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Kika Seixas fala sobre sua vida ao lado do saudoso Maluco Beleza

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Por Fabian Chacur

Entre as três esposas e várias companheiras que Raul Seixas teve em seus 44 agitados anos de vida, Kika Seixas certamente ocupa o posto mais alto. Não só pelos cinco anos em que se manteve junto com ele, mas também pelo fato de, após a morte dele em 1989, ter sido decisiva no intuito de gerir a obra do Maluco Beleza. Como forma de registrar essa experiência ao lado de um dos grandes nomes da história do nosso rock, ela, em parceria com um grande amigo de Raul, o engenheiro e escritor Toninho Buda, acaba de lançar Coisas do Coração- Minha História Com Raul Seixas, disponibilizado pela editora UBOOK nos formatos livro impresso, ebook e áudio book, este último contando com narração da própria Kika e da filha, Vivian, e também dos atores Sônia Dias e Nelito Reis.

Kika conheceu o autor de Ouro de Tolo em 1979, quando trabalhava na gravadora Warner-WEA. De uma simples carona que ela proporcionou ao roqueiro, sairia um relacionamento intenso, com altos e baixos e que resultou também em uma filha, Vivian, nascida em 28 de maio de 1981. Não só afetivo, mas também profissional, pois ela assinou 15 canções bem legais em parceria com Raul, entre as quais Só Pra Variar, Nuit e Coisas do Coração.

Com um texto delicioso e fluente, o livro narra momentos íntimos entre os dois e os bastidores de produção e gravação dos discos Abre-te Sésamo (1980), Raul Seixas (1983), Raul Seixas Ao Vivo Único e Exclusivo (1984) e Metrô Linha 743 (1984). O legal é a forma como Kika e Buda nos oferecem as informações, que ganham muita credibilidade exatamente por esse método.

Além da reprodução de inúmeras matérias publicadas naquele período por diversos jornais e revistas, Kika vai além de se valer apenas de suas memórias. Como era uma espécie de arquivista compulsivo em relação à tudo que se relacionava a si próprio, Raul guardava todas as cartas que recebia e enviava. Dessa forma, em vários momentos os fatos apresentados são mostrados com esses registros, no calor da hora e repletos de emoção.

A paixão entre eles, os problemas do roqueiro com drogas, incluindo um bizarro vício de cheirar litros e litros de éter, sua insegurança em termos profissionais e pessoais, a forma como negligenciava sua saúde, as passagens por hospitais e clínicas, temos aqui um verdadeiro mergulho na vida de Raul nesses anos tão difíceis e ao mesmo tempo tão produtivos de sua trajetória artística e pessoal.

Entre outras revelações, ficamos sabendo como a irresponsabilidade de Raul o levou a perder uma gravação de clipe para o Fantástico em 1980, o que gerou uma forte reação negativa da emissora e também do meio artístico. Como eles conversavam muito, Kika também soube de fatos anteriores, como o da mentira acerca de um mitológico encontro entre ele e John Lennon em Nova York que, na verdade, nunca ocorreu.

O perfil do genial artista baiano apresentado aqui é de um ser humano contraditório, capaz de ser carinhoso, generoso e humano e também inconsequente, inseguro e seu pior inimigo. Kika não doura a pílula nem dele, nem de si própria, esbanjando honestidade e paixão ao nos apresentar o Raul Seixas que só ela conheceu.

Uma personagem importante que o livro nos revela é Maria Eugênia Seixas, a mãe de Raul, uma pessoa incrível pela paciência, abnegação e carinho com que tratou o filho mesmo nos momentos mais difíceis, nos quais ele criava os mais incríveis obstáculos entre seus entes queridos, mas que ela superava para cuidar dele. Várias cartas dela endereçadas a Kika falando sobre fatos ocorridos com Raul foram reproduzidas no livro. E foi Dona Maria Eugênia quem designou Kika como a responsável por cuidar da maior parte do acervo do artista, em parceria com o grande Sylvio Passos, que em 1981 criou o Raul Rock Club, o maior e melhor fã-clube do nosso genial roqueiro.

Além dos cinco anos específicos em que viveu com o músico, Kika também nos conta as coisas que fez antes de conhecê-lo, dos cinco anos finais da vida dele, nos quais seus contatos foram menores, mas ainda frequentes, e de tudo o que fez posteriormente para ajudar a manter a obra de Raul Seixas sendo divulgada após a morte dele, incluindo o projeto O Baú do Raul, que envolveu shows, lançamentos de CDs, DVDs e livros, exposições etc.

A versão física do livro é sensacional, com edição impecável que nos proporciona letras bem legíveis, capítulos bem delineados, uma generosa seção de fotos e muitas informações sobre personagens em torno de Raul- parentes, amigos, músicos, colaboradores etc. Sim, muitos livros já foram lançados sobre esse verdadeiro mito da nossa cultura, mas este aqui é certamente um dos mais relevantes e essenciais para quem deseja conhecer melhor o Maluco Beleza.

Coisas do Coração– Raul Seixas:

Edy Star mostra sua incrível carreira em documentário

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Por Fabian Chacur

O Brasil tem como uma de suas marcas a capacidade de gerar grandes talentos nas mais distintas áreas, mesmo sem dar o devido apoio ou valor a essas pessoas. Edy Star é um bom exemplo. Este incrível cantor, compositor, ator, dançarino, produtor teatral, apresentador de TV e artística plástico baiano tem uma carreira com mais de 60 anos de estrada e repleta de grandes momentos. O documentário Antes Que Me Esqueçam Meu Nome é Edy Star (2018), que está na programação do canal a cabo Music Box Brasil, faz jus a esse artista de talento absurdo.

Nascido em Juazeiro (BA) em 10 de janeiro de 1938, Edy se embrenhou pelo meio artístico ainda criança, no teatro, e rapidamente foi ampliando seus horizontes profissionais. Após anos como apresentador de um programa de TV na Bahia, ele se uniu ao amigo Raul Seixas e, junto com Miriam Batucada e Sérgio Sampaio, gravou em 1971 o mitológico álbum Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10, que vendeu pouco mas com o tempo se tornou cultuado e posteriormente relançado em vinil e CD.

Com o insucesso do álbum, ele teve de se virar fazendo apresentações em boates em região barra pesada do Rio de Janeiro, e seu talento como show man o levou a ser a estrela na boate Number One, onde João Araújo, da gravadora Som Livre, o convidou para gravar o que seria Sweet Edy (1974). Este álbum traz canções feitas especialmente para ele por astros do alto calibre de Gilberto Gil, Roberto e Erasmo Carlos, Moraes Moreira e Galvão, Caetano Veloso, Renato Piau, Jorge Mautner e Getúlio Cortês.

Embora com um repertório ótimo e interpretações marcantes, o disco foi outro retumbante fracasso, e seguiu o mesmo rumo do anterior, tornando-se uma raridade disputada a murros nos sebos da vida, com relançamento ocorrido apenas em 2012 no formato CD e há pouco em vinil. O disco traz uma mistura de rock e outros ritmos, em retrato bem fiel do que Edy chama de “cabaretear”, ou seja, seu estilo versátil e criativo.

Sem baixar a cabeça, ele seguiu adiante, estrelando a montagem brasileira do espetáculo Rocky Horror Show e depois espetáculos de teatro de revista. Neles, esbanjava talento, cantando, dançando, atuando e cativando o público com seu carisma. Durante os anos 1980, no entanto, especialmente devido à disseminação do vírus HIV no Brasil, os espaços diminuíram bastante por aqui.

Em 1992, resolveu mudar para a Espanha, onde viveu durante longos 18 anos, firmando-se na cena teatral de lá e conseguindo até mesmo a cidadania espanhola, que se mostrou fundamental para que pudesse combater um câncer que o acometeu e que ele superou após três meses de tratamento.

Um convite para participar da Virada Cultural em São Paulo em 2009, no qual interpretou com muito sucesso de público e crítica e na íntegra o álbum que gravou com Raul Seixas, Miriam Batucada e Sergio Sampaio, serviu como incentivo para voltar ao Brasil, o que se concretizou em 2010.

Em 2016, recebeu o convite de Zeca Baleiro para gravar um novo álbum pela gravadora do artista maranhense, a Saravá Discos. O trabalho, simplesmente excelente, saiu em 2017, Cabaré Edy, e é outro evento, com músicas de Caetano Veloso (que também participa do álbum), Gilberto Gil, Sergio Sampaio, Zé Rodrix, Odair José, Herivelto Martins e outros, e participações de Ney Matogrosso, Angela Maria, Zeca Baleiro, Felipe Catto e gravações inseridas de forma póstumas de Raul Seixas e Emilio Santiago.

As gravações de Cabaré Edy são o mote para o documentário dirigido por Fernando Moraes. Entre ensaios e sessões, o artista dá deliciosos depoimentos contando suas incríveis histórias dessas décadas de carreira. A forma como, por exemplo, conheceu Caetano Veloso quando o hoje monstro sagrado da MPB era apenas um adolescente com vagas ambições artísticas.

O fato de ter assumido desde sempre a homossexualidade e o preço que pagou por isso também permeia o filme, assim como sua eterna disposição em superar as dificuldades e de não se glamurizar demais. Por exemplo, ele vai direto ao ponto sobre o porque foi para a Espanha: “eu estava morrendo de fome, não tinha trabalho no Brasil, então fui para lá para tentar sobreviver, não teve badalação nenhuma!”, registra.

Além dessas cenas atuais, o diretor nos oferece um maravilhoso material de arquivo que registra todas essas fases vividas pelo artista baiano, e também entrevistas recentes com Caetano, Zeca Baleiro e outros artistas que conviveram e trabalharam com ele. Tudo de forma bem-humorada e com uma edição que torna o documentário delicioso de se conferir.

Antes Que Me Esqueçam Meu Nome é Edy Star vale como necessário e maravilhoso registro da trajetória de um artista completo que com seu talento e persistência não só sobreviveu em um meio tão selvagem e difícil como o artístico como de quebra construiu trajetória exemplar e digna de aplausos. Que essa obra nunca seja esquecida, e que sirva de referência para as novas gerações.

Veja o trailer do documentário de Edy Star:

Arnaldo Brandão relembra seus tempos de Londres em videoclipe

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Por Fabian Chacur

Um clipe e uma canção podem nos levar para recantos distantes de nossas capacidades sensoriais habituais. Esse é o dom evidente de Luciana In The Sky, nova gravação solo do lendário Arnaldo Brandão, canção escrita em parceria com o feríssima Tavinho Paes na qual eles recriam de maneira divertida e evocativa tempos vividos na Londres de 1973, mesclando cenas atuais do roqueiro em estúdio com registros da época em super 8 nos quais ele aparece com Claudia O’Reilly e outros amigos.

Incumbindo-se com a classe habitual de vocal, violão, guitarra e piano, Arnaldo é acompanhado nesta gravação por Lourenço Monteiro (bateria), Flavia Couri (baixo), Alberto Mattos (piano e acordeon) e Robson Riva (percussões). O clima é de psicodelia pura, com bem digeridos ecos da criação dos Beatles na fase 1966/1967. As cenas trazem até uma rápida passagem da capa do icônico Aladdin Sane, clássico LP de David Bowie lançado naquele 1973.

Com 68 anos de idade e nascido no Rio de Janeiro em 2 de dezembro de 1951, Arnaldo Brandão começou a se tornar conhecido na cena musical integrando o grupo The Bubbles, que depois virou A Bolha. Após alguns anos morando em Londres, ele tocou (só para citar dois nomes básicos) com Raul Seixas e Caetano Veloso em momentos seminais de suas trajetórias nos anos 1970 e 1980.

Depois, alçou voos autorais em projetos como o Brylho (do megahit Noite do Prazer, da qual é um dos autores) e o Hanói-Hanói, de sucessos como Totalmente Demais e tantos outros. Cantor, compositor, multiinstrumentista, é além disso tudo uma figura de uma simpatia adorável. Que essa faixa seja a amostra de muitas coisas boas a surgirem com a sua assinatura nos próximos tempos.

Luciana In The Sky (clipe)- Arnaldo Brandão:

Raul Seixas dentro do caixão na capa do extinto Diario Popular

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Por Fabian Chacur

Naquele 21 de agosto de 1989, estava me preparando para ir embora para casa, por volta das 17h, depois de um dia de trabalho puxado. Quando já me direcionava para abrir a porta da recepção do Diário Popular, a recepcionista me chamou para atender o telefone. Era o Danilo Angrimani, meu editor na época. “Fabian, preciso de você, o Raul Seixas morreu; estou mandando o Carlos Macena no velório, enquanto você escreve uma biografia dele”.

Mal refeito do susto, em função da morte de um dos meus ídolos na área musical, toca eu subir de novo para o quinto andar, onde ficava a redação do Dipo, pesquisar e redigir, ainda em máquina de escrever, um resumo da carreira desse artista maravilhoso que não soube cuidar direito de sua saúde, deixando-nos com apenas 44 anos de idade.

Três meses antes, eu havia tido a primeira e única oportunidade de entrevistá-lo, em coletiva realizada no escritório da Warner em São Paulo que começou com mais de três horas de atraso e na qual ele veio de pijama de bolinhas. Ao saber da origem do meu nome, até cantou para mim um trecho de Turn To Loose, grande hit do cantor americano Fabian lá pelos idos de 1960.

Estavam por lá ele e Marcelo Nova, com quem havia acabado de gravar o álbum A Panela do Diabo, que só sairia mais tarde, e com quem ele faria shows naquele final de semana de 1989. Nunca vou me esquecer do momento em que citaram nomes de sucesso do rock Brasil de então. “Lulu Santos não dá pra encarar”, disparou, referindo-se ao autor de Como Uma Onda.

Vi o primeiro dos três shows que ele fez no hoje extinto Olympia com Marcelo Nova, e cravei na crítica, que foi publicada no dia em que o terceiro seria realizado: “não perca, pois pode ser o último”. Escrevi isso por ter ficado chocado com o estado de saúde do cara, e infelizmente, acertei.

Outra lembrança é de ter visto na mesma época, junto com um fotógrafo com o qual estava trabalhando, na região da avenida Paulista, o mesmo Raul Seixas, novamente de pijamas, provavelmente próximo do apartamento onde ele morava. Uma cena meio bizarra e inesquecível. Eu e meu colega ficamos constrangidos em abordá-lo.

Voltando ao episódio do obiturário, vale lembrar que cumpri a minha missão com toda a dignidade possível, embora estivesse chocado com aquela perda. Escrevi o texto e me mandei para casa, umas quatro horas depois do que pretendia.

No dia seguinte, pego o Diário e fico horrorizado: na capa do jornal, uma foto do Maluco Beleza dentro do caixão, grosseria que nem mesmo o frequentemente sem noção e grotesco Notícias Populares se permitiu. Comentei com o Danilo, que por sua vez foi comentar com o Jorge Miranda Jordão, então diretor de redação daquele extinto órgão de imprensa.

“Pô, Miranda, você pegou pesado, que foto de mau gosto!”. A resposta do Miranda, segundo o Danilo, foi antológica: “Como, mau gosto? Tinha de pôr essa foto, sim! Afinal de contas, as pessoas querem saber se o Maluco Beleza morreu ou não, e o único jeito de provar isso é mostrando ele dentro do caixão!”.

Meu editor, então, me disse o óbvio: “como iria discutir com esse doido?” E daí em diante, todo fotógrafo do Diário que saía para cobrir velório de famoso ia com essa missão fúnebre: a foto do famoso dentro do caixão. Argh!

Leia texto dando uma geral na carreira de Raul Seixas aqui.

Leia resenha do antológico álbum Krig-ha, Bandolo! aqui.

Ouça Krig-ha, Bandolo! de Raul Seixas, em streaming:

Jerry Adriani: um ser humano adorável e um grande artista

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Por Fabian Chacur

Conheci Jerry Adriani pessoalmente lá pelos idos de 1986, quando iniciava a minha carreira como jornalista e crítico especializado em música. Foi em uma entrevista coletiva na antiga gravadora Polygram (hoje, parte do conglomerado Universal Music), na qual o cantor paulistano divulgava seu então recém-lançado LP Outra Vez Coração. Tenho até foto desse encontro. Nascia ali uma grande admiração pelo ser humano por trás do artista já tão famoso naquela época.

Jerry infelizmente nos deixou neste domingo (23) às 15h30, conforme divulgação feita por seus familiares. Ele combatia um câncer e também esteve internado devido a uma trombose sofrida em uma de suas pernas. Os últimos registros fotográficos divulgados o mostravam muito abaixo do seu peso habitual, e com uma aparência abatida. Uma pena.

Após aquele primeiro contato com Jerry, tive a oportunidade de entrevista-lo em diversas outras ocasiões. Suas marcas registradas: simpático, bonachão, bem-humorado e sempre com boas histórias para contar. Nunca vou me esquecer de uma dessas ocasiões, ocorrida em um barzinho, em São Paulo, na região dos Jardins.

Já no fim do bate-papo, surgiu do nada um gato por ali. Jerry não disfarçou o seu incômodo pelo bichano estar nas cercanias de onde estávamos sentados, e deu a genial e divertida justificativa: “sabe como é, meu nome artístico é Jerry, que é um rato…”. A capacidade de soltar essas pérolas era infindável. Tive a oportunidade de entrevista-lo até no apartamento que mantinha em São Paulo, e assinei o press-release que acompanhou o álbum Rádio Rock Romance, que ele lançou em 1996.

Jair Alves de Souza, seu nome de batismo, nasceu em São Paulo, no bairro do Brás, em 29 de janeiro de 1947. Seu primeiro álbum, Italianíssimo (1964), só com músicas em italiano, marcou o início de sua carreira discográfica, que renderia inúmeros fruto. Seu estouro coincidiu com o da era da Jovem Guarda, e mesclou rocks românticos, baladas e canções pop, sempre tendo sua belíssima e bem colocada voz como ponto de destaque.

No fim dos anos 1960, ele foi o responsável pela mudança de um então ainda desconhecido Raul Seixas para o Rio de Janeiro. Jerry o havia conhecido em Salvador, pois havia sido acompanhado em shows por lá pelo grupo que o roqueiro mantinha na época, Raulzito e os Panteras. Raul não só produziria alguns de seus discos na gravadora CBS (hoje, Sony Music) como também comporia alguns sucessos para o cara, como Doce Doce Amor, Tudo o Que é Bom Dura Pouco e Tarde Demais.

Ao contrário de outros artistas da era da Jovem Guarda, Jerry conseguiu se manter sempre em evidência, graças ao profissionalismo, à capacidade de renovar o repertório e também ao espírito positivo. Em 1985, por exemplo, a banda Legião Urbana estourou com a música Será, e muitos comparavam a voz de seu cantor, Renato Russo, com a de Jerry. Ele curtiu a comparação, elogiou o colega e, em 1999, gravaria o álbum Forza Sempre, com releituras de músicas da Legião com a participação de músicos que haviam tocado com Renato.

Versátil, Jerry apresentou programas e trabalhou como ator em filmes, novelas e séries de TV, sempre com um desempenho elogiado. Em 1990, ele gravou um álbum incrível, Elvis Vive, interpretando versões em português para alguns dos grandes hits de Elvis Presley. Seu mais recente trabalho, Outro (2016), gravado ao vivo e feito em parceria com o Canal Brasil, mostrava o cantor investindo em um repertório mais sofisticado. Aguardem em breve resenha deste trabalho por aqui.

Georgia On My Mind (ao vivo)- Jerry Adriani:

Putos Brothers Band estreiam com um álbum visceral e cru

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Por Fabian Chacur

Aqui não há lugar para frescuras. Nada de elaboração excessiva, ou harmonizações bonitinhas, ou mesmo poesia lírica e impoluta. A opção da Putos Brothers Band foi cair de cabeça em um blues rock ardido, cru e repleto de papo reto, sem curvas nem nada do gênero, com direito a alguns palavrões aqui e ali. O resultado de sua estreia em CD, Tá Todo Mundo Puto Brother!, não poderia ser melhor, e transborda energia, personalidade e talento. Esse quarteto sabe das coisas!

Na estrada desde 2010, a Putos Brothers Band possui pedigree dos melhores, na figura de seu gaitista, Sylvio Passos. Sim, ele mesmo, fundador do Raul Rock Club e amigo pessoal do saudoso Maluco Beleza. O cara demorou a entrar no mundo das músicas autorais, pois há alguns anos integra a Raul Rock Club Band, especializada no repertório de Raulzito. Valeu a espera. E, não por acaso, os outros integrantes do time são dessa mesma banda.

Além de Sylvio, que de forma escrachada se classifica como o “Sid Vicious da gaita” (referindo-se ao péssimo baixista da fase final dos Sex Pistols), temos em campo (ou nos palcos) Agnaldo Araújo (vocal e guitarra), seu irmão Adriano Araújo (baixo) e André Lopes (bateria). Os quatro formam um grupo afiado, com os elementos fundamentais para uma banda de blues-rock dar certo: muita garra, talento e nenhum medo de errar, se o acerto geral for a meta.

O primeiro disco dos Putos Brothers Band ganha o ouvinte mesmo antes de começar a ser tocado. A apresentação visual do CD é simplesmente demais, com direito a capa desde já clássica, encarte com letras, informações e fotos bacanas e tudo o mais. Coisa de gente inteligente, consciente de que precisa oferecer algo mais ao público para justificar a aquisição do trabalho físico. Vá por mim: é melhor ter a versão em CD ou a em vinil, que sairá em breve.

Mas não adianta roupa bonita se o cara é feio, e aqui o som é na veia. Lógico que tem influências do autor de Ouro de Tolo, mas traz muito mais, como toques de Nasi & Os Irmãos do Blues, Barão Vermelho, Stevie Ray Vaughan, Jimi Hendrix e vários outros, muitas e boas influências. As letras são sempre simples, mas muito bem sacadas, apostando na inteligência do público e mergulhando em ironia, poesia direta e protesto sem panfletarismo.

As dez faixas incluídas neste CD são bem legais, mas algumas merecem destaque adicional, como a contagiante Tá Todo Mundo Puto Brother, a deliciosa A Busca (com brilhante participação especial do guitarrista Israel Che Hendrix, da banda Gangster), a incisiva Ela Vem de Trem e a homenagem Um Blues Para Raul. Tá Todo Mundo Puto Brother é para se ouvir a toda altura, aumentando o alto astral geral. Mister Seixas teria orgulho do seu pupilo!

Tá Todo Mundo Puto Brother!(streaming, CD completo):

Polysom relança LP marcante do saudoso Sérgio Sampaio

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Por Fabian Chacur

A Polysom está relançando no formato LP de vinil remasterizado e com 180 gramas um dos mais importantes discos da MPB lançados na década de 1970. Trata-se de Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua (1973), do saudoso cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio (1947-1994), com certeza o seu trabalho mais famoso e mais cultuado pelos fãs.

Sérgio Sampaio foi descoberto por Raul Seixas, com quem gravou em 1971 o álbum Sociedade da Grã-Ordem Cavernista Apresenta Sessão das 10, que também inclui Edy Star e Miriam Batucada. Em 1972, os dois participaram do Festival Internacional da Canção (FIC) da Globo, Sampaio com Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua e Raul com Let Me Sing, Let Me Sing (e como autor com Eu Sou Eu, Nicuri É O Diabo, interpretada pelo grupo Os Lobos).

Quando foi convidado para gravar seu primeiro LP solo pela gravadora Philips (hoje Universal Music), o artista chamou Raulzito para ser seu produtor. Além da música que o tornou conhecido no festival, sua obra mais conhecida, ele também incluiu outras autorais bacanas como Filme de Terror, Odete, Viagem de Trem e Eu Sou Aquele Que Disse.

O disco traz pelo menos mais duas curiosidades: é fechado por uma faixa explicitamente dedicada ao amigo e intitulada Raulzito Seixas, e uma assinada por seu pai, o maestro Raul Sampaio e intitulada Cala a Boca, Zé Bedeu. É um trabalho no qual os limites entre o rock e a MPB são devidamente eliminados, com direito a música inventiva e interessante.

Eu quero é botar meu bloco na rua- Sérgio Sampaio (Philips, 1973)

01Leros e Leros e Boleros
02Filme de Terror
03Cala a Boca Zé Bedeu (composição: Raul Gonçalves Sampaio)
04Pobre Meu Pai
05Labirintos Negros
06Eu Sou Aquele que Disse
07
Viajei de Trem
08Não tenha medo, não! (Rua Moreira, 65)
09Dona Maria de Lourdes
10Odete
11Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua
12Raulzito Seixas

Eu Quero é Botar Meu Bloco Na Rua– Sérgio Sampaio:

Ouça o álbum Eu Quero é Botar Meu Bloco Na Rua em streaming:

Raul Seixas viveu 10 mil anos em apenas 44 no mundo real

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Por Fabian Chacur

Neste domingo (28), um certo Raul Santos Seixas completaria 70 anos de idade. Infelizmente, ele nos deixou com apenas 44, em um triste 21 de agosto de 1989. Na teoria, porém, porque na prática esse genial cantor, compositor e músico baiano viveu artisticamente os 10 mil anos que apregoava em um de seus maiores sucessos. Criou um legado eterno, e sua música sempre viverá em nossas mentes.

Enumerar os méritos de Raul Seixas enquanto criador é tarefa difícil, pois você sempre corre o risco de esquecer alguma coisa. De cara, foi um dos primeiros caras a provar que, sim, rock and roll podia ser feito com grande qualidade se valendo do português como idioma. Sozinho ou com parceiros como Paulo Coelho e tantos outros, foi mestre em mensagens fortes e profundas.

Também é um dos pioneiros de gravações de qualidade em termos técnicos do rock brasileiro. Ouça as cinco músicas postadas aqui e perceba como todas elas não soam datadas ou fraquinhas. Elas tem peso, abrangência, destaque suficiente nos vocais e padrão internacional. Nelas fica claro o talento de Raul como produtor, ofício que exerceu nos estúdios da gravadora CBS trabalhando com Jerry Adriani e outros artistas de sucesso.

Como cantor, ele sempre soube utilizar seu timbre inconfundível de forma impecável, imprimindo energia e doçura nas doses necessárias solicitadas por cada canção. Nunca entrou em exibicionismos tolos, e por isso elevou as faixas de seus álbuns a alturas pouco igualadas pela concorrência. Até os discos menos felizes dele são dignos de serem estudados e curtidos.

Como poucos, o astro baiano soube misturar o rock and roll com as sonoridades brasileiras do baião, forró, samba e também do bolero, latinidades mil e o que mais pintasse. Nunca teve medo de ousar, mas também tinha o bom gosto de buscar sonoridades que pudessem ser apreciadas pelo ouvinte médio, sem cair em experimentalismos tolos.

Dessa forma, realizou a façanha de atingir todo tipo de público, desde os mais intelectualizados até aquele povão mais inculto e fã de música brega. Sabia falar com todos os tipos de ouvintes, sem perder a personalidade jamais. Sua obra é exponencial em todos os quesitos, e precisa ser sempre reverenciada.

Lamente-se apenas que seu lado amador, o de ser humano que não soube se cuidar e mergulhou em drogas lícitas e ilícitas, o levou tão cedo. E também é triste pensar que há muitos fãs que louvam exatamente essa faceta de sua personalidade, o do “doidão inconsequente”, o que explica porque há quem tenha preconceitos em relação a Raul Seixas, pois associa o artista a esses fãs malas e sem noção. Nada a ver.

Nos 10 mil anos que viveu em termos artísticos, Raul Seixas provou que é possível fazer um rock brasileiro, consistente, vibrante e inteligente, que informa, entretém e emociona o tempo todo, dia após dia, ano após ano, década após década. Muita saudade de você, Raulzito. Sua música continua nos emocionando, e permanecerá sempre aqui, firme e forte.

Você Ainda Pode Sonhar– Raul e os Panteras:

Let Me Sing Let Me Sing– Raul Seixas:

Não Pare Na Pista– Raul Seixas:

Mosca na Sopa– Raul Seixas:

Só Pra Variar– Raul Seixas:

Trilha apresenta Raul Seixas à garotada

Por Fabian Chacur

O documentário Raul O Início, O Fim e o Meio, de Walter Carvalho, serve como uma belíssima apresentação para quem não tem a menor ideia de quem tenha sido Raul Seixas, ou uma bela forma de se matar saudades do Maluco Beleza.

Essa acaba também sendo a função da sua trilha sonora, lançada no formato álbum duplo pela Universal Music. São 28 faixas que mapeiam a carreira de Raul desde 1972, quando teve seu primeiro grande contato com o público ao participar de um festival da Globo com Let Me Sing, Let Me Sing, até 1989, quando lançou Panela do Diabo com Marcelo Nova.

Já foram lançadas dezenas (centenas?) de coletâneas com canções do autor de Ouro de Tolo. O mérito desta aqui é ser abrangente, trazendo canções de todas as fases de sua carreira.

O foco são os maiores sucessos, como Al Capone, Mosca na Sopa, Maluco Beleza, Rock das “Aranha”, Cowboy Fora da Lei e Eu Também Vou Reclamar, com espaços para alguns dos chamados lados B, entre os quais Canto Para Minha Morte, A Verdade Sobre a Nostalgia e os pot-pourrys Lucille/Corrine, Corrina e Blue Moon Of Kentucky/Asa Branca.

Ouvir essas 28 músicas de uma vez é uma boa oportunidade para reavaliarmos a qualidade e a importância da obra de Raul Seixas.Às vezes, o fato de ele ter tantos fãs folclóricos e até mesmo malas entre seus inúmeros seguidores leva algumas pessoas a ficarem com uma certa implicância com o seu trabalho, mas isso é errado. Muito errado.

Raul misturou rock, country, baião, forró, brega e o que mais surgisse à sua frente, gerando uma obra que é o rock brasileiro em seu estágio mais miscigenado e original. Ótimo cantor e compositor, ele nos deixou como legado uma obra com altos e baixos, sim, mas com altos absolutamente indispensáveis, entre eles o fenomenal álbum Krig-há Bandolo (1973).

A trilha de Raul O Início, O Fim e o Meio só não é mais recomendável pelo fato de não incluir encarte com letras e textos informativos. De resto, uma verdadeira delícia ouvir de novo Let Me Sing, Let Me Sing, Metamorfose Ambulante, Tente Outra Vez, Aluga-se e outros clássicos do rock brazuca, com sua rebeldia, energia e originalidade.

E duvido que a molecada que conhecer Raul Seixas através dessa trilha não se sinta incentivado a buscar mais canções do eterno roqueiro número um do Brasil.

Ouça Metamorfose Ambulante, com Raul Seixas:

Filme mostra as várias faces de Raul Seixas

Por Fabian Chacur

Raul Seixas, em seus 45 anos de vida, provou ser um daqueles artistas com várias faces, cuja trajetória pode ser analisada sob os mais variados ângulos.

O grande mérito do documentário Raul – O Início, o Fim e o Meio, dirigido por Walter Carvalho e em cartaz em São Paulo desde a última sexta-feira (23), é mergulhar de forma vigorosa para tentar mostrar todas as facetas de um talento impressionante. E chegou bem perto, no mínimo.

Em suas quase duas horas de duração, o trabalho do diretor do antológico Cazuza – O Tempo Não Para (2005) se divide entre depoimentos de personagens fundamentais na carreira de Raul, jornalistas e até mesmo fãs anônimos.

Também foram utilizados vários registros de shows, entrevistas feitas com Raul e participações marcantes em programas de TV. A rigor, só um personagem importante em sua vida não aparece, o cantor Jerry Adriani, que entre o fim dos anos 60 e o início dos 70 o ajudou bastante.

O início como seguidor do rock and roll original, a fase como produtor de música popular, o estouro inicial em um festival e o lançamento de seu álbum mais impactante, o brilhante Krig-há Bandolo! (1973), tudo está lá, assim como a parceria com Paulo Coelho.

Os outros parceiros musicais, as ex-esposas, os músicos que o acompanharam e também seus problemas de saúde gerados por drogas e especialmente bebidas alcoólicas também estão lá.

Raul Seixas conseguiu criar um rock genuinamente brasileiro, misturando o rock and roll original com forró, baião, samba, tango, jovem guarda e o que mais lhe surgisse na cabeça. Um gênio, cujo pior inimigo foi ele mesmo, responsável por sua passagem tão rápida pela vida. Uma pena. Mas que herança musical fantástica ele nos deixou!

Raul – O Início, o Fim e o Meio serve como boa apresentação para quem imagina ser Raul Seixas apenas um maluco não tão beleza e capaz de reunir fãs insuportavelmente chatos. Sua genialidade e importância vão milhões de léguas além disso.

Veja o trailer do filme:

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