Mondo Pop

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Yusuf/Cat Stevens cativa com o álbum The Laughing Apple

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Por Fabian Chacur

Cat Stevens iniciou sua carreira discográfica em 1967. Naquele mesmo período, no qual comemorou 19 anos de idade, ele lançou seus primeiros álbuns, Matthew & Son (março) e New Masters (dezembro). Muita coisa mudou desde então, incluindo o seu nome, que passou a ser Yusuf Islam, devido à sua conversão ao islamismo. Mas o talento musical se manteve firme, como prova seu novo CD, The Laughing Apple (Universal Music).

Na verdade, o novo trabalho deste genial cantor, compositor e músico britânico equivale a uma mistura entre o passado e o presente. Quatro faixas- I’m So Sleepy, Northern Wind (Death Of Billy The Kid), The Laughing Apple e Blackness Of The Night foram lançadas no LP New Masters, mas o autor nunca gostou do resultado rebuscado e recheado de sons orquestrais impostos pelo produtor Mike Hurst. Elas reaparecem aqui em novas gravações nas quais os arranjos são mais delicados e minimalistas, com um resultado muito melhor.

Outra faixa reciclada é Grandsons, lançada na coletânea The Very Best Of Cat Stevens (2000) com o título I’ve Got a Thing About Seeing My Grandson Grow Old e letra diferente. O resgate dessas canções explica o porque, pela primeira vez em sua carreira, o artista credita um álbum simultaneamente a Yusuf/Cat Stevens, pois as outras seis canções são da safra atual. Vale lembrar que ele ficou longe da música pop do fim dos anos 1970 até 2006, quando retornou com o excelente An Other Cup.

A sonoridade de The Laughing Apple remete à fase de maior repercussão da obra de Stevens/Yusuf, ocorrida na primeira metade da década de 1970. Não por acaso, o coprodutor do novo CD é o mesmo Paul Samwell-Smith daqueles tempos, assim como o guitarrista Alun Davies marca presença com sua forma marcante de tocar. O entrosamento entre eles continua impecável, assim como o deles com os outros músicos presentes no álbum.

Grave e doce como de praxe, a voz do artista conduz belas canções que misturam folk ocidental e oriental de várias épocas a pop e a um bocadinho de rock. Conciso, o conteúdo do álbum é passível de ser apreciado pelo ouvinte de forma tranquila e estimulante, sem cair em um possível clima modorrento típico de alguns artistas ditos folk atuais.

As canções de épocas diferentes se integraram de forma muito boa, sendo que dificilmente o leigo seria capaz de dizer quais são as dos anos 1960 e quais foram criadas neste século. See What Love Did To Me, You Can Do (Whatever), Don’t Blame Them e Blackness Of The Night são pontos altos de um trabalho no qual requinte, doçura e simplicidade convivem de forma harmoniosa e inspirada.

Esse belo conteúdo musical vem em uma embalagem (no formato CD, o analisado para esta resenha) simplesmente maravilhosa, prova de que o formato físico ainda se mostra muito mais completo para o apreciador da arte musical como um todo.

Com preciosos desenhos a cargo do próprio Yusuf, a capa digipack traz embutido encarte com as letras, ilustrações para cada canção e ficha técnica completa de cada faixa. The Laughing Apple equivale a uma viagem sensorial rumo a uma era de paz, sonho e encanto que talvez só exista nos cinzentos dias atuais durante a audição atenta de maravilhas como este CD. Menos mal. Sonhar é preciso.

You Can Do (Whatever)!– Yusuf/Cat Stevens:

Prêmio Grão de Música 2017 faz evento para vencedores

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Por Fabian Chacur

Mesmo com o advento da internet, ainda são difíceis os espaços para compositores e intérpretes de talento reconhecido. A grande mídia com muita frequência prefere dar oportunidades a apenas um pequeno elenco, enquanto inúmeros artistas de qualidade ficam à margem. Por isso, iniciativas como o Prêmio Grão de Música merecem todo o apoio. Sua 4ª edição será celebrada com a entrega de troféus aos 15 vencedores, com shows de três deles. Rola neste sábado (25) em São Paulo a partir das 19h na Sala Olido (Avenida São João, nº 473- Centro- fone 0xx11-3331-8399), com ingressos gratuitos.

A premiação teve idealização e realização a cargo da cantora e compositora paraibana Socorro Lira, que se vale de recursos e esforços próprios para viabilizar seu projeto. A ideia é destacar anualmente artistas, iniciantes ou veteranos, pelo conjunto de suas obras, e abrange compositores, compositoras e intérpretes oriundos do país inteiro.

Nesta edição, por exemplo, os 15 vencedores são oriundos de 12 estados diferentes. A identidade visual da premiação como um todo fica a cargo do genial designer gráfico e ilustrador Elifas Andreato, que assinou capas de discos de nomes do porte de Elis Regina, Paulinho da Viola e Martinho da Vila, entre muitos outros.

Os shows na Sala Olido ficarão a cargo de Estela Ceregatti, Calé Alencar e Áurea Martins. Cada artista recebe um troféu confeccionado com bronze e a inclusão de uma faixa em uma coletânea com canções dos vencedores, disponível gratuitamente pela via virtual e também no formato CD. Saiba mais sobre essa importante premiação aqui.

Eis os vencedores do Prêmio Grão de Música 2017, e as faixas que cada um interpretou na coletânea produzida pelo evento, com capa assinada por Elifas Andreato que ilustra este post:

01. Flor de Romã (Bartholomeu Mendonça) com Wilma Araújo (Maceió-AL)
02. Não Nasci para o Amor (Juliano Holanda e Thiago Emanoel Martins) com Almério (Caruaru-PE)
03. Vasta Ilha (Ian Faquini e Mauro Aguiar) com Paula Santoro (Belo Horizonte-MG)
04. Viola Quebrada (Mário de Andrade) com Cida Moreira (São Paulo-SP)
05. Cartão Postal (Joésia Ramos e Maria Cristina Gama) com Joésia Ramos(Aracaju-SE)
06. Bola no Bola (Vidal Assis e Hermínio Belo de Carvalho) com Áurea Martins (Rio de Janeiro-RJ)
07. Pé de Crioula (Ana Paula da Silva e Sérgio Almeida) com Ana Paula da Silva
08. Negra (Calé Alencar) com Calé Alencar (Fortaleza-CE)
09. Cunhantã (Zeca Torres, Aníbal Beça e Thiago de Mello) com Márcia Siqueira (Manaus-AM)
10. Milonga Flor (Érlon Péricles) com João Triska (Curitiba-PR)
11. Corpo (Déa Trancoso) com Déa Trancoso (Almenara-MG)
12. Açoite da Brisa Monte (Jânio Arapiranga) com Jânio Arapiranga (Arapiranga-Rio de Contas-BA)
13. Os Desejos da Mulher (Mocinha de Passira) com Mocinha de Passira e Luzivan Matias (Passira-PE)
14. Noite de São João (Fred Martins e Alberto Caieiro) com Fred Martins (Niterói-RJ)
15. Segundo Quarto (Estela Ceregatti) com Estela Ceregatti (Cuiabá-MT)

Viola Quebrada (ao vivo)- Cida Moreira:

João Suplicy lança o novo CD com show único no MIS (SP)

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Por Fabian Chacur

Após cerca de oito anos dedicados ao Brothers Of Brazil, dupla que montou com o irmão Supla, João Suplicy resolveu retomar a carreira-solo. O primeiro fruto dessa nova frase é o ótimo CD João, que ele apresenta em São Paulo com um show que rola nesta quarta-feira (8) às 20h no Auditório do MIS (avenida Europa, nº 158- Jardins- fone 0xx11-2117-4777), com entrada gratuita.

Na verdade, acaba sendo uma espécie de volta à origem, pois João iniciou sua trajetória discográfica com um trabalho individual, Musiqueiro (1999), e aos poucos se firmou no cenário musical paulista, lançando álbuns elogiados como Cafezinho (2002) e Caseiro (2005). Além de fazer inúmeros shows e gravar CDs com o Brothers Of Brazil, ele também lançou o álbum João Suplicy & The Hound Dogs (2015).

O álbum João traz 14 faixas e uma capa homenageando o saudoso astro americano do country e do rock Johnny Cash. O repertório autoral é bem diversificado, com fortes elementos de rockabilly, várias subdivisões da MPB, pop e rock. Um Abraço e Um Olhar conta com a participação de Zeca Baleiro e rendeu um divertido clipe, e Dicionário do Amor é um dueto com a ótima Marina de La Riva.

No show, o irmão mais novo de Supla terá a seu lado João Moreira (baixo) e Danilo Moura (percuteria e vocais), além dele próprio nos vocais e no violão, que volta e meia toma a sonoridade de uma guitarra. Fernanda Kostchak, violinista do Vanguart, marcará presença, repetindo sua participação no CD em Tudo ou Nada. O repertório também terá releituras de Elvis Presley e Tom Jobim, entre outros.

Um Abraço e Um Olhar– João Suplicy e Zeca Baleiro:

Com Vida traz a versatilidade do talentoso Keco Brandão

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Por Fabian Chacur

Se eu me metesse a colocar o currículo completo de Keco Brandão neste post, certamente preencheria dezenas de linhas muito antes de conseguir falar algo sobre ele. Com 30 anos de estrada, este gaúcho que morou no Rio e está radicado há muito em São Paulo esbanja versatilidade em seu novo trabalho, o DVD/CD (vendidos juntos em luxuosa embalagem digipack) Com Vida, no qual este tecladista, arranjador, compositor e cantor conta com participações especiais de alguns desses parceiros ilustres de tantos anos.

Nessas três décadas de atividade, Keco gravou mais de dez CDs solo instrumentais investindo em diversos estilos musicais. Ele participou de gravações e shows de artistas do porte de Gal Costa, Jane Duboc, Zizi Possi, Pedro Mariano, Leila Pinheiro, Toquinho, Célia, Roberta Miranda e Ângela Maria, só para citar alguns, além de ter atuado na área de jingles e trilhas publicitárias e também em programas de TV.

Incentivado inicialmente por Jane Duboc e depois por Gal Costa, ele acrescentou o canto a suas atividades. Seguindo a sugestão do amigo Flávio Venturini, decidiu iniciar um projeto composto só por canções. Na Contramão, composição feita por ele com a cantora Denise Mello, tornou-se o primeiro fruto do que viria a ser Com Vida. As gravações em áudio e vídeo foram de outubro de 2015 a janeiro de 2017.

O álbum traz 15 músicas: sete de autoria de Keco com vários parceiros/parceiras (uma solo) e oito de autores que admira, como Ivan Lins, Lyle Mays, Pedro Aznar, Johnny Alf e Joaquin Rodrigo. Marcam presença no CD Simone Guimarães (três faixas), Tatiana Parra (duas faixas), Sachal Vasandani (duas faixas), Ivan Lins, Zizi Possi, Fabiana Cozza, Felipe Cato, Denise Mello, Sueli Vargas e Heitor Branquinho.

Pela primeira vez em sua carreira, o artista gravou vocais, sendo uma dobradinha com Simone Guimarães (Aranjuez Con Tu Amor), vocalizes com Ivan Lins (Encontro dos Rios) e uma performance vocal solo e em castelhano (Emília). Nelas, Keco prova que, se por ventura quiser gravar um álbum como vocalista principal, tem tudo para passar com nota alta por essa experiência, tal a desenvoltura que mostra.

Os arranjos das faixas de Com Vida dão roupagens belas e sofisticadas a cada canção, em um repertório que prima pela qualidade de suas melodias e por um clima romântico, lírico e próximo de baladas, embora tenhamos momentos de funk-jazz, latinidade, samba e bossa. Os convidados mostram nítida admiração pelo trabalho de Keco, e se submetem a seu comando de corpo e alma. O resultado é um disco delicioso de se ouvir, do começo ao fim.

Difícil citar melhores faixas em um repertório tão bem escolhido e trabalhado, mas, só para não ficar demais em cima do muro, vale citar Timidez (com Tatiana Parra nos vocais), Cura (um banho de swing de Fabiana Cozza) e Sweet Bird Of Youth (versão em inglês para Eu e a Brisa, de Johnny Alf, que o americano Sachal Vasandani interpreta com rara finesse). Mas recomendo a você ouvir e fazer suas próprias escolhas.

Incrível a versatilidade de Keco Brandão, que se mostra craque como arranjador, vocalista, compositor e pianista. Um exímio acompanhante de cantores, por sinal. Ele admite a possibilidade de novos trabalhos nessa linha, pois muitos amigos acabaram ficando de fora. Se for feito com a qualidade deste aqui, que venham muitos outros mesmo.

Timidez– Tatiana Parra e Keco Brandão:

Cantora americana Anastacia volta com o álbum Evolution

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Por Fabian Chacur

Caught In The Middle é o novo single da cantora e compositora americana Anastácia, que viveu o auge de sua popularidade no início dos anos 2000. A música, que traz forte tempero de reggaeton, é a primeira a ser divulgada do álbum Evolution, o primeiro que lança desde Resurrection, que saiu em 2014. O clipe traz a intérprete investindo em coreografias e em um clima dançante próximo do pop atual.

Evolution tenta misturar apostas em uma sonoridade mais próxima das cantoras pop atuais, como o primeiro single denota muito bem, com faixas nas quais a fusão soul-disco-funk que tornou mundialmente conhecida a artista nascida em 17 de setembro de 1968 se mantém presentes, entre as quais Stamina, Reckless, Not Coming Down e Pain.

Anastácia Lyn Newkirk batalhou bastante até conseguir maior visibilidade para o seu trabalho. Ela trabalhou como dançarina em vídeos de grupos como o trio de hip hop Salt-N-Pepa, fez vocais de apoio em discos de artistas como a cantora pop Tiffany e atuação em grupos de pouco destaque. Ela se tornou conhecida do grande público ao participar em 1998 do programa The Cut, da MTV americana, no qual apresentou sua composição Not That Kind pela primera vez.

Sua interpretação poderosa impressionou astros do porte de Elton John e Michael Jackson, além dos jurados do programa, o produtor David Foster e a cantora Faith Evans. Não foi a vencedora, mas conseguiu um contrato para gravar um álbum-solo, Not That Kind, que saiu em 2000 e lhe valeu fãs na Europa, América do Sul e Oceania, vendendo mais de 7 milhões de cópias. Curiosamente, fracassou em sua terra natal.

Até 2005, Anastácia se manteve com bastante popularidade. Posteriormente, continuou lançando novos trabalhos, mas com repercussão um pouco inferior. E nunca conseguiu emplacar nos EUA. De quebra, ela teve (e ainda tem) de lutar contra constantes problemas de saúde, entre eles a doença de Crohn (que não tem cura) e câncer em duas ocasiões diferentes. Felizmente, esta verdadeira guerreira conseguiu seguir em frente, como prova com este novo trabalho.

Caught In The Middle (clipe)- Anastacia:

Efeito Borboleta, bela viagem rocker de Rodrigo e Fernando

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Por Fabian Chacur

Quando entrou no Barão Vermelho, em 1992, Rodrigo Santos não só tornou-se membro do primeiro time do rock brasileiro como também ganhou um novo parceiro musical, o guitarrista Fernando Magalhães. Depois de 25 anos, essa amizade não só se consolidou como agora rende um primeiro trabalho em dupla. E que trabalho! Efeito Borboleta (lançado pela Coqueiro Verde) equivale a uma bela viagem rocker.

A ideia dos dois amigos é que este CD seja o primeiro de uma trilogia. Neste volume inicial, temos 15 músicas assinadas por eles. Rodrigo se incumbe de vocais (todos), baixo e violões, enquanto Fernando é o cara das guitarras e violões. Completam o time o tecladista Humberto Barros, que tocou com Rodrigo no Kid Abelha, e o baterista Lucas Frainer, do grupo Rodrigo Santos & Os Lenhadores.

A dobradinha Santos/Magalhães gerou uma fornada de canções roqueiras com várias nuances, sem cair na mesmice. O início não poderia ser melhor, com a virulenta faixa-título, cuja letra detona a situação caótica do mundo e os riscos que corremos de um fim apocalíptico.

A faixa-final, o impactante hard rock A Magnitude da Nossa Insignificância, é uma espécie de complemento da de abertura, trazendo versos ácidos sobre o quanto o ser humano é insignificante perante tudo o que o cerca, embora sempre se ache a última bolacha do pacote.

Entre uma e outra, o ouvinte poderá se divertir com um repertório que investe em rocks certeiros com vocação pop como Navegar, Juntos de Novo e A Vida Bela, a balada com slide guitar inspiradíssima Sem Deixar Pegadas, a ótima stoneana Uma Pequena Lágrima (espécie de Beast Of Burden da dupla), e a belíssima balada folk acústica O Meu Juízo.

Mano é uma bela blues ballad homenageando o saudoso percussionista Peninha, parceiro dos dois no Barãm Vermelho. Sorte é um rock melódico com cara de hit, assim como a incrível Coragem. As duas mereciam entrar imediatamente nas programações das rádios roqueiras deste país, se é que ainda existe alguma. Na pior das hipóteses, nos podcasts dedicados ao rock nacional.

Em outro momento político do repertório (sem cair no panfletário, por sinal), O Fóssil Brasileiro mistura punk e hard rock com versos incisivos como “e se o chão é duro, traiçoeiro, é mais heroico pra partir, do que o espinhoso travesseiro dos assassinos do país”. Por sinal, as letras são sempre muito bem concatenadas, independente do tema desenvolvido- amor, relacionamentos, filosofia de vida, política…

Versátil e com um currículo do tamanho de uma lista telefônica, Rodrigo Santos mostra que aprendeu e muito com todas essas experiências. Ele canta cada vez melhor, com personalidade e estilo, mostrando que sabe tanto ser sideman como frontman, sempre com a mesma categoria. Por sua vez, Fernando Magalhães joga para o time o tempo todo, sem querer ser mais do que as canções, que mandam neste álbum.

O que não significa que, em momentos como 12 Anos de Espera, Sem Deixar Pegadas e A Magnitude da Nossa Insignificância Magalhães não assuma o protagonismo com fúria, técnica e emoção. Como já sabíamos nesses seus tantos anos de Barão Vermelho, é um baita músico. E nas composições, a dupla esbanja inspiração, concisão e talento, manuseando as regras e elementos do rock and roll com uma desenvoltura destinada apenas aos craques.

Se esse é apenas o início de uma trilogia, fica a torcida para que os outros volumes venham logo, pois esta dupla dá provas inequívocas de que estão bem errados aqueles que afirmam ser o rock um gênero morto e com farofa na boca. Provavelmente, são os caras que afirmam uma asneira dessas que se encontram em tal situação. O saudoso mestre Zeca Neves amaria este álbum!

Efeito Borboleta- Rodrigo Santos e Fernando Magalhães (ouça em streaming):

Banda goiana Sã lança clipe e mostra seu heavy filosófico

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Por Fabian Chacur

Um heavy metal fortemente influenciado por sonoridades setentistas e com letras com elementos filosóficos e bem-humorados. Esta é uma definição possível do som feito pela Sã, banda goiana que acaba de lançar o seu primeiro videoclipe. A música em questão é Translação, que traz influências claras de Black Sabbath e Grand Funk Railroad em meio a um clima visual sombrio, nervoso e ameaçador bem convincente.

Integram esse trio oriundo de Goiânia o cantor e guitarrista Danilo Xidan, conhecido por sua atuação com as bandas Goldfish Memories e Soothing, e os irmãos Alexandre (baixo) e Bruno Sardelari (bateria), que também atuam no grupo Veementes. A produção de Translação ficou a cargo de Braz Torres, que toca guitarras adicionais. Também participou da gravação Rodrigo Andrade, tocando meia-lua e bongô.

A letra da canção do Sã reflete com profundidade sobre o que é viver, e é finalizada pelos versos “a vida, a vida é só uma viagem, a vida é uma viagem só”, incentivando o ouvinte a aproveitar melhor sua estada no planeta e também visualizando um possível sumiço do ser humano da face do planeta. Um papo cabeça muito interessante.

Translação (clipe)- Sã:

Ayrton Mugnaini Jr. nesse seu mundo peculiar e fascinante

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Por Fabian Chacur

Dificilmente alguém que por ventura conheça Ayrton Mugnaini Jr. o esquecerá. Este jornalista, pesquisador, tradutor juramentado e também cantor, compositor e multi-instrumentista paulistano é daquelas figuras absolutamente ímpares. Aos 60 anos, que completa nesta quinta-feira (30), ele lançou um novo CD, intitulado Dó, Ré, Mi, Fá…Sei Lá!, equivalente sonoro a uma viagem de montanha russa, de tantas alternativas e possibilidades que oferece ao ouvinte. Viagem das boas, para quem tem bom humor e curte música inventiva.

Nascido em São Paulo, mas criado nas cidades de Lins e especialmente Sorocaba até o fim dos anos 1970, Ayrton como jornalista especializado em música (e agora, também em temas circenses) é daqueles sujeitos que mergulha fundo nos detalhes, nas histórias obscuras e no que de fato importa. Com um texto simplesmente impecável, ele se notabilizou como crítico e também como autor de inúmeros livros, daqueles que você lê de cabo a rabo, sem parar. Enciclopédia ambulante!

Paralelamente, desenvolveu uma carreira musical bastante significativa, integrando os grupos Língua e Trapo e Magazine, com os quais gravou discos, fez shows e, provavelmente sua veia mais significativa, teve várias músicas gravadas pelos mesmos. Não tenho a menor dúvida de que as melhores gravações de músicas dele estão exatamente em vários discos do grupo do incrível Laert Sarrumor e também no instigante CD Na Honestidade, do Magazine do saudoso Kid Vinil.

E tem também a sua trajetória solo, iniciada em 1984 ainda nos tempos das fitas cassete (que estão voltando, vejam só) com a antológica Brega’s Banquet. Até 2000, lançaria mais 15 dessas, além de um LP de vinil (A Arte de Ayrton Mugnaini Jr., em 1992) e 9 CDs. Se por ventura você não teve a oportunidade de ouvir algum, alguns ou mesmo todos esses itens, saiba que Dó, Ré, Mi, Fá…Sei Lá! equivale a uma bela e generosa amostra, com o típico DNA mugnaínico.

Em seus 72m30 de duração, o CD traz nada menos do que 30 faixas, o que torna a comparação com o Álbum Branco dos Beatles inevitável, embora isso não o agrade. O autor separa as canções em faixas que falam sobre a própria música em si, em um interessante exercício de metalinguagem, e outras que versam sobre os mais diversos temas. Os caminhos musicais seguidos por ele são os mais diversos, com direito a várias vertentes de rock, outras tantas de música brasileira e até mesmo tango. E acredite: tem ainda mais nessa mistura.

Mugnaini é um tipo peculiar de perfeccionista, pois se por um lado mostra muito capricho nos detalhes e na qualidade de seu trabalho, por outro prima pelas “sujeiras” de uma virada de bateria meio atrapalhada aqui, um timbre de guitarra meio esquisito ali etc, denotando uma preferência pela espontaneidade em detrimento exatamente do perfeccionismo. Contradições de um ser humano e de um criador que, dessa forma, apresenta uma originalidade ímpar.

Mesmo sem ser um bom cantor, ele sabe como transmitir suas ideias com muita eficiência, e melhorou bastante a dicção, um problema sério de seus anos iniciais. Além de se desdobrar entre vários instrumentos, Mug também se vale da ajuda de vários amigos musicais que cultivou nesses anos todos. Algo natural para ele, um dos caras mais generosos e gregários que já conheci nesse nem sempre muito simpático mundo da música, seja o dos músicos como o dos jornalistas especializados etc.

Além de músicas próprias, ele também traz a releitura de A Palo Seco (de Belchior, que ele releu antes do triste fim do grande astro cearense). Não faltam momentos empolgantes, como o rock escrachado Foi Pra Isso Que Eu Fiz Cinquenta, o desabafo Quero Viver Só de Shows, a incrível Foguete Prateado, a deliciosa The Beet Song (quem mais comporia uma música em homenagem à…beterraba?), o divertido samba Cadê o Doce?, a fofa Naruto e a delicada Quem No Ar Se Encosta Cai.

A incrível diversidade de Mugnaini Jr. como compositor é a principal marca deste álbum. Aliás, esse cara deveria ser muito mais procurado por intérpretes e grupos interessados em aumentar a qualidade de seus repertórios, pois ele oferece itens capazes de entrar nos álbuns/shows de rigorosamente qualquer tipo de artista, seja de que praia musical ele for. Agora, não dá para negar que é uma delícia ter a oportunidade de ouvir essas ótimas músicas tocadas e na voz de quem as criou.

Aos interessados em adquirir Dó, Ré, Mi, Fá…Sei Lá!, Ayrton Mugnaini Jr. pode ser encontrado no Facebook e também através do e-mail mugayr@hotmail.com .

Cadê o Doce? (ao vivo)- Ayrton Mugnaini Jr:

Tony Babalu reafirma amor à música em seu novo trabalho

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Por Fabian Chacur

Os músicos sempre correm um grande risco quando possuem muito talento: achar que são mais importantes do que a própria música que tocam/criam. Quando isso ocorre, a autoindulgência os leva a se tornarem um pálida cópia do que eventualmente já foram anteriormente. Por isso, é muito bom quando podemos presenciar um grande músico não caindo nessa armadilha. É o caso de Tony Babalu, que brilha em seu novo álbum, Sessions II, lançamento da Amelis Records com distribuição da Tratore.

Babalu está na estrada desde os anos 1970, tendo trabalhado com o Made In Brazil e outros nomes bacanas do rock brasileiro, tocando e produzindo. Sua carreira solo, totalmente dedicada à música instrumental, o firmou como um dos melhores guitarristas brasileiros, menos popular do que merece mas certamente referência entre os colegas. Aquilo que alguns chamam de “músico dos músicos”. Só que, neste caso, um cara que pode ser ouvido por todos, bastando que a pessoa tenha bom gosto e abertura para sons mais sofisticados.

Sim, sofisticado, mas não necessariamente intrincado, complicado ou, usando um termo mais chulo, “chato”, como alguns mais superficiais rotulam alguns expoentes da música instrumental. Babalu demonstra muita perícia e técnica em cada acorde e/ou solo que toca, mas sem jogar conversa fora. Ele obviamente toca para seu prazer, mas também claramente para cativar seus ouvintes, e duvido que alguém o ouça e não tire essas mesmas conclusões.

Live Sessions II é o mais do que digno sucessor do ótimo Live Sessions At Mosh (2014- leia a resenha de Mondo Pop aqui). O conceito é o mesmo, com gravação ao vivo feita de forma analógica. Estão no seu time Adriano Augusto (teclados), Leandro Gusman (baixo) e Percio Sapia (bateria), músicos talentosos que mostram ótimo entrosamento.

São seis faixas. O álbum abre com Locomotiva, rock ágil e sacudido. Meio-Fio vem a seguir, marcada por belas variações de climas. Valentina é uma espécie de balada com temperinho blues que cativa por seu lirismo. Veia Latina tem aquele tempero Carlos Santana sem cair na mera cópia. O jazz fusion marca presença na intrincada e deliciosa Encrenca, enquanto In Black encerra o CD com uma levada funk cuja guitarra rítmica tem um quê do genial Nile Rodgers, do grupo Chic.

O bacana de Tony Babalu enquanto band leader é a forma como ele se integra aos músicos que o acompanham, sempre abrindo espaços para que cada um deles também tenha seus espaços para solar e dessa forma se destacar. Sessions II é uma verdadeira profissão de fé desse grande instrumentista em relação à sua musa eterna, a música, colocando-a no pedestal e a cultuando com o devido carinho e inspiração.

Encrenca (ao vivo)- Tony Babalu:

In Black (ao vivo)- Tony Babalu:

David Crosby, ou a inquietude de um grande gênio do rock

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Por Fabian Chacur

David Crosby equivale a um grande mistério. Aos 76 anos, completados no dia 14 de agosto, este cantor, compositor e músico americano se mostra mais atuante do que nunca. Menos de um ano após lançar o incrível Lighthouse, ele se prepara para nos oferecer outro lançamento, previsto para sair no exterior no dia 29 de setembro. O título é Sky Trails, que já tem uma faixa circulando na rede, a envolvente She’s Got To Be Somewhere.

Ao contrário do essencialmente acústico trabalho anterior, sobre o qual falaremos mais no decorrer desta matéria, Sky Trails é um álbum de banda, no qual Crosby tem a seu lado, entre outros músicos, os ex-parceiros de CPR, o filho James Raymond (teclados) e Jeff Pevar (guitarra). A sonoridade traz influências de jazz fusion, soul e rock. A faixa Before Tomorrow Falls On Love é uma parceria do roqueiro com Michael McDonald, ex-Doobie Brothers.

Quatro músicas são parceria de Crosby e Raymond, filho temporão que o roqueiro deu para adoção no inicio dos anos 1960 e só redescobriu nos anos 1990. Uma única faixa não é autoral. Trata-se de Amelia, de Joni Mitchell, cuja versão original foi registrada pela estrela canadense em 1976 no álbum Hejira. A expectativa em torno deste álbum é grande.

A carreira de David Van Cortland Crosby equivale a uma inacreditável viagem, repleta de surpresas. Ele passou seus anos de formação nos Byrds, banda na qual ele era um coadjuvante de luxo para o líder Roger McGuinn (vocal, composições e guitarra) e também para Gene Clark (vocal). Com o tempo, percebeu que não conseguiria ter no grupo o espaço suficiente para dar vasão a seu talento, e no processo acabou sendo expulso do time, no final de 1967.

A partir daí, ele abriu as portas da sua carreira para novas experiências. Conheceu Stephen Stills (ex-Buffalo Springfield) e Graham Nash (ex-The Hollies) e criou o Crosby, Stills & Nash, grupo seminal para a história do rock no qual as individualidades eram respeitadas, e que volta e meia virava Crosby, Stills, Nash & Young com a eventual participação de Neil Young (também ex-Buffalo Springfield).

Paralelamente ao CSN/CNSY e a trabalhos em dupla com Graham Nash, Crosby também desenvolveu uma carreira solo que iniciou de forma brilhante, com If I Could Only Remember My Name (1971). Teríamos de esperar 18 longos anos para poder ouvir um segundo trabalho solo do artista, com o irônico título Oh Yes I Can (1989). “Se eu ao menos pudesse me lembrar do meu nome”, dizia o título da estreia solo. “Oh, sim, eu posso”, afirma sem sombra de dúvidas o segundo.

Nos anos 1990, foram três trabalhos solo, um de estúdio com composições alheias e duas de sua autoria, o belíssimo Thousand Roads (1991) e dois ao vivo, It’s All Coming Back To Me Now (1994) e King Biscuit Flower Hour (1996). Aí, surge o trio CPR com Raymond e Jeff Pevar, que lançou quatro álbuns (dois de estúdio e dois ao vivo) entre 1998 e 2001) com uma bela mistura de rock, jazz, folk e country.

Filho do premiado cineasta Floyd Crosby (1899-1985), David Crosby tem como marcas um forte lado intelectual, além de ouvinte atento de jazz, preferência audível nos acordes de violão que usa em suas composições. De temperamento difícil e rebelde, ele teve de superar problemas como prisão por consumo de drogas na metade dos anos 1980, um transplante de fígado nos anos 1990 e um problema cardíaco em 2014, percalços que venceu tal qual um highlander do rock.

Em 2014, após alguns anos se dedicando a trabalhos com o Crosby, Stills & Nash, Crosby volta à carreira solo com o excelente Croz (leia a resenha de Mondo Pop aqui). E não parou mais de fazer shows e gravar, afora aquele susto cardíaco que felizmente foi só um sustão.

Lighthouse- a resenha

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Em outubro de 2016, chegou ao mercado internacional Lighthouse, que, assim como Croz, permanece inédito no Brasil. O álbum traz como marca a parceria de Crosby com o multi-instrumentista Michael League, líder do grupo (na verdade, uma espécie de coletivo) de jazz fusion Snarky Puppy, que está na estrada desde 2004 e já faturou três troféus Grammy com seus mais de 10 CDs lançados até o momento.

League é o braço direito de Crosby no álbum, atuando como coprodutor (ao lado de Fab Dupont), vocalista de apoio e também tocando vários instrumentos, além de ser o coautor de cinco das nove faixas do CD. Aliás, na maior parte das faixas são só os dois em cena, sendo que os tecladistas Cory Henry e Bill Laurance (também do Snarky Puppy) marcam presença em duas cada.

Com base fundamentalmente acústica, Crosby e League nos oferecem acordes belíssimos e sutilezas que vão sendo descobertas a cada audição do álbum. Curiosidade: não temos nem bateria, nem percussão. Em um making of do trabalho, o roqueiro afirma que os únicos som mais percussivos saíram dele batendo com sua aliança no violão.

O clima das canções varia da balada Things We Do For Love à jazzy-bossa Look In Their Eyes, passando pelo clima hipnótico e quase dark de Somebody Other Than You e a sacudida The City. A voz do astro roqueiro se mostra mais afinada e afiada do que nunca, cativando no modo solo e também nas vocalizações, uma de suas marcas registradas.

A canção que encerra o álbum, By The Light Of Common Day, é parceria de Crosby com outra integrante da família Snarky Puppy, a incrivelmente talentosa Becca Stevens. Com mais de seis minutos de duração que passam a jato, essa música equivale a um verdadeiro farol (tradução do título do álbum) perante os mares revoltos e não tão animadores do mundo atual. As vozes dos dois se encaixam feito luva, e o violão de Michael League evoca as belas sonoridades do saudoso Michael Hedges, que não por acaso também foi parceiro de Mr. Crosby.

Aliás, uma das explicações pelas quais é possível entender porque um músico de 76 anos de idade que passou por tantas coisas na vida consegue se manter tão relevante é a sua eterna abertura ao novo. Ele sabe se renovar, trocando figurinhas com músicos das novas gerações e nunca se rendendo aos caminhos mais fáceis em termos musicais e de carreira. Dessa forma, cada novo show e cada novo álbum de David Crosby merecem toda a nossa atenção, pois as perspectivas são sempre as melhores. O passado é de glórias, o presente, belíssimo, e o futuro nos trará ainda mais, se Deus quiser. Parabéns, mestre!

By The Light Of Common Day– David Crosby:

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