Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Cassiano, 77 anos, o cara de voz doce e canções envolventes

cassiano cuban soul 18 kilates

Por Fabian Chacur

“Para o amigo Fabian com o abraço da rapaziada do Dancing Club, junto com minha amizade, felicidades- 26-3-1992”. Essa é a dedicatória, seguida pelo estilosíssimo autógrafo, de um certo Genival Cassiano que está na capa da minha versão em vinil do álbum Cedo ou Tarde (1991), que marcava a volta desse grande nome da soul music brasileira após uns bons anos fora de cena. Um belo disco, por sinal. Infelizmente, Cassiano, esse genial cantor, compositor e músico nos deixou nesta sexta (7) às 16h30, mais uma vítima desse terrível novo coronavírus.

Naquele dia, Cassiano dava entrevistas para divulgar o show de lançamento daquele trabalho no Sesc Pompeia (SP). Lançado em LP, CD e fita-cassete, trazia basicamente releituras de grandes momentos do songbook deste artista nascido em Campina Grande (PB) em 16 de setembro de 1943 e radicado desde 1949 no Rio de Janeiro. Participaram do álbum, entre outros, Sandra de Sá, Luiz Melodia, Marisa Monte, Djavan e Claudio Zoli.

O melhor momento deste trabalho é a fantástica releitura de Eu Amo Você, cuja versão mais conhecida é a de Tim Maia em seu autointitulado álbum de estreia, lançado em 1970. Este álbum, por sinal, é um marco na carreira de Cassiano, pois além de tocar guitarra no mesmo, tem outras canções de sua autoria no repertório, entre elas o megahit Primavera (Vai Chuva).

Antes, ele já havia gravado dois LPs como integrante do grupo vocal Os Diagonais, sucessor do Bossa Trio, o seu conjunto anterior. O estouro de suas composições gerou o interesse das gravadoras, e ele lançou dois discos solo bem legais mas com menos repercussão do que mereciam, Imagem e Som (1971) e Apresentamos Nosso Cassiano (1973). Mas a sorte logo sorriria a seu favor.

Em 1975, a maravilhosa balada soul A Lua e Eu, escrita em parceria com o também cantor e guitarrista Paulo Zdanowski, incorpora como poucas a saudade de um grande amor que saiu da nossa rota, e se torna um imenso sucesso em todo o país ao entrar na trilha sonora da novela global O Grito. No ano seguinte, integraria o repertório do mais bem-sucedido álbum de Cassiano, Cuban Soul 18 Kilates, que trazia também outro clássico perene na carreira do artista.

Trata-se de Coleção, outra parceria com Zdanowski com tempero soul classudo e mais uma vez remetendo a um amor que não deu certo e deixou marcas. Desta vez, no entanto, de uma forma mais ácida e irônica, embora no fim ele não negue que continua amando a garota em questão. Outro hit que, em 1977, ganhou fama nacional na trilha de outra novela da Globo, desta vez Loco-Motivas. O céu seria o limite para o nosso herói?

Infelizmente, não. Vítima de tuberculose em 1978, teve de extrair um pulmão e ficou durante mais de uma década fora dos holofotes, embora vez por outra tivesse um hit nas paradas de sucessos, como Morena, gravada por Gilberto Gil em seu álbum Luar (A Gente Precisa Ver o Luar), de 1981, e escrita em parceria pelos dois craques da nossa música.

Lembro muito bem que na entrevista que me concedeu, Cassiano me disse nas entrelinhas que Cedo ou Tarde não o havia agradado tanto quanto gostaria, especialmente por causa da produção de Líber Gadelha, que não deu a ele toda a autonomia que gostaria. Inclusive, quando disse a ele que minha faixa favorita no álbum era Eu Amo Você, uma das três que ele gravou sem convidados e com o apoio de sua banda, a Dancing Club, ele abriu um belo de um sorriso e me agradeceu (as outras faixas foram Rio Best-Seller e Intro III-Instrumental).

A partir daqui, Cassiano passou a aparecer de forma bem mais esporádica, embora suas canções nunca tenham sido esquecidas. Em 1999, por exemplo, sua canção Férias deu nome ao álbum lançado naquele ano por um de seus seguidores e amigos, o grande Claudio Zoli. Além dos hits já citados, ele tem inúmeras outras composições de grande beleza, entre as quais Cedo ou Tarde, Salve Essa Flor, De Bar em Bar, Salve Essa Flor e Setembro.

Junto com nomes como Tim Maia, Hyldon e Claudio Zoli, Cassiano foi a prova de que o brasileiro conseguiu com muita criatividade e qualidade artística enveredar pelo universo da black music americana acrescentando swing e fortes elementos da música e da poesia brasileira nessa mistura. Gênio, é assim que merece ser designado, sem nenhum exagero. Já está fazendo uma falta danada, mestre. Mande um abraço pro Tim Maia!

Eu Amo Você (1991)- Cassiano:

Ivan Lins, Joyce Moreno e Marcos Valle em uma agridoce ode ao Rio

ivan lins joyce moreno marcos valle

Por Fabian Chacur

Coincidência triste o fato de Casa Que Era Minha ser lançada nesta sexta (7), um dia após o terrível morticínio ocorrido no Rio de Janeiro, vitimando 25 pessoas. A composição, que marca a primeira parceria entre Ivan Lins, Joyce Moreno e Marcos Valle, está disponível nas plataformas digitais pela gravadora Deck. Um clipe gravado de forma remota também pode ser curtido, como forma de ilustrar um “sambossa” de tom agridoce que ao mesmo tempo homenageia e lamenta o atual estado de coisas na outrora Cidade Maravilhosa.

Essa canção já nasceu clássica, e conta com uma letra repleta de sutileza e lirismo escrita por Joyce Moreno, que canta e toca seu violão envolvente. Ivan Lins e Marcos Valle, que se incumbiram dos teclados, também se alternam com a cantora nos vocais. Completam o time de músicos Alberto Continentino (baixo), Renato Massa Calmon (bateria) e Jessé Sadoc (flugelhorn). O resultado é um banho de delicadeza e melancolia, que no entanto injeta esperança em que a ouvir de que tempos melhores possam invadir o nosso querido Rio de Janeiro.

Eis a letra de Casa Que Era Minha:

Minha bem amada
Casa que era minha
Quem te maltratou
Te fez tão sozinha
Diga

Musa abandonada
Por tudo que tinha
Quem vai te salvar
Das aves daninhas
Diga

Quem me dera te proteger
Desses tantos perigos
Aquela que é mãe pra nós
E que nos criou
Com sua voz

Ó cidade amada
Minha patriazinha
Deixa eu te abraçar
Sonhar que ainda és minha
Minha

Casa Que Era Minha (videoclipe)- Ivan Lins, Joyce Moreno e Marcos Valle:

Motorhead terá versões luxuosas de No Sleep ‘Til Hammersmith

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Por Fabian Chacur

Considerado um dos mais impactantes álbuns ao vivo da história do rock, No Sleep ‘Til Hammersmith, do Motorhead, completa 40 anos de seu lançamento. Como forma de celebrar esta efeméride referente a um dos pontos altos da trajetória da banda britânica, a Warner lançará no exterior no dia 25 de junho versões comemorativas e expandidas deste trabalho, nos formatos box set com 4 CDs, CD duplo e LP triplo de vinil, além de ser disponibilizado nas gloriosas plataformas digitais também.

A versão em CD duplo é em formato capa dura digipack, incluindo um livreto com 24 páginas trazendo texto contando a história do álbum e repleto de fotos, algumas inéditas. Um CD inclui a versão original remasterizada do lançamento original acrescido de três faixas gravadas em soundtracks dos shows. O outro disco traz a gravação na íntegra de um dos shows que forneceu material para o lançamento de 1981, gravado no Queens Hall da cidade britânica de Leeds no dia 28 de março de 1981.

A box set traz dois CDs adicionais, com as versões integrais dos outros shows que forneceram material para o disco, flagrados na cidade de Newcastle, no City Hall de lá, nos dias 29 e 30 de março de 1981. Essa versão luxuosa também inclui pôster, memorabilia e reprodução de ingresso dos shows e credenciais.

No Sleep ‘Til Hammersmith flagra a formação clássica da banda, integrada pelos saudosos Lemmy (1945-2015- baixo e vocal), Fast Eddie Clarke (1950-2018- guitarra) e Philthy Animal Taylor (1954-2015-bateria), no auge de sua forma. Foi o único álbum do grupo a atingir o 1º lugar na parada britânica. Curiosidade: apesar do título, o trabalho não teve as gravações realizadas no célebre Hammersmith Odeon de Londres, onde, por sinal, eles não tocaram durante a turnê que deu origem a este álbum.

Eis as faixas das edições comemorativas do álbum:

DISC ONE – NO SLEEP ‘TIL HAMMERSMITH

Ace Of Spades
Stay Clean
Metropolis
The Hammer
Iron Horse
No Class
Overkill
(We Are) The Road Crew
Capricorn
Bomber
Motorhead
The Hammer
Over The Top
Train Kept A-Rollin’
Stay Clean (Soundcheck)
Limb From Limb (Soundcheck)
Iron Horse (Soundcheck)

DISC TWO – LIVE AT NEWCASTLE CITY HALL 30th MARCH 1981

Ace Of Spades
Stay Clean
Over The Top
Metropolis
Shoot You In The Back
The Hammer
Jailbait
Leaving Here
Iron Horse
Fire, Fire
Capricorn
Too Late, Too Late
No Class
(We Are) The Road Crew
Bite The Bullet
The Chase Is Better Than The Catch
Overkill
Bomber
Motörhead

DISC THREE – LIVE AT NEWCASTLE, CITY HALL 29th MARCH 1981

Ace Of Spades
Stay Clean
Over The Top
Metropolis
Shoot You In The Back
The Hammer
Jailbait
Leaving Here
Fire Fire
Capricorn
Too Late Too Late
No Class
(We Are) The Road Crew
Bite The Bullet
The Chase Is Better Than The Catch
Overkill
Bomber
Motorhead

DISC FOUR – LIVE AT LEEDS, QUEENS HALL 28th MARCH 1981

Ace Of Spades
Stay Clean
Over The Top
Metropolis
Shoot You In The Back
The Hammer
Jailbait
Leaving Here
Fire Fire
Capricorn
Too Late Too Late
No Class
(We Are) The Road Crew
Bite The Bullet
The Chase Is Better Than The Catch
Overkill
Bomber
Motorhead

The Hammer (live-videoclipe)- Motorhead:

Bela mostra um single acústico, a envolvente canção Sol Em Touro

bela cantora 400x

Por Fabian Chacur

A cantora e compositora Bela, que em fevereiro deu uma ótima entrevista a Mondo Pop (leia aqui), não deixa a peteca ir ao chão. Ela acaba de lançar um novo videoclipe no qual divulga uma nova canção de sua autoria, a envolvente balada Sol Em Touro.

Nas imagens, temos três Belas, dividindo a tela em montagem muito bem feita. Interpretada no melhor estilo voz e violão, com o instrumento a cargo de Léo Rodrigues (no áudio, não no clipe), a moça aparece em um local próximo à natureza, curtindo emoções românticas. Ela explica o título da canção:

“Meu signo é touro, usei a minha intuição para escrever a canção. Me baseei em experiências pessoais e também pedi ajuda na criação para meus seguidores nas redes sociais. Foi ótimo para me dar um outro olhar sobre os aspectos do signo, pois estou muito inserida no universo taurino – foi uma troca super positiva. Na canção, quis focar no lado amoroso, decidido e faminto dos taurinos”.

Sol em Touro (clipe)- Bela:

Billie Eilish de single novo, com 2º álbum previsto para 30 de julho

billie eilish 400x

Por Fabian Chacur

Em 26 de janeiro de 2020, um verdadeiro tsunami musical tomou conta das principais premiações na 62ª edição do Grammy. Com apenas 18 anos na ocasião, Billie Eilish saiu daquela cerimônia, uma das últimas pré-pandemia do novo coronavírus, com os troféus de Artista Revelação, Álbum do Ano, Gravação do Ano e Melhor Álbum Pop Vocal, tudo isso graças ao seu álbum de estreia, When We All Go To Sleep Where Do We Go?, que liderou as paradas de sucesso de 18 países. E vem novo álbum da moça por aí.

A cantora e compositora nascida em 18 de dezembro de 2001 em Los Angeles, Califórnia, verá o sucessor de seu explosivo álbum inicial chegar ao mercado musical no dia 30 de julho, nas gloriosas plataformas digitais e também em LP duplo de vinil, CD simples e fita cassete. Para atiçar a curiosidade dos fãs, mais um single acaba de ser divulgado, a introspectiva e musicalmente delicada Your Power, que a mostra com os cabelos tingidos de loiro, ela que já mudou a cor dos mesmos em diversas ocasiões.

O trabalho traz 13 faixas, sendo que os outros singles divulgados anteriormente são My Future e Therefore I Am . Vale lembrar que na 63ª edição do Grammy a garota abocanhou mais dois troféus, nas categorias Gravação do Ano e Melhor Música Escrita Para Mídia Visual, e também lançou a música tema de mais um filme da franquia James Bond, a canção No Time To Die.

Mais uma vez, Billie se incumbiu das composições, sendo que na parte da produção e gravação ela contou novamente com o apoio de seu irmão mais velho, Finneas O’Connell, de 23 anos. Essa total independência não é algo tão comum na atual indústria fonográfica, o que mostra a confiança da gravadora Universal Music no taco da artista.

Eis as músicas de Happier Than Ever:

1. Getting Older

2. I Didn’t Change My Number

3. Billie Bossa Nova

4. my future

5. Oxytocin

6. GOLDWING

7. Lost Cause

8. Halley’s Comet

9. Not My Responsibility

10. OverHeated

11. Everybody Dies

12. Your Power

13. NDA

14. Therefore I Am

15. Happier Than Ever

16. Male Fantasy

Your Power (clipe)- Billie Eilish:

Dorival Caymmi é homenageado com lançamento de EP digital

dorival caymmi EP

Por Fabian Chacur

Há exatos 107 anos, nascia Dorival Caymmi (1914-2008), um dos nomes mais importantes da história da nossa música popular. Como forma de marcar essa data, a Warner Music está disponibilizando nas plataformas digitais o EP Os Anos Continental, reunindo cinco gravações raras lançadas originalmente pelos selos Continental e Columbia entre 1940 e 1941. O projeto idealizado pelo jornalista e pesquisador Renato Vieira conta com uma minuciosa remasterização do áudio, tornando a audição ainda mais prazerosa.

Temos aqui os primeiros registros lançados de três dos maiores clássicos do repertório do genial cantor, compositor e músico baiano. O Mar conta com o acompanhamento de Radamés Gnattali e Orquestra, enquanto É Doce Morrer No Mar (esta escrita em parceria com o escritor Jorge Amado) e A Jangada Voltou Só mostram Caymmi no melhor estilo voz e violão, esbanjando classe e talento.

Balaio Grande surpreende por ser um raro caso em que ele interpreta uma composição sem ser de sua autoria, no caso de Osvaldo Santiago e Jorge de Lima. É uma canção curiosa, pois se encaixa feito luva no conceito duplo sentido, que não associaríamos de imediato a ele. Essa Nega Fulô completa o material, sendo que estas duas canções contaram com a parte instrumental executada por Benedito Lacerda e Orquestra.

Balaio Grande– Dorival Caymmi:

Mud Slide Slim And The Blue Horizon (Warner-1970), o álbum que consagrou James Taylor

james taylor mud slide slim capa

Por Fabian Chacur

Em 1º de março de 1971, a revista americana Time, uma das mais importantes e influentes do mundo, estampou em sua capa um músico, algo não muito comum. O personagem em questão era James Taylor, que com seu álbum Sweet Baby James (1970, leia sobre o mesmo aqui) tornou-se o nome de ponta de um novo estilo musical rotulado por alguns como bittersweet rock (rock agridoce). O título dava bem o tom de como o cantor, compositor e musico era encarado naquele momento: “The Face Of New Rock”.

Logo a seguir, no dia 16 do mesmo mês, Taylor concorreu pela primeira vez ao Grammy, o Oscar da música, e logo em duas categorias, Record Of The Year e Album Of The Year, respectivamente com Fire And Rain e Sweet Baby James, perdendo em ambas para Simon & Garfunkel e seu Bridge Over Trouble Water (single e álbum). Como a dupla havia se separado há pouco, era como se fosse um prêmio de despedida para eles, pois no ano seguinte, seria a vez do perdedor dessa ocasião levar os louros.

Era em torno de uma grande expectativa, portanto, que o mundo musical aguardava pelo 3º álbum de James Taylor. Conseguiria ele confirmar toda essa badalação em torno de suas belas canções de tom melancólico, confessional e ao mesmo tempo encantadoras? Ou estaríamos mais uma vez diante de um artista com pouco fôlego para dar sequência a um sucesso tão contundente nos EUA e no resto do mundo?

A resposta começou a ser dada em abril, quando chegou às lojas Mud Slide Slim And The Blue Horizon. Trata-se de um trabalho que percorre basicamente os mesmos caminhos musicais do anterior, mas investindo em sutilezas, consolidação das sonoridades e uma inspiração no mesmo alto padrão de Sweet Baby James. Há fatores que auxiliaram nesse amadurecimento musical, nessa verdadeira lapidação do diamante que Taylor aparentava ser desde suas primeiras gravações, em 1966-67.

Tudo começa com o elenco de músicos escalados para este disco. Além do velho amigo Danny Kortchmar na guitarra e do extremamente consistente Russel Kunkel na bateria, e também da amiga Carole King no piano e vocais, foi acrescido ao time o baixista Lelank Sklar, que com suas linhas de baixo flutuantes e elegantes deu ao time a peça que lhe faltava. O entrosamento deles deu à voz deliciosa, às composições impecáveis e ao violão dedilhado de forma marcante de Taylor um acompanhamento simplesmente perfeito, sem excessos ou buracos.

Com essa roupagem, as 13 canções incluídas no álbum foram apresentadas ao público da maneira mais atrativa possível. E os fãs que compraram o trabalho anterior passaram imediatamente a consumir com avidez este novo, especialmente impulsionados por um single que é curiosamente uma das únicas duas faixas a não levar a assinatura de Taylor, You’ve Got a Friend, uma das obras-primas dessa incrível e icônica Carole King.

Atraído por essa música logo na primeira vez que a ouviu, ele pediu autorização à amiga para gravá-la também, já que Carole também a havia separado para seu próximo trabalho. Generosa, a moça não criou obstáculos, e obviamente se deu bem, pois deve ganhar uma boa grana até hoje com os direitos autorais provenientes da versão de Taylor. Uma curiosidade: ele toca na gravação dela, mas ela não participa da dele, que não inclui teclados.

Essa bela ode à amizade é um oásis de positividade em um universo de canções que evocam amores não concretizados, paixões sendo encerradas com dor e a constatação de que o mundo do sucesso não é esse doce todo que muitos pensam ser. As melodias encantadores mascaram versos que, por vezes, invocam ironia, amargura e uma nostalgia curiosa para alguém que completou apenas 23 anos no dia 12 de março daquele 1971.

O álbum abre com a incisiva Love Has Brought Me Around, na qual o autor dá a entender que não aguenta mais a pessoa com quem está tendo um relacionamento afetivo e resolve que chegou a hora de o amor o levar para algum outro lugar. Há uma curiosidade em torno dessa canção, pois ela parece uma mensagem quase direta à cantora canadense Joni Mitchell, com quem ele tinha tido um tórrido caso de amor que à época do lançamento deste álbum já havia se desfeito, e de forma não muito agradável, gerando uma inimizade que durou uma década, até que os dois voltassem a ser bons amigos.

Ele, inclusive, refere-se à personagem da canção como “Miss November”, e Mitchell nasceu nesse mês, no dia 7. No entanto, ela participa desta faixa, fazendo vocais de apoio. Será que Taylor seria indelicado a ponto de convidar a musa dessa verdadeira canção de “passa, moleca!” para marcar presença na mesma? Fica o ponto de interrogação. Outro destaque fica por conta da participação do Memphis Horns, uma das mais quentes sessões de metais de todos os tempos, capitaneada por Wayne Jackson e Andrew Love.

You’ve Got a Friend, também com Mitchell nos vocais de apoio, vem a seguir para amainar um pouco o clima, com seu arranjo acústico calcado em violões (Taylor e Kortchmar), percussão e baixo. Uma delícia sonora!

Com Taylor curiosamente no piano, Places In My Past relembra de forma evocativa antigas paixões que, se não geraram uma esposa (como ele mesmo diz na letra), deixaram marcas que às vezes até geram lágrimas pelas saudades geradas pelos dias preguiçosos com aquelas belas garotas, naqueles “lugares do meu passado”.

Riding On A Railroad é a primeira profissão de fé deste álbum na missão estradeira de um cantor e compositor, levando as canções de cidade a cidade, dia após dia. O clima é de puro country, com destaque para o acompanhamento de fiddle (rabeca) de Richard Greene.

Soldiers registra momentos que Taylor presenciou quando era criança-adolescente, vendo o retorno de soldados (da Guerra da Coreia ou do Vietnã), vários deles feridos, comentando que de um destacamento de 20, por volta de 11 não retornaram, “com 11 tristes histórias a serem contadas”.

Mud Slide Slim (a música tem nome reduzido em relação ao título do álbum) soa como uma curiosa visão do mundo, que ele encara como se fosse uma espécie de cowboy, um “Magrelo Enlameado e Escorregadio”, tendo como pano de fundo uma sonoridade com dna latino e dando mais espaços para os músicos mostrarem suas habilidades, sem no entanto cair em improvisações excessivas ou coisa que o valha. A curiosidade fica por conta dos vocais de apoio de sua irmã Kate, que anos depois lançaria um álbum produzido por ele.

Hey Mister That’s Me Up On The Jukebox, uma vigorosa balada rock, reveste-se de fina ironia e equivale ao uso de metalinguagem, pois fala do próprio ato de cantar para ganhar a vida. “Ei, senhor, sou eu quem você ouve cantando lá naquela jukebox, sou eu quem está cantando essa canção triste, vou chorar toda vez que você colocar outra moeda na máquina”. Certamente Fire And Rain

Valendo-se só de sua voz e violão, Taylor nos oferece uma bela canção de despedida, You Can Close Your Eyes, na qual ele afirma que “não conheço mais canções de amor, e não posso mais cantar blues, mas posso cantar esta canção, e você pode cantar essa canção quando eu for”. Um belo ode a um momento que ficará na memória, um tempo que não será tirado do casal, e durará para sempre na memória. Poesia pura!

Machine Gun Kelly, a outra canção do disco não escrita por Taylor (é de Danny Kortchmar), é um country rock vigoroso (dentro do contexto dele, obviamente) que novamente flerta com o espírito do velho oeste, seus bandoleiros e seus tristes destinos. Aqui, temos vocais de apoio do grande Peter Asher, produtor do álbum e figura decisiva na carreira de James Taylor, sem o qual provavelmente não teríamos o sucesso de nosso trovador pop.

Long Ago And Far Away é outra daquelas canções que casais brasileiros seriam tentados a dançar juntos, coladinhos, tal a beleza de sua melodia. Se soubessem o conteúdo de sua letra, no entanto, talvez pensassem melhor. Outra música de despedida, com versos cortantes como “porque seus arco-íris dourados acabam, porque essa canção que eu canto é tão triste?” E, ironia suprema, adivinhe quem faz vocais de apoio (belíssimos, por sinal) nesta maravilha? Ela, Joni Mitchell.

O momento soul-blues do álbum fica por conta de Let Me Ride, que traz ecos de canções do disco de estreia de Taylor, com direito a vocais de apoio de Kate Taylor e os matadores Memphis Horns. Mais uma profissão de fé na estrada como a grande necessidade dele. E logo a seguir vem outra canção com esta temática, Highway Song, com Kate e Peter Asher nos vocais. Mas as contradições ditam seus versos.

Se por um lado James se diz fascinado e de certa forma hipnotizado pela estrada, ao mesmo tempo deixa no ar uma vontade de que “um dia essa canção da estrada perca o encanto para mim”. E o álbum fecha com a curta, quase vinheta, Isn’t It Nice To Be Home Again, na qual não fica claro se o lar a que ele se refere é de fato um lar ou apenas mais um quarto de hotel da vida. Um fim aberto, como só poderia ser para alguém com tantas dúvidas e carências naquela época como esse genial James Taylor.

Com o apoio dos shows e também das execuções das músicas em rádios e TVs, o single You’ve Got a Friend atingiu o 1º lugar na parada americana, enquanto Mud Slide Slim And The Blue Horizonchegou ao 2º lugar. E aí entrar uma grande ironia: o LP não conseguiu atingir o topo por causa do estouro do álbum lançado na mesma época pela “sua” pianista. Tapestry, de Carole King, esteve durante 15 longas semanas no 1º lugar nos EUA, enquanto seu single It’s Too LateI Feel The Earth Move liderou entre os singles por 5 semanas.

Na edição do Grammy referente a 1971 cujos prêmios foram entregues em março de 1972, Taylor venceu na categoria melhor performance pop vocal com You’ve Got a Friend, enquanto Carole King faturou outros quatro. Curiosidade: a eleita como artista revelação foi Carly Simon, que há alguns meses havia iniciado uma relação afetiva com James Taylor. Eles se casaram naquele mesmo ano, tiveram dois filhos e se separaram em 1983.

Duas curiosidades finais: o elo entre James Taylor e Carole King foi Danny Kortchmar, que após ter integrado o primeiro grupo de James Taylor, o Flying Machine, criou com a cantora e compositora a banda The City, que também contava com o baixista Charles Larkey, então marido dela. Eles lançaram um álbum em 1968, o ótimo Now That Everything’s Been Said, com pouca repercussão, e em seguida Carole resolveu seguir carreira-solo, mas com os dois a acompanhando.

E, não, James e Carole nunca foram namorados. Eles desde sempre foram grande amigos, sendo que, nessa época decisiva de sua vida (1970 a 1971), King foi uma espécie de confidente dele, ajudando-o a superar suas dificuldades emocionais. E, não também, You’ve Got a Friend não foi composta para ele.

Na entrevista coletiva concedida por Carole King em 1990 em São Paulo quando esteve por aqui para fazer shows, um reporter desinformado perguntou a ela sobre seu “casamento” com James Taylor, e ela, bem-humorada, disse que “Carly Simon chegou primeiro”.

Ouça Mud Slide Slim And The Blue Horizon em streaming:

Delia Fischer e Ney Matogrosso juntos na bela Blues de Acabar

blues de acabar delia fischer e ney matogrosso

Por Fabian Chacur

Uma das gravações mais tocantes do ano acaba de ser disponibilizada nas plataformas digitais. Trata-se de Blues de Acabar, que reúne a cantora, compositora, pianista e diretora musical Delia Fischer com o astro da nossa música Ney Matogrosso. A balada com traços eruditos e uma melodia delicada de autoria de Delia traz uma letra cortante, escrita por Marcio Moreira, que retrata como poucas os atos finais de uma relação amorosa que, pensava-se, poderia durar mais do que de fato durou. Arrepiante, para dizer o mínimo.

Aliás, a gravação segue uma orientação minimalista, pois reúne apenas a artista carioca (cantando e tocando um piano encantador) e esse grande craque da canção cuja voz parece vinho, cada vez melhor mesmo após cinco décadas em atividade. Blues de Acabar integrará o álbum digital Hoje, previsto para ser lançado no dia 21 de maio. Em press release enviado à imprensa, Delia fala sobre essa composição inspiradíssima:

“A letra me chegou em meio a pandemia com o título original de Samba de Acabar. Confesso que tentei enquadrá-la nesse formato, mas a melodia que nasceu tinha muita influência do blues. Propus manter como uma bossa, mas de tanto tocá-la, o samba e a bossa deram lugar ao blues, reforçando ainda mais o discurso da canção, que fala das dores do amor, tema clássico e recorrente no cancioneiro da antiga e também atual MPB”.

Na ativa desde os anos 1980, Delia Fischer integrou o Duo Fenix ao lado de Claudio Dauelsberg, com quem gravou um álbum em 1988. Depois, lançou trabalhos-solo, atuou com artistas como Toninho Horta, Erasmo Carlos, Ana Carolina, Bob Baldwin (EUA) e Lisa Nilsson (Suécia) e foi diretora musical de musicais como Beatles Num Céu Com Diamantes, Milton Nascimento- Nada Será Como Antes e Elis, A Musical, entre outros.

Blues de Acabar (clipe)- Delia Fischer e Ney Matogrosso:

Garbage se inspira nos protestos no Chile para criar novo single

Garbage por Joseph Cultice 1

Por Fabian Chacur

Shirley Manson, carismática cantora do Garbage, presenciou no Chile parte dos protestos da população local que tiveram início em 2019 e foram motivadas por atos do governo que desrespeitavam os direitos dos mais necessitados. Nascia ali a inspiração para No Gods No Masters, faixa que acaba de ser disponibilizada pela banda americana e que dará nome ao 7º álbum deles, que a gravadora BMG promete lançar no dia 11 de junho.

Em declaração divulgada por um press release enviado à imprensa, Manson dá mais detalhes sobre essa canção, um rock energético e com tempero eletrônico que lembra os anos 1980:

“Estava em Santiago durante os protestos ali, que foram muito emocionantes. Andávamos pela cidade e ela estava coberta de pichações, em todos os antigos museus e palácios. E eu fiquei chocada. Foi nesse momento que as pessoas incríveis com quem eu estava disseram: ‘Mas por que você está tão chocada? Estamos protestando contra a violência a vidas humanas e as propriedades, e são os edifícios e monumentos que foram danificados aqui que te chocaram?’. E, de fato, os seres humanos estão sendo massacrados, e é nisso que você deve se concentrar. Isso foi como um tapa na cara”.

No Gods No Masters (clipe)- Garbage:

Counting Crows volta à tona com single e EP inédito sai em maio

Counting Crows - Butter Miracle, Suite One

Por Fabian Chacur

Desde o lançamento do álbum Somewhere Under Wonderland (2014), o ótimo grupo americano Counting Crows deu uma certa sumida de cena. Depois desses sete longos anos, eles finalmente nos proporcionam um novo single. Trata-se da deliciosa balada Elevator Boots, com fortes ecos de The Band e Van Morrison e pontuada pelos vocais emocionados de Adam Duritz. Trata-se da primeira prévia do EP Butter Miracle Suite One, que a BMG promete disponibilizar nas indefectiveis plataformas digitais no dia 21 de maio.

Elevator Boots equivale à segunda parte do que Duritz define como uma suíte. Ele explica, em press release enviado à imprensa:

“Enquanto escrevia o final da 1ª faixa, fiquei tocando os dois principais acordes para frente e para trás por um tempo, apenas curtindo a maneira como a música terminava em um loop. Por capricho, mudei os acordes e me vi cantando uma melodia diferente. As palavras simplesmente vieram direto à minha cabeça e percebi imediatamente que era o começo de uma música diferente. Foi quando me ocorreu que eu poderia escrever uma série de músicas diferentes, cada uma tocando perfeitamente a anterior e fluindo juntas como uma longa música. Uma suíte. Depois que pensei nisso, era tudo o que eu queria fazer”.

Com três décadas de estrada, os Counting Crows estouraram logo com seu álbum de estreia, August And Everything After (1993), que inclui seu hit-assinatura Mr. Jones. O CD seguinte, Recovering The Sattelites (1996), atingiu o topo da parada americana. Desde então, foram várias turnês e hits, incluindo a deliciosa Accidentally In Love (2004), tema de Shrek 2.

Elevator Boots– Counting Crows:

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