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Tag: rock anos 1960

Creedence Clearwater Revival e seu show em Woodstock-1969

creedence clearwater revival capa cd-400x

Por Fabian Chacur

Entre os inúmeros grupos e artistas solo que participaram do mitológico festival de Woodstock, o Creedence Clearwater Revival era um dos que viviam seu auge em termos comerciais e artísticos. Por razões contratuais, eles não apareceram nem no filme e nem mesmo na trilha sonora do documentário sobre o festival, realizado em agosto de 1969. Nas reedições do material registrado no festival ocorridas nos anos 1990, algumas faixas de seu histórico show enfim chegaram à tona. E, agora, enfim teremos a performance do quarteto em sua totalidade, com o título Live At Woodstock, lançado pela Universal Music.

Como forma de aguçar a curiosidade de todos, acaba de ser lançado o primeiro single, com a faixa que abriu o show, a espetacular Born On The Bayou, com mais de cinco minutos de pura energia. Para tristeza dos fãs brasileiros do grupo, esse material só estará disponível por aqui nas plataformas digitais. No exterior, também teremos versões em CD simples e vinil duplo. Green River, Bad Moon Rising e Suzie Q são alguns dos petardos.

John Fogerty (vocal e guitarra), Tom Fogerty (guitarra), Stu Cook (baixo) e Doug Cosmo Clifford (bateria) conseguiram uma façanha: em plena era do psicodelismo, flower power e o início do rock pesado, encantar o público e vender milhões de discos com uma releitura energética do rock dos anos 1950 com elementos de country, folk e soul que recebeu o apelido de swamp rock.

Eles mesclavam composições próprias do genial John Fogerty e sua voz de trovão com releituras personalizadas de clássicos do rock e do soul, algumas marcadas por longas passagens instrumentais nas quais o talento dos músicos se sobressaia. Um absurdo esse álbum não ser disponibilizado em formato físico no Brasil. Como diria o outro, é o fim dos tempos…

Eis as faixas incluídas em Live At Woodstock:

1- Born On The Bayou

2- Green River

3- Ninety-Nine And A Half (Won’t Do)

4- Bootleg

5- Commotion

6- Bad Moon Rising

7- Proud Mary

8- I Put A Spell On You

9- The Night Time Is The Right Time

10- Keep On Chooglin’

11- Suzie Q

Born On The Bayou (live in Woodstock)- C.C.R.:

Rolling Stones reeditam o seu histórico Rock And Roll Circus

rolling stones rock and roll circus

Por Fabian Chacur

Nos últimos anos, os fãs dos Rolling Stones tem necessitado de uma condição financeira privilegiada para manter sua coleção de itens referentes à banda devidamente atualizada. Agora, chega a vez de The Rolling Stones Rock And Roll Circus, que a ABKO Films e ABKO Music, em parceria com a Universal Music, lançará em breve em versão 4K Dolby Vision. Serão disponibilizadas as versões Deluxe Edition (incorporando Blu-ray – DVD, 2 CDs e um livro com 44 páginas), LP triplo, CD duplo e digital. No Brasil, o único item relativo aos formatos físicos a ser lançado será o DVD, com os outros limitados às plataformas digitais.

Nessa verdadeira enxurrada de produtos referentes à banda de Mick Jagger e Keith Richards, Rock And Roll Circus é um dos mais importantes. Gravado em dezembro de 1968 com o objetivo de ser um especial de TV, ficou nos arquivos durante quase 30 anos, sendo lançado de forma oficial em áudio e vídeo apenas em 1996. O show trazia um cenário relembrando o de um circo cinematográfico, com o grupo britânico recebendo diversos convidados especiais.

Além de ter marcado a última performance de Brian Jones com a banda que ajudou a fundar, o show traz outras atrações históricas, como o Dirty Mac, supergrupo formado para esta apresentação que traz “apenas” John Lennon (guitarra e vocal), Eric Clapton (guitarra), Keith Richards (baixo) e Mitch Mitchell (bateria, do Jimi Hendrix Experience). Eles tocam uma versão endiabrada de Yer Blues, que os Beatles haviam lançado há pouco no Álbum Branco. Também estão presentes The Who, Jethro Tull, Marianne Faithfull, Yoko Ono e Taj Mahal.

Se a versão em condições técnicas revitalizadas já é uma bela pedida, o fato de termos inúmeras faixas-bônus em áudio equivale ao ponto mais cobiçado pelos colecionadores, nesta nova edição de Rock And Roll Circus. O Dirty Mac, por exemplo, toca nada menos do que Revolution, além de uma jam session. A versão anterior em CD era simples, vale lembrar. O filme foi dirigido por Michael Lindsay-Hog, o mesmo do filme Let It Be, dos Beatles, cujas gravações estavam sendo iniciadas naquela mesma época.

The Rolling Stones Rock and Roll Circus (4K FILM)

O FILME

Song For Jeffrey – Jethro Tull

A Quick One While He’s Away – The Who

Ain’t That A Lot Of Love – Taj Mahal

Something Better – Marianne Faithfull

Yer Blues – The Dirty Mac

Whole Lotta Yoko – Yoko Ono & Ivry Gitlis, and The Dirty Mac

Jumpin’ Jack Flash – The Rolling Stones

Parachute Woman – The Rolling Stones

No Expectations – The Rolling Stones

You Can’t Always Get What You Want – The Rolling Stones

Sympathy for the Devil – The Rolling Stones

Salt Of The Earth – The Rolling Stones

EXTRAS

Widescreen Feature, Aspect Ratio: 16:9 (65 min)

Entrevista Pete Townshend, Aspect Ratio: 4×3 (18 min)

The Dirty Mac:

‘Yer Blues’ Tk2 Quad Split, Aspect Ratio: 4×3 (5:43)

Taj Mahal:

-Checkin’ Up On My Baby, Aspect Ratio: 4×3 (5:37)

-Leaving Trunk, Aspect Ratio: 4×3 (6:20)

-Corinna, Aspect Ratio: 4×3 (3:49)

Julius Katchen:

-de Falla: Ritual Fire Dance, Aspect Ratio: 4×3 (6:30)

-Mozart: Sonata In C Major-1st Movement, Aspect Ratio: 4×3 (2:27)

Mick & The Tiger/ Luna & The Tiger, Ratio: 4×3 (1:35)

Bill Wyman & The Clowns, Aspect Ratio: 4×3 (2:00)

Lennon, Jagger, & Yoko backstage, Aspect Ratio: 4×3 (45sec)

COMENTÁRIOS DAS FAIXAS DO FILME:

Life Under The Big Top (Artistas) Apresentando: Mick Jagger, Ian Anderson, Taj Mahal, Yoko Ono, Bill Wyman, Keith Richards (65 min)

Framing The Show (Diretor & Diretor de Fotografia) Apresentando: Michael Lindsay Hogg, Tony Richmond (65 min)

Musings (artistas, escritor, fãs que estiveram na gravação) Apresentando: Marianne Faithfull, David Dalton, David Stark (50 min)

The Rolling Stones Rock and Roll Circus Edição de Áudio Ampliada

1. Mick Jagger’s Introduction Of Rock And Roll Circus – Mick Jagger

2. Entry Of The Gladiators – Circus Band

3. Mick Jagger’s Introduction Of Jethro Tull – Mick Jagger

4. Song For Jeffrey – Jethro Tull

5. Keith Richards’ Introduction Of The Who – Keith Richards

6. A Quick One While He’s Away – The Who

7. Over The Waves – Circus Band

8. Ain’t That A Lot Of Love – Taj Mahal

9. Charlie Watts’ Introduction Of Marianne Faithfull – Charlie Watts

10. Something Better – Marianne Faithfull

11. Mick Jagger’s and John Lennon’s Introduction Of The Dirty Mac

12. Yer Blues – The Dirty Mac

13. Whole Lotta Yoko – Yoko Ono & Ivry Gitlis with The Dirty Mac

14. John Lennon’s Introduction Of The Rolling Stones + Jumpin’ Jack Flash – The Rolling Stones

15. Parachute Woman – The Rolling Stones

16. No Expectations – The Rolling Stones

17. You Can’t Always Get What You Want – The Rolling Stones

18. Sympathy for the Devil – The Rolling Stones

19. Salt Of The Earth – The Rolling Stones

FAIXAS-BÔNUS

20. Checkin’ Up On My Baby – Taj Mahal

21. Leaving Trunk – Taj Mahal

22. Corinna – Taj Mahal

23. Revolution (rehearsal) – The Dirty Mac

24. Warmup Jam – The Dirty Mac

25. Yer Blues (take 2) – The Dirty Mac

26. Brian Jones’ Introduction of Julius Katchen – Brian Jones

27. de Falla: Ritual Fire Dance – Julius Katchen

28. Mozart: Sonata In C Major-1st Movement – Julius Katchen

Yer Blues- The Dirty Mac (John Lennon+):

Demetrius, um dos grandes pioneiros do rock no Brasil

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Por Fabian Chacur

Demetrio Zahra Neto tinha apenas 18 anos quando, ao cantar sucessos de Elvis Presley em uma festa de aniversário, chamou a atenção do radialista Miguel Vaccaro Netto, que então iniciava um selo especializado no então emergente rock and roll, o Young. O convite para gravar um compacto simples de vinil veio, e o garotão boa pinta topou. Em 1960, Hold Me So Tight iniciava a trajetória do artista carioca radicado em São Paulo desde os seis meses de idade. Demétrius, o nome artístico adotado por ele, infelizmente nos deixou nesta segunda (11), deixando muita saudade e uma trajetória marcante para o pop-rock brasileiro.

Nascido em 28 de março de 1942, Demétrius marcou presença como um dos primeiros grandes ídolos do rock brasileiro. A repercussão de Hold Me So Tight gerou outro convite, desta vez para assinar com a gravadora Continental. A estreia veio em 1961 com a versão em português Corinna Corinna de hit do cantor Ray Peterson. A boa repercussão abriu alas para que ele lançasse o seu primeiro LP, Demetrius Canta…Com Amor e Mocidade (1962). E os sucessos se sucederam: Rock do Saci, Voltou a Carta, Hey! Baby, A Bruxa etc.

O maior estouro musical de sua carreira veio em 1964, quando O Ritmo da Chuva, versão feita por ele próprio para o sucesso Rhythm Of The Rain, do grupo The Cascades, literalmente invadiu as paradas de sucesso de todo o país, um rock-balada extraordinário, sem exagero. Em 1976, incluída na trilha sonora da novela global Estúpido Cupido (curiosamente situada no ano de 1961…), voltou com força total às programações de rádios e TVs, além de ajudar na venda do LP da Som Livre com as músicas daqueles anos incríveis.

Demétrius ficou amigo de um novo talento que começava a fazer furor na cena musical brasileira, um certo Roberto Carlos Braga, que gravou uma canção de sua autoria e também deu para Demétrius uma composição sensacional, Não Presto Mas Te Amo, um dos grandes hits de 1967. Versátil, o intérprete de voz de veludo também investiu em canções românticas: Esta Tarde Vi Chover, Que Me Importa e Muito Nova Para Mim, que o mantiveram nas paradas de sucessos.

Além de gravar seus próprios discos, Demétrius teve várias de suas canções e versões gravadas por grandes nomes da nossa música. Além do Rei, também se valeram de obras do carioca radicado em São Paulo Jerry Adriani, Vanusa, Antonio Marcos, Ronnie Von, Wanderley Cardoso, Nalva Aguiar, Altemar Dutra e Ary Sanches. Nos anos 1970, ainda visitou as paradas de sucesso com os hits Nas Voltas do Mundo (1972), Encontro (1976) e O Menino e o Pilão (1978).

Entre 1981 e 2000, razões particulares o levaram a sair de cena do mundo artístico. O jejum acabou com o lançamento do CD Demétrius, pela gravadora Zan-Brasidisc, no qual ele mesclou releituras de seus grandes hits com algumas novidades. A partir daí, voltou a frequentar programas de TV de amigos como Miguel Vaccaro Netto e a fazer alguns shows. No meio artístico, uma das principais características ressaltadas por seus colegas era a simpatia, a gentileza e a classe. Ele nos deixa às vésperas de completar 77 anos, ironicamente em um dia de muita, mas muita chuva mesmo em São Paulo. Triste demais…

obs.: agradeço à sempre gentil colega Giseli Martins Turco por ter me informado dessa triste perda e pela foto de capa de um dos discos do maravilhoso Demétrius que ilustra essa matéria, dedicada ao grande Valdimir D’Angelo, meu mestre, que sempre alardeou aos quatro cantos ser esse cara bacana e talentoso o seu maior ídolo. Escolheu a dedo, e escolheu bem!

O Ritmo da Chuva– Demétrius:

Peter Tork, dos Monkees, o gente boa que tocava baixo, banjo etc

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Por Fabian Chacur

Em 1966, Stephen Stills era um músico folk buscando um rumo para a sua carreira. No sufoco em termos financeiros, encarou uma audição para o papel de integrante de um grupo fictício de rock para uma série de TV. A produção gostou dele, mas cismou com seus dentes, e o vetou. De forma quase cruel, perguntaram a Stills se ele não conhecia alguém com suas mesmas características físicas, mas com dentes melhores. Generoso, o futuro integrante do Buffalo Springfield e Crosby, Stills. Nash & Young lembrou-se imediatamente de um amigo que fez no circuito folk de bares. Um certo Peter Tork, que infelizmente nos deixou nesta quinta-feira (21) aos 77 anos, possivelmente vitimado por um raro tipo de câncer.

Tork no início pensou em ignorar a indicação de Stills, mas como também não estava exatamente nadando em dinheiro, resolveu tentar a sorte. Bingo! Foi aprovado, ao lado de Michael Nesmith, Micky Dolenz e Davy Jones, para ser um dos Monkees. O seriado estreou no final de 1966 e logo se transformou em um fenômeno de audiência. De quebra, as músicas cantadas por eles na atração geraram discos que venderam milhões de cópias e invadiram as paradas de sucesso do planeta. Só que o responsável pela produção musical, Don Kirshner, não queria saber de contribuições dos quatro que não fossem os vocais.

Foi exatamente Peter Tork, que começou a tocar piano aos 9 anos e logo investiu em vários outros instrumentos, a quebrar a regra, tocando na faixa Papa Gene’s Blues (de autoria de Mike Nesmith), do 1º LP. Com a saída de Kirshner (considerado no meio musical “o homem dos ouvidos de ouro”), após o lançamento do segundo álbum do grupo, os rapazes passaram a compor e tocar, também. E nesse quesito o nosso herói se mostrou fera, incumbindo-se de baixo, banjo, violão, guitarra, teclados, harpsichord e o que mais pintasse em suas mãos.

Na banda, Tork encarnava o papel do boa praça desencanado. Detonados pela crítica musical, que os rotulava de forma venenosa como os “Prefab Four”, eles no entanto tinham como fãs até os próprios Beatles, cuja fase 1964-1965, especialmente da era Help!, eram sua óbvia inspiração visual e musical.

Eles até trocaram figurinhas com os colegas em Londres, e Peter tocou banjo para a trilha do filme Wonderwall, lançado em 1968 e escrita e gravada por George Harrison. Sua contribuição musical aparece na tela, mas não no álbum, lançado pela Apple Records naquele mesmo ano.

No final de 1968, cansado pelo grande volume de trabalho e pela pressão gerada pelo sucesso, Tork resolveu sair dos Monkees, mesmo sendo obrigado a pagar uma multa pela quebra do seu contrato. A partir daí, teria início uma fase bem difícil e obscura em sua carreira. Ele tentava montar um novo grupo, mas a coisa não fluía. Em 1972, veio o fundo do poço, com uma prisão por posse de maconha que o manteve atrás das grades em torno de três meses.

Para dar a volta por cima, trabalhou como professor de várias matérias, como música, francês, estudos sociais e até basquete, e participou de shows dos ex-colegas de grupo. Em 1980, chegou a iniciar um projeto solo com o apoio da gravadora Sire Records (que lançou Ramones, Talking Heads e outros), mas não deu certo. Seu melhor momento nessa fase foi participar do programa do então iniciante David Letterman, no qual o velho charme se mostrou firme e forte.

Graças à reexibição da série The Monkees na MTV americana, o grupo voltou a ser badalado, o que gerou um retorno do qual participaram Tork, Micky Dolenz e Davy Jones. Além de shows, o projeto gerou a gravação de três músicas inéditas para serem incluídas na coletânea Then & Now…The Best Of The Monkees (1986) e um álbum de inéditas, Pool It! (1987). A partir daí, Peter Tork voltou a ser um músico em tempo integral.

Com os Monkees, lançaria os álbuns Justus (1996, o primeiro a reunir os quatro desde 1968, e também o primeiro com eles tocando todos os instrumentos musicais), Good Times! (2016, que os trouxe de volta ao Top 20 americano após décadas, saiba mais aqui) e o natalino Christmas Party (2018, saiba mais aqui).

Paralelamente ao trabalho com os Monkees (que abandonou novamente entre 2001 e 2011), Tork lançou em 1994 seu primeiro e único álbum solo, o elogiado Stranger Things Have Happened. A seguir, ele montou uma dupla com um músico folk que participou desse CD, o cantor, compositor e ator James Lee Stanley (que atuou na série de TV Star Trek: Deep Space Nine). Juntos, fizeram shows e gravaram os CDs Two Man Band (1996), Once Again (2001) e Live Backstage At The Coffee Gallery (2006).

No mesmo período, integrou a Shoe Suede Blues, banda blueseira que gravou os álbuns Saved By The Blues (2003), Cambria Hotel (2007), Step By Step (2013) e Relax Your Mind (2018). Ele trabalhou bastante, mesmo lutando a partir de 2009 contra um câncer que em determinado momento ele pensou ter superado. Peter Tork é o segundo membro dos Monkees a nos deixar, tendo sido o britânico Davy Jones o primeiro, em 2012.

Obs.: informação do meu mestre Ayrton Mugnaini Jr. aponta que Peter Tork foi o único integrante dos Monkees a se apresentar em show no Brasil, o que ocorreu em fevereiro de 2003 no Bourbon Street e no Venâncio’s Bar, ambos em São Paulo (SP). Ele infelizmente não teve como ir. E eu só soube agora…

Veja Peter Tork e James Lee Stanley ao vivo em um programa de TV em 2006:

After Bathing At Baxter’s- Jefferson Airplane (1967- RCA)

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Por Fabian Chacur

Com seu segundo álbum, Surrealistic Pillow (leia sobre ele aqui), que atingiu o 3º posto na parada americana e gerou os megahits Somebody To Love e White Rabbit, o Jefferson Airplane chegou ao primeiro escalão do rock americano, nos primeiros meses de 1967. O rock oriundo de San Francisco, Califórnia (EUA) ganhava a preferência dos fãs do gênero.

Fazer sucesso não é fácil, mas mantê-lo equivale a tarefa ainda mais difícil. Para conseguir tal feito, muitos recorrem à repetição de fórmulas, com medo de errar. No caso do Airplane, eles simplesmente ignoraram quaisquer tipos de receios, e mergulharam de cabeça no que pensavam ser o caminho mais certo para a sua trajetória artística. Se o público entendesse, muito bem. Senão, a vida seguiria em frente. E foi exatamente o que eles fizeram.

O grupo americano surgiu em 1965 como um combo de folk rock, trazendo também elementos de country, blues e pop. Esse script apareceu com força no primeiro álbum deles, Jefferson Airplane Takes Off (1966). Com a saída da cantora Signe Anderson e do baterista Skip Spence e as respectivas entradas de Grace Slick e Spencer Dryden para substitui-los durante o processo de criação de Surrealistic Pillow, as coisas mudariam de forma.

Em Pillow, com Slick e Dryden ainda se entrosando com o time, temos um trabalho de transição, com o folk rock ainda se mostrando predominante e com canções em formatos mais concisos. Mas a psicodelia entrava em cena, com seus efeitos de gravação, acordes diferentes e variações no andamento nas canções. Era questão de tempo que, se tivesse coragem, esse grupo investisse em uma sonoridade ainda mais ousada e fugindo de quaisquer amarras estilísticas. Não deu outra.

Com influências jazzísticas e muito mais experiente do que seu antecessor (Skip Spence, que, na verdade, nem baterista era, tanto que saiu para montar sua própria banda, a Moby Grape, empunhando a guitarra, cantando e compondo), Dryden se entrosou feito luva com os também criativos Jorma Kaukonen (guitarra-solo) e Jack Casady (baixo). A sólida guitarra-base de Paul Kantner e o eventual piano de Grace completavam o time com perfeição.

Curiosamente, a proposta mais ousada da banda não deve ter calado fundo no vocalista Marty Balin, pois ele, mais próximo de um formato convencional (embora ótimo) de compor, assina apenas uma das músicas do álbum, Young Girl Sunday Blues. Prevalecem neste setor Paul Kantner e Grace Slick, com a trinca Kaukonen/Casady/Dryden tomando a liderança nos momentos instrumentais.

After Bathing At Baxter’s saiu no final de 1967 e equivale ao trabalho mais psicodélico e inesperado da discografia do JA. Seu repertório se divide em cinco suítes, sendo uma das sementes para o que viria a ser o rock progressivo posteriormente.

O álbum abre com Streetmasse, dividida em três “movimentos”, digamos assim: o vibrante rock The Ballad Of You & Me & Pooneil, com direito a vocalizações incisivas, a absolutamente experimental e repleta de efeitos e momentos dignos de música concreta A Small Package Of Value Will Come To You, Shortly, e a apaixonada Young Girl Sunday Blues, único momento de vocal solo de Marty Balin.

The War Is Over traz duas partes. Martha é uma envolvente mistura de rock, latinidade e, pasmem, bossa nova, com um tempero psicodélico contido nos solos hipnóticos de Jorma. Wild Time completa a “suíte” com um pique roqueiro incendiário e vocais incisivos.

Hymn To An Older Generation nos oferece duas canções bem distintas entre si. The Last Wall Of The Castle é um rock mais convencional que caberia perfeitamente em Surrealistic Pillow. Já Rejoyce figura entre os momentos mais intensos e sofisticados de Grace Slick, com direito a variações rítmicas que vão de valsa ao jazz, melodia intrincada e letra inspirada no célebre poeta James Joyce.

Com o nome How Suite It Is, entram em cena o delicioso rock Watch Her Ride, no qual a voz de Paul Kantner se destaca, e a instrumental e absolutamente psicodélica Spare Chaynge, na qual durante mais de 9 minutos Dryden, Casady e Kaukonen demonstram sua capacidade como músicos, em uma verdadeira odisseia psicodélica das mais viajantes.

Intitulada Shizoforest Love Suite, a parte final do álbum nos traz outra canção fantástica de Grace Slick, Two Heads, que recicla com muita habilidade o clima oriental de White Rabitt rumo a outros rumos, e se encerra com Won’t You Try/Saturday Afternoon, com suas vocalizações cruzadas de forma aliciante e uma letra no melhor estilo flower power, uma das obras-primas de Paul Kantner.

Embora tenha algumas canções que podem ser ouvidas fora de seu contexto original, After Bathing At Baxter’s funciona melhor quando ouvido do começo ao fim, como se fosse uma verdadeira sinfonia psicodélica roqueira. Mesmo em um momento no qual o público parecia mais aberto a novidades musicais, o álbum não passou do número 17 na parada ianque, vendendo bem menos do que seu badalado antecessor.

No entanto, tornou-se um dos pontos mais altos do rock psicodélico, provando que, sim, vale a pena arriscar, mesmo que isso possa causar algum prejuízo financeiro, que a banda americana recuperaria pouco depois, com sobras. Mas isso a gente conta depois…

Leia outras matérias relacionadas ao Jefferson Airplane aqui:

After Bathing At Baxter’s- Jefferson Airplane (em streaming):

Os Rolling Stones provam que óbvio também pode ser genial

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Por Fabian Chacur

Nada mais óbvio para uma banda que tirou o seu nome de um clássico do blues (Rollin’ Stone, do genial Muddy Waters) do que gravar um álbum totalmente dedicado a esse gênero musical, não é mesmo? Pois essa obra demorou 54 anos para se concretizar. E quer saber? Valeu, e como, a espera. Blue & Lonesome, novo álbum da banda de Mick Jagger, prova de que às vezes o óbvio também pode ser genial e instigante.

O blues faz parte desde sempre do repertório desta seminal banda inglesa. Não faltam exemplos de standards blueseiros relidos com categoria por eles, como I Just Want To Make Love To You, Little Red Rooster e Love in Vain, só para citar três. Isso, sem contar as composições próprias que se valeram de elementos desse gênero fundamental para o surgimento de jazz, rock and roll e tantas outras sonzeiras de primeiríssima linha.

Das várias possibilidades de se realizar um trabalho desse porte, os Stones optaram pela mais adequada a eles. Ou seja, selecionaram um repertório maravilhoso, que soará inédito para a maioria dos fãs por se tratar de canções tiradas do fundo do baú, coisa de conhecedores, mesmo, e as gravaram sem frescuras, de forma crua e direta. Além dos quatro integrantes oficiais da banda, apenas seus três músicos de apoio em shows e a participação de Eric Clapton em duas faixas. As 12 músicas foram registradas em apenas três dias.

O resultado é o que se poderia se esperar de uma empreitada como essa. Totalmente à vontade, Jagger, Richard e sua turma esmerilham, soltando a alma e exalando prazer em maravilhas do porte de Ride ‘Em Down, Hate To See You Go, Just Your Fool, I Gotta Go e Just Like I Treat You, de autores como Little Walter, Willie Dixon e Jimmy Reed. Só uma é mais conhecida. Trata-se de I Can’t Quit You Baby, que muitos conheceram na ótima versão do Led Zeppelin.

Eric Clapton exibe a competência habitual na seara do blues nas ótimas I Can’t Quit You Baby e Everybody Knows About My Good Thing. Se não bastasse a qualidade musical, Blue & Lonesome aparece em belíssima embalagem digipack, com direito a capa tripla e encarte repleto de informações sobre as músicas e as sessões de gravações. Se por alguma razão este álbum se tornar o último dos Rolling Stones, nenhuma despedida poderia ser mais brilhante e elogiável do que esta. Mas se vier um volume 2, será mais do que bem-vindo!

Ride ‘Em On Down- The Rolling Stones:

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