenn, conhecida por sua atuação em séries como Twin Peaks e Ray Donovan e no filme televisivo Liz: The Elizabeth Taylor Story, no qual viveu o papel da célebre estrela de Hollywood.

*** Quando chegou aos EUA oriundo da Itália, Art teve de mudar o seu sobrenome original, Quattrocchi, que virou Quatro por sugestão da imigração americana. A mãe de Suzi era oriunda da Hungria.

*** O britânico Nicky Chinn e o australiano Mike Chapman compuseram os maiores hits de Suzy Quatro, maravilhas do porte de 48 Crash, Can The Can, Devil Gate Drive, If You Can’t Give Me Love e Stumblin’ In, entre inúmeros outros. Eles também escreveram canções de sucesso para The Sweet, Huey Lewis And The News, Toni Basil, Smokie, Mud e Racey. Sozinho, Chapman também produziu álbuns dos grupos Blondie e The Knack e compôs sucessos para Tina Turner.

*** Suzi regravou vários clássicos do rock, entre eles All Shook Up, que estourou na voz de Elvis Presley. Diz o livro Guiness Book Of Rock Stars (1991), de Dafydd Rees e Luke Crampton, que o The Pelvis não só elogiou a performance da moça em sua regravação como a convidou (em 1974) para ir à sua casa, a mitológica Graceland, conhecê-lo. Dizem que ela amarelou, por Elvis ser seu maior ídolo e Suzi achar que não aguentaria o tranco!

*** Suzi é considerada uma das mais influentes mulheres da história do rock, citada como influência por grupos como The Runaways, Girlschool, The Bangles e até por Tina Weimouth, a baixista dos Talking Heads, que diz ter resolvido tocar baixo tendo como estímulo a intérprete de 48 Crash.

*** A primeira performance de Suzi foi aos oito anos de idade, fazendo uma participação em um show do grupo de jazz de seu pai, que fez questão de dar uma educação musical aos cinco filhos.

*** A roqueira americana está aproveitando a quarentena gerada pelo combate ao novo coronavírus fazendo lives com um curso gratuito de baixo. Confira o interessante canal dela no youtube aqui.

Veja uma sequência de clipes de Suzi Quatro aqui .

48 Crash (TV clip)- Suzy Quatro:

Cosmo’s Factory (1970), o auge do Creedence Clearwater Revival

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Por Fabian Chacur

Nesta quinta (28), John Fogerty completa 75 anos de idade. Em abril, Doug Cosmo Clifford (no dia 24) e Stu Cook (no dia 25) atingiram a mesma idade. Como forma de homenagear esses três grandes músicos, resolvi mergulhar de cabeça no mais bem-sucedido álbum da carreira da banda que os consagrou, o Creedence Clearwater Revival. Trata-se de Cosmo’s Factory, que no dia 25 de julho celebrará 50 anos de seu lançamento. A homenagem também se estende ao quarto integrante do time, o saudoso Tom Fogerty (9-11-1941/6-9.1990).

Em 1970, poucas bandas de rock se aproximavam do Creedence Clearwater Revival em termos de popularidade. Em um período de dois anos, haviam lançado quatro álbuns que atingiram os primeiros postos das paradas de sucesso do planeta, todos recheados de singles certeiros, entre os quais Proud Mary, Suzy Q, Down On The Corner, Green River e Fortunate Son, só para citar alguns. Como explicar tanto sucesso e produtividade artística em tão curto período de tempo?

Não, o CCR não surgiu do nada. Na verdade, os colegas de ginásio John, Doug e Cook tocavam juntos desde o finalzinho dos anos 1950, quando ainda eram adolescentes imberbes. Pouco depois, Tom, o irmão mais velho de John, entrou no time, na época intitulado The Blue Velvets. Durante anos, o quarteto tocou em bares, e gravou singles a partir de 1961, inicialmente como Tommy Fogerty & The Blue Velvets e também Tommy Fogerty & The Blue Violets.

Em 1964, foram contratados pela Fantasy Records, agora batizados de The Golliwogs. Eles lançaram diversos singles, mas sem o desejado sucesso comercial. Pode-se dizer que, dessa forma, os garotos fizeram o seu caminho das pedras, aprendendo a tocar e gravar e conquistando dessa forma um entrosamento impressionante. Em 1966, John e Clifford tiveram de servir o exército, mas nem isso baixou a guarda do grupo.

Mudança de nome e o sucesso enfim se concretiza

O ponto de mudança ocorreu em 1967, quando a Fantasy Records foi adquirida pelo ambicioso Saul Zaentz. Ele viu o enorme potencial daquele quarteto endiabrado e resolveu apostar de vez nele, mas com uma condição: deixar o tolo nome Golliwogs e adotar outro mais palatável. A sugestão foi aceita.

No início de 1968, o agora rebatizado Creedence Clearwater Revival vinha à tona. Naquele mesmo ano, no mês de maio, lançou seu autointitulado álbum de estreia, de sucesso moderado, mas com um single matador, Suzie Q (releitura do clássico rockabilly de Dale Hawkins), que chegou ao 11º lugar nos EUA.

O ano de 1969 marcou um verdadeiro tsunami roqueiro por parte de John Fogerty e seus asseclas. Em apenas 12 meses, lançaram três álbuns de muito sucesso, Bayou Country, Green River e Willy And The Poor Boys, que atingiram, respectivamente, as posições de nº 7, 1 e 3 nas paradas americanas. De quebra, ainda tocaram com destaque no festival de Woodstock.

Uma proposta sonora atípica ganha o público

O mais impressionante é situar o CCR em meio ao que ocorria na época. O rock vivia um momento de mudanças, com gêneros como o hard rock, o heavy metal e o psicodelismo dando as cartas. E o que o quarteto californiano oferecia ao público? Uma sólida releitura do rock and roll original, com direito a rockabilly, country, blues e soul na mistura. “É onde o country e o rhythm and blues se encontram que fica o meu lugar favorito”, disse John Fogerty em entrevista a Craig Rosen para o livro The Billboard Book Of Number One Albums.

Lógico que esse coquetel molotov sonoro só atingiu esse sucesso todo devido ao imenso talento dos músicos envolvidos. É a chamada simplicidade sofisticada, algo muito difícil de se concretizar. De cara, o vozeirão inconfundível de John, somado ao seu talento como compositor e guitarrista-solo.

A seu lado, um certeiro guitarrista-base (seu irmão Tom) e uma das melhores cozinhas rítmicas da história do rock. O extremamente eficiente Cook encaixava seu baixo com perfeição na sólida batida de Clifford, um dos melhores bateristas de rock de todos os tempos, verdadeira usina rítmica que merecia ser mais reverenciada pelos críticos e público em geral.

O disco-síntese de uma banda seminal

É nesse momento de puro êxtase artístico e comercial que Cosmo’s Factory vem à tona. O nome do álbum tem a ver com o lugar onde o quarteto realizava os seus ensaios, localizada em um espaço situado na casa do baterista da banda, cujo apelido Cosmo vem desde seus tempos de moleque. O jeitão de fábrica valeu o apelido ao local, que é exatamente onde a foto da capa do álbum foi registrada.

A ideia de John Fogerty era que o álbum se tornasse uma espécie de auge desses anos iniciais do CCR, e seu desejo não poderia ter se concretizado de forma mais cristalina e potente. O álbum atingiu o topo da parada americana, permanecendo por lá durante nove longas semanas e ultrapassando a marca de quatro milhões de cópias nos EUA desde então.

Trata-se de uma espécie de disco-síntese da banda, ao trazer em suas 11 faixas bons exemplos das variações sonoras que se propôs a fazer durante sua carreira, além da bela mistura de composições próprias de John com releituras de clássicos alheios. Vale uma análise faixa a faixa, para explicitar isso.

As faixas de Cosmo’s Factory

Ramble Tamble (J.C. Fogerty)- Nada melhor para abrir um álbum de puro rock como esta aqui. Com mais de 7 minutos de duração, começa e termina com levada rockabilly, e possui várias mudanças de andamento no meio, ficando mais rápida e mais lenta e com direito a belos solos.

Before You Accuse Me (Bo Diddley)- Um clássico do repertório do célebre bluesman roqueiro merece uma releitura vigorosa mostrando o jeito próprio de abordar o blues do CCR.

Travelin’ Band (J.C. Fogerty)- Rock and roll cinquentista típico, clara homenagem a Little Richard, de quem o CCR regravou Good Molly Miss Molly no álbum Bayou Country (1969). Fogerty chegou a ser incomodado pela editora de vários hits de Richard sob acusação de plágio, mas acabou dando em nada. O famoso “parece mas não é”.

Ooby Dooby (Moore-Penner)- O primeiro hit de Roy Orbison, em seus tempos de Sun Records, é relido de forma ao mesmo tempo reverente e energética, com muito balanço e categoria.

Lookin’ Out My Back Door (J.C. Fogerty)- O momento mais country do álbum, com pique dançante e um delicioso sotaque caipira.

Run Through The Jungle (J.C. Fogerty)- O rótulo swamp rock criado por um crítico para definir o som da banda tem neste rock balançado com elementos do som de Nova Orleans um bom exemplo. Matadora!

Up Around The Bend (J.C. Fogerty)- Um rockão sacudido com riff de guitarra ardido e inconfundível. Aqui, o estilo próprio do CCR se mostra de forma mais explícita.

My Baby Left Me (Arthur “Big Boy” Crudup)- Regravação vigorosa de clássico do mesmo autor de That’s All Right, o primeiro sucesso de Elvis Presley. Aliás, Elvis também regravou essa música. Fica difícil dizer quem a releu melhor, mas creio que o Creedence ganhe por pequena diferença.

Who’ll Stop The Rain (J.C. Fogerty)- Delicioso rock balada no qual Fogerty aproveita para falar sobre a Guerra do Vietnã, algo que poucos esperariam em uma canção tão delicada e melódica.

I Heard It Through The Grapevine (Norman Whitfield-Barrett Strong)- Este clássico do songbook da Motown Records possui três versões espetaculares, todas com muito sucesso: a de Marvin Gaye, a de Gladys Knight And The Pips e esta aqui. A do CCR cativa pela longa duração, mais de 11 minutos, uma batida sólida, dançante e constante e uma performance absurda dos músicos, improvisando com foco e sem perder o prumo.

Long As I Can See The Light (J.C. Fogerty)- Para encerrar o álbum, nada melhor do que uma fantástica balada soul, na qual John tem uma performance certeira nos vocais e ainda toca sax, de quebra.

A reedição de Cosmo’s Factory lançada em 2008 traz, além de um belo encarte com fotos, ficha técnica e texto informativo e opinativo do consagrado crítico Robert Cristgau, três faixas-bônus: uma versão alternativa de Travellin’ Band, uma gravação ao vivo de Up Around The Bend e uma gravação (infelizmente com baixa qualidade técnica) de Born On The Bayou reunindo o CCR com o mitológico grupo Booker T & The MGs.

obs.: a primeira edição de Cosmo’s Factory lançada no Brasil em vinil veio com duas faixas diferentes. Ninety Nine And a Half (Steve Cropper, Eddie Floyd, Wilson Pickett), lançada originalmente no álbum de estreia do CCR, entrou no lugar de Travellin’ Band, enquanto The Working Man (J.C. Fogerty), também do primeiro álbum do grupo, veio na vaga de Who’ll Stop The Rain. Os relançamentos posteriores em vinil e depois em CD em nosso país trouxeram a seleção original de faixas. Obrigado aos amigos Emilio Pacheco e Valdir Angeli por essa informação, que adicionei após ter publicado este post.

Ouça Cosmo’s Factory em streaming:

Stevie Wonder celebra 70 anos como um dos gênios da música

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Por Fabian Chacur

A voz de Stevie Wonder entrou na minha vida com a música Yester-Me Yester-You Yesterday, que lá pelos idos de 1969-1970 tocava e muito nas rádios paulistanas. Era faixa de seu álbum My Cherie Amour (1969). A partir dali, fui aos poucos mergulhando no maravilhoso universo musical desse grande cantor, compositor e músico americano, que nesta quarta-feira (13) chegou aos 70 anos de vida, dando-nos de presente uma carreira brilhante e repleta de grandes momentos. Um autêntico gênio no setor musical.

Stevie é um daqueles caras que parecem talhados para o estrelato. Seu talento para a música foi descoberto quando ele ainda era criança. Não enxergar se mostrou um obstáculo que o cara soube superar com uma desenvoltura absolutamente absurda. Tanto que, em 1962, lançou seu primeiro álbum, The Jazz Soul Of Little Stevie, jovem aposta da gravadora Motown, que então começava a despontar no cenário americano.

Após gravar um álbum em homenagem a uma de suas inspirações, Ray Charles (Tribute To Uncle Ray-1962), Stevie surpreendeu a todos ao atingir o topo da parada pop americana com o álbum ao vivo Recorded Live: The 12 Old Genius (1963), sucesso impulsionado pelo galopante single Fingertips, que também ponteou os charts, no setor singles.

Em um período mais ou menos rápido, Wonder foi criando uma personalidade própria, com o apoio do mentor Clarence Paul e do presidente da Motown, Berry Gordy. O crítico e pesquisador musical Zeca Azevedo sempre se queixa do fato de a imprensa musical normalmente deixar um pouco de lado essa fase inicial da carreira do artista, e está repleto de razão, pois temos pencas de momentos bacanas nesses anos de aprendizado.

Não faltam músicas maravilhosas nesse período que vai até 1970. Só para citar algumas, vamos da já comentada Yester-Me Yester-You Yesterday e prosseguir com outras pepitas: I Was Made For Love Her, Uptight (Everything’s Alright), For Once In My Life, My Chérie Amour, Signed Sealed Delivered I’m Yours e Pretty World (versão em inglês de Sá Marina, de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar). Em 1970, Stevie já era um artista repleto de hits e discos bacanas.

Só que em 1971, ao completar 21 anos e atingir a maioridade, ele enfim teve acesso a todo o dinheiro que ganhou naqueles anos todos. Isso lhe deu a independência financeira para experimentar novos rumos musicais, e também para negociar um novo contrato com a Motown Records que lhe desse a liberdade artística que desejava, seguindo os passos do colega de gravadora Marvin Gaye. Gordy rateou, mas acabou dando o braço a torcer.

A parceria com os integrantes do inovador grupo Tonto’s Expanding Head Band, Robert Margouleff and Malcolm Cecil, abriu a ele um universo de novas possibilidade em termos de sons de teclados. Isso veio à tona no álbum Music Of My Mind (1972), que inclui a maravilhosa Superwoman (Where Were You When I Needed You), um de seus clássicos superlativos.

Até o fim dos anos 1970, Stevie Maravilha gravou alguns dos melhores discos de todos os tempos, os maravilhosos Talking Book (1972), Innervisions (1973) e Fulfillingness’ First Finale (1974). Em 1975, não lançou um novo LP, e Paul Simon brincou ao receber seu Grammy de melhor álbum do ano por Still Crazy After All These Years, pois Wonder havia faturado nos dois anos anteriores.

Em 1976, Wonder tirou a diferença com o álbum-duplo Songs In The Key Of Life, que no formato vinil trazia dois LPs e um compacto duplo adicional. O sucesso foi estrondoso, e foi inevitável o cidadão abocanhar mais um Grammy de melhor álbum do ano. Ali, já estava sacramentada a abrangência da música de Wonder, misturando soul, funk, jazz, música africana, latinidades, pop e muito mais.

Nesse período de quatro anos, Stevie Wonder nos proporcionou pérolas sonoras de raríssimo valor do porte de You Are The Sunshine Of My Life, Higher Ground, Superstition, Living For The City, All In Love Is Fair, You Haven’t Done Nothing, Sir Duke, As, I Wish, Boogie On Reggae Woman e muitas outras, entre hits e faixas ótimas “escondidas” nos álbuns.

Em 1979, lançou o ambicioso álbum duplo Stevie Wonder’s Journey Through “The Secret Life of Plants feito inicialmente para trilha de um documentário mas que ganhou vida própria. Se só trouxesse a encantadora e envolvente balada Send One Your Love já valeria o preço, mas tem muito mais, embora não tenha tido o mesmo sucesso comercial de seus trabalhos anteriores.

Hotter Than July (1980) o trouxe com mais força aos charts, trazendo clássicos de seu repertório como o envolvente reggae Master Blaster (Jammin’), uma bela homenagem a Bob Marley, e a fantástica Happy Birthday, tributo ao grande Martin Luther King que virou hino de sua bela campanha para que a data de nascimento desse grande ativista virasse um feriado nacional nos EUA, o que acabou se concretizando.

Em 1982, mais dois itens bacanas em sua trajetória: ele lançou a coletânea dupla Stevie Wonder’s Original Musiquarium I, com 12 hits da fase 1972-1980 e quatro petardos inéditos: That Girl, Do I Do (com participação especial do ícone do jazz Dizzy Gillespie), Front Line e Ribbon In The Sky. De quebra, ainda gravou dois duetos com Paul McCartney incluídos no álbum Tug Of War, do ex-beatle: Ebony And Ivory e What’s That You’re Doing, ambas ótimas.

Até o fim dos anos 1980, lançou os hits Part-Time Lover, Overjoyed e I Just Call To Say I Love You e participou com destaque de We Are The World, do projeto beneficente USA For Africa. Characters (1987) não vendeu tanto, mas traz a energética Skeletons e um dueto com Michael Jackson, Get It.

Após a ótima trilha para o filme Jungle Fever (1991), de Spike Lee, os lançamentos inéditos de Stevie Wonder passaram a ser bem mais esparsos. Na verdade, nos últimos 29 anos, foram só dois novos álbuns de estúdio com faixas inéditas: Conversation Peace (1995) e A Time For Love (2005).

Ele continuou fazendo shows e participando de discos de outros artistas, entre os quais Sting, Luciano Pavarotti, Babyface, Herbie Hancock, The Dixie Humminbirds, Elton John, Gloria Estefan e inúmeros outros. Também lançou um esplêndido DVD gravado ao vivo, Live At Last- A Wonder Summer’s Night (2009), gravado ao vivo na imensa O2 Arena, em Londres com altíssima qualidade técnica e na qual ele dá uma bela geral em seu fantástico songbook se mostrando em plena forma.

O astro vendeu mais de 100 milhões de discos nesses anos todos, além de influenciar inúmeros outros artistas. Ele faturou 25 troféus Grammy e também um Grammy pelo conjunto de sua carreira, além de ser o único a ganhar o laurel de melhor álbum do ano com três lançamentos consecutivos. Seus shows no Brasil em 1971 (gravado pela TV Record e exibido por essa emissora) e em 1995 foram marcantes, com grande repercussão de público e crítica.

Com essa trajetória maravilhosa humildemente resumida aqui, Stevie Wonder nos mostrou como um ser humano pode atingir o ponto alto de seu potencial artístico ao superar limitações e desenvolver com rara habilidade canções capazes de cativar as mais distintas gerações. Gênio!

Yester-me Yester-you Yesterday– Stevie Wonder:

Betty Wright, 66 anos, uma diva sensual e genial da black music

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Por Fabian Chacur

Se eu tiver de listar minhas 10 gravações favoritas de todos os tempos, acho difícil não incluir a versão ao vivo de Tonight’s The Night feita em 1978 por Betty Wright. Por isso, é muito dolorido ter mais uma vez de fazer um obituário sobre uma artista da qual eu gosto muito. A espetacular cantora, compositora e arranjadora vocal americana teve a sua morte anunciada neste domingo (10), de causa ainda não revelada. Com apenas 66 anos de idade, deixa uma obra repleta de clássicos.

Nascida em Miami, Flórida, em 21 de dezembro de 1953, Betty mergulhou no mundo da música ainda criança. Como boa parte dos artistas negros americanos, esse início foi na música gospel, cantando hinos religiosos e canções com essa temática. Em 1966, no entanto, resolveu entrar no cenário da música secular, como os evangélicos chamam a canção não religiosa. Em 1968, lançou seu primeiro álbum, My First Time Around, em um selo que seria a semente da futura T.K. Records, a gravadora mais influente de Miami.

O primeiro hit gravado por Miss Wright não foi qualquer um. Trata-se de Clean Up Woman (ouça aqui), explosiva canção dançante com cunho feminista de Clarence Reid e Willie Clarke que invadiu as paradas de sucesso, atingindo o topo da de r&b e ao 6º posto no chart pop dos EUA.

Era o início de um repertório dos melhores. Com a certeira Where Is The Love (ouça aqui), Betty ganharia um Grammy na categoria melhor canção r&b de 1975 e firmaria seu estilo, com uma voz potente e assertiva que, no entanto, também trazia muita melodia e sensualidade. A música foi escrita por ela em parceria com Willie Clarke e a dupla Harry Wayne Casey e Richard Finch, líderes do célebre grupo KC & The Sunshine Band.

Na mesma época, ela lançou a versão de estúdio de Tonight’s The Night, parceria dela com Willie Clarke. Mas a gravação definitiva desta canção surgiu em seu espetacular álbum Betty Wright Live (1978), na qual o groove da canção é realçado e ela inclui uma introdução na qual explica como se inspirou na sua primeira relação sexual para escrever a letra, e na reação da mãe quando a ouviu. São mais de oito minutos de puro êxtase auditivo. Enchia as pistas da Chic Show e outros bailes blacks aqui em Sampa City!

Sempre generosa, foi ela quem indiciou George McCrae (do hit Rock Your Baby) e sua esposa Gwen para a gravadora de Henry Stone. Ela repetiria a gentileza em 1977 ao ser a madrinha do cantor, compositor e músico Peter Brown na TK Records, além de participar com destaque do hit da disco music Dance With Me.

Naquele mesmo 1978, gravou um dueto com ninguém menos do que Alice Cooper. A faixa é excelente, No Tricks (ouça aqui), e curiosamente foi lançada originalmente apenas como lado B do single How You Gonna See Me Now, só chegando ao formato CD na caixa The Life And Crimes Of Alice Cooper (1999).A música é uma parceria de Cooper com Bernie Taupin (o maior parceiro de Elton John) e do guitarrista Dick Wagner.

Em 1979, outro momento bem bacana: ela fez os shows de abertura da turnê na qual o grande nome da história do reggae, Bob Marley, divulgou o seu então mais recente álbum, Survival. Belo item no currículo!

Com a falência da T.K. Records, Betty Wright resolveu montar o seu próprio selo, Miss B Records, que teve início em 1985. E em 1987 ela lançou um álbum marcante, Mother Wit, que trouxe como destaque um de seus maiores e melhores hits, a deliciosa No Pain (No Gain) (composição só dela, ouça aqui).

Esse álbum rendeu a ela um disco de ouro, e afirma-se que se trata da primeira artista negra a criar seu próprio selo e conseguir essa façanha, motivada pela vendagem de mais de 500 mil cópias naquela época. Em 1988, a cantora veio a São Paulo para um show patrocinado por uma equipe de bailes, com ótima repercussão e direito a entrevista na TV Globo.

Os anos 1990 trouxeram alguns momentos bacanas. Em 1991, por exemplo, Gloria Estefan a convidou para fazer o arranjo vocal da maravilhosa balada Coming Out Of The Dark, que chegou ao número 1 na parada americana e integra o álbum de muito sucesso comercial Into The Light.

Em 1992, o jovem grupo vocal Color Me Badd estourou mundialmente com a sensual I Wanna Sex You Up, da trilha do filme New Jack City e também integrante de seu primeiro álbum, C.M.B. . O problema é que eles fizeram a música totalmente em cima de Tonight’s The Night, de Betty Wright, e não a creditaram. A questão foi resolvida na Justiça, com a cantora ganhando, no fim das contas, uma boa bolada de direitos autorais.

Betty também atuou como vocalista de apoio (backing vocals) para uma incontável lista de artistas. Além dos já citados por aqui, vale elencar mais alguns: Bill Wyman (ex-Rolling Stones), Timmy Thomas, Johnny Nash, Jimmy Cliff, David Byrne, Jon Secada, Erikah Badu, Billie Myers, Gerald Alston, Phylis Hyman e Clarence Clemons (o eterno saxofonista de Bruce Springsteen).

O sucesso de seu trabalho de arranjadora para Gloria Estefan gerou mais convites, e artistas como Jennifer Lopez e Joss Stone se valeram de seus préstimos profissionais nessa área. Ela também participou de programas de TV e gravou em 2011 o álbum Betty Wright:The Movie, em parceria com o ótimo grupo The Roots. Seu álbum mais recente, Living…Love…Lies, saiu em 2014.

No dia 2 de maio, em sua conta no Twitter, a cantora Chaka Khan pediu preces para Betty Wright, sem dar detalhes do que estava ocorrendo com a cantora. E agora, esta notícia péssima. 2020 está pegando pesado com todos nós, especialmente os fãs de boa música. Descanse em paz, querida Betty! E sua Tonight’s The Night continuará sendo minha trilha sonora, até chegar a minha vez de dar adeus, que espero que demore…

Tonight’s The Night (live)– Betty Wright:

Little Richard, 87 anos, um dos grandes gênios do rock and soul

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Por Fabian Chacur

Dos grandes nomes que ajudaram a criar o rock and roll nos anos 1950, Little Richard é certamente aquele que se manteve mais próximo do rhythm and blues original. De certa forma, também ajudou na criação da soul music, pois sua música também veio da fusão do gospel com o r&b. Um gênio supremo, cuja morte aos 87 anos infelizmente nos foi anunciada neste sábado (9) por seu filho, Danny Penniman. A causa ainda não foi revelada, embora especule-se que tenha sido consequência de um câncer.

Richard Wayne Penniman nasceu em Macon, Georgia, em 5 de dezembro de 1932. Sua ligação com a música veio do que ouvia nas igrejas, mas também do r&b. E foi dessa fusão do “sagrado” com o “pecaminoso” que a música de Richard surgiu. Suas primeiras gravações ocorreram entre 1951 e 1954 pelos selos RCA e Peacock, mas não tiveram grande repercussão. A coisa começou a andar quando ele assinou com a Specialty Records.

Na gravadora presidida por Art Rupe, Richard enfim encontrou o local certo para desenvolver o seu trabalho. A coisa deu certo logo de cara, em 1955, com o lançamento do single Tutty Frutty. Seu vozeirão, acompanhado por um piano encapetado (com o perdão da piadinha) o empurrou para os primeiros postos das paradas de sucesso, dando início a uma fase simplesmente irresistível de hits.

Seu produtor nessa fase, Robert Bumps Blackwell (1918-1985) se mostrou decisivo para a concretização desse estouro, sendo inclusive seu parceiro nos megahits Long Tall Sally, Rip It Up, Readdy Teddy e Good Golly Miss Molly. Outros hits de Richard viriam até 1957, como Slippin’ and Slidin’, Lucille e The Girl Can’t Help It (tema do filme de mesmo nome no qual ele aparece).

Nesse período, ele lançou o seu primeiro álbum, Here’s Little Richard (1957), considerado um dos primeiros grandes álbuns da história do rock and roll e presença constante nas listas do que melhor se fez nesse seminal gênero musical. E com uma capa mais do que icônica, vale registrar.

Em outubro de 1957, durante uma turnê que fazia ao lado de Eddie Cochran e Gene Vincent na Austrália, Richard afirma ter tido uma visão que o fez se decidir por abandonar o rock and roll, passando não muito tempo depois a gravar apenas canções gospel e a se dedicar à religião. Para sorte dos rockers, esse período não durou tanto assim, e em 1962 o astro estava de volta às turnês e ao rock and roll.

Nesse mesmo 1962, fez shows na Inglaterra e teve como banda de abertura uns novatos de Liverpool, que se diziam seus fãs incondicionais. Um deles, Paul McCartney, até se aperfeiçoou na sua imitação cantando uma música que o tal grupo, ninguém menos do que os Beatles, gravariam dali a pouco, a incandescente Long Tall Sally. Na banda de Richard, tínhamos um jovem Billy Preston, que depois gravaria com os Beatles no álbum Let It Be (1970).

Nos anos 1960, Little Richard não teve muita sorte em termos de sucesso. Seus novos discos tiveram repercussão bem menor, com raros e pequenos hits como Bama Lama Bama Loo (1964). O que ele mais fez foi regravar, para vários selos e com resultados frequentemente inferiores aos dos registros originais da Specialty, seus maiores sucessos, em estúdio ou ao vivo. Em 1965, teve por um breve período um jovem Jimi Hendrix na sua banda de apoio.

Na década de 1970, com um revival do rock and roll original, viu seus shows começarem a atrair novamente um grande público. A grande novidade desse período ficou por conta de Money Is, espetacular faixa escrita e produzida por Quincy Jones lançada em 1971 na trilha sonora do filme $ (Dollars), que por sinal é boa de ponta a ponta e era usada na sonoplastia da versão original da novela global Selva de Pedra (1973).

Em 1986, Richard mostrou todo o seu poder de fogo em mais uma música gravada para o cinema, Great Gosh A’ Mighty , tema do filme Down And Out In Beverly Hills, estrelado por Bette Midler. Sua gravação do clássico infantil Itsy Bitsy Spider também alguma repercussão. E o filme Twins (1988) trouxe como tema principal a música Twins, que reunia Little Richard e Philip Bailey, do Earth Wind & Fire, em um dueto simplesmente explosivo.

Pouco depois, em 1990, nosso herói surpreendeu a todos a participar de uma faixa do álbum Time’s Up, da banda Living Colour. E não foi uma faixa qualquer: trata-se da pesada e irônica Elvis Is Dead.

Em 1992, Little Richard se apresentou no Brasil no Free Jazz Festival. Um dos shows foi absolutamente histórico, realizado no estádio do Pacaembu e reunindo ele e Chuck Berry (que fizeram apresentações separadas). Richard, acompanhado por uma banda afiada, deu uma aula de rock and roll, e ainda brincou com a plateia presente: “are you happy to see the queeeeeeeeen?” . Quem viu não se esquecerá jamais!

Em 2006, Richard gravou junto com o também lendário Jerry Lee Lewis I Saw Her Standing There, dos Beatles, no álbum Last Man Standing, de Lewis. O último álbum de estúdio de Little Richard saiu em 1992, Little Richard Meets Masayoshi Tanaka, mas ele se manteve fazendo shows até 25 de agosto de 2014, quando se despediu dos palcos.

Money Is– Little Richard e Quincy Jones:

Florian Schneider, 73 anos, figura chave do emblemático Kraftwerk

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Por Fabian Chacur

Qualquer lista básica dos grupos mais influentes da história da música pop precisa incluir o Kraftwerk. Não dá para escapar. A banda alemã criada há 50 anos nos proporcionou uma discografia concisa e repleta de grandes momentos. Um de seus fundadores e figura chave para seu desenvolvimento, Florian Schneider, teve sua morte anunciada oficialmente nesta quarta-feira (6), embora o falecimento tenha de fato ocorrido poucos dias após ele completar 73 anos de idade (no dia 7 de abril). Ele foi vítima de um câncer aparentemente agressivo.

Tudo aconteceu quando Florian conheceu em 1968, em uma Academia de Artes alemã, seu parceiro de banda, Ralf Hutter. Dois anos depois, com algumas experiências musicais no currículo, criaram na cidade de Dusseldorf o Kraftwerk (usina de força, em alemão). Em seus três primeiros discos, fizeram experiências em busca de uma sonoridade própria, misturando instrumentos tradicionais com sintetizadores e efeitos eletrônicos.

A fórmula se materializou em seu quarto álbum, Autobahn (1974), que se tornou seu maior sucesso comercial nos EUA, onde chegou ao 5º posto. A faixa-título serviu como um bom cartão de apresentações do que pretendiam: uma sonoridade essencialmente eletrônica, repleta de timbres novos e efeitos construídos de forma sistemática e criativa, soando totalmente à parte do chamado krautrock alemão de então.

Em 1977, lançaram uma verdadeira obra-prima, o álbum Trans-Europe Express, cuja faixa-título equivale a uma trilha sonora para um hipotética e sensorial viagem de trem. Lançado em plena era da disco music, era um som que podia ser dançado ou ouvido no silêncio de sua casa, mas não sem causar uma total estranheza por parte dos apreciadores dos maiores hits da época.

The Man-Machine (1978) veio a seguir e provou que o novo universo sonoro proposto por Florian e Ralf tinha possibilidades ilimitadas, alimentadas pela criatividade do grupo e em especial pelo perfeccionismo de Florian, muito elogiado por seu parceiro nesse quesito.

Computer World (1981), outro trabalho incrível da banda, chegou às lojas quando já era público e notório o teor influencial de seu som. Ainda em 1977, David Bowie (que tentou em algumas ocasiões fazer parcerias com o grupo, sem conseguir) lançou em seu álbum Heroes, a faixa V-2 Schneider, evidente homenagem à banda e a Florian em particular.

Praticamente todos (para não dizer todos!) os grupos do chamado tecnopop tiveram o Kraftwerk como sua biblioteca sonora inicial. Depeche Mode, Human League, OMD, Ultravox, Human League, Erasure, Yazoo, a lista é longa, e ultrapassa aquele período específico, vide o Daft Punk, surgido nos anos 1990 e um evidente filhotinho de muito talento dos geniais músicos alemães.

Em uma associação para muitos improvável, Afrika Bambaataa And The Soul Sonic Force, pioneiros do rap e hip-hop, usaram em sua marcante Planet Rock (1982) trechos de Trans Europe Express e Numbers, sendo seguido por outros artistas desse universo e do r&b dos anos 1980.

Electric Cafe (1986) marcou o momento em que o grupo alemão veio para o mainstream, mesmo sem vender milhões de discos. A imprensa os colocava nas manchetes, embora Hutter e Schneider sempre tenham preferido ser lacônicos em entrevistas e se dedicar ao seu estúdio, o Kling Klang, que passou a ser levado para a estrada em seus shows, totalmente diferente dos da concorrência.

A partir daqui, a banda passou a gravar de forma extremamente esparsa, embora, curiosamente, tenha em alguns momentos intensificado seus shows pelo mundo, incluindo uma passagem marcante pelo Brasil em 1998 com direito a uma lacônica e hilariante (nesse sentido) entrevista para o canal a cabo Multishow de Florian (veja aqui).

Em novembro de 2006, Florian Schneider fez sua última aparição em um show do Kraftwerk. Sua saída do grupo que fundou só foi anunciada no final de 2008, e a partir dali, só Ralf Hutter permaneceu no time, ladeado por outros integrantes e basicamente só fazendo shows.

É óbvio que não foi o Kraftwerk quem inventou a música eletrônica, que já existia de forma experimental ao menos desde os anos 1950. Mas certamente foram eles, ao lado de nomes como o de Giorgio Moroder, que ajudaram a trazer aqueles novos recursos sonoros ao mundo da música pop, conseguindo ao mesmo tempo criar um trabalho consistente e criativo e também capaz de atingir as grandes massas. E o perfeccionismo de Florian se mostrou decisivo.

Outro aspecto interessante do trabalho do Kraftwerk é o fato de suas músicas terem sido utilizadas para a sonoplastia de inúmeros programas de rádio e TV no Brasil e no mundo. Por aqui, a música The Hall Of Mirrors, por exemplo, foi trilha sonora do comercial dos calçados Starsax, só para citar um exemplo bacana.

Trans Europe Express- Kraftwerk (ouça em streaming na íntegra):

Aldir Blanc, poeta do cotidiano e grande parceiro de João Bosco

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Por Fabian Chacur

Conheci a dupla João Bosco e Aldir Blanc logo no berço, digamos assim. Em 1972, quando eu tinha apenas 11 anos, meu irmão Victor comprou o Disco de Bolso do Pasquim, que trazia uma revista e de brinde um compacto simples com a então inédita Águas de Março, de e com Tom Jobim, e do lado B Agnus Sei, fantástica composição meio barroca na qual Bosco mostrou seu imenso talento como cantor e violonista pela primeira vez. Era o início de uma paixão eterna por eles. E como é duro me despedir tão cedo de um deles…

Aldir nos deixou na madrugada desta segunda-feira (4) aos 73 anos, depois de 24 dias internado no hospital Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, sua cidade natal. É mais uma vítima do novo coronavírus, que alguns analfabetos funcionais insistem em classificar como “gripezinha”. Sua esperança foi uma equilibrista guerreira, mas infelizmente não deu conta dessa doença agressiva. E nós, ficamos bêbados de tristeza.

Nascido em 2 de setembro de 1946 no bairro carioca do Estácio, Aldir iniciou sua relação com a música tocando bateria em grupos amadores, além de escrever os primeiros poemas e letras. Seu nome começou a se tornar conhecido em 1970, quando sua parceria com Silvio da Silva Jr., “Amigo É Pra Essas Coisas” teve ótimo desempenho no Festival Universitário e entrou nas paradas de sucesso com o MPB-4.

Formado em medicina com especialização em psiquiatria, ele no entanto queria mesmo era se embrenhar na cena cultural. Ele integrou o MAU- Movimento Artístico Universitário, reunião de amigos batalhando por espaços que tinha no elenco, além dele, feras hoje eternizadas na história da nossa música como Ivan Lins, Gonzaguinha e Cesar Costa Filho. Eles tiveram até um programa na TV Globo, o Som Livre Exportação.

Em 1971, ele foi apresentado a um jovem estudante de engenharia, um certo mineiro chamado João Bosco, e a amizade não demorou a surgir. A parceria, inicialmente alimentada pelo correio, deu liga. A primeira gravação do que viria a se tornar uma griffe rolou precisamente no Disco de Bolso do Pasquim. Logo a seguir, Elis Regina os conheceu e gravou Bala Com Bala, a primeira de umas 20 deles que gravou com maestria.

Em 1975, João Bosco se tornou um sucesso em termos nacionais graças a canções marcantes que iam do samba às latinidades mil e outras experiências. Se o violão e a voz do mineiro de Ponte Nova eram fatores marcantes para esse sucesso, as letras de Aldir também se mostraram decisivas.

Afinal, quantos poetas seriam capazes de descrever com tanta precisão, bom humor e ironia a cena de uma tragédia cotidiana como em De Frente Pro Crime? Ou o tédio de uma relação amorosa que começou com tudo e se tornou apenas uma triste rotina na dolorida (e lindíssima!) Latin Lover? Ou de louvar um obscuro herói de nossa história e ainda dar umas agulhadas na ditadura militar em O Mestre Sala dos Mares?

Com mais de 100 canções, o songbook de João Bosco e Aldir Blanc é comparável ao das maiores duplas de todos os tempos, tipo Tom & Vinícius, Lennon & McCartney, Bacharach & David e por aí vai. Exagero? Lógico que não, e você, meu caro leitor, obviamente já concordou comigo de cara.

Bijuterias, Caça à Raposa, Dois Pra Lá Dois Pra Cá, Kid Cavaquinho, Linha de Passe, Nação, Rancho da Goiabadaa, os caras empilharam canções perfeitas, pra gente ouvir junto, cantar junto e se emocionar junto. Retratos de um Brasil cotidiano sofrido, irônico, mas sem nunca perder a ternura.

Em 1979, O Bêbado e a Equilibrista trouxe em sua melodia inspirada em Smile, de Charles Chaplin uma letra absurdamente inspirada e que virou o hino da Anistia que nos trouxe de volta o irmão do Henfil (o adorável e saudoso Betinho) e muito mais gente. Desses momentos históricos que nunca saem de nossas memórias.

Uma das minhas favoritas é A Nível de.., na qual Aldir nos presenteia com a hilariante história de dois casais heterossexuais, amigos de muito anos que se propõem a fazer um “troca-troca”, o que, no fim das contas, gera uma mudança inesperada nos relacionamentos deles. João soube aproveitar de tal forma a letra que a tornou um clássico em seus shows, sempre arrancando risos e muitos aplausos. Pérola de alto quilate em uma verdadeira joalheria musical.

Nos anos 1980, a parceria se desfez aos poucos, mas Aldir não se fez de rogado, escrevendo canções com gente do porte de Guinga, Moacyr Luz, Edu Lobo e Djavan. E foi com o tecladista Cristóvão Bastos que escreveu um dos maiores sucessos da carreira de Nana Caymmi, a sublime Resposta ao Tempo.

Autor de vários livros e cronista dos bons, Aldir também gravou três álbuns, um em parceria com Maurício Tapajós em 1984, outro em celebração a seus 50 anos de vida (50 Anos, em 1996) e Vida Noturna (2005). Em 2002, participou como cantor do songbook de João Bosco, e ali a parceria voltou à tona, com os dois compondo de forma ocasional, mas sempre com categoria.

Meio recluso por razões de saúde e também pessoais, ele no entanto participou do delicioso filme Praça Saens Peña (2008), no qual viveu ele mesmo, entrevistado pelo personagem vivido pelo ator Chico Diaz.

Aldir Blanc é o retrato de um Brasil rico, poético, sarcástico e inteligente que a cada dia parece mais distante de nós. Sua obra permanecerá como um marco dessa era de ouro da nossa cultura popular, quando era possível criar biscoitos finos que as massas consumiam com prazer. Bons tempos, heim?

obs.: meu abraço virtual de solidariedade ao grande João Bosco, um de meus ídolos e um dos caras mais inteligentes e simpáticos que já tive a honra de entrevistar em várias ocasiões.

Agnus Sei (gravação de 1972)- João Bosco:

Rubinho Barsotti, do Zimbo Trio e um grande craque da bateria

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Por Fabian Chacur

Em 1964/65, só um grupo conseguia competir com os Beatles nas paradas de sucesso no Brasil. E, acredite se quiser, fazendo música instrumental. Era o Zimbo Trio. Rubinho Barsotti, o exímio baterista desse grupo que marcou época na história da nossa música, nos deixou na madrugada desta quarta-feira (15), vítima de complicações oriundas de uma operação que teve de fazer no fêmur após uma queda em casa.

Nascido em São Paulo em 16 de junho de 1932, Rubinho foi um autodidata, e consolidou sua técnica e estilo próprios de tocar acompanhando músicos como Pedrinho Mattar, Rudy Wharton, Walter Wanderley e a orquestra do maestro Enrico Simonetti. O Zimbo Trio surgiu em março de 1964, e em seu primeiro show, acompanhou a cantora e atriz Norma Bengell. A seguir, iniciou sua carreira própria, que logo de cara rendeu muito sucesso.

Em 1965, tornou-se a banda residente do programa O Fino da Bossa, da TV Record, no qual acompanhou Elis Regina e Jair Rodrigues. A parceria rendeu discos e shows de muito sucesso. Neles, o grupo mostrou que o samba e outros ritmos brasileiros podiam ser tocados com elementos de jazz e muito refinamento, sem no entanto perder o encantamento rítmico da nossa música.

Em 1973, Rubinho e seus colegas de banda, Amilton Godoy (piano) e Luis Chaves (baixo), criaram o CLAM (Centro Livre de Aprendizado Musical), escola de música sediada em São Paulo que ajudou a formar inúmeros músicos de muito talento. O grupo se manteve ativo com sua formação original até 2007, quando Luis Chaves nos deixou. Rubinho permaneceria no time até 2010, quando problemas de saúde o levaram a se aposentar.

Ouça um álbum clássico do Zimbo Trio em streaming:

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