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Duas ou três coisas sobre a música em 2013

Por Fabian Chacur

Muita gente odeia essa história de retrospectivas dos “anos velhos” que acabam de se mandar. Também tem quem goste. Se bem feitas, acho que essa passada de olhos no que ocorreu nos doze meses anteriores ao novo janeiro são até úteis, como um balanço e uma avaliação de fatos. Seja como for, não estou com saco de ser detalhista, mês a mês. Então, vamos com uma viagem aleatória a alguns fatos ocorridos no mundo da música em 2013.

The Voice Brasil, The Choice Brasil, Que Joça, Brasil!

Se há uma verdadeira praga que veio para infernizar a vida de quem realmente gosta de música são os tais reality shows musicais. Há mais de uma década nas programações das mais diversas redes de TV do mundo, e disponíveis em várias versões, esse tipo de programa tenta formatar de jeito rígido o que deveria ocorrer de forma mais espontânea: a revelação de novos talentos.

Se em alguns países essa fórmula até ajudou a destacar alguns nomes bacanas, no Brasil tornou-se mais um tipo de “loteria musical”. No fim das contas, são sempre dois os fatores que levam alguém a vencer uma atração assim por aqui. Basicamente, quem grita mais ou quem é mais pobre e pode sair da zona do rebaixamento da vida se embolsar a grana disputada.

The Voice Brasil é apenas mais um capítulo desse universo dos “not so reality” shows. Exibicionismo de jurados e candidatos, vozeirões ocos, disputa por dinheiro e vencedores que, posteriormente, voltam ao anonimato. Ellen Oléria, a vencedora de 2012, já está caminhando para ficar ao lado das Vanessas Jacksons da vida, sumindo de cena. Uma pena, em um formato no qual o que menos importa é a música. Mas não se iludam. Mais programas assim virão e virão e virão. Procure talentos em outros cantos…

Dominguinhos agora está ao lado de Gonzagão no Céu do Forró

Recentemente, reli uma entrevista de 1999 do músico paulista Miltinho Edilberto no qual ele comentava sobre Dominguinhos, definindo-o como uma espécie de Gonzagão que merecia ser mais cultuado pelas pessoas, e ser homenageado enquanto estava vivo e com saúde.

Pois Dominguinhos infelizmente nos deixou em 2013. Grande músico, cantor, compositor e ser humano, ele nos deixou uma obra impecável dedicada ao melhor da cultura popular. Tive a honra de cobrir seu último grande show em São Paulo na Virada Cultural 2011, e vi esse mestre, mesmo com limitações físicas evidentes, dar um banho de garra e musicalidade.

Se merecia ter sido mais reverenciado, até que Dominguinhos foi bastante “acarinhado” pelo povo em suas mais de quatro décadas de carreira, na qual nos proporcionou tantos sucessos próprios e também colocou suas cerejas em bolos confeccionados por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Elba Ramalho e tantos outros. Simples, simpático, genial. Descanse em paz!

Reginaldo Rossi e a fórmula para agradar gregos e troianos musicais

Não é para qualquer um se manter durante quase cinquenta anos no cenário musical, ainda mais se o artista em questão nunca se dobrou aos modismos da vida para fazer sucesso. Outra grande perda brasileira em 2013, Reginaldo Rossi começou na onda da Jovem Guarda, mas logo entortou suas influências musicais e criou um estilo próprio, bem-humorado, romântico e pé na porta, sem preocupações com sutileza ou politicamente correto.

Se só virou uma espécie de unanimidade em 1998, quando seu CD Ao Vivo turbinou o antigo sucesso Garçom e o fez ultrapassar a marca de um milhão de cópias vendidas, “The King” sempre teve público fiel no Norte e Nordeste. Felizmente, Rossi teve as flores em vida, e nos deixou sabendo ser amado por milhões de fãs. Um estilista da canção popular. Uma figuraça!!!

Paul McCartney, David Bowie e Elton John mais gênios do que nunca

Três nomes que há décadas fazem parte da história do rock and roll provaram em 2013 que continuam com fome de bola, dispostos a nos oferecer novos trabalhos repletos de boas canções. David Bowie nos ofereceu The Next Day, uma espécie de álbum síntese com ecos de várias fases de sua carreira e uma surpresa para quem não lançava um trabalhos só de inéditas há dez anos. Aposentado uma ova!

Macca e Elton, por sua vez, continuam na estrada e ativos nos últimos anos, mas lançaram em 2013 CDs comparáveis a seus grandes momentos. Se o único ponto negativo de Elton John em The Diving Board é a voz já não tão impactante, no caso de McCartney não dá para reclamar de nada em seu New, repleto de boas canções, vocais excelentes e a fome de bola do eterno beatle.

Ringo Starr, Matchbox Twenty, Black Sabbath, Joyce Moreno, Springsteen…

Em um ano repleto de shows nacionais e internacionais em nossos palcos, alguns merecem destaques especiais. Bruce Springsteen, que não tocava por aqui há 25 longos anos, conquistou os fãs no Rio e em São Paulo com um show vigoroso, repleto de hits e com Sociedade Alternativa, de Raul Seixas, como surpreendente e detonante música de abertura. Quem nasceu para The Boss sempre será The Boss, pelo visto.

Ringo Starr voltou a São Paulo e conquistou os beatlemaníacos e afins com uma performance impecável, cantando, tocando e cativando a plateia com muita energia para um setentão. A seu lado, mestres como Todd Rundgren, Steve Lukhater, Richard Paige e Gregg Rollie, que tornaram o que já seria bom um momento absolutamente inesquecível.

Embora ignorada pelos críticos brasileiros, o grupo americano Matchbox Twenty deu aos brasileiros a prova de que não estão nas paradas de sucesso há quase 20 anos por acaso. Seu rock and roll com tempero pop e influências de Bruce Springsteen, John Mellencamp, Beatles e outros é apresentado ao vivo com muita vibração, refinamento e carisma. Belos shows, que os fãs adoraram e que me tornou ainda mais fã deles.

Fecho com um destaque especial para o maravilhoso show que a genial Joyce Moreno fez no Sesc Bom Retiro mostrando o repertório de seu excelente novo álbum, Tudo. A se lamentar, o fato de menos de cem pessoas terem comparecido para ver essa verdadeira aula de música brasileira melódica, poética e rítmica. Uma performance de lavar a alma de quem teve a honra de presenciá-la. Dica: não perca o próximo, role onde rolar.

A emoção de ver o Black Sabbath com sua quase formação clássica

Eu não estive lá, mas quem esteve classifica o show feito pelo Black Sabbath em São Paulo, no Campo de Marte, em outubro de 2013, como um dos mais emocionantes de todos os tempos. E não é para menos. Ver no mesmo palco três dos quatro integrantes originais de uma das mais influentes e poderosas bandas de rock de todos os tempos não é coisa banal.

Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler arrancaram lágrimas e alegria de um verdadeiro mar de gente que nem se importou tanto ao não ver desta vez o baterista original da banda, Bill Ward, que tocou com o Black Sabbath no Brasil nos anos 90, em show que não teve o vocalista comedor de morcegos. Se o show foi como o do ótimo DVD lançado há pouco por aqui, invejo quem esteve lá. Histórico, simples assim.

Daft Punk, ou como tornar fazer 2013 soar como 1978 sem cair em caricatura

Ver Nile Rodgers, o genial capitão da Chic Organization, de volta às paradas de sucesso após muitos e muitos anos já tornaria Random Access Memories um álbum histórico. Mas o trabalho do duo Daft Punk (o primeiro de inéditas em 8 anos) vai muito além de incluir dois dos melhores e maiores hits de 2013, Get Lucky e Move Yourself To Dance.

Gastando uma grana lascada, a dupla radicada na França investiu em músicos de verdade para tocar uma mistura de disco music com música eletrônica, pop e rock, gerando um álbum que consegue a façanha de soar como se tivesse sido lançado em 1978 e ainda assim parecer totalmente sintonizado com o espírito musical de 2013. Discoteca básica total e eterna!

Lou Reed sai da Wild Side e vai para a Eternal Side…

Um dos artistas mais influentes e talentosos da história do rock nos deixou em 2013. Lou Reed morreu setentão, faixa etária que muitos não acreditavam que ele atingiria, levando-se em conta o tipo de vida que teve durante as décadas de 60 e 70. Belo exemplo de que o destino a Deus pertence, e que a gente morre quando chega a hora, nem antes, nem depois.

Lou Reed conseguiu fundir rock básico a elementos eruditos, especialmente de ordem poética, com suas letras evocando a barra pesada, os personagens sombrios dos grandes centros urbanos e os poderosos riffs de guitarra. O brasileiro teve a chance de vê-lo nos anos 90 em show de rock and roll básico e em 2010 no formato experimental Metal Machine Music. Que bela obra ele nos deixou!

E que venha muita coisa boa em 2014. Feliz ano novo, queridos leitores!!!

Perfect Day, com Lou Reed:

I Can’t Stand It – Lou Reed:

Minhas memórias do genial Lou Reed

Por Fabian Chacur

Neste domingo (28), nosso amado rock and roll perdeu um de seus nomes mais emblemáticos, talentosos e influentes. Lou Reed nos deixou graças a problemas decorrentes do transplante de fígado que sofreu em abril deste ano. Ou algo do gênero, não saberemos precisar neste momento. Mas a verdade é que Laurie Anderson e todos nós estamos viúvos, órfãos, deixados para trás. Mas nem tanto.

Afinal de contas, o ser humano Lou Reed não se encontra mais nesse alucinado planeta do sistema solar. Sua obra, no entanto, jamais sairá de cena. E já que todo mundo já escreveu tudo sobre a carreira dele, resolvi registrar, de forma aleatória e sem querer fazer uma retrospectiva ou algo do gênero, algumas coisas de sua produção que me impressionaram bastante.

De temperamento difícil e nenhuma disposição em ceder às pressões da indústria musical, Mr. Reed nos surpreendeu em diversas ocasiões de sua carreira. Duas delas são bem marcantes. O álbum que gravou em parceria com o Metallica, o controverso Lulu (2011), é recente a ponto de todos se lembrarem. A outra parceria é bem mais surpreendente, e praticamente esquecida de todos: uma dobradinha com o Kiss de Gene Simmons e Paul Stanley.

O álbum Music From The Elder (1981), o mais polêmico da carreira do quarteto mascarado americano, traz três faixas que inclui Lou Reed como letrista: Dark Light, Mr. Blackwell e A World Without Heroes, sendo que esta última foi a que conseguiu melhor repercussão em termos de divulgação. Mesmo assim, foi provavelmente o trabalho do Kiss que menos vendeu.

Artistas de todos os tipos regravaram canções de Lou Reed. Duas das gravações mais curiosas ocorreram em 1995, quando o Duran Duran resolveu ler à sua moda a ótima Perfect Day em seu álbum de covers Thank You, e em 1994, com Marisa Monte interpretando de forma suave e inspirada a bela Pale Blue Eyes em seu melhor trabalho, Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão. Ah, e tem a inominável Vi Shows (Vicious), raro tropeço de Arnaldo Brandão.

Em 1983, Lou Reed deu provas de seu sarcástico bom humor ao participar do divertido e descompromissado filme Get Crazy! Na Zorra do Rock. Na atração, ele vive o papel de um excêntrico roqueiro que está há anos fora de cena e que é convidado por um velho amigo promotor de shows a participar de um evento de ano novo para salvar uma badalada casa noturna. Ele aceita o desafio, no fim das contas.

No entanto, como não tinha nenhuma música nova pronta para tocar no tal show, ele passa o filme inteiro andando de taxi e finalizando a canção. Nem é preciso dizer que, quando chega no teatro, o espetáculo já havia acabado, só restando por lá uma jovem e fiel fã que queria vê-lo a qualquer custo. Aí, quando os créditos do filme surgem, ele canta a bela balada rock Little Sister, perante essa única admiradora. Delicioso!

Em 1996, tive a oportunidade de ver seu show em São Paulo, no finado Palace, parte de sua primeira passagem por nosso pais. Naquela turnê, ele divulgava o ótimo e hoje bem esquecido CD Set The Twilight Reeling, que inclui belos rocks como NYC Man e Hooky Wooky. Alguns clássicos ficaram bem diferentes das versões originais, mas como diria a amiga Claudia Bia, “ele sempre foi assim”. E sempre foi mesmo!

Gosto muito da obra do Velvet Underground, banda que vendeu poucos discos mas influenciou bandas que posteriormente venderam muito mais do que eles. Curiosamente, meu trabalho favorito da banda capitaneada em sua fase áurea por Lou Reed e John Cale é o póstumo VU (1985), que nem parece um álbum com sobras de outros álbuns, tal a sua qualidade. Excepcional, com pérolas como I Can’t Stand It (depois regravada em sua carreira solo), Lisa Says e Foggy Notion.

A obra de Lou Reed é repleta de momentos sublimes, e quem não a conhece certamente perde bastante em seu conhecimento musical. Letras ácidas e irônicas, melodias básicas, riffs de guitarra envolventes, momentos folk de rara beleza, ousadia em álbuns quase absurdos como Metal Machine Music (1975) e nenhum compromisso com a mesmice e o mediano. A Wild Side nunca mais será a mesma sem ele.

Can’t Stand It, com Lou Reed (versão da carreira solo):

Little Sister, com Lou Reed:

Veja o filme Get Crazy! Na Zorra do Rock:

VU- The Velvet Underground (Verve/1985)

Por Fabian Chacur

O Velvet Underground se manteve na ativa entre 1965 a 1973. Em sua existência, fracassou em obter sucesso comercial, embora tenha ganho alguns fãs entusiásticos.

Reza a lenda que pouca gente comprou os discos da banda, mas quem o fez acabou criando seu próprio grupo.

Com uma sonoridade minimalista, sombria, crua e inovadora, o grupo americano revelou um dos maiores gênios do rock, o cantor, compositor e guitarrista Lou Reed, além do vanguardista John Cale.

Em 1985, já havia ficado clara a importância do Velvet na história do rock, pois eram audíveis e claras as suas influências em importantes trabalhos que vieram a seguir, como os dos grupos Television, Joy Division, Echo & The Bunnymen, Lloyd Cole & The Commotions, The Jesus & Mary Chain e inúmeros outros.

Quando resolveu lançar versões remasterizadas dos três primeiros álbuns do grupo americano, a gravadora Verve (distribuída pela Universal Music) descobriu em seu acervo gravações inéditas do time.

Sem pestanejar, aquelas fitas foram devidamente remasterizadas e retrabalhadas, com a ajuda do engenheiro de som Michael Barbiero. O resultado foi o álbum VU, lançado naquele mesmo ano.

Ironicamente, o disco vendeu mais do que todos os outros lançamentos anteriores da banda somados. Faz sentido.

Naquele momento, os ouvidos em geral já estavam preparados para ouvir o som peculiar da banda que incluiu, além de Reed e Cale, o guitarrista Sterling Morrison, a baterista Maureen Mo Tucker e o baixista Doug Yule.

O repertório também era imbatível. I Can’t Stand It, por exemplo, que Lou Reed gravou bem em seu primeiro disco solo, aparece aqui em versão muito mais crua, como que prevendo o que no futuro seria chamado de pós-punk.

Essa característica também é a marca da sensacional Foggy Notion, quase new wave em sua levada energética e contagiante. A delicadeza melódica marca Stephanie Says, assim como a quase vaudeville I’m Sticking With You.

She’s My Best Friend tem ecos do rock britânico dos anos 60. Já Lisa Says é uma daquelas baladas cruas típicas de Lou Reed, irmãzinha de Pale Blue Eyes, por exemplo, e tão boa quanto, com um quê de Bob Dylan no tempero.

O lamento enigmático e introspectivo de Ocean, o pique rocker cru de Temptation Inside Your Heart, a influência blues rock de One Of These Days e a levada rocker sujona de Andy’ Chest completam bem o repertório.

VU é uma espécie de álbum perdido do Velvet Underground, pois suas faixas foram gravadas entre 1968 e 1969, período compreendido entre os álbuns The Velvet Underground (1969) e Loaded (1970).

Outra marca desse período foi a saída de John Cale, que só participa de Stephanie Says e Temptation Inside Your Heart. Ele foi substituído por Doug Yule, que mostrou serviço de forma elogiável.

Fica difícil ouvir VU e acreditar que se trata apenas de um álbum póstumo, tal a sua qualidade.

Há quem o considere o melhor trabalho do Velvet Underground, uma opinião polêmica. Mas que é um discaço, isso não se discute de forma alguma.

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