Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Tag: funk music

De The Motor Song até Rise, uma viagem funk com Randy Badazz

randy badazz e herb alpert 1979-400x

Por Fabian Chacur

Há alguns anos, uma querida amiga minha, a Camila Proença, pediu minha ajuda para descobrir o nome e quem interpretava uma determinada música. Foi um pouco difícil, mas consegui atendê-la, e recebi como agradecimento ser definido como um “C.S.I. da música”, definição ao mesmo tempo divertida e com um certo sentido. Não sou nem de perto o melhor nessa tarefa de descobrir nomes de músicas e algo sobre seus intérpretes, mas é algo que me diverte, e muito.

Uma boa história para ilustrar essa minha vocação de “Gil Grissom da música” remete ao ano de 1983. Na programação da antiga emissora de FM Jovem Pan 2, rolava um funk raiz dos bons, apresentado como The Motor Song, sendo que o nome do intérprete sempre era dito de forma ininteligível. Era uma das músicas favoritas tanto minhas como do meu irmão Victor. Como sempre fui um ávido consumidor de discos, corri atrás de mais informações sobre essa faixa.

Dei uma geral em várias lojas procurando, mas nenhuma me passava qualquer informação. Depois de muito esforço, consegui algo em uma loja especializada em black music. “Sim, conheço, mas não tenho por aqui, só saiu importado, é de um grupo de new wave”, falou o vendedor. Pedi para ele me escrever o nome do tal grupo, e ele me escreveu algo como The Rand Heend, ou coisa que o valha.

Sem maiores progressos, passei anos correndo atrás da tal música. Quando trabalhei no extinto jornal Diario Popular (de 1988 a 1995), como crítico musical e repórter especializado em música, fiz muita amizade com os nossos office boys, todos fãs de música. Um deles em especial, o Rietson, era fissurado em black music, e sempre trocávamos belas figurinhas sobre o tema.

Um dia, lá por 1993, lembrei-me de The Motor Song e perguntei se ele conhecia alguma música funk com esse título. Rietson procurou um amigo fera nessa praia, e o cara não só conhecia, como também me indicou onde eu poderia comprar um disco com a mesma. Tratava-se de uma coletânea em vinil intitulada Fina Nostalgia (1993), com uma capa como se fosse de um compacto simples, com furo no meio, sem foto, sem nada. Piratíssima, montada aqui no Brasil mesmo.

A compilação, vendida a preço mais caro do que o de um LP comum, trazia oito raridades de bailes black, entre elas a minha amada The Motor Song. Foi o próprio Rietson que a comprou para mim, e lá, o nome do grupo era não The Rand Heend, mas Randy Andy. Como essas coletâneas “Capitão Gancho” volta e meia traziam os nomes de músicas e artistas com erros, pensei que fosse o caso. Mas o legal era ter, enfim, esse petardo funk em disco, para tocar quando quisesse.

Na época, já estava casado. Meu irmão também, mas ele morava na casa dos meus pais com sua esposa. Todo feliz, liguei para ele e informei sobre minha aquisição, e olhem só a surpresa: “cara, que coincidência, eu também comprei uma coletânea em uma loja aqui na Vila Mariana (bairro em que ele morava e no qual fui criado) com essa música, só que em CD!” Nem é preciso dizer que também fui àquela loja e comprei um exemplar para mim.

Outra compilação brazuca piratíssima, intitulada Old School Funk- The Best- Vol.1, com 12 petardos, incluindo The Motor Song, novamente creditada a Randy Andy. Na maior cara de pau, o CD era creditado a uma suposta New York Records, com Made in U.S.A. na contracapa e tudo. As músicas foram evidentemente extraídas de vinis, com uns estalinhos aqui e ali, mas com qualidade de som mais do que satisfatória. Encerrado o jogo, então? Até parece…

Mas quem ou o que era o tal de Randy Andy?

O disco, eu já tinha, mas isso não me bastava. Precisava saber o que ou quem era Randy Andy. E mais anos e anos vieram sem que qualquer nova pista surgisse. Só que, a partir do ano 2000, com o crescimento da internet, as perspectivas de encontrar informações sobre tudo cresceram de forma exponencial. Pelo menos, era o que parecia. Mas não foi tão fácil…

Durante um bom tempo, digitava no google e no youtube com esperanças de saber mais sobre The Motor Song e Randy Andy. E foi um longo período tendo como resposta aquele trecho de Você Não Soube Me Amar, da Blitz, o famoso “nada, nada, nada!”. Mas quem é que disse que um C.S.I. da música desiste?

Nesta década, enfim The Motor Song apareceu no youtube, inicialmente sem quaisquer dicas sobre seus intérpretes. Até que um dia, enfim uma pista. Randy Andy (assim, mesmo, o nome registrado nos discos piratas era o correto) era na verdade uma dupla formada por Randy Badazz e Andy Armer. O primeiro nome não me era estranho, e resolvi pesquisar especificamente sobre ele. E aí veio uma grande surpresa, que me permitiu desvendar todo o mistério.

Um parente famoso e um hit mundial que todos conhecem

Sabem de onde eu me lembrava de ter visto esse nome, Randy Badazz? Foi em um disco de Herb Alpert. Sim, o grande saxofonista, líder da banda Tijuana Brass, que vendeu milhões de discos na década de 1960, e também o fundador em 1962, ao lado do sócio Jerry Moss, da gravadora A&M Records, que lançou não só os discos dele e do seu grupo como também os artistas do altíssimo calibre de Sérgio Mendes, Carpenters, The Police, Joe Cocker, Peter Frampton, Supertramp, Carole King e dezenas de outros.

Esse disco era o álbum Rise, lançado em 1979 e cuja faixa-título chegou ao primeiro lugar na parada americana, um hit instrumental com swing funk simplesmente espetacular. Badazz era creditado como coprodutor do álbum e também autor de duas faixas, a própria Rise e Rotation, ambas escritas e parceria com aquele tal de Andy Armer.

A maior surpresa era que o real sobrenome de Randy era, na verdade….Alpert! Sim, meus amigos, ele é sobrinho de Herb! E não pensem que sua ligação com o trabalho do titio famoso rolou de forma simples e rápida. Foram alguns anos até que os dois fizessem algo juntos, até pelo fato de que Randy queria provar que era capaz de vencer por sua própria conta. Senta, que lá vem história!

A trajetória de Randy Badazz Alpert

Randy Alpert nasceu nos EUA em 1955. Aos 11 anos de idade, fascinado por música, não só aprendia a tocar como também trabalhava no estoque da gravadora A&M, do tio Herb, embalando discos. No entanto, ele não queria se valer do sobrenome famoso do seu tio para a carreira musical, para não ser acusado de oportunista ou aproveitador.

Nos tempos de colégio, ele recebeu o apelido de bad ass (algo como “o fodão”, em tradução livre) dos amigos por sempre se safar dos problemas, e adaptou para Badazz como sobrenome artístico, deixando o Alpert para lá. Ainda adolescente, ficou amigo de Andy Armer, com o qual criou uma sólida parceria musical. Seu primeiro trabalho mais sério foi gravar fitas demo para a banda de soul-funk Con Funk Shun, conhecida por hits como Got To Be Enough.

Como essas demos eram muito boas, o diretor artístico (A&R) da A&M, Chip Cohen, sugeriu a Andy que fizesse novas versões de sucessos da banda de Herb Alpert, a Tijuana Brass, desta vez em ritmo de disco music, a febre daquele momento. O tio gostou da ideia, mas logo na primeira tentativa, com a música The Lonely Bull, ele percebeu que aquilo não levaria a nada.

No entanto, havia muito tempo de estúdio reservado para a tarefa, e Alpert sugeriu ao sobrinho e ao parceiro Andy Armer que lhe mostrassem alguma composição deles. Eles tinham uma em mãos, inicialmente em 125 rotações por minuto, mas perceberam que poderia ficar melhor em uma levada mais lenta, até chegarem a 100 bpm, ainda funk e swingada, mas bem mais sensual.

Herb Alpert não só amou como logo criou suas passagens de trumpete. Ao ouvir o resultado final, previu que aquela faixa, Rise, era um hit em potencial. E estava certo, pois esse petardo atingiu o primeiro posto na parada americana em outubro de 1979, permanecendo nesse posto por duas semanas e invadindo as paradas de sucesso de todo o mundo.

Enfim o tal de Randy Andy!

Em 1983, Armer e Badazz resolveram tentar a sorte como artistas, e criaram uma dupla, que batizaram de, adivinhe? Randy Andy. Naquele mesmo ano, lançaram um álbum pela A&M, autointitulado. A primeira música a ser divulgada foi a tecnopop The People (Livin’ in the USA), uma sátira ao modo acelerado de vida dos americanos com direito a um videoclipe bem divertido que chegou a entrar na programação da MTV em horários alternativos.

A outra faixa de destaque foi o incrível funk The Motor Song, que pegou no breu principalmente nos clubes de dance e black music dos EUA, Europa e Brasil. Como a agenda de Armer e Badazz era muito apertada, eles não tiveram como se dedicar com mais afinco à divulgação de seu álbum, e nem mesmo shows fizeram, o que certamente explica o porque de sua repercussão ter sido abaixo do que merecia. E o duo ficou por aí, mesmo, com os amigos seguindo outros caminhos.

Andy Armer trabalhou posteriormente com Roberta Flack, Lenny Kravitz e Carl Wilson (dos Beach Boys), e se deu bem com a sonorização de games para empresas como Sega, Sony, Atary e Microsoft, entre outras.

Por sua vez, Randy Badazz lançou músicas solo como Captain Badazz e montou um estúdio, o Scream Studios, usado por nomes como Nirvana, U2, Madonna e muitos outros. Em torno de 43 de hits que atingiram o topo da parada americana foram gravados ou mixados no Scream.

Rise teve um de seus trechos sampleado pelo rapper Notorious B.I.G. em seu megahit Hypnotize, que chegou ao primeiro lugar da parada americana em 1997, e foi regravada pelo brasileiro Leo Gandelman em 1999 no álbum Brazilian Soul.

Esta longa história teve suas informações pesquisadas em pequenas e inúmeras fontes, incluindo a minha memória, gerando um verdadeiro quebra-cabeças que finalmente acabo de montar. Vale citar a entrevista concedida por Badazz ao jornalista Andrew Unterberger para a Billboard americana em 3 de janeiro de 2017. E aí, fãs de Gil Grissom e de música, valeu esse trabalho todo?

obs.: a foto que ilustra este post traz Randy Badazz e Herb Alpert, da esquerda para a direita.

Ouça The Motor Song aqui .

Ouça Rise aqui :

Eis a relação de músicas do álbum Randy Andy (1983):

A1
The Motor Song (Stick in Your Dipstick) 5:26
A2
It’s Always You 5:17
A3
The Oddball 4:09
A4
The Girl is Driving Me Crazy 5:10
B1
The People in the U.S.A. (Poor Man – Rich Man Suite) 7:25
B2
Fallout 1:01
B3
It’s Such a Funny business 3:54
B4
Teacher, Teacher 5:59
B5
The Optimist 0:31

Veja o clipe de The People (Livin’ In The USA):

Chaka Khan lança um novo hit e prepara álbum de inéditas

chaka-khan-400x

Por Fabian Chacur

Essa é uma daquelas notícias que a gente publica com gosto e felicidade. Chaka Khan, uma das grandes divas da black music mundial, acaba de lançar uma nova música. Trata-se de Like Sugar, um funk-disco daqueles de rachar assoalhos, divulgada por um clipe dirigido pela diretora australiana radicada em Londres Kim Gehrig, conhecida por seus trabalhos com Calvin Harris e Basement Jaxx.

A música é uma parceria da cantora e compositora americana de 65 anos com o consagrado produtor, compositor e DJ britânico Switch, que tem no currículo trabalhos com Diplo (com o qual criou o projeto Major Lance, do qual saiu em 2011), M.I.A., Christina Aguilera, Beyonce e Brandy. Essa é a primeira faixa a ser revelada de um futuro álbum da estrela do funk/soul que ainda não tem data nem título definidos, embora previsto para sair em breve.

O delicioso clipe, do qual infelizmente a cantora não participa, traz afiados dançarinos mandando ver em performances solo ou coletivas tendo o groove invocado de Like Sugar como trilha sonora. O cenário é a instalação de arte Here After, situada em Londes onde ficava anteriormente um posto de gasolina abandonado e que hoje é um espaço cultural bem bacana.

Levando-se em conta a qualidade desta primeira amostra, é grande a expectativa para esse novo CD de Chaka Khan, o primeiro de estúdio desde Funk This, de 2007. Com mais de 40 anos de carreira, a musa tem 10 troféus Grammy em seu currículo, além de hits do porte de I Feel For You, Ain’t Nobody, I’m Every Woman, Love Me Still, Through The Fire e inúmeros outros, gravados solo ou com o grupo funk Rufus.

Like Sugar (clipe)- Chaka Khan:

Dennis Edwards, ex-membro dos Temptations, nos deixa

DennisEdwards-400x

Por Fabian Chacur

Papa Was a Rolling Stone (1972), dos Temptations, é uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos. Trata-se de um dos marcos da fase psicodélica daquele fantástico grupo vocal americano. Seu vocalista principal naquela época, Dennis Edwards, nos deixou nesta sexta (2), um dia antes de completar 75 anos, em Chicago (EUA). Ele não teria resistido a problemas de saúde gerados por um aneurisma.

Edwards entrou no radar do primeiro escalação da black music americana ao ser contratado pela Motown Records em 1966. No ano seguinte, entrou no grupo The Contours, conhecido pelo hit Do You Love Me. Ao abrir shows dos Temptations, atraiu a atenção de dois integrantes da banda, Otis Williams e Eddie Kendricks. Em 1968, ele acabou sendo o escolhido para substituir o talentoso (mas problemático) David Ruffin nos Temptations.

A alteração coincidiu com uma mudança de rumos na sonoridade do quinteto vocal, concebida por seu produtor, o genial Norman Whitfield. Do soul mais romântico e dançante, a banda enveredou para uma mistura de soul, rock e psicodelismo rotulada posteriormente como Psychedelic Soul/Cinematic Soul. Como tinha um vozeirão mais adequado para este tipo de música, Edwards assumiu o vocal principal em boa parte dos hits da banda nessa fase.

Entre 1968 e 1976, Edwards brilhou com destaque em hits dos Temptations, entre os quais as sublimes Cloud Nine, I Can’t Get Next To You, Ball Of Confusion (That’s What The World Is Today), Papa Was a Rolling Stone e Masterpiece. Além dos vocais poderosos, o som do grupo ganhou espaços para passagens instrumentais repletas de guitarras ácidas, arranjos envolventes e muita ousadia sonora.

O cantor saiu do grupo em 1977, mas voltaria a integrá-lo de 1980 a 1984 e de 1987 a 1989. Em 1985, lançou o seu grande e único sucesso fora da banda, o sacudido single Don’t Look Any Further, dueto com a cantora Siedah Garrett (a mesma de I Just Can’t Stop Loving You, dueto com Michael Jackson lançado em 1987 no álbum Bad). Essa música foi sampleada por rappers como Tupac (em Hit ‘Em Up), Lil’ Wayne (Way Of Life) e Fat Joe (So Excited).

No final dos anos 1980, Edwards se uniu a dois outros ex-Temptations, Eddie Kendricks e David Ruffin, com a ideia de gravar novos trabalhos e fazer shows. Só a segunda parte do projeto se concretizou, e esse projeto histórico foi registrado em vídeo, lançado em 1998 pelo selo Street Gold e intitulado Original Leads Of The Temptations, ressaltando o fato de os três terem sido vocalistas solo em hits da banda. Pena que Ruffin (em 1991) e Kendricks (em 1992) morreram antes que essa espécie de nova roupagem dos Temptations pudesse se consolidar.

Nos anos 1990, o cantor passou a fazer shows relendo os hits de sua ex-banda com o título The Temptations Review- Featuring Dennis Edwards, nome que teve de seguir após problemas com Otis Williams, único integrante original que continua nos Temptations e que detém os direitos da marca. Ele continuava na ativa, fazendo apresentações ao lado de parceiros mais novos nas quais cantava seus eternos hits.

Don’t Look Any Further– Dennis Edwards e Siedah Garrett:

Max de Castro celebra Prince e toca com músicos da NPG

max de castro-400x

Por Fabian Chacur

Em abril deste ano, perdemos Prince, um dos grandes nomes da história da música pop. Naquela época, Max de Castro estava em Los Angeles, fazendo contato com o baixista Andrew Gouche, da banda New Power Generation (NPG), que tocou com o astro de Minneapolis durante muitos anos. Na hora surgiu a ideia de um show no Brasil homenageando o autor de Purple Rain. Esta apresentação se concretizará nesta sexta-feira (19) à meia-noite no Cine Joia (Praça Carlos Gomes, nº 82- Liberdade-fone 0xx11-3101-1305), com ingressos a R$ 40,00 (meia) e R$ 80,00 (inteira).

Ao ser convidado para tocar com Max no Brasil, Gouche sugeriu o nome de outros músicos da NPG para entrarem no time, e Dominique Taplin (teclados) e Cassandra O’Neal (teclados e vocal) toparam. Gorden Campbell, baterista que já tocou com Earth Wind & Fire e George Duke, e os brasileiros Sidmar Vieira (trompete), Will Boné (trombone), Denílson Martins (sax barítono) e Josué dos Santos (sax tenor) completam a banda, que poderá ter convidados especiais surpresa.

O repertório da apresentação vai privilegiar as canções mais dançantes do saudoso astro americano, entre as quais Kiss, I Wanna Be Your Lover, When Doves Cry, 1999 e outras com a mesma pegada. Vale lembrar que Prince só tocou duas vezes no Brasil, ambas em janeiro de 1991 durante a segunda edição do Rock In Rio, no estádio do Maracanã, com direito a performances inesquecíveis. O show de Max de Castro terá a abertura do projeto Discopédia, dos DJs Nyack, Dandan e Marco.

Onda Diferente– Max de Castro:

Samba Raro– Max de Castro:

Apenas Uma Mulher– Max de Castro:

DVD Mr. Dynamite viaja pela trajetória de James Brown

james brown mr. dynamite dvd cover-400x

Por Fabian Chacur

James Brown (1933-2006) teve uma vida que nem mesmo o mais criativo roteirista de cinema poderia ter imaginado, de tão fascinante e improvável. Criado por uma tia em uma casa de prostituição, preso ainda muito novo, encrenqueiro, poderia perfeitamente ter morrido jovem e desconhecido. Pois o cara não só sobreviveu como ainda virou um dos nomes mais importantes e influentes da história da música pop. Essa trajetória é contada de forma crua e sem rodeios em Mr. Dynamite- The Rise Of James Brown, documentário que a Universal Music acaba de lançar em DVD no Brasil.

Com produção de ninguém menos do que Mick Jagger e direção de Alex Gibney, o documentário traz riquíssimo material de arquivo, com direito a registros de shows, trechos de entrevistas concedidas pelo protagonista do filme em diversos momentos de sua vida e, creme do creme, entrevistas atuais com alguns dos músicos mais próximos a ele e integrantes de suas bandas de apoio, que tiveram importância decisiva para que o cara chegasse onde chegou.

Aliás, uma das grandes virtudes do documentário é a franqueza com que os músicos falam sobre o antigo patrão. Elogiam quando é o caso, mas baixam o cacete no cara nas horas certas, sem pintar um quadro de santinho que qualquer pessoa que conheça um pouco da vida de James Brown sabe que ele nunca foi e nunca quis ser, por sinal. O com lembranças mais afetivas é o baixista William “Bootsy” Collins, e o mais amargo é o saxofonista Maceo Parker.

As revelações sobre como era James Brown como bandleader são simplesmente deliciosas. Melhor não ficar contando muito para não estragar a surpresa de quem ainda não viu. Mas vou entregar uma passagem fantástica: a lembrança do baterista Melvin Parker, quando apontou a arma e ameaçou Brown, quando este vinha em direção a seu irmão Maceo pronto para enfiar uma muqueta em sua cara, nos bastidores após a realização de um show. Inacreditável.

O início difícil, as inseguranças, a criação do seu som, as mudanças da banda, a evolução da soul music para a funk music, está tudo ali, detalhado, de forma muito boa de se ver. Seu incoerente posicionamento político também é exposto, com guinadas da esquerda à direita. Mas o mais importante fica sempre em evidência, a genialidade criativa de um cara que rompeu barreiras e ganhou fãs nos quatro cantos do mundo. E a seção de extras traz 27 minutos de depoimentos adicionais, sendo que o documentário tem mais de duas horas.

Obs.: nos extras, temos também uma excepcional parceria gravada ao vivo lá pelos idos de 1976 no legendário programa de TV Soul Train reunindo James Brown, B.B.King e Bobby “Blue” Bland, que por si só já valeria a aquisição deste DVD.

Mr. Dynamite- The Rise Of James Brown-em streaming:

Funky Drummer– James Brown:

Cold Sweat– James Brown:

Maurice White deixa de luto o contagiante mundo do groove

maurice white 400x

Por Fabian Chacur

Festa sem os grooves e as melodias do Earth, Wind & Fire não costuma prestar. Pois o criador dessa banda maravilhosa nos deixou nesta quinta-feira (4) aos 74 anos. Maurice White sofria de Mal de Parkinson, que o impediu a partir de 1994 de se apresentar ao vivo com a banda, embora tenha continuado a participar, na medida do possível, de suas gravações. Uma daquelas perdas tão dolorosas, mas tão dolorosas, que só mesmo dançando ao som da sua música para suportar.

Maurice White nasceu em 19 de dezembro de 1941, e teve várias experiências musicais bacanas antes de montar a banda que o tornou conhecido mundialmente, entre elas integrar como baterista o The Ramsey Lewis Trio, de hits instrumentais bacanas como The In Crowd. Não demorou para ele sentir que seu negócio era partir para um trabalho próprio, no qual desenvolveria uma sonoridade nova e repleta de energia e criatividade musical.

A fase inicial rendeu dois discos pela Warner no início dos anos 70, sem grande repercussão, mas já com um trabalho interessante. Foi a partir de uma mudança na formação e da entrada na Columbia Records, ocorrida em 1972, que o grupo começou a pegar forma. White era o cantor, compositor e percussionista, e tinha na kalimba, raro instrumento africano, sua marca registrada. O irmão Verdine White segurava todas no baixo, e Phillip Bailey, com seus vocais em falsete, completou a trinca básica do time, ao lado de outras feras.

Em 1975, o single Shining Star atingiu o topo da parada de singles americana, mesma façanha atingida pelos álbuns That’s The Way Of The World (1975) e o ao vivo Gratitude (1976). A receita: uma mistura de funk, soul, música latina em geral (até a brasileira), rock, jazz e pop, com direito a muita energia positiva, temas transcendentais nas letras e romantismo também, que ninguém é de ferro.

Até o início dos anos 80, o Earth, Wind & Fire ganhou admiradores no mundo todo graças a sua combinação de discos repletos de boas canções e shows energéticos com direito a recursos audiovisuais até então não muito comuns em shows de grupos de black music. Devotion (uma das melhores baladas soul de todos os tempos), September, Boogie Wonderland, Can’t Let Go, Serpentine Fire, Let’s Groove, Let Me Talk, a lista é interminável. E simplesmente irresistível.

A liderança de Maurice White sempre foi positiva, pois ele tinha seu espaço na banda, mas sempre abria as oportunidades para que os outros integrantes brilhassem, além de chamar gente de fora para trabalhar com eles, como o então iniciante tecladista, compositor e músico David Foster, cuja presença no álbum I Am (1979) foi decisiva em faixas como After The Love Is Gone, da qual Foster é um dos autores.

Em 1980, a primeira visita da banda ao Brasil rendeu shows marcantes, como no Maracanãzinho, no Rio, tornando os caras ainda mais populares por aqui. Vale lembrar que eles gravaram Brazilian Rhyme no álbum All ‘N’ All (1977), assinada por Milton Nascimento. O grupo deu uma pequena parada na metade dos anos 1980, mas voltou a partir de 1987, embora sem o mesmo sucesso comercial com novos trabalhos.

Os shows, no entanto, continuaram contagiantes e populares, como vimos aqui no Brasil em 2008 (leia resenha de um dos shows aqui). Mesmo os discos lançados por eles a partir dos anos 90 são interessantes, e neles Maurice White continuava a mostrar seu talento. O Mal de Parkinson, no entanto, o afastou dos palcos, para tristeza dos fãs, embora a banda se mantenha até hoje na estrada, com Verdine e Bailey fazendo as honras da casa com classe.

No excelente documentário Shining Stars: The Official Story of Earth, Wind, & Fire (2001- saiba mais sobre ele aqui), lançado no Brasil pela extinta gravadora ST2, Maurice deu depoimentos nos quais era nítida sua dificuldade em se movimentar e mesmo falar. Uma pena. Esse cara vai deixar muita, mas muita saudade mesmo. E vale lembrar: ele nasceu no mesmo ano (1941) de Martin Balin e Signe Toly Anderson, do Jefferson Airplane. Xô, dona morte!

Devotion (live)- Earth Wind & Fire:

Boogie Wonderland– Earth Wind & Fire e The Emotions:

September– Earth Wind & Fire:

Serpentine Fire– Earth Wind & Fire:

Can’t Let Go– Earth Wind & Fire:

Coletânea traz James Brown no Apollo Theater

Por Fabian Chacur

Há artistas que ficam ligados eternamente a determinados locais onde se apresentaram ao vivo. A parceria entre James Brown (1933-2006) e o lendário Apollo Theater, situado no Bronx, Nova York, é o caso mais explícito dessa verdadeira comunhão. A coletânea Best Of Live At The Apollo: 50th Anniversary, que acaba de sair no Brasil, celebra um dos marcos da relação entre eles.

Em sua extensa carreira, o cantor, compositor e músico americano se apresentou mais de 600 vezes no teatro Apollo. Em 24 de outubro de 1962, um desses shows foi registrado e lançado em maio de 1963 no formato LP de vinil com o título Live At The Apollo. O trabalho é considerado um dos melhores álbuns ao vivo de todos os tempos, e vendeu muito, tornando-se um dos itens mais badalados de sua discografia.

Em 1968, chegou às lojas Live At The Apollo Vol II, enquanto um terceiro volume, com o título Revolution Of The Mind: Recorded Live At The Apollo Vol III saiu em 1971. O quarto volume deveria ter chegado às lojas em 1972 com o nome Get Down At The Apollo With The J.B.’s, mas acabou sendo cancelado e permanece inédito.

Best Of Live At The Apollo: 50 Anniversary é uma coletânea que comemora os 50 anos do lançamento do primeiro álbum da série, e traz quatro faixas dele, três do volume II, três do volume III e duas do inédito IV, com direito a um belíssimo encarte colorido com informações técnicas, texto informativo e fotos muito legais.

A compilação funciona como uma pequena amostra da evolução da carreira do Mister Dinamyte. Em 1962, ele era ainda “apenas” um grande cantor de soul music e rhythm and blues, como comprovam Try Me e I’ll Go Crazy. Talentoso e vigoroso, mas não muito distante da média dos papas daqueles estilos musicais.

No volume 2, as sensacionais There Was a Time e Cold Sweat apresentam um artista absolutamente original criando a funk music, com direito a muita sensualidade nos vocais, metais certeiros, cozinha rítmica compassada e guitarras totalmente dedicadas ao balanço. Aquele som para suar até cair de tanto dançar.

A parte final do álbum, com as gravações referentes a 1971 e 1972, apresentam a consolidação desse funk de verdade, com direito às empolgantes Sex Machine, Get Up Get Into It Get Involved, Soul Power e There It Is. Uma massa sonora absolutamente espetacular, dançante e que influenciou todo mundo na área, de Michael Jackson e Prince a quem você imaginar.

A única queixa a ser feita em relação a Best Of Live At The Apollo é a sua duração. São só 40 minutos de música. Daria para encaixar pelo menos mais 30 minutos sem qualquer tipo de problema. Mas como se trata de um aperitivo, tenha a duração que tiver, acho que este CD possui a mesma função: fazer você ficar a fim de mergulhar na discografia desse mestre.

Ouça There Was a Time, com James Brown:

© 2019 Mondo Pop

Theme by Anders NorenUp ↑