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Guca e Laert mostram núcleo essencial do Língua de Trapo

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Por Fabian Chacur

Um é o único sujeito que teve a coragem de permanecer no time durante toda a sua existência. O outro pulou fora no comecinho, mas se manteve por perto como figura essencial e onipresente, e que acabou retornando nos últimos tempos. Eles são respectivamente Laert Sarrumor (de óculos na foto) e Guca Domênico, e o grupo em questão é o lendário Língua de Trapo. Em dupla, eles se apresentam nesta sexta (23) às 21h30 em São Paulo no Tupi or Not Tupi (rua Fidalga, nº 360- Vila Madalena- fone 0xx11-3813-7404), com ingressos custando R$ 60,00.

Há quase 40 anos, esses caras criaram o Língua de Trapo na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, onde cursavam jornalismo. Guca acabou optando por outros projetos e saiu fora logo, mas algumas de suas composições foram gravadas e tocadas ao vivo pelo grupo, que teve em Laert o seu líder. Figura de proa da geração Lira Paulistana/Vanguarda Paulista, o grupo se notabilizou por uma mistura incrível de vários estilos musicais aliados a letras de um humor ácido e inteligente.

Se não vendeu milhões de discos nem se tornou presença constante na grande mídia, o Língua conseguiu consolidar uma carreira que gerou sete ótimos álbuns e shows sempre lotados, nos quais conseguiu a façanha de fazer humor politicamente incorreto sem ser grosseiro ou ofensivo. Seu álbum mais recente é o ótimo O Último CD da Terra (2016, leia a resenha de Mondo Pop aqui).

Após investir em uma carreira solo e também em outros projetos de vida, Guca voltou ao grupo nesta década, em shows e no mais recente álbum. Neste show, ele toca violão e canta, enquanto Laert se incumbe de vocais e “filosofia”. No repertório, teremos clássicos do Língua, novidades e também o resgate de material do início da carreira da banda. Com esses dois doidos no palco, tudo é possível, podem ter certeza (leia a resenha de um show do Língua em 2013 aqui).

Língua de Trapo- show na íntegra (2013):

Língua de Trapo destila o seu humor único em “último” CD

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Por Fabian Chacur

Existem inúmeras maneiras de se fazer música, todas válidas e capazes de render bons frutos. Há longos 36 anos, o Língua de Trapo resolveu criar a sua, única e facilmente reconhecível por quem os acompanha nessa trajetória mais do que peculiar. Em plena forma, o combo capitaneado pelo impagável Laert Sarrumor volta ao mundo fonográfico com O Último CD da Terra (Gênesis/Arlequim), que mantém o alto padrão de qualidade de sempre. E olha que a espera foi longa!

Trata-se do primeiro álbum da banda desde ao vivo 21 Anos na Estrada (2001), e o primeiro de inéditas desde o longínquo ano de 1992, quando Brincando Com Fogo chegou às lojas. Valeu a espera. Melhor lançar poucos e bons trabalhos do que enfiar abacaxis azedos goela abaixo do público, como muitos fazem por ai. E ao menos os caras continuaram com os shows, sem a frequência desejável mas sempre com categoria.

E o que seria essa tal fórmula própria de se fazer música implementada pelos “linguistas”? Trata-se de uma incrível mistura de ritmos musicais, indo do mega-brega ao mega-chique, passando por literalmente tudo. E tudo significa chorinho, jazz, rock, jovem guarda, blues, heavy/hard rock, country, folk, samba, brega de todos os tipos, romantismo… O que amarra isso tudo é um humor que consegue a façanha de ser cáustico, ácido e virulento, sem no entanto cair na tentação politicamente incorreta do “perco a piada, mas não perco o amigo”.

As tiradas do Língua não perdoam ninguém, mas nunca com teor ofensivo. E a provável explicação para essa façanha é o fato de não levarem ninguém a sério, especialmente eles próprios. Os compositores habitualmente gravados por eles, figuras do naipe de Laert, Carlos Melo, Guca Mastrodomênico, Ayrton Mugnaini Jr. e o saudoso Cesar Brunetti (entre outros) sabem, digamos assim, manter as amizades, sem perder as piadas jamais. Jamais!

Ouvir O Último CD da Terra equivale a uma viagem pelas programações das rádios AM de antigamente, nas quais se tocavam todos os estilos musicais, sem exceção (lógico que sempre em horários específicos, no caso de alguns deles). Se há algo de que não se pode rotular esse novo álbum de “Laert e seus Comparsas” é de monótono. As molduras musicais mudam a cada nova faixa, e às vezes em uma mesma faixa, como na impagável Os Infernautas, sátira aos viciados em internet que vai do vira a la Roberto Leal ao rap sem medo de ser feliz.

Três composições são da fase inicial da banda, o período 1980-1982, e que por um motivo ou outro nunca haviam sido gravadas: Circular 46, Amor Indigente e Ratatá no Zum-zum-zum. Sempre espere o inesperado em um disco e/ou show do Língua: ode a um pombo, encontro modelo humor negro em uma fila de hospital, o canto de um mendigo, um imitador de Bob Dylan que poderia ser o sumido Belchior, um ex-fã de rock progressivo… Tem até uma releitura do Hino Nacional Brasileiro, desta vez em homenagem aos desempregados (Hino dos Desempregados).

Em texto incluído na segunda página do encarte, o grupo afirma que este será o seu último CD. Tomara que não. Afinal de contas, eles mostram aqui que ainda tem muita lenha para queimar. E quer saber? O formato compact disc ainda ficará em cena por muito tempo, tal qual os discos de vinil e mesmo as fitas-cassete, ambos vivendo um revival improvável nos últimos anos. Quem duvida estar lá na esquina uma nova era dos CDs? E que venha um novo do Língua. Que último que nada, seus preguiçosos! Me dá o mizão e vamos logo gravar outro!

Ouça trechos das músicas de O Último CD da Terra:

Trechos do show de lançamento do CD- Sesc Pompeia abril 2016:

Rick Wakeman Nunca Mais– Língua de Trapo:

Língua de Trapo diz 33 com a classe de sempre

Por Fabian Chacur

Tive a honra de presenciar ao vivo e a cores o início do Língua de Trapo, na gloriosa Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, em 1980. Com uma proposta impagável de misturar bom humor, crítica social escrachada e uma musicalidade versátil e consistente, o grupo chega aos 33 anos de idade esbanjando vitalidade, como ficou claro no show realizado por eles no Centro Cultural São Paulo na noite deste sábado (5).

Laert Sarrumor, cantor, compositor e líder da banda desde sempre, é um dos grandes intérpretes da música brasileira de qualquer tipo. Tem ótima voz (que continua tinindo e trincando), espetacular presença de palco e um bom humor que parece resistir a toda e qualquer tentativa desse nosso país surreal de cravar uma estaca em sua seminal banda.

A formação do grupo para esse show no sempre simpático Centro Cultural São Paulo trouxe mais um fundador do time, o cantor, músico e compositor Guga Domênico, outra figurinha carimbada daquelas jovens noites de dias de semana na Cásper, e se mostrou em plena forma ao lado do velho amigo e parceiro, assim como os outros ótimos músicos, com destaque para mais um veterano, Serginho Gama, guitarrista e violonista soberbo.

Fazer música bem humorada sem descambar para a baixaria ou para a falta de musicalidade é algo muito difícil, e saber dosar o escracho com as notas musicais corretas e energia sempre foi uma façanha que o Língua de Trapo nunca deixou de concretizar em seus seis CDs (dois gravados ao vivo) e inúmeros shows nesses anos todos. Irreverentes e politicamente incorretos, mas sem perder a classe jamais. E que classe!

Durante uma hora e meia, os Línguas nos ofereceram desde clássicos de seu impagável repertório como as fantásticas Hitler, Plano Diabólico, Homem da Minha Vida, Os Metaleiros Também Amam e Xingu Disco como inéditas bem bacanas como o rap Armano e Sogro da Sasha e versões hiárias para País Tropical (que virou País Amoral) e Pau de Arara (Cara de Pau de Arara, na nova roupagem).

Fica difícil acreditar que um grupo tão criativo, vibrante e com uma obra tão bacana e inteligente como o Língua tenha dificuldade de conseguir locais para tocar e mostrar toda a sua competência. Coisas de um Brasil do qual eu particularmente não me orgulho, no qual o clichê “para os amigos, tudo, para os inimigos, (in)justiça” parece ser a pedra de toque.

Seja como for, fica claro que Laert e sua turma são mais teimosos do que mulas. Só nos resta torcer para que o Língua de Trapo continue incomodando os poderosos e metidos a besta e agradando quem tem uns neurônios a mais na cachola e também gosta de dançar com música bacana e rir com um senso de humor simplesmente avassalador. Que venha o próximo show, o próximo CD, o próximo tudo!!!

Veja o Língua de Trapo ao vivo no Sesc Pompéia em maio de 2013:

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