Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Tag: rock anos 1970 (page 1 of 2)

Van Morrison: produtividade e inspiração em seu novo álbum

van morrison three chords & the truth-400x

Por Fabian Chacur

Em seus mais de 50 anos de carreira, o genial cantor e compositor irlandês Van Morrison sempre primou pela produtividade, com novos trabalhos surgindo com elogiável frequência. Desde que completou 70 anos de idade, no dia 31 de agosto de 2015, o cara parece que engatou uma velocidade ainda maior do que se poderia imaginar. Nesse período, o icônico artista caminha para o seu sexto álbum com o lançamento pelo selo Exile/Caroline International de Three Chords & The Truth, que no Brasil infelizmente só estará disponível nas plataformas digitais.

O trabalho conta com produção a cargo do próprio artista, que também assina todas as 14 canções incluídas nele, sendo 13 só dele e uma única em parceria com Don Black. O disco conta com as participações do badalado guitarrista Jay Berliner e do consagrado cantor Bill Medley (ex-integrante do duo The Righteous Brothers), este último em dueto na faixa Fame Will Eat The Soul.

A primeira canção divulgada do álbum, Dark Night Of The Soul, é daquelas que já nascem clássicas, tal a qualidade artística e acessibilidade que possui. O mais legal é que a voz de Van The Man, uma das mais expressivas do rock-soul-jazz, aparece em excelente forma, o que torna este álbum mais um item bacana para ser apreciados pelos fãs desse mestre da canção pop.

Eis as faixas de Three Chords And The Truth:

1. March Winds In February
2. Fame Will Eat The Soul
3. Dark Night Of The Soul
4. In Search Of Grace
5. Nobody In Charge
6. You Don’t Understand
7. Read Between The Lines
8. Does Love Conquer All?
9. Early Days
10. If We Wait For Mountains
11. Up On Broadway
12. Three Chords And The Truth
13. Bags Under My Eyes
14. Days Gone By

Dark Night Of The Soul– Van Morrison:

Raul Seixas dentro do caixão na capa do extinto Diario Popular

raul seixas 2-400x

Por Fabian Chacur

Naquele 21 de agosto de 1989, estava me preparando para ir embora para casa, por volta das 17h, depois de um dia de trabalho puxado. Quando já me direcionava para abrir a porta da recepção do Diário Popular, a recepcionista me chamou para atender o telefone. Era o Danilo Angrimani, meu editor na época. “Fabian, preciso de você, o Raul Seixas morreu; estou mandando o Carlos Macena no velório, enquanto você escreve uma biografia dele”.

Mal refeito do susto, em função da morte de um dos meus ídolos na área musical, toca eu subir de novo para o quinto andar, onde ficava a redação do Dipo, pesquisar e redigir, ainda em máquina de escrever, um resumo da carreira desse artista maravilhoso que não soube cuidar direito de sua saúde, deixando-nos com apenas 44 anos de idade.

Três meses antes, eu havia tido a primeira e única oportunidade de entrevistá-lo, em coletiva realizada no escritório da Warner em São Paulo que começou com mais de três horas de atraso e na qual ele veio de pijama de bolinhas. Ao saber da origem do meu nome, até cantou para mim um trecho de Turn To Loose, grande hit do cantor americano Fabian lá pelos idos de 1960.

Estavam por lá ele e Marcelo Nova, com quem havia acabado de gravar o álbum A Panela do Diabo, que só sairia mais tarde, e com quem ele faria shows naquele final de semana de 1989. Nunca vou me esquecer do momento em que citaram nomes de sucesso do rock Brasil de então. “Lulu Santos não dá pra encarar”, disparou, referindo-se ao autor de Como Uma Onda.

Vi o primeiro dos três shows que ele fez no hoje extinto Olympia com Marcelo Nova, e cravei na crítica, que foi publicada no dia em que o terceiro seria realizado: “não perca, pois pode ser o último”. Escrevi isso por ter ficado chocado com o estado de saúde do cara, e infelizmente, acertei.

Outra lembrança é de ter visto na mesma época, junto com um fotógrafo com o qual estava trabalhando, na região da avenida Paulista, o mesmo Raul Seixas, novamente de pijamas, provavelmente próximo do apartamento onde ele morava. Uma cena meio bizarra e inesquecível. Eu e meu colega ficamos constrangidos em abordá-lo.

Voltando ao episódio do obiturário, vale lembrar que cumpri a minha missão com toda a dignidade possível, embora estivesse chocado com aquela perda. Escrevi o texto e me mandei para casa, umas quatro horas depois do que pretendia.

No dia seguinte, pego o Diário e fico horrorizado: na capa do jornal, uma foto do Maluco Beleza dentro do caixão, grosseria que nem mesmo o frequentemente sem noção e grotesco Notícias Populares se permitiu. Comentei com o Danilo, que por sua vez foi comentar com o Jorge Miranda Jordão, então diretor de redação daquele extinto órgão de imprensa.

“Pô, Miranda, você pegou pesado, que foto de mau gosto!”. A resposta do Miranda, segundo o Danilo, foi antológica: “Como, mau gosto? Tinha de pôr essa foto, sim! Afinal de contas, as pessoas querem saber se o Maluco Beleza morreu ou não, e o único jeito de provar isso é mostrando ele dentro do caixão!”.

Meu editor, então, me disse o óbvio: “como iria discutir com esse doido?” E daí em diante, todo fotógrafo do Diário que saía para cobrir velório de famoso ia com essa missão fúnebre: a foto do famoso dentro do caixão. Argh!

Leia texto dando uma geral na carreira de Raul Seixas aqui.

Leia resenha do antológico álbum Krig-ha, Bandolo! aqui.

Ouça Krig-ha, Bandolo! de Raul Seixas, em streaming:

Yes lança álbum duplo 50 Live em formatos físico e digital no Brasil

yes capa cd 2019-400x

Por Fabian Chacur

Como forma de celebrar seus 50 anos de carreira, o Yes está lançando nesta sexta (2) no Brasil via Warner Music, em CD duplo e nas plataformas digitais, o álbum Yes 50 Live. Gravado ao vivo basicamente durante show realizado na Filadélfia (EUA), o trabalho inclui faixas de dez de seus álbuns de estúdio, com ênfase na fase mais progressiva de sua trajetória, deixando de lado o repertório desenvolvido nos anos 1980 e 1990 ao lado do guitarrista sul-africano Trevor Rabin.

A atual formação do Yes inclui Steve Howe (guitarra), Geoff Downes (teclados), Alan White (bateria), Billy Sherwood (baixo), Jon Davison (vocal) e Jay Schellen (bateria). O álbum traz as participações especiais de ex-integrantes como os tecladistas Tony Kaye (em Yours Is No Disgrace, Roundabout e Starship Trooper) e Patrick Moraz (em Soon) e também Tom Brislin (teclados) e Trevor Horn (vocal).

O set list traz a versão completa da longa e maravilhosa Close To The Edge, faixa-título do fantástico álbum da banda lançado em 1972 e um de seus melhores, e também clássicos como Roundabout, Soon e Yours Is No Disgrace.

Com capa mais uma vez trazendo desenho do genial Roger Dean, o álbum é bem interessante, mas não dá para negar que é no mínimo esquisito ouvir um disco do Yes sem a presença do cantor Jon Anderson, fora desde 2008, e, principalmente, do saudoso baixista e fundador do grupo, Chris Squire (1948-2015).

Vale lembrar que, repetindo situação já ocorrida em outros períodos da história dessa seminal banda de rock progressivo, há desde 2016 uma outra formação na ativa com ex-integrantes do time. Trata-se de Anderson, Rabin And Wakeman, que reúne Jon Anderson, Trevor Rabin e Rick Wakeman, sendo que este último prometeu novos shows do trio para 2020.

Eis as faixas de Yes 50 Live:

Disco um

Close To The Edge
-The Solid Time Of Change
-Total Mass Retain
-I Get Up I Get Down
-Seasons Of Man

Nine Voices (Longwalker)
Sweet Dreams
Madrigal
We Can Fly From Here, Part 1
Soon
Awaken

Disco dois

Parallels
Excerpt From The Ancient
Yours Is No Disgrace
Excerpt From Georgia’s Song And Mood For A Day
Roundabout
Starship Trooper
a. Life Seeker
b. Disillusion
c. Wurm

Ouça Yes 50 Live em streaming:

Foreigner lança álbum ao vivo gravado em Londres em 1978

foreigner live at the rainbow '78-400x

Por Fabian Chacur

Em 27 de abril de 1978, o grupo Foreigner subiu ao palco do lendário Rainbow Theatre em Londres para encarar uma casa cheia. E não era para menos. Seu autointitulado álbum de estreia, lançado em março de 1977, atingiu o 3º lugar na parada americana e rapidamente os impulsionou na cena do hard rock melódico mundial. Naquele dia, os caras fizeram um show repleto de energia e competência, que só agora pode ser conferido em registro oficial. Trata-se de Live At The Rainbow ’78, que a Warner Music está lançando no Brasil em CD e também disponibilizando nas plataformas digitais.

Tudo começou em 1976, quando o experiente músico inglês Mick Jones (guitarra, teclados, backing vocals), ex-integrante do Spooky Tooth e da banda de apoio de Leslie West (ex-Mountain) se viu desempregado. Incentivado por um empresário, resolveu montar um novo time, com os conterrâneos Ian McDonald (guitarras, teclados, sax, flauta, backing vocals, ex-integrante do King Crimson) e Dennis Elliott (bateria, backing vocals).

Logo a seguir, entraram no time os americanos Al Greenwood (teclados, sintetizador) e Ed Gagliardi (baixo, backing vocals). Só faltava o vocalista, que quase foi o ótimo Ian Lloyd, ex-Stories (do hit Brother Louie). Depois de dezenas de testes, Mick Jones se lembrou do LP da banda ianque Black Sheep que ganhou de seu cantor, um certo Lou Gramm anos antes. Finalmente ele o pôs na vitrola, e gostou do que ouviu. Resultado: outro americano na banda.

A química deu tão certo que o Foreigner (forasteiro em inglês, nome bem adequado para os britânicos do time) arrebentou em termos comerciais logo com seu primeiro álbum. E foi para divulgar este trabalho que o então sexteto foi a Londres. Tanto que o repertório do show e incluído em Live At The Rainbow ’78 traz as dez faixas desse LP, além de duas do álbum que eles lançariam em junho de 1978, Hot Blooded e Double Vision (esta, a faixa-título).

O repertório é uma verdadeira aula de hard rock melódico, com direito a teclados com pitadas progressivas, backing vocals impecáveis e alguma coisinha de Free, Bad Company e Beatles. A partir dali, o Foreigner teve algumas mudanças em sua escalação e atingiu seu auge em termos de popularidade na metade dos anos 1980, com hits românticos como Waiting For a Girl Like You e I Want To Know What Love Is, vendendo em torno de 80 milhões de discos.

Eis as faixas de Live At The Rainbow ‘78:

Long, Long Way From Home
I Need You
Woman Oh Woman
Hot Blooded
The Damage Is Done
Cold As Ice
Starrider
Double Vision
Feels Like The First Time
Fool For You Anyway
At War With The World
Headknocker

Cold As Ice (live)- Foreigner:

America celebra 50 anos de carreira com coletânea de hits

america 50 anos capa cd-400x

Por Fabian Chacur

Em 2020, o grupo America completará 50 anos de carreira. Como forma de antecipar a celebração desta data tão significativa, ainda mais se levarmos em conta que esta banda continua na estrada, a Warner Music está lançando uma nova coletânea com os hits dos caras. O título é America 50th Anniversary Golden Hits, e o bacana fica por conta de que teremos uma edição em CD no Brasil, além da habitual disponibilização nas plataformas digitais que marcam a atual era da música.

O repertório desta compilação inclui 15 faixas, sendo 12 delas as mesmas que integram a mais clássica compilação de hits do grupo formado na Inglaterra em 1970, entre os quais as maravilhosas A Horse With No Name, I Need You, Ventura Highway, Tin Man e Sister Golden Hair. Este álbum, intitulado History: America’s Greatest Hits, saiu em 1975 e vendeu milhões de cópias no mundo todo, inclusive no Brasil, onde já fizeram diversos shows.

As três faixas adicionais são o único hit da banda na década de 1980, a deliciosa You Can Do Magic (lançada na época pela Capitol Records), e duas outras que, embora não tenham sido propriamente sucessos, são muito legais: Amber Cascades, do CD Hideaway (1976) e God Of The Sun, do álbum Harbor (1977).

O America, apesar do nome, foi criado na Inglaterra por três filhos de militares americanos servindo por lá: os americanos Gerry Beckley e Dan Peek e o inglês Dewey Bunnel. Eles estouraram logo com o seu álbum de estreia, autointitulado (de 1971), que atingiu o primeiro lugar na parada americana e lhes rendeu um Grammy na categoria de artista revelação.

No currículo, o trio teve vários álbuns produzidos por ninguém menos do que George Martin, o mesmo dos Beatles, e uma inspirada fusão de rock, country, folk e pop. Em 1977, com a saída de Dan Peek (que investiu a partir daí em uma carreira-solo e nos deixou em 2011), o grupo prosseguiu como um duo e, se não teve muito sucesso em termos comerciais, continuou lançando discos de forma mais espaçada e fazendo turnês pelos quatro cantos do planeta.

Eis as faixas de 50th Anniversary: The Collection:

– A Horse With No Name
– I Need You
– Sandman
– Don’t Cross The River
– Ventura Highway
– Only In Your Heart
– Muskrat Love
– Tin Man
– Lonely People
– Daisy Jane
– Woman Tonight
– Sister Golden Hair
– Amber Cascades
– God Of The Sun
– You Can Do Magic

God Of The Sun– America:

The Doobie Brothers lançam histórico disco duplo ao vivo

the doobie brothers-400x

Por Fabian Chacur

The Doobie Brothers é uma das bandas mais consistentes e bem-sucedidas da história do rock americano. Em vias de completar 50 anos de estrada, os caras já venderam mais de 48 milhões de cópias de seus álbuns, sendo que um deles, a coletânea Best Of The Doobies (1976), atingiu a marca de mais de 12 milhões de cópias vendidas nos EUA. Mais ativos do que nunca, eles estão lançando um novo trabalho. E não é qualquer um. Trata-se de Live From The Beacon Theater, disponibilizado pela Warner Music no Brasil em CD duplo e nas plataformas digitais e no exterior também em Blu-ray e em dobradinha DVD+CD duplo.

Gravado ao vivo no lendário Beacon Theatre de Nova York, onde o grupo não tocava há 25 anos, o álbum registra um momento único na trajetória da banda criada e ainda hoje liderada pelos incríveis Tom Johnston (vocal e guitarra) e Patrick Simmons (vocal e guitarra). Trata-se da primeira vez em que eles tocaram, na íntegra, faixa a faixa e na ordem original em que foram lançadas, as músicas de seus dois melhores LPs, Toulouse Street (1972) e The Captain And Me (1973).

Esses dois trabalhos, que venderam muito na época e emplacaram hits do porte de Listen To The Music, Rockin’ Down The Highway, Jesus Is Just Alright, Long Train Runnin’ e China Grove, mostram uma original e turbinada mistura de rock and roll, folk, soul, blues e hard rock, tendo como marca registrada o contraponto entre o vozeirão e a guitarra agressiva de Johnston e o dedilhado na guitarra e violão e a voz mais doce de Simmons. Uma combinação perfeita.

Um dos atrativos desse já bem interessante álbum é o fato de termos aqui registros ao vivo de músicas que a banda nunca havia tocado em shows, como as ótimas Mamaloi, Ukiah e The Captain And Me. O segundo disco traz em sua parte final três faixas adicionais incluídas no bis do show: Take Me Your Arms, Black Water e uma segunda versão de Listen To The Music.

Além de Tom Johnston e Patrick Simmons, a atual escalação dos Doobies traz outro cara importante na história da banda, o cantor, compositor e multi-instrumentista John McFee, que entrou no time no final dos anos 1970 e é de uma versatilidade impressionante como músico. Completam o afiadíssimo time Bill Payne (teclados, ex-integrante do grupo Little Feat, de muito sucesso nos anos 1970), Marc Russo (sax) e Ed Toth (bateria), John Cowan (baixo e vocais).

Leia mais textos sobre os Doobies em Mondo Pop aqui

Eis as faixas de Live From The Beacon Theatre:

Disco 1: Toulouse Street

– Listen To The Music
– Rockin’ Down The Highway
– Mamaloi
– Toulouse Street
– Cotton Mouth
– Don’t Start Me To Talkin’
– Jesus Is Just Alright
– White Sun
– Disciple
– Snake Man

Disco dois: The Captain And Me:

– Natural Thing
– Band Intros (apresentação dos músicos)
– Long Train Runnin’
– China Grove
– Dark Eyed Cajun Woman
– Clear As The Driven Snow
– Without You
– South City Midnight Lady
– Evil Woman
– Busted Down Around O’Connelly Corners
– Ukiah
– The Captain And Me
Encore (bis)
Take Me In Your Arms (Rock Me)
Black Water
Listen To The Music (Reprise)

Long Train Runnin’ (live at the Beacon Theatre):

Meu Tio e o Joelho de Porco na programação do Canal Brasil

meu-tio-e-o-joelho-de-porco-400x

Por Fabian Chacur

Em 1988, um certo Rafael perdeu precocemente seu pai, o empresário Sérgio Terpins, vítima de um infarto. A presença de seu tio Tico o ajudou bastante a lidar com uma perda tão terrível e repentina. Dez anos depois, é Tico que se vai, também antes do que se imaginaria. Em 2018, agora cineasta, Rafa nos oferece um delicado relato sobre esse parente tão peculiar, que para o público em geral tem relevância como o criador da incrível banda Joelho de Porco. Trata-se de Meu Tio e o Joelho de Porco, delicioso documentário que o Canal Brasil exibe nesta quinta (30) às 18h45, sexta (31) às 15h45 e domingo (2-6) às 10h55.

É importante ter em mente essa dualidade de intenções do documentário para apreciá-lo melhor. Não se trata de um filme exclusivamente sobre o grupo paulistano surgido em 1972 e criado pelo cantor, compositor e baixista Tico Terpins em parceria com o vocalista Próspero Albanese, que ele conheceu nos tempos de colégio. Ou seja, análises um pouco mais detalhadas dos álbuns lançados pela banda, suas influências musicais, algumas contradições em sua trajetória e mesmo opiniões de críticos ficaram de fora, mostrando que um segundo filme só sobre o grupo em si seria mais do que bem-vindo.

Mas a relação entre Rafael e seu tio famoso, explicitada na tela, nos ajuda muito a conhecer melhor esse personagem peculiar. Um cara genial em termos artísticos, que soube encaminhar o bom humor existente no trabalho dos Mutantes rumo a estâncias ainda mais extremas, em uma união rock-sátira que iria inspirar Língua de Trapo, Premeditando o Breque e diversos outros artistas dessa praia, até mesmo os Mamonas Assassinas, como ilustra depoimento de Zé Rodrix, integrante do grupo nos anos 1980.

Fugindo de uma abordagem mais convencional, Rafael é uma espécie de mestre de cerimônias do filme, amarrando as cenas com suas participações guiando o LTD do tio e conversando com um boneco que representa o músico, em diálogos deliciosos. O material de arquivo teve excelente utilização, permitindo conferir a trajetória da banda e suas performances em apresentações na TV e em shows, além de algumas entrevistas resgatadas. Depoimentos atuais de ex-integrantes como Próspero e de parentes de Tico nos permitem descobrir peculiaridades desse personagem incomum.

Se era um músico de primeira, Tico tinha um bom-humor do tipo “perco o amigo, mas não perco a piada”. Vários desses momentos absurdos gerados por seu temperamento irrequieto são relatados no filme, incluindo “causos” bizarros ocorridos durante shows e programas de TV. O legal é que Rafael não tenta esconder esse lado inconsequente do tio, uma das possíveis razões pelas quais o Joelho de Porco não conseguiu o sucesso que merecia ter atingido.

Outro problema que Rafael conseguiu superar do jeito que deu foi o fato de Billy Bond, vocalista da banda durante a sua “fase punk”, que gerou o álbum Joelho de Porco (1978), lançado pela gravadora global Som Livre, ter saído do time de forma nada amigável. No filme, o bonequinho Tico afirma que aquele álbum, o com mais visibilidade dentre os quatro que gravaram, com direito a comerciais na Globo e tudo, não passava de “um disco sem alma”.

E Rafa lê o SMS enviado por Billy justificando o porque não aceitou o convite para dar a sua versão para o fim de sua participação no Joelho de Porco. O curioso fica por conta da apresentação dos registros de TV e shows dessa fase, nas quais as imagens de Bond são distorcidas. Ficou estranho, mas acabou sendo melhor do que excluí-las, pois são em quantidade bastante expressiva.

A parceria com Arnaldo Baptista em seu primeiro compacto simples, de 1973, o incrível álbum de estreia São Paulo 1554-Hoje (1975), um dos melhores da história do rock brasileiro, o polêmico “disco punk” de 1978 e os dois dos anos 1980, já na fase com Zé Rodrix, Saqueando a Cidade (1983) e 18 Anos Sem Sucesso (1988) são abordados, assim como a atuação de Tico Terpins no mercado publicitário e como dono de estúdio de gravação.

Meu Tio e o Joelho de Porco equivale a uma deliciosa viagem pela vida de um cara do tipo malucão que nos deixou um legado musical que merece ser mais reverenciado, e sua principal virtude é exatamente essa: incentivar quem o vê a ir atrás dos quatro álbuns do grupo, todos repletos de maravilhas do porte de Boing 723897, México Lindo, Mardito Fiapo de Manga, São Paulo By Day, O Rapé, Vai Fundo, A Última Voz do Brasil e tantas outras.

Ouça São Paulo 1554-Hoje, do Joelho de Porco:

Manifesto (1979), o álbum que iniciou nova fase do Roxy Music

roxy music manifesto capa-400x

Por Fabian Chacur

Em 1979, o Roxy Music completava três anos longe de cena. Seu último álbum de estúdio até então, Siren (1975), foi divulgado por uma turnê que rendeu o esplêndido álbum ao vivo Viva! (1976). Depois, o silêncio. Portanto, não faltou alegria aos inúmeros fãs da banda britânica quando Manifesto chegou às lojas em março daquele ano. Um retorno à altura de um grupo que já havia feito muita coisa boa em seu produtivo primeiro período na ativa.

Concebido pelo estudante de artes Bryan Ferry, seu cantor e principal compositor, o Roxy Music trouxe em seu DNA o espírito da experimentação pop. Ou seja, a criação de um som aberto a fusões e misturas com várias tendências do rock, como o básico, o progressivo, o psicodélico, o hard etc e também o rhythm and blues, o soul, o funk, a música eletrônica, o jazz e os standards americanos. Tudo com uma classe e um refinamento extremo, mas sem fugir exageradamente do perfil pop. O famoso conceito dos “biscoitos finos para as massas” do brasileiro Oswald de Andrade se encaixa feito luva para definir o resultado dessa simbiose roqueira.

O núcleo básico do grupo traz, além de Ferry, Andy Mackay (sax e oboé) e Phil Manzanera (guitarra), com Paul Thompson (bateria) completando o time fixo. Brian Eno (teclados e efeitos sonoros) participou dos dois primeiros álbuns, mas acabou trombando com o líder da banda, e saiu fora rumo a uma carreira solo incrível e também para se tornar um consagrado produtores musical.

Com o então jovem tecladista Eddie Jobson no posto de Eno, o Roxy Music gravou mais três álbuns de estúdio e um ao vivo entre 1973 e 1976, firmando-se no cenário rocker, especialmente o britânico e o europeu. Além de uma musicalidade própria inovadora e cativante, o Roxy trazia como marcas o visual fashion de seus integrantes e a classe de Bryan Ferry como cantor, influenciado pelos crooners de jazz e pelos intérpretes da ala mais soft do soul.

Durante os três anos que o Roxy ficou fora de cena, Bryan Ferry lançou mais três álbuns solo (ele já tinha gravado outros dois paralelamente ao trabalho com a banda). Quando ele resolveu se reunir novamente com Manzanera, Mackay e Thompson, trouxe como ponto de partida a sonoridade de duas músicas de Siren (1975), as sacudidas Love Is The Drug e Both Ends Burning. Vivíamos o auge da era da disco music, e o grupo inglês soube se valer de sua influência sem cair em oportunismo ou mero pastiche. Deu super certo.

Nessa linha pra cima, Angel Eyes e Dance Away foram as faixas que impulsionaram o álbum rumo às primeiras posições das paradas de sucesso internacionais. Também dançante, mas com uma batida mais sensual, Ain’t That Soul ajuda a manter o baile animado, assim como os pop-rocks Cry Cry Cry e My Little Girl.

Com uma introdução instrumental hipnótica de influência oriental de 2,5 minutos, Manifesto é uma faixa título absurda de boa em seus mais de 5 minutos de duração total, uma espécie de carta de intenções do que seria o álbum, uma escolha perfeita para abrir um disco tão icônico.

Trash, um rock nervoso com leve pegada punk, mostra a capacidade da banda de pegar um som que estava em voga naquele momento e transformá-lo em algo totalmente diferente. Com belos riffs de guitarra, a rock-soul Still Falls The Rain tem um clima que lembra o do álbum Siren. O clima introspectivo e levemente progressivo marca Stronger Through The Years , com direito a belos solos dos músicos. E o LP é encerrado por uma balada delicada e viajante, Spin Me Round. O início perfeito de um período mágico na carreira dessa banda.

Mais curiosidades e considerações sobre Manifesto:

*** Manifesto foi o álbum do Roxy Music a atingir o posto mais alto na parada americana, o número 23, mas não o mais bem vendido. Avalon (1982), embora só tenha chegado ao número 53, com o decorrer dos anos acabou ultrapassando a marca de um milhão de cópias vendidas por lá, recebendo o prêmio de disco de platina por isso.

*** A versão inicial de Angel Eyes tinha uma levada de power pop. Na hora de lançar o single, o grupo e a gravadora optaram por investir em uma regravação com levada disco, que ganhou rapidamente o público. Dessa forma, apenas a tiragem inicial de Manifesto traz Angel Eyes no estilo rocker, sendo substituída nas tiragens posteriores pela disco version. Isso também ocorreu com Dance Away, embora neste caso as diferenças entre as gravações sejam mais sutis.

*** Vocês devem ter notado que não citei o nome de baixistas nesta matéria até o presente instante. É que o Roxy Music teve como marca, em sua carreira, o fato de ter tido inúmeros músicos entrando e saindo, nesse posto. Em Manifesto, cuidaram dessa função Gary Tibbs e Alan Spenner. Outros baixistas que tocaram com o Roxy, durante sua carreira: Rick Willis, John Wetton (depois, famoso com o grupo Asia), Sal Maida, John Gustafson, John Porter, Rick Kenton e Graham Simpson (ufa!).

*** Manifesto foi gravado em estúdios ingleses e americanos. A parte ianque do álbum conta com a participação de músicos bem legais, entre os quais Rick Marotta (bateria), Steve Ferrone (bateria), Richard Tee (piano), Melissa Manchester (vocais) e Luther Vandross (vocais). A participação dos dois outros bateristas não foi por acaso: Paul Thompson não curtia a parte mais dançante dessa fase do Roxy, e saiu do grupo após a turnê de divulgação deste álbum.

*** Quem marca presença no álbum, tocando teclados, é o cantor, compositor e multi-instrumentista britânico Paul Carrack. Então ainda desconhecido, ele faria muito sucesso nas décadas de 1980 e 1990 integrando como vocalista os grupos Squeeze e Mike+The Mechanics. É dele a voz principal de hits incríveis desses grupos como Tempted e Over My Shoulders, só para citar dois deles.

*** As capas dos discos do Roxy sempre foram comparáveis às de revistas de moda, por serem muito sofisticadas e incluírem modelos famosas. A de Siren, por exemplo, trouxe no papel de uma sereia ninguém menos do que Jerry Hall, que depois seria durante anos a esposa de Mick Jagger. Quem ajudava na criação era um amigo de Ferry, o fashion designer Antony Price. No caso de Manifesto, temos uma festa com direito a muitos modelos, serpentina e confetes.

*** Saiu em 2008, inclusive no Brasil (pela extinta ST2) Live In America, CD gravado ao vivo durante a turnê de lançamento de Manifesto. O registro ocorreu em um show realizado no dia 12 de abril de 1979 no Rainbow Music Hall, em Denver, Colorado (EUA). São 13 faixas, sendo 6 delas do álbum que estavam divulgando. Muito, mas muito bom mesmo, com os quatro (Ferry, Manzanera, Mackay e Thompson) apoiados por Gary Tibbs (baixo) e David Skinner (teclados).

Ouça Manifesto na integra, em streaming:

Musical sobre o Fleetwood Mac será encenado em SP, RJ e BH

fleetwood mac musical-400x

Por Fabian Chacur

Um de meus sonhos era ver o Fleetwood Mac ao vivo no Brasil com sua formação mais bem-sucedida. Como isso parece ser praticamente impossível, após a saída de Lindsey Buckingham (que de quebra luta contra sérios problemas de saúde), o mais próximo disso parece ser a turnê que a banda cover britânica Rumours Of Fleetwood Mac fará pelo Brasil, com shows dias 15 de Agosto de 2019 em São Paulo (Espaco das Américas), 16 de Agosto no Rio de Janeiro (Vivo Rio) e 17 de Agosto em Belo Horizonte (Teatro Palácio das Artes). Trata-se, no mínimo, de uma banda cover com um belíssimo pedigree.

Não é por acaso que intitulei esse post como se fosse a encenação de um musical sobre a banda. Porque, na prática, é isso mesmo que se passa nas apresentações do Rumours Of Fleetwood Mac. Criado em 1999 e com mais de 700 shows no currículo, o grupo tem o aval de ninguém menos do que Mick Fleetwood, o baterista que criou a seminal banda, e de Stevie Nicks, a cantora que entrou no time em 1975 e ajudou a elevá-lo ao topo do pop rock mundial. Além disso, Mick já participou de shows dessa banda-tributo, assim como o guitarrista Rick Vito, que substituiu Lindsey Buckingham no FM entre 1987 e 1991.

O grupo é integrado por Jess Harwood (vocal, interpreta as músicas de Stevie Nicks)), James Harrison (guitarra e vocal, faz as vezes de Lindsey Buckingham), Scott Poley (guitarra e vocal), Alan Cosgrove (bateria, até o visual lembra o de Mick Fleetwood), Emily Gervers (teclados e vocal, veste a pele de Christine McVie), Etienne Girard (baixo) e Dave Goldberg (teclados, guitarra e os vocais do primeiro cantor do grupo em sua fase de blues rock, Peter Green). Um time afiadíssimo, que replica com muito detalhismo e energia as canções do FM.

O repertório traz Dreams, Don’t Stop, You Make Loving Fun e todas as outras músicas do mitológico álbum Rumours (1977), um dos mais vendidos da história, e os hits mais importantes dos 50 anos de estrada da banda, entre os quais Black Magic Woman, Albatross, Sarah, Gypsy, Little Lies, Seven Wonders e Everywhere.

O show é aberto com um vídeo no qual Mick Fleetwood dá um depoimento sobre a banda, sendo que outros vídeos e textos são usados durante a apresentação para ilustrar a trajetória de uma das melhores bandas de rock de todos os tempos. Veja trechos de músicas com o grupo aqui .

Seven Wonders (ao vivo)- Rumours Of Fleetwood Mac:

Hunky Dory, Ziggy Stardust e Heroes relançados no Brasil

david bowie low capa-400x

Por Fabian Chacur

A discografia de David Bowie é uma das mais importantes da história do rock. Portanto, nada melhor do que ter acesso a esses títulos tão bacanas, ainda mais se for em formato físico. A Warner Music está disponibilizando no Brasil em CD três joias desse acervo maravilhoso, em versões remasterizadas. São todos da década de 1970: Hunky Dory (1971), The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars (1972) e Heroes (1977), em versões devidamente remasterizadas.

Uma ressalva fica por conta de esses títulos seguirem o padrão das reedições imediatamente anteriores, feitas pela EMI há 20 anos, que retirou as faixas-bônus incluídas na fantástica série de relançamentos promovida pelo selo americano Rykodisc no início da década de 1990 (quem comprou, comprou…), cujo acervo, curiosamente, hoje pertence à própria Warner Music.

Hunky Dory tem vários pontos importantes, entre os quais ser o primeiro LP do astro britânico a incluir os músicos que integraram sua lendária banda de apoio, a Spiders From Mars. São eles Mick Ronson (guitarra), Trevor Bolder (baixo) e Mick Woodmansey (bateria). O convidado especial, tocando teclados, é ninguém menos do que Rick Wakeman. Três grandes hits, todos baladas empolgantes, estão aqui: Changes, Life On Mars? e Oh! You Pretty Things. A deliciosa Kooks, a ardida Queen Bitch e a divertida Andy Warhol são outros destaques.

Responsável por sua explosão em termos de popularidade no Reino Unido, The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars marcou o surgimento do glam rock enquanto fenômeno musical e de popularidade entre o público rocker, alucinando a garotada com petardos como Ziggy Stardust, Sufraggette City, Hang On To Yourself e baladas como Starman e Rock And Roll Suicide. Um dos discos mais “rock na veia” do Camaleão.

Heroes é o irmãos siamês de Low (1977), e traz como marca sua mistura de rock e música eletrônica, com direito a elementos de música vanguardista, krautrock e por aí vai. E vai bem! Não faltam faixas antológicas, entre as quais vale lembrar da envolvente e nervosa Beauty And The Beast e da icônica música que deu título a este CD, um verdadeiro hino rocker. As presenças de Brian Eno e Carlos Alomar são marcantes nessa fase do saudoso astro britânico.

Saiba as faixas contidas em cada CD:

Hunky Dory:

Changes (2015 Remaster) 03:37
Oh! You Pretty Things (2015 Remaster) 03:13
Eight Line Poem (2015 Remaster) 02:55
Life On Mars? (2015 Remaster) 03:55
Kooks (2015 Remaster) 02:53
Quicksand (2015 Remaster) 05:06
Fill Your Heart (2015 Remaster) 03:10
Andy Warhol (2015 Remaster) 03:54
Song For Bob Dylan (2015 Remaster) 04:13
Queen Bitch (2015 Remaster) 03:20
The Bewlay Brothers (2015 Remaster) 05:29

The Rise and Fall od Ziggy Stardust and the Spiders from Mars:

Five Years (2012 Remastered Version
Soul Love (2012 Remastered Version)
Moonage Daydream (2012 Remastered Version)
Starman (2012 Remastered Version)
It Ain’t Easy (2012 Remastered Version)
Lady Stardust (2012 Remastered Version)
Star (2012 Remastered Version)
Hang On To Yourself (2012 Remastered Version)
Ziggy Stardust (2012 Remastered Version)
Suffragette City (2012 Remastered Version)
Rock ’N’ Roll Suicide (2012 Remastered Version)

Heroes:

Beauty And The Beast (2017 Remastered Version
Joe The Lion (2017 Remastered Version)
Heroes (2017 Remastered Version)
Sons Of The Silent Age (2017 Remastered Version)
Blackout (2017 Remastered Version)
V-2 Schneider (2017 Remastered Version)
Sense Of Doubt (2017 Remastered Version)
Moss Garden (2017 Remastered Version)
Neuköln (2017 Remastered Version)
The Secret Life Of Arabia (2017 Remastered Version)

Ouça Hunky Dory em streaming:

Older posts

© 2019 Mondo Pop

Theme by Anders NorenUp ↑