Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: Grandes nomes esquecidos (page 1 of 10)

Miriam Martinez, a pessoa que veio ao mundo para assessorar

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Por Fabian Chacur

Em julho de 1985, fui a um coquetel de lançamento de disco na antiga gravadora RCA (depois BMG) com o meu amigo Valdimir D’Angelo. Nesse evento, realizado no bairro paulistano de Santa Cecília, conheci uma mulher simpática e bem humorada que trabalhava na assessoria daquela empresa discográfica. Mal sabia eu que a pessoa em questão, uma certa Miriam Martinez, iria mudar a minha vida, e para melhor. Hoje, 27 de setembro, é o primeiro aniversário dela no qual não poderei cumprimentá-la, pois ela partiu no dia 5 de outubro de 2020. Muita saudade!

Quando a conheci, era um jornalista iniciante que exercia a profissão paralelamente ao emprego que tinha, como funcionário do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) prestando serviços na Agência da Receita Federal de Vila Mariana. Mal sabia eu que, menos de dois anos depois, eu estaria trabalhando naquela mesma BMG, na assessoria de imprensa do selo Plug, e graças a uma indicação da Miriam. Seria a primeira, mas não a última vez em que ela me ajudaria em termos profissionais. A partir de 1987, só trabalhei na área jornalística, um sonho que ela me ajudou a concretizar.

Durante os 35 anos em que tive a honra de conviver com essa figura ágil, inquieta e divertida, vivi as mais diferentes experiências, em shows, coletivas de imprensa, entrevistas individuais, lançamentos de discos, festivais etc (e tome etc!). Sendo como colega de trabalho ou me atendendo profissionalmente, ela sempre nos oferecia sua atenção, carinho, incentivos e eficiência, sempre disposta a nos ajudar, de uma forma ou de outra.

Conheci poucos profissionais que vestiam a camisa dos contratantes como ela. Do astro mais famoso ao cantor iniciante e inseguro, o tratamento era sempre no volume máximo. A busca pelo melhor trabalho possível, a melhor divulgação e a conquista dos melhores espaços nunca mudava conforme o cacife e os cifrões envolvidos. Miriam encarava cada pessoa que trabalhava com ela como seres humanos, que respeitava profundamente.

Foi dessa forma que ela conquistou um grande números de admiradores, sempre dispostos a retribuir toda aquela atenção e carinho. Dessa forma, tornou-se uma das melhores assessoras de imprensa de São Paulo e, por consequência, deste Brasil. Como tive a honra de conviver com ela nos bastidores de muitos desses trabalhos, posso garantir que sua forma de tratar a todos nunca se deixou levar por interesses ou falsidade. Pelo contrário.

Miriam esteve comigo nos melhores e piores momentos, nesses anos todos. Sempre prestativa, ajudando, apoiando. Sua dedicação como profissional e como amiga era comovente. Em determinados momentos, ela acreditava na minha capacidade profissional mais do que eu mesmo, e posso garantir que muitas pessoas partilham dessa gratidão comigo. Assessorar é, na prática, ajudar ao outro, e isso essa mulher fez sempre, em cada minuto da sua vida.

Lógico que ninguém é perfeito. Trabalhar com a Miriam às vezes não era fácil devido à ansiedade dela em concretizar seus trabalhos com rapidez e da melhor forma possível. Às veze, era como se ela achasse que era só apertar um botão e concretizar um release de um momento para o outro, por exemplo. Mas, no fim das contas, tudo sempre dava certo porque ela sabia ouvir quem trabalhava com ela. Na base do diálogo, da garra e da paciência.

Artistas dos mais diversos tiveram a honra de ter Miriam Martinez como assessora de imprensa, e garanto que se lembram dela com saudade, pois poucos profissionais abraçaram essa profissão com canto amor e competência como ela. Quando ela nos deixou, fiquei tão desconsertado que não fui capaz de escrever uma linha para homenageá-la.

Pois agora, fica aqui o meu pedido de desculpas a ela. Querida, que você esteja em um plano melhor. Que tudo de bom que fez por mim e por tanta gente possa ter lhe valido um acolhimento bacana. E que a sua luz intensa possa continuar nos iluminando por aqui, especialmente nesses dias sombrios que vivemos atualmente. Bendito aquele dia em que te conheci naquele julho de 1985. E um dia contarei aqui algumas das histórias que vivemos juntos.

Como diria você, de forma descontraída e inesquecível, “um beijo na boca e um tapa na bunda!” Que não dá para encerrar um texto sobre você sem ser de forma bem-humorada.

Canção da América (ao vivo)- Milton Nascimento:

Gonna Take a Miracle- Laura Nyro and Labelle (CBS, 1971)

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Por Fabian Chacur

Em 1971, Laura Nyro era uma jovem veterana. Aos 24 anos de idade, já tinha no currículo quatro excelentes álbuns, repletos de composições inéditas de grande originalidade e apelo pop. Algumas dessas canções, como Wedding Bell Blues, Stoned Soul Picnic, And When I Die, Eli’s Comin’ e Save The Country, atingiram os 1ºs postos das paradas de sucesso com intérpretes do naipe de Barbra Streisand, The Fifth Dimension, Blood Sweat And Tears e inúmeros outros.

Ao intercalar, durante os shows que realizou em 1970, músicas de outros autores em seu repertório autoral, sentiu a boa reação por parte de seus fãs e resolveu encarar o desafio de gravar um álbum completo com material alheio.

Selecionou 11 canções (duas delas interpretadas no formato pot-pourry), lançadas entre 1954 e 1970 e abordando basicamente o universo dos grupos vocais de soul, especialmente aqueles oriundos ou inspirados no doo wop, valendo-se de vocalizações em alguns momentos derivadas do scat singing do jazz e também dos improvisos apaixonados do gospel.

A ideia era ousada, pois aquele tipo de música estava meio que deixado de lado naquele momento, e provavelmente nem todos haviam percebido que aquelas belas e de certo modo ingênuas canções de amor se tornariam grande clássicos pop com o decorrer dos anos. Para dar contornos ainda mais potentes ao trabalho, Laura não poderia ter sido mais feliz ao escolher duas parcerias decisivas para tornar Gonna Take a Miracle, o álbum em questão, um clássico.

Para a produção, a cantora e compositora escolheu uma promissora dupla radicada na Filadélfia que em breve invadiria as paradas de sucesso produzindo e compondo músicas para artistas icônicos como Billy Paul, The O’Jays, Harold Melvin And The Blue Notes e tantos outros. Kenny Gamble e Leon Huff escalaram um elenco de craques para acompanhar o piano swingado de Laura, entre os quais destacam-se Jim Helmer (bateria), Norman Harris e Roland Chambers (guitarra) e Ronnie Baker (baixo), além dos arranjos de metais e cordas a cargo de Tom Bell, Lenny Pakula e Robert Martin.

A cereja do bolo ficou a cargo da participação do grupo feminino Labelle. Na ativa desde meados dos anos 1960, inicialmente como Patti LaBelle & The Blue Belles, o trio vocal incluía as cantora Patti LaBelle, Nona Hendryx e Sarah Dash. Excelentes cantoras, elas incorporavam de forma intensa o formato dos girl groups do final dos anos 1950 e início dos anos 1960, e se encaixaram feito luva no projeto. Também com muita fome de bola, pois elas só estourariam em 1974 com o megahit Lady Marmalade. Aproveitaram e bem a vitrine.

Das 11 músicas, três vieram do repertório do efervescente grupo feminino da Motown Records Martha & The Vandellas. Sem desrespeitar as melodias originais, Laura, Labelle e os músicos souberam trazer aquelas canções maravilhosas para o contexto do álbum e dar a elas uma nova roupagem, uma nova assinatura, com direito a improvisos, aceleração dos ritmos em alguns momentos e muita alma nas interpretações. Laura Nyro sempre foi uma branca de alma negra, no melhor sentido que essa expressão possa ter.

Afinal de contas, o início da carreira daquela moça oriunda de Nova York foi precisamente cantando com grupos vocais, a capella (só vocais), nas esquinas daquela cidade, perto de estações de trem. Isso explica o porque a faixa que abre o álbum vai só no gogó até um minuto e pouco, uma bela reverência a essa época mágica. Mas vamos a uma análise faixa a faixa, com informações e tudo o mais.

I Met Him On a Sunday (S.Owens- D.Coley- A. Harris- B. Lee)- Gravada em 1958 pelas Shirelles.

O álbum tem início com uma faixa que vai até a metade a capella, e já entrega logo de cara o entrosamento entre Laura e as meninas do Labelle.

The Bells (I. Bristol- G. Gaye- M. Gaye- E. Stover)- Gravada em 1970 pelos The Originals.

Uma arrepiante balada gospel, faixa mais recente do repertório, mas com uma inspiração claramente extraída daquelas canções do final dos anos 1950.

Monkey Time (Curtis Mayfield)/ Dancing In The Street (W. Stevenson- M. Gaye- I. Hunter)- Gravadas respectivamente por Major Lance em 1963 e por Martha & The Vandellas em 1964.

No formato pot-pourry, foram unidas duas canções hiper pra cima. O resultado é de tirar o fôlego, especialmente em sua parte final, com Laura e suas meninas dialogando com muito swing.

Desiree (L. Cooper- C. Johnson)- Gravada por The Charts em 1957.

Uma balada delicada, na qual Laura esbanja sensibilidade e doçura.

You’ve Really Got a Hold On Me (W. Robinson)- Gravada por Smokey Robinson & The Miracles em 1962 e pelos Beatles em 1963.

Aqui, Laura Nyro, Labelle e os músicos fazem uma verdadeira façanha, que é fazer frente a duas gravações brilhantes feitas anteriormente. A performance do time todo, especialmente na parte final, em uma aceleração de ritmo e improvisação vocal empolgantes, é de aplaudir de pé.

Spanish Harlem (J. Leiber- P. Spector)- Gravada por Ben E. King em 1960.

Pausa para outro momento mais lento, mas com sensualidade latina que se encaixa feito luva na letra.

Jimmy Mack (B. Holland- L. Dozier- E. Holland)- Gravada por Martha & The Vandellas em 1967.

Releitura repleta de pura energia que não fica nada a dever à clássica versão original do grupo vocal liderado pela grande Martha Reeves, uma das grandes cantoras reveladas pela Motown Records.

The Wind (N. Strong- B. Edwards- W. Hunter- Q. Ewbanks- J. Gutierrez)- Gravada por Nolan Strong & The Diablos (1954).

Tem um clima etéreo, de sonho mesmo, é a mais antiga das canções escolhidas por Laura, e simplesmente encantadora.

Nowhere To Run (B. Holland- L. Dozier- E. Holland)- Gravada em 1965 por Martha & The Vandellas.

Mais um petardo do repertório de Marta & The Vandellas que Laura e sua turma da pesada releem com uma garra absurda. Difícil alguém ouvir essa gravação e não começar a dançar e a bater palmas para acompanhar. A performance dos músicos aqui também merece destaque, especialmente a do baixista Ronnie Baker.

It’s Gonna Take a Miracle (T. Randazzo- B.Weinstein- L. Stallman)- Gravada por The Royalettes em 1965 e Deniece Williams em 1976.

O álbum é encerrado por uma canção romântica daquelas de arrepiar, que deixa o ouvinte com aquele gostinho de quero mais ao concluir a audição desses pouco mais de 33 minutos de mero prazer auditivo.

Não muito tempo após o lançamento de Gonna Take a Miracle, que atingiu o nº 46 na parada pop americana, Laura se casou com o carpinteiro e veterano da Guerra do Vietnã David Bianchini. Só teríamos um novo álbum dela em 1976, quando seu casamento já havia se encerrado. Entre idas e vindas, ela se manteve na ativa até 1997, quando nos deixou precocemente, aos 49 anos, vítima de um câncer de ovário, lamentavelmente a mesma razão e a mesma idade em que sua mãe a deixou, nos anos 1970.

Ouça Gonna Take a Miracle- Laura Nyro And Labelle em streaming:

Dion, lenda viva, lançará álbum com convidados do 1º escalão

Dion Stomping Ground

Dion Stomping Ground

Por Fabian Chacur

Em meio a tantas notícias ruins e a tantos artistas maravilhosos nos deixando, é fantástico poder divulgar novidades positivas de um dos grandes nomes do rock and roll. Trata-se do grande Dion, que aos 82 anos continua ativo e produtivo. Ele acaba de divulgar o clipe de Take It Back, e anuncia o lançamento de um novo álbum, Stomping Ground, que será lançado em 5 de novembro em CD simples, LP duplo de vinil e nas plataformas digitais. Outra faixa já havia sido divulgada com clipe, I’ve Got To Get To You (veja aqui).

Com 14 faixas, sendo apenas uma não inédita, o clássico Red House (de Jimi Hendrix), e na sua maioria composições do próprio Dion DiMucci em parceria com Mike Aquilina, Stomping Ground flagra o artista ao lado de grandes nomes de várias gerações do rock e do blues, entre os quais Bruce Springsteen, Patti Scialfa, Boz Scaggs, Rickie Lee Jones, G.E. Smith, Joe Bonamassa e Keb’ Mo, com o texto incluído no encarte (liner notes) escrito por ninguém menos do que Pete Townshend, um dos inúmeros fãs célebres do artista americano.

As duas faixas já disponibilizadas, ambas excelentes, são blues elétricos e sacudidos, e não é surpresa o fato de o lançamento ser feito pela KTBA Records, selo ligado à fundação Keep The Blues Alive, criada por Joe Bonamassa para manter o blues mais firme e forte do que nunca. Por sinal, esta gravadora teve como primeiro lançamento o disco anterior de Dion, Blues With My Friends (2020), com participações de Paul Simon, Jeff Beck e Bruce Springsteen.

Na ativa desde 1957, Dion fez sua fama inicialmente com o grupo vocal Dion And The Belmonts, embarcando posteriormente em uma brilhante carreira-solo. Sua mistura do rock inicial com o doo-wop mostrou-se original e impactante, gerando hits como A Teenager In Love, I Wonder Why, Runaround Sue, The Wanderer e Abraham Martin And John, só para citar alguns, até o fim dos anos 1960.

Desde então, se não visitou mais as paradas de sucesso, manteve-se ativo e gravando ótimos álbuns (alguns de música cristã), entre os quais o excelente Yo Frankie (1989), com participações de Bryan Adams, Lou Reed, Paul Simon, k.d. Lang e Patty Smith. Em 24 de março de 2022, estreará em Millburn, New Jersey (EUA) o musical The Wanderer, inspirado em sua bela trajetória musical.

Eis as faixas de Stomping Ground:

Take It Back– with Joe Bonamassa
Hey Diddle Diddle– with G.E. Smith
Dancing Girl– with Mark Knopfler
If You Wanna Rock ‘n’ Roll– with Eric Clapton
There Was A Time– with Peter Frampton
Cryin’ Shame– with Sonny Landreth
The Night Is Young– with Joe Menza and Wayne Hood
That’s What The Doctor Said– with Steve Conn
My Stomping Ground– with Billy F Gibbons
Angel In the Alleyways– with Patti Scialfa and Bruce Springsteen
I’ve Got To Get To You– with Boz Scaggs, Joe Menza and Mike Menza
Red House– with Keb’ Mo’
I Got My Eyes On You Baby– with Marcia Ball and Jimmy Vivino
I’ve Been Watching– with Rickie Lee Jones and Wayne Hood

Take It Back (clipe)- Dion e Joe Bonamassa:

Baccara perde Maria Mendiola, 69 anos, integrante original

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Por Fabian Chacur

Um dos destaques da trilha sonora da novela global Espelho Mágico (1977) foi a faixa disco Yes Sir I Can Boogie. Esse hit, que atingiu o 1º posto em 14 paradas europeias na época, incluindo a do Reino Unido, marcou a efusiva estreia do duo Baccara. Neste domingo (12), foi divulgado em um perfil do Instagram que a cantora e dançarina espanhola Maria Mendiola, única integrante da dupla original na formação atual, infelizmente nos deixou aos 69 anos em Madrid, de causa não revelada.

Nascida em 4 de abril de 1952, Maria Mendiola trabalhava como dançarina em uma emissora de TV espanhola ao lado de Mayte Mateos (nascida em 7 de fevereiro de 1951) quando sugeriu à amiga que elas poderiam se dar bem cantando em dupla músicas dançantes. Seus caminhos se cruzaram com o do produtor Leon Dane, que trabalhava para a filial alemã da gravadora RCA e viu potencial nas duas. Não demorou para que elas fossem contratadas.

Com produção musical e composições a cargo dos alemães Frank Dostal e Rolf Soja, as espanholitas, agora se valendo do nome Baccara, gravaram um primeiro single em 1977. E logo de cara, a canção em foco, Yes Sir I Can Boogie, as levou a invadir as paradas europeias com sua levada disco com tempero latino e um jeitão de pop sensual e ingênuo. Deu tão certo que estourou também no Brasil, na gravação original delas e na divertida versão em português interpretada pela paraguaia Perla com o peculiar título Eu Sei Tudo Professor.

Essa faixa foi o carro-chefe do autointitulado álbum de estreia do Baccara, lançado no final de 1977. Outra canção desse álbum conseguiu boa repercussão nas paradas de sucesso, a também dançante e muito caliente Sorry I’m a Lady. Nas apresentações ao vivo, a marca registrada das moças era Mendiola de vestido branco e Mayte de preto, além das coreografias.

O 2º álbum do duo, Light My Fire (1978), trouxe como destaque um longo pot-pourry com quase 12 minutos reunindo mais uma composição de Dostal/Soja, Baby Why Don’t You Reach Out?, com a célebre Light My Fire, canção mais popular da carreira do The Doors. Releituras de La Bamba (Ritchie Valens) e Yummy Yummy Yummy (Ohio Express) também marcaram presença, mas o álbum vendeu pouco em relação ao anterior.

Outra tentativa, no mesmo ano, foi participar do festival Eurovision defendendo Luxemburgo com a canção Parlez-Vous Français?, que atingiu o 7º lugar na competição e também marcou presença no LP Light My Fire.

Após mais dois álbuns sem grande repercussão (Colours– 1979 e Bad Boys-1981), as duas integrantes do Baccara resolveram seguir caminhos distintos, ambas tentando se valer do nome Baccara e competindo intensamente pelos antigos fãs. No fim das contas, foi Maria Mendiola quem se deu melhor, e conseguiu sucesso (embora muito menor do que os antes) com faixas como Call Me Up, Fantasy Boy e Touch Me.

Após a saída de Mayte Mateos, Maria Mendiola teve a seu lado Marisa Perez (de 1985 a 2008), sua sobrinha Laura Mendiola (de 2008 a 2011) e Cristina Sevilla, outra amiga dos tempos de TV espanhola e que chegou a integrar a versão Baccara de Mayte nos anos 1980. E foi precisamente Sevilla quem anunciou, no Instagram, a morte da colega de dupla, ocorrida neste sábado (11) em Madrid.

Yes Sir I Can Boogie ganhou sobrevida desde os tempos da disco music graças a releituras de Sophie Ellis-Bextor, The Fratellis e Goldfrap, além de ter sido usada de forma informal como uma espécie de hino da seleção de futebol da Escócia durante a Euro 2020.

Yes Sir I Can Boogie (clipe)- Baccara:

Otis Redding: há 80 anos, nascia uma lenda da música mundial

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Por Fabian Chacur

Monterey Pop (1968), fantástico documentário sobre o festival de Monterey realizado em 1967, é um dos registros máximos da música popular em todos os tempos. Dirigido pelo genial D.A. Pennebaker, traz inúmeros momentos marcantes. E um dos exponenciais fica por conta da participação de um sujeito que, se estivesse vivo, completaria nesta quinta-feira (9) 80 anos de idade. Otis Redding não viveu isso tudo, mas a música dele, sim, e permanecerá viva enquanto houver mundo e pessoas com sensibilidade capazes de captar toda a sua energia positiva.

Nascido em Dawson, Georgia (EUA) em 9 de setembro de 1941, Otis é mais um desses frutos maravilhosos cultivados nas igrejas americanas frequentadas pelos negros. Nelas, aquela fé intensa, fruto de tanto sofrimento e injustiças impetradas a eles no decorrer de décadas e mais décadas, tomou o formato de uma música feita para desabafar, para armazenar energias e para ajudá-los a enfrentar a dura realidade. Durante décadas, permaneceu naquele ambiente.

A partir principalmente da década de 1950, elementos do que se convencionou chamar de música gospel começaram a pular a cerca dos campos religiosos e se endereçar ao meio secular, gerando caras amarradas por parte dos pastores e fiéis radicais e muita excitação por parte de quem começou a ouvir esse filho bastardo, que logo ganhou o nome de soul music. Os pais são diversos, mas o máximo é provavelmente o imenso Ray Charles. E alguns nomes foram fundamentais na consolidação desse estilo musical.

Nem é preciso dizer que Otis Redding foi um deles. Seu período de gravações foi bem curto, entre 1960 e 1967, quando morreu em um acidente de avião, mais precisamente no dia 10 de dezembro de 1967. No entanto, seu legado é absolutamente fundamental, pois ele conseguiu como poucos unir a intensidade e a devoção da música gospel original com uma categoria absoluta no trato de melodias e letras dignos da melhor música pop.

Meu momento favorito da espetacular performance dele em Monterey, que gerou um documentário próprio do próprio Pennebaker, é quando ele afirma que vai dar uma acalmada no clima do show e cantar uma música mais lenta. No caso, a impressionante I’ve Been Loving You Too Long (To Stop Now), uma das mais intensas declarações de amor jamais transformadas em música e letra.

O desempenho de Redding é de deixar todo mundo resfolegante, tamanho o tsunami de energia oferecido pelo cantor. Ele domina completamente o palco, os músicos e o público, com direito a uma repetição em quatro tempos da paradinha clássica da música que simplesmente nos deixa incrédulos. “Não, esse cara não conseguiu fazer isso!”. Mas fez. E como fez! Quando acaba, a platéia se rende, vibrando, gritando, aplaudindo, ciente de que presenciou um momento histórico.

Shake, Try a Little Tenderness, Respect,Mr. Pitiful, a deliciosa (Sittin On) The Dock Of The Bay (esta lançada de forma póstuma), enfim, o legado deixado por ele em seus 26 anos de vida nos mostra que em determinados momentos a música pode ir além de mero entretenimento e se transformar em verdadeiro alimentador de almas, dando-nos força para seguir adiante. A música de Otis tem esse poder. Desfrute disso, sem contra-indicações.

I’ve Been Loving You Too Long (live in Monterey)- Otis Redding:

Chrissie Hynde, 70 anos e um ícone feminino do rock mundial

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Por Fabian Chacur

Estádio do Morumbi (SP), janeiro de 1988. Este repórter e crítico musical que vos tecla se preparava para entrar em um elevador rumo à sala de imprensa da 1ª edição do Hollywood Rock, um dos mais importantes e badalados festivais de música da história desse país. Quando a porta abriu, o susto: saíram dela ninguém menos do que os integrantes de uma das principais bandas escaladas para o evento, The Pretenders. Quem me chamou a atenção foi a moça que, nesta terça (7) completou 70 bem-vividos anos de existência, uma certa Chrissie Hynde.

Achei-a com uma certa semelhança à nossa amada Rita Lee, em termos de presença física. Ao seu lado, o então guitarrista do grupo, outro grande ícone do rock, Johnny Marr, que havia há pouco saído dos Smiths e iniciava uma trajetória muito significativa longe da banda que o consagrou. Emocionante esse rápido contato, só superado pelo ótimo show que os Pretenders proporcionaram ao público presente ao estádio paulistano.

Quem se debruçar na história da presença feminina no nosso amado rock and roll certamente chegará à conclusão de que essa cantora, compositora e guitarrista nascida em Akron, Ohio (EUA) em 7 de setembro de 1951 possui um papel dos mais importantes. Afinal de contas, ela, após passagens por Londres e Paris em tentativas frustradas de integrar uma banda de rock, conseguiu enfim em 1978 criar a sua própria. Detalhe: liderando três rapazes.

Os caras em questão eram os ótimos músicos britânicos Pete Farndon (baixo- 1952-1983), James Honeyman-Scott (guitarra- 1956-1982) e Martin Chambers (bateria- 1951). A química entre os quatro se mostrou certeira, com Chrissie (vocal e guitarra) se destacando como a principal figura do time, com sua voz potente e suas canções certeiras. Resultado: dois álbuns clássicos, Pretenders (1980) e Pretenders II (1981).

Quando estava no auge, o grupo teve lidar com uma crise que culminou em 1982 com a demissão de Farndon e com a morte, dois dias após essa traumática decisão, de Honeyman-Scott (Farndon nos deixaria em 1983). Nesse momento, Hynde deu uma bela volta por cima. Em 1984, com Robbie McIntosh na guitarra e Malcolm Foster no baixo, o quarteto voltou e nos proporcionou outro álbum matador, Learning To Crawl.

Get Closer (1986), outra pérola pretenderiana, veio para manter a banda em alta, mas marcou o início do que viria a ser a sua marca: trocas nas formações, as idas e voltas de Martin Chambers e o comando com mão de ferro de Chrissie. Sua visão feminista, seu veganismo e associação com causas humanitárias bacanas, além de relacionamentos afetivos com ícones do rock como Ray Davies (The Kinks, com quem teve a filha Natalie) e Jim Kerr (Simple Minds, com quem teve a filha Yazmin) a tornaram uma personagem marcante no cenário musical, sempre com boas entrevistas.

A carreira dos Pretenders, assim como incursões solo de Hynde e participações em trabalhos alheios, ajudaram a firmá-la como uma artista extremamente efetiva, que soube desenvolver seu imenso talento como cantora, compositora e também relendo músicas alheias, como fez este ano com Standing in the Doorway: Chrissie Hynde Sings Bob Dylan, dedicado a canções do autor de Like a Rolling Stone. E que venha mais coisa boa por aí!

Brass In Pocket (clipe)- The Pretenders:

Pocket Full Of Kryptonite (1991), o álbum da vida dos Spin Doctors

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Por Fabian Chacur

No fim dos anos 1980, surgiu na região de Nova York uma cena de grupos de rock apelidada de jam bands. Eram formações claramente inspiradas no rock psicodélico dos idos de 1967, tipo Grateful Dead, Jimi Hendrix e Jefferson Airplane, com uma pegada um pouco mais pop, mas ainda assim investindo nos improvisos ao vivo. Desse universo musical, aflorou como ponta de lança o Spin Doctors, cujo álbum Pocket Full Of Kryptonite (1991) completa 30 anos de lançamento neste mês de agosto. Um grande sucesso que surgiu graças a muito talento, garra e persistência.

Tudo começou em 1988 quando Chris Barron (vocal) resolveu montar uma banda com dois colegas da New School College de Nova York, Erik Schenkman (guitarra, único canadense deste grupo americano) e Aaron Comess (baixo). Pouco depois, Mark White (baixo) completou o time. Enquanto faziam shows em bares, o grupo gravou duas fitas-demo que vendiam nos shows, e através delas atraíram a atenção do produtor Frankie La Rocka (1954-2005), que os levou para a Epic Records, selo do conglomerado Sony Music.
Inicialmente, foi lançado em janeiro de 1991 o EP Up For Grabs. O álbum completo viria em agosto daquele ano. O material foi selecionado a partir do vasto repertório autoral que a banda tocava em seus shows, com versões mais bem concisas (em termos de arranjos) de músicas que já eram bem legais nos formatos demo, como podemos conferir na edição comemorativa dos 20 anos de Pocket Full Of Kryptonite lançada em 2011, que traz em um CD bônus essas faixas em suas gravações prévias.

Quando chegou às lojas, o álbum de estreia do quarteto veio no melhor esquema “devagar e sempre”. Foram longos meses durante os quais as vendas não entusiasmavam a ninguém. No entanto, Chris Barron e sua turma não desanimavam, e seus shows foram aos poucos ganhando mais e mais público. Em setembro de 1992, enfim atingiram o disco de ouro nos EUA, com mais de 500 mil cópias vendidas. Em 10 de outubro, participaram do mitológico programa de TV Saturday Night Live, e a partir daí a porteira abriu de vez.

Provavelmente, a Sony estava se fartando de ganhar dinheiro com os álbuns de estreia dos grupos Pearl Jam e Alice In Chains, lançados na mesma época, e não deu muita bola para os Spin Doctors. Quando percebeu o erro, reagiu e lançou em outubro de 1992 no formato single Little Miss Can’t Be Wrong, que atingiu o 17º lugar nos EUA e o 23º lugar no Reino Unido. A seguir, foi a vez de Two Princes, com resultados ainda melhores, nº 7 nos EUA e nº 3 no Reino Unido. As duas com videoclipes bem legais. Dessa forma, a Spin mania tornava-se real.

O disco de platina para Pocket…, marca de mais de um milhão de cópias comercializadas nos EUA, veio em janeiro de 1993. Em junho, essa marca já havia triplicado. No fim das contas, o álbum ultrapassou os 10 milhões de álbuns comercializados em todo o mundo, sendo metade deles em território americano.

Tudo bem, falei muito de números e mais números. Mas e a qualidade musical? Ai é que a coisa melhora. Trata-se de um disco de rock simples e sensacional, daqueles bons de se ouvir de ponta a ponta, e que vai além de seus hits matadores. A forma melódica e quase falada do canto de Barron se encaixou feito luva nos riffs de guitarra potentes, bases ritmadas e solos ora virulentos, ora a la George Harrison de Schenkman, enquanto a cozinha rítmica de White e Comess encarava todas as curvas e retas do som deles.

Mas creio que aqui caiba uma análise faixa a faixa. Vamos a ela

Jimmy Olsen’s Blues (Spin Doctors)
Com um riff de abertura matador, a música tem uma letra divertidíssima, na qual Jimmy Olsen, o repórter pobretão do Planeta Diário, tenta xavecar Lois Lane, a eterna namorada do Super Homem, dizendo que ele não só é melhor do que o fortão, como de quebra ainda tem o “bolso cheio de kriptonita”, a única substância capaz de deter o cara. Aliás, eis a origem do título do álbum. A capa do CD mostra uma cabine de telefone do tipo em que o Super Man trocava de roupa e saía com o seu uniforme de super herói. Uma faixa vibrante, swingada, perfeita para abrir um disco. Vale citar sutis passagens rítmicas aqui e ali típicas da música pop africana.

What Time Is It? (Spin Doctors)
Essa saiu de um improviso feito pelo grupo às 4h30 da madrugada em um show em uma irmandade universitária. Funkeada, envolvente e viajandona, aumenta bastante de duração nos shows. Vale sempre destacar o entrosamento da cozinha rítmica, sempre precisa e repleta de jogo de cintura e grooves.

Little Miss Can’t Be Wrong (Spin Doctors)
Rock desencanado e dançante que soa como uma espécie de mescla entre os estilos de Huey Lewis & The News e Steve Miller. A faixa que desencadeou o estouro deste álbum. Houve quem considerasse na época a letra sexista, mas creio que seja um excesso de zelo exagerado, pois a banda nem tem esse perfil.

Forty Or Fifty (Spin Doctors)
Chega o momento de respirar um pouco. Com elementos de blues, r&b e até de bossa nova, cria um clima gostoso e envolvente, com uma letra meio hippie e romântica a la anos 1960.

Refrigerator Car (Spin Doctors)
Depois da respirada, outra porrada das boas. Rockão pesado, hard mesmo, um dos vários momentos dos quais a influência de Jimi Hendrix, uma das mais importantes no som dos Doctors, vem à tona neste álbum. Pra chacoalhar a cabeça sem dó!

More Than She Knows (E.Schenkman- S.Lambert-G.Clark-J.Fitting)
Rock acelerado e pra cima, com um belo solo de harmônica de John Popper, líder da banda Blues Traveller, outra da cena jam bands que se deu bem. Por sinal, ele, Barron e Schenkman tiveram uma banda paralela, a Trucking Company, que acabou quando o Blues Traveller começou a decolar.

Two Princes (Spin Doctors)
Com sua batida irresistível e concisão absurda, Two Princes se tornou o cartão definitivo de visitas dos Spin Doctors, prova cabal de que uma autêntica banda de rock pode ser pop ser perder sua verdadeira essência.

Off My Line (Erik Schenkman- J.Bell- Spin Doctors)
Aqui, no momento mais hendrixiano do álbum, Erik Schenkman assume o vocal principal, em um rock pesado com um riff poderoso e energia suficiente para sacudir a todos.

How Could You Want Him (When You Know You Could Have Me?) (Spin Doctors)
Rock funkeado com influências da música africana, em cuja letra surge aquele questionamento clássico em todo cara apaixonado por uma mulher e não correspondido: “por que você quer ele se você pode ter a mim?” Respostas para a redação!

Shinbone Alley (Spin Doctors)/ Hard To Exist (C.Barron- E.Schenkman-John Popper-A.Comess)
Como forma de trazer para o disco ao menos uma faixa com o clima dos shows, o grupo optou por reunir essas duas composições em pot-pourry e sem medo de improvisar, passando, dessa forma, dos 10 minutos de duração. Baita de uma jam, com direito a muito groove, energia e solos bacanas. Um fim perfeito para um álbum marcante.

Ouça Pocket Full Of Kryptonite em streaming:

Marku Ribas em entrevista histórica feita em 2009

marku ribas

Por Fabian Chacur.

Há entrevistas que marcam a vida de quem a realizou. E esta, feita por mim em 2009 para o site do projeto Conexão Vivo, certamente foi uma delas. Entrevista que tinha tudo para ter dado errado. Para começo de conversa, eu conhecia quase nada sobre o artista em questão, o grande Marku Ribas. Lógico que, antes da conversa que tive com ele, ocorrida onde ele morava na época, no bairro de Pinheiros, eu havia feito minha lição de casa e tinha a precisa noção do tamanho artístico do cara. Mas, ainda assim, não foi fácil.

Ele me recebeu com gentileza, mas mantendo uma certa distância, digamos assim. Como habitualmente faço nessas circunstâncias, fui cauteloso, tentando aos poucos conquistar a confiança do meu entrevistado. Ele acendeu um cigarro da erva preferida de Bob Marley (eu declinei, mas aceitei democraticamente que ele o consumisse) e foi aos poucos falando. E falando. E falando. Resultado: fiquei horas ao lado desse mestre. E aprendi muita coisa.

Como pesquisei e não encontrei esse texto na internet, resolvi republicá-lo aqui em Mondo Pop, até como homenagem a esse grande cantor, compositor e multi-instrumentista mineiro. E vale o registro: fiquei muito feliz ao perceber que, no fim desse longo papo, eu o havia conquistado. Que ele esteja em um lugar bem melhor do que esse aqui!

Entrevista Marku Ribas (1947-2013)

Um barranqueiro da gota

Conexão Vivo, por Fabian Chacur

Marku Ribas lança novo DVD e continua inquieto e criativo, aos 61 anos de idade e 47 de carreira, como você poderá conferir em entrevista exclusiva.

Após mais de três horas passadas em seu apartamento em São Paulo, período no qual tive a oportunidade de fazer uma entrevista e também de conferir momentos importantes e raros de sua obra em DVD, fiz uma última pergunta ao cantor, compositor, músico e ator Marku Ribas: o que é música, para você? A resposta veio de bate pronto, com uma única palavra: “vida!” E viver é algo que esse artista mineiro sabe fazer como poucos.

Nascido em 19 de maio de 1947 na cidade de Pirapora (MG), próximo às barrancas do rio São Francisco, ele se desdobrou em uma carreira das mais prolíficas. Em termos musicais, gravou o primeiro disco ainda em 1967, e desde então, tornou-se referência e influência para artistas do naipe de João Bosco, Tunai, Ed Motta e inúmeros outros. Suas composições foram gravadas por Alcione, Paula Lima, João Donato, Elza Soares, Jair Rodrigues etc. Morou em Paris e no Caribe, e tem sempre grande público em seus shows pelo Brasil e exterior.

No cinema, estreou em 1970 logo em um filme do influente cineasta francês Robert Bresson, Quatre Nuits D’um Reveur, e encarnou papéis como os de Luis Carlos Prestes e Carlos Marighella. Recentemente, fez sucesso como crooner da banda que toca no delicioso filme Chega de Saudade, de Laís Bodanski, ao lado de Elza Soares. Ele acaba de lançar o DVD Toca Brasil, gravado ao vivo em São Paulo, e se desdobra para realizar diversos outros projetos. Em extensa e reveladora entrevista exclusiva a Conexão Vivo, Marku fala do DVD, da carreira, dos planos, projetos……

CONEXÃO VIVO- Para começar, fale um pouco sobre o DVD Toca Brasil, como esse trabalho foi concebido, e a importância dele em sua trajetória artística. O mesmo está saindo pela via independente, não é isso? O que te fez buscar esse caminho?
MARKU RIBAS
– Quando percebi, no tempo em que gravei na Philips (hoje, Universal Music), que de 100% gerado pelo disco ficavam apenas 14% no país para gerenciar tudo que eles queriam fazer aqui, ganhavam um dinheirão, desperdiçavam até um certo ponto e o resto ia para as matrizes, vi que não poderia continuar nessa. O que ocorre? É preciso equacionar bem, como se faz na música, na arte, onde você escolhe acordes, divide os tempos, tira verso, põe verso. Teu companheiro dá palpites, troca um acorde e outro, até gravar. É uma elaboração, como se faz uma correção de texto. E na parte financeira para uma produção de disco, cinema ou teatro, é a mesma coisa que se tem de levar em conta, para se fazer isso de forma mais justa. Com esse evento do Itaú Cultural, que tem na sua iniciativa social e artística fenomenalmente uma posição de cidadã, porque usa recursos do sistema financeiro que não são poucos, objetivando a evolução da arte, eles propiciam realizar um evento que vale dinheiro, porque quando você coloca cinco câmeras, uma grua com câmera elevada que capta imagens especiais, cenografia, pessoal do som muito competente, isso tudo engrandece o espetáculo. E num ambiente calmo, gentil, tranqüilo. Tinham até um adesivo fluorescente verde colocado no chão do palco para me guiar quando eu precisava entrar em cena no escuro para colocar um instrumento. O som saiu muito bom, dividimos muito as opiniões de timbre e volumes.

CONEXÃO VIVO- E como ocorreu a parte comercial do produto DVD, como ele está sendo comercializado, e como funcionam as porcentagens para cada um dos envolvidos?
MARKU RIBAS
– Proporcionando toda essa infraestrutura, o banco quase te obriga a encontrar um selo para sair com o DVD, pois é a grande oportunidade de lançar músicas, no meu caso quase todas inéditas. Aí, me associei à Mais Brasil, de Belo Horizonte, são os companheiros da Cria Cultura, que tem uma estrutura muito boa e criaram a editora para edições musicais e o selo Mais Brasil para o lançamento de DVDs e CDs. E temos a distribuição feita pela Tratore. Estamos atualmente no Top 20 de vendagens de DVDs, na internet. Agora estamos entrando na fase de divulgar o produto nos programas de tevê, na mídia em geral. Tocam nele o maestro Tiquinho, no trombone, o Bruninho Buarque (que toca com a Céu e o grupo Barbatuques) na percussão e o gaúcho Xandelle na guitarra. O DVD é muito autêntico, cara-a-cara, assino tudo embaixo. As músicas traduzem tudo. Eu tive de assumir 50% para mim como autor, músico, minha personalidade, meu nome, sou autor das músicas, arranjador etc. Dei 20% para o Eduardo BID, que é o produtor, e 30% para a Cria, para conseguir viabilizar o projeto.

CONEXÃO VIVO- Recentemente saiu uma coletânea intitulada Zamba Ben, com uma seleção de suas músicas. Como você a avalia? Encara como uma boa iniciação para quem não conhece a sua obra?
MARKU RIBAS
– Essa compilação foi lançada pelo selo Dubas Música, que é do Ronaldo Bastos, um grande letrista que fez coisas com o Milton Nascimento, Beto Guedes. O Ed Motta, admirável músico e meu amigo, bolou essa coletânea, escolheu as músicas, fizeram a remasterização, pagaram os direitos às editoras direitinho, valorizaram na nossa negociação. Ed é humilde, diz que se surpreendeu comigo ao me ver tocar ao vivo em Londres e Nova York. Aí, foi atrás do meu trabalho. Eles pegaram músicas boas que soam atuais. Escrevi para o encarte do CD informações sobre cada faixa, e também sobre a minha vida e carreira. Se eu fosse você, iria procurar essa coletânea, mesmo, pois é muito boa!

CONEXÃO VIVO- Você teve algumas experiências ao lado do Mick Jagger, dos Rolling Stones, inclusive gravando com essa banda. Como rolou essa história toda? É verdade que você não recebeu um tostão por ter gravado com eles?
MARKU RIBAS
– Conheci o Mick Jagger em 1968, quando ele foi jantar em um restaurante no Rio de Janeiro onde eu estava, e conversamos. Anos depois, em 1984, eu trabalhava em um musical do Oscar Castro Neves, e me avisaram que estavam fazendo no hotel Copacabana Palace a seleção para participar de um videoclipe do Mick Jagger para a música Just Another Night, do disco solo dele She’s The Boss (1985). Acabei sendo escolhido para viver o baterista no clipe, dirigido pelo cineasta Julien Temple. O percussionista Café, que tocou com o Djavan, também participa. Aí, o Mick perguntou se eu estaria na Europa no ano seguinte, e por coincidência, eu iria para Paris naquele período. Ele me convidou para gravar com os Rolling Stones. Fui para Paris com a peça do Oscar, com 62 integrantes. Aí, ele mandou um carro de luxo me buscar, e fui com o Mário, um amigo meu que tocou comigo no grupo Batuki, gravar. Participei da faixa Back To Zero, do CD Dirty Work (1986), toquei tambor marroquino de pele de peixe e cerâmica e uma cuíca de boca. A gravação ocorreu no estúdio da EMI em Paris. Não cobrei dinheiro, não, pois tinha um monte de burocracia para poder receber. Foi uma cortesia que fiz para eles. Hoje, teria cobrado, e até mais caro. (risos) Não tem o crédito no disco, o que me deixou magoado, acho que isso é pior do que não ter recebido.

CONEXÃO VIVO- Seus shows são sempre muito elogiados, e não se restringem a um único formato. Como você os planeja?
MARKU RIBAS
– Procuro adequar o meu show aos espaços onde toco, e é a partir daí que escolho como será a formação. O violão você precisa tocar sentado, já a guitarra é em pé. Quando toco de pé, posso me dedicar mais à parte de coreografia, de dança. Tenho o show que você pode pagar, desde um trio, quarteto, eu sozinho, tenho versatilidade para me adaptar aos mais diversos tipos de situação.

CONEXÃO VIVO- Você tem um projeto musical envolvendo músicos muito conhecidos e em vias de ser concretizado. Fale um pouco sobre ele, e quando o mesmo será viabilizado.
MARKU RIBAS
– Esse projeto é gravar um CD com João Donato no piano, Maurício Einhorn na gaita e o Raul de Souza no trombone. O projeto chama-se Croas e Loas e em função dele visitaremos oito cidades. A utilização de lei de incentivo já está aprovada, e o patrocinador para viabilizar tudo também está a caminho, acho que isso será concretizado em breve.

CONEXÃO VIVO- Você tem participado do Conexão Vivo. Como avalia esse projeto, e qual a importância do mesmo os artistas?
MARKU RIBAS
– O intercâmbio promovido pelo Conexão Vivo entre artistas novos e veteranos renova todo o contexto, não só o conhecimento, a oportunidade de fazer novos amigos, como o lado cênico e artístico de cada um sendo explicitado, a contextualização de cada um, pois não dá para comparar artistas, cada um tem o seu caminho, suas características próprias. E você ainda ganha um novo público com esse tipo de evento.

CONEXÃO VIVO- Sua participação no filme Chega de Saudade, da Lais Bodanski, foi muito elogiada. Qual a importância do mesmo em sua trajetória como músico e ator, e como foi trabalhar ao lado de Elza Soares, que já gravou músicas suas?
MARKU RIBAS
– A Elza é uma entidade, uma mulher brasileira que deve ser muito respeitada por toda a sua história, o seu favelismo. Uma mãe solteira na favela, negra, com um marido bêbado que lhe batia todos os dias, e aí ela se rebela contra tudo isso, até conhecer Garrincha, a quem ela ajudou muito financeiramente e como mulher, ao contrário das críticas injustas que recebeu na época. É uma cantora de personalidade forte, como o foram Monsueto, Noite Ilustrada, aqueles negões que cantam de um jeito diferente, que não dá para ser igual, cantam de forma rascante e que trazia toda aquela revolta natural do sofrimento que vivenciaram. Quando o Ary Barrozo perguntou em um programa de rádio de que planeta a Elza vinha, ela respondeu que era do planeta fome! (risos). Respeito muito ela, admiro-a como artista, suas posições e atitudes. Esse filme nos aproximou mais ainda. A Laís sempre foi muito gentil conosco, nos dirigiu muito bem. Gostei de fazer o filme, cuja trilha sonora ganhou como a melhor do cinema brasileiro em 2008.

CONEXÃO VIVO- Sua primeira experiência em cinema foi em Paris, e logo com um diretor famoso, o Robert Bresson. Como isso ocorreu?
MARKU RIBAS
– Morei em Paris entre 1970 e 1971. O Bresson tem uma importância fundamental, inovou para que uma indústria de cinema, sendo mais autêntica, pudesse ser mais barata, mais objetivamente construída, tirou aquelas câmeras pesadíssimas de Hollywood, aquela estrutura enorme, e fez a câmera na mão, o cinema mais objetivo, caminhando com o ator pelas ruas, sentindo a sensibilidade cara-a-cara, entrando nos becos. Esse filme analisa quatro noites de sofrimento sobre o amor, uma senhorita linda que se apaixona por alguém que irá voltar dali a um ano no mesmo lugar, na mesma praça e no mesmo horário. Durante quatro noites, ela está lá, mas ele não vem. Ocorre algo surpreendente na quarta noite, e ela, sozinha, é percebida por um pintor sensível, francês, estudante de pintura, que vê nela uma musa, se aproxima, a vê melancólica e conversa com ela. Aí, entra a cena de eu e o meu grupo na época, o Batuki, do qual fazia parte o Mário (o mesmo que foi comigo na gravação com os Rolling Stones em 1985), tocando dentro de um barco que descia o rio Sena. O casal fica absorvido pela música, vem em direção ao cais, e a música virou uma protagonista no roteiro. No mesmo ano, fiz outro filme por lá com o cineasta Jean-Mark Tibaut, Revolucion, no qual representei o Luis Carlos Prestes.

CONEXÃO VIVO- Aliás, é verdade que a trilha sonora desse filme nunca foi lançada, e que você tem as fitas masters da mesma?
MARKU RIBAS
– É verdade. As músicas foram gravadas em 1970 no estúdio do Michel Magne, que ficava a 19 quilômetros de Paris, na estrada de Lyon, chamava Chateau de Rouville. Está na minha mão, estou esperando negociações para poder lançá-lo com prensagem, remasterização, capa nova, divulgação, isso tudo.

CONEXÃO VIVO- Você teve outras experiências interessantes em termos de cinema. Fale sobre elas, e também qual é a importância para você de atuar como ator.
MARKU RIBAS
– Vivi o papel do Carlos Marighella no filme Batismo de Sangue, do Helvécio Ratton, ao lado de Caio Blatt, Ângelo Antonio, Cássio Gabus Mendes, Daniel de Oliveira, uma turma boa. Gosto muito de cinema. No momento, gravo participação no filme do Fábio Barreto, Lula, O Filho do Brasil, vivendo um sindicalista aposentado que era uma espécie de consciência do movimento. Será uma participação curta, mas contextualizada, ele vigiava e pegava no pé dos caras, para manter a coisa longe do peleguismo. A cena é gravada na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Acho fundamental a documentação da história do Brasil, dessa coisa da Ditadura, da “Redentora”, para que nunca mais ocorra algo assim neste País, e esses filmes sobre nossa história tem esse papel.

CONEXÃO VIVO- Por sinal, uma das razões pelas quais você saiu do país no final dos anos 60 foi a Ditadura Militar, não é isso?
MARKU RIBAS
– É verdade. Fui preso no dia 27 de outubro de 1968 no Leblon, no Rio de Janeiro, pelo Exército Brasileiro. Uma experiência injusta. Eu fazia críticas em músicas como Alerta Geral, que na época chamava-se Canto Certo e que foi gravada pela Alcione em 1978, no seu LP Alerta Geral, que depois virou também nome do programa de televisão que ela apresentou na Rede Globo. Eles proibiram de forma absurda porque não havia conteúdo para ser proibido, era apenas uma sátira musical, uma crítica inteligente e bem-humorada. Outra música que me causou problemas foi a Nunca Vi, com os versos “nunca vi país democrata ter tanto rei, tanto rei, tanto rei, rei do rock, do samba, da bola, enquanto isso, outra criança chora, e o palácio anuncia outro rei”. Vivi na França e também quatro anos no Caribe.

CONEXÃO VIVO- Fale um pouco sobre a sua forma de atuar, como ator.
MARKU RIBAS
– Procuro incorporar o personagem que faço, sair da pessoa que você conhece, e aí, você não me vê mais, você vê o personagem lá. Tenho feito vários projetos, como um ditador de república das bananas em Uma Nova Bandeira Para a Nação, do jovem cineasta Paulo Marcelo Tavares do Valle, da Faap. A escola do cinema no Brasil é muito boa, temos um cabedal desde Humberto Mauro, aproveitamos bem as lições dos irmãos Lumiére e desenvolveu-se o Brasil do cinema competente, porque em outras áreas não somos, mesmo.

CONEXÃO VIVO- A sua formação como músico é riquíssima em termos culturais e de intercâmbios. Dá para fazer um pequeno resumo de tudo isso?
MARKU RIBAS
– A surpresa do chamado original, atávico, autóctone, que são sinônimos do mesmo sentimento, as pessoas que tem cultura própria onde nasceram, já ali. As manifestações folclóricas, a música erudita, eu tive a sorte de presenciar tudo isso com o meu pai, meu avô, meu bisavô, que era mouro. Meu pai, como médico, tinha muito interesse pela vida. Ele gostava de cantar coisas de Caruso, Carlos Gardel, Vicente Celestino, Orlando Silva, fazia serenatas nas horas vagas. Captei a diversidade das coisas, até do cantochão, da música nas igrejas, a confluência indígena, com influência negras e com o meu avô materno português. Sou barranqueiro da gota, como existem os cariocas da gema, os paulistanos etc. Represento uma cultura do rio São Francisco que tem semelhanças de espectro com o Rio Vermelho da China, o Rio Nilo da África, o Mississipi americano, são sentimentos iguais em lugares díspares, mas com uma vivência muito igual de depender da pescaria, da chuva, do sol, da enchente.

CONEXÃO VIVO- E como isso tudo foi se desenvolvendo? Você sente influências de outros artistas no seu trabalho e do seu trabalho no dos outros?
MARKU RIBAS
– Faço sons com as mãos, no rosto, na testa, na bochecha, desde que era criança, alguma coisa eu aprendi com a minha mãe. Uma verdadeira sinfonia corporal. Aí, descobri o gutural, os sons onomatopaicos que traduzem não palavras ou línguas, mas sentimentos. Fui incorporando isso tudo enquanto ouvia grandes violonistas como Dilermando Reis, Manoel da Conceição, Baden Powell, Manoel da Conceição Mão de Vaca, Rosinha de Valença, Paulinho Nogueira, e um gênio da minha região, o Deoclécio, que morreu cedo tragicamente e que fazia cada “aranha” nos acordes que a gente não tinha a menor noção do que era, grande guitarrista e violonista. Sou parceiro de Erasmo Carlos, Walter Queiróz, João Donato, Djalma Correa. Tenho essa noção do violão cheio, violão magnífico, que se toca em todas as regiões do instrumento. Sou ainda um aprendiz de tudo, sim, mas tenho o bom senso e a sensibilidade de ter colocado alguns craques no jogo, como o baixista Artur Maia, o violonista Romero Lubambo, o tecladista Jotinha Moraes, que começaram tocando e gravando comigo. Vejo influências minhas em Eduardo Dussek, João Bosco, Tunai, Ed Motta e João Donato, entre outros.

CONEXÃO VIVO- Marku, sua história de vida é riquíssima. Já pensou em escrever uma biografia contando tudo isso?
MARKU RIBAS
– Boa pergunta. Já estou fazendo isso, uma autobiografia que intitulei Marku Por Marco Antonio, e para a qual vou procurar patrocínio, editora etc. Para quem não sabe, meu nome de batismo é Marco Antonio Ribas. Criei o personagem Marku para homenagear a tribo Cariri Macu, da minha região, onde tem um sítio arqueológico de 2.500 anos com resquícios históricos da vivência dessa tribo indígena na barranca do Rio São Francisco, no Norte de Minas Gerais, entre Pirapora e Buritizeiros. Já escrevi contando coisas que ocorreram comigo entre o meu nascimento em 1947 até 1977. Acho que depois farei um segundo volume, contando todo o resto. Nasci em um 19 de maio com eclipse total do sol, que tem toda uma influência cósmica, elétrica, na espiritualidade, também. Vou contar histórias nesse livro que farão muita gente cair de costas (risos). Por exemplo, como era quando eu cheguei em São Paulo em 1967 e gravei logo de cara um LP pela Continental. Eu namorava a passadeira e lavadeira para livrar a passagem e a lavagem de roupa. (risos) Ia às cinco da manhã às rádios para fazer a divulgação do disco, que na época era chamada de “caitituagem”. Também estou escrevendo outro livro, Moemas e Moemas, que será de poemas sobre amor, a vida etc.

CONEXÃO VIVO- Você tem um problema com o Marcelo D2 em relação a direitos autorais e conexos. A quantas vai essa história?
MARKU RIBAS
– O Marcelo D2 está usando a minha gravação de Zamba Ben não como um sampler, simplesmente, como ele declara no disco A Procura da Batida Perfeita, mas como um plágio. Ele usa a minha música o tempo todo na dele. A Maldição do Samba é o Zamba Ben lá dentro, o meu violão, o baixo do Cláudio Bertrami, o som dos músicos que participaram dessa minha gravação. Todo mundo está lá, e não recebem direitos conexos, e nem eu, como autor. Ele não me pediu autorização, a editora Arlequim comeu mosca, também. Está em litígio na justiça, mas está demorando, três anos já se passaram. Ele gostou tanto que já colocou essa música em três discos dele, virou o carro-chefe dele. Zamba Ben é um avanço, uma porrada, música criativamente brasileira para dançar, com contexto internacional que não fosse batuque ou samba, somente.

Zamba Ben– Marku Ribas:

Fritz McIntyre, 62 anos, o tecladista do auge do Simply Red

fritz mcIntyre

Por Fabian Chacur

Sempre que o nome Simply Red vem à tona, normalmente todos se lembram imediatamente de seu vocalista, o carismático Mick Hucknall. Nada errado em relação a isso. No entanto, a banda não teria atingido o status de fama e qualidade artística se não tivesse outros integrantes talentosos. Um deles, o tecladista e compositor Fritz McIntyre, infelizmente nos deixou nesta terça-feira (24). A notícia foi divulgada no site oficial do grupo britânico, lamentando a perda. Ele iria completar 63 anos no próximo dia 2 de setembro.

McIntyre fez parte da formação original do Simply Red, e se manteve no time nos seus álbuns mais bem-sucedidos em termos comerciais e artísticos, os ótimos Picture Book (1985), Men And Women (1987), A New Flame (1989), Stars (1991) e Life (1995), além do EP gravado ao vivo The Montreux EP (1992).

Além de excelente tecladista com nítidas influências de soul, jazz, funk e disco e também bom vocalista de apoio, McIntyre foi coautor de pelo menos sete canções gravadas pela banda, entre elas Come To My Aid, Picture Book, Something Got Me Started e Thrill Me.

Tive a honra de entrevistar McIntyre em duas ocasiões, ambas em São Paulo. A primeira foi em janeiro de 1988, durante a 1ª edição do festival Hollywood Rock. Tenho fotos com ele e seus colegas de banda feitas pelo querido Edinho, irmão do não menos querido jornalista Celso Lopes. Quando o grupo voltou ao Brasil, em janeiro de 1993, mais uma vez para tocar em um Hollywood Rock, pude conversar um pouco mais com ele, e foi muito legal.

Perguntei à ele porque só tinham gravado um EP, e não um álbum completo ao vivo, e ele me disse que era por receio de não registrar um show tão legal, de dar tremedeira e sair ruim (ele me fez aquele gesto de mãos tremendo para exemplificar). Quando mostrei a ele as fotos de 1988, ele se encantou e me pediu uma na qual ele aparecia, o que fiz com todo o prazer. Uma simpatia!

Fritz saiu da banda após o lançamento do álbum Life (1995). Em entrevista que fiz com Mick Hucknall uns dois anos depois, o cantor me disse que ele saiu porque desejava incluir mais canções de sua autoria, embora não trouxesse material que satisfizesse Hucknall (Life só traz composições de Hucknall).

Após sair do Simply Red, Fritz lançou dois álbuns solo, sendo um deles de música gospel. Ele morou durante um tempo no Canadá, na cidade de Ontario, e depois foi para os EUA, sendo o diretor musical de uma igreja na Flórida. A música pop saiu de sua vida, mas sua passagem pela mesma ficou para a história.

Something Got Me Started (clipe)- Simply Red:

Paulo Rafael, 66 anos, um dos mestres da guitarra no Brasil

paulo rafael

Por Fabian Chacur

Durante mais de 40 anos, o guitarrista Paulo Rafael foi uma espécie de lugar-tenente do grande Alceu Valença, participando de inúmeros shows e gravações ao lado do conterrâneo pernambucano. Além disso, o músico, que também se virava de forma brilhante em violões e outros instrumentos de cordas, firmou-se como um dos mais competentes na fusão do rock com a música regional. Ele nos deixou nesta segunda (23), aos 66 anos de idade, vítima de um câncer que o atormentava há algum tempo. Uma perda dolorosa para quem gosta de música boa e inventiva.

Paulo Rafael nasceu em Caruaru (PE) em 11 de julho de 1955. Sua primeira aparição importante na cena musical foi ao integrar o grupo Ave Sangria, que em 1975 lançou um importante e badalado álbum de estreia e que voltaria à ativa há poucos anos (leia mais sobre eles aqui). Logo a seguir, participou do lendário álbum duplo Paêbiru, de Zé Ramalho e Lula Côrtes (leia sobre esse disco aqui).

Na metade dos anos 1970, Alceu Valença convenceu Paulo a se tornar o guitarrista de sua banda de apoio. Nascia ali uma parceria que se manteria firme e forte nos próximos quarenta e poucos anos. Pode-se dizer que o músico ajudou a injetar doses significativas de rock no som nordestino do autor de Anunciação, resultando em uma das musicalidades mais originais, cativantes e miscigenadas da nossa amada música popular brasileira.

Além de participar de gravações de diversos outros artistas, como Geraldo Azevedo, Elba Ramalho e Lobão, Paulo Rafael também integrou o grupo Primavera Nos Dentes, especializado em reler canções do repertório dos Secos & Molhados, ao lado de Charles Gavin, Duda Brack, Pedro Coelho e Felipe Pacheco Ventura (leia mais sobre eles aqui). Ele também participou de uma reunião do Ave Sangria em 2019 que gerou um novo álbum.

Anunciação (ao vivo)- Alceu Valença, Paulo RAfael e Orquestra Ouro Preto:

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