Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Marie Fredriksson, do Roxette, a cantora que não gostava de tédio

Por Fabian Chacur

Swedish pop duo Roxette and their June 2001 album, Room Service.

Swedish pop duo Roxette and their June 2001 album, Room Service.

Don’t Bore Us- Get To The Chorus! (não nos entedie, vá direto ao refrão!, em tradução livre) é o título da primeira coletânea de hits do grupo sueco Roxette, lançada em 1995, e serve como uma boa definição da música que este bem-sucedido e talentoso duo fez durante sua carreira. Infelizmente, essa trajetória está encerrada, pois sua vocalista, Marie Fredriksson, nos deixou nesta segunda-feira (9), aos 61 anos, após ter lutado de forma corajosa durante quase 20 anos contra um câncer.

Nascida em 30 de maio de 1958, Marie se formou em música e se envolveu na cena pop musical sueca. Após integrar grupos sem grande repercussão, ela resolveu iniciar uma carreira-solo e teve o apoio de um amigo, o cantor, compositor e guitarrista Per Gessle, integrante da bem-sucedida banda de rock Gyllene Tider. Eles gravavam seus discos em sueco e cresciam em termos locais.

No entanto, o talento dos dois indicava possibilidades de uma carreira internacional, e o primeiro passo foi pegar uma música do guitarrista, vertê-la para o inglês e gravá-la em duo com Marie. O resultado, Neverending Love, foi a semente que gerou o surgimento do duo, batizado de Roxette, cujo primeiro álbum, Pearls Of Passion, saiu em 1986, sem atingir os objetivos desejados.

Sem desanimar, eles prosseguiram investindo no projeto. Nesse meio-tempo, Marie fez uma mudança radical no visual, cortando os longos cabelos e adotando um estiloso corte curtinho que virou sua marca registrada. Em 1988, veio o segundo álbum, Look Sharp!, que parecia se encaminhar para o mesmo destino do anterior. Só que não! O single The Look estourou de forma inesperada nos EUA em 1989, atingindo o número 1 na parada de lá.

Era o início de uma invasão no principal mercado musical mundial, que se espalhou pelos quatro cantos do mundo. Do mesmo álbum, Listen To Your Heart repetiu a performance de The Look, enquanto Dangerous atingiu o segundo posto. Em 1990, como parte da trilha sonora do filme Pretty Woman (Uma Linda Mulher), estrelado por Julia Roberts e Richard Gere, It Must Have Been Love também virou nº 1 nos EUA.

A fórmula azeitada era simples, mas muito bem executada: um misto de rocks com pegada dançante e power ballads compostas por Per e interpretadas com muita personalidade e categoria por Marie. De quebra, os clipes sempre bem elaborados e os shows calorosos e de um profissionalismo impecável, além da simpatia dos dois, tornou o Roxette um fenômeno de vendas e popularidade.

Joyride (1991) manteve os amigos nos charts, com sua festiva faixa-título sendo seu 4º número um no formato single e a balada Fading Like a Flower (Every Time You Leave) chegando ao 2º lugar. Era o auge do Roxette no mercado americano.

A partir daí, o sucesso do duo na terra de Barack Obama teria uma grande redução, mas isso não ocorreria no resto do mundo, onde os dois amigos permaneceram populares e requisitados.

Em 1995, sai a primeira coletânea de hits do grupo, Don’t Bore Us- Get To The Chorus!- Roxette’s Greatest Hits, incluindo 12 hits e quatro inéditas, entre as quais uma que estourou por aqui, a deliciosamente sessentista June Afternoon, com direito a um icônico clipe revivalista.

As coisas começaram a se complicar para o Roxette a partir do lançamento do álbum Room Service (2001). Pouco tempo depois, Marie foi diagnosticada com um tumor cerebral. Mesmo com essa séria dificuldade a ser enfrentada, a cantora não se entregou, lançando em 2004 seu primeiro disco solo em inglês, The Change, e voltando a se dedicar ao Roxette a partir do lançamento do álbum Charm School (2011).

O último álbum do Roxette, Good Karma, saiu em 2016, e nesse mesmo período a cantora anunciou que não faria mais turnês. Ela ainda lançou três singles solo entre 2017 e 2018. Foram oito discos solo (sete deles em sueco) e dez álbuns de estúdio com o Roxette.

Com grande sucesso no Brasil, Marie Fredriksson e Per Gessle fizeram sua primeira turnê por aqui em 1992, e tive a honra de participar da coletiva de imprensa concedida por eles em São Paulo, quando consegui o autógrafo do duo na capa da minha edição em vinil do álbum Joyride e ainda troquei umas palavras adicionais com o Per após a coletiva, na qual ele me falou sobre sua paixão pela marca Rickenbacker de guitarras e pelo som de Tom Petty e Jackson Browne.

O show em São Paulo, realizado no estacionamento do Parque Anhembi, foi simplesmente impecável, com gente pelo ladrão. Em 1995, eles voltaram, e estive de novo na entrevista coletiva. O duo voltou a tocar por aqui em 1999 e 2011, sempre atraindo um público significativo.

A simpática e talentosa guerreira Marie nos deixou de forma prematura, mas fica a certeza de que soube aproveitar bem essa sua passagem por essa coisa chamada vida. C’mon join the joyride!

June Afternoon (clipe)- Roxette:

Camilla Faustino & Trio Guará cantam a bossa nova em Sampa

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Por Fabian Chacur

Em meados dos anos 1990, Marcos Maynard, um dos mais bem-sucedidos executivos da história da indústria fonográfica no Brasil, teve a ideia de fazer um projeto tendo a bossa nova, ritmo que curte desde a sua adolescência, como mote. Os anos se passaram, e quando ele viu um show de Toquinho, ficou encantado com uma cantora que fez uma participação especial. Era Camilla Faustino, que ele logo sentiu ser a protagonista ideal para sua empreitada. O resultado é o DVD Bossa Sempre Nova (Maynard Music, distribuição Radar Records), disponível também nas plataformas digitais.

A jovem intérprete goiana mostra o repertório desse trabalho em show nesta terça (10) às 22h30 em São Paulo no Blue Note São Paulo (avenida Paulista, nº 2.073- 2º andar- fone 0xx11-3179-0050), com ingressos a R$ 70,00. No repertório, as canções do DVD e também outras releituras bacanas, entre as quais Sina (Djavan) e Isn’t She Lovely (Stevie Wonder).

Na verdade, a descoberta de Camilla foi a metade do caminho para a viabilização de Bossa Sempre Bossa. A parte final veio curiosamente uma semana depois, quando Maynard foi apresentado ao Trio Guará, integrado por Flavio Iannuzzi (piano), Noa Stroeter (contrabaixo acústico) e Marcos Magaldi (bateria e percussão). Era a dose adicional de juventude e talento que faltava.

Com direção artística de Maynard (ex-integrante do grupo setentista brasileiro Lee Jackson) e produção de Luiz Carlos Maluly (outro ex-Lee Jackson e produtor de álbuns de RPM e Bruno & Marrone entre muitos outros), Camilla Faustino & Trio Guará interpretaram com muita classe, energia e personalidade clássicos do repertório bossa-novístico, com destaque para O Morro Não Tem Vez, Samba de Verão, Canto de Ossanha/Berimbau e Deixa/Deixa Isso Pra Lá.

O DVD foi gravado ao vivo no estúdio Mosh, em São Paulo, nos dias 3 e 4 de dezembro de 2018 sem a presença de plateia, mas como se fosse um show. O registro em preto e branco dá um tom altamente classudo à apresentação, sendo que Camilla esbanja expressividade, sensualidade e senso de interpretação. O acompanhamento do Trio Guará é preciso, sem arestas a serem aparadas.

Alguém pode até fazer a pergunta que não quer calar: “mas por que mais um projeto dedicado a clássicos da bossa nova?”. E a resposta é simples: por que não? Ainda mais se for feito com a evidente competência e prazer desses quatro jovens músicos, que provavelmente atrairão gente da sua faixa etária para um repertório que merece ser ouvido e reouvido para todo o sempre.

Canto de Ossanha/Berimbau– Camilla Faustino & Trio Guará:

Roberta Campos emplaca sua 20ª música em trilhas de telenovelas

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Por Fabian Chacur

Desde os idos de 1970, uma das melhores formas de ter seu trabalho divulgado para um compositor no Brasil é ter suas obras incluídas em trilhas sonoras de telenovelas. Há vários campeões e campeãs na área, e da nova geração, a líder, ou pelo menos uma delas, é certamente a cantora, compositora e musicista mineira Roberta Campos. Para não deixar dúvidas quanto a esse tema, a moça acaba de emplacar sua 20ª canção para embalar romances e ação de uma trama televisiva.

A canção da vez é Libélula, com letra e melodia de sua autoria e interpretada por ela própria, devidamente escolhida para a nova atração da Record TV, Amor Sem Igual, cuja estreia ocorrerá nesta terça-feira (10) às 20h30, substituindo Topíssima. A faixa integra o álbum Todo Caminho É Sorte (2015), que curiosamente já havia cedido outras quatro canções para esse tipo de produção.

Vivendo momento bem positivo de sua carreira, Roberta Campos atualmente divulga seu mais recente trabalho, o DVD Todo Caminho É Sorte, lançado pela gravadora Deck e que celebra 20 anos de carreira, que já renderam quatro CDs e shows por todo o país. Leia mais sobre Roberta Campos aqui.

Libélula (clipe)- Roberta Campos:

Musical One Night Of Tina chega ao nosso país em maio de 2020

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Por Fabian Chacur

Tina Turner completou 80 anos de idade recentemente (leia texto de Mondo Pop aqui). Longe dos palcos por opção própria, a cantora deixou saudades de suas incríveis performances nos palcos de todo o mundo. Como isso no momento não rola mais, um consolo pode ser ver o espetáculo britânico One Night Of Tina, que chegará ao Brasil em maio de 2020.

One Night Of Tina tem 90 minutos de duração, e durante eles o espectador terá a oportunidade de ouvir hits de todas as fases da carreira da estrela americana, como Nutbush City Limits, River Deep Mountain High, The Best, Private Dancer, We Don’t Need Another Hero e Goldeneye, entre outros, com direito a coreografias e figurinos representando detalhadamente cada período.

A direção do espetáculo ficou a cargo do britânico Gary Lloyd, que em sua carreira já trabalhou com Paul McCartney, Giorgio Moroder, Cliff Richard, Tom Jones e Robin Gibb em shows e clipes, e tem em seu extenso currículo de espetáculos musicais Thriller Live!, homenagem a Michael Jackson que vem sendo exibido nos palcos londrinos e de outros países há mais de dez anos.

A incumbida de representar Tina Turner em cena é a experiente e talentosa cantora e atriz britânica Sharon Ballard, que além de cantar muito bem tem uma certa semelhança com a diva pop. Ela é conhecida por sua participação em musicais teatrais e também como atriz em séries televisivas com Sherlock. Um de seus marcos foi participar de um show com vários artistas importantes no qual fez duetos com Bill Medley (ex-Righteous Brothers) e o saudoso Peabo Bryson (conhecido por seus duetos com Roberta Flack).

Datas da Tour Brasil ONE NIGHT OF TINA

28 de Maio de 2020 São Paulo – Brasil Espaco das Américas

29 de Maio de 2020 Rio de Janeiro – Brasil Vivo Rio

30 de Maio de 2020 Belo Horizonte – Brasil Teatro Palácio das Artes

31 de Maio de 2020 Porto Alegre Teatro Bourbon Country

Veja trechos do show One Night Of Tina:

Fernando Noronha lança filme sobre o blues com evento em SP

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Por Fabian Chacur

O blues possui seguidores fiéis e criativos no Brasil. Um deles é o excelente cantor guitarrista e compositor Fernando Noronha, que inclusive é contratado de um selo americano, pelo qual lançou seu oitavo e mais recente álbum, Time Keeps Rolling. E esta gravadora ianque, a Wordhaus Music, está lançando um documentário estrelado por nosso conterrâneo, Highway 61: de Chicago a Nova Orleans. A exibição do filme ocorrerá em São Paulo em evento nesta quinta-feira (5) às 21h no Bourbon Street Music Club (rua dos Chanés, nº 194- Moema- fone 0xx11-5095-6100), com ingressos custando R$ 45,00.

A noitada promete ser das melhores, pois também incluirá um showcase com artistas da gravadora sediada em Austin, Texas, uma das capitais mundiais do blues. Além de Noronha, que será acompanhado pela Black Soul Brasil, teremos em cena a americana Myla Hardie (que também é a CEO da Wordhaus Music), Anamoli (Argentina), Gustavo Chaise (Brasil) e Pata de Elefante (Brasil).

Highway 61: de Chicago a New Orleans flagra Fernando Noronha fazendo uma viagem pela estrada que também é conhecida como Blues Highway. Através dela e partindo de Chicago, visita locais icônicos da história do blues em cidades como St. Louis, Memphis, Clarksdale, Houston e Nova Orleans, onde encerra a jornada chegando em pleno Mardi Gras, o carnaval à moda norte-americana.

Em sua rica trajetória artística que já ultrapassa os 20 anos de duração, além de ter lançado oito álbuns, Fernando trabalhou com ícones do porte de B.B. King, Chuck Berry e Buddy Guy, entre outros.

O evento no Bourbon Street faz parte da 7ª edição da Semana Internacional da Música de São Paulo (SIM São Paulo), que será realizada de 4 a 8 de dezembro na cidade com direito a painéis, reuniões, encontros, coqueteis e mais de 400 apresentações ao vivo em mais de 45 palcos de SP, tendo como base de operações o adorável Centro Cultural São Paulo.

Veja o trailer de Highway 61 de Chicago a Nova Orleans:

Chico Chico lança versão voz e violão do hit Maria Bethânia

chico chico capa do single

Por Fabian Chacur

O Chicão cresceu, assumiu o nome artístico de Chico Chico e tem mostrado que não nega seu DNA. Para quem não se lembra, ele é filho de dois saudosos nomes da nossa música, a grande Cássia Eller e o também brilhante baixista Tavinho Fialho. Seu mais recente lançamento é uma releitura de Maria Bethânia, clássico do repertório de Caetano Veloso de 1971, com clipe já disponibilizado nas plataformas digitais.

No melhor estilo voz e violão de cordas de aço, Chico Chico imprime à belíssima canção em inglês, lançada em um sublime álbum que Caetano gravou durante seu exílio na Inglaterra e uma espécie de carta musical à sua irmã, uma forte acentuação de blues, com resultado bastante interessante.

A regravação faz parte do projeto Vale a Pena Gravar de Novo, que celebra os 20 anos do selo fonográfico Astronauta e traz releituras de clássicos da nossa música. A idealização, produção e direção artística ficaram a cargo de Leonardo Rivera, com engenharia de áudio de Pedro Garcia. As gravações ocorreram no bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, no estúdio Cantos do Trilho.

Com 26 anos de idade, Chico Chico apareceu com destaque durante o show de sua mãe no Rock In Rio em 2001, durante a incendiária releitura que ela fez de Smells Like Teen Spirit, sugestão do garoto, por sinal. Desde 2015 com o novo nome, ele participou de discos de Ana Cañas e Gastão Villeroy.

Além disso, participou dos grupos 2×0 Vargem Alta, com a qual lançou em 2015 um álbum autointitulado, e mais recentemente do 13.7. Ele voltou ao Rock In Rio em outubro deste ano, no espaço Ford, marcou presença em show ao lado de integrantes das bandas Fresno, NX Zero, Cachorro Grande e Vanguart, cantando músicas como Sujeito de Sorte, de Belchior, e Lithium, do Nirvana.

Maria Bethânia (clipe)- Chico Chico:

Isso É Amor, do Ira!, é relançado em vinil 180 gramas e fita cassete

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Por Fabian Chacur

Uma quantidade significativa dos recentes relançamentos em vinil se concentra em trabalhos já anteriormente lançados nesse formato. Isto É Amor, do Ira!, que a Polysom estará disponibilizando em LP de 180 gramas e também em fita cassete, foge desse perfil, pois saiu em 1999, quando os discos chegavam ao mercado brasileiro exclusivamente em CD, que atualmente vive uma espécie de ostracismo temporário em alguns desses projetos de resgate de grandes álbuns. Uma pena.

Como foi concebido para a duração bem maior de tempo proporcionada pelos compact discs, Isso É Amor contém quase 50 minutos de conteúdo musical. Como forma de viabilizar uma edição em vinil sem prejudicar a qualidade técnica, a Polysom optou por oferecer o LP com 12 faixas, sendo que as duas faixas restantes do formato original aparecem em um compacto simples de vinil que será vendido junto com o “bolachão”.

Isso É Amor flagra o grupo então integrado por Nasi (vocal), Edgard Scandurra (guitarra e vocal), Ricardo Gaspa (baixo) e André Jung (bateria) relendo canções alheias. As faixas que tiveram maior repercussão do CD, na época lançado pela hoje extinta Abril Music, foram Telefone (hit da Gang 90), com participação de Fernanda Takai, e Bebendo Vinho (de Wander Wildner).

Outros momentos bacanas deste trabalho do grupo paulistano são Jorge Maravilha, rock bissexto de Chico Buarque, Teorema (da Legião Urbana de Renato Russo) e Um Girassol da Cor do Seu Cabelo (Lô e Márcio Borges), esta última com participação especial de Samuel Rosa, do Skank. O título do álbum foi extraído do refrão da música Telefone, o maior hit da Gang 90 do saudoso Julio Barroso.

Ouça Isto É Amor em streaming:

Victor Biglione Trio faz um show nesta sexta (29) no Rio de Janeiro

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Por Fabian Chacur

O formato trio é um dos mais desafiadores para os músicos de jazz, blues, rock etc. Nele, os músicos ficam mais expostos, e precisam mostrar muito jogo de cintura para conseguir dar conta da demanda. Isso, no entanto, é sopa para o Victor Biglione Trio, liderado pelo cantor e guitarrista Victor Biglione, um dos grandes nomes do instrumento por aqui. Ele e seus parceiros tocam no Rio de Janeiro nesta sexta (29) às 19h no Centro Cultural dos Correios (rua Visconde de Itaboraí, nº 20- Candelária-RJ- fone 0xx21-2253-1580), com ingressos a R$ 15,00 (meia) e R$ 30,00 (inteira).

Nascido na Argentina e radicado há muito no Brasil, onde se naturalizou, Victor possui um currículo invejável, como os leitores de Mondo Pop tiveram a oportunidade de conferir quando da resenha de seu mais recente álbum, o excelente Classic Rocks From Brazil (leia aqui).

Ao lado desta fera da guitarra, temos dois músicos à altura do desafio de acompanhá-lo. O baixista Jorge Pescara é também diretor musical, professor e autor de livros e uma videoaula didática sobre o instrumento, além de ter tocado e gravado com nomes como Ithamara Koorax, Eumir Deodato e Ney Matogrosso, entre outros. Ele lançou recentemente seu 3º álbum solo, o ótimo Grooves In The Eden, nos formatos CD e digital.

Autodidata, o baterista e percussionista Fábio Cezanne tem 25 anos de estrada, com atuação em diversos grupos. Além de tocar com Biglione desde 2017, ele também participa como percussionista dos corais Popcoro e de Nova Iguaçu, e do grupo progressivo Knight Prog, este último ao lado de Jorge Pescara.

No repertório do show desta sexta (29), teremos quatro clássicos de Jimi Hendrix- Little Wing, Voodoo Child, Foxy Lady e Red House e também maravilhas do naipe de Take Five (Paul Desmond, hit máximo do grupo de Dave Brubeck), Status (Billy Cobham) e Soul Sacrifice (Santana).

Voodoo Child (live)- Victor Biglione Trio:

Humberto Gessinger esbanja personalidade em novo álbum

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Por Fabian Chacur

Participei, em 1986, do que deve ter sido a primeira entrevista coletiva da carreira dos Engenheiros do Hawaii, realizada na denominada “sala de lazer” da gravadora BMG, em São Paulo. O grupo divulgava seu álbum de estreia, Longe Demais das Capitais. Tenho fotos do evento, por sinal. O que mais me chamou a atenção, na época, foi o vocalista e então guitarrista da banda, um certo Humberto Gessinger, citar entre as suas principais influências Pink Floyd e Rush.

Não fazia sentido, se levássemos em conta a sonoridade pop-rock, com elementos de ska, que aquele primeiro trabalho revelava, com os hits Toda Forma de Poder, Sopa de Letrinhas e Longe Demais das Capitais. Estaria ele brincando com os jornalistas, ou mesmo dando a entender de que gostava de uma coisa, mas fazia outra na hora do trabalho? Ficou a dúvida no ar.

Que se encerrou de forma categórica no ano seguinte (1987), com o lançamento de A Revolta dos Dândis, segundo LP do trio que agora trazia Humberto no baixo e vocal, Carlos Maltz ainda na bateria e o jovem veterano Augusto Licks na guitarra, substituindo o baixista Marcelo Pitz. Ali, essas fontes se mostravam de forma cristalina, em uma mistura de rock progressivo, folk e pop-rock ousada e personalizada e temperada por letras inteligentes.

Desde então, muita água passou por debaixo da ponte. Mudaram formatos de se comercializar música, mudaram as gravadoras (muitas acabaram, na verdade), mudaram estilos, mudaram ídolos… Humberto Gessinger, no entanto, manteve-se fiel ao universo musical que escolheu para si, seja como líder dos Engenheiros do Hawaii, integrante do duo Pouca Vogal ou, a partir de 2013, como artista-solo.

Não Vejo a Hora, que a gravadora Deck disponibilizou em CD, LP de vinil, fita cassete e nas plataformas digitais, é o segundo álbum de estúdio completo que Gessinger lança nos últimos seis anos, sucedendo Insular (2013). Nesse meio-tempo, nos ofereceu singles e trabalhos ao vivo bem bacanas, além de shows lotados pelos quatro cantos do país.

Este novo álbum traz onze canções, sendo cinco só dele e seis assinadas com os parceiros Tavares, Felipe Rotta, Nando Peters (duas), Bebeto Alves (um dos monstros sagrados do rock gaúcho) e Duca Leindecker (do grupo Cidadão Quem e parceiro de Humberto no Poca Vogal).

Em oito, atua o power trio integrado por Gessinger (vocal, teclados e baixo), Felipe Rotta (guitarra) e Rafael Bisogno (bateria), e em três, estão em cena Gessinger (viola caipira, violão e voz), Nando Peters (baixo) e Paulinho Goulart (acordeon), com abordagem acústica. Duas formações coesas e certeiras.

Para quem procura novidades escandalosas ou novos rumos sonoros, Não Vejo a Hora pode soar como um “mais do mesmo”, ou “variações sobre um mesmo tema”. E é mesmo, pois o ex-líder dos Engenheiros do Hawaii não abre mão de seus conceitos musicais e poéticos (a tal de “zona de conforto”) neste álbum. E quer saber? Ele está absolutamente certo nessa opção.

Nem sempre mudar de rumo significa algo bom ou positivo em termos artísticos. Aliás, com uma certa frequência, pode gerar frutos nada interessantes, especialmente se a motivação levar em conta objetivos comerciais ou mesmo de tentar agradar a crítica especializada. Convicção e personalidade são elementos muito importantes para quaisquer profissionais, e estão entre os grandes méritos do autor de Infinita Highway.

Atuar dentro de um mesmo universo sonoro não significa, no entanto, necessariamente se repetir de forma tediosa e sem imaginação. Não Vejo a Hora é uma prova disso. Nele, Humberto Gessinger se vale de suas armas habituais com muita inspiração, inteligência e sutileza.

A forma como Gessinger compõe se vale de colagens, bricolagens, citações de outros autores, aproveitamento de elementos poéticos e musicais de obras próprias ou alheias e observações do cotidiano e existenciais. Tem muito parentesco com o estilo de Belchior, que por sinal é citado na deliciosa Estranho Fetiche, prima-irmã de Fetiche Estranho, deste mesmo trabalho.

O cantor, compositor e músico gaúcho demonstra um profundo respeito ao seu público, e isso aparece nas sutilezas que cada faixa nos oferece. Audições repetidas nos levam a observar novos detalhes. Nada parece ser por acaso.

Partiu, por exemplo, que abre o disco, dialoga com Missão, sua faixa de encerramento, nessa perspectiva de seguir em frente, sempre, apesar dos pesares. A vida é assim, e só nos resta encará-la da melhor forma possível.

Um Dia de Cada Vez dá outro toque simples, que é de tentar encarar cada problema no seu tempo, um por vez, sem querer abraçar o mundo com os braços, além de observar que “a cada dia sua agonia, seus prazeres também”.

Bem a Fim, com sua sonoridade acústica, traz como grande sacada os versos “a highway to hell faz a curva e vai pro céu quando a resposta vem do outro lado alguém dizendo que está tudo bem”. Viva as parcerias!

Algum Algoritmo é uma divertida divagação sobre um relacionamento afetivo improvável, que no entanto se firma mesmo assim: “somos muito diferentes, improvável par, algoritmo algum ousaria nos ligar”.

Calma em Estocolmo aborda os turbulentos tempos dos dias atuais, repletos de incertezas que Humberto ressalta bem em versos como “o preço da pressa atropela a tua timeline, atrás do troll elétrico só não cai quem já morreu”.

O clima soturno de vigilância totalitária no melhor estilo 1984, de George Orwell, pontua Olhou Pro Lado, Viu.

As canções acústicas e irmãs Fetiche Estranho e Estranho Fetiche trazem como mote os versos “tudo depende da hora, fruto, semente e flor, mas o sonho de mudar o mundo, ao menos muda o sonhador”. Bem por aí: muitos deixam de sonhar, mas outros tantos pegam o bastão e seguem adiante nessas esperanças utópicas, mas necessárias. E mudam, no fim das contas.

Maioral é a minha favorita do álbum, um belo tapa com luva de pelica na cara de quem se acha o máximo, o dono da cocada preta, ou, enfim, o maioral, com versos sensacionais como “um dinossauro e uma ficha telefônica tem o mesmo tamanho pois agora tanto faz, não faz sentido pensar que é o maioral”.

Outro Nada é mais um biscoito fino sonoro escrito por Humberto em parceria com o genial Bebeto Alves, e outro petardo, prova de que não estranharei se em um futuro próximo os dois gravarem um disco juntos. Missão, da dobradinha Gessinger-Leindecker, fecha a tampa arredondando o conceito inicial.

Em termos sonoros, temos canções melódicas, simples e muito bem concatenadas, interpretadas por um cara que está cantando melhor do que nunca, a caminho de completar 56 anos no dia 24 de dezembro. Sabe valorizar cada palavra e o timbre agradável de sua voz, jogando sempre a favor de cada faixa. Craque, é assim que se define alguém assim?

Não Vejo a Hora é uma profissão de fé no formato álbum, pois suas canções podem perfeitamente ser curtidas individualmente, mas fazem muito mais sentido se ouvidas na sequência que nos é oferecida aqui. Um trabalho sólido de um artista que merece ser levado a sério.

Ouça Não Vejo a Hora em streaming:

Tina Turner, os 80 anos de uma rainha da música pop mundial

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Por Fabian Chacur

É infalível. Toda vez que ouço a bela introdução da música What’s Love Got To Do With It as lágrimas começam a brotar dos meus olhos. Tem a ver com a emotividade que herdei da minha saudosa mãe, mas também pode ser explicado pelo significado dessa incrível canção escrita por Terry Britten e Graham Lyle. Ela marca o momento em que Tina Turner, em 1984, atingiu o primeiro lugar na parada americana de singles e sacramentou uma das mais espetaculares voltas por cima da história da música.

Aos 45 anos de idade na época, essa verdadeira guerreira superava quase dez anos de uma luta intensa para recuperar sua relevância no cenário da música, após sair literalmente sem nada de um turbulento casamento musical e pessoal com o talentoso, mas detestável e truculento Ike Turner, com quem conviveu por quase duas décadas. O que essa mulher sofreu nas mãos desse sujeitinho ultrapassa os limites do humanamente suportável.

Mas Anna Mae Bullock, que neste 26 de novembro de 2019 completa 80 anos de idade, não só suportou como teve a coragem de dar um basta naquela situação. Além do lado pessoal, também tinha a ditadura musical, que o marido barra pesada lhe impunha. Tudo bem, ele foi muito importante para que aquela jovem e ingênua garota de Nutbush, Tennessee, conseguisse aparecer com sucesso no cenário da música, no finalzinho dos anos 1950.

Com shows eletrizantes e gravações valorizadas por sua voz potente, Ike & Tina Turner se tornaram uma das atrações mais empolgantes do circuito da soul music nos anos 1960. No entanto, a partir da segunda metade dos anos 1960, o formato de seus shows e gravações foi ficando mais padronizado, e só mesmo a incrível energia da cantora conseguia atrair as atenções do público.

Percebendo esse potencial imenso e mal utilizado, o genial produtor Phil Spector propôs trabalhar com Tina em um trabalho-solo, que Ike autorizou sem muita convicção. O resultado foi a incrível River Deep Mountain High (1966), uma das grandes gravações protagonizadas por ela. A repercussão abaixo do esperado no mercado americano deu uma arrefecida nessa promissora carreira-solo.

Até 1976, Ike & Tina Turner tiveram bons momentos em termos de shows e discos, mas não é de se estranhar que o maior sucesso desse período tenha sido uma impressionante releitura de Proud Mary, do Creedence Clearwater Revival. Tina queria ter a liberdade de cantar o que quisesse. E essa liberdade veio quando a violência de Ike tomou proporções tamanhas que só restou à artista sair fora, com a roupa do corpo e não muito mais.

Demorou um pouco para conseguir um rumo, mas contou com a ajuda de amigos famosos como os Rolling Stones e Rod Stewart, para quem abriu shows. A entrada em sua vida do empresário Roger Davies, no início de 1980, marcou o momento em que as coisas começaram a se encaminhar de forma positiva. E, em 1984, enfim aquele projeto de megadiva do rock se concretizou. E veio com tudo, para tirar o atraso com juros e correção monetária sonora.

A partir de então, todos sabem o que aconteceu. Novos hits, como Private Dancer, Typical Male, Paradise Is Here e dezenas de outros, milhões de discos vendidos, shows em estádios pelos quatro cantos do mundo (Brasil inclusive, com direito a Pacaembu e Maracanã lotados, em 1988) e as pernas mais elogiadas da cena pop como uma espécie de bônus em meio a tanto talento artístico e musical.

Tina Turner virou um dos exemplos mais fortes do poder da mulher, e de como a violência doméstica em relações afetivas é um câncer que precisa ser combatido de forma veemente. Ela sofreu, mas sobreviveu, e colheu os mais belos frutos. Nada mais merecido. Viva essa maravilhosa Acid Queen! Tudo de bom pra ela, sempre. E que venham novas lágrimas ao ouvir What’s Love Got To Do With It. São lágrimas de felicidade e admiração!

What’s Love Got To Do With It (clipe)- Tina Turner:

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