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Projetos homenageiam Mestre Dominguinhos

Por Fabian Chacur

Em 2013, tivemos a lamentável perda de Dominguinhos (leia matéria de Mondo Pop sobre o mestre aqui). Para felicidade de seus inúmeros fãs, dois belos projetos irão ajudar a preservar a memória desse inesquecível cantor, compositor e músico pernambucano, ambos capitaneados pela cantora e compositora Mariana Aydar.

O primeiro a ver a luz do dia é a websérie Dominguinhos+, cujo teaser estará disponível a partir desta terça-feira (11) no portal Natura Musical (acesse aqui). São oito capítulos, que irão ao ar sempre às quartas-feiras entre os dias 26 de fevereiro e 16 de abril, sendo que o episódio inicial poderá ser visto com exclusividade no portal Natura Musical no dia 25 de fevereiro.

A websérie nos oferece os registros das últimas performances em estúdio do autor de Eu Só Quero Um Xodó, nas quais ele teve como convidados Hermeto Pascoal, João Donato, Wilson das Neves, Luiz Alves, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Lenine, Mayra Andrade, Yamandú Costa, Hamilton de Holanda, Djavan e a Orquestra Jazz Sinfônica, com direito a bate-papo e performances musicais inesquecíveis entre o artista e seus amigos.

O documentário intitulado Dominguinhos e com previsão de exibição nos cinemas a partir do mês de maio mesclam imagens de arquivo (com narração do próprio Dominguinhos) e entrevistas recentes, além de cenas de shows famosos na trajetória do músico oriundo de Garanhuns (PE), entre eles um que reuniu de forma descontraída ele e seu padrinho musical, ninguém menos do que o mestre Luiz Gonzaga, o Gonzagão.

Os dois projetos de Mariana Aydar começaram a ser desenvolvidos há seis anos, e obtiveram o apoio do programa Natura Musical em 2010. Participaram da produção deles a produtora audiovisual paulistana bigBonzai e também Duani, Eduardo Nazarian, Deborah Osborn, Felipe Briso e Gilberto Topczewski. Onde quer que esteja, Mestre Dominguinhos certamente estará sorrindo feliz com a concretização dessas obras tão bacanas e relevantes.

Onde Está Você, com Dominguinhos e Mariana Aydar, gravado em 2011:

Duas ou três coisas sobre a música em 2013

Por Fabian Chacur

Muita gente odeia essa história de retrospectivas dos “anos velhos” que acabam de se mandar. Também tem quem goste. Se bem feitas, acho que essa passada de olhos no que ocorreu nos doze meses anteriores ao novo janeiro são até úteis, como um balanço e uma avaliação de fatos. Seja como for, não estou com saco de ser detalhista, mês a mês. Então, vamos com uma viagem aleatória a alguns fatos ocorridos no mundo da música em 2013.

The Voice Brasil, The Choice Brasil, Que Joça, Brasil!

Se há uma verdadeira praga que veio para infernizar a vida de quem realmente gosta de música são os tais reality shows musicais. Há mais de uma década nas programações das mais diversas redes de TV do mundo, e disponíveis em várias versões, esse tipo de programa tenta formatar de jeito rígido o que deveria ocorrer de forma mais espontânea: a revelação de novos talentos.

Se em alguns países essa fórmula até ajudou a destacar alguns nomes bacanas, no Brasil tornou-se mais um tipo de “loteria musical”. No fim das contas, são sempre dois os fatores que levam alguém a vencer uma atração assim por aqui. Basicamente, quem grita mais ou quem é mais pobre e pode sair da zona do rebaixamento da vida se embolsar a grana disputada.

The Voice Brasil é apenas mais um capítulo desse universo dos “not so reality” shows. Exibicionismo de jurados e candidatos, vozeirões ocos, disputa por dinheiro e vencedores que, posteriormente, voltam ao anonimato. Ellen Oléria, a vencedora de 2012, já está caminhando para ficar ao lado das Vanessas Jacksons da vida, sumindo de cena. Uma pena, em um formato no qual o que menos importa é a música. Mas não se iludam. Mais programas assim virão e virão e virão. Procure talentos em outros cantos…

Dominguinhos agora está ao lado de Gonzagão no Céu do Forró

Recentemente, reli uma entrevista de 1999 do músico paulista Miltinho Edilberto no qual ele comentava sobre Dominguinhos, definindo-o como uma espécie de Gonzagão que merecia ser mais cultuado pelas pessoas, e ser homenageado enquanto estava vivo e com saúde.

Pois Dominguinhos infelizmente nos deixou em 2013. Grande músico, cantor, compositor e ser humano, ele nos deixou uma obra impecável dedicada ao melhor da cultura popular. Tive a honra de cobrir seu último grande show em São Paulo na Virada Cultural 2011, e vi esse mestre, mesmo com limitações físicas evidentes, dar um banho de garra e musicalidade.

Se merecia ter sido mais reverenciado, até que Dominguinhos foi bastante “acarinhado” pelo povo em suas mais de quatro décadas de carreira, na qual nos proporcionou tantos sucessos próprios e também colocou suas cerejas em bolos confeccionados por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Elba Ramalho e tantos outros. Simples, simpático, genial. Descanse em paz!

Reginaldo Rossi e a fórmula para agradar gregos e troianos musicais

Não é para qualquer um se manter durante quase cinquenta anos no cenário musical, ainda mais se o artista em questão nunca se dobrou aos modismos da vida para fazer sucesso. Outra grande perda brasileira em 2013, Reginaldo Rossi começou na onda da Jovem Guarda, mas logo entortou suas influências musicais e criou um estilo próprio, bem-humorado, romântico e pé na porta, sem preocupações com sutileza ou politicamente correto.

Se só virou uma espécie de unanimidade em 1998, quando seu CD Ao Vivo turbinou o antigo sucesso Garçom e o fez ultrapassar a marca de um milhão de cópias vendidas, “The King” sempre teve público fiel no Norte e Nordeste. Felizmente, Rossi teve as flores em vida, e nos deixou sabendo ser amado por milhões de fãs. Um estilista da canção popular. Uma figuraça!!!

Paul McCartney, David Bowie e Elton John mais gênios do que nunca

Três nomes que há décadas fazem parte da história do rock and roll provaram em 2013 que continuam com fome de bola, dispostos a nos oferecer novos trabalhos repletos de boas canções. David Bowie nos ofereceu The Next Day, uma espécie de álbum síntese com ecos de várias fases de sua carreira e uma surpresa para quem não lançava um trabalhos só de inéditas há dez anos. Aposentado uma ova!

Macca e Elton, por sua vez, continuam na estrada e ativos nos últimos anos, mas lançaram em 2013 CDs comparáveis a seus grandes momentos. Se o único ponto negativo de Elton John em The Diving Board é a voz já não tão impactante, no caso de McCartney não dá para reclamar de nada em seu New, repleto de boas canções, vocais excelentes e a fome de bola do eterno beatle.

Ringo Starr, Matchbox Twenty, Black Sabbath, Joyce Moreno, Springsteen…

Em um ano repleto de shows nacionais e internacionais em nossos palcos, alguns merecem destaques especiais. Bruce Springsteen, que não tocava por aqui há 25 longos anos, conquistou os fãs no Rio e em São Paulo com um show vigoroso, repleto de hits e com Sociedade Alternativa, de Raul Seixas, como surpreendente e detonante música de abertura. Quem nasceu para The Boss sempre será The Boss, pelo visto.

Ringo Starr voltou a São Paulo e conquistou os beatlemaníacos e afins com uma performance impecável, cantando, tocando e cativando a plateia com muita energia para um setentão. A seu lado, mestres como Todd Rundgren, Steve Lukhater, Richard Paige e Gregg Rollie, que tornaram o que já seria bom um momento absolutamente inesquecível.

Embora ignorada pelos críticos brasileiros, o grupo americano Matchbox Twenty deu aos brasileiros a prova de que não estão nas paradas de sucesso há quase 20 anos por acaso. Seu rock and roll com tempero pop e influências de Bruce Springsteen, John Mellencamp, Beatles e outros é apresentado ao vivo com muita vibração, refinamento e carisma. Belos shows, que os fãs adoraram e que me tornou ainda mais fã deles.

Fecho com um destaque especial para o maravilhoso show que a genial Joyce Moreno fez no Sesc Bom Retiro mostrando o repertório de seu excelente novo álbum, Tudo. A se lamentar, o fato de menos de cem pessoas terem comparecido para ver essa verdadeira aula de música brasileira melódica, poética e rítmica. Uma performance de lavar a alma de quem teve a honra de presenciá-la. Dica: não perca o próximo, role onde rolar.

A emoção de ver o Black Sabbath com sua quase formação clássica

Eu não estive lá, mas quem esteve classifica o show feito pelo Black Sabbath em São Paulo, no Campo de Marte, em outubro de 2013, como um dos mais emocionantes de todos os tempos. E não é para menos. Ver no mesmo palco três dos quatro integrantes originais de uma das mais influentes e poderosas bandas de rock de todos os tempos não é coisa banal.

Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler arrancaram lágrimas e alegria de um verdadeiro mar de gente que nem se importou tanto ao não ver desta vez o baterista original da banda, Bill Ward, que tocou com o Black Sabbath no Brasil nos anos 90, em show que não teve o vocalista comedor de morcegos. Se o show foi como o do ótimo DVD lançado há pouco por aqui, invejo quem esteve lá. Histórico, simples assim.

Daft Punk, ou como tornar fazer 2013 soar como 1978 sem cair em caricatura

Ver Nile Rodgers, o genial capitão da Chic Organization, de volta às paradas de sucesso após muitos e muitos anos já tornaria Random Access Memories um álbum histórico. Mas o trabalho do duo Daft Punk (o primeiro de inéditas em 8 anos) vai muito além de incluir dois dos melhores e maiores hits de 2013, Get Lucky e Move Yourself To Dance.

Gastando uma grana lascada, a dupla radicada na França investiu em músicos de verdade para tocar uma mistura de disco music com música eletrônica, pop e rock, gerando um álbum que consegue a façanha de soar como se tivesse sido lançado em 1978 e ainda assim parecer totalmente sintonizado com o espírito musical de 2013. Discoteca básica total e eterna!

Lou Reed sai da Wild Side e vai para a Eternal Side…

Um dos artistas mais influentes e talentosos da história do rock nos deixou em 2013. Lou Reed morreu setentão, faixa etária que muitos não acreditavam que ele atingiria, levando-se em conta o tipo de vida que teve durante as décadas de 60 e 70. Belo exemplo de que o destino a Deus pertence, e que a gente morre quando chega a hora, nem antes, nem depois.

Lou Reed conseguiu fundir rock básico a elementos eruditos, especialmente de ordem poética, com suas letras evocando a barra pesada, os personagens sombrios dos grandes centros urbanos e os poderosos riffs de guitarra. O brasileiro teve a chance de vê-lo nos anos 90 em show de rock and roll básico e em 2010 no formato experimental Metal Machine Music. Que bela obra ele nos deixou!

E que venha muita coisa boa em 2014. Feliz ano novo, queridos leitores!!!

Perfect Day, com Lou Reed:

I Can’t Stand It – Lou Reed:

Dominguinhos, um xodó da música que se vai

Por Fabian Chacur

Em abril de 2011, tive a honra de cobrir o show que Dominguinhos realizou no Palco do Forró, durante a Virada Cultural 2011 (leia o texto aqui). A dignidade e energia com que ele conduziu aquela apresentação me emocionou. Pois nesta terça-feira (23) ele infelizmente nos deixou. Que perda para o mundo musical!

Naquele show o sanfoneiro já penava com um câncer contra o qual lutou durante seis longos e sofridos anos. A coisa ficou feia mesmo a partir do ano passado, e o músico oriundo de Garanhuns (PE) já estava internado desde janeiro. Era muito sofrimento para alguém que proporcionou tantas alegrias a seu povo. Chegou a hora do aconchego final.

Tomei contato direto com a música de Dominguinhos pela primeira vez através do estouro nacional da irresistível Eu Só Quero Um Xodó, parceria dele com Anastácia gravada há exatos 40 anos por Gilberto Gil e registrada pelo autor com igual competência. Anos depois, tive a honra de entrevistá-lo mais de uma vez. Que honra e que delícia. Um ótimo papo, sempre.

Nascido em 1941, Dominguinhos teve como padrinho musical o genial Gonzagão, e pode ser considerado como seu mais legítimo herdeiro. Grande e versátil músico, tinha requintes jazzísticos que o levaram a tocar em shows e gravações com luminares do naipe de Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso, Fagner, Elba Ramalho, Wagner Tiso e muitos outros.

Simpático, inteligente e extremamente humilde, Dominguinhos era daqueles raros artistas que, como o saudoso Velho Lua, encantava a todos, dos mais cultos aos mais simples, dos mais ricos aos mais pobres. A todo aquele ser humano capaz de se sensibilizar com música de qualidade tocada ao mesmo tempo com técnica e emoção.

Além de Eu Só Quero Um Xodó, compôs com parceiros do naipe de Anastácia, Chico Buarque, Gilberto Gil e Nando Cordel maravilhas como Isso Aqui Tá Bom Demais, Tenho Sede, De Volta Pro Aconchego, Xote da Navegação e Lamento Sertanejo, só para citar algumas. Também era capaz de reler com originalidade e categoria hits alheios.

De quebra, ainda apresentou, na fase final de sua vida, o essencial programa de TV O Milagre de Santa Luzia, no qual mostrava a trajetória dos maiores nomes da sanfona brasileira, desde os clássicos até os craques das novas gerações. Generoso, sempre soube dividir os louros da fama com outros colegas de profissão, tal qual seu padrinho sempre fez vida afora.

Foram mais de 55 anos de carreira que não poderiam acabar agora. Infelizmente, assim é o destino. Mas a herança que esse gênio da raça nos deixa é suficiente para que sua obra não só seja devidamente cultuada, mas que também possa inspirar novos talentos a seguir adiante essa bela missão de emocionar os fãs da música. Descanse em paz, mestre!

Ouça Eu Só Quero Um Xodó, com Dominguinhos:

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