Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Category: as tais memórias (page 3 of 4)

George Harrison aos 70: doce, filosófico, genial

Por Fabian Chacur

No dia 24 de fevereiro de 1943, nasceu em Liverpool, Inglaterra, um dos mais importantes nomes da história do rock e da música em geral. Se estivesse vivo, George Harrison teria completado 70 anos. Infelizmente, ele nos deixou em 2001, com apenas 58 primaveras. Quanta coisa boa ele ainda teria nos proporcionado!

Mas não vale a pena lamentar. Afinal de contas, o cantor, compositor e guitarrista britânico nos deixou um legado que irá durar muito mais do que o mais forte corpo humano suportaria. Sua herança musical traz belas canções, letras profundas, acordes caprichados, solos de guitarra elaborados, voz doce…

Se sua participação na maior banda de todos os tempos, os Beatles, já bastaria para lhe garantir a eternidade, a belíssima carreira solo que construiu depois do fim dos Fab Four também teria lhe valido essa difícil vitória, tamanha a qualidade do que compôs e gravou sem John Lennon, Paul McCartney e Ringo Starr. Genial só ou bem acompanhado.

Como homenagem às sete décadas decorridas desde seu nascimento, selecionei sete canções de sua carreira solo, fugindo das mais óbvias e apostando em profundidade, memória afetiva, pura beleza e intensidade. Ouçam cada uma delas e reflitam se dá para dizer que George Harrison está morto. Que nada! Sua música é imortal!

Don’t Let Me Wait Too Long -(Living In The Material World -1973)

A capacidade de George em criar melodias pop envolventes era incrível, e esta canção é uma boa prova disso. Ritmo delicioso, melodia marcante e uma letra de simplicidade elaborada que me conquistaram ainda moleque, com 12 aninhos.

Any Road (Brainwashed -2002)

O álbum lançado de forma póstuma em 2002 (excelente, por sinal) traz essa canção fantástica, com letra incrível e uma das frases mais profundas que já ouvi na vida: “se você não sabe para onde vai, qualquer estrada pode te levar até lá.

That’s The Way It Goes (Gone Troppo-1982):

Mesmo em trabalhos não tão inspirados como Gone Troppo George sempre nos reservava ao menos umas duas canções realmente estelares. Essa balada aqui, com direito a sua inigualável slide guitar, é bom exemplo desse dom do “beatle quieto”.

Crackerbox Palace (Thirty Three & 1/3 – 1976):

No álbum mais funky/soul da carreira de Harrison, esta música particularmente me emociona, e nem sei explicar bem o porque, além de sua óbvia beleza. Acho que tem a ver com a associação que faço dela com a saudade da infância e dos sonhos de criança, e da crença de que Deus está dentro de todos nós.

Beware Of Darkness (All Things Must Pass – 1970):

Em um álbum repleto de clássicos como esse, escolhi esta canção de tom sombrio, que nos adverte a ter cuidado com as coisas ruins que nos cercam e que podem, se vacilarmos, acabar com tudo o que sonhamos e tentamos preservar de bom. Uma advertência melódica e inspirada, só para variar.

Blow Away (George Harrison– 1978):

Até me arrepia lembrar da primeira vez que eu ouvi essa maravilha tocar no rádio, lá pelos idos de 1978, quando tinha 17 anos. Balada pop certeira, com letra positiva e um daqueles arranjos que só mesmo o autor de Something sabia nos oferecer. Fico arrepiado ao ouvi-la até hoje, e ficarei sempre, pelo visto.

Blood From a Clone (Somewhere In England-1981):

Reza a lenda que a gravadora Warner queria que George fizesse uma canção que tivesse sonoridade próxima do que a new wave e/ou a disco music ofereciam, naquela época. Harrison nos proporcionou esse petardo, com guitarras nervosas, ritmo sofisticado e ágil e forte apelo pop dançante. Nunca desafie um craque da canção…

Santa Maria e mais mortes injustificáveis

Por Fabian Chacur

Mais uma vez o Brasil vive um momento de dor devido a uma tragédia que poderia ter sido evitada. Desta vez, 231 pessoas (até o momento) nos deixaram de forma precoce em um horripilante incêndio ocorrido na madrugada deste domingo (27) na boate Kiss, localizada na cidade gaúcha de Santa Maria. Boa parte composta por jovens universitários.

Tenho 51 anos de idade e tive a oportunidade de tomar conhecimento de inúmeras catástrofes como essa no Brasil e no mundo, todas geradas pelo descaso com medidas básicas na prevenção de acidentes. Alvarás comprados, laudos postergados, generosas propinas, o famoso “finge que não viu e deixe do jeito que está” e pronto! Mais uma bomba relógio está armada, pronta para levar embora mais gente antes da hora.

É impressionante como exigências em relação a infra-estrutura são deixadas em segundo plano. Obras para prevenir ou minimizar catastrofes naturais ou causadas pelo próprio ser humano são sempre postergadas, provavelmente com aquela famosa esperança de que “nada irá dar errado”. E aí, já viu, o errado surge quando menos se espera.

O mais difícil é aceitar o que virá a seguir dessa terrível catástrofe. Alguns serão presos, outros apontados como culpados, os governantes prometerão providências enérgicas para evitar nova carnificina inútil etc. Aí, depois de algumas semanas, todos se esquecerão do ocorrido e a vida seguirá, para quem conseguiu mantê-la.

Até que novo “imprevisível acidente” ocorra, e novas vítimas paguem o preço da inconsequência de alguns. E fica fácil agora culpar o grupo Gurizada Fandangueira pelo desastre. Eu particularmente odeio fogos e coisas do gênero exatamente por sua periculosidade, mas muita gente adora e apoia correr esse risco inútil em nome de “emoções baratas”. Taí o preço!

Só nos resta agora rezar pelas vítimas e por seus entes queridos, que agora terão de aguentar a administrar uma dor lancinante que não passa nunca e com a qual a gente é obrigado a aprender a conviver, pois a vida segue adiante. Com a palavra, o bom senso de todos nós, dos mais poderosos aos mais humildes.

Ouça e leia a letra de Imagine, de John Lennon:

As minhas lembranças de Cássia Eller

Por Fabian Chacur

Se ainda estivesse entre nós em termos físicos, Cássia Eller estaria completando nesta segunda-feira (10) 50 anos de idade. Como ela permanece na memória de todos os fãs da melhor música brasileira, vale celebrar essa data redonda e lembrar um pouco desta artista brilhante, que nos deixou em um triste 29 de dezembro de 2001.

Meu primeiro contato com ela ocorreu graças a uma grande amiga, a Regina Estela Vieira, em 1990. Na época, a Reka (seu apelido) era assessora de imprensa da gravadora Polygram (hoje, Universal Music), e me convidou para ver, no teatro do hotel Crowne Plaza (hoje extinto, ficava na rua Frei Caneca, em São Paulo), o show de uma nova cantora que havia acabado de ser contratada por aquele selo.

Nunca vou me esquecer daquele impactante contato inicial. Aquela moça bela e simples entrou em cena e, acompanhando-se inicialmente só por voz e violão, mandou ver um trecho de I’ve Got a Feeling, dos Beatles, para depois investir em Por Enquanto, obscura música da Legião Urbana de Renato Russo.

Aquele vozeirão incorporou a letra e a melodia da canção de tal forma que me fez gostar de uma composição escrita por um artista e grupo que sempre detestei, a Legião Urbana da Boa Vontade do Pastor Renato Russo. O resto daquele show, com banda, completou o serviço de me tornar fã de Miss Eller.

A partir daquele exato momento, passei a acompanhar passo a passo a carreira de Cássia, com direito a entrevistá-la em pelo menos três ocasiões. Numa delas, a moça veio acompanhada do poeta Wally Salomão, seu produtor no belíssimo álbum em homenagem a Cazuza, Veneno Antimonotonia (1997).

Cássia era tímida, mas quando percebia que você era uma pessoa legal e tinha boas perguntas, acabava se soltando, proporcionando ótimas entrevistas. Minha última vez com ela foi na coletiva organizada para divulgar o álbum Acústico MTV (2001), seu trabalho com melhor resultado em termos comerciais.

Poucas intérpretes brasileiras se mostraram tão efetivas na hora de pegar canções alheias e dar a elas um formato personalizado e próprio como Cássia Eller.Ela não compunha, mas, tal qual Elis Regina, sabia como poucas tomar posse de uma música.

Difícil saber como teria sido se ela tivesse chegado até aqui em termos físicos para comemorar cinco décadas de vida. O mais importante é ver que a obra que Cássia nos deixou continuará servindo como uma bela trilha sonora para nossas vidas.

Por Enquanto, ao vivo em 1990, com Cássia Eller:

Paulinho da Viola: 70 anos do Mestre Zen

Por Fabian Chacur

Trabalhar como jornalista especializado em música já me proporcionou alguns momentos de raro prazer. Entre eles, coloco as oportunidades que tive de entrevistar alguns grandes nomes. Entre eles, destaco Paulinho da Viola, que nesta segunda-feira (12) completa 70 anos de idade. É o Mestre Zen da MPB.

Simpático, inteligente e articulado, Paulinho é daqueles entrevistados dos sonhos, pois facilitam e muito a tarefa do repórter. Sua humildade é impressionante. Após a primeira ocasião em que tive a honra de entrevistá-lo, pedi um autógrafo em uma coletânea de vinil com seus maiores sucessos. Olha o que ele escreveu: “obrigado pelo papo”. Eu é quem deveria agradecer!

Nascido em 12 de novembro de 1942 no Rio, Paulinho começou a se tornar conhecido do grande público nos anos 60, e estourou em termos de popularidade com o espetacular samba Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida, em 1970. A partir daí, suas músicas ganharam as paradas de sucesso, aliando qualidade artística e apelo comercial.

O primeiro disco dele que eu comprei foi o compacto simples com Guardei Minha Viola (1973). Esse é apenas um dos vários clássicos lançados por ele nesse período, entre os quais Dança da Solidão, Coração Leviano, Pecado Capital, Argumento e Por Um Amor No Recife, só para citar alguns dos mais significativos.

Mestre como compositor de sambas, ele também soube investir em experimentação, como a fantástica Sinal Fechado prova de forma enfática, e demonstrou categoria na releitura de composições alheias, entre as quais destaco sua reinterpretação simplesmente espetacular de Nervos de Aço, pérola do compositor e cantor gaúcho Lupicínio Rodrigues.

Se viveu o seu auge na década de 70, a produção artística de Paulinho não caiu de qualidade nas décadas seguintes. Ele passou a gravar em quantidade menor, mas sem deixar a qualidade de lado, como atestam álbuns como Eu Canto Samba (1989), Bebadosamba (1996) e Acústico MTV (2007).

Paulinho da Viola felizmente completa 70 anos repleto de saúde, maturidade e capacidade de trabalho. Que venham em breve novos shows, novos discos e novas manifestações de seu enorme talento. E que eu possa voltar a entrevistá-lo em breve, um prazer indescritível.

Guardei Minha Viola, com Paulinho da Viola:

Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida, com Paulinho da Viola:

Nervos de Aço, com Paulinho da Viola:

Encontros e despedidas com o Bituca

Por Fabian Chacur

A primeira entrevista coletiva a gente nunca esquece. A número um deste jornalista especializado em música que vos tecla ocorreu precisamente em um 15 de agosto de 1985. O artista em questão era Milton Nascimento, e o local, uma das salas do então badalado hotel Maksoud Plaza, ainda hoje localizado na mesma Alameda Campinas, 150, perto da Paulista.

Fui convidado pelo Valdimir D’Angelo, figura fantástica a quem fui apresentado pelo músico, jornalista e amigo Ayrton Mugnaini Jr. em uma feira de compra, venda e troca de discos realizada naquela época em uma loja, a Golden Hits, situada em uma travessa da Rua Augusta (rua Mathias Aires, para ser mais preciso), próxima à Pàulista e na qual fiz belos negócios com discos de vinil.

D’Angelo, que depois seria até meu padrinho de casamento, era o editor de uma publicação que em breve chegaria à bancas, a Revista de Som & Imagem, e em cujo número 1 seriam publicadas minhas primeiras matérias como jornalista profissional. Ele me levou na coletiva do Milton para que eu entrasse em contato direto com o ambiente da música.

E posso dizer que comecei bem e mal, ao mesmo tempo. Bem, pois tive a cara de pau de fazer logo a primeira pergunta da coletiva. Mal porque eu perguntei ao Bituca se Milton Nascimento Ao Vivo (1984), seu então mais recente LP, havia sido o primeiro disco de ouro da carreira dele, e ouvi um não como resposta. E bem de novo pois, não perdi o fio da meada e consegui fazer uma nova e boa pergunta, de bate-pronto, sem perder o pique.

Ao fim da entrevista, da qual participaram jornalistas de todos os órgãos bacanas de imprensa da época, não só peguei um autógrafo dele, como também tirei uma foto hilária, na qual apareço atrás do Milton, que autografava alguns discos, enquanto eu fazia sinal de positivo, sorria e posava na maior cara de pau. Um ingênuo idealista no fosso dos crocodilos…

Nessa coletiva, encontrei com a Silvana Silva, colega de Cásper Líbero que já estava há algum tempo trabalhando como reporter de TV. Aquela seria apenas a primeira de incontáveis entrevistas com Deus e o mundo, em termos de música.

A segunda coletiva com o autor de Travessia ocorreu em 1986, na primeira versão do extinto Projeto SP, na época situado em um circo montado na rua Caio Prado, pertinho da avenida Consolação. Ele estava lá junto com o músico americano Wayne Shorter, com o qual iria gravar lá, ao vivo, o álbum A Barca dos Amantes (1986).

Ironia: no dia seguinte, o Estado de S.Paulo publicou matéria sobre a coletiva, e na foto publicada, lá estou eu, da cintura para baixo. Teria sido eu, naquela ocasião, o primeiro caso de um “barriga de pirata”, ao invés de papagaio de pirata?

Reencontraria o mesmo Milton em 1987, desta vez no escritório da então CBS (hoje Sony Music), que na época ficava no início da avenida Pedroso de Moraes, em Pinheiros. Também tenho fotos dessa ocasião. Um dia posto aqui.

Teria depois mais umas duas oportunidades de entrevistar o Bituca de Três Pontas, uma figura sempre tímida, mas simpática e adorável. E vamos ser sinceros: sou muito fã dele, embora saiba reconhecer que sua discografia comporta tanto títulos sublimes como alguns bem irregulares, do tipo Yauaretê (o álbum que ele lançou em 1987),por exemplo.

Ah, e tive a honra de estar na plateia, no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, quando Milton gravou outro álbum ao vivo, O Planeta Blue Na Estrada do Sol, lançado em 1992.

Como os raros leitores de Mondo Pop sabem, fui em 2011 no belíssimo show de lançamento do álbum …E A Gente Sonhando, na Via Funchal. Publiquei resenha aqui. E que venha a próxima entrevista com o Milton! E o próximo show, também!

Encontros e Despedidas, com Milton Nascimento, versão de estúdio:

Jornal da Tarde e a camisa 10 do Zeca Jagger

Por Fabian Chacur

Quando eu era moleque, uma das minhas fontes de informação em termos musical era a coluna que Ezequiel Neves escrevia para o Jornal da Tarde. Seu estilo irreverente e suas opiniões apaixonadas, mas sempre bem fundamentadas, faziam a minha cabeça. Nem sempre eu concordava com elas, mas adorava lê-las. Alimento para a alma!

A partir da minha entrada no meio do jornalismo musical, um de meus sonhos era, como eu definia, “vestir a camisa 10 do Zeca Jagger (um dos apelidos do saudoso Ezequiel)”, ou seja, ser um dia crítico musical do Jornal da Tarde. Infelizmente, esse é mais um dos milhares de sonhos que não conseguirei concretizar.

Ainda não foi confirmado oficialmente, mas já é dado como fato concreto a extinção do Jornal da Tarde, prevista para ocorrer no dia 2 de novembro. Será uma morte melancólica, pois há quase 20 anos essa publicação se arrasta, vendendo cada vez menos e repercutindo praticamente nada no acirrado mercado da mídia.

Quando surgiu, em 1966, o Jornal da Tarde pintou como uma grande novidade, pois investiu em aproveitamento criativo de imagens, textos mais leves e bem-humorados e influenciando gerações de jornalistas em todos os cantos do país. Sua capa após a doída derrota do Brasil contra a Itália em 1982 ganhou prêmios e virou um marco no jornalismo tupiniquim.

Entre os jornalistas que estiveram lá, destaco o saudoso Dirceu Soares, com quem tive a honra de trabalhar nos anos 90 no também extinto Diário Popular, e obviamente o Zeca Jagger. Ele saiu fora do jornalismo musical ao virar produtor do Barão Vermelho lá pelos idos de 1982.

Tive a honra de conhecer pessoalmente o Zeca em 1987, quando ele estava trabalhando com Cazuza. Grande figura, de um carisma impressionante e de uma simpatia contagiante. Ele nos deixou em 2010, ironicamente no mesmo dia em que completávamos 20 anos sem o autor de Faz Parte do Meu Show. Cazuza, Zeca Jagger e agora o Jornal da Tarde. São estrelas que faziam parte do meu show, e cujas perdas me fazem sentir uma solidão milenar…

Ouça Faz Parte do Meu Show, com Cazuza:

Saudades de Gonzaguinha parte 1

Por Fabian Chacur

Gosto de muita coisa em termos de música popular brasileira, mas existem algumas obras pelas quais sou apaixonado, de forma passional mesmo, embora obviamente tenha espírito crítico para analisá-las.

Uma dessas paixões é o trabalho de Gonzaguinha (1945-1991), um dos nomes mais importantes e expressivos da história dessa música tão rica e tão repleta de gente talentosa que é a nossa.

Foi dele o primeiro show que assisti in loco, no já longínquo ano de 1979, no teatro Procópio Ferreira, em São Paulo, durante a turnê de divulgação do excelente álbum Gonzaguinha da Vida.

Show maravilhoso, por sinal, que eu vi em um teatro lotado, lá atrás, e durante o qual o cantor teve um pequeno desentendimento com a plateia ao elogiar cantores das antigas tipo Angela Maria e ser vaiado por alguns.

“Vocês precisam aprender a respeitar esses artistas”, disse ele mais para a frente, entre uma música e outra.

Como jornalista, entrevistei pela primeira vez o autor de Recado, O Que É, O Que É e tantos outros clássicos em 1987.

O papo rolou em um hotel no centro de São Paulo (Bristol, se não me falha a memória), e tive como colega na mesa o saudoso jornalista Dilson Osuji, que atuou em várias publicações de ponta em sua carreira.

Em boa parte da conversa, tivemos como marca uma guerrinha velada entre o músico e Osuji, com ironias de parte a parte e eu com uma bandeira branca no meio, sem ter nada a ver com aquilo.

Ao final, peguei o seu então álbum mais recente, o gravado ao vivo em estúdio Geral (inédito até hoje em CD, por sinal), e pedi um autógrafo, que ele me concedeu, colocando na dedicatória votos gentis de saúde.

Anos depois, descobri, na biografia dele e do pai Gonzagão escrita por Regina Echeverria, que ele não era muito fã de dar autógrafos, e que volta e meia os recusava.

Escapei de boa, heim? Já imaginou se um de meus grandes ídolos tivesse me recusado um autógrafo? Ainda bem que isso não ocorreu, e o disco está aqui, comigo, até hoje, como boa recordação desse ídolo.

Ouça O Que É, O Que É?, clássico de Gonzaguinha, ao vivo:

85 anos de Victoria Amorim Chacur, viva!

Por Fabian Chacur

Só pra constar: esse post era para ter sido escrito no dia 5 de abril, pois essa é a data correta do aniversário de Victoria Amorim Chacur.

Mas pergunta se eu consegui escrever isso isso nesta terça (5)? Não rolou.

Lembro bem que nos anos de 1991 e 1992, por causa dessas correrias da vida, absurdamente esqueci de ligar para a pessoa acima, que vocês já devem ter deduzido se tratar da minha amada e saudosa mãe.

Prá quê? Tive de ouvir durante muito tempo ela reclamando: “é, lembra de tudo e de todos, menos da mãe!”, “pra que lembrar da mãe, não é mesmo?” e coisas assim.

Nem mandar flores ou dar presentes legais nos anos posteriores adiantou muito.

Na verdade, ela fazia isso sem nenhum tipo de rancor, era só para tirar uma da minha cara, mesmo.

Dona Victoria era uma pessoa de um carisma absurdo. Em poucos minutos em um lugar, logo fazia amigos e esbanjava simpatia. Ah, se eu tivesse 10% desse espírito cativante…

Conheci muita coisa legal de música com ela, que era fã incondicional de música clássica, embora também curtisse música sertaneja, brasileira, pop e até alguma coisa de rock.

Uma pessoa que conseguia ouvir Beethoven, Chitãozinho & Xororó, Scorpions e Abba, pode?

Ela se foi em um triste 22 de junho de 1996. Do plano físico, pois do meu coração ela só sai quando eu também for dessa para sabe Deus onde.

Enquanto isso, fico aqui, morrendo de saudade e cultuando sua memória. Beijão no seu coração, Dona Victoria!

Ouça Still Loving You, com os Scorpions:

Ouça The Winner Takes It All, com o Abba:

Ah, os carnavais dos gloriosos anos 90…

Por Fabian Chacur


Entre 1988 e 1995, trabalhei no extinto jornal Diário Popular, que durante um bom tempo nos anos 90 foi o mais vendido nas bancas paulistanas.

Pois naqueles anos, tive a oportunidade de cobrir o Carnaval de São Paulo em cinco ocasiões diferentes.

Quatro foram consecutivas, de 1992 a 1995, todas pelo finado Dipo, sendo a derradeira em 1997 pelo jornal O Dia, quando trabalhei em sua sucursal em Sampa City.

Cobria o desfile das principais escolas, no glorioso sambódromo, ou Pólo Cultural do Anhembi, ou seja lá do que chamavam aquele raio daquele lugar.

Era uma verdadeira maratona, que em um determinado chegou a durar 24 horas consecutivas.

A gente cobria o desfile inteiro, que naquele tempos começava por volta das 18h de sábado, indo até a manhã do domingão, às vezes beirando as 8h da matina.

Depois, íamos para a redação, que ficava no centro, comíamos qualquer coisa rapidinho e íamos escrever um caderno especial de umas 8 páginas em quatro pessoas.

Não sou exatamente um fã de carnaval, então, imaginem como era aquilo para mim…

Lógico que existem coisas muito piores de se fazer, e que até deu para me divertir em alguns momentos, mas sinceramente não encararia uma parada dessas novamente.

Em um desses anos, choveu durante praticamente todo o desfile, o que me obrigou a trabalhar usando aquelas ridículas capas de chuva.

Imaginem a cena: aquele cabeludo gordo com cara de baterista de banda ruim de heavy metal com um bloco na mão entrevistando Deus e o mundo, anotando coisas o tempo todo, rezando para aquilo não encharcar e ficar ilegível.

Em um dado momento, um dos colegas fotógrafos me chamou, eu olhei e, pronto, lá estava um registro grotesco para a posteridade.

O mané com o bloquinho na mão, molhado até a alma, com o saco na lua, e olhando com uma cara que dava pena, tipo cachorro sem dono.

Não deu outra: o jornalzinho interno da empresa fez uma matéria sobre a nossa cobertura carnavalesca, e adivinhe se não foi exatamente aquele registro patético o que ilustrou o texto?

Socorro! Curto samba, respeito profundamente o Carnaval e a sua rica cultura, mas prefiro desfilar em casa na Escola de Samba Unidos do Rock And Roll!

Lembranças de Dom Maia, o eterno Síndico

Por Fabian Chacur

Nos próximos dias vou postar aqui um comentário sobre a sublime caixa Universal Tim Maia, que reúne oito CDs e um DVD de Tim Maia (1942-1998), um dos criadores e o rei absoluto da soul music brasileira.

Antes disso, no entanto, vou relembrar de algumas passagens que tive com essa figura durante minha carreira jornalística.

O primeiro encontro com o mestre deveria ter ocorrido em 1985, quando ele estava lançando o álbum Tim Maia, que inclui os sucessos Leva e Pede a Ela.

Lembro que cheguei no escritório da gravadora RCA (cujo acervo hoje pertence à Sony Music), que ficava na rua Dona Veridiana, no bairro paulistano de Santa Cecília, ansioso.

Afinal, ouço as músicas desse cidadão desde que eu era apenas um moleque.

Ao chegar na gravadora, a má notícia: o cara cancelou o papo que teria com a imprensa.

As boas notícias: ganhei o LP do cara, o primeiro disco que recebi de uma gravadora, e conheci a então assessora de imprensa da RCA, Miriam Martinez, que com o decorrer dos anos se tornou uma das pessoas mais importantes na minha vida profissional, além de grande amiga.

A chance de conhecer pessoalmente Dom Maia ocorreu no final dos anos 80, após uma apresentação dele no então Palace (hoje, Citibank Hall).

O show foi bacana, mas recheado daqueles “precisa afinar o baixo” que marcavam sua forma de interagir com a sua Banda Vitória Régia, uma das melhores da história da soul music brazuca.

Após a apresentação, Miriam me convidou para ir aos camarins. E lá, apertei a mão do mestre.

Ele parecia em outra dimensão. E não era para menos.

Em uma das mãos, segurava uma daquelas garrafinhas de uísque para se levar em bolsas e miguelar a consumação em bares e casas noturnas de preços mais caros.

Na outra, um baseado do tamanho de uma semana. Aliás, a nuvem nos camarins era digna da poluição paulistana…

O terceiro encontro ocorreu lá pelos idos de 1990, quando o Síndico estava lançando seus trabalhos por seu próprio selo.

A entrevista coletiva foi realizada em um hotel das antigas situado no centro de São Paulo.

Coincidência ou não, boa parte dos presentes estava acima do peso, incluindo eu, que se hoje sou gordinho, na época era um digno seguidor de Jotalhão e outros elefantes célebres.

Ao entrar na sala onde nos concederia a entrevista, o intérprete de sucessos como Você e Canário do Reino olhou para os presentes e soltou a frase clássica:

– Nossa, só tem gordo em São Paulo!

Nem é preciso dizer que abri a minha matéria, feita para o extinto Diário Popular, exatamente descrevendo essa “entrada triunfal” do cara.

Na época, ele estava divulgando o disco com releituras da bossa nova, e no final da coletiva, deu discos autografados para todos os presentes.

Minha última historinha com Tim ocorreu por volta de 1993, quando a música Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar) voltou às paradas e ele tinha um show agendado para São Paulo.

A apresentação rolaria em um final de semana, e entrei em contato com o fone que tinha em minha agenda. O próprio atendeu. Não perdi tempo.

– E aí, Tim, tudo bem? Seguinte: você vai fazer show aqui em São Paulo no final de semana e eu gostaria de fazer uma entrevista por telefone com você. Será que rola?

Resposta do figura:

– E aí, Fabian, tudo bem? Olha, liga para a minha assessora de imprensa, a (n. da r.: esqueci o nome da figura…) no fone x, que ela marca.

Lógico que eu não iria deixar a coisa assim, pois todos sabíamos que Tim vivia um momento no qual suas entrevistas se tornavam raras.

– Mas Tim, será que não daria para ser agora? Sabe como é, não vou demorar, e você tem negado entrevistas nos últimos tempos…

A resposta dela foi imediata:

– Como não vou dar entrevista? Vou dar, sim! Pode ligar para a minha assessora. Tá pensando que eu sou o Michael Jackson? Liga para ela, que ela marca. Como não vou dar entrevista?

E lá foi esta besta, digo, eu, ligar para a tal assessora.

– Oi, tudo bem? Eu sou o Fabian, do Diário Popular, e foi o próprio Tim quem me deu o seu número. Eu quero marcar uma entrevista com ele para falar sobre o show que ele fará aqui em São Paulo.

Aí, a resposta surrealista:

– Olha, Fabian, infelizmente o Tim Maia não irá dar entrevistas para divulgar esse show, viu? Vou ficar te devendo.

E não deu mesmo! Aliás, ele foi aparecer no programa do Jô Soares no início da semana seguinte após o show. Dá para encarar?

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