Mondo Pop

O pop de ontem, hoje, e amanhã...

Author: Flavio Canuto (page 1 of 5)

Caetano Veloso – Cê (Citibank Hall/SP) 11/05

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“Com você eu tenho mesmo de me conformar
eu tenho mesmo de não me conformar
sexo heterodoxo, lapsos de desejo
quando eu vejo o céu desaba sobre nós”

Caetano Veloso, em Deusa Urbana

Há uma diferença enorme entre um grande artista e um grande show. Grandes artistas nem sempre fazem bons shows, enquanto artistas medíocres, com a ajuda da tecnologia, pirotecnia, e de recursos diversos fazem boas apresentações.

Caetano Veloso, 61 anos, precisa apenas de um power trio formado por garotos, e de sua voz, cada vez mais precisa, linda e afinada, para fazer uma apresentação memorável. Na estréia da turnê de seu último álbum, o indie Cê, em São Paulo, ele mostra que é mais do que um ícone de MPB mas sim um camaleão pop que tem a capacidade de se transformar, se adequar a cada tempo, e manter o alto padrão que um artista de seu gabarito exige.

Mesmo diante de uma platéia formada em boa parte por facistas travestidos de neo-liberais pouco familiarizados com o repertório de Cê e ao excesso de decibéis emitidos pela guitarra de Pedro Sá, ele não perdeu o pose em nenhum momento, mesmo tendo que dividir o interesse da platéia com copos de whisky nas mesas.

O show começou com Outro, que também abre “Cê” no CD. A fidelidade da banda à gravação original é exemplar, e Pedro Sá surge como um grande guitarrista ao levar com brilho e competência as canções de rock e também sambas clássicos como Desde que o samba é samba é assim e Sampa. Outro ponto alto do show são as músicas em inglês de Caetano, Nine out of ten, e You don’t know me, que parecem ter sido feitas sob medida para esta banda e turnê.

Nada disso seria tão especial se não tivessemos a voz de Caetano que faz com que as canções fiquem cheias de vida, carregadas de sentimento, raiva (uma marca do introspectivo Cê) no palco. Faltou algo? Não sei, mas poucas vezes tive tanta certeza que estava diante de um grande artista em uma ótima apresentação.

E agora o que sobrou?

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Eu preciso andar um caminho só, vou buscar alguém
que eu nem sei quem sou…”

(Rodrigo Amarante)

Parece que fomos programados para lidar com a perda. Com a morte. Com o fim. Os nossos pais um dia vão nos deixar, os letreiros vão subir e aquele filme delicioso vai chegar ao seu final. É quase que natural que as coisas caminhem desta forma, ou até que elas deixem de caminhar.

Mas não é bem assim quando algo ou alguma pessoa nos deixa de alguma forma, e continua viva, ou que assim pudesse estar. Os álbuns, e agora os onipresentes arquivos de MP3 são algo pra lá de eternos. Ouço o John Lennon no meu Walkman como se ele ainda estivesse vivo, sinto o seu amor a Yoko entrar nos meus ouvidos como se os dois tivessem acabado de se casar, em Gibraltar. No entanto, John foi assassinado. Não temos como mudar isso.

Mas todo carnaval também tem seu fim. A minha última “banda do coração”, que misturava música, poesia, trava-língua, atitude, romantismo, acidez, e até um modo todo estranho de se vestir e agir acaba de “fechar as portas” como se fosse um botequim cujo o dono, cansado do balcão frio e dos bêbados, desistisse do negócio e se aventurasse por outras bandas.

Outras bandas? Imagino que este mesmo rapaz-homem-moleque que agora lamenta o fim da bandinha do coração daqui a pouco estará ouvindo o novo CD (ou MP3) do Marcelo Camelo com participações especiais de Adriana Calcanhoto, Marisa Monte, e Maria Rita. Ah, vou adorar!

Também irei ao show da Orquestra Imperial, do Rodrigo Amarante. Vou continuar me divertindo com suas geniais entrevistas. Coitada da imprensinha! Mas nunca mais verei um show dos Los Hermanos, nunca mais gritarei pelo Pierrot que chora pelo amor da colombina, etc…

Mas será que até lá, serei a mesma pessoa que sou hoje? Só os “discos” são eternos.

KRUA 88.1 FM – Alaska Rock Radio

A Internet é, sem sombra de dúvidas, uma das maiores descobertas do século XX. Hoje é possível ouvir a programação de uma rádio de jazz de New Orleans, depois um rap de Paris, tudo com apenas alguns cliques.

Há anos ouço muitas rádios on-line, mas agora com o avanço das conexões de banda larga, e o aumento na qualidade das transmissões online, está cada vez mais cool ouvir a uma boa música, grandes lançamentos, novidades, e peculiaridades de cada País, no computador.

Uma ótima dica para quem gosta de rock alternativo é a KRUA, de Anchorage. Na verdade, trata-se de uma college radio da Universidade do Alaska, operada pelos próprios alunos que traz o melhor do rock mundial (que você não ouve nas FMs comerciais). O site traz ainda os charts da rádio, fotos das festas e das bandas que se arriscam ao frio de Anchorage.

Não perca o seu tempo, visite http://krua.uaa.alaska.edu/, escolha a transmissão 128kbps e divirta-se!

Os melhores álbuns do ano

Utilizando o formato Gimme Five, escolhi os melhores álbuns do ano. Vamos esperar a lista do Fabian Chacur, e o ano de 2007 que está pra chegar com muitas novidades no cenário musical!

Caetano Veloso

Caetano VelosoColoque Pixies, Los Hermanos e Caetano num mesmo caldeirão. Cê é mais ou menos isso, um disco de separação, a união de jovens talentos com um velho gênio que se mostra muito inspirado mesmo após tantos anos de estrada. Rock, sexo e poesia se misturam no melhor álbum de Caê nos últimos dez anos.

 

Arctic Monkeys
Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not

Letras divertidas, melodias bem construídas e um vocalista pra lá de cool. Pegue tudo isso e terá o melhor álbum do ano, que chegou ao topo das paradas indie de todo o planeta sem precisar dos métodos maquiavélicos (e cada vez mais inúteis) das grandes gravadoras. Um dos melhores álbuns de estréia da história, sem dúvidas.

 

Lenine
MTV Acústico

Muitos criticam o formato manjado dos acústicos. No entanto, alguns artistas conseguem realçar a qualidade de seu trabalho com novos arranjos e a produção da MTV. O injustiçado Lenine comprova aqui que é um dos grandes compositores/intérpretes do País, e não um mala pseudo-cabeça como muitos apregoam por aí.

Leoni
Outro Futuro

leoni.jpgUm violão afinado e belas canções de amor fazem deste um dos mais deliciosos álbuns de 2007. Ao manter a fórmula do CD “Ao Vivo”, Leoni prova que em time que está ganhando não se mexe, inclusive ao apostar novamente nas parcerias que renderam belos frutos neste seu último trabalho.

The Raconteurs
Broken Boy Soldier

The raconteursProjeto solo de Jack White com Brendan Benson, que formam uma espécie de dupla dinâmica, e gravaram um álbum excepecional. Até o diretor cool, Jim Jarmusch, topou dirigir o clipe de Steady as she goes. Ah, também recomendo uma vista ao site deles!

 

A “morte” do videoclipe

mtv.jpgEm sua primeira transmissão inaugural no País, a MTV transmitiu o videoclipe de uma versão modernosa de Garota de Ipanema, gravada por Marina Lima. Naquele tempo, os videoclipes nacionais tinham uma qualidade duvidosa, produção pobre, coisa que mudou muito com o advento da MTV brasileira, que se lançava como um “canal de clipes”.

Pois bem, agora a mesma MTV (chamada por Caetano de eme te vê), decreta a morte do videoclipe em sua programação, alegando que a Internet é o local mais apropriado para músicas. A grande rede mundial está matando as grandes gravadoras e seus velhos métodos ortodoxos, isso é fato, mas podemos dizer o mesmo para os clipes?

Não creio. A programação dos canais a cabo estão recheados de videoclipes, sem falar nos canais dedicados a música, muitos deles são de propriedade da própria Viacom (que controla a MTV nos EUA). Na rede aberta, canais como o Play TV e a Mix TV, que dedicam boa parte de sua grade aos clipes dão um baile de audiência na MTV Brasil, e pretendem aumentar o espaço dos musicais.

E o outrora imperdível VMB? Creio que ele possa sair da UTI, sendo organizado por outra emissora, com outro nome e formato (sua audiência e repercussão sempre foram respeitáveis). Ah, mas esta emissora que deve ser realmente comprometida com a música, não apenas no nome, como é o caso da Music Television Brasil.

The Beatles – Love (EMI)

love.jpgPode o disco novo de uma banda extinta há 36 anos ser o melhor do ano? Quer saber? Pode, sim! Principalmente se o grupo em questão for o melhor de todos os tempos, imbatível por natureza, e atual por vocação. Lógico que só posso estar teclando sobre John, Paul, George e Ringo, eles, os eternos garotos de Liverpool. Ladies And Gentlemen, The Beatles! Love , a trilha criada por George Martin e seu filho Gilles para espetáculo do grupo teatral/circense Cirque Du Soleil, é um trabalho de mestre, digno do Fab Four.

O conceito de Love é simples: os Martins poderiam aproveitar quaisquer elementos que quisessem das gravações originais dos Beatles para criar a trilha para o espetáculo, que se originou da amizade entre George Harrison e Guy Laliberté, este último um dos fundadores do Cirque Du Soleil. Após pesquisar durante um tempo, Gilles aproveitou a marcante levada de bateria de Tomorrow Never Knows em cima da melodia de Within’ You Without You . O resultado ficou tão bom que o resto da trilha surgiu dessa forma. São 26 faixas excepcionais, até as mais simples, como I Want To Hold Your Hand em versão de estúdio com a gritaria dos fãs ao fundo, ou Come Together apenas com o final de Cry Baby Cry acoplado.

Alguns momentos são difíceis de serem descritos, tipo a combinação de Drive My Car , The Word e What You’re Doing , com o solo de Taxman no meio. A emoção come solta com o início de Octopus’s Garden lento, misturado às cordas de Good Night . Because aparece só com os vocais, enquanto Gnik Nus é na verdade Sun King , tocada ao contrário. Um CD psicodélico, viajante, vibrante, que cresce a cada nova audição. E quer saber? Chega de comentar! Você tem é de ouvir esse disco agora mesmo, Enquanto isso, tem neguinho perdendo tempo com os CSS da vida. Alala, alala, alala! Tô fora!
Videoclipe de Free as a Bird :
http://www.youtube.com/watch?v=2UmklsO-hMA
The One After 909 ao vivo no filme Let It Be :
http://www.youtube.com/watch?v=-o9NSjVEfis
Beatles improvisando nas gravações do filme Let It Be :
http://www.youtube.com/watch?v=k60R4pTgxRU&mode=related&search=

Smashing Pumpkins – Mellow Collie and the Infinite Sadness

corgan.jpg“The World is a vampire” cantava Billy Corgan no início do impressionante videoclipe de “Bullet with butterfly wings”. Esta era a palavra chave de um dos mais controversos álbuns duplos da história do rock. Por que? A resposta é simples. Ao mesmo tempo que encontramos letras soturnas e pesadas como as de Zero e Fuck You (An Ode to no one), temos doses cavalares de romantismo e nostalgia em canções como Love e 1979.

Talvez esta seja a maior virtude de Mr.Corgan. Misturar peso, romantismo e melancolia em belas canções é algo que ele consegue fazer com maestria, seja com excelentes composições, na guitarra que pode ser tão pesada quanto James Hetfield, ou na voz que pode ser doce numa faixa, ou rasgar os alto falantes noutra.

Discos duplos, com raras exceções, são frutos do excesso de preciosismo dos artistas que acabam colocando músicas demais, com qualidade de menos num mesmo álbum. Mellow Collie TINHA que ser um disco duplo, foi lançado talvez na fase mais produtiva do compositor Corgan, e até do guitarrista James Iha, que compõe uma das faixas.

 1979, Bullet with…, Tonight Tonight são os grandes sucessos do álbum, mas outras pérolas como ZERO, Thirty Three, e Cupid De Locke, também poderiam fazer parte de qualquer chart. O encarte é um espetáculo a parte, mesmo se tratando de um CD (seu visual é o mesmo daquele do clipe de “Tonight Tonight”).

Talvez complexo demais, por vezes épico, o Smashing Pumpkins chegou muito além do que se poderia imaginar com este álbum difícil, graças ao carisma e ao talento de Billy Corgan, um dos poucos em 93, que não cometia o erro de imitar Kurt Cobain.

Os Estados Unidos vs. John Lennon

us_lennon.jpgCertas histórias não podem ser esquecidas, esta é uma delas. Por que o governo Nixon queria expulsar um dos maiores compositores da história da música? Além de ser um ídolo pop, John era um líder mundial, um idealista capaz de influenciar boa parte da sociedade norte-americana que acabou se tornando uma ameaça aos interesses do País no Vietnã.

É justamente sobre esta história, que envolveu a Casa Branca, o FBI (e a mente doentia de seu chefe J. Edgar Hoover), e as autoridades de Imigração, que o documentário se baseia. Com uma narrativa ágil, depoimentos de vários elementos chaves no caso, inclusive integrantes do governo Nixon, o filme é uma ótima pedida para qualquer um com o mínimo de massa crítica (repare que alguns discursos de Richard Nixon sobre a guerra do Vietnã são quase idênticos aos de George W. Bush sobre a invasão do Iraque).

Claro que qualquer filme sobre John Winston Lennon tem uma trilha sonora privilegiada, este aqui não é uma exceção. Desde as politizadas Nobody told me, John Sinclair, I don’t want to be a soldier Mama, Working Class Hero, até as pessoais God, Imagine, Love, Scared…o álbum é perfeito, cobrindo várias fases da carreira solo de Lennon. Frases extraídas do documentário aparecem entre as canções do álbum, que tem como grande surpresa uma versão instrumental (e sem sentido) de How do you sleep?

Sente falta de atitude na música? Assista Os Estados Unidos vs. John Lennon, e suspire. Viva Lennon!

U2 – 18Singles (Universal)

u2.jpgOK, 90% dos fãs de rock/pop são adoradores da banda mais famosa que já surgiu na Irlanda. Bono Vox é uma dos maiores front man da história, um dos principais líderes mundiais, e The Edge é um dos guitarristas mais cool que já vi. Isso não se discute.

Ah, claro…com raríssimas exceções, o repertório da banda é irrepreensível. Ótimas baladas, rocks “eletrônicos”, letras politizadas, etc…Mas nada, NADA nesse mundo justifica o aparecimento de mais uma coletânea do U2. Até eu, que não passei dias na porta do Morumbi, nem estive no calvário pelos ingressos no Pão de Açucar, tenho praticamente todas as 18 (que acabam sendo 28 se contarmos o ótimo DVD gravado na Itália) músicas que compõe o álbum.

Talvez as festas de final de ano, ou o sofrível ano das majors seja uma desculpa? Talvez. Aliás, outro grande lançamento de verão (no hemisfério norte) é a coletânea Stop the Clocks, do Oasis. O mais interessante neste caso foi o comentário de Noel Gallenger sobre o CD: “Qualquer garoto já tem um The Best of Oasis em seu iPod”.

Nem tudo está perdido. The Saints are coming, que conta com a participação dos “punks” californianos do Green Day é uma ótima surpresa, e mostra toda a versatilidade e competência dos irlandeses. Algo mais? Apenas mais do mesmo…One, Desire, New Year’s Day, Vertigo, e por aí vai. Será mesmo que o seu “amigo secreto” não tem essas canções em casa?

Fausto Fawcett

fausto.jpgNinguém cantou mais o bairro de Copacabana do que o jornalista, autor teatral e compositor Fausto Fawcett. Gravou três álbuns, escreveu alguns livros, e permanece no underground embora seja venerado por artistas como Samuel Rosa, Herbert Vianna, Lobão, entre outros.

Seu primeiro álbum, Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros, chegou ao mainstream graças ao hit Kátia Flávia, que contava a história de uma loira que, montada num cavalo branco, andava pelas noites cariocas. A canção, um dos primeiros raps nacionais a atingir o topo das paradas, é um das composições mais simples de Fausto que costumava parafrasear grandes nomes da música pop em suas músicas.

O fato é que o grande público dificilmente conseguiria digerir o grande número de citações, referências, alusões, personagens do submundo que fazem parte das canções (ou contos) de Fausto Fawcett. Seu segundo álbum, a fantástica ópera-pornô-futurista O Império dos sentidos, não obteve o mesmo sucesso comercial, mas é igualmente imperdível com canções como a fantástica Silvia Pfiffer  (confira a letra),que mostram uma Copacabana futurista à la Blade Runner.

Quem o vê tomando um chopp no Cervantes pode chamá-lo de louco, quem o viu no palco de Básico Instinto, cercado de loiras esculturais, chamou-o de imoral. Nada disso, ou tudo isso ao mesmo tempo, isso é Fausto Fawcett, sempre à frente de seu tempo, para sempre mal compreendido.

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