Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Tuia relê canções alheias e as próprias em seu novo álbum

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Por Fabian Chacur

Se estivéssemos na era medieval, Tuia certamente seria um daqueles trovadores, viajando por todas as cortes e reinados com seu instrumento musical para cantar as idas e vindas do amor perante as mais diversas plateias. De certa forma, é exatamente isso o que ele faz em 2020. Na estrada desde os anos 1990, o cantor, compositor e músico paulista tem um currículo dos mais respeitáveis (leia mais sobre ele aqui), e agora lança Versões de Vitrola Vol.1 (Kuarup), nos formatos CD e digital.

Em sua rica trajetória profissional, Tuia consolidou uma sonoridade que tem tudo a ver com o rock rural brasileiro, pois mistura com categoria e do seu jeito rock, country, folk, MPB e música caipira. Não por acaso, atraiu as atenções dos craques dessa praia, entre os quais Zé Geraldo, Tavito, Renato Teixeira e Guarabyra, com quem já trocou belas figurinhas em shows e discos.

Este novo trabalho o flagra em um momento de releituras. Temos aqui oito canções, sendo seis composições alheias e duas de sua autoria, nenhuma delas inédita. Linda Juventude, grande hit com o 14 Bis nos anos 1980, aparece em duas versões, uma acústica e outra com banda, ambas contando com a delicada participação da cantora e compositora paranaense Ana Vilela.

A consagrada estrela paraibana Elba Ramalho, por sua vez, marca presença na nova gravação de uma das canções mais bem-sucedidas de Tuia, a lírica Céu, em dueto que funcionou às mil maravilhas.

A única música que foge das fronteiras do som rural brasileiro é Tudo é Possível, rock de Kiko Zambianchi lançado pelo autor em seu álbum Disco Novo (2001) e que aqui surge em um arranjo mais afeito ao universo do country. Aliás, o ponto alto do disco é exatamente esse: as canções surgem repaginadas com assinatura própria de Tuia, mas sem perderem suas espinhas dorsais.

Chalana, clássico de Mário Zan e Arlindo Pinto que muita gente conheceu nas versões de Sérgio Reis e Almir Sater, aparece aqui com jeitão folk rock.

Espanhola, megahit escrito por Guarabyra e Flávio Venturini, renasce como uma power ballad, enquanto Senhorita, do grande Zé Geraldo, virou um country rock encapetado. Flor, a outra composição de Tuia incluída neste CD, surge levemente diferente de gravações anteriores.

Completa o repertório a maravilhosa Começo Meio e Fim (Tavito, Ney Azambuja e Paulo Sérgio Valle), que fez sucesso nas gravações do próprio Tavito e do Roupa Nova. Nela, assim como nas outras, Tuia nos oferece suas interpretações apaixonadas, nas quais se entrega às canções sem medo de ser feliz, e por tabela consegue cativar seus inúmeros fãs pelo Brasil afora.

Versões de Vitrola Vol.1 é daqueles trabalhos de sofisticada simplicidade que transmite ao ouvinte paz, emoção e alegria, especialmente em tempos tão confusos e conturbados como os atuais. Que o nosso querido trovador possa continuar cumprindo seu ofício com essa categoria e sensibilidade por muitos e muitos anos. E que venha em breve o Volume 2 dessa parada aí!

Céu (lyric video)- Tuia e Elba Ramalho:

Carlos Coelho, do Biquini Cavadão, lança clipe solo

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Por Fabian Chacur

Além de guitarrista há 35 anos do Biquini Cavadão, Carlos Coelho também é cantor, compositor, produtor e diretor de clipes, tendo também trabalhado com jingles e trilhas para filmes, TV e teatro. Ele acaba de lançar um clipe solo, We’ll Roll On, no qual canta, toca guitarra e baixo e de quebra se incumbe da produção e criação. As cenas são todas de animação, com direção de arte e motion design assinadas por Fabio Holtz e ilustrações muito legais de Otávio Bittencourt. O resultado é bastante elogiável.

We’ll Roll On foi composta em 2011 por Coelho em parceria com o neozelandês radicado nos EUA Simon Spire, que tem em seu currículo musical os álbuns All Or Nothing (2008) e Four-Letter Words (2012). Esta canção já havia sido gravada em 2014 pelo Biquini Cavadão em versão ao vivo e em português intitulada Vou Deixar Tudo Pra Traz (ouça aqui), do DVD Me Leve Sem Destino.

Coelho é acompanhado nesta gravação por Diogo Macedo (bateria) e Tay Cristelo (backing vocals), e dá à sua versão da música um clima mais de rock alternativo, sem no entanto perder a energia da gravação em português feita por sua banda. Ele tem mais de 250 composições gravadas pela sua banda e por outros artistas, além de ter participado de CDs e DVDs de Leila Pinheiro, Cidade Negra, Jammil e Uma Noites, Vinny e Buchecha, entre outros.

We’ll Roll On (clipe)- Carlos Coelho:

Diana Ross lança novo álbum de remixes Supertonic Mixes dia 29

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Por Fabian Chacur

Com mais de cinco décadas de carreira, Diana Ross ainda mostra fôlego para invadir as paradas de sucesso. Em 2017, o remix de seu clássico hit Ain’t No Mountain High Enough (ouça aqui) atingia o topo da parada Dance Club Songs da Billboard, a bíblia da indústria fonográfica mundial. Era o início de uma série de quatro hits número 1 nas mesmas listas- os outros são I’m Coming Out/Upside Down (ouça aqui), The Boss (ouça aqui) e Love Hangover (ouça aqui). E não é só isso.

Além de disponibilizar uma quinta faixa com as mesmas características, It’s My House (será que também chegará ao topo?), a ex-cantora das Supremes e uma das maiores divas da história da música promete para o dia 29 deste mês um álbum com estas e outras pérolas de seu longo currículo de sucessos em versões repaginadas. Trata-se de SUPERTONIC Mixes, que aqui só chegará às plataformas digitais, mas que no exterior terá versões em CD e LP.

Com produção da própria Diana, o trabalho teve como autor dos remixes o badalado produtor, músico, compositor e remixador americano Eric Kupper, que desde meados dos anos 1980 se firmou como um dos mais bem-sucedidos nessa área, tendo feito trabalhos para artistas como Whitney Houston, Janet Jackson, Sheryl Crow, Lenny Kravitz, New Order, Depeche Mode, Donna Summer, Myley Cyrus e inúmeros outros do mesmo alto calibre.

Lógico que as versões originais desses grandes sucessos continuam sendo as melhores, mas essas releituras equivalem a uma nova visão de grandes canções, e não as invalidam, além de preservarem a essência de cada uma delas, o que não é pouco. Nada mal para uma artista tão celebrada e que em 2019 recebeu uma homenagem na cerimônia do Grammy, o Oscar da música, em função de tudo o que conquistou nesses anos todos.

It’s My House (remix)- Diana Ross:

David Bowie em disco ao vivo digital da sua turnê de 1997

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Por Fabian Chacur

Mais um álbum ao vivo de David Bowie está disponível nas plataformas digitais via Warner Music, dando prosseguimento a uma série de lançamentos nesse formato com material registrado em diversas fases da carreira do saudoso artista britânico. LIVEANDWELL.COM saiu originalmente em tiragem limitada em 2000 e disponibilizado apenas aos assinantes da Bowienet. São 12 faixas gravadas ao vivo em Nova York, Rio de Janeiro, Amsterdam e Reino Unido em 1997 durante a turnê de lançamento do álbum Earthling (1997).

Os registros flagram o autor de Space Oddity no auge de sua fase eletrônica, incluindo cinco músicas do álbum Earthling e cinco do trabalho anterior, Outside (1995). Duas faixas saíram antes em um maxi-single de 12 polegadas e creditadas ao The Tao Jones Index, nome com o qual Bowie e sua banda se apresentaram de surpresa em tendas dedicadas à dance music em festivais. São elas Pallas Athena (do álbum Black Tie White Noise, de 1993) e V-2 Schneider (do álbum Heroes, de 1977, única música não lançada nos anos 1990).

Aqui está a escalação do timaço que interpreta com vigor e categoria (e com excelente qualidade de áudio) as 12 faixas deste excelente álbum ao vivo: David Bowie (vocais, guitarra, saxofone), Zachary Alford (bateria), Gail Ann Dorsey (baixo, vocais, teclados), Reeves Gabrels (guitarras, sintetizadores, vocais) e Mike Garson (piano, teclados, sintetizadores).

Eis as faixas de LIVEANDWELL.Com :

1 – I’m Afraid Of Americans (Radio City Music Hall New York, 15th October, 1997) *
2 – The Hearts Filthy Lesson (Long Marston, Phoenix Festival, 18th July, 1997) x
3 – I’m Deranged (Amsterdam, Paradiso, 10th June, 1997) x
4 – Hallo Spaceboy (Rio de Janeiro, Metropolitan, 2nd November, 1997) x
5 – Telling Lies (Amsterdam, Paradiso, 10th June, 1997) *
6 – The Motel (Amsterdam, Paradiso, 10th June, 1997) x
7 – The Voyeur Of Utter Destruction (As Beauty) (Rio de Janeiro, Metropolitan, 2nd November, 1997) x
8 – Battle for Britain (The Letter) (Radio City Music Hall New York, 15th October, 1997) *
9 – Seven Years In Tibet (Radio City Music Hall New York, 15th October, 1997) *
10 – Little Wonder (Radio City Music Hall New York, 15th October, 1997) *
11 – Pallas Athena (Amsterdam, Paradiso, 10th June, 1997) y
12 – V-2 Schneider (Amsterdam, Paradiso, 10th June, 1997) z

* versões de estúdio são do álbum Earthling (1997)
x versões de estúdio são do álbum Outside (1995)
y versão de estúdio é do álbum Black Tie White Noise (1993)
z versão de estúdio é do álbum Heroes (1977)

Hallo Spaceboy (Live from Rio de Janeiro, Metropolitan, 2nd November, 1997)

Alexia Bomtempo mostra em Suspiro sua versão da bossa nova

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Por Fabian Chacur

A cantora Alexia Bomtempo nasceu em Washington D.C. (EUA), filha de pai brasileiro e mãe americana. Foi criada no Brasil, mas com várias passagens por seu país de origem. Isso criou uma espécie de dualidade cultural em sua formação pessoal que se refletiu em uma trajetória musical com mais de 10 anos.

Há quase oito anos radicada em Nova York, Alexia está lançando Suspiro (que saiu no Brasil pela Lab344, ouça aqui), seu quarto álbum, no qual mergulha em uma visão própria da bossa nova, com direito a canções autorais, inéditas de outros compositores e clássicos nada óbvios daquele movimento musical, de autores como Jorge Ben Jor, João Donato e Edu Lobo.

Em entrevista feita por email a MONDO POP, ela conta tudo sobre o novo trabalho e também nos dá uma geral em sua interessante e bastante consistente trajetória como cantora e compositora.

MONDO POP- Suspiro, seu novo álbum, é um trabalho bem diferente do seu álbum anterior, mais voltado para o pop-rock. Este novo tem um espírito bem de bossa moderna. Como surgiu a ideia de fazer um CD com essa sonoridade?
ALEXIA BOMTEMPO
– Eu passei uns meses em Tokyo fazendo uma residência de jazz e tive uma espécie de “reencontro” com a bossa nova. Fiz um mergulho naqueles discos que foram a base da minha formação musical, comecei a compor músicas novas e convivi muito com amigos e fãs japoneses completamente apaixonados por bossa nova. Voltei pra Nova York com a ideia de fazer um album que explorasse esse universo.

MONDO POP – O repertório de Suspiro mescla faixas inéditas e releituras nada óbvias. Que critérios você seguiu para fazer a seleção? Desde o início a ideia era mesclar idiomas (português, francês e inglês)?
ALEXIA BOMTEMPO
– A gente já tinha o conceito do álbum, que era saudar esse movimento samba-bossa-jazz dos anos 60 e 70, mas com um pensamento moderno. Apesar de fazer minhas próprias músicas, sempre gostei de cantar canções de outros compositores. Adoro pesquisar repertório e encontrar pérolas, relembrar músicas que foram lançadas lá atrás com roupagem diferente. Eu, o Jake e o Stéphane fomos trocando ideias e selecionando o repertório de forma colaborativa. Sou naturalmente bilíngue, sempre cantei em inglês e português e com esse álbum não poderia ser diferente. A bossa nova tem ligação forte com a cultura francesa e achamos bacana explorar esse idioma também.

MONDO POP- Como ocorreu a seleção das faixas inéditas? O objetivo era misturar canções de sua autoria com as de outros compositores ou isso acabou ocorrendo naturalmente?
ALEXIA BOMTEMPO
– O objetivo era esse, mas tudo aconteceu naturalmente. Eu já tinha algumas músicas prontas, depois fiz outras com o Jake pensando mais no conceito do álbum. O Stéphane estava passando uns dias no Rio nessa fase de pré-produção do disco e pediu canções inéditas ao Alberto Continentino e ao Domenico Lancellotti – dois compositores que eu adoro.

MONDO POP- A sonoridade do álbum é muito coesa, delicada e elegante, e soa como um trabalho de banda. Essa era a sua ideia inicial? Escolheu os músicos pensando nisso?
ALEXIA BOMTEMPO
– Sim, a ideia era fazer um disco com essa sonoridade de banda. Chamamos o pianista Vitor Gonçalves e o baixista Eduardo Belo (ambos brasileiros radicados em Nova York), que já vinham tocando com o Stéphane num outro projeto de samba-jazz. Foi bacana, porque já existia todo um entrosamento. O Jake, apesar de ter muita experiência com música brasileira, vem de uma formação mais jazz e blues que somou muito pra chegarmos nesse lugar delicado, elegante e internacional.

MONDO POP- Qual a importância dos produtores Jake Owen e Stéphane San Juan na concretização do álbum Suspiro, e como rolou o dueto com Stéphane em Les Chansons D’Amour?
ALEXIA BOMTEMPO
– O Jake e o Stéphane foram fundamentais. Eles são produtores fantásticos, pessoas lindas e profissionais incríveis. Todo o processo de feitura do disco se deu de uma forma muito leve, divertida e colaborativa – desde a escolha do repertório. Achamos que seria interessante ter uma música em francês, pela bossa nova ter um elo tão vivo com a cultura francesa e o Stéphane fez a letra pra música do Alberto Continentino, que resultou em Les Chansons D’Amour. O dueto também é uma referência aos duetos clássicos de bossa nova. A voz grave do Stéphane combinou muito com a minha e acho que a gravação transporta o ouvinte para outra atmosfera. Ah, e o Stéphane é francês!

MONDO POP- Fale um pouco sobre o clima das gravações, se você gravou com os músicos ao mesmo tempo ou naquele esquema de ir criando aos poucos a base instrumental para depois colocar a voz.
ALEXIA BOMTEMPO
– Gravamos no SuperLegal Studio (do Jake e do percussionista Mauro Refosco) que fica no Brooklyn, tudo ao vivo, com os músicos tocando ao mesmo tempo, “como se fazia antigamente” – inclusive a voz. Os arranjos foram feitos na hora, sem muito ensaio. Eu, o Jake e o Stéphane já tínhamos escolhido o repertório e conhecíamos as músicas, mas o Eduardo e o Vitor foram ouvindo as ideias na hora, deixando a criatividade fluir, e contribuíram imensamente na elaboração de cada faixa. Foi muito leve e divertido, gravamos as bases em dois dias e depois convidamos o trompetista Michael Leonhart para participar. Ele é um músico fantástico e apaixonado por bossa nova. Também chamamos o guitarrista Guilherme Monteiro para participar da faixa “Les Chansons D’Amour” e ele fez o arranjo no violão rapidamente, de uma forma muito natural. Eu amei fazer um disco assim, livre (e em pouco tempo).

MONDO POP- Gostaria de que você me lembrasse um pouco de suas origens, sendo filha de um brasileiro e de uma americana e tendo nascido em Washington. Foi criada lá ou aqui? E como foi essa criação em termos musicais, o que seus pais ouviam, o que você ouvia na infância e adolescência?
ALEXIA BOMTEMPO
– Eu fui criada nos Estados Unidos e no Brasil. Minha vida foi meio partida entre os dois países, foram muitas idas e vindas ao longo dos anos. Sempre me senti dividida, e as influências das duas culturas se misturam muito dentro de mim. A minha formação musical também foi assim, misturada. Em casa a gente ouvia os clássicos do Brasil (Caetano, Gil, Djavan, Tom Jobim, Gal, Rita Lee, João Gilberto) e da América do Norte (Bob Dylan, Billie Holiday, Joni Mitchell, Janis Joplin, Leonard Cohen). Meu pai era produtor cultural em Petrópolis, então tive a sorte de crescer na coxia, assistindo de perto os shows dos grandes nomes da música brasileira. Foi uma infância muito estimulante e eu sempre soube que queria fazer parte daquele mundo algum dia.

MONDO POP- Relembre um pouco suas primeiras experiências musicais, e em que momento você decidiu que esse seria o seu projeto profissional, ser uma cantora e compositora.
ALEXIA BOMTEMPO
– Durante a minha infância e pré-adolescência no Brasil, estudei teatro no Tablado. Já gostava de cantar, mas comecei no teatro. Já com 17 anos e morando nos Estados Unidos, entrei para o coral da escola e comecei a me destacar. E então resolvi abraçar a música de vez. Voltei pro Brasil, montei uma banda e toquei na noite durante um tempo. Depois, resolvi estudar canto lírico nos Estados Unidos e fiquei na faculdade por dois anos antes de voltar novamente ao Brasil. Conheci o produtor Sérgio Carvalho, que produziu minha primeira demo e depois me apresentou seu irmão Dadi – que se tornou um grande amigo, um padrinho musical e produziu meu primeiro disco, Astrolábio.

MONDO POP- O que te levou a se mudar para Nova York há quase oito anos?
ALEXIA BOMTEMPO
– Eu estava lançando o meu segundo disco I Just Happen to Be Here com canções em inglês do Caetano Veloso que me abriu algumas portas fora do Brasil. Já vinha passando umas temporadas em Nova York, sempre fui fascinada pela energia da cidade, pelo aspecto internacional da arte feita aqui e estava cultivando colaborações musicais – queria fazer parte disso. Fui convidada para tocar no Brasil Summerfest e resolvi vir com uma passagem só de ida – se a coisa fluísse, eu ficava. E assim fiquei de vez.

MONDO POP- Astrolábio foi o seu álbum de estreia, como você o encara com os olhos e ouvidos de hoje?
ALEXIA BOMTEMPO
– Acho que o Astrolábio (n.da r.: lançado em 2008 pela EMI) é um disco de descobrimento, que representa o meu encontro musical com o Dadi, um retrato da minha vida naquela época. É um disco carioca, “feito à mão”, sem pressa, com amizade e doçura.

MONDO POP- I Just Happen To Be Here foi uma bela ideia, um recorte provavelmente inédito da produção do Caetano Veloso de 1969 a 1972 em inglês em um período conturbado e criativo da vida dele. Fale um pouco sobre esse projeto e como encara a sua repercussão.
ALEXIA BOMTEMPO
– A ideia foi do Felipe Abreu, um dos produtores do disco, junto com o Dé Palmeira. O Felipe foi meu preparador vocal e se tornou um grande amigo e conselheiro. Um dia, durante uma aula, cantei London, London e ele teve a ideia de fazermos um disco com o repertório em inglês do Caetano. O conceito era buscar “despir” as canções da carga política e emocional da época em que foram feitas e trazê-las pra perto de mim, da minha história partida entre dois países, duas culturas, duas línguas. Foi um desafio muito interessante, tenho muito orgulho desse disco. E Caetano gostou da homenagem.

MONDO POP- Suspiro saiu primeiro no Japão, país que tem um público muito grande para a bossa nova. Você já tocou lá, tem bons contatos lá? E como foi a reação do público japonês para este álbum?
ALEXIA BOMTEMPO
– Tenho muito amor pelo Japão. O público me acompanha desde o início, já fiz várias turnês e residências e tenho muitos amigos queridos por lá. A ideia do Suspiro surgiu justamente quando eu estava passando uma temporada no Japão e achei muito significativo o fato de o disco ter sido lançado lá primeiro. Eles adoraram.

MONDO POP- O lançamento de Suspiro será só no formato digital ou teremos versões físicas (CD, vinil etc)?
ALEXIA BOMTEMPO
– Temos o CD nos Estados Unidos e no Japão. A ideia é fazer vinil também, mas agora as fábricas estão paradas por causa da pandemia. Então futuramente, espero que sim.

MONDO POP- Como tem sido para você esse período da quarentena? Muitos artistas tem feito lives, você pensa em fazer algo assim (se é que já não fez…)?
ALEXIA BOMTEMPO
– Tem dias que são melhores do que outros. Eu gosto de ficar em casa e tenho aproveitado o tempo pra descansar, compor, ouvir discos, cozinhar, ler… Mas a sensação de não saber como serão os próximos meses é desconcertante e causa muita ansiedade. Estar lançando um álbum novo nesse período tem sido interessante. Muita gente tem me falado que o disco acalma e traz paz de espírito, que é a trilha sonora ideal para esses tempos difíceis – isso é muito gratificante. Tenho feito lives, sim, mas aos poucos e com cuidado, pois também acho que a internet está ficando saturada de conteúdo superficial. É uma maneira bacana de se manter conectado com o público, mas sinto muita saudade da troca que acontece ao vivo, no palco.

Eles Querem Amar (clipe)- Alexia Bomtempo:

Stevie Wonder celebra 70 anos como um dos gênios da música

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Por Fabian Chacur

A voz de Stevie Wonder entrou na minha vida com a música Yester-Me Yester-You Yesterday, que lá pelos idos de 1969-1970 tocava e muito nas rádios paulistanas. Era faixa de seu álbum My Cherie Amour (1969). A partir dali, fui aos poucos mergulhando no maravilhoso universo musical desse grande cantor, compositor e músico americano, que nesta quarta-feira (13) chegou aos 70 anos de vida, dando-nos de presente uma carreira brilhante e repleta de grandes momentos. Um autêntico gênio no setor musical.

Stevie é um daqueles caras que parecem talhados para o estrelato. Seu talento para a música foi descoberto quando ele ainda era criança. Não enxergar se mostrou um obstáculo que o cara soube superar com uma desenvoltura absolutamente absurda. Tanto que, em 1962, lançou seu primeiro álbum, The Jazz Soul Of Little Stevie, jovem aposta da gravadora Motown, que então começava a despontar no cenário americano.

Após gravar um álbum em homenagem a uma de suas inspirações, Ray Charles (Tribute To Uncle Ray-1962), Stevie surpreendeu a todos ao atingir o topo da parada pop americana com o álbum ao vivo Recorded Live: The 12 Old Genius (1963), sucesso impulsionado pelo galopante single Fingertips, que também ponteou os charts, no setor singles.

Em um período mais ou menos rápido, Wonder foi criando uma personalidade própria, com o apoio do mentor Clarence Paul e do presidente da Motown, Berry Gordy. O crítico e pesquisador musical Zeca Azevedo sempre se queixa do fato de a imprensa musical normalmente deixar um pouco de lado essa fase inicial da carreira do artista, e está repleto de razão, pois temos pencas de momentos bacanas nesses anos de aprendizado.

Não faltam músicas maravilhosas nesse período que vai até 1970. Só para citar algumas, vamos da já comentada Yester-Me Yester-You Yesterday e prosseguir com outras pepitas: I Was Made For Love Her, Uptight (Everything’s Alright), For Once In My Life, My Chérie Amour, Signed Sealed Delivered I’m Yours e Pretty World (versão em inglês de Sá Marina, de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar). Em 1970, Stevie já era um artista repleto de hits e discos bacanas.

Só que em 1971, ao completar 21 anos e atingir a maioridade, ele enfim teve acesso a todo o dinheiro que ganhou naqueles anos todos. Isso lhe deu a independência financeira para experimentar novos rumos musicais, e também para negociar um novo contrato com a Motown Records que lhe desse a liberdade artística que desejava, seguindo os passos do colega de gravadora Marvin Gaye. Gordy rateou, mas acabou dando o braço a torcer.

A parceria com os integrantes do inovador grupo Tonto’s Expanding Head Band, Robert Margouleff and Malcolm Cecil, abriu a ele um universo de novas possibilidade em termos de sons de teclados. Isso veio à tona no álbum Music Of My Mind (1972), que inclui a maravilhosa Superwoman (Where Were You When I Needed You), um de seus clássicos superlativos.

Até o fim dos anos 1970, Stevie Maravilha gravou alguns dos melhores discos de todos os tempos, os maravilhosos Talking Book (1972), Innervisions (1973) e Fulfillingness’ First Finale (1974). Em 1975, não lançou um novo LP, e Paul Simon brincou ao receber seu Grammy de melhor álbum do ano por Still Crazy After All These Years, pois Wonder havia faturado nos dois anos anteriores.

Em 1976, Wonder tirou a diferença com o álbum-duplo Songs In The Key Of Life, que no formato vinil trazia dois LPs e um compacto duplo adicional. O sucesso foi estrondoso, e foi inevitável o cidadão abocanhar mais um Grammy de melhor álbum do ano. Ali, já estava sacramentada a abrangência da música de Wonder, misturando soul, funk, jazz, música africana, latinidades, pop e muito mais.

Nesse período de quatro anos, Stevie Wonder nos proporcionou pérolas sonoras de raríssimo valor do porte de You Are The Sunshine Of My Life, Higher Ground, Superstition, Living For The City, All In Love Is Fair, You Haven’t Done Nothing, Sir Duke, As, I Wish, Boogie On Reggae Woman e muitas outras, entre hits e faixas ótimas “escondidas” nos álbuns.

Em 1979, lançou o ambicioso álbum duplo Stevie Wonder’s Journey Through “The Secret Life of Plants feito inicialmente para trilha de um documentário mas que ganhou vida própria. Se só trouxesse a encantadora e envolvente balada Send One Your Love já valeria o preço, mas tem muito mais, embora não tenha tido o mesmo sucesso comercial de seus trabalhos anteriores.

Hotter Than July (1980) o trouxe com mais força aos charts, trazendo clássicos de seu repertório como o envolvente reggae Master Blaster (Jammin’), uma bela homenagem a Bob Marley, e a fantástica Happy Birthday, tributo ao grande Martin Luther King que virou hino de sua bela campanha para que a data de nascimento desse grande ativista virasse um feriado nacional nos EUA, o que acabou se concretizando.

Em 1982, mais dois itens bacanas em sua trajetória: ele lançou a coletânea dupla Stevie Wonder’s Original Musiquarium I, com 12 hits da fase 1972-1980 e quatro petardos inéditos: That Girl, Do I Do (com participação especial do ícone do jazz Dizzy Gillespie), Front Line e Ribbon In The Sky. De quebra, ainda gravou dois duetos com Paul McCartney incluídos no álbum Tug Of War, do ex-beatle: Ebony And Ivory e What’s That You’re Doing, ambas ótimas.

Até o fim dos anos 1980, lançou os hits Part-Time Lover, Overjoyed e I Just Call To Say I Love You e participou com destaque de We Are The World, do projeto beneficente USA For Africa. Characters (1987) não vendeu tanto, mas traz a energética Skeletons e um dueto com Michael Jackson, Get It.

Após a ótima trilha para o filme Jungle Fever (1991), de Spike Lee, os lançamentos inéditos de Stevie Wonder passaram a ser bem mais esparsos. Na verdade, nos últimos 29 anos, foram só dois novos álbuns de estúdio com faixas inéditas: Conversation Peace (1995) e A Time For Love (2005).

Ele continuou fazendo shows e participando de discos de outros artistas, entre os quais Sting, Luciano Pavarotti, Babyface, Herbie Hancock, The Dixie Humminbirds, Elton John, Gloria Estefan e inúmeros outros. Também lançou um esplêndido DVD gravado ao vivo, Live At Last- A Wonder Summer’s Night (2009), gravado ao vivo na imensa O2 Arena, em Londres com altíssima qualidade técnica e na qual ele dá uma bela geral em seu fantástico songbook se mostrando em plena forma.

O astro vendeu mais de 100 milhões de discos nesses anos todos, além de influenciar inúmeros outros artistas. Ele faturou 25 troféus Grammy e também um Grammy pelo conjunto de sua carreira, além de ser o único a ganhar o laurel de melhor álbum do ano com três lançamentos consecutivos. Seus shows no Brasil em 1971 (gravado pela TV Record e exibido por essa emissora) e em 1995 foram marcantes, com grande repercussão de público e crítica.

Com essa trajetória maravilhosa humildemente resumida aqui, Stevie Wonder nos mostrou como um ser humano pode atingir o ponto alto de seu potencial artístico ao superar limitações e desenvolver com rara habilidade canções capazes de cativar as mais distintas gerações. Gênio!

Yester-me Yester-you Yesterday– Stevie Wonder:

Samba de Rainha lança clipe caseiro de Fé Não é Pequena

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Por Fabian Chacur

Como forma de dar uma espairecida nesses tempos estranhos e ao mesmo tempo inspirar sentimentos positivos nas pessoas, o grupo Samba de Rainha acaba de disponibilizar o clipe com uma gravação inédita. Trata-se de Fé Não é Pequena, composição de Aidée Cristina gravada pelas garotas por via remota. As cenas registram cada uma delas em suas residências, com gravações feitas a partir de celulares.

A música é um sambão contagiante, que a vocalista Núbia Maciel defende com a categoria habitual, muito bem acompanhada por suas atuais parceiras. A letra é bem otimista e traz palavras e expressões muito utilizadas por nós desde o início do isolamento social no Brasil. O Samba de Rainha (leia mais sobre esse grupo incrível aqui) curtiu tanto realizar este clipe que promete novidades por aí.

A ideia é lançar novas canções uma a uma. Teremos faixas autorais e também a releitura de um clássicos dos Novos Baianos cujos direitos autorais estão sendo devidamente acertados. Elas pretendem, futuramente, fazer uma gravação mais elaborada em termos técnicos de Fé Não é Pequena. Como diria outro samba clássico de um certo Martinho da Vila “canta, canta minha gente, deixa a tristeza pra lá, canta forte, canta alto, que a vida vai melhorar”.

Fé Não é Pequena (Aidée Cristina)

Não deixo ser de medo
O meu bom dia
Vou vibrando na alegria
Isso logo vai passar
Compartilhando
Mesmo que seja de longe
Meu tambor e seu canto
Põe amor no mundo
Chama para somar
Canto pra mostrar
Que a minha fé
Não é pequena
Só vejo Luz na janela
Da minha quarentena…
Canto pra mostrar
Que a minha fé
Não é pequena
Só vejo Luz na janela
Da minha quarentena…

Participaram do clipe:
Aidée Cristina – surdo
Erica Japa – rebolo
Karinah Oliveira – violão
Luana Souza – pandeiro
Marina Marques – bateria
Núbia Maciel – voz
Sandra Gamon – percussão
Thais Musachi – cavaco

Fé Não é Pequena (clipe)- Samba de Rainha:

Francis Hime conta histórias sobre suas canções clássicas

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Por Fabian Chacur

Há mais de cinco décadas as canções de Francis Hime embalam os sonhos, romances e as vidas de inúmeros brasileiros. São clássicos que ele compôs ao lado de outros craques da nossa música durante esse tempo todo. Como forma de compartilhar a feitura de algumas dessas pepitas musicais, o artista estreia nesta quarta (13) às 19h uma webserie na qual contará as histórias de algumas delas. O programa tem como título Trocando em Miúdos- As Minhas Canções, o mesmo do livro que lançou há algum tempo.

“A ideia é abordar não apenas a feitura de cada canção, mas também as influências e circunstâncias que as cercam. Serão encontros semanais, onde eu discorrerei sobre uma determinada obra”, explica o artista.

Como não poderia deixar de ser, o primeiro episódio abordará Trocando em Miúdos, grande clássico de seu repertório composto com um de seus parceiros preferenciais, Chico Buarque, e que expressa o fim de uma relação amorosa com rara precisão e sensibilidade.

Os temas de alguns dos próximos episódios, cujas gravações tem como cenário o estúdio situado na casa de Francis, já estão definidos. No dia 20, por exemplo, a canção em foco será Sem Mais Adeus, escrita com o eterno poeta Vinícius de Moraes.E no dia 27, teremos Parceiros, escrita com o grande Bituca de Três Pontas, Milton Nascimento.

“Na sequência, virão canções que fiz com Ruy Guerra, Olivia Hime, Paulo Cesar Pinheiro, Geraldo Carneiro, Cacaso, Gilberto Gil , Thiago Amud, Guinga, Zelia Duncan e muitos outros, já que uma das características do meu trabalho é gostar de compor com muitos parceiros”, adianta Francis.

Suas incursões por trilhas feitas para cinema e teatro e no universo da música erudita ganharão alguns episódios. A webserie Trocando em Miúdos- As Minhas Canções poderá ser conferidas nos canais @francishimeoficial no Instagram e Facebook e nos canais oficiais da Blooks Livraria (@blookslivraria).

Trocando em Miúdos– Francis Hime:

Betty Wright, 66 anos, uma diva sensual e genial da black music

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Por Fabian Chacur

Se eu tiver de listar minhas 10 gravações favoritas de todos os tempos, acho difícil não incluir a versão ao vivo de Tonight’s The Night feita em 1978 por Betty Wright. Por isso, é muito dolorido ter mais uma vez de fazer um obituário sobre uma artista da qual eu gosto muito. A espetacular cantora, compositora e arranjadora vocal americana teve a sua morte anunciada neste domingo (10), de causa ainda não revelada. Com apenas 66 anos de idade, deixa uma obra repleta de clássicos.

Nascida em Miami, Flórida, em 21 de dezembro de 1953, Betty mergulhou no mundo da música ainda criança. Como boa parte dos artistas negros americanos, esse início foi na música gospel, cantando hinos religiosos e canções com essa temática. Em 1966, no entanto, resolveu entrar no cenário da música secular, como os evangélicos chamam a canção não religiosa. Em 1968, lançou seu primeiro álbum, My First Time Around, em um selo que seria a semente da futura T.K. Records, a gravadora mais influente de Miami.

O primeiro hit gravado por Miss Wright não foi qualquer um. Trata-se de Clean Up Woman (ouça aqui), explosiva canção dançante com cunho feminista de Clarence Reid e Willie Clarke que invadiu as paradas de sucesso, atingindo o topo da de r&b e ao 6º posto no chart pop dos EUA.

Era o início de um repertório dos melhores. Com a certeira Where Is The Love (ouça aqui), Betty ganharia um Grammy na categoria melhor canção r&b de 1975 e firmaria seu estilo, com uma voz potente e assertiva que, no entanto, também trazia muita melodia e sensualidade. A música foi escrita por ela em parceria com Willie Clarke e a dupla Harry Wayne Casey e Richard Finch, líderes do célebre grupo KC & The Sunshine Band.

Na mesma época, ela lançou a versão de estúdio de Tonight’s The Night, parceria dela com Willie Clarke. Mas a gravação definitiva desta canção surgiu em seu espetacular álbum Betty Wright Live (1978), na qual o groove da canção é realçado e ela inclui uma introdução na qual explica como se inspirou na sua primeira relação sexual para escrever a letra, e na reação da mãe quando a ouviu. São mais de oito minutos de puro êxtase auditivo. Enchia as pistas da Chic Show e outros bailes blacks aqui em Sampa City!

Sempre generosa, foi ela quem indiciou George McCrae (do hit Rock Your Baby) e sua esposa Gwen para a gravadora de Henry Stone. Ela repetiria a gentileza em 1977 ao ser a madrinha do cantor, compositor e músico Peter Brown na TK Records, além de participar com destaque do hit da disco music Dance With Me.

Naquele mesmo 1978, gravou um dueto com ninguém menos do que Alice Cooper. A faixa é excelente, No Tricks (ouça aqui), e curiosamente foi lançada originalmente apenas como lado B do single How You Gonna See Me Now, só chegando ao formato CD na caixa The Life And Crimes Of Alice Cooper (1999).A música é uma parceria de Cooper com Bernie Taupin (o maior parceiro de Elton John) e do guitarrista Dick Wagner.

Em 1979, outro momento bem bacana: ela fez os shows de abertura da turnê na qual o grande nome da história do reggae, Bob Marley, divulgou o seu então mais recente álbum, Survival. Belo item no currículo!

Com a falência da T.K. Records, Betty Wright resolveu montar o seu próprio selo, Miss B Records, que teve início em 1985. E em 1987 ela lançou um álbum marcante, Mother Wit, que trouxe como destaque um de seus maiores e melhores hits, a deliciosa No Pain (No Gain) (composição só dela, ouça aqui).

Esse álbum rendeu a ela um disco de ouro, e afirma-se que se trata da primeira artista negra a criar seu próprio selo e conseguir essa façanha, motivada pela vendagem de mais de 500 mil cópias naquela época. Em 1988, a cantora veio a São Paulo para um show patrocinado por uma equipe de bailes, com ótima repercussão e direito a entrevista na TV Globo.

Os anos 1990 trouxeram alguns momentos bacanas. Em 1991, por exemplo, Gloria Estefan a convidou para fazer o arranjo vocal da maravilhosa balada Coming Out Of The Dark, que chegou ao número 1 na parada americana e integra o álbum de muito sucesso comercial Into The Light.

Em 1992, o jovem grupo vocal Color Me Badd estourou mundialmente com a sensual I Wanna Sex You Up, da trilha do filme New Jack City e também integrante de seu primeiro álbum, C.M.B. . O problema é que eles fizeram a música totalmente em cima de Tonight’s The Night, de Betty Wright, e não a creditaram. A questão foi resolvida na Justiça, com a cantora ganhando, no fim das contas, uma boa bolada de direitos autorais.

Betty também atuou como vocalista de apoio (backing vocals) para uma incontável lista de artistas. Além dos já citados por aqui, vale elencar mais alguns: Bill Wyman (ex-Rolling Stones), Timmy Thomas, Johnny Nash, Jimmy Cliff, David Byrne, Jon Secada, Erikah Badu, Billie Myers, Gerald Alston, Phylis Hyman e Clarence Clemons (o eterno saxofonista de Bruce Springsteen).

O sucesso de seu trabalho de arranjadora para Gloria Estefan gerou mais convites, e artistas como Jennifer Lopez e Joss Stone se valeram de seus préstimos profissionais nessa área. Ela também participou de programas de TV e gravou em 2011 o álbum Betty Wright:The Movie, em parceria com o ótimo grupo The Roots. Seu álbum mais recente, Living…Love…Lies, saiu em 2014.

No dia 2 de maio, em sua conta no Twitter, a cantora Chaka Khan pediu preces para Betty Wright, sem dar detalhes do que estava ocorrendo com a cantora. E agora, esta notícia péssima. 2020 está pegando pesado com todos nós, especialmente os fãs de boa música. Descanse em paz, querida Betty! E sua Tonight’s The Night continuará sendo minha trilha sonora, até chegar a minha vez de dar adeus, que espero que demore…

Tonight’s The Night (live)– Betty Wright:

Little Richard, 87 anos, um dos grandes gênios do rock and soul

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Por Fabian Chacur

Dos grandes nomes que ajudaram a criar o rock and roll nos anos 1950, Little Richard é certamente aquele que se manteve mais próximo do rhythm and blues original. De certa forma, também ajudou na criação da soul music, pois sua música também veio da fusão do gospel com o r&b. Um gênio supremo, cuja morte aos 87 anos infelizmente nos foi anunciada neste sábado (9) por seu filho, Danny Penniman. A causa ainda não foi revelada, embora especule-se que tenha sido consequência de um câncer.

Richard Wayne Penniman nasceu em Macon, Georgia, em 5 de dezembro de 1932. Sua ligação com a música veio do que ouvia nas igrejas, mas também do r&b. E foi dessa fusão do “sagrado” com o “pecaminoso” que a música de Richard surgiu. Suas primeiras gravações ocorreram entre 1951 e 1954 pelos selos RCA e Peacock, mas não tiveram grande repercussão. A coisa começou a andar quando ele assinou com a Specialty Records.

Na gravadora presidida por Art Rupe, Richard enfim encontrou o local certo para desenvolver o seu trabalho. A coisa deu certo logo de cara, em 1955, com o lançamento do single Tutty Frutty. Seu vozeirão, acompanhado por um piano encapetado (com o perdão da piadinha) o empurrou para os primeiros postos das paradas de sucesso, dando início a uma fase simplesmente irresistível de hits.

Seu produtor nessa fase, Robert Bumps Blackwell (1918-1985) se mostrou decisivo para a concretização desse estouro, sendo inclusive seu parceiro nos megahits Long Tall Sally, Rip It Up, Readdy Teddy e Good Golly Miss Molly. Outros hits de Richard viriam até 1957, como Slippin’ and Slidin’, Lucille e The Girl Can’t Help It (tema do filme de mesmo nome no qual ele aparece).

Nesse período, ele lançou o seu primeiro álbum, Here’s Little Richard (1957), considerado um dos primeiros grandes álbuns da história do rock and roll e presença constante nas listas do que melhor se fez nesse seminal gênero musical. E com uma capa mais do que icônica, vale registrar.

Em outubro de 1957, durante uma turnê que fazia ao lado de Eddie Cochran e Gene Vincent na Austrália, Richard afirma ter tido uma visão que o fez se decidir por abandonar o rock and roll, passando não muito tempo depois a gravar apenas canções gospel e a se dedicar à religião. Para sorte dos rockers, esse período não durou tanto assim, e em 1962 o astro estava de volta às turnês e ao rock and roll.

Nesse mesmo 1962, fez shows na Inglaterra e teve como banda de abertura uns novatos de Liverpool, que se diziam seus fãs incondicionais. Um deles, Paul McCartney, até se aperfeiçoou na sua imitação cantando uma música que o tal grupo, ninguém menos do que os Beatles, gravariam dali a pouco, a incandescente Long Tall Sally. Na banda de Richard, tínhamos um jovem Billy Preston, que depois gravaria com os Beatles no álbum Let It Be (1970).

Nos anos 1960, Little Richard não teve muita sorte em termos de sucesso. Seus novos discos tiveram repercussão bem menor, com raros e pequenos hits como Bama Lama Bama Loo (1964). O que ele mais fez foi regravar, para vários selos e com resultados frequentemente inferiores aos dos registros originais da Specialty, seus maiores sucessos, em estúdio ou ao vivo. Em 1965, teve por um breve período um jovem Jimi Hendrix na sua banda de apoio.

Na década de 1970, com um revival do rock and roll original, viu seus shows começarem a atrair novamente um grande público. A grande novidade desse período ficou por conta de Money Is, espetacular faixa escrita e produzida por Quincy Jones lançada em 1971 na trilha sonora do filme $ (Dollars), que por sinal é boa de ponta a ponta e era usada na sonoplastia da versão original da novela global Selva de Pedra (1973).

Em 1986, Richard mostrou todo o seu poder de fogo em mais uma música gravada para o cinema, Great Gosh A’ Mighty , tema do filme Down And Out In Beverly Hills, estrelado por Bette Midler. Sua gravação do clássico infantil Itsy Bitsy Spider também alguma repercussão. E o filme Twins (1988) trouxe como tema principal a música Twins, que reunia Little Richard e Philip Bailey, do Earth Wind & Fire, em um dueto simplesmente explosivo.

Pouco depois, em 1990, nosso herói surpreendeu a todos a participar de uma faixa do álbum Time’s Up, da banda Living Colour. E não foi uma faixa qualquer: trata-se da pesada e irônica Elvis Is Dead.

Em 1992, Little Richard se apresentou no Brasil no Free Jazz Festival. Um dos shows foi absolutamente histórico, realizado no estádio do Pacaembu e reunindo ele e Chuck Berry (que fizeram apresentações separadas). Richard, acompanhado por uma banda afiada, deu uma aula de rock and roll, e ainda brincou com a plateia presente: “are you happy to see the queeeeeeeeen?” . Quem viu não se esquecerá jamais!

Em 2006, Richard gravou junto com o também lendário Jerry Lee Lewis I Saw Her Standing There, dos Beatles, no álbum Last Man Standing, de Lewis. O último álbum de estúdio de Little Richard saiu em 1992, Little Richard Meets Masayoshi Tanaka, mas ele se manteve fazendo shows até 25 de agosto de 2014, quando se despediu dos palcos.

Money Is– Little Richard e Quincy Jones:

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