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Elton John (1970), quando Reg Dwight começa a virar um astro

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Por Fabian Chacur

Escolher um entre os aproximadamente 40 álbuns de estúdio que Elton John gravou e nomeá-lo o mais importante de todos é uma tarefa um tanto complicada. Mas pode ser mais simples se levarmos em conta um critério determinante: aquele trabalho que significou a ascensão de um até então completo desconhecido cantor, compositor e músico britânico para o primeiro time da música pop. Se esse for o parâmetro, aí fica fácil. O álbum a ser selecionado, ironicamente, é o único que ele lançou que só leva seu nome artístico, Elton John, como título.

Como grande atrativo inicial, o disco traz Your Song, primeira canção do astro britânico a atingir o top 10 nos EUA e no Reino Unido, chegando mais especificamente ao oitavo posto na terra de Elvis Presley e ao sétimo em seu próprio rincão. Essa doce, emotiva e claramente ingênua balada tornou-se o seu cartão de visitas, aquela canção que Elton não consegue excluir de seu set list sem desagradar e muito seu imenso público.

Esse encantador álbum não conseguiu tal feito por acaso. Uma série de fatores possibilitou que tal disco permitisse ao seu autor ombrear com os grandes nomes da música pop. Até chegar a ele, esse artista genial teve de pagar seus tributos, digamos assim, e não foram poucos. Não faria sentido contar a história deste trabalho sem oferecer ao leitor um resumo do que ocorreu antes de seu surgimento, e é isso que começaremos logo a seguir.

Formação erudita, bares, hoteis e Bluesology

Reginald Kenneth Dwight nasceu em 25 de março de 1947. Com apenas quatro anos de idade, surpreendeu os pais e a avó ao mostrar habilidades precoces no piano. Com o tempo, ficou claro que o rapazinho levava jeito para a música, e ele aos 11 anos de idade começou a estudar aos sábados na prestigiada Royal Academy Of Music, onde permaneceu por cinco anos. No entanto, logo ficou claro para ele que ser um concertista erudito não era o seu sonho.

Aos 15 anos, preferiu tocar em hotéis e bares, inicialmente como pianista solo, e logo a seguir integrando um grupo que fundou com seus amigos, o Bluesology, em 1962. Com o tempo, a banda ganhou musculatura, e além dos shows próprios, também acompanhou artistas americanos de soul music que passavam pela Inglaterra, entre eles Major Lance e Patti Labelle And The Blue Belles.

Com Elton como seu vocalista e pianista, o Bluesology lançou em 1965 o seu primeiro single, Come Back Baby. Outros dois singles viriam até 1966, mas sem grande repercussão. Disposto a ficar o mais próximo possível do cenário da música, Reg (seu apelido) chegou a servir chá na editora musical Mills Music, e nessa época conheceu um jovem brincalhão chamado Caleb Quaye, que adorava fazer bullying com ele por causa de seus quilinhos a mais.

Em setembro de 1966, o cantor Long John Baldry convidou a Bluesology para ser a sua banda de apoio, convite que eles aceitaram. Isso fez com que Dwight se tornasse apenas pianista e eventual compositor do grupo, o que de certa forma o frustrou. Em busca de algum outro rumo, ele viu um anúncio nas páginas do jornal especializado em música New Music Express, publicado em 17 de junho de 1967. Mal sabia que sua vida mudaria a partir dali.

Bernie Taupin, contrato com Dick James e muito trabalho

Após se separar do conglomerado EMI na Inglaterra, o selo Liberty resolveu montar o seu próprio cast, e colocou o anúncio no NME buscando cantores, músicos e similares. Reg Dwight ficou animado e mandou uma carta. Para sua surpresa, foi chamado para uma audição, na qual se mostrou nervoso, cantando músicas do astro country americano Jim Reeves. Aparentemente, não era o cara mais adequado para o novo selo, e não foi selecionado.

No entanto, o responsável por seu teste e um dos homens do A&R (artistas e repertório) da Liberty, Ray Williams, sentiu que havia potencial naquele baixinho gordinho. Antes de se despedir de Reg, ele deu ao jovem um pacote com poemas enviados por um certo Bernard Taupin, e sugeriu como exercício que o pianista tentasse musicar alguns deles.

Nascido em 22 de maio de 1950, apaixonado por cultura pop americana e radicado em um pequeno vilarejo interiorano em Lincolnshire, Bernie também estava em busca de um rumo na vida, e se embrenhou em escrever poemas bem afeitos ao ambiente paz e amor daqueles tempos. Mesmo sem cantar ou tocar um instrumento musical, também respondeu o anúncio do NME, e recebeu como resposta um convite para visitar o escritório da Liberty em Londres.

Umas boas semanas se passaram até que Bernie e Reg se conhecessem. Quando isso enfim ocorreu, o músico contou ao novo amigo que já havia musicado uns 20 daqueles textos. A empatia entre eles foi imediata. Feliz ao ver que conseguiu reunir dois jovens talentos promissores, Ray Williams resolveu indicá-los à editora musical Gralto, criada pelos integrantes da consagrada banda The Hollies e ligada à Dick James Music (DJM).

No início, Reg e Bernie compunham suas músicas e o músico e cantor da dupla as registrava de madrugada, no estúdio da DJM, sem o conhecimento do dono. No entanto, o filho desse dono, Steve James, ouviu as demos, ficou bem impressionado e incentivou seu pai famoso a dar uma chance a eles.

Vale o registro: Dick James foi quem apostou em uma desconhecida banda oriunda de Liverpool e os contratou para editarem suas músicas com ele, na editora criada especialmente para tal fim, a Northern Songs. Sim, eles mesmos, os hoje eternizados Fab Four. Ou seja, era um dos caras mais bem-sucedidos da área. Ele confiou no palpite do filho, ouviu as demos, gostou e convidou aqueles dois jovens para uma reunião.

Contrato com a DJM, os primeiros discos e muito trabalho

Reg Dwight e Bernie Taupin foram para a reunião convocada por Dick James meio ressabiados. Eles pensavam que seriam repreendidos por usarem o estúdio. Aliás, sabe quem tomava conta daquele estúdio? Ninguém menos do que Caleb Quaye, que começava também a investir em uma carreira como guitarrista.

No entanto, os amigos saíram felizes daquele encontro, pois Dick os contratou, no dia 17 de novembro de 1967, para serem compositores residentes da DJM, escrevendo canções e gravando demos (agora em horários mais civilizados…) para serem oferecidas a outros intérpretes, ganhando um salário semanal.

Pouco tempo depois, aquele jovem pianista percebeu que seria duro ir adiante como Reg Dwight, e resolveu criar um nome artístico. Dessa forma, pegou “emprestado” o nome do saxofonista do Bluesology, Elton Dean (que depois tocaria com o grupo progressivo Soft Machine), e o do cantor Long John Baldry, que de certa forma o impulsionou rumo à carreira-solo, e voilá, surgia Elton John.

No início, as coisas não correram muito bem. Apesar de trabalharem muito, os dois amigos não conseguiam agradar a ninguém com suas criações musicais. Steve Brown, um dos funcionários da DJM, percebeu onde estava o problema, e deu um conselho ousado aos garotos: “parem de tentar compor canções pré-fabricadas para os cantores da moda, e façam aquilo que tiverem vontade”.

Foi o pontapé inicial para o surgimento de um trabalho original. O primeiro grande fruto dessa nova estratégia foi Lady Samantha, lançada em compacto simples em janeiro de 1969. Brown foi recompensado virando a partir dali o produtor dos discos de Elton John. A canção teve ótima execução nas rádios britânicas, mas o single não vendeu absolutamente nada, para tristeza geral.

A trajetória de Elton poderia ter tomado outros rumos no início daquele mesmo 1969, quando fez testes para ser o cantor de duas bandas novas com grande potencial, King Crimson e Gentle Giant, mas foi reprovado em ambas. Quem será que perdeu mais, ele ou as respectivas bandas? Nunca saberemos, mas é fato que os três conseguiram desenvolver carreiras de muito respeito. Elton, no entanto, vendeu muito mais discos, sem sombra de dúvidas.

Empty Sky, músico de estúdio e covers

Em 6 de junho de 1969, Elton John lançou o seu primeiro álbum pela DJM, Empty Sky. O disco dava pistas do que viria futuramente, mas ainda apresentava um artista em busca de seu estilo próprio. Mesmo tendo músicas boas como a faixa-título e Skyline Pigeon (que ele regravaria em 1973, em versão que estourou no Brasil), não só passou batido nos charts britânicos como nem sequer chegou a ser lançado no mercado americano naquela época.

Vale o registro detalhista: Empty Sky só saiu nos EUA anos depois de seu lançamento original, e chegou ao 6ª lugar na parada americana. Todas as fontes garantem que esse LP só chegou às lojas americanas em 1975. Curiosamente, a edição americana em vinil que eu tenho, que traz na capa (diferente da que saiu na Inglaterra) um desenho que lembra uma pirâmide, temos 1975 na contra-capa e 1973 no selo do disco. Vacilo dos bons…

Como forma de se manter, o artista não só continuou gravando suas demos e oferecendo músicas a outros artistas como também virou músico de estúdio, marcando presença em diversas gravações. A mais famosa é certamente He Ain’t Heavy He’s My Brother, um dos maiores sucessos dos Hollies e lançada em 1969, na qual ele se incumbiu do marcante acompanhamento de piano.

De quebra, ainda participava como cantor e pianista de gravações de álbuns de covers de sucessos do momento, lançados por selos pequenos que usavam o estratagema de juntar alguns dos maiores hit singles em um único LP, pois as grandes gravadoras na época ainda não faziam isso com as gravações originais. Esses discos não traziam os créditos aos músicos participantes, entre eles o cantor David Byron, que depois integraria a banda Uriah Heep.

Outra curiosidade: Elton e Bernie, toda semana, compravam os mais recentes lançamentos da música pop em LPs e compactos simples, e os dissecavam música a música, letra por letra, em uma espécie de curso intensivo de música pop. A paixão era tanta que o cantor chegou a ser balconista da loja de discos Music Land, no Soho, quando já havia lançado o seu primeiro álbum. Nem é preciso dizer que o dinheiro que ganhava lá virava discos e mais discos…

Novos craques entram no time de Reg Dwight

Ninguém vai adiante na vida se não tiver a ajuda decisiva de algumas pessoas. Elton John não foi diferente. Nesse momento crucial de sua carreira, ele ainda contou com a humildade de Steve Brown. Ao ouvir a demo de algumas das canções que o artista preparava para o que viria a ser o seu segundo álbum, Brown se sentiu pouco qualificado para continuar a produzi-lo, e tomou uma atitude de grande generosidade.

Dessa forma, propôs a Dick James algumas coisas básicas: que ele, Brown, passasse a ser coordenador de produção do novo LP de Elton, contratando um produtor mais experiente e também um arranjador, e que uma pequena orquestra fosse arregimentada para participar das gravações. Dick topou, e Steve Brown foi à luta para achar os nomes ideais.

O primeiro a entrar no projeto foi o arranjador Paul Buckmaster, que se incumbiu do brilhante arranjo para Space Oddity, primeiro hit de David Bowie em 1969. Ao tomar contato com as demos das novas canções de Elton e também ao conhecer o artista, sentiu que o convite era irrecusável.

E quem se incumbiria da produção? Brown sonhou alto: ninguém menos do que George Martin, para muitos o quinto beatle. Ao ser contatado, ele topou, possivelmente por sua relação com Dick James, mas com uma condição: também se incumbiria dos arranjos. Colocado na alternativa de ou ficar com o produtor dos Beatles ou manter Paul Buckmaster no jogo, Steve Brown se mostrou ousado ao preferir a segunda opção.

De quebra, para mostrar que punha fé em Buckmaster, Brown pediu a sugestão de um nome para capitanear aquele projeto. E a dica, que hoje pode parecer óbvia mas na época não soou assim, foi chamar exatamente o produtor que trabalhou com Buckmaster em Space Oddity, Gus Dudgeon. Este, ao ouvir as demos, percebeu que aquela era a chance de sua vida, e bateu o martelo.

Time escalado, mãos à obra

Com Steve Brown, Gus Dudgeon e Paul Buckmaster em suas devidas funções, seguiu-se a escalação dos músicos, e apenas o amigo Caleb Quaye, um dos mais promissores guitarristas britânicos na época, foi mantido do 1º LP, somando-se a Barry Morgan e Terry Cox (bateria), Dave Richmond, Les Hurdie e Alan Weighll (baixo), Colin Green, Clive Hicks, Roland Harker, Frank Clark e Alan Parker (guitarra e violão acústico), Skaila Kanga (harpa), Dennis Lopez e Tex Navarra (percussão), Diana Lewis (sintetizador moog) e Brian Dee (órgão).

Nos backing vocals (comandados por Barbara Moore), Madeline Bell, Leslie Duncan, Kay Garner, Tony Burrows, Tony Hazzard e Roger Cook. Este último merece destaque por ter sido um dos primeiros artistas a gravar composições de Elton John e Bernie Taupin, Skyline Pigeon, e ser o autor (em parceria com Roger Greenaway) de hits como You’ve Got Your Troubles (The Fortunes, em 1965) e I’d Like To Teach The World To Sing (The New Seekers, em 1972).

Além dos músicos de orquestra, outro acréscimo bacana ao projeto foi registrá-lo no Trident Studios, em Londres, aparelhado com muito mais recursos técnicos do que o da DJM e que presenciou gravações dos Beatles, David Bowie e muitos outros artistas desse gabarito. Segundo Paul Buckmaster, o álbum levou exatos 12 dias para ser concretizado, das primeiras gravações à mixagem final, com início no dia 19 de janeiro de 1970.

Além das 10 músicas que entraram na versão original do álbum, outras três foram registradas, e saíram em compactos simples nos meses seguintes. A capa hoje pode ser considerada bem simbólica, pois mostra, em um fundo totalmente escuro, apenas uma parte do rosto daquele jovem gordinho, descabelado e usando óculos com lentes grossas, cujo nome, Elton John, aparecia logo acima, em caracteres pomposos. Clima de mistério…

Elton John, o álbum, faixa a faixa

Your Song– Uma encantadora balada de um romantismo ingênuo e idealista, com um arranjo muito feliz que traz como bela sacada o fato de a seção rítmica só entrar após a primeira execução do refrão, o que ajuda a cativar o ouvinte. O primeiro e inesquecível hit desse grande astro.

I Need You To Turn To– A primeira canção com forte influência erudita do LP, com um jeitão meio medieval gerado pela utilização de um teclado do tipo harpsichord (cravo), e versos que retratam uma relação afetiva de dependência entre os integrantes de um casal.

Take Me To The Pilot– Primeiro momento mais swingado do álbum, uma espécie de funky gospel que se tornou um dos pontos altos dos shows dessa fase inicial de sucesso do astro. Tanto Elton quanto Taupin brincam com o teor vago da letra, dizendo que “se alguém descobrir o significado desses versos, por favor, nos avisem, que nós não temos a mínima ideia”.

No Shoe Strings On Louise– Esta canção meio soul, meio country, mostra forte influência dos Rolling Stones quando abordam essa sonoridade, especialmente em termos vocais. Dá para imaginar Mick Jagger cantando esta deliciosa faixa.

First Episode At Hienton– Cativante balada introspectiva com influência clássica na qual temos uma espécie de nostalgia melancólica referente a alguém que conheceu uma garota ainda jovem, mas que agora a vê já como uma mulher adulta. Belas imagens poéticas.

Sixty Years On– A faixa mais introspectiva e intensa do álbum, com direito a um arranjo absolutamente genial de Paul Buckmaster no qual a orquestra dialoga com a melodia e o vocal de Elton John. Outra letra melancólica divagando sobre uma velhice que curiosamente ainda estava muito distante de Elton e Taupin.

Border Song– Balada gospel com direito a um coral encantador e letra pregando a união e a tolerância sem cair no óbvio. Aretha Franklin a regravaria com muita propriedade naquele mesmo 1970.

The Greatest Discovery– Outra canção na qual o arranjo de Buckmaster se sobressai, em letra que investe na relação entre pais e filhos, no sentido da descoberta da paternidade e seus momentos iniciais.

The Cage– Provavelmente o momento mais roqueiro do álbum, com direito a algumas surpreendentes passagens de teclados eletrônicos.

The King Must Die– O álbum original se encerra com uma balada típica do artista, com uma letra libertária e realista ao mesmo tempo.

A versão em CD lançada em 1995 na série The Classic Years traz três faixas adicionais, oriundas das mesmas sessões de gravações do álbum original:

Rock And Roll Madonna e Grey Seal– lançadas em compacto simples em junho de 1970. A primeira é um rock básico com uso de gravações prévias que tentam dar a falsa impressão de que se trata de um registro feito ao vivo. A segunda é uma balada com belas passagens roqueiras, que seria regravada em 1973 para inclusão no álbum Goodbye Yellow Brick Road (1973).

Bad Side Of The Moon– Saiu como lado B do single Border Song, lançado em março de 1970. Muito boa, costumava fazer parte do set list dos shows de Elton naquela época com uma certa frequência.

Um álbum que demorou, mas enfim teve o sucesso que merecia

Como nada na vida de Elton John veio de bandeja, o sucesso de seu 2º LP seguiu a regra. Saiu na Inglaterra em 10 de abril de 1970, com resposta indiferente de público e crítica inicialmente. Como forma de divulgá-lo, o artista resolveu montar uma nova banda de apoio bem compacta, integrada por ele próprio nos vocais e piano, o baixista Dee Murray e o baterista Nigel Olsson (que havia participado da faixa Lady What’s Tomorrow, do álbum Empty Sky).

O primeiro destaque do trio ocorreu em agosto de 1970 após sua participação no tumultuado festival de Krumlin, em Yorkshire, ganhando novos fãs inclusive na imprensa especializada britânica. Dick James, então, percebeu que precisava pensar em alternativas para divulgar seu artista no mercado mais importante do mundo para a música, o americano, e iniciou negociações com a MCA Records.

Depois de muitas conversas, e com o apoio decisivo do amigo Roger Greenway, o executivo Russ Regan resolveu apostar naquele artista britânico, apesar de inicialmente considerá-lo um pouco “exotérico”. Como forma de apresentá-lo de fato ao público americano, planejou uma série de seis shows em Los Angeles, mais precisamente no Troubadour, badalado local de shows que impulsionou as carreiras de nomes como James Taylor, Carole King e inúmeros outros.

No dia 25 de agosto daquele histórico 1970, uma terça-feira, Elton entrou no palco devidamente anunciado por outro astro do elenco da MCA Records, Neil Diamond. Na platéia, nomes do porte de Quincy Jones, David Crosby, Graham Nash, Henry Mancini e Mike Love (dos Beach Boys). Se previamente se mostrava nervoso, deixou isso pra lá ao começar a tocar e cantar, esbanjando desenvoltura, garra e um talento absurdo.

Foram seis noites naquele mesmo local, com direito a outros nomes famosos para vê-lo, incluindo um de seus ídolos, o cantor, compositor e pianista Leon Russell, integrantes do grupo Bread e vários jornalistas. Um deles, o renomado Robert Hilburn, escreveu uma crítica arrebatadora no Los Angeles Times, classificando-o como o “novo astro do rock”, entre outros elogios.

A seguir, Elton fez mais alguns shows em outras cidades, e deixou no público americano um gostinho de quero mais. O cara estava tão aceso que, em sua volta à Inglaterra, finalizou as gravações de dois novos trabalhos, o álbum Tumbleweed Connection (lançado em outubro no Reino Unido e só em 1971 nos EUA) e a trilha do filme Friends. Ele voltou aos EUA em novembro, quando enfim o LP Elton John havia chegado às lojas de lá, e aumentou ainda mais seu impacto naquelas plagas. A América vai caindo de joelhos perante um novo astro.

A coisa ficou tão quente que ele fez um show no dia 17 de novembro no estúdio do produtor Phil Ramone, perante uma platéia de umas cem pessoas, com transmissão ao vivo via rádio no território americano. O sucesso foi tão grande que no ano seguinte as gravações gerariam um LP, 11.17.70 (na Inglaterra, lançado com o título 17.11.70 e, no Brasil, como Honky Tonk Women, canção clássica dos Rolling Stones que Elton releu com categoria neste show).

Para completar a operação “Elton Estrela”, só faltava uma coisa: lançar Your Song em compacto simples, o que ocorreu no início de 1971. A canção não só vendeu bem nesse formato como deu o impulso final para que Elton John, o álbum, enfim concretizasse o potencial de êxito que sempre demonstrou ter, atingindo o quarto lugar na parada americana e o quinto no Reino Unido. Era só o início de um verdadeiro tsunami de sucessos do hoje Sir Elton John.

Ouça Elton John (1970) em streaming:

Veja o clipe de Your Song, de 1970:

Marc Bolan é homenageado em disco-tributo com estrelas pop

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Por Fabian Chacur

Embora tenha vivido apenas 29 anos, o cantor, compositor e guitarrista britânico Marc Bolan (1947-1977) nos deixou um belíssimo legado. Sua mistura de folk e glitter rock marcou uma época e influenciou gerações de músicos em todo o mundo. Como forma de relembrar e celebrar suas canções, a gravadora BMG lançará no dia 4 de setembro o álbum AngelHeaded Hipster: The Songs Of Marc Bolan & T.Rex. Uma de suas faixas acaba de ser divulgada: Children Of The Revolution, interpretada pela estrelinha pop americana Kesha.

São 26 músicas, relidas por nomes expressivos de diversas eras da música. Um destaque certamente é Bang a Gong (Get It On), relida pelo U2 com participação especialíssima de Elton John no piano, ele que não só era amigo de Bolan como também participou de gravações com o saudoso roqueiro. Jeepster, com Joan Jett, Cosmic Dancer, com Nick Cave, Planet Queen, com Todd Rundgren, e Metal Guru, com Nena, são outros momentos bastante aguardados deste trabalho.

O clipe que divulga Children Of The Revolution mescla cenas de Kesha durante as gravações de sua participação no álbum com outras do filme Born To Boogie (1972), nas quais Bolan aparece tocando com Elton John e Ringo Starr. Outros artistas incluídos no projeto são Julian e Sean Lennon, Marc Almond, Maria McKee, Jessie Harris, Father John Misty e Victoria Williams.

O lado triste dessa bela iniciativa fica por conta do fato de que seu mentor e produtor, Hal Willner (1956-2020), nos deixou no último dia 7 de abril, vítima da Covid-19. Ele tem no currículo a produção de álbuns de artistas como Lou Reed, Marianne Faithfull, Victoria Williams e Allen Ginsberg, além de promover tributos discográficos a Nino Rota, Thelonius Monk, Kurt Weill e Charles Mingus e atuar na produção musical do programa Saturday Night Live.

O título do álbum foi extraído do célebre poema Howl, de Allen Ginsberg, e as gravações levaram alguns anos para serem concretizadas, tendo como locais estúdios localizados em Nova York, Los Angeles, Nova Orleans, Londres, Paris e Berlim. Músicos como Donald Fagen, Mike Garson, Bill Frisell, Wayne Kramer e Van Dyke Parks também participaram de algumas dessas sessões de gravação.

Children Of The Revolution (clipe)- Kesha:

Elton John lança uma parceria com o duo americano Surfaces

elton john + surfaces 400x

Por Fabian Chacur

Em 2017, os amigos Forrest Frank (vocal e guitarra) e Colin Padalecki (teclados, composições e arranjos) resolveram iniciar uma parceria musical. Nascia o Surfaces, duo que aos poucos vai conquistando bons espaços na cena pop atual. A prova de que a brincadeira começou a ficar séria ocorre agora, quando eles lançam o single Learn To Fly, que conta com a participação mais do que especial de ninguém menos do que Elton John. Eles explicam como surgiu a oportunidade para essa parceria tão especial:

“Depois que gravamos a demo, ela ficou meio que flutuando por aí, até que chegou às mãos de Elton John, que quis fazer parte da faixa. Depois de uma série de sessões em estúdio via Zoom, nós conseguimos gravar juntos em quarentena. Trabalhar com Elton John nos promoveu uma sensação comparável a da ideia de ganhar um Grammy. Ele é tão apaixonado e motivado, nós não poderíamos ter desejado uma colaboração mais fácil do que essa. Nós esperamos que essa canção possa espalhar amor nesse momento em que o mundo tanto precisa, e que possa inspirar as pessoas a abrirem seus corações”.

Sempre atento ao surgimento de novos talentos e disposto a colaborar com essas revelações da música, Elton também comentou sobre a parceria, no mesmo press release enviado à imprensa pela gravadora Universal Music:

“Eu ouvi Sunday Best pela primeira vez na Austrália e eu amei a música, portanto, eu fiquei surpreso quando esses caras vieram até mim e pediram que eu cantasse e tocasse um pouco de piano em Learn To Fly. Eu amei a canção e a produção da faixa que eles me enviaram. Nós gravamos via Zoom em Los Angeles e fui super legal trabalhar em uma gravação não-autoral. Esses meninos são incríveis e nos divertimos muito trabalhando em colaboração”.

Sunday Best (ouça aqui), a canção a que Elton se refere, é faixa do 2º álbum do Surfaces, Where The Light Is (2019), e tornou-se um grande sucesso mundial este ano, invadindo as paradas de sucesso com sua levada leve e pra cima.

Colin e Forrest lançaram três álbuns até o momento: Surf (2017), Where The Light Is (2019) e Horizons (que saiu em fevereiro deste ano). Em tempos tão pesados e inseguros como os atuais, a música do Surface soa como uma espécie de refresco sonoro, com seus vocais delicados, melodias bem concatenadas e variações rítmicas de quem sabe prender o seu ouvinte com categoria.

Entre as várias faixas que lançaram nesses três anos de atividade, bons exemplos desse verdadeiro pop ensolarado são a new bossa eletrônica Good Day (ouça aqui), o reggae Lazy (ouça aqui), a deliciosa r&b Keep It Gold (ouça aqui).

Valendo-se dos mais modernos recursos eletrônicos, mas também explorando sonoridades vintages de instrumentos típicos do pop dos anos 1980, os amigos americanos oriundos do estado do Texas provam que tem potencial para ir longe. Sunday Best atingiu até agora a 19ª posição na parada pop americana, e Learn To Fly pode levá-los a um patamar superior nos charts.

Curiosidade: esta última traz um pequeno trecho melódico que lembra Sukiyaki, hit que chegou ao primeiro lugar nos EUA em 1963 com o cantor japonês Kyu Sakamoto e ao 3º lugar, em versão em inglês, com o A Taste Of Honey em 1980. O trecho é o mesmo que inspirou, consciente ou inconscientemente, Tudo Bem, hit em 1985 com Lulu Santos, aquela do “nem sempre é so easy se viver”.

Learn To Fly (lyric video)- Surfaces + Elton John:

Elton John comemora 70 anos com um evento beneficente

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Por Fabian Chacur

Elton John comemora 70 anos de idade neste sábado (25). Como forma de unir o útil ao agradável, ele realizará nessa data um evento de gala que celebrará não só essa efeméride, mas também os 50 anos da incrível parceria com o poeta e letrista Bernie Taupin, iniciada em 1967. A cerimônia terá apresentação do ator Rob Lowe e performances musicais de convidados como Lady Gaga.O local é o Red Studio, em Los Angeles.

O bacana é que toda a arrecadação será destinada à Elton John Foundation (EJAF), que assiste vítimas e entidades que ajudam a combater e a apoiar as vítimas da Aids desde 1993, e o The Hammer Museum, da UCLA (Universidade da Califórnia), que abriga exposições e apoia a arte. Nada mais lógico para um artista que durante toda a sua carreira sempre teve como marca o auxílio a causas nobres das mais diferentes origens, sempre de forma generosa e sincera.

Os números que envolvem a carreira deste cantor, compositor e músico britânico são impressionantes. Ele vendeu mais de 250 milhões de álbum em todo o planeta. Teve 58 singles entre os 40 mais vendidos nos EUA, fez mais de 3.500 shows em mais de 80 países, faturou 12 troféus Ivor Novello, 6 Grammys, um Oscar e um Tony, além de ser membro do Rock And Roll e do Songwriters Hall Of Fame, e ter o título de sir e também o de Cavaleiro de Sua Majestade, a Rainha Elizabeth II.

Elton John nos visitou para shows pela primeira vez em 1995, e já tem datas marcadas para retornar ao nosso país. Ele fará shows, junto com James Taylor, em Curitiba (31/3- Pedreira Paulo Leminski- Curitiba), 1º/4 (Praça da Apoteose- Rio), 4/4 (Anfiteatro do Beira Rio- Porto Alegre) e 6/4 (Allianz Parque- São Paulo).

Leia o belo depoimento de Elton enviado à imprensa em comunicado pela sua gravadora, falando sobre seus planos para o futuro:
“Estou interessado em avançar o tempo todo, com o que eu crio, com as minhas colaborações, e também descobrindo o trabalho de outras pessoas. Acho que a idade é irrelevante, desde que possamos manter nossa mente viva e aberta para o novo. Eu posso ficar empolgado por um artista novo que toca para mim o seu demo como posso ficar com um novo álbum de um dos meus heróis musicais. Eu posso ficar empolgado ao me apresentar em uma nova cidade onde nunca toquei antes, ou revisitando um lugar que conheço bem e ver como ele está mudado. A vida está em um constante estado de fluxo para todos nós, e eu gosto de abraçar isso. Também me sinto muito feliz em usar o meu nome para chamar atenção para a injustiça no mundo e para tentar ajudar sempre que possível. Atualmente, estou mais feliz do que jamais estive.”

Quer ler diversas outras matérias de Mondo Pop sobre esse verdadeiro gênio da música pop? Entre aqui .

Veja o emocionante vídeo em homenagem aos 70 anos de Elton John:

Leonard Cohen e Leon Russell gravaram com Sir Elton John

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Por Fabian Chacur

2016 tem sido um ano absurdamente triste para os fãs de boa música. As perdas são absurdas, e mais duas se somam a tantas outras ocorridas até o momento. São as do cantor, compositor e poeta canadense Leonard Cohen e do cantor, compositor e músico americano Leon Russell, dois artistas que nos deixaram legados de valor incalculável. Ambos tem algo em comum: são ídolos e trabalharam com ninguém menos do que Sir Elton John.

A parceria do autor de Goodbye Yellow Brick Road com Leon Russell ocorreu em 2010, com o lançamento do álbum The Union. Um trabalho histórico por várias razões, entre outras o fato de ter sido o primeiro CD que Elton dividiu inteiro com outro artista, e por ter resgatado de um recente anonimato um grande artista. The Union (leia a crítica de Mondo Pop aqui) equivale a uma verdadeira aula de música, e concretizou o sonho de Elton, que sempre citou Russell como um de seus ídolos e grande influência musical. Chegou ao nº 3 nos EUA. Uau!

O álbum com o fã ilustre ajudou a resgatar Leon Russell. Nascido nos EUA em 2 de abril de 1942, ele se tornou conhecido inicialmente como um excepcional músico de estúdio, tocando piano e teclados em trabalhos de artistas diversos, entre os quais The Beach Boys, Jan & Dean, Bob Dylan e inúmeros outros. O estouro de sua composição Delta Lady, gravada por Joe Cocker, ajudou a abrir caminhos para uma atuação mais destacada como artista solo e sideman.

Como diretor musical e pianista, ele esteve ao lado de Joe Cocker no álbum duplo Mad Dogs And Englishmen (1970), registro de uma turnê que é considerada por gente do alto gabarito de Kid Vinil como uma das mais marcantes da história, e na qual Russell aparece com grande destaque. Ele gravou vários discos solo de sucesso nos anos 1970, e viu canções de sua autoria como Superstar, Delta Lady e a Song For You serem regravadas por inúmeros outros artistas.

Leonard Cohen também entrou na discografia de Elton John na base do dueto. Neste caso específico, em uma única faixa, Turn To Lose, incluída no álbum Duets, no qual o astro britânico gravou canções alheias de sua preferência ao lado de diversos amigos famosos do porte de Little Richard, Don Henley, Gladys Knight e George Michael. Vale lembrar que o astro britânico dos mil óculos participou do álbum tributo Tower Of Song- The Songs Of Leonard Cohen, interpretando I’m Your Man.

Nascido no Canadá em 21 de setembro de 1942, Leonard Cohen iniciou sua carreira no mundo das artes como poeta, tendo lançando seu primeiro livro em 1956 (Let Us Compare Mythologies). Ele entrou no cenário musical em 1967 como álbum Songs Of Leonard Cohen, no qual se sobressaíam suas canções introspectivas, com letras profundas conduzidas por uma voz grave e fora dos padrões do pop-rock da época.

Com o tempo, não se tornou um vendedor de milhões de discos ou teve suas músicas tocando o dia todo nas rádios, mas ganhou um fã-clube fiel, composto por inúmeros nomes famosos. A diversidade desses artistas influenciados por ele pode ser bem exemplificada por dois álbuns celebrando sua obra. Um é I’m Your Fan- The Songs Of Leonard Cohen (1991), que traz astros do rock alternativo como R.E.M., Lloyd Cole, Pixies, John Cale e Ian McCulloch.

Por sua vez, Tower Of Song- The Songs Of Leonard Cohen (1995) inclui um elenco de nomes mais afeitos ao mainstream, do porte de Elton John, Sting, Willie Nelson, Peter Gabriel e Suzanne Vega. Canções como Suzanne, So Long Marianne, Tower Of Song, Bird On The Wire, I’m Your Man e Sister Of Mercy são campeãs de regravações. Hallelujah entrou até em trilha de novela e em reality show musical! Universalidade perde. Seu mais recente álbum, You Want It Darker, saiu há poucos dias, e tem a morte como tema principal.

Born To Lose– Elton John & Leonard Cohen:

Elton John retoma suas raízes no CD Wonderful Crazy Night

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Por Fabian Chacur

Uma das marcas de Elton John era sempre gravar seus discos com os músicos que o acompanham em shows, com raras exceções, como o álbum Victim Of Love (1979). Ele quebrou essa tradição nos CDs The Union (2010), gravado em parceria com Leon Russell, e The Diving Board (2013). Pois ele acaba de retomar esse costume em seu recém-lançado Wonderful Crazy Night. E com muita classe, por sinal.

Com dez músicas em sua versão standard e quatro adicionais na ainda inédita no Brasil super deluxe edition (são elas Free And Easy, Children’s Song, No Monsters e England And América), Wonderful Crazy Night é um trabalho no qual o consagrado cantor, compositor e pianista deixa de lado os flertes com outras tendências que vez por outra realiza para investir na sonoridade que o consagrou. Sem surpresas para quem o acompanha, mas também sem decepções, no geral.

A festa começa com a excelente faixa título, rock balançado com clima de New Orleans (Dr. John, Allen Touissaint). In The Name Of You tem levada funkeada, e traz o espírito do incrível álbum Rock Of The Westies (1975). Claw Hammer conta com um clima meio misterioso e envolve com classe o ouvinte. A balada Blue Wonderful vem a seguir e tem a cara das canções românticas de Elton nos anos 1980.

I’ve Got 2 Wings tem um leve tempero country e vocação pop. A Good Heart é aquela balada de fato, mais lenta e com bela melodia. Looking Up é um pop rock dançante delicioso com direito a belíssimas passagens de piano e guitarra. Guilty Pleasure segue os cânones do rock básico, com direito a belos riffs de guitarra. Tambourine é uma balada pop leve, e The Open Chord encerra o álbum novamente soando anos 1980.

Vale elogiar o trabalho costumeiramente impecável de Davey Johnstone (guitarra), Nigel Olsson (bateria) e Ray Cooper (percussão), que tocam com Elton John há mais de 40 anos. Os recrutas mais recentes John Mahon (percussão), Matt Bissonette (baixo) e Kim Bullard (teclados) também se mostram muito competentes na missão de dar ao álbum uma sonoridade consistente e personalizada.

Se não tem mais a mesma potência sonora dos bons tempos, a voz de Elton John ainda consegue desempenhar a contento. O novo CD prova que, às vésperas de completar 69 anos (o que ocorrerá no próximo dia 25 de março), o autor de Goodbye Yellow Brick Road continua disposto a oferecer novas e boas canções aos seus milhões de fãs. Isso, mesmo sendo dono de um verdadeiro e extenso arsenal de hits. Acomodação definitivamente não é com ele.

Wonderful Crazy Night (live)- Elton John:

Looking Up (live)- Elton John:

In The Name of You– Elton John:

Smokey Robinson relê hits ao lado de amigos bem famosos

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Por Fabian Chacur

Smokey Robinson é o tipo do artista que merece a alcunha de lenda viva. E não é para menos. Um dos fundadores da Motown Records ao lado de Berry Gordy, ele é um cantor excepcional, compositor repleto de clássicos no currículo e uma das figuras mais simpáticas do meio musical. É o seu legado que é celebrado neste excelente Smokey & Friends (Universal Music), no qual relê 11 de suas canções mais famosas ao lado de amigos bastante conhecidos. Uma aula de música pop.

Com produção a cargo do experiente Randy Jackson, que muitos conhecem como um dos jurados do reality show musical American Idol, Smokey & Friends apresenta cada canção com classe, sendo que os convidados não escondem a emoção de gravar com um cara que foi considerado o grande poeta da música pop por ninguém menos do que Bob Dylan, e que foi homenageado por George Harrison (um beatle!) na bela música Pure Smokey, de 1976.

O CD abre com tudo, em dueto com Elton John na sublime The Track Of My Tears. Steven Tyler, do Aerosmith, é o convidado em You Really Got a Hold On Me, que muita gente conheceu na bela regravação dos Beatles e cuja versão original é do grupo que consagrou o astro da Motown, Smokey Robinson & The Miracles. Os garotões Miguel, Aloe Blacc e JC Chasez fizeram bonito em My Girl, aquela maravilhosa canção imortalizada pelos Temptations.

Cruisin’, um dos momentos mais bem-sucedidos da carreira solo de Smokey Robinson, aparece aqui em dueto com Jessie J. John Legend incorporou bem a ótima Quiet Storm, canção tão importante e influente que deu nome a um tipo de programação de rádio nos EUA dedicado a canções de black music ao mesmo tempo suaves e intensas.

O habitualmente exagerado CeeLo Green aparece mais contido e estiloso ao lado de Smokey na releitura de The Way You Do The Things You Do, lançada pelos Temptations nos anos 60 e com uma belíssima gravação do grupo britânico UB 40 nos anos 1980. A diva Mary J. Blige dá um banho em Being With You, enquanto James Taylor se entrosa às mil maravilhas com o dono da festa na ótima Ain’t That Peculiar.

Sheryl Crow é a parceira do homenageado na maravilhosa The Tears Of a Clown, enquanto a ótima Ledisi mostra muita personalidade na intensa Ooh Baby Baby. O álbum é encerrado com uma releitura bem pra cima de Get Ready, sucesso com os Temptations e o Rare Earth, desta vez na voz de Gary Barlow, conhecido como integrante da boy band Take That.

Smokey & Friends atingiu o 12º lugar na parada americana logo na semana de seu lançamento por lá, o melhor desempenho de um álbum do artista. Nada mais merecido, pois aos 74 anos seu falsete continua único, e o entrosamento que demonstrou com os amigos convidados para esse projeto é coisa de quem sabe unir arte e profissionalismo em doses perfeitas. Uma delícia de CD!

The Track Of My Tears – Smokey Robinson e Elton John:

You Really Got a Hold On Me- Smokey Robinson e Steven Tyler:

Reedição de CD de Elton John deixa a desejar

Por Fabian Chacur

Goodbye Yellow Brick Road (1973) marca um dos momentos mais inspirados da carreira desse verdadeiro gênio da música pop e do rock que atende pelo nome artístico de Elton John. Figurinha fácil entre os melhores álbuns de todos os tempos, essa obra-prima acaba de ser relançada no Brasil pela Universal Music em edição comemorativa de seus 40 anos de existência. Uma reedição que poderia ser bem melhor.

O álbum duplo é na verdade uma espécie de edição resumida de um pacote mais extenso e só disponível em edição importada. Nesta box set, foram incluídos um CD com versão remasterizada do álbum original, dois CDs com o conteúdo do show realizado pelo astro em dezembro de 1973 no Hammersmith Odeon, em Londres, um quarto CD com nove releituras de faixas do álbum por artistas atuais e também lados B e gravações lançadas originalmente em singles, e um DVD.

Este DVD inclui o especial Elton John Say Goodbye To Norma Jean And Other Things, feito em 1973 e no qual Elton e seus músicos falam sobre o álbum recém-lançado e também sobre a carreira até ali. O pacote ainda traz um livreto com 100 páginas contendo fotos e entrevistas. Um pacote repleto de novidades para atiçar a curiosidade dos fãs mais detalhistas da parceria Elton John e seu letrista genial Bernie Taupin.

No álbum duplo (também lançado lá fora), temos apenas a versão remasterizada do disco original e um segundo CD com as regravações dos hits de Elton e 9 das 18 faixas do álbum ao vivo. A embalagem digipack é belíssima, mas o encarte incluído traz apenas um ótimo texto sobre o álbum, omitindo as letras e as artes feitas para cada música contidas no lançamento original. Ter o disco sem esse encarte é tê-lo de forma mutilada.

Ou seja, esse álbum duplo acaba sendo apenas um aperitivo para o colecionador, e inadequado para quem não tem o disco original. Nesse caso, é preferível comprar uma versão simples do disco, com o encarte completo. Uma boa solução, neste último ponto, teria sido fazer como na reedição de Quadrophenia, do The Who, lançado pela mesma gravadora, que contém dois encartes, um com as letras e ficha técnica e outra contando a história do álbum.

As faixas gravadas ao vivo são excelentes, e flagram Elton acompanhado por sua incrível banda de apoio, da qual fazem parte Davey Johnstone (guitarra, com ele até hoje), Nigel Olsson (bateria, também na banda até os dias atuais), o saudoso Dee Murray (baixo) e o endiabrado Ray Cooper (percussão). Melhor seria lançar as 18 faixas em um álbum-duplo à parte.

Embora produzidas pelo consagrado Peter Asher (James Taylor, Linda Ronstadt, 10.000 Maniacs etc) em parceria com o próprio Elton John, as nove faixas com artistas atuais não acrescentam nada às gravações originais e perdem de goleada para as mesmas, com artistas insossos como Ed Sheeran, Hunter Hayes, Miguel, Imelda May e Fall Out Boy. De novo, teria sido melhor ampliar o elenco e lançar um disco-tributo ao álbum de forma individual.

Seja como for, vale ressaltar a importância e a qualidade musical desse álbum, que mais parece uma coletânea, ao incluir tantos hits, entre os quais a faixa título, Saturday Night’s Alright For Fighting, Candle In The Wind, Roy Rogers, The Ballad Of Danny Bailey(1909-34) e Benny And The Jets. Tipo do disco que não pode faltar na coleção de quem é fã do melhor rock e da melhor música pop. Elton John rules!

Goodbye Yellow Brick Road em detalhes

(*) O álbum saiu no Brasil em 1973 no formato LP simples, com apenas 10 das 17 faixas contidas no disco original. Eis a ordem: Lado AGoodbye Yellow Brick Road, This Song Has No Title, Harmony, Funeral For a Friend, Love Lies Bleeding. Lado B: Roy Rogers, Grey Seal, Candle In The Wind, Your Sister Can’t Twist (But She Can Rock ‘N’ Roll), Saturday Night’s Alright For Fighting. As faixas restantes foram sendo lançadas aos poucos nos anos seguintes pela hoje extinta gravadora RGE em compactos simples, duplos e em compilações feitas especialmente para o mercado nacional.

(*) A faixa Social Disease conta com a participação especial de Leroy Gomez tocando saxofone. Esse artista ficaria mais conhecido em 1977 ao ser vocalista principal no primeiro álbum do grupo de disco music Santa Esmeralda. É dele a voz na gravação de Don’t Let Me Be Misunderstood que invadiu as pistas de dança de todo o mundo.

(*) A faixa All The Girls Love Alice traz backing vocals de Kiki Dee. Sim, a mesma que, em 1976, gravaria em dueto com Elton John a música Don’t Go Breaking My Heart, que curiosamente durante muitos anos foi a única no formato single do astro a atingir o número 1 na Inglaterra. Essa escrita seria quebrada em 1990, quando Sacrifice chegou ao topo por lá.

(*) A única música não inédita do álbum é The Grey Seal, lançada originalmente em 1970 como lado B do single Rock And Roll Madonna. Aqui, ela aparece em uma regravação. A versão original aparece como faixa-bônus de uma reedição de 2003 do álbum e também do box set lançado este ano pela Universal Music no exterior.

(*) Elton John pretendia gravar Goodbye Yellow Brick Road na Jamaica, inspirado pelos Rolling Stones, que fizeram isso com seu álbum Goats Head Soups (1973). Ele e sua banda foram para lá e até começaram a trabalhar, mas não demorou para que ficasse claro a impossibilidade de se realizar o trabalho pelas condições precárias dos estúdios. Aí, ele viajaram para a França e gravaram no mesmo castelo onde foi registrado o célebre Honky Chateau (1972). A faixa Jamaica Jerk-Off é inspirada nessa passagem desastrada, e é creditada ironicamente a “Reggae Dwight e Toots Taupin”.

(*) O encarte do álbum original traz ilustrações para cada canção, feitas por David Larkham, Michael Ross e David Scutt, sendo que a ilustração da capa leva a assinatura de Ian Beck. A de Dirty Little Girl lembra Janis Joplin, embora não tenha sido ela a inspiração para a canção.

(*) Candle In The Wind, a arrepiante homenagem a Marilyn Monroe, fez sucesso em três décadas consecutivas. Primeiro, nos anos 70, em sua versão original incluída em Goodbye Yellow Brick Road e lançada em compacto simples. Em 1987, a canção estourou nos EUA em gravação ao vivo com orquestra extraída do álbum duplo Live in Australia with the Melbourne Symphony Orchestra. O terceiro boom da canção ocorreu em 1997, quando o artista a regravou desta vez dedicando-a à “English Rose”, no caso a Princesa Diana, grande amiga dele e morta em um trágico acidente de carro. Lançada no formato single, tornou-se um fenômeno de vendas.

(*) A história deste álbum pode ser conferida no DVD Classic Albums-Goodbye Yellow Brick Road, lançado em 2001 pela Eagle Rock e no Brasil pela extinta ST2. O documentário é repleto de detalhes, com direito a entrevistas com Elton John, Bernie Taupin e os músicos e produtores envolvidos na realização deste álbum maravilhoso.

Saturday Night’s Alright For Fighting, com Elton John:

Documentário Elton John Say Goodbye To Norma Jean And Other Things:

Elton John lança o setentista The Diving Board

Por Fabian Chacur

Elton John é daqueles artistas raros no mundo da música pelo fato de possuir uma obra extensa e repleta de êxitos em termos artísticos e comerciais. Aos 66 anos de idade, continua mais ativo do que nunca, como prova o lançamento de mais um álbum de inéditas, The Diving Board. Pode não ser o seu melhor trabalho, mas é bastante respeitável, com direito a algumas músicas muito interessantes.

Comecemos a análise pelas peculiaridades. A primeira é a ausência dos músicos Davey Johnstone (guitarra) e Nigel Olsson (bateria), presença constante em seus álbuns desde os anos 70 e também nos shows (tocaram com ele no Brasil em seu show realizado no último mês de fevereiro, por exemplo). Em seus lugares, músicos de estúdio, entre os quais o baixista e produtor Raphael Saadiq (ex-Tony!Toni!Toné) e o guitarrista Doyle Bramhall II (conhecido por seus trabalhos com Eric Clapton).

A sonoridade do álbum remete aos discos iniciais de Elton no setor baladas, com influências de gospel e música clássica e clima ora introspectivo, ora soul que marcaram álbuns como Elton John (1970) e Madman Across The Water (1971). São músicas com menos apelo pop do que os grandes hits do astro britânico, mas consistentes e repletas de espaços para o piano.

Aliás, o ponto alto do autor de Rocket Man neste álbum é mesmo o piano, com direito a arranjos fluentes, envolventes e caprichados em cada música. O ponto negativo fica por conta da voz do mestre, que nos últimos 13 anos perdeu boa parte de sua cristalinidade dos bons tempos, tornando-se mais áspera e menos melódica, algo bem nítido, por exemplo, na faixa My Quicksand. Ao vivo, essa deficiência se mostra ainda mais evidente.

Mesmo assim, o álbum nos traz momentos muito bacanas, como A Town Called Jubilee, Take This Dirty Water, Voyeur, Home Again e Mexican Vacation (Kids In The Candlelight). Em algumas canções, os backing vocals ajudam a dar uma disfarçada no timbre “pato rouco” do Elton John atual, dando uma roupagem inclinada para a gospel music tradicional, praia em que ele sempre mostrou talento.

A edição lançada no Brasil, em belíssima capa digipack que não inclui uma única foto do músico, tem quatro faixas bônus: a inédita Candlelit Bedroom e versões ao vivo de Home Again, Mexican Vacation (Kids In The Candlelight) e The New Fever Waltz. The Diving Board é um disco à altura do mito Elton John, e certamente agradará muito seus fãs mais fieis, embora provavelmente não lhe traga novos entusiastas. Uma obra para conhecedores que se disponham a ouvir mais de uma vez para ir aos poucos descobrindo suas belas filigranas.

Veja Elton John ao vivo no Brasil em fevereiro de 2013:

Elton John e Pnau lançam melhor CD do ano

Por Fabian Chacur

Elton John voltou a emplacar um álbum no primeiro posto da parada britânica após 22 longos anos. Mas há uma grande diferença entre o trabalho que conseguiu tal façanha anteriormente, Sleeping With The Past, comparado ao atual, Good Morning To The Night, que na verdade é creditado a Elton John VS Pnau e acaba de sair no Brasil via Universal Music.

Sleeping With The Past é um CD irregular e que tinha como destaque a xaroposa balada Sacrifice, grande sucesso comercial mas bem longe de ser uma das melhores músicas desse verdadeiro gênio da música pop.

Por sua vez, Good Morning To The Night se trata não só de um álbum excepcional, como também marca uma colaboração entre ele e o duo australiano Pnau, do qual você, leitor, provavelmente nunca ouviu falar. Pois vamos lá. Criado em Sidney, Austrália, e integrado por Nick Littlemore (vocal e produção) e Peter Mayes (guitarra e produção), a dupla lançou seu primeiro álbum, Sambanova, em 1999.

Desde o início, o duo se destacou pelo fato de construir suas músicas baseando em trechos de obras alheias. Em 2007, seu álbum intitulado Pnau recebeu grandes elogios por parte de Elton John, que não só fez muita propaganda gratuita da banda como começou a planejar um projeto em parceria com eles.

Littlemore e Mayes, que tem também outro projeto paralelo, o Empire Of The Sun (que já lançou dois álbuns), tiveram acesso a todas as fitas masters das gravações originais das músicas do autor de Candle In The Wind, com a liberdade de fazer o que quisessem. E o resultado não poderia ter sido melhor.

Os músicos mergulharam especialmente na discografia do cantor, compositor e tecladista britânico gravada durante os anos 70, sem dúvidas o seu período áureo, e de lá extraíram o material que gerou oito novas obras.

Cada nova canção é oriunda de trechos de diversas outras. Tipo quatro compassos de uma, o riff instrumental de outra, a passagem instrumental em outra rotação de mais outra e assim por diante. Para juntar tudo, criaram algumas partes instrumentais e vocais adicionais (tudo bem, rimou, mas vai ficar assim mesmo!).

Já sei o que você deve estar pensando. “Isso deve ter gerado um verdadeiro ‘rock do australiano doido’, um ‘frankenstein pop mais apavorante do que o monstro criado pela escritora Mary Shelley”.

No entanto, o resultado saiu absolutamente fantástico. Os australianos demonstraram um talento de verdadeiros ourives, valendo-se de trechos de canções já maravilhosas na origem com sensibilidade e bom senso, mostrando que nenhum método de trabalho na arte pode ser rejeitado de antemão.

Para quem, como eu, conhece bem o repertório de Elton John, foi extremamente divertido ouvir cada música e reconhecer de onde vinha cada um de seus trechos. Aliás, foi uma vírgula, continua sendo, pois cada nova audição permite descobrir mais elementos escondidos aqui e ali, várias vezes encaixados de forma totalmente inesperada.

No caso de quem não tem esse conhecimento, a coisa é provavelmente ainda melhor, pois as faixas fluem de forma deliciosa, soando como se fossem mesmo canções feitas originalmente no formato habitual.

O álbum é bem diversificado e bom de se ouvir, com direito a canções bem balançadas como Good Morning To The Night, Sad e Phoenix (a minha favorita), a quase reggae Black Icy Stare, a balada atmosférica Foreign Fields, a baladona soul Telegraph To The Afterlife, o rock soul a la sixties Karmatron e a instrumental sinfônica Sixty.

Sim, espertinho, você percebeu que eu citei as oito faixas do álbum, pois esse trabalho é bom como um todo. E o bacana é que Littlemore e Mayes não se limitaram a usar trechos de grandes hits. Pelo contrário. Eles resgataram diversas pérolas preciosas que apenas quem curte Elton de forma mais detalhista conhecem.

Good Morning To The Sky é a prova material de que é possível ser inventivo e criar material com forte apelo comercial ao mesmo tempo. Para mim, um dos melhores álbuns lançados em 2012, se não for o melhor.

Conheça as músicas de Elton John que tiveram elementos utilizados pelo Pnau em cada faixa de Good Morning To The Night:

– Good Morning To The Night: Philadelphia Freedom, Mona Lisa And Mad Hatters, Funeral For a Friend, Tonight, Gulliver/It’s Hay Chewed, Sixty Years On (Live in Australia), Goodbye Yellow Brick Road e Someone Save My Life Tonight.

-Sad: Nice And Slow, Crazy Water, Curtains, Sorry Seems To Be The Hardest Word e Friends.

-Black Icy Stare: Cold Highway, You’re So Static, Solar Prestige a Gammon.

-Foreign Fields: Pink, Someone Saved My Life Tonight, High Flying Bird, Sweet Painted Lady, Cage The Songbird e Chameleon.

– Telegraph To The Afterlife: Harmony, We All Fall In Love Sometimes, Funeral For a Friend, Sweet Painted Lady, I’ve Seen That Movie Too, Love Song e Indian Sunset.

-Phoenix: Grey Seal, Are You Ready For Love, Benny And The Jets, Someone Saved My Life Tonight, Where To Flow St Peter?, Love Lies Bleeding, Border Song, Country Love Song e Three Way Love Affair.

– Karmatron: Madman Across The Water, Funeral For a Friend, The Ballad Of Danny Bailey (1909-1934), Tonight, One Horse Town e Screw You.

-Sixty: Sixty Years On, Sixty Years On (Live In Australia), Sixty Years On (Live 17.11.70) e Indian Sunset.

Clipe de Sad, com Elton John VS Pnau:

Ouça Good Morning To The Night, com Elton John VS Pnau:

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